segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Os tipos de família

Gosto de visitar as pessoas. Todas as pessoas. Visitas inesperadas, melhor ainda. Com o tempo fui aprendendo a diferenciar aquelas casas que recebem bem a surpresa e aquelas em que sou um visitante não anunciado, um incômodo a romper com a rotina diária. Gosto mais, é claro, do primeiro tipo.

E fui aprendendo que há dois tipos de família. Há aquelas em que, quando você está na mesa da cozinha contando histórias da tua vida, deve tomar cuidado para sequer mencionar uma mulher, dizer que ficou com alguém na balada ou que teve um caso com fulana ou ciclana. Vão julgar. Não que achem um absurdo a prática de procurar companhias por aí. Mas não é assunto para o coração central da casa. Vão olhar feio. Responder com silêncios.

E há aquelas famílias em que o diálogo se passa mais ou menos assim. Você começa a história, tateando, vendo até onde pode contar as coisas.

-Sabe quem eu fui ver ontem, de novo?

-Não, quem?

-A Michele.

-Olha só! Tá comendo?

Daí a mãe do meu amigo ri e responde:

-É claro que ele tá comendo! Acha que foi encontrar com a mina pela terceira vez pra falar de Big Brother? Ver o que ela achou do terrorismo na França? Ah, acorda né Rafael!

Famílias italianas. Adoro famílias italianas.

Por que fazem ficção?

Outro dia tomei em minhas mãos um grande volume de ficção. Imaginei quantas horas e horas e horas de trabalho foram desprendidas para se chegar àquele resultado. E aí fiquei pensando que somos uma espécie muito estranha. Tantos e tantos problemas reais, concretos, por serem resolvidos, e essa gente por ai, com os tecladinhos no colo, ou os tiozões ainda nas máquinas de escrever, inventando mundos que não existem. Diálogos que nunca aconteceram. Emergências que nunca ameaçaram ninguém e soluções impossíveis para problemas que nunca existiram.

Será que existe um ramo próprio nos estudos literários para tratar desse problema? Será que os antropólogos já pararam para pensar nisso?

Resolvemos muitos problemas práticos. Nós, a humanidade. Construímos pontes. Entendemos os movimentos do Sol. Aprendemos a plantar. Aprendemos a fazer roupas e a fazer máquinas para fazer roupas. Inventamos a roda.

Mas fico sentado aqui, nessa poltrona num canto da livraria, vendo quantos livros existem tratando de problemas reais e quantos existem tratando de qualquer outra coisa, histórias inventadas, romances, ficções... E penso que a abordagem de problemas reais é um evento acidental, um efeito colateral de nosso impulso maior: o impulso de criar histórias. Eventualmente, ao tratar de coisas reais, a história vai ter sua coerência auditada pela natureza do mundo. Ciência. Engenharia. Medicina. Mas em outros domínios as histórias são mais e mais livres e aí florescem com toda sua coerência.

O impulso de criar histórias é nosso impulso de tatear no escuro dos domínios desconhecidos.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Foto #011

Tem esse sentimento agora. De que parte da realidade olha para frente e parte olha para trás. Eu gosto do passado. Eu gosto de lembrar das coisas, sentí-las nas minhas lembranças. Talvez isso crie minha paz com o presente. Um gosto de passado acabando de escorrer, acabando de se tornar um antes, um outrora. Quero olhar para o meu passado e continuar tendo essas boas lembranças, mas é hora de olhar para frente.

Ah, se você soubesse

-Ow, seu cafageste!

-O que?

-Eu descobri, estou sabendo tudo!

-Tudo o que? Do que está falando?

-Sobre a outra!

-Que outra? E a gente nem é namorado!

-A outra página! Seu blog não é sua única página, não é? Há uma página secreta!

-Não é secreta, calma, eu só nunca tinha falado pra você!

