Em tempo: fui a uma agência dos correios dias atrás. Pedi uma caneta emprestada. Era uma caneta BIC. Notei que havia um papel dentro dela. Dizia: "Êxodo 20-15: NÃO FURTARÁS.". As BICs deveriam vir com este papelzinho já de fábrica.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Foto #008
Em tempo: fui a uma agência dos correios dias atrás. Pedi uma caneta emprestada. Era uma caneta BIC. Notei que havia um papel dentro dela. Dizia: "Êxodo 20-15: NÃO FURTARÁS.". As BICs deveriam vir com este papelzinho já de fábrica.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Foto #007

Não sei se falo sobre a combinatória dos símbolos, sobre a comunicação humana ou sobre distâncias. Ou se falo sobre aquela poeirinha ali, entre os teclados. Nojento, né? Mas é também um testemunho do tempo. Um efeito inexorável. Quantas e quantas vezes já vi a faxineira do escritório com um paninho sobre esses teclados. Acho que foi ela, na verdade, que estragou as teclas dos telefones que tiveram que ser trocados. O Luiz, da mesa ao lado, gabava-se de poder continuar usando seu aparelho ruim. "Tenho a sorte de não ligar para ninguém com o número sete!" Como o sete é cabalístico, isso deve ter significado algo. Mas nunca entendemos a mensagem e por fim os astros autorizaram a troca por um aparelho mais "novo". Uso as aspas pois todos os aparelhos têm a mesma idade. Compraram trinta aparelhos, anos atrás, quando as ambições tiveram acesso às verbas. Mas as cinco pessoas dessa salinha comprovam: os negócios nunca deslancharam como imaginaram. Isso porque algo deu errado na combinatória das possibilidades, ou na comunicação dos símbolos entre as pessoas. Ou porque vendedores e interessados permaneceram, sabe-se lá porque, mais distantes do que deveriam.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Há tlânticos...

Sei das distâncias. Das distâncias de estar perto. Das distâncias de ouvir à noite. Das distâncias de entender que a vida tem um tamanho finito. O que serão dos dias? Já achei que fosse morrer. E não te dei tchau. Já ganhei na loteria. E não pulei com você sobre a areia da praia. Rindo com estranhos. Provando pra todos que a vida é boa. Que o mundo é bom. Você é um sonho e não sei direito quando foi que acordei. Ainda estou sonolento, tateando as paredes do corredor em busca de um copo de água na cozinha. Quantos copos de água até esvaziar o Atlântico e atravessá-lo a pé? Quantos sonhos até voltar no tempo? Quantas vezes o sol se por até que aqueles dias se apaguem?
Foto #006
... sempre por um fio.
Nossa idade não é muito diferente. Ele é três anos mais velho.
Mas ele tem uma casa, uma esposa e uma filha. Coisas que eu não tenho.
Trabalha numa sala próxima.
E de repente, chega a enfermeira-chefe do ambulatório: "Ué, o Fred não fica aqui? Onde ele está?"
Levei-a até a sala dele. Ele estava debruçado sobre a mesa. Não seria uma simples dor de cabeça para motivar alguém a pedir ajuda diretamente ao ambulatório pelo número interno de emergências.
Eu ajudei a carregá-lo. Por duas vezes quase não se aguentou em pé. Estava suando, com o corpo quente, parecia saído de um forno a alguns segundos antes de derreter de vez. Colocamos o Fred na ambulância e eu fui junto, ajudar a retirá-lo.
E quando chegamos em frente ao ambulatório ele estava gelado. Frio frio frio. Olhar distante. Fala lenta. Seria uma queda de pressão neste calor infernal? Ataque de labirintite ou algo assim?
Depois a secretária me confessou, a boca pequena. Leucemia. Ele também tem leucemia. Toma uma tonelada de remédios. De tempos em tempos tem alguma crise.
Eu não sabia de sua silenciosa luta contra essa maldição. Tudo o que conheço é o sorriso intenso com que Fred cumprimenta todo mundo que vê, espalhando energia e otimismo por aí.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Dos lugares...
