Quero saber que sente minha falta. Quero saber que pensa em mim. Quero saber das vezes em que apareço em seus pensamentos. Quero saber o tamanho de sua saudade. Te dou meu espírito. Mas preciso de um lugar pra ficar. Abra seu coração. Fale comigo.
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Lendo os próprios textos
-Me conta uma história?
-Contar o que? Que história?
Ele queria contar alguma coisa. Mas não era bom com sua memória. E ficava nervoso tentando pensar em algo. E então começou a ler os livros que tinha na estante.
-Que coisa chata, o que é isso?
-Um livro de economia que tava aqui...
-Não, isso não, conta uma história!
Ele arriscou um passo mais ousado. Abriu as velhas gavetas e retirou dali seus cadernos já empoeirados e amarelados. Resolveu ler as próprias histórias. Mas não teve coragem de dizer que eram suas próprias histórias.
-Nossa, que bonito isso! O que é?
-Um livro de histórias infantis.
-Eu não conhecia.
-Coisas da minha mãe...
-Conta mais?
Página por página foi se reconstruindo a partir de seus escombros.
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Submerso
Algo silenciou em mim nos últimos tempos. Nos últimos meses. Quase não tenho escrito. Não sei o que escrever. Não sei o que cantar. Não sei o que deve sair de mim. Impotência da alma. Existência inconsequente. Universo indiferente.
Vou fazer café. Beber um pouco de tinta e depois ver se saio cuspindo palavras por aí.
Foco no indivíduo
Terminei ontem a leitura do "Esculpindo personalidades". Título um tanto quanto estranho para um economista mas alinhado com os demais trabalho de Claudio Stanheddas. O autor faz uma ponte entre a psicologia e as teorias econômicas e não é exagero dizer que sua escrita é também uma ponte entre a literatura e o academicismo.
Já se tornou lugar comum nos meios intelectuais dizer que o trabalho de Stanheddas tem o foco de sua análise no trabalhador. De fato o economista não está preocupado com as variações do PIB ou a produtividade que uma determinada organização confere à empresa. Sua preocupação principal é relacionar as estruturas de trabalho à totalidade de experiência de vida possibilitada ao trabalhador. Porém, uma vez que esta experiência de vida abrange muito além daqueles aspectos ligados à atividade profissional, julgo mais apropriado dizer que Stanheddas tem seu foco não no trabalhador mas sim no indivíduo. Afinal, um trabalho estritamente preocupado com o ser humano enquanto recurso de produção jamais dedicaria um capítulo inteiro à relação entre "Organização da empresa e o amor", nem muito menos se aventuraria a fazer ainda o caminho inverso ao investigar o "Tempo com os filhos e potencial de inovação".
Na introdução o leitor já encontra o alerta de que tem em mãos um material de escopo diferenciado. Tais aberturas são comuns nas obras deste acadêmico. Vale a pena aqui dar a voz ao próprio autor:
"A economia é um sistema complexo, e isso o digo no sentido moderno do termo. Não possui hierarquia rígida, todas as partes se influenciam mutuamente e o alcance de interações frequentemente têm alcances imprevisíveis, podendo grandes mudanças ser absorvidas por uma forte resiliência ou inputs aparentemente pequenos levarem a alterações exponencialmente crescentes. Embora análises tradicionais da economia sejam centralizada em seus meios e resultados, o moderno entendimento teórico da complexidade sugere que houve negligência histórica na análise do agente em si - suas propriedades e a relação destas para com o sistema em que está inserido. O agente principal da economia é a pessoa, o indivíduo. Abordagens específicas propuseram tratar a empresa como entidade fundamental e análises mercantilistas muitas vezes consideravam todo um país como um bloco básico de análise, tal qual o faz a chamada abordagem macroedonômica de hoje. Tais abordagens são do tipo top-down não sendo, portanto, pertencentes ao modelo de análise sugerido pela teoria da complexidade. Estas são as razões, digamos assim, teóricas, para o destaque que se dará nesta obra à pessoa individual. Mas há também, claro, uma outra razão.
