domingo, 1 de fevereiro de 2015

Foto #032


Ensinar

Mudei de emprego não tem muito tempo. No outro já estava há anos. Então já conhecia todo mundo, e quando os conheci minha cabeça era outra. Agora pude viver, de novo, essa experiência exótica que é a da "primeira impressão". Percebo dois tipos nítidos de gente. Aqueles que se dispõe a ensinar e a contar tudo. Isso aqui funciona assim. Essa planilha tem que ser preenchida desse jeito. Esses papéis a gente deixa nessa gaveta. E tem aqueles outros que, protegidos por um véu de pró-atividade e solicitude, preferem fazer tudo sem ensinar nada.

São ávidos para absorverem toda informação que podem das pessoas ao redor, mas hesitam ao máximo em ensinar. Quando você tem alguma dúvida eles já sorriem, prestativos, e dizem "ah, deixa que eu te ajudo com isso, já faço". Sua tendência é ficar feliz com a ajuda mas, mas prática, perdeu mais uma oportunidade de aprendizado.

Problema: parece que ainda não faz parte da nossa ampla cultura identificar e temer este tipo de gente. São perigosíssimos, porque embora pareçam pessoas muito polivalentes, estão travando o aprendizado da empresa como um todo enquanto concentram os méritos todos para si.

Marés

Quais as forças que movem nossas decisões? Moralismos religiosos? Nossas noções pessoais de certo/errado? Nossos sonhos e a percepção da possibilidade de realizá-los ou não?

Amiga, cara amiga. Entendo sua decisão. Não tive tempo, na verdade, de digerir tudo em tempo real. Está vivendo um caso de amor, intenso. Depois diz que terminou, que não dava mais. A situação era insustentável. Ele, casado. A esposa, sua amiga. Mesmo com um casamento já falido, com o declarado comum acordo de verem outras pessoas, era tudo próximo demais.

Imagino como estavam, dentro de você, as confusões entre empatias e egoísmos.

Admiro, confesso, a impulsividade relâmpago da sua decisão. Eu deixaria mais tempo passar. Empurraria tudo com a barriga até que as alternativas se fizessem mais nítidas. Vai ver é por isso que tenho cultivado uma barriga cada vez mais bem nutrida nos últimos tempos. Ela me é tão útil!

Não há certo ou errado nesse caso. E não vou mais falar nada do assunto, já que nenhuma conclusão seria definitiva. Só espero, e isso deixo aqui em registro, que você esteja bem.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Foto #031


O livro da vida

-Sabe o que eu estava pensando?
-Na última quermesse antes do fim do mundo, no sabor da fogazza de frango com catupiry enquanto os meteoros caiam iluminando a noite lindamente.
-Não exatamente isso. Mas bem que poderia. Tem seus catastrofismos também mas com menos pirotecnia.
-Então conta lá.
-O livro da vida.
-Que livro da vida?
-O livro da sua vida. Imagina uma estante mágica. E tem um livro lá que é a história da sua vida toda. E você pode pegar e ler. Você ia ler? Mas tem que ler até o final!
-Olha, não sei. Certeza que já pensaram nisso. Já pensaram em tudo, hoje em dia, não é mesmo?
-Tá, mas você ia ler o livro? Saber o que acontece depois?
-Ih, mas esse é o óbvio. Esse livro tem outros problemas também. E nisso não sei se já pensaram muito bem.
-Que outros problemas?
-Saber o que vai acontecer no futuro é um problema clássico de filosofia. Bola de cristal. Videntes. Astrólogos. O futuro e seus encantos. Mas com esse livro seríamos confrontados também com nosso passado. Imagine que sua vida vai até o capítulo oitenta. E você está no capítulo trinta e oito. Mas achou o livro super sem graça até aí. Como é que fica?
-Nossa, é verdade. Mas também pode descobrir que coisas bobas foram mais importantes do que parecia. E que coisas que você achou super importante são as sem graça.
-Pois é. Você achou que aquela mudança de emprego tinha sido impressionante. Você achou que foi super legal quando terminou com aquela namorada. Mas vê que, revisando a história, não é bem assim. E vê que aquela pessoa que ajudou, tal dia, ou aquele conselho que deu num ônibus, bem de improviso e sem grandes preocupações, causaram grandes mudanças.
-Mas tem que ler o livro inteiro. Não pode ler só o começo.
-Hmmm. O futuro também pode ser complicado. Quem escreveu o livro? É como um diário vindo do futuro? Ou é em terceira pessoa? Ou narrado por outra pessoa próxima? Porque essas coisas mudam. A gente vai saber do futuro, mas quando vivê-lo não vai ser bem assim. Vai ser como o problema da primeira parte da vida, mas ao contrário. Você lê a história e fica esperando uma coisa, mas conforme a coisa toda acontece, vê que e experiência de viver aquilo foi diferente.
-Não iria perder a graça?
-Em um certo sentido sim. Perder a graça por saber o que viria. Mas experimentar é sempre diferente de saber.
-Afinal, você leria o livro?
-Não.