São Paulo não é uma das cidades mais bonitas do mundo: é um lugar lotado, barulhento, uma cidade que só serve para fazer dinheiro. Mas ainda assim descubro alguns encantos escondidos. Caminhar descendo a rua Augusta em um fim de tarde. Todo mundo saindo do trabalho, vivendo suas vidas, e você ali, à toa, andando sem horário, sem compromisso. Descobrir lá embaixo a Rua Avanhandava. Um lugar que nem parece estar em São Paulo, e isso talvez se deva à cara da Avanhandava ser tão genuinamente paulistana. De uma São Paulo que já não existe mais.
O sebo do Messias, de que tanto já ouvi falar. Com as putas zoadas ali na frente e os clientes que aparecem para negociar de tempos em tempos. Há uma poesia acontecendo ali. As putas ficam às costas da Catedral da Sé, mas estão entre as lojas de flores e ficam de frente para o Messias. Aliás, quando noto que o próprio Messias está fora da igreja, minhas dúvidas já começam a coçar.
Não vou concluir meus estudos em tempo hábil. Deveria ir ler os artigos. Os "papers". Deveria procurar um lugar para escrever. A escrivaninha de casa. Uma mesa em alguma biblioteca. O boteco no lado da república em que estou, lá na Santa Cecília. Aliás, a Santa Cecília... Lembra algumas cenas do filme "Ruas de Fogo", que passava no SBT quando eu era jovem. Já fui jovem.
São Paulo é uma cidade gigante. Mas em sua impessoalidade, em sua pressa para que tudo aconteça o quanto antes - o atendimento na padaria, as pessoas nas catracas do metrô -, encontro um espaço de paz. Esse espaço de estar sozinho ainda que estando rodeado por um mundarél de gente. Perdido por aí com meus pensamentos. Sensação nova para mim. Sensação ambígua. Cidade ambígua.
Foto #005
Se os rumos da vida fossem ditados por máquinas. Por engenhocas. Não. Não são. Parece que foi o Steve Jobs que disse, em um discurso, que percorrer a vida é como percorrer uma estrada escura em um carro cujos faróis iluminam apenas poucos metros à frente. E você tem que escolher para qual lado virar sempre que aparece uma bifurcação à frente. Mas não consegue ver ande as estradas vão levar. Só alguns metros à frente. Para qual lado virar?
domingo, 4 de janeiro de 2015
Foto #004
Onde há dúvida, há liberdade
Vi esta frase tem já uns tempos. Não sei onde. Se na pós-graduação em filosofia ou se na Contigo jogada na salinha de espera. Achei bela. Traduz um ideal. Não acho que seja, estritamente, verdadeira. Podemos, acorrentados, duvidar da razão daqueles que nos aprisiona, e ainda assim continuaremos presos. Mas essa frase trata de coisas mais profundas. Não na dúvida, mas na liberdade. Uma liberdade mental. Uma liberdade conceitual. É ali, não é, que as coisas começam. Na liberdade mental. No mundo das idéias. Nos questionamentos. Quando dizem a você que o comunismo foi uma catástrofe, e que não tem como funcionar, e você acredita prontamente, sem reconhecer que está comprando uma conclusão sem ter um profundo contato com os detalhes do raciocínio, então não é livre. Quando lhe dizem que o capitalismo é a fonte de todos os males da humanidade, e que o interesse privado e o egoísmo dos burgueses escraviza a classe média moderna, e você ecoa essas afirmações sem verificar melhor como o mundo funciona... Existem tantas formas de escravidão, não é? Nossa espécie é particularmente adaptada às escravidões sem correntes. E só há liberdade em um lugar: onde há dúvida.
sábado, 3 de janeiro de 2015
Da minha lista de desejos
11 - Ignorar educadamente as pessoas ao meu redor para conseguir dedicar ao menos três horas do dia para aquilo que, pela manhã, planejei me dedicar.
Das críticas
Quando você critica alguém, ou um grupo, quem exatamente você está criticando?
Tenho visto que as críticas se dirigem aos estereótipos e não às verdades, às essências.
Quem odeia os petistas gostam de dizer como os petistas são idiotas. Mas o fazem com base no que o lobão falou dos petistas. Com base na crítica que o super imparcial Arnaldo Jabor escreveu sobre os petistas.
O mesmo vale para um petista criticando um direitista genérico.
Se os seres humanos se ouvissem mais, imagino, iriam se descobrir muito mais similares do que imaginam.
A humanidade luta contra inimigos imaginários. Critica fantasmas que não existem.
