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quarta-feira, 22 de julho de 2020
Das mortes
Estou lendo o que escrevi onze anos atrás. Lá pelos idos de 2008. Nem sei onde a vida estava. Sei que eu dizia outras palavras, de outros jeitos. Gosto de algumas das coisas que li. Mas gosto de um jeito que incomoda, de um jeito que assusta. Gosto como quem encontrou um livro interessante. Eu não sei quem escreveu. Estou descobrindo coisas que eu não imaginavam que existiam. E foram escritas por mim. Não sei se é uma catástrofe das minhas pobres sinapses ou se é uma transformação da minha alma. Só sei que sou outro. Que alguém de mim morreu. Não escreveria outras coisas como aquelas, com certeza. Mas não deixei de ser um extrapolador. Sei que a escrita é só um dos muitos cheiros da alma. O que aconteceu com minhas palavras, minhas vozes, meus olhares, meus amores, meus toques, minhas risadas, minhas atenções, meus medos? Tudo mudou. Tudo morreu. Tudo é outro. E nada reconhece ter sido outro.
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terça-feira, 21 de julho de 2020
Dos silêncios
Instalei aplicativos para conhecer pessoas com quem praticar idiomas. Coisas modernas. Nada de ir a uma escola. Você inicia uma conversa com outra pessoa e continua. É como ir a um bar, mas sem o constrangimento, a cerveja, a conta e o bar.
E tentei. Eu juro que tentei. Falei com gente de todos os cantos. De todas as idades. De tudo o que é país. Mas estou cansado. Estou cansado de não encontrar eco.
- Olá! Vi que está interessada em aprender italiano e francês. Posso te ajudar! Estou estudando em um programa de mestrado em estatística. Falo esses idiomas. Estou em outro país. E você? Tem estudado com algum livro? Está interessada apenas em conversas cotidianas? Espero que possa me ajudar também.
- Oi. Blz.
Não há eco. As pessoas não falam mais. O que há com esse mundo?
Descobri que sou verborrágico. Talkative person. Mas qual é o contrário de talkative? Acho que as pessoas estão mortas.
Mortinhas de tudo, caminhando por aí.
E tentei. Eu juro que tentei. Falei com gente de todos os cantos. De todas as idades. De tudo o que é país. Mas estou cansado. Estou cansado de não encontrar eco.
- Olá! Vi que está interessada em aprender italiano e francês. Posso te ajudar! Estou estudando em um programa de mestrado em estatística. Falo esses idiomas. Estou em outro país. E você? Tem estudado com algum livro? Está interessada apenas em conversas cotidianas? Espero que possa me ajudar também.
- Oi. Blz.
Não há eco. As pessoas não falam mais. O que há com esse mundo?
Descobri que sou verborrágico. Talkative person. Mas qual é o contrário de talkative? Acho que as pessoas estão mortas.
Mortinhas de tudo, caminhando por aí.
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quarta-feira, 10 de junho de 2020
Há tempos
Me deixa, me larga, me solta
Não lembra que te amei,
Não lembra que cansei?!
Deixar de te amar
Custou deixar de amar!
Não lembra que te amei,
Não lembra que cansei?!
Deixar de te amar
Custou deixar de amar!
terça-feira, 17 de março de 2020
Dúvida
Qual o tamanho de uma mentira? Segredo é mentira? Mentira que se mente para si é mentira como todas as outras? Mentira por incapacidade de alterar a própria realidade, por descontrole patético dos próprios impulsos, por inabilidade vergonhosa em dominar os rumos dos sentimentos, é também mentira? Há algo de errado em mentir sobre o amor?
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
Dos espíritos
Sim, sua mediunidade está afetada pelo tempo que está sem praticar. A viagem. A operação. Tudo atrapalha. Não deve ser fácil treinar o cérebro para se enganar. Não deve ser fácil reinterpretar todas as suas sensações internas, seus impulsos, seus vários eus, como manifestações de forças transcendentais.
