quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Massa zero

Você por acaso já acordou e, ao olhar em volta, ao olhar pra você... Ao olhar pela janela... de repente sentiu essa profunda sensação de não ter certeza de quem é? Sua vontade para as coisas do dia não existe, você não a encontra. Seus trabalhos não fazem sentido. Não há um desespero, uma razão profunda para que você saia da cama e vá movimentar-se pelas próximas horas. Pouca diferença faz sair ou não. Nenhuma diferença faz. Seu dinheiro chegará da mesma forma. As pessoas lhe tratarão bem, com apreço, quer você vá quer você fique. Nada mudará no mundo. Seu existir se iguala a um inexistir e você então fica atordoado diante da magnitude transuniversal dessa incontornável insignificância. Já se sentiu assim? Não é nada interessante...

O mundo continua lá fora a despeito total do que sinto aqui dentro. À revelia do que faço, do que deixo de fazer, do que sou, do que não sou.

Li que os físicos detectam no espaço a presença de matéria escura pelo efeito gravitacional que ela exerce à sua volta. Um sujeito sem gravidade social é efetivamente um sujeito sem massa social? Sou um humano verbalizado, letrado, vestido e vacinado, e ainda assim, de certa forma, um apêndice da sociedade.

Não se interessam pelo que penso do petróleo, das crianças doentes, da fome, das doenças, das desigualdades ou das guerras. Eu também, para todos os efeitos mensuráveis, diante de todas as marcas que estou deixando para os arqueólogos de daqui a mil anos, também não me interesso por nada disso.

Já acordou assim algum dia?

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Exorcismo

Sai, saia daqui! Saia de dentro de mim!

Preciso tirar esse demônio de mim. Esses demônios todos. Essa confraria do mal. Esse inferno inteiro do meu íntimo preciso tirar agora imediatamente.

E esse demônio sou eu.

Preciso deixar de ser outro a cada pequeno depois.

Preciso deixar de lembrar das coisas erradas.

Preciso deixar de precisar dessas necessidades que corroem.

Desejos diferentes, sonhos, sabores. Meu paladar muda a toda hora. Já experimentou isso? Já leu Shakespeare e Paulo Coelho na mesma noite e ficou em dúvida sobre quem seria genial? Já ouviu a suíte para cellos de Vivaldi e depois arrematou com um bom e adequado Zezé di Camargo & Luciano? Nem eu cheguei a tanto, mas hipérboles me divertem num sarcasmo de sorriso largo.

Que nojo de mim. Que podre. Quero o casamento eterno e apaixonado. Quero a putaria porca e imunda dos relacionamentos despurodados de segundos.

Quero todas as vidas. E nenhuma dessas é minha vida.

Preciso tirar esse demônio de mim.

E depois experimentar demônios diferentes. Porque é incorrigível. Porque não vou achar graça em corrigir.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Completa

Sexo. Sabe como funciona? Antes de mais nada, tem que haver tesão...

Sim sim, você ama a pessoa, você respeita, você trata bem e tudo mais. Isso talvez seja pré-requisito para você entrar na brincadeira. Mas uma vez que aceitaram teu ingresso, jogue-o fora. Agora o papo é outro...

Tesão. Uma espécie de sede selvagem. A boca salivando querendo sentir o sabor de tudo. O corpo querendo contato. Suor. Carinhos que oscilam entre leves afagos e arranhados. Gemidos de desespero. Mais, mais maismais! Algo incontido! Tem que transbordar.

É isso: selvagem. E no entato, impressionante, não nos contentamos só com isso. A pessoa com quem estamos importa. Existem por aí muitas que gritariam mais. Outras, quem sabe, pulalriam em cima de mim e me deixariam louco. Será?

Minha falta de empatia se transfigura fácil em um tipo de desprezo. Não consigo ir pra cama com qualquer uma. Uma gostosa, gostosíssima que todos invejariam... Se for burra, ruim de papo, não vai rolar... Minha mente vai se abstrair de tudo aquilo e ficar meditando no quão vil é aquela pessoa... E nada mais vil que sexo, que é o que eu quero, que é o que eu gosto... Mas tem que ser com alguém que tem vida. Talvez isso seja porque os espíritos não tolerem deixar os corpos ali, sozinhos, transando... Querem transar também. Espírito copulando com espírito. E, para isso, precisam se querer. E tesão de espírito não é por questões de corpo, já que são imateriais. Obviedades...