Sabor preferido

Qual seu sabor preferido?

Eu gosto de chocolate. Eu gosto de baunilha. Eu gosto de creme.

Gosto de olhar com sorriso.

Gosto de acordar cantando.

Gosto de cheiro de chuva.

Gosto de por do sol com pé na areia e barulho de onda. Brisa no corpo.

Gosto de tirar a meia depois de um dia cansativo.

Gosto de Ani di Franco e da Marisa Monte.

Gosto de batucar latas velhas com amigos na calçada.

Gosto de reencontros.

Gosto de morder sua orelha de leve, em um abraço apertado, enquanto a gente olha para o mundo e eu digo baixinho "olha lá, que bonito!"

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Foto #030


Amor animal

Você conversa com todos os cachorros que vê pela rua. E eles te aprovam. Te tratam bem, querem mais do seu carinho.

Mas eu não concordo com suas posições políticas.

Eu não concordo com seu modo de tratar meus amigos.

Eu não concordo com seu modo de valorizar o dinheiro sobre outras coisas.

Eu não concordo com seu jeito de valorizar aparência a coisas com conteúdo. Roupas contra livros.

Eu não concordo com os canais em que você assiste os mesmos programas de dez anos atrás num mundo com tanta coisa nova por descobrir.

Eu não concordo com você pensando em sofá quando eu quero ver o que acontece no mundo.

Eu não concordo com seu modo de interpretar maldades em tudo sempre que eu vejo boas intenções.

Mas você conversa com todos os cachorros que vê pela rua e eles te amam. E aí eu sempre sei que tem alguma coisa aí dentro que vale muito a pena.

Terror

Estico os pés. Sempre estico os pés antes de abrir os olhos. Deixar o sangue começar a se mover pelo corpo com mais vigor. Abro os olhos. O quarto está diferente. Não é o mesmo quarto em que eu deitei. É outro. Olho minhas mãos. Elas demoram a responder e vêem todas enrugadas. Brancas pálidas com manchas. Mãos jurássicas. Mãos que recebem aposentadoria e andam de graça de ônibus. Mãos que tremem pra chegar até a boca. Quanto tempo? Quanto tempo?

Preciso levantar dali. E se for meu último dia? Onde estou afinal? Pelo menos eu não fiquei burro. Já vou pensando em várias explicações. Alzheimer. Só pode ser. Filha da mãe de doença. Lembro que era 2015 mas está tudo com cara de 2060. Memória de curta e média duração com problema. Perda das lembranças mais recentes e permanência apenas daquelas mais distantes. Li sobre isso. Li sobre isso em 2006 ainda. Em um livro de papel. Parece não ter nada de papel por aqui. Há fotos nas paredes. Fotos nas paredes! Devem conter respostas. Coisas que fiz ontem. Na última semana. Nas últimas décadas.