Sim, sou um cético chato. Eu não devia me importar com nada disso. Tenha a vida que quiser. Tenha as mentiras que quiser. Mas eu me importo. Para mim isso significa muito. Jogar fora crenças é permitir que se jogue lixo no mais importante dos terrenos: o terreno mental. Sim, sou a favor da liberdade de pensamento. Sei que pensa diferente de mim e respeito isso. Deixo que continue pensando assim. Mas eu deveria, por acaso, aceitar isso numa boa? Não, não consigo. É triste que sua mente esteja perdida para essas mentiras.
Sim, sou um cético chato. Eu não devia me importar com nada disso. Tenha a vida que quiser. Tenha as mentiras que quiser. Mas eu me importo. Para mim isso significa muito. Jogar fora crenças é permitir que se jogue lixo no mais importante dos terrenos: o terreno mental. Sim, sou a favor da liberdade de pensamento. Sei que pensa diferente de mim e respeito isso. Deixo que continue pensando assim. Mas eu deveria, por acaso, aceitar isso numa boa? Não, não consigo. É triste que sua mente esteja perdida para essas mentiras.
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sábado, 15 de fevereiro de 2020
Tic
O quão lícita é a solidão? Ela me ligou agora.
Está indo a um bar aqui do lado, com amigos, amigas da faculdade, do laboratório em que ela trabalha.
Eu só quero ficar aqui sozinho. Sozinho escrevendo. E eu poderia estar achando um outro tema para escrever, algo mais interessante, mais reflexivo e menos pessoal, se não fosse ela me estressar com essas ligações e mensagens me convidando.
Eu não quero ir! É tão errado assim?
Eu quero um tempo para mim. Não gosto dessas incumbências de namorado.
Não gosto mesmo. Quero ficar sozinho aqui. Estou lendo uns quatro ou cinco livros no momento. E mal virei a página de três deles hoje. Estou estudando música. Ou deveria estar. Quero a tranquilidade de me dedicar a essas coisas.
Poderia organizar melhor meu dia. Mas como fazer para conseguir isso, se eu trabalho das sete e meia da manhã até as seis da tarde, chego em casa às sete da noite. Aí gasto um tempinho para jantar, lavar a louça, tomar um banho... E fazendo tudo isso sem pressa, mas sem perder tempo, só estou livre às oito da noite.
Oito da noite.
A hora em que meu dia começa.
Mas aí então lá pela meia noite, mais tardar, preciso estar dormindo de novo. Porque no dia seguinte tenho que acordar cedo para trabalhar. Então essas coisas todas que quero fazer, essas coisas todas que espero conseguir colocar no meu dia, ficam todas apertadas nessas poucas horas...
E aí o dia já acabou.
Está indo a um bar aqui do lado, com amigos, amigas da faculdade, do laboratório em que ela trabalha.
Eu só quero ficar aqui sozinho. Sozinho escrevendo. E eu poderia estar achando um outro tema para escrever, algo mais interessante, mais reflexivo e menos pessoal, se não fosse ela me estressar com essas ligações e mensagens me convidando.
Eu não quero ir! É tão errado assim?
Eu quero um tempo para mim. Não gosto dessas incumbências de namorado.
Não gosto mesmo. Quero ficar sozinho aqui. Estou lendo uns quatro ou cinco livros no momento. E mal virei a página de três deles hoje. Estou estudando música. Ou deveria estar. Quero a tranquilidade de me dedicar a essas coisas.
Poderia organizar melhor meu dia. Mas como fazer para conseguir isso, se eu trabalho das sete e meia da manhã até as seis da tarde, chego em casa às sete da noite. Aí gasto um tempinho para jantar, lavar a louça, tomar um banho... E fazendo tudo isso sem pressa, mas sem perder tempo, só estou livre às oito da noite.
Oito da noite.
A hora em que meu dia começa.
Mas aí então lá pela meia noite, mais tardar, preciso estar dormindo de novo. Porque no dia seguinte tenho que acordar cedo para trabalhar. Então essas coisas todas que quero fazer, essas coisas todas que espero conseguir colocar no meu dia, ficam todas apertadas nessas poucas horas...
E aí o dia já acabou.
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Diário de viagem genérico
Andei por lugares que não conhecia. Fiz fotos demais.
Quando vou olhá-las? Preciso selecionar vinte.
Dez.
Cinco.
Duas.
Uma.