-E daí que nunca tinha falado pra mim? Você conhece meu blog secreto. Eu te conto as coisas. Você não me conta nada. Mal amigo. Mal amigo!

-Eu te conto as coisas, claro! Não conto tudo, sei lá! Nunca achei que você fosse se interessar, só isso.

-Talez eu não fosse me interessar, mas caberia a mim julgar. Mas como é que eu poderia me interessar, ou não, sem ao menos saber que a página existia?

-Tá bom, tá bom, olhando por esse lado você tem alguma razão, mas agora você já conhece a página.

-Agora não adianta mais. Não vou ler mais. Ou, se eu ler, as coisas já passaram. Não tem sentido ficar lendo comentários sobre o que aconteceu há tanto tempo.

-Mas eu ainda leio todas as coisas que você escreve. E as antigas escritas há muito tempo.

-Afe, quanta perda de tempo. Já era. Não adianta mais.

History Channel

O ápice do império está no passado. O tempo é de transição de marés. Não sei para onde. Não sei quem vai conquistar sei lá quantos territórios nas próximas jogadas. Mas a nação que se construiu a partir da inventividade, do empreendedorismo e da livre iniciativa acabou por cometer um erro: construiu confortos demais e educação de menos. A lição que vai ficar dessa época, desses dois séculos, é a de que o progresso material humano não pode ocorrer independentemente do progresso intelectual. Infelizmente é muito mais fácil democratizar bens materiais do que cultura, e há pressões opostas operando. Bens materias são democratizados pelo consumo. Bens intelectuais não vendem tão bem. Não sei como será o futuro. Mas sei que não foi nessa geração que acertamos todas as tacadas.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Mais um a Deus

Uma mensagem no Whatsapp. "Ele não resistiu, morreu nesta noite." Mais novo que eu. Mais realizações que eu. Mais sonhos que eu.

O que eu lembro? Lembro da noite do bingo lá no clube. Ele estava animadíssimo. Comemorava cada número como a maior conquista da vida. Gritava, pulava. Criava um espírito de competição nos outros. Eu queria tirar meus bons números também para poder pular como ele. Queria ter minha sorte para poder ser feliz como ele estava sendo.

Ele será velado e enterrado hoje à tarde. Eu estou aqui, escrevendo sobre o assunto. Não éramos amigos próximos. Mas, ambos seres humanos, fico com essa sensação meio "soldado Ryan". Faça valer a pena. Estou vivo e parece até um tanto quanto injusto.

Eu não pensava nessas coisas quando era criança. Eu não pensava nessas coisas nem mesmo há poucos meses. Mas agora penso no quão bela e invejável e mesmo utópica é a imagem de todos morrendo de pura velhice, numa casa cheia de familia feliz, adultos, jovens e crianças. Uma morte com gosto de missão cumprida.

Foto #010


Ou o dia é bom. Ou não é.
Ou o amor é ruim. Ou é um tesão só.
Ou o cara tem que ir para a cadeia. Ou é vítima inocente e indefesa.
Ou o partido tá certo. Ou tá errado.
Ou o cara é corno. Ou não é.
Ou o café vem com leite. Ou vem puro.
Ou a grafia é errada. Ou é correta.
Realidade binária.
Mentalidade eletrônica.
Civilização binária.
Ou o mundo não vai acabar. Ou vai.
Ou somos culpados. Ou inocentes.
Ou estamos prozac. Ou coca-cola.
Ou SBT. Ou Globo.
Ou Imigrantes. Ou Anchieta.
O mundo é binário até no futebol. Ou é Pelé. Ou Maradona.
Ou é gol. Ou não é.
Vai ver o clichê é tão recorrente porque está correto: parando pra pensar, a vida, a humanidade toda... são bem como o futebol: o show todo é está no meio de campo, mas a contabilidade só enxerga os extremos.
Porque as interpretações ou são justas. Ou não são.

Sobre as piores impressões...