Tem loira gostosa com espírito canhão desdentado. Tem mina meio capenga com espíritos deslumbrantemente tesudos.

E se eu achar a melhor das combinações, agarro e não largo nunca mais!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Aquele chato do bar

Ele era um grande de um filho da puta que sabia desde sempre que aquilo era pra lugar nenhum. E claro que não contou pra ela. Sabia que ela acreditava ter achado um grande amor, e sabia que seria incapaz de corresponder. E não contou pra ela. Um grande de um filho da puta. Desses que às vezes dava calote até no bar em que passava todas as tardes bebendo com os amigos. Falando mal dos outros. Contabilizando mulheres. Aumentando e inventando vantagens.

Ele era um grande de um filho da puta. Mas é fato: a gente ria com ele. Ele falava com desdém, quase cuspindo pro lado, todas essas coisas que se às vezes a gente se flagra pensando, faz um esforço danado pra virar pro lado e fingir que não aconteceu. A gente ria! O que mais ia fazer? Balançar a cabeça seriamente e concordar? Endossar aquela chuva de verdades? De modo algum. A gente ria. A gente ria sempre, gargalhava.

E era duplamente bom. A gente condenava como inconcebíveis todas as nossas verdades secretas, e de quebra voltava pra casa com o alívio de ter encarado o assunto de frente. Fuga, é verdade, mas só depois de olhar o bandido nos olhos.

Era um grande de um filho da puta. Mas todo mundo gostava dele.

Boa noite

Olho no fundo dos seus olhos, reparo no contorno das pálpebras. E mesmo em detalhes assim tão longínquios, lá de longe, de algum outro lugar no seu rosto, vem a luz do seu sorriso. Muito piegas dizer assim? Mas é assim que sinto. Seu olhar contém seu sorriso. Fala dos meus olhos. Diz que tenho olhos bonitos. E penso, sempre penso: de que adiantam olhos bonitos? Olhos bonitos não fazem rostos bonitos de olhar. Não fazem pessoas bonitas de olhar. Seus olhos não vieram com as cores da moda. Mas seu sorriso é perfeito e seu olhar é irresistível. Acaricio sua testa. Respira serena, paz. Queria que o universo inteiro sentisse sua paz. Meu universo sente. De repente você é meu universo todo e o mundo fica correto. Tanta coisa que não entendo, e de repente não me preocupo em saber mais nada. Estou feliz e basta. Obrigado.

domingo, 15 de setembro de 2013

Dos direitos

De que adiantaria eu registrar a autoria de algo, se eu não sei, para início de conversa, quem detém minha autoria? Seria me apoderar dos direitos de um outro que eu nem sei quem é. Injustiça e covardia ao mesmo tempo, inafiançável.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Dois anos

Dois anos... daqui a dois anos este post estará indo para o ar.

Isso se o mundo não acabar.

Isso se o servidor ainda existir.

Isso se eu não o deletá-lo por qualquer dessas tantas bobeiras passageiras.

O que terá acontecido nesse meio tempo?

Como era a vida nesse dois anos atrás que ainda não existe?

Medos e sorrisos juntos no mesmo pacote. O saquê não embebeda o suficiente, e podia ser eu caído na calçada; me largaria lá.

E os sintomas de saudade? E a liberdade? E o colo?

A única, a única certeza...

É que o tempo vai e o vento vem e nada além . . .

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Capítulos

Sou o nome de alguém que não existe e que ainda assim é tímido demais para publicar os próprios textos. Assim, além da capa pseudonômica escondendo o rosto e as canelas faço também de outras artimanhas: jogo os textos no quintal até outras eras.

E há pouco estava procurando coisas para colocar no blog. Coisas escrita dois anos atrás. Três anos atrás. Nem sei. Isso dribla a timidez. Depois de tanto tempo sou outro. Sendo outro, os textos não são meus, não completamente.