Apenas uma foto de hoje. Para a posteridade é o que basta. As belas memórias não são resultado de uma vida bem vivida mas sim de um belo trabalho de edição que fazemos sobre a real bagunça de nossa história.
Passei parte do tempo parado em um bar. Pedi uma cerveja. Conversei com algumas pessoas. Ser um viajante é uma bênção para as conversas: é a deixa universal para se iniciar um diálogo com um estranho.
Você vem de onde? Está de férias ou a trabalho? Há quanto tempo está aqui? E como aprendeu este idioma assim tão rápido? E quando vai embora?
Mas é também uma maldição: é difícil, muitas vezes, levar a conversa para além desse calabouço de obviedades. Passo em uma livraria. Compro os livros com a história do local. Hoje estou empolgado. Mas quando vou ler tudo isso? Quais dias serão inúteis o suficiente?
Não posso ler a biblioteca do mundo só porque passei por ele. Preciso aprender a selecionar as coisas.
Talvez seja assim também com as pessoas. Preciso parar de me interessar por todo mundo ao redor.
Estou perdendo tempo com leituras inúteis e deixando passar as que prestam.
Quando vou olhá-las? Preciso selecionar vinte.
Dez.
Cinco.
Duas.
Uma.
Apenas uma foto de hoje. Para a posteridade é o que basta. As belas memórias não são resultado de uma vida bem vivida mas sim de um belo trabalho de edição que fazemos sobre a real bagunça de nossa história.
Passei parte do tempo parado em um bar. Pedi uma cerveja. Conversei com algumas pessoas. Ser um viajante é uma bênção para as conversas: é a deixa universal para se iniciar um diálogo com um estranho.
Você vem de onde? Está de férias ou a trabalho? Há quanto tempo está aqui? E como aprendeu este idioma assim tão rápido? E quando vai embora?
Mas é também uma maldição: é difícil, muitas vezes, levar a conversa para além desse calabouço de obviedades. Passo em uma livraria. Compro os livros com a história do local. Hoje estou empolgado. Mas quando vou ler tudo isso? Quais dias serão inúteis o suficiente?
Não posso ler a biblioteca do mundo só porque passei por ele. Preciso aprender a selecionar as coisas.
Talvez seja assim também com as pessoas. Preciso parar de me interessar por todo mundo ao redor.
Estou perdendo tempo com leituras inúteis e deixando passar as que prestam.
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sábado, 1 de fevereiro de 2020
Só escrevendo (4)
A educação não é um assunto prioritário na mente dos brasileiros. O novo prefeito pintou de cinza muros grafitados. Aparece sempre bem vestido e falando bem na televisão. Ofende petistas. Anuncia diversas parcerias com empresas privadas. Vai privatizar parques por toda a cidade. E fez um corte gigantesco na pasta da educação e cultura. E... de algum modo, o saldo é avaliado como positivo para as pessoas.
Enquanto não entenderem que educação é uma preocupação prioritária, e que educação implica em autonomia, não iremos progredir.
Acho engraçado ver, também, as pessoas que não entendem a catástrofe que é a proposta "Escola sem partido". É preciso de uma completa acefalia política para defender essa ideia estúpida. Apenas pessoas de uma índole dogmática e desprovidas de filosofia e de consciência política não entendem a tragédia de um projeto como estes.
Mas como abordar essas pessoas? Como fazê-las enxergar? Vivemos novamente (na verdade nunca deixamos de viver) o mito da caverna, de Platão. Idiotas acreditam que a realidade é feita de sombras e aqueles poucos que vislumbraram um pouco além são tidos como loucos.
Não sei se tiro de tudo isso um norte para a minha vida, uma direção à qual dirigir minhas forças, ou se concluo que a existência é uma total decepção e perda de tempo. Decisão difícil.
Enquanto não entenderem que educação é uma preocupação prioritária, e que educação implica em autonomia, não iremos progredir.
Acho engraçado ver, também, as pessoas que não entendem a catástrofe que é a proposta "Escola sem partido". É preciso de uma completa acefalia política para defender essa ideia estúpida. Apenas pessoas de uma índole dogmática e desprovidas de filosofia e de consciência política não entendem a tragédia de um projeto como estes.