É mentira, eu sei que é mentira. Mas nos meus piores pesadelos eu tenho essa impressão de que o amor afasta. O amor repele. Talvez o meu amor. Talvez o meu jeito de amar. E isso cria um pânico que mal consigo descrever.

Quando deixei todos os exageros transparecerem, ela fugiu. Compreensível.

Quando amei de longe encarnei um fantasma, invisível. Ela não propriamente fugiu. Mas nunca me viu.

E quando amei por acaso, assim como veio, foi embora. Ela tinha as rotinas dela, as obrigações, os sonhos. Os trilhos nunca se tocaram. Passaram lado a lado e acenamos, de um trem ao outro, enquanto estivemos próximos.

Pensar que o amor repele é uma das coisas mais apavorantes que pode me ocorrer. Porque quero continuar amando. Quero continuar me apaixonando. Especialmente os amores sem explicação. Especialmente os amores inesperados. Especialmente os amores secretos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Rivotril

Tenho saudades da Keren. A Keren está agora sei lá aonde. Essas pessoas não pertencem ao dia-a-dia de ninguém. São do mundo. Passam por nós como passa também a água ou o ar. Nos enchem de vida, uma vida fundamental ainda que sem hollywoodianismos. E depois vão sei lá pra onde, continuar seu ciclo incompreensível.

"Menino Rivotril". Assim é que ela me chamava. Uma vez, revelando filmes na sala escura da faculdade, achei que fôssemos nos apaixonar. Nossos sussurros se entendiam de um jeito, de um jeito! Aquilo era romântico. Ou quando fomos viajar pelo sul da amazônia. Conhecer como viviam os garimpeiros. Achei ali que iríamos ser mortos. Não é legal ser olhado com desconfianças por gentes de armas nas mãos.

Mas ela se dizia calma por minha causa. "Brigada, menino Rivotril". E isso me acalmava.

Credenciais

  • Chefe, gostaria de pedir uma licença não-remunerada para buscar tentar seguir carreira na minha paixão pessoal.
  • Sério? Mas você é muito inteligente para isso!

[...obrigado?!]

A single shot

... aquele momento com um gosto amargo na boca. Estou na beirada do trampolim, um dos pés já boiando sobre o nada. Está escuro. Não sei se a piscina está com água ou vazia. Vou pular.

Foto #009


Esta cidade está vivendo uma seca sem precedentes na história moderna. E, ao mesmo tempo, carros e pessoas estão sendo levados por enchentes relâmpago. No fundo no fundo, São Paulo é uma síntese da tragédia humana.

Mortes sem sentido

Esse atentado na França está, como tantas outras coisas, me sufocando em minha própria ignorância. Tanta coisa que eu não entendo.

Não entendo tirar outra vida em nome de um deus, qualquer espécie de deus que seja.

Não entendo ofensas levadas ao extremo por coisas pequenas. Um cartoon. Ou a declaração de um artista na TV. Ou um costume de uma outra cultura manifestado na mesa ao lado.

Há alguns dias passou na Globo "O Pagador de Promessas". Se o Zé do Burro fez sua promessa num terreiro, a Iansã, então a igreja católica não deve aceitar sua devoção. Por que?

Está para surgir uma religião da união. Uma religião cujo deus seja, ele próprio, a aceitação do outro e, e cuja salvação seja a busca de uma harmoniosa convivência com as diferenças.

Talvez seja tudo culpa dessa mentira utópica. Somos todos iguais. Somos todos iguais. Racismo é errado, afinal somos todos iguais. Homofobia é errado, afinal somos todos iguais. O voto deve ser universal, afinal somos todos iguais. Quanta mentira, quanta mentira! Somos todos diferentes. E é esta a verdadeira razão pela qual devemos aceitar a todos igualmente.

Confesso que, ainda que alguns dias atrasado para ler tudo isso, estou triste e chocado. Sei que há tantas outras mortes sem sentido acontecendo. No trânsito. Nos hospitais. Nas casas. Nos esquecimentos. Mas não precisava, ainda, de mais essas...