Mas algumas coisas, quando escrevi, pareciam abismos incontornáveis. A tristeza de um abandono, um momento difícil que eu precisava exteriorizar de qualquer jeito em uma tentativa louca de amansar as dores. E agora aconteceu uma coisa inacreditável: li um texto meu, um momento em que fui abandonado, uma expectativa cheia de pulsações que não foi correspondida. E, ao ler o texto... não pude me lembrar do que se tratava! A leitura não teve rosto. Não teve cheiro, não teve momento, não trouxe nome.

Diante desses esquecimentos algumas pessoas reclamam os efeitos nocivos do tempo. Choram a memória fraca. Outros julgam que a memória que se foi levou também uma oportunidade de aprendizado. O que aquela breve relação poderia ter me trazido de maturidade a mais foi pro ralo junto com os detalhes das lembranças...

Acho diferente. Acho que esse esquecimento é, justamente pelo esquecimento em si, o melhor que essa história tem a oferecer em termos de amadurecimento. A descoberta de que as coisas mais importantes e agudas que vivemos são ofuscadas pelo gigantismo do tempo até desaparecerem. A certeza de que não importa o quão grande seja o que quer que eu viva hoje, para o bem ou para o mal, o futuro é muito maior. E que venha o futuro.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Tinha que ser assim

É, vai embora, some! Não precisa voltar, não precisa aparecer, não precisa ligar. Não, eu não tenho explicações pra isso. Não, eu não quis que terminasse assim. Eu acreditei. Eu dei meus votos de futuro bom pra essa coisa toda. Eu quis você. O que foi que aconteceu afinal? Você é quem deveria me dar respostas. Você é menor que seus desejos de mim, e sua pequenês me enoja. Não é o que eu imaginava em você. Não a culpo, mas me decepciono. Eu ia te ver. Eu tomei banho. Eu penteei meu cabelo. Eu escolhi a roupa e gastei o restinho do melhor perfume. E você avisou que não iria. Então não vá nunca mais.

Não vá mais, pois pra mim não é algo pequeno... Era o que eu queria de você, era o que eu queria de você mais que seus beijos, seu corpo, seus abraços apertados ou seu olhar desesperado. Eu queria de você sua companhia. Eu queria você dentro da minha solidão. Você não quis ir. E agora só quero que se vá.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Himalaia

Fiz de todos os esforços para entrar no seu mundo.

Entender suas alegrias. Não gosto de tomar cerveja.

Saíamos para tomar cervejas diferentes e aprendi a história de alguns rótulos. Não gosto de filmes de hollywood.

Íamos toda semana ao cinema e vimos os filmes que você queria ver e não víamos os filmes que você não queria ver.

Gosto de ler. Gosto de sair. Gosto de viajar.

E ficava com você na sua casa no sofá, cortinas fechadas, longe do Sol, assistindo televisão.

Tudo o que não gosto na tentativa de entrar no mundo de alguém que gosto: você.

Pois é, nem sei explicar o porquê de gostar de você, mas sei que fiz de tudo para valorizar suas alegrias. E agora sinto que não é recíproco. E mais uma vez você menospreza minhas alegrias. Tudo em mim que é bom diz respeito ao seu mundo, às atenções que lhe tenho, e todas as coisas do meu mundo são coisas que não prestam, distrações irresponsáveis e sem sentido.  E além disso, ... , ... ah, esquece =/

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Quando o amor acaba

Ela ama livros.

Ela é independente, mora sozinha.

Ela é feminista sem ser chata.

Ela adora animais.

Tem um cachorro gigante.

Ela pilota motos.

Escuta rock e MPB com sorrisos e gingas.

Ela tem amizade com muitos,

Intelectuais ou marginais,

Boêmios ou abstêmios.

Mas ela gosta do que o Diogo Mainardi escreve,

E ela achou chata todas as crônicas do Antônio Prata que leu.

