O horário de almoço é necessário. Sim, os seres humanos precisam de alimento com uma freqüência considerável, e é próprio de nossa cultura ter o chamado "horário de almoço" compondo as rotinas diárias. Mas vai além. Alimenta-se também a alma. Estão ali todos os ingredientes: reune-se um grande número de pessoas que não necessariamente trabalham nas mesmas atividades. Tem-se um favorecimento à discontração.
Logo as pessoas começam a falar qualquer besteira e a rir. Há coisa melhor que isso? Um monte de gente junta, falando besteira e rindo? Tá, admito. Se fosse por pessoas como eu, talvez a humanidade não tivesse evoluído. Ainda estaríamos todos nas savanas. Mas juntos e rindo. Pior é que não me parece mal negócio...
segunda-feira, 30 de maio de 2011
domingo, 29 de maio de 2011
Manhã de domingo
A manhã de domingo é qualquer coisa lá fora.
Aqui dentro tudo se alterna entre uma segunda que acorda e uma sexta que hiberta.
O que é que há de tão hiptnótico sobre o futuro, afinal? Mania besta de nos distrair do presente.
Somos assim em tudo: pelo imaginário somos capaz de esquecer o real.
Aqui dentro tudo se alterna entre uma segunda que acorda e uma sexta que hiberta.
O que é que há de tão hiptnótico sobre o futuro, afinal? Mania besta de nos distrair do presente.
Somos assim em tudo: pelo imaginário somos capaz de esquecer o real.
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sábado, 28 de maio de 2011
Política
Leio um colunista declaradamente direitista extremo, mas ele em geral tem um texto bom e faz boas observações. Parece, acima de tudo, sóbrio. Mas de repente de excede. O mesmo com aquele esquerdista que era tão prazeroso de ler. O que acontece? A resposta vem sugerida nessas linhas de um saudoso historiador:
"uma amiga conta a outra sobre o homem que conheceu, e imediatamente é questionada: 'ele é alto ou baixo?' As chances são altíssimas a favor de que ele não seja nem baixo nem alto. Na média, ele terá uma altura mediana. Mas nos interessa mais esse contraste dos extremos. Nossa mente tem essa teimosa tendência de pender as classificações para os extremos."
É por isso que um belo dia um comentarista muito ponderado vai olhar um novo fato político e vai declarar que é interesse financeiro da classe elevada, ou que é manobra dos petralhas esquerdistas, ou que é manutenção do status de dominância de sei lá quem. Quando a realidade costuma ser muito menos cinematográfica que essas conspirações faraônicas. Na média, a realidade é medíocre.
"uma amiga conta a outra sobre o homem que conheceu, e imediatamente é questionada: 'ele é alto ou baixo?' As chances são altíssimas a favor de que ele não seja nem baixo nem alto. Na média, ele terá uma altura mediana. Mas nos interessa mais esse contraste dos extremos. Nossa mente tem essa teimosa tendência de pender as classificações para os extremos."
É por isso que um belo dia um comentarista muito ponderado vai olhar um novo fato político e vai declarar que é interesse financeiro da classe elevada, ou que é manobra dos petralhas esquerdistas, ou que é manutenção do status de dominância de sei lá quem. Quando a realidade costuma ser muito menos cinematográfica que essas conspirações faraônicas. Na média, a realidade é medíocre.
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sexta-feira, 27 de maio de 2011
Importantíssimo

E eu aqui, olha só que coisa, querendo encontrar algo de interessante para centrar minhas atenções e consumir meus tempos. Que bobeira, que bobeira! Ser interessante não é uma propriedade das coisas; é um julgamento nosso. Cabe a nós, no fundo de nossa solidão bem ou mal resolvida, tornar algo interessante ou não. É nossa arte no mundo. Facilita muito a busca saber que procurar lá fora não resolve, não é?
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quinta-feira, 26 de maio de 2011
Num velho diário de dez anos atrás

A Suzi está deitada num travesseiro lá embaixo, perto da minha cama. Estava até agora pouco acompanhando minha concentração no livro "Na Prática a Teoria é Outra", do Joelmir Beting, e agora está um pouco revoltada porque eu a abandonei sozinha lá embaixo e vim aqui escrever. mas ela está cansada demais para subir as escadas e vir ver o que eu estou fazendo. Além do mais, ela está entretida com o som de Dvorák. Tem bom gosto a Suzi...
Estive nestes dias perdido em vários pensamentos sobre meu relacionamento com as pessoas, minhas expectativas com o mundo, minhas exigências e, talvez principalmente, minhas concessões... E a Suzi lá, quietinha, ouvindo Dvorák e esperando que eu apareça para fazer companhia. Talvez seja ela quem me deixa mal acostumado. Fico esperando conhecer alguma pessoa de quem possa ter o mesmo tipo de admiração que a Suzi tem por mim, e a quem possa ser tão inofensivo o meu desprender de uma dedicação e atenção desmedidas. Gosto da Suzi.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Barriga
Moravam juntos. Ambos tinham seus filhos já de vida feita. Dividiriam a vida felizes. Ela engravidou.
- Foi de propósito!
- Não, não foi! Acho que meu anti-depressivo interferiu no anti-concepcional...