Muitas pessoas sorrindo. Ao meu lado. Na cama. E eu estou na cama em todas as fotos.

Não foi Alzheimer! Fiquei desligado. Desligado na cama. Esse tempo todo! Não ouvi o que diziam. Não vi sol nascer. O sol se pôr. O que aconteceu nesse meio tempo? A vida aconteceu e eu não vi.

Estico os pés. Tremo as mãos. Abro os olhos. Acordo. Meu quarto. 2015. Puta pesadelo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Foto #029


Metas

Quero ser um intelectual que não consegue emprego em universidade nenhuma para dar aulas. Assim continuo com muito tempo livre para ler os livros que eu quiser, sem me preocupar se eles são mainstream ou se sequer dizem respeito a um mesmo tópico. Vou ler a história da astrologia, depois vou ler livros céticos dizendo que a astrologia não funciona. Meu signo é naturalmente curioso e não dado a preconceitos.

Quero morar ao lado de um barzinho. Um barzinho meio de rock. Meio de jazz. Mas, fundamentalmente pequeno, de segunda categoria e meio espelunquento. Assim eu vou saber que só tem gente legal, e não essa gente tosca que frequenta os lugares pra ficar bem na fita, pra poder dizer que foi em lugares legais. E, mais que isso, vai ser um barzinho tão baixo nível que, quando eu montar uma banda, vão deixar a gente tocar lá.

Quero ter uma banda. Dessas que não tem ambinção nenhuma. Pra curtir. Pra sermos tiozões vovôs que não ficam em casa. Vou ser um vô descolado. Se tiver filhos. Se tiver netos. Se não, vou ser só descolado mesmo, que já tá de bom tamanho.

Vou ser um fotógrafo. Desses que ninguém conhece. Porque ninguém compra minhas fotos. Porque eu não vendo minhas fotos. Porque estou sempre andando por aí com uma máquina ocupado em fazer alguma coisa diferente. Que não segue um projeto específico.

Vou ser um amante apaixonado. Como fui há alguns anos. Hoje, sei lá, estou numa entre-safra de sentimentos e impulsos.

Boletim cultural

Eu também seria mais um com uma certa tendência a achar essas músicas sertanejas modernas um monte de "música de corno". O problema é a gente prestar atenção nas histórias da vida e ver que há muito realismo em todas elas. Não exatamente "muito corno", embora isso também exista. Mas, sendo um tanto quanto justo, muitas músicas tratam apenas de dores sentimentais um tanto quanto ridículas. A cornice das músicas é uma certa extrapolação de quem não está a fim de continuar ouvindo. Enfim. Ela vai se casar com outro. E ele está ali, na casa dele, olhando para a parede e pensando nisso. A vida há muito que seguiu cursos diferentes. Não há nenhum corno na história. Ninguém nem sequer sabe da história, a bem da verdade. Mas hoje ele soube que ela vai casar com outro e está ali, olhando para a parede e pensando coisas. Estou quase ligando para ele só pra dizer: "cara, larga de frescura e põe uns sertanejos pra tocar aí".

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Foto #028


Qual seu projeto para 2020?

Olha só que ano bonito. 2020. Dois mil e vinte. Vinte Vinte. O que você quer fazer quando chegar lá? Já pensou em começar seu projeto agora mesmo? Aprender um instrumento musical. Fazer uma viagem. Conhecer gente diferente. Escrever um livro. Ter um filho. Mudar de casa. Comprar outro carro. Fazer um curso. Temos cinco anos. Um pouquinho menos, na verdade. Quatro anos e onze meses, arredondando as coisas. Viagem. Gosto de planos de viagem. Viajar de avião? Mochilão?

Como o mundo estará quando chegar lá?

Teremos internet ainda? Ou vai acabar a água toda?

A imprensa ainda será livre? Ou vamos mandar na Globo?

O terrorismo ainda vai dominar os noticiários? Ou teremos tempo para os mortos da África?

