terça-feira, 10 de março de 2015

Transbordamentos

Amar de perto nunca funcionou. Por alguma razão nunca soube lidar com minha ebulição de emoções e sempre fui aquele jovem ridículo, mais tímido que o necessário. Desesperado em confessar uma paixão desproporcional. Incapaz do conflito por excesso de idealização. Ao invés de aprender a me aproximar do mundo e entender sua realidade, aprendi a preservar minha distância e a conservar este amor impossível. Protejo meus sentimentos em cantos escondidos. Adulto, descobri que o amor em excesso espanta não só no amor romântico. Excesso de empolgação com música, com livros, ou com a ideia de uma reunião de amigos no domingo. O mundo não está aberto a excesso de empolgações.

Foto #069


Ecos

Sonhei com você. Já faz mais de vinte anos que a conheci. Dez anos que não nos vemos. Sempre fomos distantes embora a vida nos tenha feito passar assim de raspão. E sonhei com você hoje de novo. No sonho, você me fazia feliz. Conversava com sorrisos. Aquele olhar brilhante, profundo. Deixava minha companhia continuar em todas as deixas que dei para você ir embora. Já vai pegar o ônibus ou vamos esticar a conversa? Vamos esticar a conversa, você dizia. E andávamos dividindo idéias. Você é essa mentira. Em minha mente, essa perfeição que não deve ser. Nunca ficamos pertos o suficientes para brigarmos nossas diferenças. A distância fez você assim impossivelmente igual. Sonhei com você. E continuo sonhando.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Constatação

A superação e a derrota são, ambas, auto-catalizadoras. Cada pouco que você desiste é um pouco mais para te convencer de que já largou mão de vez. E cada pequeno degrau em que você se supera é uma motivação para não deixar a peteca cair. O difícil é transitar de um atrator ao outro.

Foto #068


Débitos

Eu não consigo te dar a atenção toda que você gostaria. Não consigo responder sempre. Tem vezes que quero desligar. São muitas vezes, eu sei. Tem vezes que eu quero que esteja aí. Não consigo ser presente assim demais pra ninguém. Talvez seja porque eu não consigo sair demais do meu mundo também. Ou trazer alguém pro meu mundo. Não consigo dar atenção demais sem sentir uma dor maior por não ter essa atenção também, nessa profundidade. Talvez seja egoísmo. É, certamente é egoísmo. Quero uma troca justa com o mundo, vai ver é isso. Então, enquanto não conseguir resolver isso, fico aqui com meus pensamentos e você fica aí com os seus.

domingo, 8 de março de 2015

Vazio

O sol já arde em minha cara e sei que me deixei enrolar na cama porque é sábado. E sei que deixei a cortina aberta porque queria acordar cedo. E sei que, de novo, burlei meus planos. Aí me dá uma vontade louca de ligar pra ele. Talvez chamar pra ir ao parque andar de bike. Ou ir tocar violão na casa dele, porque ele sabe que aqui meu pai não gosta muito do barulho. Mas ele não está mais lá. Tem três meses já. Amanheceu um dia e ele não estava mais. Ele dormiu pra sempre. Dormiu e não acordou. Uma morte indolor para alguém que trouxe tanta alegria pra tanta gente.

Foto #067


Brasil, 2015

-E essas coisas ainda acontecem?
-Oxe! Que acontece sim, ih se acontece! Ó! Vô falá procê... Num é nem caro mandá matá um não. Aí na cidade ali perto mesmo, dois conto... Um conto inté, cê acha gente que topa o trabaio. Eu sei de uns ali que faz o serviço. Vai lá, atira, e depois ocê que dê a grana, se não cê vai junto!

sábado, 7 de março de 2015

Dos mundos manifestos e ocultos

Há um mundo que não é dos segredos, é das coisas ditas e explícitas. Vamos chamá-lo aqui de Mundo Manifesto. E, por frescurização do léxico, atribuamos ao seu complementar, domínio dos segredos, o nome de Mundo Oculto. Já disseram os escritores bem afamados que todo ser humano tem sua parcela de segredos. E que esses segredos são em gradações diversas. Há coisas que hesitamos em contar até para nós mesmos, não é mesmo? Pois bem. No Mundo Manifesto não há um ajuste perfeito. Mas as coisas tendem ao ajuste, porque estão em constante contato. E quando o desajuste é grande instala-se um terremoto, e deste terremoto vêm as oscilações todas tentando reencaixar as peças. E no Mundo Oculto? Qual o grau de complementaridade entre as ilhas que somos? Será que aquela paixão escondida é correspondida em segredo? Será que não? Será que aquela saudade encontra um eco nos domínios do mundo sem palavras?