Realizações

Ontem eu acordei e fiz café para mim mesmo. Sozinho.

Fervi água para café solúvel.

Lavei as laranjas e fiz uma bela laranjada. Elas estavam na geladeira, porque assim eu tenho laranjada gelada sem gelo.

Saí de casa. Dei bom dia para as pessoas na rua. Brinquei com um cachorro que vinha por ali, e mais adiante fui ignorado por um gatinho que fugiu dos meus primeiros "psss-psss-psss!".

Não resolvi a causa feminista.

Não me informei sobre os novos ministros.

Não impedi a destruição da Amazônia.

Sei que o pedaço de frango que comi no almoço vinha de produção industrializada.

Mas sorri para o garçom e para a moça do caixa que cobrou a conta.

Não assaltei ninguém.

Mas não impedi nenhum assalto.

Mas não fui assaltado.

Na média, o quão útil foi minha vida hoje? Fico com uma sensação boa de ter tido um dia prazeroso. E com um peso na consciência por não ter feito o bastante. O mundo é cheio de urgências. Tão cheio de urgências, e com tantas pessoas as ignorando, que talvez um dia de descanso, um dia ao acaso, já seja luxo demais. Escândalo inaceitável. E amanhã? E depois?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Professores

Quem foram os professores importantes em sua vida? Eu consigo me alguns.

Um professor de música. Não exatamente pelas aulas de música. Mas pela postura diante de tudo. Sempre disposto a rir. Das coisas engraçadas e dos problemas. Do aluno que não conseguia aprender e do dia em que invadiram a escola e roubaram alguns instrumentos. Tudo virava uma história divertida. Até comentei isso com ele. Foi uma das poucas vezes em que ele ficou sério, retrucando em seguida com seu linguajar peculiar: "mas claro, porra! vou ficar chorando da vida agora? Tanta coisa de ruim acontecendo e ainda vou deixar tudo pior choramingando por aí?". Me olhou sério. E, poucos segundos depois, começou a rir da minha cara de susto! "Calma aê que eu não vou te bater não Dodô!". Também tinha essa mania. Ninguém mais me chama de Dodô. Até tenho alguns apelidos. Variações de Adoniran ou um simpes Lê para o Leblon. Mas esse professor gostava de inventar apelidos.

Uma professora lá no primário. Os traços marcantes: era incorruptível, confiava em nosso potencial e era perfeccionista. "Você é capaz" era o que dizia sempre que pedia para alguém melhorar a lição.

Mas quem são, de verdade, nossos professores? Há tantos e tantos aqui que não vou poder homenagear.

Aquele pasteleiro lá da pequenina cidade do sul de Minas (nem lembro mais o nome da cidade, olha só que lástima!). Era perfeccinista e parecia, na verdade, que não estava interessado em vender pastel ou ganhar dinheiro. Estava interessado em agradar as pessoas que se sentavam ali para uma breve refeição. Seu pastel era praticamente uma obra de arte. E tinha boas conversas para quem se interessasse, ou uma boa postura profissional pra quem não queria ser incomodado (e, mais importante de tudo, era muito rápido em distinguir um tipo de gente do outro!).

Meu pai quando me ajudou a copiar a lição de um amigo e depois me deu a maior bronca não-bronca do mundo, me explicando, calma porém longamente, que naquela hora meu amigo estava brincando e fazendo qualquer outra coisa enquanto eu estava copiando a lição que não havia copiado na aula. Ele foi meu professor também, não foi?

De domínios e dominâncias

Meu irmão tem um pequeno império.

De certo modo posso dizer que as origens nunca foram as mesmas. A mesma família, a mesma casa, os mesmos pais, é verdade. É verdade. Mas a diferença de idade produziu uma certa diferença de mundos.