Mas como abordar essas pessoas? Como fazê-las enxergar? Vivemos novamente (na verdade nunca deixamos de viver) o mito da caverna, de Platão. Idiotas acreditam que a realidade é feita de sombras e aqueles poucos que vislumbraram um pouco além são tidos como loucos.
Não sei se tiro de tudo isso um norte para a minha vida, uma direção à qual dirigir minhas forças, ou se concluo que a existência é uma total decepção e perda de tempo. Decisão difícil.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
De novo
Sabe, eu fico aqui pensando em você, e sei lá como pensar em você. A madrugada não me engoliria assim se você estivesse mais dentro da minha vida. Será? Imagino, imagino e não sei. Conversamos até as cinco da manhã outro dia, não foi? Não conseguíamos parar de falar. Não víamos nossos rostos. Era tudo escuro aqui no quarto. Mas nossas palavras se encontravam no vazio, no ar, e não queriam parar. Dançavam daqui pra lá. E algo fez você ficar tão longe. Sabe, eu não quero mais amar. Eu te amo, e não quero dar esse amor a mais ninguém, não importa que você não o queira. Não importa. É seu. E ficará num canto qualquer. O amor que não amamos. Um dia alguém o encontrará. Os escafandristas do Chico Buarque, será? Será mesmo? É fraqueza minha não conseguir deixar de te amar. Mas é heróico o quanto tenho tentado. Só que cansei de mentir pra mim. Cansei.
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domingo, 12 de janeiro de 2020
Impasses
Eu não entendo os acadêmicos do mundo, e ainda assim gosto tanto de estudar.
Eu não entendo a poesia das saudades, e ainda assim sinto tantas faltas.
Eu não entendo a poesia dos amores, e ainda assim choro tantos sonhos.
Eu não entendo o amor das mães, e ainda assim adoto tantas vidas.
Eu não entendo a solidão, e ainda assim não sei onde estou.
Eu não entendo a poesia das saudades, e ainda assim sinto tantas faltas.
Eu não entendo a poesia dos amores, e ainda assim choro tantos sonhos.
Eu não entendo o amor das mães, e ainda assim adoto tantas vidas.
Eu não entendo a solidão, e ainda assim não sei onde estou.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
TicTac
O cansaço me digere
Eu deixo,
eu deixo ele me engolir
Levar minha raiva
Meus anseios
Meus sonhos
Meus pensamentos
Cansaço, sono
Latente, latente e não vai
Bêbado
Sonhando sonhos de um mundo em que não há sonhos
Apertado a mim
Mas digerido, pouco a pouco
Pouco a pouco tudo se vai na digestão do tempo
Minhas saudades
Meus sonhos
O que restará?
De tão longe, de tão longe, algo vem pra cá?
Do que eu era, algo vai voltar a ser?
Do que eu seria, algo vai sobreviver?
Eu deixo,
eu deixo ele me engolir
Levar minha raiva
Meus anseios
Meus sonhos
Meus pensamentos
Cansaço, sono
Latente, latente e não vai
Bêbado
Sonhando sonhos de um mundo em que não há sonhos
Apertado a mim
Mas digerido, pouco a pouco
Pouco a pouco tudo se vai na digestão do tempo
Minhas saudades
Meus sonhos
O que restará?
De tão longe, de tão longe, algo vem pra cá?
Do que eu era, algo vai voltar a ser?
Do que eu seria, algo vai sobreviver?