Foto #066


A falecida?

Quando a gente acha que já ouviu de tudo... vem esse cara simples pedindo pra eu criar uma conta de Skype para ele. Sem problemas. E aí ele quer saber se dá para falar pela Hebe Cam.

sexta-feira, 6 de março de 2015

A criação e a criatividade

Ela escreveu um livro que lhe custou cinco anos de alta concentração, pesquisas, privações. Centenas de páginas de uma história bem elaborada. Apoio da família. Do marido. O primeiro de uma trilogia, finalmente nasceu. Publicado. E agora ela não escreve mais nada, tem vários anos já, porque está ocupada com toda agitação que se instalou em sua vida agora que se lançou escritora.

Foto #065


Métricas

Marilyn Monroe seria possível se não tivesse morrido? O que seria dela nos anos seguintes? Como seria sua eventual decadência, sua migração lenta e gradual para a história? Como ela suportaria se tornar um museu de si mesma? Eu acho que a morte dela, como ocorre para muitos famosos, foi fundamental para a criação do mito Marilyn, não obstante o sucesso que tenha feito em vida. Deveríamos refletir mais sobre esse fato, pois ele trás à tona um lado sombrio de nossa sociedade, de nossa cultura. De nossos valores. Quantas mulheres não sonham, ainda hoje, em ser Marilyn? Quantos humanos, homens e mulheres, deixam de perceber, ainda hoje, que o lado mais importante da vida não está ligado a aparências e não produz fama?

quinta-feira, 5 de março de 2015

Saramago gênio

Não acredito mais em nenhuma explicação mundana para o que acontece. Falha de planejamento. Descaso. Essas coisas normais, de sempre. A calamidade que se avizinha deve ter causas pensadas profundas. Ainda que eu não goste de teorias da conspiração. Mas não me sobram outras. Querem mesmo sitiar São Paulo. Tirar proveito desse estado de emergência. Que vão logo os pobres todos daqui. Que saiam também as pessoas de classe média de bons bairros. Quero ver quem vai comprar os restaurantes de Moema e do Tatuapé quando estes começarem a fechar. Essa gente deve ser culpada. Só pode. Lei de mercado? Balela. Estão falindo a cidade de propósito. Esperar mais para começar um rodízio oficial e intenso só porque caiu uma chuvinha a mais é a mais pura piada. Mas somos anêmicos políticos, e não fazemos nada. Ficamos indignados com a morte de meia dúzia na redação do Charles Hebdo e não ligamos para o holocausto silencioso que se instala ao nosso redor. Diarréia. Sede pura. Quando li Ensaio sobre a Cegueira não imaginava que aquela nogentice toda que se instalou a cidade também fosse causada por cegueira política. Saramago gênio. Povo burro.

Foto #064


Rondônia

-Ixe, que o que eu gosto mesmo é de viajar viu.
-Topa emprego diferente só pra conhecer outros lugares, né?
-Rapaiz! Olha que de lá do sul de onde nasci já fui parar foi até lá pros lados de Rondônia!
-É mesmo? Que coisa! E o que achou de lá?
-Horrível. Um lugar onde não quero voltar nunca mais.
-Por quê?
-Terra de ninguém, cê tá é louco! Trabalhava no trator e tinha um caboclo da fazenda que ficava do lado com um revólver, tinha que trabalhar assim!
-Tá brincando! Tinham medo do que? De você roubar o trator? Ou de não fazer o trabalho direito?
-Não, não é isso não! O revólver lá não era pra mim não. Era como se fosse meu guarda-costas, cê tá entendendo? Porque si vinhessem os pistoleiros da outra fazenda, aí sim é que eles ia atirá.
-E por que os da outra fazenda iriam vir?
-Oxê, pra que... pra que... Pra pegar as terras! Lá é terra de ninguém, de grileiro. Camarada falou que a terra é dele, se tiver mais chumbo é dele sim. É assim que é. Camarada incomodou, apaga. Camarada tá pegando terra que você quer pra você, apaga o cabra. Assim que funciona pros lado de lá. Inté hoje. Fiquei três mêis e saí inquanto tava vivo. Oxe rapaiz... quero é continuar vivo viu, aquilo ali né pra mim não sô...