Brigaram. Ele a colocou para fora de casa. "Pago a pensão, faço tudo direito. Até crio a criança se ela quiser, só não quero que ela encha mais o saco!"
Perpetua-se a humanidade.
- Foi de propósito!
- Não, não foi! Acho que meu anti-depressivo interferiu no anti-concepcional...
Brigaram. Ele a colocou para fora de casa. "Pago a pensão, faço tudo direito. Até crio a criança se ela quiser, só não quero que ela encha mais o saco!"
Perpetua-se a humanidade.
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sábado, 21 de maio de 2011
Conflitos
Alguém disse sei lá por quais quandos e ondes, que somos mais propensos a ajudar aqueles que não precisam de nossa ajuda. Essa verdade fere nosso ego, desperta mesmo uma certa ira lá no introvertido como não podia deixar de ser: assim faz a maioria das verdades, afinal! Li também noutros cantos, sobre os vendáveis segredos óbvios da escrita:
"a simples descrição de um personagem não gera interesse, apenas auxilia na criação de uma imagem pessoal. O que realmente desperta interesse ao leitor é o conflito, pois é o conflito que revela a verdadeira natureza de cada personagem. Como cada um reage ao conflito, é isso o que o define!"
Há uma mesma verdade unindo estas duas observações. Ou, alternativamente, essas duas verdades concorrem para definir as verdades em torno de um conflito, num relacionamento. Quando uma pessoa faz da fraqueza sua estratégia de desarmamento num conflito é natural que, ao longo do tempo, desperte no outro nada além da repulsa. Não, não soa bonito, mas é verdade: saber brigar, saber xingar, saber ofender... Essas coisas devem encontrar sua dose na composição da personalidade.
"a simples descrição de um personagem não gera interesse, apenas auxilia na criação de uma imagem pessoal. O que realmente desperta interesse ao leitor é o conflito, pois é o conflito que revela a verdadeira natureza de cada personagem. Como cada um reage ao conflito, é isso o que o define!"
Há uma mesma verdade unindo estas duas observações. Ou, alternativamente, essas duas verdades concorrem para definir as verdades em torno de um conflito, num relacionamento. Quando uma pessoa faz da fraqueza sua estratégia de desarmamento num conflito é natural que, ao longo do tempo, desperte no outro nada além da repulsa. Não, não soa bonito, mas é verdade: saber brigar, saber xingar, saber ofender... Essas coisas devem encontrar sua dose na composição da personalidade.
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sexta-feira, 20 de maio de 2011
O livro...
Tão discutindo aí essa coisa de falar certo ou errado...
O novu livro de português vai aqui, numa amostra:> Amostra do Capítulo 1 do livro "Por uma vida melhor".
Eu só num intendo o seguinte... comu é que tantu letrado manjando tantu consegue discutir tantu e opinar tantu sem se dar primeiro ao trabalho de ler o livro! Ficam discutindu nu abstrato, sem ver do que si trata...
O novu livro de português vai aqui, numa amostra:> Amostra do Capítulo 1 do livro "Por uma vida melhor".
Eu só num intendo o seguinte... comu é que tantu letrado manjando tantu consegue discutir tantu e opinar tantu sem se dar primeiro ao trabalho de ler o livro! Ficam discutindu nu abstrato, sem ver do que si trata...
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Indignações profissionais

Na mesa ao lado está o Zé, técnico em eletrônica, a desabafar:
- Já levei meu carro várias vezes lá, troquei tudo, agora vai passar na inspeção... Os índices de emissão na marcha lenta tavam altos, troquei tudo tudo tudo. Carro véio é uma bosta. Mas pior que carro véio, mesmo, é mulher velha. A minha agora deu pra reclamar que gastei demais com o carro e que deveria ter procurado um lugar mais barato. Eu devia ter é arrumado uma mulher que reclamasse menos e ajudasse mais!
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segunda-feira, 16 de maio de 2011
Travesseiro
Ele acorda no meio da noite revirado da asia. Estômago lhe apertando o ventre sobre si mesmo. Anda até a cozinha chutando pedaços duros da escuridão. Escada, cadeira, mesa, pia, armário, um copo... Um copo com água. Mistura com aspirina, com segredos, com confissões e com imaginações. Toma tudo de uma vez. Um gole só. Ele volta pra cama. Dorme visões de vidas sem conflitos. E no sonho ele caminha por uma rua larga. Calçada cheia de gente. Pequena multidão. No meio da multidão, dá de frente consigo mesmo, um clone de si vindo na direção oposta. Olham-se nos olhos. Desviam-se. Seguem em direções opostas. E nunca saem dali.
terça-feira, 3 de maio de 2011
sábado, 30 de abril de 2011
Anhangabaú

Aquele espaço todo vazio no meio, calçadão e gramados, e aquelas duas muralhas de prédios dispostos ao lado... Ah, aquilo é a coisa mais linda! Não fosse pelos mendigos espalhados por todos os cantos, as putas empoleiradas às portas de quartos podres e escondidos, que lugar lindo, que lugar lindo! Não fosse pela pobreza que suja tudo de um jeito mais impregnado que a poeira fina da fumaça que essa metrópole faz e refaz todos os dias... Não fosse pelo cheiro de mijo que adensa no ar e invade as narinas pesando no olfato como um paralelepípedo mal cortado pesaria ao tato, que lugar lindo, que lugar lindo... O Teatro Municipal, as belas pontes antigas que cortam o centro. Não fosse a carcaça de cachorro morto jogada assim tão à vista de quem seja a passar, que lugar lindo!
