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domingo, 19 de julho de 2020

Pedido

- Faz uma literatura para mim?

- Você quer com vida ou sem vida?

- Depende... onde eu encontro você?

- Fico sentado na beirada das reticências só esperando para cair, sempre.

- Faz assim então, desse jeito mesmo, que eu me jogo atrás e caio com você até o fim da página.

domingo, 29 de março de 2020

Os números

Quando os números de famintos sobe, não estão nem aí.

Quando a economia ameaça soluçar, não querem que os trabalhadores fiquem em casa, porque se não vão passar fome.

Enquanto nós paramos, o mundo veio nos olhar de perto.

Nas ruas, cervos, porcos, cisnes.

Golfinhos entraram nos portos, nos canais de Veneza.

O ar clareou.

Resta saber se vamos lembrar de olhar as estrelas a tempo.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Hipocondrismo

Você abre o diário e vê ali um passado tosco que não é você. Infantil, inocente, patético. Eu leio minhas coisas velhas e simpatizo com o passado. Hostilizo o presente. Sou infantil, inocente e patético hoje mas não sinto que o era no passado. Especialmente quando leio minhas letrinhas velhas. Pode haver qualquer constatação científica nessa observação ou trata-se de uma hipocondria literária, por assim dizer?

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A lot!

-Do you think about coming back one day? After you finish your study?
-No, I just don't have plans regarding these; I think more of what I want to do but I have mo precise idea of where and how; by now my life here is good in this sense, I have more time than in Sao Paulo.

(one day later)

-I gave a short answer yesterday because I was going to sleep. But this is a complex question. The thing is... more and more... I feel like I have no plans. Of course I miss family and friens, and I will see again many times. But regarding my life, my plans never worked the way I wanted, and the most interesting things I did were never planned. I feel like plans are just an illusion and that it is a bit dangerous thinking too much about them; we create potential for frustration or become blind for other possibilities. So, I have no ideia about the future. I might stay here the rest of my life, or change countries many times. I have no idea what will happen, and I have no plans. I always want to be able to learn; I feel pleasure in teaching, in interacting with people in a good way... so I want more of these things; but I don't know more about details... about where, who, etc... Does it make some sense?
-For me, a lot!

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Um talvez

Sou louco com uma sazonalidade indefinida, já aí uma contradição saborosa cheia de desacertos. Em algumas noites estou mais perto de certos imaginários. Noutras sou mais amordaçados pelas preguiças de existir. Tenho rascunhos jogados em meu computador em pastas que escondem uma bagunça virtual que um quarto não suportaria, fosse tudo aquilo papel jogado. Sou rascunhos talvez em um sentido mais amplo.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Diário de viagem genérico

Andei por lugares que não conhecia. Fiz fotos demais.

Quando vou olhá-las? Preciso selecionar vinte.

Dez.

Cinco.

Duas.

Uma.

Apenas uma foto de hoje. Para a posteridade é o que basta. As belas memórias não são resultado de uma vida bem vivida mas sim de um belo trabalho de edição que fazemos sobre a real bagunça de nossa história.

Passei parte do tempo parado em um bar. Pedi uma cerveja. Conversei com algumas pessoas. Ser um viajante é uma bênção para as conversas: é a deixa universal para se iniciar um diálogo com um estranho.

Você vem de onde? Está de férias ou a trabalho? Há quanto tempo está aqui? E como aprendeu este idioma assim tão rápido? E quando vai embora?

Mas é também uma maldição: é difícil, muitas vezes, levar a conversa para além desse calabouço de obviedades. Passo em uma livraria. Compro os livros com a história do local. Hoje estou empolgado. Mas quando vou ler tudo isso? Quais dias serão inúteis o suficiente?

Não posso ler a biblioteca do mundo só porque passei por ele. Preciso aprender a selecionar as coisas.

Talvez seja assim também com as pessoas. Preciso parar de me interessar por todo mundo ao redor.

Estou perdendo tempo com leituras inúteis e deixando passar as que prestam.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O espírito das palavras

Ocorreu-me que as palavras têm espíritos.

Perambulando por aí entre as várias vidas que se desenrolam pude observá-las.

"Eu te amo" sofrendo de solidão quando não encontram seus iguais.

"Peremptório" toda orgulhosa de si, aristocrática, sentindo prazer na altivez do seu isolamento.

Palavras desfrutam de sentimentos diferentes.

Algumas são gregárias, carentes até.

Outras são solitárias, independentes, não querem saber de mais ninguém por perto.

Algumas são imediatistas.

Outras parecem exalar a própria eternidade.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Espelhos

A pior coisa que pode acontecer quando se quer guardar um segredo é conseguí-lo. Pois foi o que aconteceu. Guardei um segredo sem saber que com isso eu guardava uma parte de mim para fora do mundo. Uma parte de mim que agora não está no mundo, não faz parte desta realidade. Não existe, embora exista. Não importa, embora importe. Não se enxerga mas está lá. Então não tenho a quem culpar se não a mim mesmo por toda essa invisibilidadde. Quando as pessoas não entendem o que se passa comigo isso é tão somente reflexo deste meu sucesso de Pirro: o segredo continua bem guardado, ninguém nem desconfia. Foi assim que virei dois. O que existe e o virtual. O material e a sombra. O concreto e o abstrato. Dois em uma dualidade que é em parte dona do mundo e em parte amasmorrada sem luz sem água sem visita, sozinha na solidão fria do isolamento indiferente. Porque é esse o peso de não ser sabido. É esse o peso de pensar sem eco. É esse o peso de amar sem voz. De doer sem lágrima. De gritar sem som. De respirar sem ar. De existir sem corpo. De viver sem você.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Diário

E daí que se viva uma vida diferente? Quantas vidas há para serem vividas, afinal? É uma manifestação estranha disso que nos faz humanos, essa vontade de existir dentro de vidas que já existiram, que estão a existir ao nosso redor. Qual o erro de ser único? Qual o erro de tentar o que nunca foi tentado?

Minha vida é simples. Não estou tentando erger o prédio mais alto.

Não estou tentando conquistar o maior dos impérios.

Não estou tentando fazer funcionar um evento impossível.

Estou tentando, contudo, destruir uma muralha invisível. Estou desafiando o conceito de uma vida bem sucedida. Compro menos. Minha casa não fica maior. Não tenho carro. Não busco salários maiores.

E quanta vida encontro!

E ninguém vê, ninguém vê...

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Outsider

Eu não pertenço a nada. É minha tragédia. É o resumo da minha vida. E é meu mérito também. Mas não porque seja um mérito em si. Antes por ser apenas uma característica primitiva, irremovível, inerente à minha pessoa, tão fundamental que tudo de ruim e de bom que me aconteça pode ser, de um jeito ou de outro, reduzido à essa origem. Não sou institucionalizável. Não consegui me comprimir ao que exigiam de mim as profissões que tentei. Não pertenço a país nenhum. Meus documentos são antes equívocos que constatações. Não me defino nem mesmo como escritor, essa vagabunda profissão de não exercer nada além de delírios. Não que não me faltem delírios. Mas transformá-los em profissão exige disciplina, exige domá-los. De algum jeito, louco e inconsequente como todo o resto, rejeito submetê-los a tal atrocidade. Delírios domados já não são tão delirantes.

Mas o pior, é o mais assustador, é que delírios domados já não são capazes de encontrar sua própria verdade: curvaram-se à loucura que criou os moldes de sua dominação.

É essa a dor do parto: permanecer louco como único modo de não sucumbir à loucura dos outros.