Adeus.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ordens

Amando
perdidamente
um amor
que se perdeu

A mando
perdi da mente
uma dor
que se rendeu

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Acordes

Vou pegar o carro do meu pai. Escondido. Vou lá na casa do Guilherme. A galera tá falando que eu canto bem, deve ser verdade. Já pensou se dá certo? Viver de música. Nada de ir pra faculdade... A faculdade deve ser uma versão piorada da escola. Na escola, pelo menos, as pessoas acreditam que há algum futuro pela frente. Na faculdade já se sabe que nada vai dar em porra nenhuma, daí a galera só quer saber de ficar no bar e de empurrar tudo com a barriga. Esforçam-se, aliás, em desenvolver uma barriga melhor para uma missão tão nobre.

E se meu pai vier atrás de mim? E se eu bater o carro? E se a polícia me parar?

Mas a Cris vai estar lá quando eu chegar. Ela vai ver eu chegando dirigindo o próprio carro. Tá certo que vai ter um monte de playboy com carro rebaixado, turbo, coisa e tal. Mas eles já trabalham. São maiores. O meu carro pode ser zoado, pode nem ser meu, mas tem toda essa ousadia por trás. Quem pode competir com isso?

E se eu estiver jogando meu tempo fora? E se a vida não for nada além de estudar, trabalhar e pagar boletos entre uma fralda e outra? Talvez eu esteja jogando meu tempo fora.Talvez eu esteja alimentando ilusões. Talvez nenhuma dessas pessoas valha a pena.

Muitas perguntas. E não consegui responder a nenhuma delas em meus devaneios do Jabaquara ao Tatuapé.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Decidida

Unhas caprichadas. Óculos de armação colorida, porém discreta, combinando com o restante das roupas. Feminina. E feminista. Até não poder mais. Mas com princípios, com a cabeça funcionando. Nada de querer queimar todos os homens na fogueira e querer que as mulheres assumam o comando de tudo como se tratasse de uma guerra definitiva. Abdicou do conforto do dinheiro paterno e foi viver sozinha. A renda mensal é pequena, mas alimenta o aluguel, as comidas, os livros, os cachorros e a gasolina. Os amigos que a vida não lhe trouxe, foi buscar por conta própria. Passa os dias da semana em um escritório driblando ordens mal dadas e desafios mal dimensionados. Chega a seus resultados como um náufrago que faz milagre para chegar à última ilha possível. Triunfa. Sua cabeça só tem futuros: cursos, viagens, livros por ler, risadas novas, encontros com os amigos, encontros de motoqueiros, shows de rock, fotos e poesias. Não há lugar para passados, rancores e solidões. Acredita na humanidade embora a humanidade a trate como uma aberração errada. Por que não ir logo para um emprego em que se ganha mais? Por que não casar logo e cuidar da casa sob o salário amordaçante do marido? Por que não ter filhos? Por que não parar de ler esses livros? Por que não aquietar esse feminismo que não muda o mundo e irrita os amigos? Ela sabe o que quer. Ela sabe quem ela é.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Paralelos

Estou em uma livraria. Sentado em uma das mesinhas do café, me ocupo em escrever um livro.

Penso que seria ridículo ir a um açougue matar um boi, coisa que deve sempre ser feita em outro lugar.

Sou ridículo?

Quesões imobiliárias

Há um tempo havia ali uma estante estilo futurista, para a época. Coisas que os anos setenta sonhavam para o novo milênio. E muitos enfeites de plástico, cores vivas, espíritos alegres. Há hoje uma cadeira de perna solta, mal pregada. Poeira acumulada nos cantos, dessas que se pode juntar aos ponhados com a mão mesmo. Um pó branco se acumulando nas quinas: pintura da parede que vai descascando. A parede não quer mais esperar por novas alegrias e se está indo embora.

No quintal havia um pé de limão, chão de terra e cheiro de vida. Crianças brincando com seus brinquedos simples, madeiras, bolinhas e carrinhos. Alheias ao preço das coisas e mergulhadas no valor daquele momento. Hoje só há ali o azedo ácido do vazio. Tudo é cimento. Onde antes era o jardim, terra viva, cimento. Onde antes estava o pé de limão, cimento. Onde antes corriam as crianças coloridas de sorrisos e gargalhadas, cimento. A construção retirou o aspecto rústico daquele cantinho de cidade que mais parecia um lar de caipiras. Está tudo mais urbano: mais quadrado, mais cinza, mais morto.