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sábado, 23 de abril de 2011
Princesa Isabel
- Ô motorista, vai descê, vai descê!!!
Não era um passageiro gritando, era a cobradora! Magrinha, séria, cansada e revoltada. Seu uniforme de camisa azul e calça azul marinho. E seu olhar sério, sem saber como se desculpar com os passageiros. O ônibus lotado, não havia espaço para nada. Ofereceram-se para segurar minha mochila, já que eu ia em pé com ela pendurada ao braço. Mas não havia espaço para a complicada manobra de tirá-la do meu braço e transferí-la à gentil senhora.
Não bastasse o ônibus lotado, o calor e o excesso de pessoas amontoadas, aquele motorista dirigia como se para torturar um por um dos que estavam ali dentro, como se para maximizar os trancos de cada um dos infinitos buracos das ruas. Como se para lembrar que estávamos em uma carroça, que éramos um rebanho e só. Um rebanho mal tratado, desprezado, cuspido pelo descaso dos altos escalões.
O que se passava com o motorista? Problemas em família? Com sua vida amorosa? Tristeza com a vida? Revolta? Ou indiferença pura e simples? No conforto do assento do motorista talvez dirigir assim fosse muito mais emocionante do que esgueirar-se lentamente pelos entraves dos asfaltos e esquinas.
E as pessoas todas ali, desconhecidas, grudadas, acotovelando-se sem poder impedir. Cheirando-se sem poder evitar. E quietas, torcendo pra acabar logo. Fingindo que é a última vez.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Lábios
Nos olhávamos pensando vez ou outra em como seria bom, mas sabíamos de todas as culpas que nos apertavam pelo pescoço, que nos ameaçavam com rifles. As culpas não são nada simpáticas, não entendem nada dessas coisas de momento. Decidimos ignorar a culpa. Eu queria tirar aquela blusa branca, beijar aqueles seios, mas não havia tempo para tanto... era rápido. Nossos corpos precisavam se sentir pesados um contra o outro. Nossos lábios precisavam tentar se fundir. E depois nada teria acontecido. Depois nos entregaríamos impunes ao prazer infinito de sonhar com impossíveis repetições desse crime irresistível.
sábado, 16 de abril de 2011
Todo o universo

As calças ficaram jogadas no pé da cama. A camisa sei lá onde foi parar. Liguei o computador e procurei meu fone de ouvido submerso em bagunças tão impossíveis quanto inevitáveis. O som de um violão bem dedilhado e uma voz que percorre de graves a agudos em uma empostação firme, e eu nem sei se a palavra existe, mas é isso que minha professora de canto sempre dizia. Empostação. A firmeza da voz. Atitude, confiança. Está tudo lá, codificado nos sons. Meus ouvidos vão se enchendo deste leite da alma, é isso que a música é: leite para a alma, o concentrado dos nutrientes necessários para sentimentos bons.
Um coro. Bateria, ritmo. Cadências. Dinâmica... os sons se aquietam, são os músicos todos esperando para me ouvir um pouco também. É a orquestra toda esperando para que eu me escute, perceba em meus vazios de dentro os ecos da vida. E depois volta a altura dos sons todos. Não sei porque é tão bom assim ouvir música jogado num canto de um quarto escuro. Como se não houvesse nada mais no universo e de repente isso tudo é o universo. É uma espécie de loucura, essa força de esquecer o resto do mundo? Ou é a salvação da sensatez esse momento de lembrar com tanto ímpeto dos movimentos de que minha alma é capaz? Um pouco dos dois, por fim. A verdade da vida é insuportável demais para as mentes que são apenas sãs.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Trabalho pela frente
Há algo na liberdade de escrever que é intimamente conectado à liberdade da vida, de modo mais amplo, mais geral. Esse algo anda perdido, não sei bem aonde foi parar. Talvez eu tenha deixado em algum canto bagunçado no meu quarto. Há, ultimamente, muitos cantos bagunçados no meu quarto. Talvez tenha sido a rotina, com sua previsibilidade nunca inspirada e totalmente não inspiradora, que derreteu meus pensamentos até o ponto em que só se sente fácil pensar o que já foi pensado antes. Pensamentos novos andam proibidos. Vai que não agradam. Já pensou, ter pensamentos que não agradam? Sai de mim!
Estive lendo minhas páginas velhas, empoeiradas. Senti uma saudade dos dias passados. Um ano, dois anos atrás. Algo em mim estava melhor do que está agora. Não sei dizer bem o que é mas desconfio que o leitor saberá do que estou falando. Mudamos, sempre mudamos. Há momentos na vida em que sentimos um profundo orgulho de nosso momento presente. Há outros momentos em que o presente parece nos engolir. Aí olhamos para o passado e vem esse saudosismo entorpecente. Olhamos para o futuro e fica fácil, bem fácil, se perder em sonhos e imaginações bem diversos.