Ou então sou eu quem estou imaginando coisas...
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
De braços abertos, de coração aberto
Muitos familiares queridos estão longe. A calça está sendo repetida já há alguns dias. Demora chegar até ali. Estrada de terra. Desviando de pedras, buracos, lama. Ponte de madeira sobre o pequeno riacho. É claro que há toras quebradas. Um lembrete de que o tempo é implacável e a segurança é duvidosa, mera ilusão. Sigo em frente. O lugar, no meio da floresta, é de paz. Gansos correndo pelo gramado. Cachorros tranquilos, amistosos. Animam-se com a minha chegada e vêm pedir um pouco de carinho.
As pessoas estão me esperando para o jantar. Não é minha família. Mas é minha família. São as pessoas que estão aqui me acompanhando, esperando por mim.
Não era aqui que eu imaginava estar. Não era com essas pessoas que eu imaginei estar. Mas é aqui que estou. Feliz pelos bons imprevistos da vida.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
... mais um começo!
Feliz 2015! Neste ano vou escrever todos os dias. Todos! Vou manter meu diário atualizado. Vou sair para caminhar pelas ruas. Fazendo caminhos diferentes sempre que possível. Vou passar em frente a quitandas, aquelas pequenas, administradas por um velho senhorzinho e seus dois filhos. Que estudaram, um é dentista e a outra é veterinária. Trabalham ali perto em suas clínicas, mas ajudam o pai na quitanda sempre que podem. Nada de redes franquiadas. Em 2015 não vou frequentar redes franquiadas. Vou comer bem. Chegar em casa, preparar um bom suco de laranja, feito a mão. Nada de espremedor elétrico, cruz credo. Não vou ficar falando com testemunhas de Jeová. Mas também não vou maltratá-los nem forçá-los a aceitar meu ateísmo, afinal também são filhos de Deus. Não vou gastar tempo falando mal das coisas. Não vou perder a chance de falar bem das coisas. Aliás, o céu está lindo hoje. Tomei um café da manhã delicioso numa mesa de madeira, numa cantina rústica mas muito bem decorada. Lá fora, um pequeno lago e marrecos. Me divirto com marrecos. Eles têm um jeito estranho de correr atrás das pessoas para proteger os marrequinhos. E os marrequinhos não estão nem aí com nada. Neste ano vou ver mais marrecos. E cachorros, pombos, gatos, jacarés. Quero ver jacarés. Vou andar mais de bicicleta. Vou até São Paulo, usar as ciclovias de lá antes que o PSDB assuma a cidade e resolva acabar com as ciclovias para dar mais espaço aos carros e ajudar os trânsitos. Em 2015 vou falar menos de política. Mas vou fazer mais política. Escrever para vereadores, senadores e deputados. Acompanhar projetos que interessem à minha região. E vou me preocupar em dormir bem. Dormir bem é importante. E não vou exagerar no café. Mas aceito umzinho sim... especialmente se for com um pão de queijo quentim!
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Retrospectivas...
"Tornar-se adulto é também bancar as suas escolhas – e, neste sentido, estar só." - Eliane Brum
Verdade Eliane, verdade. E aí penso que sou mais adulto por conta dessa solidão interior do que pela idade. E assim será até os meus noventa e tantos anos.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Obrigado
Eu ainda não me conformo com a profundidade desse segredo. Quando mais escondo, mas se faz verdade por todas as formas. E tem impactos absurdamente profundos em todas as esferas da minha vida. Não deveria. Talvez venha a ser uma enorme decepção pra ela quando finalmente ficar sabendo. Talvez ela se sinta de alguma forma responsável por coisas que não deveria, que são totalmente de minha responsabilidade. Essa história toda me fez outro. Outro diferente do que eu seria. Guardar coisas demais dentro de si cria um gigante interior que ganha proporções descomunais, capaz de repente de eclipsar o resto das coisas. Sou outro. Me fiz outro. Deixei ser outro. E no entanto das mais estranhas formas, essa é minha gênese, para o bem ou para o mal. O caos atual da minha vida, que tanto me caracteriza, talvez não viesse a existir.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Equilíbrios
As tentativas de compreensão do mundo esbarram, invariavelmente, em histórias de equilíbrios.