A história da economia moderna segue linhas institucionais. Trata, por vezes, do ponto de vista da empresa, buscando maximizar lucros e eficiências. Noutras vezes, em estudos mais classicamente ligados a setores da sociologia e humanidades menos endinheiradas, aborda o lado dos sindicatos, organizações de trabalhadores ou simplesmente do interesse dos trabalhadores em geral ainda que não pertencentes a um bloco institucionalmente organizado. De algum modo ligado a este segundo grupo estão os estudos que tratam dos pobres em geral, pois podemos pensá-los como trabalhadores latentes desconectados do sistema (ainda que esta latência possa, e frequentemente tenha, a duração de toda a vida das pessoas em questão). Estas abordagens são inerentemente parciais. E, por serem parciais, instigam algum tipo de conflito não importando o quanto tenham, em suas origens, se proposto a combater algum outro. É por isso que neste trabalho ouso tratar do indivíduo enquanto tal, enxergando sua colocação na posição de empregador ou empregado como atributos secundários e reconhecendo, explicitamente, que a característica original - indivíduo, é completamente comum a ambos os agentes. Tal estrutura analítica é sugerida pela teoria da complexidade quer em seus preceitos quer pelas linguagens de programação tradicionalmente empregadas para estudos computacionais específicos: as linguagens orientadas a objeto pressupõe uma classe de variáveis às quais serão dados diversos atributos. Nada mais lógico, portanto, em uma abordagem bottom-up, do que começar por uma variável "indivíduo" ou "pessoa" e atribuir-lhe então atributos iniciais que podem muito bem começar por "empregador" ou "empregado". Fica explícita, portanto, a possibilidade de trânsito de uma mesma pessoa entre as duas categorias. Ou até o pertencimento às duas funções em contextos específicos.
Finalmente, e não há porque não o dizê-lo explicitamente, a abordagem desenvolvida nesta obra deve-se também a uma questão de escolha subjetiva que podem, sem receio quanto à rejeição acadêmica ao termo, ser dita como primordialmente utópica. Quero entender a relação entre as estruturas econômicas e a experiência existencial de cada pessoa porque enquanto estas duas entidades forçarem demasiadas tensões entre si, teremos um cenário em que a economia fere a vida daqueles que a sustentam e que estes se rebelam, de diversas maneiras possíveis, contra a estrutura que deveriam sustentar. E finalmente, em última análise, enquanto a economia não oferecer a possibilidade real, viável, de vidas desejáveis para a totalidade daqueles que a compõe, pouco importará o sucesso de qualquer outro indicador. Sucesso econômico às custas de tragédias de vidas deve ser clara e explicitamente visto como algo indesejável e falho."
Não vou comentar mais sobre o desenvolvimento do livro. Com uma introdução desta, quem ainda ousaria dizer que não se interessou?
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Sofrimento
A origem do sofrimento está em mim. Vazios que espero serem preenchidos pelos outros. Imaginações infundadas.
Entendemos nossas pequenas desilusões como decorrentes de uma deliberada traição alheia. Uma iniciativa deliberada do outro para nos machucar. O que é um engano. Somos desiludidos por conta de nossos próprios erros. Esperanças infundadas depositadas no mundo exterior, em pessoas ou em circunstâncias externas. Enganos nossos.
Basta identificar esses erros e aprender a errar menos para diluir o sofrimento. Que fácil, que fácil...
Pão e chocolate
Passei no mercado. Fazer compras quando se mora sozinho é um desafio. Até porque eu não entendo muito de cozinhar e não tenho grandes pretensões gastronômicas. Então fica muito fácil comprar tranqueiras demais ou errar nas quantidades e deixar coisas estragarem. Ultimamente, essa crise e tal, o dinheiro anda mais curto. Então comprei macarrão, molho, pães, requeijão, queijo e coisas assim. E ao passar pelo caixa não resisti: chocolates! É mais barato comprar chocolates no mercado do que nos restaurantes e padarias. Se bem que, enchendo minha casa de chocolates, eu os devoro quase que em uma mordida só, não duram tantos dias quanto deveriam.