Pelas bandas de cá um metro quadrado agora vale milhares de reais. Talvez vendam a casa. Talvez usem o dinheiro para comprar outro lugar. Um lugar mais alegre. Que imóvel vem com crianças e alegrias?

As torneiras pingam. O teto desaba pedacinhos minúsculos por dia. A pintura descolori e se esvai em poeiras, poeiras que se misturam aos lixos não varridos de outros cantos, trazidos pelos ventos, que se acumulam em todas as frestas. Elas ainda vivem ali. O irmão mais velho casou. Os filhos casaram. O marido de uma foi embora e a outra nunca casou mesmo.

Olhando bem, a casa continuava fielmente fazendo sua parte. Continuava fielmente ecoando a alma de seus habitantes. Uma pena que agora tudo o que havia por ecoar era este frio vazio e empoeirado de vidas que não se riem juntas...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Tio Thobias

Meu tio Thobias é meio careca. Não sei se por algum particular da genética ou porque os cabelos lhe vão fugindo, angustiados, em busca de algo melhor. Quando jovem adorava histórias de ficção. Isaac Asimov, Perry Rhodan, esses mundos imaginários. Logo cedo na vida os namoricos às escondidas trouxeram o primeiro filho e o casamento. E a responsabilidade de trabalhar. E os tempos livros eram emoldurados de condenações:
- Larga esses livros, Thobias!
Convenceu-se. Largou os livros. Cuidava de instalar prateleiras novas, retirar o bolor do teto do banheiro, arrumar a goteira na torneira da pia. Já o fazia antes, mas agora não tinha suspeitas de jogar tempo fora. Suas distrações descobriram os bares e as cervejas. Passando o tempo de um jeito tradicional não iria despertar suspeitas. Em momentos de discussão, ainda era incentivado:
- Afe... por que não vai lá pro bar com seus amigos?
E ia...
- É gente, estou me sentindo igual naquela história em que um astronauta vai sozinho a um planeta que ninguém conhecia, sabe?
- Ai ai Thobias, você nem tá bêbado ainda e já vem com essas suas histórias? Manda mais uma aí e vem jogar mais um truco com a gente!
E assim suas paixões se diluiram na normalidade. Trabalhou na prefeitura. Trabalhou como eletricista. Trabalhou como carregador. Há alguns anos trabalha de motorista de um carro funerário. Talvez seja sua desesperada tentativa de esconder, por contraste, que quem está morto é ele.

domingo, 25 de agosto de 2013

Sour Times

Eu adoro ouvir Portishead... Especialmente de madrugada. Especialmente em madrugadas chuvosas, como essa... E deixo rolar, deixo tocando. Ainda bem que estou sozinho em casa, faz um bem danado a essa música. Ainda tem os copos de vinho espalhados pela sala, mas já foram todos embora. E estou no limiar de uma ressaca. Tudo, tudo para tornar a música perfeita.

Me jogo sobre o sofá mas entendo que não combina... Vai rolando Strangers, It could be sweet, e eu entendo que o sofá ofende a música... E me levanto e vou para o chão, fico sentado num canto, olhando a penumbra da luz da rua invadindo a sala e um ou outro flash de relâmpago brilhando em tudo. Perfeito, perfeito!

sábado, 24 de agosto de 2013

Duna

Se eu fizer da minha falta de tema meu tema oficial, em primeiro lugar passarei a ter uma linha de trabalho definida. Porém, inescapavelmente, cairei também em contradição. Eu até posso ser um escritor fajuto sem assunto, mas quando começo a me dar conta disso, corro o risco de arquitetar minha auto-destruição. O que fazer? Desistir de escrever só para curto-circuitar o cérebro no nada? Escolher um assunto, afinal? Se toda mente inquieta do mundo se desse ao trabalho de verbalizar suas inquietudes sem conteúdo, quem se prestaria a ler tudo isso? Já tem muita gente pensando sobre tudo, outras vivendo coisas diferentes, em lugares diferentes e de jeitos diferentes. Bandidos, gênios, heróis, safados. Tem de tudo lá fora. Não posso só sentar aqui e aniquilar-me num simples Nada que observa? Posso... não posso?