Eu queria, até 2020, construir uma outra civilização. Esta aqui anda bem bagunçada.

Neosaldina

Estou suando. Sinto-me um porco girando no rolete, em cima do fogo. Mas não há fogo. Estou sobre a cama. Quarto apagado. Estou suando. Resolvo deitar para cima. Virado para o teto. Meditar até a preguiça desabar. A preguiça não desaba. Meus pés grandes querem cair para os lados. Não ficam na posição certa. Essa percepção me distrai. Gotas de suor escorrem da minha testa. A dor de cabeça está piorando. O lado direito do meu crânio pulsa a cada batida do coração. Uma bexiga prestes a estourar. Parece de borracha. Escuto o barulho das minhas pulsações. Provavelmente porque meu ouvido está comprimido contra as veias quentes e dilatadas. Minhas veias devem estar suando também, por dentro. Sinto-me um porco, metaforicamente falando. Quando eu era criança, achava que só velhos nojentos eram capazes de suar assim. Talvez eu já seja um velho nojento. Ainda que prematuramente. Resolvo virar de lado. Giro para a direita. Agora meu corpo parece pressionar meu coração. Meu braço direito está caído sem ter onde se apoiar e meu braço esquerdo está atrapalhando o corpo como um todo. Gostaria de desrosqueá-lo e deixá-lo na prateleira, mas não fui construido assim. Que projeto zoado. Estou suando. Deito de bruços. O rosto não foi feito para deitar de bruços, nariz contra o travesseiro. Quero uma cama de massagem, dessas com um buraco para solocar a cara. Nenhuma ninfeta gostosa viria me massagear. Não assim suado. Acho que aqueles óleos de massagem foram inventados para elas terem coragem de massagear velhos gordos nojentos. Vá lá, velho gordo. Tome um bom banho e quando voltar eu lhe passo esse óleo nas costas. Assim quando começar a suar vou achar que é o óleo e não vai parecer nojento. Disfarça. Quero melhorar logo. A febre parece piorar. Está calor, não está? Às vezes parece que está frio. Se eu prestar atenção, posso sentir o dedão do meu pé pulsando também. Meu coração vai estourar. Parece que vai estourar. Minhas mãos não sabem onde ficar. Com os braços esticados, a cara fica amassada demais contra o travesseiro. Deixo o braço esquerdo dobrado sobre o rosto. O direito fica esticado mesmo. Com a mão caída para o lado da cama. E se alguma aranha me picar? Tem aranhas nesse quarto? Tem muito bicho aqui. Uma gota de suor escorre pela ponta do meu dedo. Antes de sentí-la cair, adormeço.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Foto #027


Adultério

Estou há vários dias pensando sobre o assunto e não consigo chegar a merda de conclusão nenhuma. Na natureza não há um absoluto sobre isso. Adultérios são certos ou errados? Não há resposta para esta questão. Depende apenas de convenções. Há questões que a natureza responde. A qual temperatura a água ferve? Cem graus. Se eu soltar uma pedra, ela vai para cima ou para baixo? Para baixo. Adultério é certo ou errado? A natureza não está nem aí com isso.

Certo ou errado para quem? Para mim? Para você? Para a esposa traída? Para o marido traído? Para os filhos do casal traído? Para os filhos do Ricardão? O mundo é uma teia de pontos de vista diferentes tentando harmonizar-se. Mas nem todos os pontos de vista precisam se misturar demais. É claro que há questões práticas. Gravidez. Doenças. Mas, com os cuidados certos e a devida atenção a informações, entendo que estas possam ser vistas, hoje em dia, como questões à parte.