De sacolas na mão e pensando nessas coisas, saí em direção à minha casa e já fui distraindo meus pensamentos com uma barra de Diamante Negro. Estava começando a me xingar mentalmente por não resistir à gula e já ir cedendo aos doces. Assim eu vou continuar engordando! Ainda mais agora que ando super sedentário. Foi no meio desses pensamentos que vi um mendigo, na calçada, que ia me observando bem atentamente enquanto eu comia meus chocolates. De repente senti a luxúria em que eu estava me afogando: comendo sem precisar, comendo o que até me fazia mal, enquanto ali ao lado alguém morria de fome. Olhei-o nos olhos e perguntei:
-Ô amigo, cê tá com fome?
-Porra se tô, vixe!
Não hesitou em ser tão enfático quanto podia. Dei a ele um chocolate e um pão seco ao que ele foi logo agradecendo e me cobrindo de votos de bênção. Segui para casa pensando na profundidade de nossas gulas que nunca olham ao redor.
Na manhã seguinte liguei a TV. Dentre as tantas tragédias de sempre, com o câmbio e com os deputados, uma notícia algo atípica:havia ocorrido um atropelamento no fim da madrugada ali próximo à minha casa. Um carro cheio de jovens bêbados atropelara um mendigo que dormia na calçada. Naquela manhã não consegui comer nada e ainda hoje, ao me lembrar da história, sinto um embrulho incômodo no estômago.
terça-feira, 12 de setembro de 2017
Insuportável
"Parati foi tomada por pobres que acabaram com a cidade", disse o idiota preconceituoso
"Os nordestinos acabaram com São Paulo. Por que não voltam logo pra terra deles?", disse a egoísta arrogante.
Tenho tido nós no estômago diante da intolerância alheia. A intolerância à intolerância me invade.
Encontro com a natureza
Pés na areia macia. A água trazendo espuma de longe. Vento e ecos nos ouvidos.
O topo de um morro, pés nas pedras. Lugar alto com vista a horizontes infinitos em todas as direções. O sol lá longe discretamente se escondendo, discretamente provando ser dono de toda luz que leva consigo.
Lugares de retiro.
Uma rede do lado da floresta, canto dos pássaros.
Ou o papel. Vezes sem conta me retiro ao papel. Porque o papel é um lugar alto com vista infinita. O papel é um espelho profundo com meditações fortes. O papel também é a prova de que tudo depende do nosso grandioso sol, até mesmo esses momentos de reflexão isolada e sincera.
Talvez seja um pouco egoísta ou egocêntrico, e confesso estar descobrindo os detalhes de meu egocentrismo. Mas que assim seja: enquanto meus pés não encontram a natureza lá fora, que minha mente, pisando no papel, reencontre a natureza aqui dentro.
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Como você começou a tocar sax?
"Então cara... eu tocava é clarinete. Nunca tinha pego outro instrumento. Estudava de manhã. À tarde. Enchia o saco da família toda. O cachorrinho não aguentava mais, sabe? Fiz o Klosè todo, meu professor me enchia o saco. Mas eu levava a sério. Só que aí comecei a andar pela cidade. E eu via essas boates... Pô cara, ali o pessoal curtia. Tinha música, mulher, gente pra caramba, sabe? Eu queria participar daquilo, só não sabia como. Eu não tinha dinheiro pra ir sempre nesses lugares. Mas um dia eu fui lá, um amigo meu foi me apresentar uns caras da banda que tocava lá. E aí eu fui falar com eles, e eles estavam putos com um tal de Pedro. O cara tinha sumido, sei lá o que deu. Aí me perguntaram se eu conhecia alguém que tocava sax, pra substituir o Pedro. E eu perguntei se servia eu! Me chamaram pra um ensaio na outra semana então, pra ver como eu tocava. Saí de lá correndo, fui falar com meu professor e implorei por um sax emprestado. Passei a semana inteira me achando com as escalas, uns arpejos, pra pegar a digitação... a embocadura era bem mais fácil que o clarinete. Sax é instrumento de bêbado, difícil de errar. Mas as escalas tinha que praticar... Aí na outra semana tava lá. Só fui contar isso pra eles uns dois anos depois. E acharam que era brincadeira minha, que eu estava mentindo."