quarta-feira, 4 de março de 2015

Vida perfeita

Uma cidadezinha de tamanho médio. Sem aquela meia dúzia de mesmos rostos de sempre. Sem aquela confusão de marginais e estação da Sé. Uma casa que não é gigante. Mas não é um ovo. Tem um quintal com um bom espaço. Suficiente para não incomodar os vizinhos. E receber amigos. Amigos que vêm sempre. E que gostam de conversar. E que têm interesses diferentes. Um conta das coisas que está lendo sobre a China. Outro conta das besteiras que ouviu no puteiro. Outro fala da banda de blues que descobriu. E outro jura que descobriu aspectos da vida de Manoel Bandeira que a gente ignora, mas que são muito interessantes. Bebemos. Rimos. Torcemos para que a noite nunca acabe, mesmo sabendo que haverão inúmeras outras.

Foto #063


Agora

Nesse momento uma bala atinge um crânio e o sangue começa a voar para fora do orifício, miolos e tudo.

Em algum lugar do mundo, agora, voa o buquê da noiva e aquele grupo de mulheres bem vestidas se posiciona para interceptá-lo.

Filhotinhos de cachorro de uma raça fofinha bocejam de sono, aninhados uns contra o calor dos outros.

Em algum lugar um veículo atinge outro, em alta velocidade. Ninguém vai sobreviver.

Pessoas aplaudem um show que acabou de terminar. A cantora sorri e sente-se em êxtase com aquela energia toda.

Uma criança apanha do pai e berra um estridente agudo de choro.

Um velhinho está ao lado do leito de UTI em que repousa sua esposa em seu último suspiro. Se olham docemente antes que ela feche os olhos pela última vez.

Um jovem pedala sua bicicleta em uma praia deserta, à noite.

Em algum lugar do mundo, agora.

Passageiros decolam para um vôo que vai chegar em segurança, mas pensam em todos os acidentes aéreos de que conseguem se lembrar.

Em algum lugar do mundo, agora.

Um vírus voa pelo ar à procura de uma narina nova para morar. Não há cura para ele caso consiga encontrar seu novo hospedeiro.

Em algum lugar do mundo, agora.

Um pescador aprecia o pôr do sol de um lado do mundo enquanto passageiros num transatlântico fotografam a manhã do outro lado do planeta.

Agora. Em algum lugar do mundo.

Um casal briga soluçando rancores.

Desconhecidos sentem tremer a espinha com o prazer do primeiro beijo.

terça-feira, 3 de março de 2015

Diálogos Sinédoques

Penso: Oi, bom dia! Que saudade, que vontade de abraçar você! É difícil ficar longe, sem conversar... sem a conversa boa que você sempre tem. Tenho saudade de te olhar também. Eu gosto do jeito que você sorri e me faz bem olhar seu olhar feliz.

Digo: Oi.

Penso: É uma merda que a gente não tenha ficado junto, que a vida tenha tomado esse caminho. Porque eu gostaria que fosse lícito te contar mais histórias. Eu gosto de te contar histórias. Gostaria que fosse lícito te perturbar a qualquer horário para dizer "estou com saudades" e só. Quero saber mais da sua rotina. As coisas que te deixam feliz e as coisas que te deixam tristes no dia. Quero te dar conselhos, ainda que não resolvam nada, mas que ao menos mostrem o quanto eu me preocupo com seus problemas. Quero ficar mais perto.

Digo: Ah, quando der a gente marca algo.

Foto #062


Diplomacia

Eu não pertenço a nenhum desses hectares todos. Fico no alojamento, anônimo. E, ousado, saio às cinco da manhã para caminhar. A matilha escuta o barulho destoante da rotina. Alerta. Latidos vindos da escuridão em direção à minha apreensão. Vinham mostrando os dentes, rosnando, assustando. Agachei-me e estendi a mão, para cheirarem. Pararam a um metro de mim, desconfiados. Aguardaram um pouco. Aproximaram-se. Cheiraram minha mão. E responderam à minha ausência de hostilidade ou de fuga de um jeito simples: dali adiante, me ignoraram. Quando as civilizações vão aprender a fazer o mesmo?

segunda-feira, 2 de março de 2015

Civilização de merda

São Paulo é a grande metrópole mais honesta de todas. A mais justa. Para uma raça de humanos que faz o que faz com o mundo, nada mais justo do que beber merda na água da torneira. Comer merda jogada até nas frutas, venenos pulverizados nas plantações. É coerente com nosso descaso pelo mundo. Somos ratos. Pretensão hipócrita essa de querer viver limpinho. Merecemos uma diarréia interminável até a morte por desidratação. Porque é essa a doença que somos para o mundo.