Tenho um amigo que está noivo. Vai casar em menos de um mês. E saiu nesta última madrugada para encontrar uma amiga sei lá onde. Uma amiga que não via há algum tempo. Vão à casa dela na praia, já que a pria não está tão longe assim e é certamente mais confortável que qualquer motel. Já eu, não estou noivo, apenas namoro. E vivo insistindo comigo mesmo que não devo me sentir culpado toda vez que eu "traio" minha namorada em pensamento. A palavra chave é essa: culpa. Sociedade de culpas em que vivemos. Culpa faz mal. Gera um sofrimento e ainda, automaticamente, nos faz associar este sofrimento à outra pessoa. É parte do processo de desencantamento. Se eu me culpar demais por não poder pensar em outras pessoas enquanto estou namorando, em pouco tempo a solução vai ser parar de namorar.

Mas há pessoas que vivem o mesmo sentimento com relação à atividade prática. Gente de maiores concretismos que eu. Gente que faz. Tem os bem resolvidos e tem os acidentais. Aqueles que as circunstâncias, de repente, os colocaram nessa situação. Aquela pessoa que você nunca imaginou que lhe daria bola mostrou interesse bem agora, que você já está namorando. Aquela amiga de muito tempo atrás apareceu e, dessa vez, rolou alguma coisa. Não daria para deixar para depois. Ou desfazer temporariamente o namoro. O moralmente correto seria simplesmente dizer não. Mas quando foi a reunião em que definiram o que seria moralmente correto e o que não seria? Eu não fui chamado! Daí que me sinto, com alguma frequencia, vítima de leis que não inventei. Se na área política, mal e porcamente, capengamos ainda para criar uma democracia que funcione, na área sentimental vamos muito pior. Misto estranho de ditadura com anarquia. E o conceito de diplomacia ainda nem foi descoberto.

Olé

Amigo, caro amigo. Andamos sempre juntos. Muito tempo juntos. Somos diferentes, é claro. Os livros que você lê, e inclusive os livros que você escreve, são totalmente diferentes dos meus. As músicas que ouvimos. E assim por diante. Mas compartilhamos muitos amigos. O que é ótimo. Ter no mundo uma pessoa tão próxima, alguém que ri junto e que entende a gente numa amizade tão verdadeira. Sou feliz por sermos assim amigos. Mas vou sucumbir a um certo egoísmo e orgulho. Sabe aquela nossa amiga? A professora? É uma amiga em comum, não é? Pois bem... ela me convidou para o casamento dela. E, até onde eu saiba, você não está convidado. Não quero ser um arrogante escroto mal educado aqui. Não é ruindade. É só sinceridade quanto a esse alívio existencial: ainda existo o suficiente para ter minhas próprias amizades. Sabe muito bem que eu tenho um medo enorme de, de uma hora para outra, deixar de existir

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Foto #026


Persona Erotika

Eu gostava de conversar com você. Uma mulher inteligente. Entendia minhas piadas. Tudo bem que não ria de muitas delas, porque sua seriedade sempre foi um tanto quanto diferente da minha. Mas só o fato de sempre entendê-las já era sublime. Não vou cair no machismo idiota de falar que é difícil encontrar mulheres que entendam boas piadas. A verdade é que é difícil encontrar seres humanos nessa condição. Não importa muito o sexo ou a falta dele.

Eu gostava de entrar no mar com você. Puxar seu corpo contra o meu e acariciá-lo, apertá-lo, por sobre a textura do maiô. Me deixava excitado. Contente. Era bom te beijar contra os golpes das ondas salgadas.

Mas você foi a minha primeira depressão sexual. Até você, eu achava que era completa frescura das pessoas essa coisa de priorizarem demais sexo em uma relação. Sexo é sexo, ora essa. Por que é que iria importar tanto? Mas quando transávamos você era... a mesma de sempre. Não mudava a voz. Não tinha um olhar mais delicado. Era objetiva como se estivese dirigindo a construção de um arranha-céu. Hoje, lembrando disso e refletindo sobre o assunto, resolvi cunhar um termo para o que você nunca teve: uma Persona Erotika. Aquela pessoa que você assume ser na cama, na hora de transar. No seu caso, era a mesma pessoa de sempre. Que tragédia, que tragédia!