Dói mais quando é com a gente
Tenho visto alguns filmes e documentários recentemente e não posso deixar de notar como o 11 de setembro é visto como uma das grandes tragédias do século. É claro que foi uma tragédia horrenda. Nada justifica buscar qualquer aspecto de positivo e justo no que ocorreu neste fatídico dia porque tal não existe. Mas sua posição como "tragédia máxima" no imaginário popular é nada mais que um grande equívoco.
Ignoramos as mortes de refugiados, de famintos, de doentes. Ignoramos as mortes no trânsito, as mortes nos crimes, mas mortes em tantas e tantas formas que aprendemos a aceitar como normais ou a simplesmente não ver.
Aprendemos a não ter opinião própria. Copiar a opinião dos outros é muito mais prático e também mais cômodo socialmente. Não erramos quando concordamos com o jornalista da TV porque sabemos que nossos amigos assistiram ao mesmo jornal. Não importa muito o que diz a realidade porque a Realidade é esse lugar mitológico onde ninguém vai.
domingo, 10 de setembro de 2017
Movimento
- Pai... Uma vez eu li uma história. Era sobre o Churchill. Diz a história que ele estava há horas no estúdio da casa dele, ou sei lá eu onde, em pé diante de uma tela em branco. Uma amiga dele chegou e perguntou o que ele estava fazendo. Ele explicou que queria pintar uma flôr e ela questionou o fato de a tela ainda estar em branco. Ele disse que estava indeciso sobre como começar a pintura. Então ela tomou o pincel da mão dele e fez um traço qualquer na tela. E disse "pronto, começou! Agora é só continuar". Entende? Movimento. Movimento.
Horas mais tarde...
- Oi filho. Fui procurar trabalho voluntário. Passei a tarde dobrando fraldas geriátricas descartáveis. Foi bom. Me movimentei e valeu. E encontrei uma conhecida de quarenta anos atrás. Ela quem me ensinou a dobrar as fraldas. Por hoje consegui vencer a timidez e a sociofobia. E não fiquei aqui em casa com essas coisas ruins na cabeça que têm me acometido às vezes. Agora à noite fui fazer ginástica para idosos. Foi muito bom. Obrigado filho. Você foi muito importante pra mim hoje. Obrigado mesmo.
Aerolitos
As pedras vão cair do céu. É questão de quando. É uma certeza. Pode não acontecer ao longo de nossa vida mas certamente vai acontecer algo relevante em algum momento no futuro. Um grande rochedo caindo do céu. Temos, é claro, eventos menores registrados. O meteoro que caiu sobre a Rússia há alguns anos. O evento de Tunguska no início do século XX. Mas essas são meras curiosidades, notas de rodapé, diante da perspectiva de um pedregulho realmente capaz de arruinar a humanidade. E aí minha grande curiosidade é se vamos ser capazes de nos coordenarmos e empreender os esforços necessários à sobrevivência da nossa espécie ou se imediatismos financeiros e barreiras culturais vão prevalecer e viabilizar o fim da espécie. Em dias como hoje a perspectiva não é das melhores.
sábado, 9 de setembro de 2017
Meu primeiro livro
Ele me entregou um livro. Era um roteiro de uma peça de teatro. Ele havia escrito a peça. Ele havia dirigido a peça. E ele tinha ali um livro impresso. Editado. E, ainda assim, pediu para que eu fosse discreto.
"Não comenta aqui com o pessoal não. Sabe como é, não é? As pessoas não vêm bem essa coisa de arte. Eu nem trago meu livro pra cá. Quanto mais dar às pessoas. Mas esse eu trouxe pra você porque vi que você tem um gosto diferente. Normalmente as pessoas não vêm com bons olhos. Ficam perguntando quando vou aparecer na Globo. Como se essa fosse a definição do sucesso. As pessoas só conhecem isso. Mas tem muita vida no teatro. Tem sempre muita coisa legal acontecendo. É um universo bacana."
E como você conseguiu publicar seu primeiro livro?