Ele saia para andar sozinho com o carro, pelo quarteirão. E eu podia ficar em casa. Matando o tempo como podia. Imaginando como deveria ser legal andar de carro por aí. No futuro, quando meus pés também alcançassem os pedais...

Hoje meu irmão tem um pequeno império.

Empresas. Ele faz negócios. Vende um carro e compra outro. Vende uma empresa e compra outra. De tempos em tempos se mete em encrencas. Inventa um negócio novo e dá um jeito de arrumar tudo.

E eu continuo introvertido. De certo modo, meus pés nunca alcaçaram os pedais e eu continuo achando um jeito para me distrair.

Falando assim parece algo carregado de fatalismo e um certo rancor, mas não é verdade. Enganos da narrativa exagerada. Sou o que sou e gosto de ser assim. Hoje fico inquieto quando meu tempo é consumido demais por empreendedorices em que não vejo muito sentido. Quero ter tempo para ler. Para as minhas músicas. Para as minhas viagens contemplativas. Para andar pelo centro. Da pequena Analândia ou pela Avenida Paulista. Que seja.

Foto #008


Certas coisas simples despertam em mim o senso do infinito. Amo olhar para uma folha em branco. Ou então segurar, em minhas mãos, uma caneta. O que um gênio faria com essas coisas? Ao mesmo tempo que são a definição do nada criativo, do trabalho que ainda nem sequer começou ou que nunca aconteceu, essas coisas guardam em si todas as possibilidades imagináveis e além. E essas coisas me oprimem. Uma folha em branco me intimida mais do que uma obra literária consagrada e volumosa. Pois ela pode vir a ser o maior poema jamais criado. A história mais fantástica jamais contada. Mais olha para mim e diz: "o que você vai fazer comigo? Aposto que não muito... te desafio!".

Em tempo: fui a uma agência dos correios dias atrás. Pedi uma caneta emprestada. Era uma caneta BIC. Notei que havia um papel dentro dela. Dizia: "Êxodo 20-15: NÃO FURTARÁS.". As BICs deveriam vir com este papelzinho já de fábrica.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Foto #007

Não sei se falo sobre a combinatória dos símbolos, sobre a comunicação humana ou sobre distâncias. Ou se falo sobre aquela poeirinha ali, entre os teclados. Nojento, né? Mas é também um testemunho do tempo. Um efeito inexorável. Quantas e quantas vezes já vi a faxineira do escritório com um paninho sobre esses teclados. Acho que foi ela, na verdade, que estragou as teclas dos telefones que tiveram que ser trocados. O Luiz, da mesa ao lado, gabava-se de poder continuar usando seu aparelho ruim. "Tenho a sorte de não ligar para ninguém com o número sete!" Como o sete é cabalístico, isso deve ter significado algo. Mas nunca entendemos a mensagem e por fim os astros autorizaram a troca por um aparelho mais "novo". Uso as aspas pois todos os aparelhos têm a mesma idade. Compraram trinta aparelhos, anos atrás, quando as ambições tiveram acesso às verbas. Mas as cinco pessoas dessa salinha comprovam: os negócios nunca deslancharam como imaginaram. Isso porque algo deu errado na combinatória das possibilidades, ou na comunicação dos símbolos entre as pessoas. Ou porque vendedores e interessados permaneceram, sabe-se lá porque, mais distantes do que deveriam.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Há tlânticos...

Sei das distâncias. Das distâncias de estar perto. Das distâncias de ouvir à noite. Das distâncias de entender que a vida tem um tamanho finito. O que serão dos dias? Já achei que fosse morrer. E não te dei tchau. Já ganhei na loteria. E não pulei com você sobre a areia da praia. Rindo com estranhos. Provando pra todos que a vida é boa. Que o mundo é bom. Você é um sonho e não sei direito quando foi que acordei. Ainda estou sonolento, tateando as paredes do corredor em busca de um copo de água na cozinha. Quantos copos de água até esvaziar o Atlântico e atravessá-lo a pé? Quantos sonhos até voltar no tempo? Quantas vezes o sol se por até que aqueles dias se apaguem?