Eu vou me afogar em clichês, não tem jeito: o momento é de desafios, de aprendizado, demanda serenidade, preciso de confiança em mim mesmo.
Blá.
O discurso chega a ser tão chato que a tentação recai mesmo para soluções menos ortodoxas: deixa rolar, vamos ver no que dá. Hora de arrumar outras distrações para que essas esferas da vida que tanto perturbam se desgastem pela falta de atenção e aí de repente os problemas mudam de figura.
Do que diabos eu estou falando?
Eu sei lá! Emprego, vida amorosa, carreira, família.
São sempre os mesmos temas de sempre.
Que ser humano, na face deste redondinho pedregulho flutuante, teve já a competência de arrumar um tema genuinamente diferente? Religião? O futuro da humanidade? Um impasse cinetífico?
Sei lá, no fundo não somos tão criativos assim.
O que é bom. É nossa pieguice que cria gênios. Li o Caim, de Saramago. E li críticas diversas de religiosos e outros nem tantos. Muita gente gostou, claro. E muitas muitas outras odiaram. De repente Saramago narra uma cena de êxtase sexual. E um pessoal fica abismado, horrorizado. Acha um jeito de criticar: a narrativa não foi literária como seria cabível a um autor-nobel. O conhecimento bíblico do Saramago é pífio e amadoresco.
Pieguice que estabelece padrões e se amarra a eles.
Talvez um dia eu vire escritor ou qualquer coisa parecida. Mas que Alá me proteja, que os céus conspirem, que Deus me acuda... e que não me deixem, de jeito nenhum, virar uma espécie de crítico mal-almado.
Há aqui na minha escrivaninha um formulário com exatas quarenta e sete linhas. Preciso preencher o formulário. Doze linhas já estão preenchidas. São quase três da tarde. Vou até o banco, há uma conta por pagar. Fatura do telefone. Pagar por internet? Nem morto! Quem confia nessa tal de internet? Até eu escrevo o que quiser na internet, não dá pra confiar.
Falta um tipo de liberdade no meu momento presente e preciso sair para procurar. Depois de pagar as contas, quem sabe?
Estive lendo minhas páginas velhas, empoeiradas. Senti uma saudade dos dias passados. Um ano, dois anos atrás. Algo em mim estava melhor do que está agora. Não sei dizer bem o que é mas desconfio que o leitor saberá do que estou falando. Mudamos, sempre mudamos. Há momentos na vida em que sentimos um profundo orgulho de nosso momento presente. Há outros momentos em que o presente parece nos engolir. Aí olhamos para o passado e vem esse saudosismo entorpecente. Olhamos para o futuro e fica fácil, bem fácil, se perder em sonhos e imaginações bem diversos.
Eu vou me afogar em clichês, não tem jeito: o momento é de desafios, de aprendizado, demanda serenidade, preciso de confiança em mim mesmo.
Blá.
O discurso chega a ser tão chato que a tentação recai mesmo para soluções menos ortodoxas: deixa rolar, vamos ver no que dá. Hora de arrumar outras distrações para que essas esferas da vida que tanto perturbam se desgastem pela falta de atenção e aí de repente os problemas mudam de figura.
Do que diabos eu estou falando?
Eu sei lá! Emprego, vida amorosa, carreira, família.
São sempre os mesmos temas de sempre.
Que ser humano, na face deste redondinho pedregulho flutuante, teve já a competência de arrumar um tema genuinamente diferente? Religião? O futuro da humanidade? Um impasse cinetífico?
Sei lá, no fundo não somos tão criativos assim.
O que é bom. É nossa pieguice que cria gênios. Li o Caim, de Saramago. E li críticas diversas de religiosos e outros nem tantos. Muita gente gostou, claro. E muitas muitas outras odiaram. De repente Saramago narra uma cena de êxtase sexual. E um pessoal fica abismado, horrorizado. Acha um jeito de criticar: a narrativa não foi literária como seria cabível a um autor-nobel. O conhecimento bíblico do Saramago é pífio e amadoresco.
Pieguice que estabelece padrões e se amarra a eles.
Talvez um dia eu vire escritor ou qualquer coisa parecida. Mas que Alá me proteja, que os céus conspirem, que Deus me acuda... e que não me deixem, de jeito nenhum, virar uma espécie de crítico mal-almado.
Há aqui na minha escrivaninha um formulário com exatas quarenta e sete linhas. Preciso preencher o formulário. Doze linhas já estão preenchidas. São quase três da tarde. Vou até o banco, há uma conta por pagar. Fatura do telefone. Pagar por internet? Nem morto! Quem confia nessa tal de internet? Até eu escrevo o que quiser na internet, não dá pra confiar.
Falta um tipo de liberdade no meu momento presente e preciso sair para procurar. Depois de pagar as contas, quem sabe?
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domingo, 26 de dezembro de 2010
Jarro
Confissões inconfessáveis que faço pra mim todos os dias. Todos os dias... Todos os dias nego as coisas que sei que são verdade. As coisas que faço serem verdade. As coisas que gosto que sejam verdade. As coisas que parecem não poder ser verdade. Meus pensamentos não são certos no mundo lá fora, mas são inevitáveis aqui dentro...