"Eu tinha feito a peça. Aí uma vez eu falei com um cara que ouvi, numa conversa, que mexia com livros. Falei da peça e ele confirmou o nome, ficou curioso. Ele disse que já tinha assistido. Acredita nisso, cara? Ele já tinha visto a minha peça! Aí eu perguntei se ele sabia um jeito de conseguir o contato da editora. E ele falou que 'é claro que sei. A editora é do meu pai!'. E então ele pegou o texto e publicaram!"
Minha mãe chegou ao WhatsApp
-Mas já está saindo? Onde vai? E vestido assim?
Essa liberdade, contudo, parece estar ao menos parcialmente ameaçada.
Pelo WhatsApp.
Eu deveria ter dito para a minha mãe que, na internet, as mensagens demoram um dia para chegar. E que nem sempre chegam já que precisam percorrer milhares de quilômetros em servidores, subir até os satélites e descer de volta bem no meu celular. É claro que o processo é tão complicado que deve falhar em boa parte das vezes.
Não, não consegui inventar a história a tempo. E agora vou parar este texto por aqui porque minha mãe está preocupada: já tem uns dez minutos que ela perguntou como foi meu dia e eu ainda não respondi.
19:38: Oi filho, como foi seu dia?
19:39: Aqui foi tudo bem. Tinham umas frutas boas no mercado e vou fazer uma salada de fruta para sobremesa depois da janta, nham nham!
19:42: Ai, vi o protesto que teve na Paulista no Jornal, não vá passar por lá hein? Fica longe dessas confusões....
19:45: Filho? Cadê você que não responde? Tá tudo bem?
19:46: Filho! Não fala mais comigo? Ai meu Deus... tá tudo bem?
Não, não tá.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Porta da esperança
Comparações
-Cara, sabe o que meu namorado falou pra mim? Falou "ei, eu não quero ser comparado com seu ex!". É uma situação complicada, porque aí se eu for completamente sincera vai parecer que o estou deliberadamente ofendendo. Mas a resposta é... é claro que eu comparo! Querendo ou não. Comparamos as pessoas o tempo todo. Esse discurso de "não comparar" é uma amenidade mentirosa da linguagem. É claro que eu vou reparar se ele for mais engraçado que meu ex, se for menos trabalhador que meu pai, se for mais bonito que minha paixãozinha do colégio. Não importa. O importante é que não se trata de um "super-trunfo" dos relacionamentos. Mesmo que ele perca em alguns quesitos nessas comparações eu sei que, hoje, escolho ficar com ele. Ele precisa de maturidade para entender isso. Para entender que, independentemente do resultado das comparações, estar ou não com ele é uma questão de escolha minha. E que se ele se desesperar demais com isso, em não querer parecer inferior a quem quer que seja, ironicamente só vai conseguir é perder pontos.
-Concordo amiga, concordo.
quinta-feira, 7 de setembro de 2017
Grilhões alfabéticos
Silêncio
Mas agora que dou aula há alguns meses e começo a observar minhas falhas, vejo que a palavra "silêncio" ainda guarda mais segredos. Ela funciona também na outra direção. Uma das minhas grandes falhas nestas primeiras aulas foi a de falar demais. Há um momento em que os alunos devem pensar. Cada aluno deve se concentrar em seu exercício e explorar, sozinho, o alcance das próprias convicções.
É preciso silêncio por parte do professor. Silêncio para que, desta vez, cada aluno possa ouvir a si próprio.
Triste
Como eu me sinto ouvindo essas aberrações?
Fico profundamente triste com o alcance da ignorância neste país. Tínhamos que colocar mais e mais aulas de filosofia, sociologia e antropologia nas escolas.
E, cada vez mais, entendo o benefício de nos misturarmos mais e mais entre nós. Seres humanos, ao invés de ficarmos de nariz enfiado no ninho, sem enxergar mais de cinco metros para além dos muros.