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Todos os dias

Não gosto da invasão de minhas vontades, gosto da paz do meu silêncio ou de incensura nos meus barulhos... Quando sou? Sou nos silêncios impostos dos convívios? Ou finalmente sou apenas na insignificância obscura do completo isolamento com toda a liberdade que lhe é peculiar? Quando não sabem de mim, sinto ser o que me imagino. Quando observam todos de perto, sinto ser apenas em segredo, sem que me saibam. Sem que seja de verdade. Misturado aos outros, facilmente se é mais reflexo que luz. Ou talvez seja só impressão. Talvez todos brilhem e eu apenas não goste da idéia de ser também só mais um. E o que seria mais humano?

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Curto-circuito

Eu não acredito nesse papinho barato de exotéricos exóticos místicistas que saem por aí falando de "energia". Energia positiva dali, negativa de lá... Eles não sabem calcular a energia cinética de uma pedra movendo-se a um metro por segundo e muitas vezes, nem mesmo, avaliar corretamente uma conta de luz. Pergunte a eles o que é um "quilowatt-hora"... Então, sem nem precisar discutir a viabilidade filosófica de algum conceito de realidade exótica, posso dispensá-los pura e simplesmente por estarem fazendo um péssimo uso do vocabulário disponível.

Mas embora a fenomenologia que professam esteja errada, devo admitir que ao menos alguns dos fenômeos que buscam explicar de fato ocorrem. Dizem esses místicos que há pessoas por aí que sugam nossa energia. Não, não há pessoas que sugam nossa energia. Mas há, de fato, pessoas que colaboram para que nosso ânimo se esvaia. Há todas as combinações possíveis... Duas pessoas podem fazer um bem danado uma a outra. Qualquer uma delas pode se sentir ótima com o relacionamento que têm ao passo que à outra este é extremamente danoso. E pode ocorrer também que a ambas nada de bom se manifeste.

Duas possibilidades são muito boas: pessoas que se fazem muito bem e pessoas que, mutuamente, se fazem muito mal. Sim, este último caso também é bom, pois em pouco tempo ambos reconhecerão que não há que se misturarem e pronto, problema resolvido, mutuo acordo, sem traumas. Mas duas combinações são potencialmente catastróficas... Sim, pois quando uma pessoa faz um mal danado a outra, mas essa outra faz um bem danado à primeira, tem-se uma forte assimetria que induz uma espécie de instabilidade dinâmica: se a coisa toda já era ruim inicialmente, tende com o tempo só a agravar-se.

Não preciso apelar a energia negativa, vibrações do astral ou sei lá mais o quê. Esse fenômeno do transfluxo de ânimos deve de alguma forma assentar-se sobre explicações físico-psicológicas que não impliquem em abalo nenhum à ciência moderna. Mas fica a conclusão de que devemos reconhecer o que uma pessoa recém-conhecida é pra gente para que possamos administrar tudo da melhor forma possível.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

E daí

Só se sabe experimentando.

A mente engana. Conhecer de ouvir falar é conhecer histórias mas é diferente de conhecer as coisas historiadas.

Conhecer não tem palavras. Tem tato, calor, cor e sabor.

Toda opinião possível mora entre amar e odiar.

Eu admito a maior parte do tempo ser alheio às coisas, ou as coisas serem alheias a mim. As coisas e os assuntos. Que mania besta das pessoas essa de inventar uma opinião sobre tudo. Nisso eu opino: acho besta. Deixo o resto do mundo correr em paz e dou atenção às quatro ou cinco coisas que importam na minha vida. O resto não inoportuno e espero que me deixe em recíproca paz.

Posso até discutir a fome das criancinhas da África, mas depois da sobremesa, por favor. E por que é errado?