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Away
As paixões se instalam uma por vez. Neste coração primeiro. Naquele depois. Nunca junto. Nunca simultâneo. É deste descompasso de amores que padecem os desamados, nunca da ausência completa do amor.
Ele a quisera desmedidamente. Fez planos. Aceitou em paz que se tornaria então um adulto. Adulto de ter a própria casa, as próprias contas, os próprios filhos, a própria história. E ela não o amou. E ela o deixou. A vida, ah! Caprichosa... Não os deixou afastarem-se mais que o necessário para que certas feridas se solidificassem em cicatrizes maquiáveis. Redescobriram-se. Amigos. Amigos... E com o passar do tempo a tranquilidade excessiva dele vai soando aos olhos dela mais e mais como um cotidiano perfeito. Uma companhia desejável. Não era como o namoro em que suas carências a tinham metido. Era... era leve. Era natural.
- Eu te amo, ela disse.
- Duvido!, ele pensou, esbravejando dentro de si. Contra ela e contra a história. E silenciou. E desviou o olhar.
Desejo. Corpos se faltando. Mordidas em orelhas escondidas na escuridão. Umas nas costas. Vozes aquecidas em suspiros graves. Suores misturados.
E não se amam mais. Não ao mesmo tempo.
Ele a quisera desmedidamente. Fez planos. Aceitou em paz que se tornaria então um adulto. Adulto de ter a própria casa, as próprias contas, os próprios filhos, a própria história. E ela não o amou. E ela o deixou. A vida, ah! Caprichosa... Não os deixou afastarem-se mais que o necessário para que certas feridas se solidificassem em cicatrizes maquiáveis. Redescobriram-se. Amigos. Amigos... E com o passar do tempo a tranquilidade excessiva dele vai soando aos olhos dela mais e mais como um cotidiano perfeito. Uma companhia desejável. Não era como o namoro em que suas carências a tinham metido. Era... era leve. Era natural.
- Eu te amo, ela disse.
- Duvido!, ele pensou, esbravejando dentro de si. Contra ela e contra a história. E silenciou. E desviou o olhar.
Desejo. Corpos se faltando. Mordidas em orelhas escondidas na escuridão. Umas nas costas. Vozes aquecidas em suspiros graves. Suores misturados.
E não se amam mais. Não ao mesmo tempo.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Sistemas
As pessoas tentam conduzir suas vidas, melhorá-las e alterá-las, como se a vida fosse um Estado. Um estático a ser moldado, talhado.
Mas a vida é um processo. Um processo sem ponto fixo. Em processos, controla-se as características do fluxo, o aspecto das mudanças, e não uma configuração estática, final e inalterável.
Mas a vida é um processo. Um processo sem ponto fixo. Em processos, controla-se as características do fluxo, o aspecto das mudanças, e não uma configuração estática, final e inalterável.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Descarte
Talvez uma das grandes razões para a importância da ciência e de sua difusão, em particular, seja o fato de que os homens, caso geral, não pensam. Não são profundamente críticos, não são dados a investigar, não se atrabalham com os cantos todos do interrogar. Assim, tanto melhor que exista um conjunto de tradições de conclusões bem encaminhadas, para as quais se possa olhar como que a um altar, e ao sair dos templos de instrução transcedental não se tenha que fazer nada mais além de seguir aqueles tantos credos cansadamente repetidos e repetidos.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Dor
Hoje quem sabe eu não poderia só morrer um pouco? Só sumir do mundo?
E não correr mais o risco de deixar minha namorada triste por falta de atenção.
E não ser uma falha nesta ou naquela carreira por não saber o que quero da vida.
E não ser mais uma incógnita pra mim mesmo.
Eu sou uma incógnita pra mim mesmo.
E quando os dias passam, indiferentes e impiedosos,
Ao invés de resolver minhas dúvidas, elas engrossam
Empastam, engessam.
Eu sou uma incógnita para mim mesmo.
E quanto mais os dias passam, mais sou esse não ser
É só mais um dia sem ter sido
É só mais uma tentativa não começada
Sou um potencial adormecido
Adormecido em sono profundo
De que valem os potenciais?!
Tudo tem potencial de tudo. Todo assassino é um anjo potencial
Todo deus é um demônio potencial
Todo caderno em branco é na literatura um nobel em potencial
Em minha casa vazia mora uma família feliz, falando potencialmente
Poderia ser você ali na sala brincando com as crianças
Poderiam ser nossas crianças
Mas você não está aqui
Poderia estar, potencialmente está
Mas não está.
E não correr mais o risco de deixar minha namorada triste por falta de atenção.
E não ser uma falha nesta ou naquela carreira por não saber o que quero da vida.
E não ser mais uma incógnita pra mim mesmo.
Eu sou uma incógnita pra mim mesmo.
E quando os dias passam, indiferentes e impiedosos,
Ao invés de resolver minhas dúvidas, elas engrossam
Empastam, engessam.
Eu sou uma incógnita para mim mesmo.