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quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Espelhos
A pior coisa que pode acontecer quando se quer guardar um segredo é conseguí-lo. Pois foi o que aconteceu. Guardei um segredo sem saber que com isso eu guardava uma parte de mim para fora do mundo. Uma parte de mim que agora não está no mundo, não faz parte desta realidade. Não existe, embora exista. Não importa, embora importe. Não se enxerga mas está lá. Então não tenho a quem culpar se não a mim mesmo por toda essa invisibilidadde. Quando as pessoas não entendem o que se passa comigo isso é tão somente reflexo deste meu sucesso de Pirro: o segredo continua bem guardado, ninguém nem desconfia. Foi assim que virei dois. O que existe e o virtual. O material e a sombra. O concreto e o abstrato. Dois em uma dualidade que é em parte dona do mundo e em parte amasmorrada sem luz sem água sem visita, sozinha na solidão fria do isolamento indiferente. Porque é esse o peso de não ser sabido. É esse o peso de pensar sem eco. É esse o peso de amar sem voz. De doer sem lágrima. De gritar sem som. De respirar sem ar. De existir sem corpo. De viver sem você.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
Weber e os chatos
Sempre achei Weber um chato. Talvez porque Política como Vocação, numa tradução qualquer para o português, tenha sido a primeira coisa que fui obrigado a ler no curso de Ciências Sociais. Eu tinha acabado de sair do cursinho. Estava totalmente por fora de política, de geopolítica, discursos políticos ou acadêmicos não faziam parte da minha realidade. Para mim, enunciados com mais de cinco linhas eram longos e uma redação completa era forçosamente limitada a trinta linhas. Não cabe muita formalidade aí. E de repente as páginas e páginas de Weber.
Tentei me convencer por muito tempo da validade do seu trabalho, mas em mil aspectos fico com o pé atras. Tudo bem que ele tinha idéias válidas de serem expostas para discussão, e etc, mas não vou conseguir deixar de achá-lo um péssimo escritor. Qual o problema em tentar ser sucinto e agradável? Ainda mais se estamos discutindo os problemas do mundo, da sociedade, que são tão complexos, então obviamente há muito o que discutir, e o que quer que tenhamos dito, maior ainda será a réplica, especialmente se tivermos tido alguma idéia relevante. Neste caso, alongar demais já a primeira exposição só colabora para deixar o processo todo mais lento. O mundo talvez tenha uma certa urgência com relação ao caminhar intelectual da humanidade. Especialmente numa era de armas nucleares e manipulação genética. Há tempo a perder com prolixidade?
Tudo bem, no tempo de Weber essas coisas ainda não existiam. Perdoemos Weber: seus leitores viviam num mundo muito mais chato em que, por contraste, provavelmente seus textos eram muito atrativos.
Mas hoje temos que considerar não só o problema de tempo, mas também o prejuízo todo do desinteresse provocado pela chatice. Ser legal e sucinto tem seus méritos. E ser legal não implica em ser superficial ou não-original ou não-relevante.
Tentei me convencer por muito tempo da validade do seu trabalho, mas em mil aspectos fico com o pé atras. Tudo bem que ele tinha idéias válidas de serem expostas para discussão, e etc, mas não vou conseguir deixar de achá-lo um péssimo escritor. Qual o problema em tentar ser sucinto e agradável? Ainda mais se estamos discutindo os problemas do mundo, da sociedade, que são tão complexos, então obviamente há muito o que discutir, e o que quer que tenhamos dito, maior ainda será a réplica, especialmente se tivermos tido alguma idéia relevante. Neste caso, alongar demais já a primeira exposição só colabora para deixar o processo todo mais lento. O mundo talvez tenha uma certa urgência com relação ao caminhar intelectual da humanidade. Especialmente numa era de armas nucleares e manipulação genética. Há tempo a perder com prolixidade?
Tudo bem, no tempo de Weber essas coisas ainda não existiam. Perdoemos Weber: seus leitores viviam num mundo muito mais chato em que, por contraste, provavelmente seus textos eram muito atrativos.
Mas hoje temos que considerar não só o problema de tempo, mas também o prejuízo todo do desinteresse provocado pela chatice. Ser legal e sucinto tem seus méritos. E ser legal não implica em ser superficial ou não-original ou não-relevante.
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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
Escrever
Pensar é um fluxo. Escrever é um fluxo. Mas pensando as idéias desaparecem ao nascer. É como a água no Sol, que é destruída pelo calor absurdo quase que no exato momento em que é criada. Escrevendo não. Escrevendo as idéias adotam contornos, contrastes.
Enquanto pensamos, temos as palavras pelo pescoço, tiradas com violência da memória, da imaginação, e lançadas com descaso ao esquecimento, ao mundo sombrio e úmido das coisas já pensadas, onde elas passarão toda a eternidade.
Quando escrevemos, o destino das palavras é diferente. Quando escrevemos, tomamos as palavras com cuidado desde seu nascimento, atentando à sua forma, seus detalhes. E então elas amadurecem, e ao se materializarem no mundo, adquirem a força de nos confrontar. Nos olham nos olhos e dizem que não nos pertencem mais. E têm razão.