Tentei argumentar uma coisa ou outra. Mas, confesso, voltei para casa fisicamente ferido. Dormi como se houvesse apanhado. Até me surpreendi. Não imaginava que me afetaria tanto. Mas a ofensa saiu do campo abstrato, teórico. Entendo que inventores de quintal não consigam compreender a segunda lei da termodinâmica e acreditem piamente em mentirinhas maldosas do YouTube. Suporto até a ignorância política que entregou nosso país a terroristas que estão implodindo o futuro dessa nação a uma velocidade impressionante. Faz parte do processo político, entendo. Um preço da nossa ignorância. Mas quando essa estupidez atinge a esfera humana em si, o puro e simples desprezo pelo outro, uma superioridade deturpada de realismo fatalista, então sinto-me habitando o planeta errado.
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
Prova
É o dia decisivo. Será que eu já estudei tudo o que precisava? Acho que o professor não vai querer me ferrar. Ele precisa que os alunos passem. Se não a casa cai pra ele, né? Eu quero aprender essa matéria, mas não dá tempo de estudar. E tem cálculos no meio. Daí falta tempo para estudar. O curso é bom, mas é muito puxado. Num dia tenho que ir fazer compras. No outro tenho que ir buscar o carro na oficina. Depois teve o dia que o meu filhinho caiu e quebrou os dentes da frente. Ainda bem que são dentes de leite, mas o moleque estava chorando feito um condenado. Aí você acha que eu vou chegar em casa e pegar a apostila? Que tipo de pai eu sou?
É o dia decisivo. Eu sei que ele teve muitas dificuldades. Não é fácil estudar depois de adulto. São muitas outras responsabilidades. O maior desafio é o tempo. Sempre o tempo. Mas algo ele deve ter aprendido. Teve os exercícios que a gente fez em sala de aula. Ele vai lembrar, sei que vai. Eu corrigi várias vezes com ele. Expliquei diversas vezes. Depois das minhas explicações eu fazia ele repetir as frases decisivas, em voz alta, para fixar da melhor forma possível.
E de repente estão lá. Na mesma sala. Frente a frente. Ambos ansiosos, cada um ao seu modo. É praticamente uma roleta russa.
terça-feira, 5 de setembro de 2017
Para o futuro
Vejo o jovem de hoje e vejo o que as escolas estão fazendo. As escolas são instituições de atrofismo mental. Essa gente não fala. Não se expressa. Não é desafiada a ter uma opinião e então defendê-la. É preciso mudar o funcionamento das instituições de ensino. É preciso pensar na formação de pessoas com uma postura ativa sobre o mundo ao redor.
Jornal da manhã
Bom dia, a crise está piorando.
Bom dia, o dólar subiu novamente.
Bom dia, policiais matam bandidos e pessoas que passavam na calçada.
Bom dia, água está acabando na metrópole, mas cientistas encontraram um pouco... em Marte.
Bom dia, o poder de compra dos trabalhadores diminuiu.
Bom dia, o salário dos ministros aumentou.
Bom dia, casos de AIDS voltam a aumentar.
Bom dia, mais uma vítima de preconceito racial denuncia abusos.
Bom dia, casal gay queria adotar uma criança mas religiosos protestam contra.
Bom dia, congestionamento já ultrapassa 600 quilômetros nessa manhã.
Bom dia, paulistanos protestam contra o uso da bicicleta.
Bom dia, motociclista morre ao ser atingido por veículo em alta velocidade.
Bom dia, motoristas protestam contra excesso de radares nas avenidas.
Bom dia.
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
Eu não te amo
Lembro quando a olhei nos olhos e disse "eu não te amo". Ela havia acabado de se declarar a mim. Eu já tinha dúvidas sobre nosso relacionamento. Já sentia que não tínhamos futuro juntos. Estávamos em momentos diferentes da vida. Estávamos com sonhos diferentes na cabeça. Mas doeu. Doeu muito. Em mim. Foi um sentimento horrível. Como se de repente eu houvesse deixado de ser um ser humano. Como se eu houvesse abandonado qualquer esperança de ter uma boa imagem comigo mesmo. E, ainda assim, acho que fiz o que devia ter sido feito.
Porque olha só a situação agora. Terminei um outro namoro. Mas ela não me esquece. E eu não queria que ela ficasse sofrendo. Situação clássica, não é? Mas o que é que eu vou fazer?
Deveria ir até lá apenas para dizer a ela "eu não te amo"?