É errado e frio deleitar-se num farto churrasco e guloseimosas sobremesas enquanto se pensa na fome mundial, mas não o é nos dias comuns enquanto se pensa em outra coisa? A indiferença é uma falha moral sem crise de consciência, e como paz de consciência é algo muito difícil de se conseguir por outros meios, a indiferença se infiltra em todos os poros sociais como uma anestesia se infiltra nas veias do nervo canceroso.

E é assim que vi o mundo quando saí pra andar de bicicleta à noite. E não achei errado e nem certo. Não voltei pra casa nem mais triste nem menos feliz. Voltei só mais cansado de pedalar, tomei um gole fresco d'água. Só tinha visto que o mundo é assim. Só, tinha visto que o mundo é assim.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Camisa de força, camisa de carinhos

As camisas de força assustam os loucos.

Mas as forças não assustam você também?

E se fossem camisas de carinhos, abraços e sussurros?

Quem seria louco de fugir?

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Mudo - 2

Sou assim, mudo.
Mas se você deixar,
Ainda mudo!

domingo, 18 de agosto de 2013

Mudo

A gente às vezes é plano e às vezes tem tantos lados. Arestas. Cantos. Fundos e rasos. E eu me perco. Não faço a menor idéia de onde estou. De qual dentro de mim que sou. Hoje foi assim. Hoje você falava, falava, falava. E eu quieto. E eu me procurando. Covardia. Covardia? Foi o que foi. Foi como aconteceu. Guardei coisas que não sei onde estão. Não sei onde foram parar. Procurei, procurei procurei procurei. Só que não achei.

sábado, 17 de agosto de 2013

Frio

Se um dia eu comprar uma puta, vai ser no inverno. No frio as putas, mais vestidas, são muito mais mulheres.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Modéstia egocêntrica

Me orbito

Me gravito

Se distrair

Me óbito

Nem vi

Me sinto

Me sirvo

Se distrair

Me sento

E olho

E nem vi

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

M

Você, com seus costumeiros sorrisos esbanjados e olhares admirados e admiráveis, contando feliz...

Contando que ele é um cara tão inteligente, viajado, conhece o mundo inteiro...

E eu, introspectivo, pensando: "é, eu só te amo..."

Você contando que ele é engraçado, um humor refinadíssimo, foi super divertido jantar com ele outro dia...

E eu, olhando pro alto meio de canto, pensando "é, eu só te amo".

Você contando que ele pagou a conta, que só sua parte passou fácil dos oitenta reais, mas nem sabe precisar quanto, ele não deixou que você visse...

E eu meditando sobre a leveza etérea da minha algibeira: "é, eu só te amo".

Você contando como era repulsiva às primeiras investidas dele. Ele namorava, que coisa horrível! Mas declarava todo amor a você, terminou o namoro. Insistiu, te contrariou, brigou. E você começou a considerar ceder, toda encantada.

Eu, mergulhado na estranheza desumana de tanto respeito que lhe tenho, considero: "é, eu só te amo".

Eu te amo, é só. Vá, viva e seja feliz. Vá!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Virtual

Ele endoidou. Pirou. Não queria mais a própria vida. Foi na internet e fez outra. Hoje em dia essas coisas são quase de graça. Surpresa: o outro eu era mais querido que ele próprio, vejam só! Eis que se revelam por meio de ironias saborosas essas verdades fundamentais: nossas espontaneidades cativam muito mais que nossas vergonhas. Assustado, deletou-se de si.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Conexões

Tem quem esteja discutindo esse último assassinato horrendo, que não sai da TV. Tem quem esteja preocupado com os prazos do trabalho porque a semana corre e logo é sexta-feira e logo o chefe vai conferir se está tudo em dia. Tem quem esteja neste exato momento indo para o hospital, mergulhado em aflições, pelo parente que está com a vida em risco.

E o que importa tudo isso? Eu faço sempre esta pergunta: o que importa? Não deveria me importar, deveria? Minha própria vida. Deveria me importar apenas com minha própria vida.

Os lugares para onde vou. As pessoas com quem falo. As histórias que eu escuto. O que seria de tudo isso se não fosse o resto do mundo? O que seria da minha vida se não fossem todas as outras coisas com que nem me importo? Essas coisas das quais nem sei... coisas fundamentais.