Foto #006



São novas paredes. Mas também são novas liberdades. Por cima do muro estão outros horizontes. O ar que respiro nas manhãs é outro também. Imagino um transatlântico mudando de direção. Milhares de toneladas aproando um outro destino. Uma vida mudando de direção. Milhares de dias e agora o rumo é outro.

... sempre por um fio.

Nossa idade não é muito diferente. Ele é três anos mais velho.

Mas ele tem uma casa, uma esposa e uma filha. Coisas que eu não tenho.

Trabalha numa sala próxima.

E de repente, chega a enfermeira-chefe do ambulatório: "Ué, o Fred não fica aqui? Onde ele está?"

Levei-a até a sala dele. Ele estava debruçado sobre a mesa. Não seria uma simples dor de cabeça para motivar alguém a pedir ajuda diretamente ao ambulatório pelo número interno de emergências.

Eu ajudei a carregá-lo. Por duas vezes quase não se aguentou em pé. Estava suando, com o corpo quente, parecia saído de um forno a alguns segundos antes de derreter de vez. Colocamos o Fred na ambulância e eu fui junto, ajudar a retirá-lo.

E quando chegamos em frente ao ambulatório ele estava gelado. Frio frio frio. Olhar distante. Fala lenta. Seria uma queda de pressão neste calor infernal? Ataque de labirintite ou algo assim?

Depois a secretária me confessou, a boca pequena. Leucemia. Ele também tem leucemia. Toma uma tonelada de remédios. De tempos em tempos tem alguma crise.

Eu não sabia de sua silenciosa luta contra essa maldição. Tudo o que conheço é o sorriso intenso com que Fred cumprimenta todo mundo que vê, espalhando energia e otimismo por aí.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Dos lugares...

São Paulo não é uma das cidades mais bonitas do mundo: é um lugar lotado, barulhento, uma cidade que só serve para fazer dinheiro. Mas ainda assim descubro alguns encantos escondidos. Caminhar descendo a rua Augusta em um fim de tarde. Todo mundo saindo do trabalho, vivendo suas vidas, e você ali, à toa, andando sem horário, sem compromisso. Descobrir lá embaixo a Rua Avanhandava. Um lugar que nem parece estar em São Paulo, e isso talvez se deva à cara da Avanhandava ser tão genuinamente paulistana. De uma São Paulo que já não existe mais.

O sebo do Messias, de que tanto já ouvi falar. Com as putas zoadas ali na frente e os clientes que aparecem para negociar de tempos em tempos. Há uma poesia acontecendo ali. As putas ficam às costas da Catedral da Sé, mas estão entre as lojas de flores e ficam de frente para o Messias. Aliás, quando noto que o próprio Messias está fora da igreja, minhas dúvidas já começam a coçar.

Não vou concluir meus estudos em tempo hábil. Deveria ir ler os artigos. Os "papers". Deveria procurar um lugar para escrever. A escrivaninha de casa. Uma mesa em alguma biblioteca. O boteco no lado da república em que estou, lá na Santa Cecília. Aliás, a Santa Cecília... Lembra algumas cenas do filme "Ruas de Fogo", que passava no SBT quando eu era jovem. Já fui jovem.

São Paulo é uma cidade gigante. Mas em sua impessoalidade, em sua pressa para que tudo aconteça o quanto antes - o atendimento na padaria, as pessoas nas catracas do metrô -, encontro um espaço de paz. Esse espaço de estar sozinho ainda que estando rodeado por um mundarél de gente. Perdido por aí com meus pensamentos. Sensação nova para mim. Sensação ambígua. Cidade ambígua.