E quanto mais os dias passam, mais sou esse não ser
É só mais um dia sem ter sido
É só mais uma tentativa não começada
Sou um potencial adormecido
Adormecido em sono profundo
De que valem os potenciais?!
Tudo tem potencial de tudo. Todo assassino é um anjo potencial
Todo deus é um demônio potencial
Todo caderno em branco é na literatura um nobel em potencial
Em minha casa vazia mora uma família feliz, falando potencialmente
Poderia ser você ali na sala brincando com as crianças
Poderiam ser nossas crianças
Mas você não está aqui
Poderia estar, potencialmente está
Mas não está.
sábado, 18 de dezembro de 2010
Saída
Caminhei pela cidade de dia,
Andando sem parar, nunca parar
Debaixo de Sol, em bairros bonitos
Em bairros feios, favelas
No meio de feiras
Em ruas desertas
Anoiteceu, anoiteceu e continuei andando
E queria sair dali, sair da cidade
E eu raciocinava a direção do norte
E ponderava minhas escolhas de curvas
E continuei andando
E não havia saída.
A cidade, perfeita ou problemática,
Rica ou pobre
A cidade, cenário de todas as possibilidades
Dessa vida que me engole,
Não tem saída.
E eu lá, só andando, e não há saída.
A cidade me engoliu.
Era outro dia já. E eu continuava andando.
Ao leste, andando ao leste sempre ao leste.
Assim de frente encaro o Sol
Lhe cuspo em revolta
Lhe deixo rir de mim,
Como impedir?
Caminhei, caminhei, caminhei
caminhei, caminhei, caminhei
caminhei caminhei caminhei caminhei
caminheicaminheicaminheicaminhei...
Até que a última gota de disposição queimou
Em alguma célula cansada de meus músculos
Caí ajoelhado no coração da cidade,
Na Praça da Sé
E, exausto, não conseguia mais pensar
Onde era o leste, onde era o norte,
O que era o Sol, o que era a Lua
E assim, sem pensar na fuga,
Sem ter na visão da minha mente
A sede do ar livre
Desci para o Parque Dom Pedro
Lá estava, salgada e tranquila,
Do outro lado da rua,
A praia, já do lado de fora
Onde deitei e durmi e acordei queimado e feliz.
Andando sem parar, nunca parar
Debaixo de Sol, em bairros bonitos
Em bairros feios, favelas
No meio de feiras
Em ruas desertas
Anoiteceu, anoiteceu e continuei andando
E queria sair dali, sair da cidade
E eu raciocinava a direção do norte
E ponderava minhas escolhas de curvas
E continuei andando
E não havia saída.
A cidade, perfeita ou problemática,
Rica ou pobre
A cidade, cenário de todas as possibilidades
Dessa vida que me engole,
Não tem saída.
E eu lá, só andando, e não há saída.
A cidade me engoliu.
Era outro dia já. E eu continuava andando.
Ao leste, andando ao leste sempre ao leste.
Assim de frente encaro o Sol
Lhe cuspo em revolta
Lhe deixo rir de mim,
Como impedir?
Caminhei, caminhei, caminhei
caminhei, caminhei, caminhei
caminhei caminhei caminhei caminhei
caminheicaminheicaminheicaminhei...
Até que a última gota de disposição queimou
Em alguma célula cansada de meus músculos
Caí ajoelhado no coração da cidade,
Na Praça da Sé
E, exausto, não conseguia mais pensar
Onde era o leste, onde era o norte,
O que era o Sol, o que era a Lua
E assim, sem pensar na fuga,
Sem ter na visão da minha mente
A sede do ar livre
Desci para o Parque Dom Pedro
Lá estava, salgada e tranquila,
Do outro lado da rua,
A praia, já do lado de fora
Onde deitei e durmi e acordei queimado e feliz.
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Etimológico
O que sou, desisti de mostrar o que sou
Porque exibir meu ser é deixar de sê-lo
Porque mostrar é tirar da caixa
E a caixa sou eu
E o ar de fora me enferruja
E o mar namora na praia uma coruja
Mas ela voa
E voa e vai embora
E daí se a rima é tosca?
Se a imagem não faz sentido?
Se o que eu penso não faz sentido
Se o que sou não faz sentido
Se o que escrevi não faz sentido
Ao menos a coruja e o mar se entendem
E não discutem horários
E não se pedem explicações
Porque exibir meu ser é deixar de sê-lo
Porque mostrar é tirar da caixa
E a caixa sou eu
E o ar de fora me enferruja
E o mar namora na praia uma coruja
Mas ela voa
E voa e vai embora
E daí se a rima é tosca?
Se a imagem não faz sentido?