Foto #061





Essências

A equipe não é gigante, mas é bem heterogênea. O mais velho da turma parece ser também o mais moleque. Fica em seu mundinho, fala pouco. Faz piadas inocentes. Já disseram, em mais de uma ocasião e em inspirações independentes, que ele merece o "Troféu Praça-É-Nossa de Humor". Mas o mais velho da turma não está na equipe há muito tempo. Tem quem já está há muitos anos nesse serviço. E vai casar, inclusive. Já está nessas seriedades. Ainda assim, não dispensa uma boa conversa sobre puteiros ou um contato com a ninfetinha do Tinder. O mais novo, então, não só pela idade, ocupa outros extremos. Bebe mais que todos juntos. Chega à noite no alojamento e já traz um pack de cerveja. As latinhas acabam e ele sai para comprar mais. E em um dia normal haverá pelo menos mais uma viagem para buscar outro pack. Que ele jura estar bebendo com os amigos, mas não há amigo que acompanhe seu ritmo. É uma latinha minha para cada três ou quatro dele, e assim também com os demais. Vive no puteiro a ponto de ficar de namoro com uma das putas, que liga para ele todos os dias. Virou refúgio sentimental dessa moça tão acostumada à inexistência de espíritos. É uma equipe que não é gigante e é bem heterogênea. Juntos, com todas nossas diferenças, contamos histórias e rimos um do outro. Nas risadas a gente é igual.

domingo, 1 de março de 2015

Culpas

Amigo, vou falar com sinceridade. Essa responsabilidade não é sua. Somos todos adultos. Sim, a empresa é sua e os funcionários são seus. Mas estávamos a lazer. Lazer é lazer, não é trabalho. E digo de novo: somos todos adultos. Todos bebemos. Nenhum de nós exigiu a direção no lugar dos mais bêbados. Todos deixamos a coisa acontecer como aconteceu. Não nos alertamos pelas derrapadas que quase deram em besteira. Ao invés disso, rimos. Todos juntos, rimos. Não foi só você. Sim, você conhece a equipe, conhece o perfil de cada um. Mas isso não lhe faz mais responsável. Álcool e é álcool e eu não preciso ser um especialista em álcool ou especialista no perfil de cada um para ser mais responsável que você. Eu também deixei que o Léo dirigisse. Deixei que a coisa toda se passasse como passou. E só me senti realmente errado quando o carro já estava ali sobre a grama, de ponta cabeça. Aquele estrondo acorda a gente. Ainda bem que a porta abriu. Que tiramos vocês de dentro. Ainda bem que parou mais gente na estrada. Que ajudaram a quebrar a janela. E esta responsabilidade não é toda sua. É sua na mesma medida em que é minha, do Léo e de todos nós outros. Não aceito dizer "acontece" para diminuir nossa culpa. Praticamente imploramos para que esta pequena tragédia acontecesse. Já me imaginei em cadeira de rodas. Já me imaginei sem poder nem mesmo mexer as mãos para escrever, para virar uma página numa tarde inválida e longa. Não sei como isso não aconteceu. Sorte das sortes. Mas as sortes têm sua cota. Erramos todos. Faça um favor pra todo mundo e divida essa responsabilidade conosco, porque precisamos todos das lições desse erro.

Foto #060


Diagnósticos

Tem esse livro, que nos dias de hoje se compra baratinho até nas bancas de jornal. Amores que Matam. Relacionamentos tóxicos, fixação no outro que se torna prejudicial para si. Querida, minha querida... será que nosso amor é assim? Será que meu amor por você é assim? Pois eu sei que me deixei sofrer. Sei que deixei se desenvolver no meu peito esse lado do sentimento que dilacera e sangra o espírito. E não é justo, não é? Não é justo com você. Se hoje estamos distantes é porque fujo desse sofrimento. Um sofrimento que, imagino, você nunca quis para mim. Tenho você como pessoa querida e, ainda assim, tem tempos já que preciso evitar sua companhia. Pois ainda que tenha sempre um lado feliz, tem também esse confronto com o lado que dói. E nos nós dos contraditórios tem essa minha vontade de que não fosse assim, mas acima de tudo porque aí poderíamos ficar mais perto, nas circunstâncias que a vida deixasse. E sei que não é este o motivo certo para eu querer ficar bem.