Ao menos da primeira vez, foi no meio de uma conversa. Não exigiu ir até lá só para violentar as emoções alheias.
Odeio esses problemas.
Sonho
Uma viagem de trem pelas serras gaúchas. Ou um voo para a Europa. Ou algo mais simples mas fora de nossa rotina tradicional: alguns dias de folga em alguma chácara no interior de São Paulo. Não importam os detalhes, o que importa mesmo é este sonho de fazer uma viagem com a família toda.
Será que funcionaria? Há muitas coisas que podem dar errado.
Minha mãe vai discutir com minha tia. Meu tio vai beber mais do que deveria e vai ficar impaciente. Meus sobrinhos arranjarão alguma ocupação isolada, no mundo deles, e não vão participar dos nossos momentos juntos tal como imagino.
Mas, tudo considerado, não é sempre assim por aqui também quando estamos juntos? E, por algum estranho milagre do fenômeno "família", não é ainda assim... bom?
domingo, 3 de setembro de 2017
Idiotas funcionais
Existe o analfabeto funcional. Já falaram muito dele, coitado. Mas existe essa outra categoria a que vamos chamar de idiota funcional. Aqui é claro que a palavra funcional é empregada em um sentido diverso. Em "analfabeto funcional" o termo funciona para especificar que nos referimos àqueles que são analfabetos em efeito, na prática. Já em "idiota funcional" me refiro pura e simplesmente ao idiota "que funciona", incansavelmente ostentando suas idiotices por aí.
O idiota funcional muitas vezes tem uma família abastada. Mora bem. Aqueles apartamentos que tem entrada social, entrada de serviço e entrada para os serviçais dos que usam a entrada de serviço. O idiota funcional teve uma infância movimentada. Correu de kart. Viajou pela Europa. Esquiou em neve de verdade. O idiota funcional tem um grande guarda roupa.
O idiota funcional tem perfumes. Nada contra homens se perfumarem também. A questão aqui é a fartura, o exagero. Só o que um idiota funcional típico tem de perfumes no banheiro daria para pagar todas as minhas contas no ano.
Mas não importa o quão rico o idiota funcional seja. Ele é, antes de tudo, isso: um idiota. Não é capaz de entender um simples parágrafo. Não por alguma questão de autismo ou outro viés biológico. É só falta de prática mesmo. Falta de interesse. Não é capaz de expressar o que está pensando. E aqui eu não sei dizer se é o caso de falta de prática na expressão ou diretamente no ato de pensar. Temo pela segunda opção.
Sou egocêntrico?
-Eu acho que eu sou egocêntrico.
-Mas por quê?
-Muita reflexão em torno de mim mesmo. Acho que falta olhar para fora.
-Mas olhar para si é importante. Primeiro, você precisa saber se priorizar. Por mais bondosos que sejamos não podemos cuidar primeiro dos outros e depois de nós mesmos. Não o tempo todo.
-Ok, mas e em um nível existencial? Nas minhas reflexões, nos meus pensamentos... Estou preocupado com a minha vida. Com as minhas curiosidades. Com a minha visão de mundo. E os outros? Às vezes eu fico tão existencialmente distante dos outros que, de repente, fico chocado ao verificar o grau de ignorância ou certas diferenças que existem com as outras pessoas. Coisas que eu acho serem comuns na verdade não o são. Mas eu demoro para perceber porque estou por demais centrado em mim mesmo.
-Mas qual o maior problema disso?
-É o isolamento mesmo. Não no sentido de tristeza mas sim no sentido de distanciamento da verdade. Acho que tenho visões por demais otimistas com relação ao mundo e às pessoas pura e simplesmente porque sou pouco exposto a elas. Não sei se meu otimismo sobreviveria a um contato mais próximo.
-É, talvez você seja egocêntrico...
-Pois é... Eu tenho um senso de superioridade e uma tendência a subestimar minhas diferenças com relação às outras pessoas, não é?
-Não é só isso...
-O que mais, então?