Se o que eu penso não faz sentido
Se o que sou não faz sentido
Se o que escrevi não faz sentido
Ao menos a coruja e o mar se entendem
E não discutem horários
E não se pedem explicações
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Calmo
Vou virar meu guarda-roupa abaixo, espalhar roupas, lençois e cobertores por todo o quarto. Jogar álcool. Meter fogo em tudo. E sair correndo de casa. Não vou andar pela calçada não. Vou passar por cima dos carros estacionados, pulando de um pro outro. Amaçando o teto, riscando o capô. Aí vou parar no meio de um cruzamento e gritar palavras sem sentido. Os cachorros perdidos da cidade, um a um, vão me acompanhar. Serei o líder de uma matilha de ensandecidos mordedores. Vamos todos sair latindo por aí. Bradando aos balbúcios qualquer coisa. Vamos encarnar o caos que todos sentem resignados dentro de si. Aí vou entrar em uma padaria. Pular pro outro lado do balcão. Comer coxinhas e fatias frias de pizza, uma coisa por cima da outra, sujando a cara. Com a cara dentro da estufa. Os cães todos impedirão que me impeçam! E vou passar por toda a Avenida Paulista sendo seguido por mais de mil cães. E não saberão o que fazer. A polícia não vai atirar, tamanho o surrealismo. Estaremos imunes. Muitos compartilharão em segredo com nossa causa. Vou descer a Consolação. Dois mil cachorros. Vou até praça da Sé. Deitar na escada da catedral. Cercado por dez mil cães ferozes. E vou dormir em paz.
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domingo, 12 de dezembro de 2010
Penumbra
Madrugada. Às vezes o som de um ônibus passando longe. Ele andava pela rua. Olhava sombras. Gatos andando sem maiores preocupações, esquivos. Lixo espalhado. Os barulhos de seus tênis. Seus pensamentos jogados. Aquelas palavras. O emprego errado. Tudo machucava. Tudo perturbava. Pensou em gritar. Alívio? Lua indiferente. Madrugada. Aproximava-se daquela casa. Aquela casa... De manhã, bem cedinho, passando ali em frente ainda antes da cidade acordar, era possível vê-la por entre frestas da cortina acordando, no quarto de cima. As frustrações de sua vida. A dor de uma rejeição tão violenta. O emprego entediante. A madrugada quieta e indiferente. E a casa daquela mulher se aproximando. Ela poderia estar lá. Salvaria o dia, a noite. Salvaria a caminhada. Lhe daria um sono tranquilo. Ver aquelas costas lisas. Aquele sutiã branco de volume perfeito para suas mãos. Aquele cabelo desenhado com ondas perfeitas. Foi se aproximando. Viu a casa ao longe. Apagada. Triste. Neurótico. Não passou em frente à casa. Abriu o portão e entrou. Não fez menção de encoleirar o silêncio; deixou-o fugir a longe! Subiu as escadas com pés pesados de sede. Respirava fôlego tenso. A maçaneta. A luz da lua era cúmplice. Ela já estava acordada, apoiando a cabeça sobre a mão direita, o ombro sobre o travesseiro. Não quebrou o silêncio, só remodelou-o com sussuros.
- Então é você mesmo...
- Sabia que eu viria?
- Não esperava a essa hora. Mas estava destrancado, não estava? Vem... vem!
Quebraram a cama, o segundo andar e o quarteirão.
- Então é você mesmo...
- Sabia que eu viria?
- Não esperava a essa hora. Mas estava destrancado, não estava? Vem... vem!
Quebraram a cama, o segundo andar e o quarteirão.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Blues
Aí tinha aquele garoto que todos pensavam conhecer. Eu vi o jovem numa noite de música e conversa. De blues e mentiras. De gaitas e amores. Quieto num canto, por vezes quase ignorado. Abraçado e olhado noutras. As garotas gostavam dele, ah! Ah gostavam sim. E ele realmente parecia um paspalho abichalhado de tão imune que era aos abraços, aos carinhos, às bundas todas ali por se apalpar.
Enganaram-se porém todos os que foram superficiais no entendimento desse ostracismo. Ele estava de luto. Estava de luto de si. Havia um eu morto dentro de si. Morto a cada dia. E ele velava. Chegava em casa. Deitava no teto da sala e olhava para as coisas todas incrédulo. Incompreensível essa mania de apego ao chão. O chão não serve para nada. O chão não lhe servia para nada.
Diziam que ele não tinha tanto assunto. Ele ficava quieto engolindo todos os assuntos, olhando. Era tudo ao mesmo tempo na cabeça dele. O violão. A gaita. O zelador reclamando fazia parte da música que ele ouvia. O refrão seria outro completamente outro se a cerveja não se derrubasse ao tapete. A ficção mudaria de gosto se aqueles romances todos não se fizessem e desfizessem assim quase desnudos diante de seus olhos.
Achavam que ele às vezes se isolava e não fazia parte de nada, quieto num canto. Mergulhado em seu mundo, sabia que um mundo era um só. Fazia parte de tudo.
Enganaram-se porém todos os que foram superficiais no entendimento desse ostracismo. Ele estava de luto. Estava de luto de si. Havia um eu morto dentro de si. Morto a cada dia. E ele velava. Chegava em casa. Deitava no teto da sala e olhava para as coisas todas incrédulo. Incompreensível essa mania de apego ao chão. O chão não serve para nada. O chão não lhe servia para nada.
Diziam que ele não tinha tanto assunto. Ele ficava quieto engolindo todos os assuntos, olhando. Era tudo ao mesmo tempo na cabeça dele. O violão. A gaita. O zelador reclamando fazia parte da música que ele ouvia. O refrão seria outro completamente outro se a cerveja não se derrubasse ao tapete. A ficção mudaria de gosto se aqueles romances todos não se fizessem e desfizessem assim quase desnudos diante de seus olhos.