Amor de Elite

-Nossa Adoniran, eu como mãe, eu fico doida, sabe? Tinha que ver quando minha filha conheceu o Lucas!

-Como foi? O que aconteceu?

-Ah, a Letícia, aquela retardada, saiu com ele e me falou que ia voltar até meia noite, sabe?

-E aposto, claro, que ela não apareceu.

-Não, e você não sabe. Começou a passar do tempo, e eu na minha. Sei lá, a gente sabe que pode atrasar um pouco. Só que daí deu uma da manhã. E nada. E eu não me aguentei e liguei pra ela. Pois não é que o celular dela toca lá no quarto? A anta esqueceu! Largou o celular em casa!

-Que idade ela tinha na época?

-Tinha dezoito. Mas sou mãe. Não importa se fosse dezessete, dez ou trinta. Ela tava fudida na minha mão porque eu comecei a me morder de raiva, sabe? Mas de desespero também. A gente começa a imaginar. E se aconteceu alguma coisa? Eu sabia o celular do cara. E o nome e sobrenome dele. Pois resolvi ligar pra esse tal de Lucas.

-E aí? O que foi que ele falou?

-Falou? O filho da puta nem atendeu! Aí é que eu fiquei louca mesmo! Adoniran... imagina uma mãe... a filha sai com um cara, você não sabe onde ele mora, nunca tinha ouvido falar dele... E não volta. E eu comecei a me martirizar. Queria me matar ali mesmo. Quer merda que eu tinha feito, deixado ela sair assim? A gente não quer ser sempre a mãe louca que não deixa a filha fazer nada, mas daí quando acontece essas coisas a gente se sente idiota, impotente. Mas eu não fico parada não. Liguei pro Gilmar.

-Seu ex-marido?

-Que ex-marido que nada! Naquela época o Oswaldo nem isso era. Nem isso! Aquele traste tava jogado na cama e não queria saber da história não. Até fui falar com ele. "Ela não chegou e você não sabe onde ela está. O que quer que eu faça?" Larguei ele dormindo lá. Mas o Gilmar não... O Gilmar é um amigo meu que trabalha no GOE. Na verdade, era quase cinco da manhã já quando eu liguei pra ele.

-Nossa! E aí?

-Aí que ele já me xingou até não poder mais ali, na hora. Mas me falou assim: "Ká... eu vou trazer sua filha. Não sei como, mas que eu trago, eu trago!". Ah meu amigo, eu tremi na hora, ainda tremo só de lembrar. Porque eu entendi o que ele falou, sabe? Viva ou morta, foi isso que ele quis falar. E eu tremi. Pois eu passei o telefone, o nome e sobrenome do Lucas. E lá eles foram. Só sei que minha filha estava no apartamento com o Lucas. Contou que o assim que ele ligou o telefone, o aparelho já tocou. E o Gilmar berrou do outro lado: "quero a Letícia aqui embaixo na portaria agora!". E ele nem sabia quem estava falando. Perguntou quem era e o Gilmar berrando. "Aqui embaixo, na portaria, agora!". O Lucas morava no terceiro andar. Olhou pela janela e viu umas quatro viaturas do GOE lá embaixo! Tremeu todo. Minha filha conta que ele até gaguejava! Daí ele desceu, tentou esclarecer a história mas tomou o maior esporro da vida dele, claro.

-Minha nossa! E sua filha nunca mais viu ele né? Que susto qu esse cara deve ter passado... Deve ter ficado seis meses sem nem paquerar ninguém.

-Que nada! Ele e minha filha estão casados. Casaram dois anos depois.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Compreensível

Namoraram durante a faculdade. Dois nerds. Ao invés de andarem de mãos dadas pelos jardins, divertiam-se com desafios matemáticos nos guardanapos do refeitório. Até que ele descobriu os poderes da vida. Poder viajar. Poder conhecer outras pessoas. Poder fazer escolhas. E terminou com ela.