Enquanto pensamos, temos as palavras pelo pescoço, tiradas com violência da memória, da imaginação, e lançadas com descaso ao esquecimento, ao mundo sombrio e úmido das coisas já pensadas, onde elas passarão toda a eternidade.
Quando escrevemos, o destino das palavras é diferente. Quando escrevemos, tomamos as palavras com cuidado desde seu nascimento, atentando à sua forma, seus detalhes. E então elas amadurecem, e ao se materializarem no mundo, adquirem a força de nos confrontar. Nos olham nos olhos e dizem que não nos pertencem mais. E têm razão.
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terça-feira, 10 de dezembro de 2019
Primeira página
Pedófilo? Excêntrico cheio de plásticas? Freak?
E agora, agora que está morto, agora que seu corpo foi reduzido a uns quilos de carne apodrecente, agora lhe voltam novamente toda a atenção cuja ausência o matou.
Bem disse o piadista: Michael Jackson morreu por que parou de viver. É o Michael que comove o mundo agora ou é a morte em si? A morte inesperada, repentina, sem aviso nem motivo?
Obama matou uma mosca durante uma entrevista.
Sobre o que era a entrevista?
O que os EUA decidiriam com relação a guerras, economia, saúde?
Qual era o assunto em pauta?
Quem sabe? Obama matou uma mosca, das grandes, e ela posou às câmeras todas, ali ao chão, mortinha.
Quem se importa com a vida, afinal? Eu não, eu não ligo. Acho que nem as pessoas. Apenas custam a admitir isso: o importante é o que se desvencilha dos trilhos da normalidade e sai por aí traçando trajetos próprios.
E agora, agora que está morto, agora que seu corpo foi reduzido a uns quilos de carne apodrecente, agora lhe voltam novamente toda a atenção cuja ausência o matou.
Bem disse o piadista: Michael Jackson morreu por que parou de viver. É o Michael que comove o mundo agora ou é a morte em si? A morte inesperada, repentina, sem aviso nem motivo?
Obama matou uma mosca durante uma entrevista.
Sobre o que era a entrevista?
O que os EUA decidiriam com relação a guerras, economia, saúde?
Qual era o assunto em pauta?
Quem sabe? Obama matou uma mosca, das grandes, e ela posou às câmeras todas, ali ao chão, mortinha.
Quem se importa com a vida, afinal? Eu não, eu não ligo. Acho que nem as pessoas. Apenas custam a admitir isso: o importante é o que se desvencilha dos trilhos da normalidade e sai por aí traçando trajetos próprios.
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019
Outsider
Eu não pertenço a nada. É minha tragédia. É o resumo da minha vida. E é meu mérito também. Mas não porque seja um mérito em si. Antes por ser apenas uma característica primitiva, irremovível, inerente à minha pessoa, tão fundamental que tudo de ruim e de bom que me aconteça pode ser, de um jeito ou de outro, reduzido à essa origem. Não sou institucionalizável. Não consegui me comprimir ao que exigiam de mim as profissões que tentei. Não pertenço a país nenhum. Meus documentos são antes equívocos que constatações. Não me defino nem mesmo como escritor, essa vagabunda profissão de não exercer nada além de delírios. Não que não me faltem delírios. Mas transformá-los em profissão exige disciplina, exige domá-los. De algum jeito, louco e inconsequente como todo o resto, rejeito submetê-los a tal atrocidade. Delírios domados já não são tão delirantes.
Mas o pior, é o mais assustador, é que delírios domados já não são capazes de encontrar sua própria verdade: curvaram-se à loucura que criou os moldes de sua dominação.
É essa a dor do parto: permanecer louco como único modo de não sucumbir à loucura dos outros.
Mas o pior, é o mais assustador, é que delírios domados já não são capazes de encontrar sua própria verdade: curvaram-se à loucura que criou os moldes de sua dominação.
É essa a dor do parto: permanecer louco como único modo de não sucumbir à loucura dos outros.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
Sombra
Quantas vezes a gente precisa dizer sim até ter coragem de dizer não?