Achavam que ele às vezes se isolava e não fazia parte de nada, quieto num canto. Mergulhado em seu mundo, sabia que um mundo era um só. Fazia parte de tudo.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Você
Você me enxerga. Eu me escondo. Atrás da pedra. Você olha. E me vê. E não vê a pedra. Eu tenho olhos verdes. Verdes claros. Verde forte, fosforecente. Verde criptonita. Radioativo. E estou triste. E você me olha. E vê cinza. E vê escuro. E ninguém mais vê. Você me toca. Me toca com sede. Me toca tentando trocar nossos corpos. Aperta. Marca. Arranha. Sangra. Engole. Você é doce. É risonha. É linda. É séria. É mulher. É gostosa. Você me provoca. Você me desperta. Você me deseja. Você me faz te desejar. Você desnuda meu corpo, meus segredos, minhas mentiras, minhas dúvidas. Você é presente. Você é errada. Você é novidade. Você quebra todos os padrões das minhas caretices tuberculósicas que tossem conveniências repetitivas por aí. E não traz padrões novos. Traz tela. Traz tinta. Não traz pincel. Convida a pintar com a mão. Com os pés. Com a cara. Você é ilícita. Você é proibida. Você é diferente. Você é corrosiva. Você é perigosa. Você é irrecomendável. Você é inusitada. Você é exótica. Você é possessiva. Você é ciumenta. Você é carinhosa. Você é problemática. Você é irresistível.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Noites turvas
Li as Noites Brancas e saí pra passear ao lado de um belo riacho.
Margem calçada de pedras velhas e ásperas.
Tinha a mão direita entrelaçada à mão de uma Nástienhka imaginária.
Tão material em mim que a mão esquentava.
Olhei ao horizonte, o Sol brincando de jogar as sombras lá longe.
Eu brincando de jogar o impossível mais perto.
E a Nástienhka ria. Imaginária e ria, desobediente, malandra que era. Um encanto.
Sem menos ou mais, ela tropeçou. Uma pedra ou um musgo a abalar o equilíbrio da mulher.
Caiu com a testa numa pedra pontuda.
Sangrava, eu a agitando em meus braços, aos gritos e soluços, desesperado.
Numa mesa de bar logo ali na esquina ria o próprio Dostoiévski a dar de ombros:
- Esse aí não cuida nem de um draminha curtinho, é novato!
O Camus, no bar da outra esquina, é que achou o máximo. Vibrou, até!
E virava outra vodka, batendo o copo na mesa.
O sol estava circulando o horizonte, que ir por cima de tudo de leste a oeste já lhe era monótono.
As sombras faziam círculos em volta das coisas. O sangue escorria da testa da minha Nástienkha, fugindo de sua sombra.
Veio a mão ao meu ombro, quase acusando. Virei-me.
A Nástienkha, em pé, brava a me olhar condenando de todas as formas silenciosas que se têm para condenar.
A Nástienkha, em meus braços, morrendo por um pequeno deslize, falta de cuidado meu? Fatalidade? Imperícia de meus socorros?
Por uma eu chorava. Da outra eu tinha raiva e queria gritar para ela me deixar em paz, que não era culpa minha.
Margem calçada de pedras velhas e ásperas.
Tinha a mão direita entrelaçada à mão de uma Nástienhka imaginária.
Tão material em mim que a mão esquentava.
Olhei ao horizonte, o Sol brincando de jogar as sombras lá longe.
Eu brincando de jogar o impossível mais perto.
E a Nástienhka ria. Imaginária e ria, desobediente, malandra que era. Um encanto.
Sem menos ou mais, ela tropeçou. Uma pedra ou um musgo a abalar o equilíbrio da mulher.
Caiu com a testa numa pedra pontuda.
Sangrava, eu a agitando em meus braços, aos gritos e soluços, desesperado.
Numa mesa de bar logo ali na esquina ria o próprio Dostoiévski a dar de ombros:
- Esse aí não cuida nem de um draminha curtinho, é novato!
O Camus, no bar da outra esquina, é que achou o máximo. Vibrou, até!
E virava outra vodka, batendo o copo na mesa.
O sol estava circulando o horizonte, que ir por cima de tudo de leste a oeste já lhe era monótono.
As sombras faziam círculos em volta das coisas. O sangue escorria da testa da minha Nástienkha, fugindo de sua sombra.
Veio a mão ao meu ombro, quase acusando. Virei-me.
A Nástienkha, em pé, brava a me olhar condenando de todas as formas silenciosas que se têm para condenar.
A Nástienkha, em meus braços, morrendo por um pequeno deslize, falta de cuidado meu? Fatalidade? Imperícia de meus socorros?
Por uma eu chorava. Da outra eu tinha raiva e queria gritar para ela me deixar em paz, que não era culpa minha.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
A escrita
A escrita é uma introspecção que se deixa bisbilhotar.
Se não for, perdoe o equívoco, eu estava apenas aqui pensando comigo mesmo...
Se não for, perdoe o equívoco, eu estava apenas aqui pensando comigo mesmo...
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