Os antigos falavam no equilíbrios dos humores, os fluidos internos responsáveis por nossos diferentes estados.
Os economistas falam no equilíbrio dos mercados, oferta e demanda opondo-se com intensidades convergentes.
Os psicólogos falam em equilíbrio interior.
Os físicos e engenheiros falam em equilíbrio de forças, vetores pontudos apontando para tudo o que é lado até que nada aconteça.
Mas existem outros equilíbrios por serem explorados.
Os equilíbrios de prioridades. O que você acha importante? O que seu vizinho acha importante? O que o presidente do país acha importante? O que o mendigo na rua acha importante?
Os equilíbrios de carências. Quem quer fazer o bem aos outros? Quem precisa urgentemente de uma boa ação? Quem quer um abraço? Quem quer abraçar? Quem não quer saber de nada disso?
Os equilíbrios de olhares. De sorrisos.
E séculos depois de começarem a estudar esses assuntos talvez descubram o que a economia só agora ameaça descobrir: o equilíbrio é uma mentira. Inventada pelos estudiosos para simplificar as coisas e possibilitar os diagramas nos livros. A realidade é uma onda, algo que sempre pende mais para um determinado lado, gerando um fluxo em uma determinada direção. A natureza não pára nunca. (sorria)
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Time Lapse
Quanto tempo será necessário para escrever um romance inteiro?
Do que vou falar no meu romance? Vou um dia conseguir viajar sozinho? Morar fora?
Dedicar minhas energias a idéias que nem sei exatamente quais são? Tantas coisas por entender no mundo.
Tantas coisas por fazer na vida.
Vou passar uns dias longe de casa, em breve. Começar um novo trabalho.
Perseguir um sonho. Voar alto em meus devaneios. E a vontade de escrever, mais e mais.
Mas escrever consome tempo. E tempo muitas vezes são horas de sono. Atenção à família. Tempo para estudos. A hora da caminhada saudável. O tempo para preparar uma boa comida. Escrever consome. Consome muitas coisas.
O que é que eu vou escrever, afinal? Vivo escrevendo, como agora. Mas escrevo, a vida inteira, sobre o sonho de escrever alguma coisa.
Não tenho condição de ser um escritor desses super eruditos, porque a vida não me fez erudito.
Ou eu não me fiz.
Não li as coisas que sonhei ler. Não estudei as coisas que sonhei estudar.
Mas tenho dentro de mim um sonho, uma fagulha de curiosidade, e sei que é possível fazer disso alguma coisa.
Matérias abstratas que se tornam concretas por geologias estranhas.
O que vai ser do futuro?
sábado, 15 de novembro de 2014
Paradoxos ou ironias
E conter o amor foi o que preservou um grande amor por perto, ainda que, por fim, destruindo-o.
Como, então, saber o que fazer agora?
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Ato falho
Eu ainda teclo seu telefone sem querer quando, distraído, telefono para alguém em busca de conforto e bons humores.
E escuto sua voz quando deixo minha mente inventar imaginações boas.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Ecos
Eu ainda lembro de você comemorando. Sou o único amigo que nunca se apaixonou por você. Uma amizade que venceu esta estranha barreira do desejo humano que sempre quer mais e mais e mais. Apenas que não era verdade. E desde então ecoa nas torturas de minhas lembranças... Você, feliz da vida com esta grande sorte de eu não te amar.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Vida conturbada
Penso seriamente em mudar de casa. De cidade. De país. De mundo.
Covardia. Impossível não sentir que é tudo uma grande covardia. Fobia que estou deixando crescer.
Medo de todas as pessoas no semáforo. Medo de todos os barulhos que o vento faz à noite no quintal, quando já estou na cama tentando sonhar com a abstração da paz.
Vou para onde? E as pessoas daqui? Essas pessoas todas que gosto de saber que estão por perto ainda que eu não consiga vê-las nunca por conta dessa rotina alucinante.
Um sequestro. A certeza de que o tiro viria.
Cinco meses.
Depois um assalto. A casa arrombada.
Duas semanas.
Outro assalto. O clarinete. A máquina fotográfica. Os computadores cheios de textos, fotos, músicas, leituras, idéias e lembranças.
Mais duas semanas.
Ameaças. Um maluco com a alma recheada de crack e um galão com cinco litros de gasolina na mão.