Quantas vezes vamos sorrir até ter coragem de baixar o rosto?
Quantas vezes é preciso dizer eu te amo até entender que o amor não existe?
Eu te amo agora. Logo mais, não sei.
Eu não te amo mais. Te quero bem, mas não posso te amar.
Posso não concordar com seu desamor, mas darei até a vida pelo seu direito de não amar.
Quando o iluminismo vai iluminar também os sentimentos?
Quantas vezes vamos sorrir até ter coragem de baixar o rosto?
Quantas vezes é preciso dizer eu te amo até entender que o amor não existe?
Eu te amo agora. Logo mais, não sei.
Eu não te amo mais. Te quero bem, mas não posso te amar.
Posso não concordar com seu desamor, mas darei até a vida pelo seu direito de não amar.
Quando o iluminismo vai iluminar também os sentimentos?
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sexta-feira, 22 de novembro de 2019
Bala perdida
O Rio de Janeiro não muda minha vida. A Garota de Ipanema, com sua caminhada pela praia na frente do poeta já tendo acontecido há tantos anos, fez até agora muito mais pela minha vida que as mortes no Rio que se passam agora. Que me importa que morram miseráveis ou pobres ou inocentes ou bandidos de qualquer espécie por lá? O mesmo acontece o tempo todo em dezenas de guerras que acontecem pelo mundo a todo instante, não é mesmo? Não me importo. Dane-se o Rio. Que se exploda o Rio. E fico contente por não assistir mais TV há tanto tempo. Assim, o Rio também não muda na minha vida naquilo que é o impacto mais significativo e chocante da violência no Rio para milhões de brasileiros: a qualidade da programação da TV.
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sábado, 16 de novembro de 2019
Sentimental mood
Que milagre é esse que faz um bom jazz restaurar a alma como se a criasse novamente, destruindo da alma velha todos os pesos e infortúitos, todos os invisíveis terrores insones? O quarto é o mesmo, o cheiro é o mesmo, a iluminação é a mesma, a conta bancária é ainda menor, a solidão vai do mesmo jeito. Mas o jazz toca, o jazz preenche o ambiente, e a alma muda. Muda completamente. Muda para outra, de um jeito que nem se eu fosse rico, nem se todos os amigos aparecessem, nem se os problemas todos sumissem...
Fica o tempo lá fora com seus problemas, que eu fico aqui com o meu jazz, e está tudo certo.
Fica o tempo lá fora com seus problemas, que eu fico aqui com o meu jazz, e está tudo certo.
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quinta-feira, 14 de novembro de 2019
Futuro
- Não fique revoltado! Sua irmã gosta dessas coisas, ué! O que é que há de tão errado com a astrologia? Com essas crendices? No fim das contas o grande problema é o dinheiro que ela perde com essas coisas, só isso. E é o dinheiro dela, entende?
- Não é só isso. Não, não pode ser! Vai além disso. Ela compra esses CD's com terapias quânticas. É enganação. Há alguém roubando ela. Talvez um louco que acredite colocar algum poder estranho no CD porém muito provavelmente alguém que sabe, ou até recentemente já soube, que está enganando as pessoas. Ela está sendo enganada. E não é um simples efeito placebo. Num nível local isso é simplesmente uma pessoa perdendo dinheiro com bobagem. Num nível maior isso é a falta de apoio a pesquisas com células tronco porque as pessoas não só não entendem a ciência mas acham também que o cientista típico é uma pessoa querendo fazer algo de ruim e disposto a esconder a "verdade" do público.
- Não é só isso. Não, não pode ser! Vai além disso. Ela compra esses CD's com terapias quânticas. É enganação. Há alguém roubando ela. Talvez um louco que acredite colocar algum poder estranho no CD porém muito provavelmente alguém que sabe, ou até recentemente já soube, que está enganando as pessoas. Ela está sendo enganada. E não é um simples efeito placebo. Num nível local isso é simplesmente uma pessoa perdendo dinheiro com bobagem. Num nível maior isso é a falta de apoio a pesquisas com células tronco porque as pessoas não só não entendem a ciência mas acham também que o cientista típico é uma pessoa querendo fazer algo de ruim e disposto a esconder a "verdade" do público.
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