Hoje?

Hoje ele envia cartas para ela sempre que consegue descobrir onde ela está trabalhando. Cartas em que ele assina com os adesivos de ursinhos que ela havia dado para ele anos e anos atrás.

Eu acabei de receber um e-mail dela: "olha, ele descobriu meu trabalho pela internet. Mas, por favor, se ele pedir meu endereço, não passa pra ele não, tá bom?".

Essências

As outras pessoas têm diferenças, com relação à gente. Muitas vezes essas diferenças são defeitos. Mas eu nunca consegui olhar diretamente os defeitos alheios. Sempre fui um outsider. E, da condição de outsider, olho as diferenças sempre buscando entender as limitações da minha percepção. As razões de eu estar fora deste universo. Se eu não sou vegetariano, e acho extremistas os que são vegetarianos, o que será que eu não entendi ainda sobre o mundo deles? Se eu não tenho raiva dos esquerdistas, então deve ter algo que a direita pensa que eu ainda não entendi direito. Se eu não entendo porque os ladrões roubam, deve haver algo na vida de um ladrão que eu ainda não entendi. Eu não vivi a vida deles. Não sei direito como é que é. Tenho esse sentimento diante de todas as diferenças que vejo. Porque eu sou um outsider. E as pessoas não me entendem. E eu sei que elas não me entendem por pura falta de informação. Acho que se entendêssemos por completo as essências, uns dos outros, encontrariamos sempre um denominador comum. E os diálogos seriam mais fáceis. Mas gostamos de bater o pé pra fazer valer sempre nosso ponto de vista sobre os outros.

Foto #025

Exemplo

"O que mais choca Holden é a prontidão com que seus amigos adotam o comportamento corrupto dos adultos."

J. D. Salinger, O apanhador no campo de centeio (1951)

Que obseração mais niversal a de Holden. Para mim há até uma certa ficção científica na própria existência de Holden. Por que ele não seguiu o mesmo caminho? Há que haver forças muito distintas para impedir que os seres humanos sigam os mesmos caminhos de sempre.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Inícios

A vida começa depois do café, dizem.

Mas quem falou que basta? Não basta só o café. É preciso o café. É preciso sentir os músculos das costas esticando. E a panturrilha também. É preciso ouvir o som da rua. É preciso sentir que ainda está friozinho lá fora. Me faz muito bem, pela manhã, quando acordo a tempo de sentir o frio lá de fora.

Foto #024

Prioridades

O documentário de hoje é "Catastrophe - Episode 4 - Asteroid Impact". Tá no YouTube, pode procurar.

Aí eu fico aqui pensando. Se esses caras que têm telescópios e satélites descobrissem hoje um grande asteróide gigante viajando à Terra muitas vezes mais rápido que a velocidade do som, com a certeza de acabar com a humanidade... Eles iriam nos contar? Ou fariam de tudo para manter os ânimos da bolsa de valores sob controle até o último minuto?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Furacões

Estou assistindo um documentário. O YouTube tá cheio deles, e eu, antiquado que sou, adoro assistí-los. Super Hurricanes and Typhoons. Mas um aspecto me chama a atenção, quase impedindo que eu continue acompanhando a narrativa. Sempre que mencionam um grande furação histórico, fala-se no prejuízo. Tantos bilhões. Tantos e tantos bilhões. Eventualmente mencionam o número estimado de mortos, mas isso é apenas uma informação paralela.

A humanidade aprendeu a arte da contabilidade mas esqueceu a arte do valor.

Antiquado

Já houve o tempo, não muito ido, onde de mim zombavam por querer ainda usar a máquina de escrever, aquela mecânica, para criar meus textos. Hoje fui flagrado vivendo já outros anacronismos:

-Sério mesmo Adoniran? Você que escreve sempre, tem só o blog? Ainda não fez uma página no Facebook?

Pertenço ao milênio que se foi.