Penso seriamente em mudar de casa, de país e de mundo.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Perguntas, perguntas, perguntas...
Em um relacionamento, você tem que ser feliz. Namoro tem que ser bom.
Ouvi este conselho algumas vezes.
Briguei esses dias. Briguei com minha namorada. Estou cansado. Nossas diferenças. Os momentos que eu quero ter para mim. As coisas que não concordo nela. Somos diferentes. Somos opostos em muitas coisas. E quem diria que, logo eu, teria problema com os amigos dela? Mas tenho. Não gosto de alguns deles. Não é uma intolerância absoluta, mas preciso de um contraponto. Um espaço para viver meus amigos. Meus lugares. Minhas distrações. Ela vê isso imediatamente como uma pequena rejeição. Não é isso. Não é ofensa.
Invariavelmente, triste, sozinho no meu quarto, paro para pensar: até onde as pessoas são compatívei?
Estamos insistindo em um absurdo?
Por que eu quero ficar com ela?
Por que ela quer ficar comigo?
Por que nos sentimos cansados um do outro de tempos em tempos?
Não sei encontrar todas essas respostas.
Confesso que me permito agir por instinto. E duvido dos meus instintos, ou chego mesmo a concluir algo oposto a ele.
Estou longe dela e sinto raiva. Ela tem idéias políticas erradas. Ela trata as pessoas, muitas vezes, de um jeito que eu não concordo. Não tem as mesmas opiniões que eu sobre quais lugares são legais de serem visitados e quais não são. É quase o oposto do que eu penso, em todos esses aspectos, sempre.
Mas aí eu a encontro. Aí ela vem me visitar. A quem mais eu consigo falar de todas as minhas maluquices mais pessoais, mais escondidas? A quem mais eu consigo falar das coisas que estou escrevendo? Dos meus sonhos bizarros, não convencionais? Talvez, justamente por ela discordar de tudo, mas continuar me ouvindo, eu me sinta acolhido em um nível mais fundamental, e tenha esse ímpeto de retribuir. É uma tentativa de explicar o inexplicável. Quantas vezes sentimos algo e não temos uma completa certeza da explicação?
Consciência. Consciência do que acontece. Quero ser mais honesto comigo sobre essa nossa realidade. Quero ser mais ativo em falar para ela todas as contradições que sinto. Porque nem sempre ela percebe. Sou eu a pessoa que tem a tendência a colaborar, a me controlar para deixar as coisas aceitáveis. Ela é a personalidade impulsiva que, de repente, está reclamando disso e daquilo. Eu me adapto, deixo as coisas mais convenientes. Mas tenho meus limites. Parece coisa de adolecente, de criança. Mas de repente, meio assim na marra, descubro que fazer isso ou aquilo de final de semana não é um mero capricho. É uma necessidade profunda. Minhas caminhadas pelo centro da cidade. Encontros com amigos. Livros que vou ler e meu jeito de passar um tempo a toa. Tudo isso difere do modo dela de curtir os dias livres, assistindo seriados no sofá. Não que eu não tenha dias livres, à toa. Mas nossos modos de vivê-los são diferentes. E isso precisa ser respeitado.
Qual o nível máximo de diferença que ainda permite duas pessoas ficarem juntas?
Às vezes eu acho que somos tão diferentes que é impossível continuarmos juntos. Às vezes eu acho que, justamente por sermos tão diferentes, e ainda querermos ficarmos juntos, a única explicação é a de que nos amamos de um modo bem elementar.
Eu sou uma pessoa barulhenta. Estou sempre cantando e ouvindo umas músicas num volume um tanto quanto intrusivo. Não sei se ela aguentaria ser, sequer, minha vizinha. Quanto mais vivermos juntos um dia. As músicas que gosto de berrar por aí nem sempre são do agrado dela.