-Não consegue nem mesmo conversar com os outros sobre isso. No máximo no máximo, fica aí trancado em um quarto, sozinho, escrevendo um diálogo consigo mesmo.
sábado, 2 de setembro de 2017
Mortes
Dei aula para ele. Não era meu aluno. Mas era a última aula do curso e substituí o professor previsto. Era muito gente boa. Um cara simpático. Sorridente. Falante. Curioso. Educado. Não se colocava na posição de "cliente mandão". Foi uma boa aula. Saí de lá contente. Contente por colaborar com o futuro das pessoas. Das pessoas boas.
Três dias depois, a notícia: estava morto. Acidente. Li na internet. Não podia acreditar. Acessei o sistema da escola e confirmei o nome. Sobrenome. Era ele.
-.-
Vou vender minha moto. Quase morri. Mas quase... Não quero tentar a sorte de novo. Ela foi do acidente direto para a autorizada. Depois de meses de enrolação, finalmente a notícia: está pronta. Como ali era oficina e concessionária, resolvi ver se eles mesmos comprariam a moto. Compram sim! Mas ofereceram um valor muito baixo... Até compensaria perder um pouco de dinheiro pela praticidade... a moto está em outra cidade. Ao invés de buscá-la, eu poderia já fechar negócio com a moto lá mesmo. Mas... e se a diferença fosse muito grande? Perder um pouco de dinheiro, tudo bem. Muito, não! Resolvi ligar para a oficina aqui ao lado de casa, onde eu sempre levava a moto. Lá vez ou outra eles divulgam uma moto a venda e certamente estão por dentro dos preços. Telefonei.
- Alô? Por gentileza, o Salvatore?
- Faz tempo que você não vem aqui, não é?
- Sim... por que?
- O Salvatore faleceu... tem três meses.
Eu sempre conversava com ele. Tenho a impressão de que ele tinha alguma amizade por mim também. Afinal minha humilde moto de motoboy ficava deslocada ali naquela oficina cheia de gigantes Harley Davidson e BMW's.
-.-
Há alguns anos fui para o Rio de Janeiro. Passei o ano novo lá. Um amigo meu iria viajar com a namorada e me chamou para ir junto. Ficamos no apartamento do tio dele. Conheci a família toda. Gente muito acolhedora, simpática. O filho mais velho, pouco tempo depois, foi estudar na França. Orgulho da família. Hoje, no Facebook, comecei a ler uma mensagem emocionada deste filho. Falava do pai. Imaginei por um instante que fosse alguma mensagem de aniversário, ou de saudade, ou celebrando alguma conquista.. Mas logo entendi. O pai havia falecido. Câncer no estômago. O levou em cerca de um mês depois de descoberta a doença.
Bebês que já tiram selfie
A natureza é sábia. Em cada época e em cada ambiente as criaturas se adaptam às circunstâncias. Quando não havia terra não haviam patas. Quando não havia luz, não haviam olhos. Quando só saltar longe dá esperança de sobrevivência eis que surgem asas. Não há, portanto, porque estranharmos essa profusão de tendências no mundo digital. Bebês que já nascem tirando selfie. Há milhões de anos a atmosfera se poluiu de oxigênio excessivamente e todas as bactérias que prosperavam em uma atmosfera pobre deste gás tiveram que dar espaço à aquelas que o processavam. Hoje aqueles que não se adaptam à cultura de clicks e likes estão fadados a se fossilizar na história.
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
Amiga terapeuta
É claro que um terapeuta é um profissional, que dedicou centenas, milhares de horas de estudos para conhecer os segredos da psique humana e os diversos casos que pode encontrar. Mas, ainda assim, tenho uma teoria. As terapias se instalaram na sociedade moderna, em boa parte, devido à fragmentação nas relações familiares e nas amizades.
Eu mesmo deixei de precisar de terapia quando voltei a recorrer às minhas amizades. Bar. Conversas. Falar da vida. Ouvir opiniões sinceras. Críticas. Sugestões honestas.
Com uma estrutura de vida que permita amizades terapêuticas, as terapias de consultório tornam-se dispensáveis.
É a vida
E é bonita e é bonita!
Hoje a vizinha estava cantando. Ela e as crianças. Muito melhor assim porque, normalmente, ela está aos berros dando broncas horrendas nos pequenos por conta deles serem, bem, crianças...