Foto #005


Se os rumos da vida fossem ditados por máquinas. Por engenhocas. Não. Não são. Parece que foi o Steve Jobs que disse, em um discurso, que percorrer a vida é como percorrer uma estrada escura em um carro cujos faróis iluminam apenas poucos metros à frente. E você tem que escolher para qual lado virar sempre que aparece uma bifurcação à frente. Mas não consegue ver ande as estradas vão levar. Só alguns metros à frente. Para qual lado virar?

domingo, 4 de janeiro de 2015

Foto #004


E os dias desenvolvem uma homogeneidade. Misturam-se como o café o leite. O chocolate. O nanquim que deixo pingar na água ao limpar a pena da caneta antiga. A novidade dá lugar à rotina. Mas na rotina encontro novos sabores. É uma nova rotina. O suco com leitura pela manhã. As conversas com risadas ao fim da tarde. Um novo clima para estes novos dias.

Onde há dúvida, há liberdade

Vi esta frase tem já uns tempos. Não sei onde. Se na pós-graduação em filosofia ou se na Contigo jogada na salinha de espera. Achei bela. Traduz um ideal. Não acho que seja, estritamente, verdadeira. Podemos, acorrentados, duvidar da razão daqueles que nos aprisiona, e ainda assim continuaremos presos. Mas essa frase trata de coisas mais profundas. Não na dúvida, mas na liberdade. Uma liberdade mental. Uma liberdade conceitual. É ali, não é, que as coisas começam. Na liberdade mental. No mundo das idéias. Nos questionamentos. Quando dizem a você que o comunismo foi uma catástrofe, e que não tem como funcionar, e você acredita prontamente, sem reconhecer que está comprando uma conclusão sem ter um profundo contato com os detalhes do raciocínio, então não é livre. Quando lhe dizem que o capitalismo é a fonte de todos os males da humanidade, e que o interesse privado e o egoísmo dos burgueses escraviza a classe média moderna, e você ecoa essas afirmações sem verificar melhor como o mundo funciona... Existem tantas formas de escravidão, não é? Nossa espécie é particularmente adaptada às escravidões sem correntes. E só há liberdade em um lugar: onde há dúvida.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Da minha lista de desejos

11 - Ignorar educadamente as pessoas ao meu redor para conseguir dedicar ao menos três horas do dia para aquilo que, pela manhã, planejei me dedicar.

Das críticas

Quando você critica alguém, ou um grupo, quem exatamente você está criticando?

Tenho visto que as críticas se dirigem aos estereótipos e não às verdades, às essências.

Quem odeia os petistas gostam de dizer como os petistas são idiotas. Mas o fazem com base no que o lobão falou dos petistas. Com base na crítica que o super imparcial Arnaldo Jabor escreveu sobre os petistas.

O mesmo vale para um petista criticando um direitista genérico.

Se os seres humanos se ouvissem mais, imagino, iriam se descobrir muito mais similares do que imaginam.

A humanidade luta contra inimigos imaginários. Critica fantasmas que não existem.

Ou então sou eu quem estou imaginando coisas...

Foto #003


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Foto #002


De braços abertos, de coração aberto

Muitos familiares queridos estão longe. A calça está sendo repetida já há alguns dias. Demora chegar até ali. Estrada de terra. Desviando de pedras, buracos, lama. Ponte de madeira sobre o pequeno riacho. É claro que há toras quebradas. Um lembrete de que o tempo é implacável e a segurança é duvidosa, mera ilusão. Sigo em frente. O lugar, no meio da floresta, é de paz. Gansos correndo pelo gramado. Cachorros tranquilos, amistosos. Animam-se com a minha chegada e vêm pedir um pouco de carinho.

As pessoas estão me esperando para o jantar. Não é minha família. Mas é minha família. São as pessoas que estão aqui me acompanhando, esperando por mim.

Não era aqui que eu imaginava estar. Não era com essas pessoas que eu imaginei estar. Mas é aqui que estou. Feliz pelos bons imprevistos da vida.