Estou acostumado a ser sozinho. Estou acostumado a decidir e fazer. Amo improvisos. Num instante, nada está combinado. Nada está decidido. Nada está planejado. Aí vem uma ligação, ou uma inspiração, ou uma idéia de algum site maluco na internet... E dez minutos depois estou de malas prontas, pegando estrada para viajar algumas centenas de quilômetros sei lá aonde. É uma das melhores sensações que conheço. Como dividir isso com outra pessoa sem parecer que você não a está levando em consideração? Não se trata de ignorá-la... Como valorizar o acaso, o improviso, e também, ao mesmo tempo, fazer com que a outra pessoa se sinta incluida no processo? É uma dificuldade técnica... Talvez fosse simplesmente o caso de a outra pessoa também amar improvisos. Talvez fosse o caso de extender um pouco o horizonte. Antes improvisos eram resolvidos em dez minutos. Agora vão ser resolvidos em dois ou três dias porque envolve alguma coordenação com a outra pessoa. Mas isso tira um pouco da graça, e não é nada pessoal com ela. Improviso é improviso. O impulso de abraçar uma idéia e sair viajando por aí.
Ela não gosta de ler. Declaradamente, não gosta. Até se esforça. Depois que viajamos com um casal de amigos dela, e eu fiquei um tempão conversando sobre livros com a amiga, ela tomou um livro de minhas mãos e agora o está lendo. Diz que é a leitura do ano. Está mais ou menos na metade do livro, e meses já se passaram. Eu olho isso com uma certa admiração. Não que ela esteja se convertendo em uma leitora. O hábito de ler envolve uma paixão por livros. Ela só vai se converter em leitora quando encontrar algum livro que desperte tal interesse nela que ela queira continuar lendo. O que ela faz agora é uma espécie de obrigação, de meta pessoal. Ela não quer se sentir fora do grupo de pessoas que lêem, mesmo pertencendo a ele invariavelmente. Eu olho a iniciativa com uma certa admiração, com um certo respeito.
Fiz um monte de perguntas aqui. Não tenho respostas. Só tenho mesmo uma confissão, que é uma constatação também. Eu tomo atitudes por instinto. Penso nos nossos problemas e sinto muita raiva. Penso nas nossas coisas boas e sinto uma espécie de paz realizada. Uma pessoa diferente que aceita olhar para dentro do meu mundo e me ama mesmo assim. Seria um egoísmo dela? Ela não gosta de diversas coisas em mim, mas gosta de quando eu a estou tratando bem, e sonha que eu, pouco a pouco, abandone minhas coisas pessoais?
Perguntas, perguntas, perguntas.
Eu penso demais.
- Você pensa demais.
Talvez essa seja uma lição... Se aprendêssemos a passar mais rápido pelos problemas e a nos determos mais nas coisas boas, a vida já não melhoraria, instantaneamente, um tantão assim?
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Acknowledgment
Dizem que eu sou paciente para ensinar. Pode até parecer... Afinal, "acknowledgment", uma única palavra, e me lembro de que levou meia hora para aprendê-la. Você não queria nem tentar falar.
- Ác... Áquinooooo... blufs plurbs clurbs!
Fomos pouco a pouco. Ack. Nou. Lé. Dje. Ment.
Depois vai juntando. Acknow. Lédje. Ment.
Lédjement.
Acknow.
Acknowledgment.
Quem olha acha que levei meia hora para te ensinar uma única palavra, e que, por isso, tenho muita paciência.
Não percebem o essencial: em meia hora, você perdeu o medo de falar inglês, estava contente consigo mesma e resolveu disparar a leitura de todas as outras palavras, que pareciam muito mais fáceis do que esta.
E me deixou uma alegria incrível.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
Promessas
Vou fazer academia todos os dias. Amanhã mesmo eu começo. Já estou até inscrito. Já tem dois meses que eu estou inscrito!
Vou terminar meu livro. Que comecei a escrever ontem. Pela 832ª vez.
Vou ler mais. Depois de ficar horas à toa no computador. Depois de comer besteiras à tarde quando eu sabia que não estava mais com fome. Depois de tirar um cochilo. Que sempre dura até a manhã seguinte.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Se conselho fosse bom...
Aí uma amiga minha escreve no Facebook dizendo que gostaria de escrever mais, que tem muitos textos guardados, mas que acha que as coisas são egocêntricas demais e que não quer se expor. Aí eu escrevo pra ela dando uma certa bronca, dizendo que ela tem que confiar mais nas coisas dela, escrever sim, se expor, e deixar o julgamento dos outros para lá.
Foi isso o que eu disse a ela. Eu, um pseudônimo mal inventado de um blog imaginário que habita há 6 anos no limbo dos escritos secretos.







