Não gosto da invasão de minhas vontades, gosto da paz do meu silêncio ou de incensura nos meus barulhos... Quando sou? Sou nos silêncios impostos dos convívios? Ou finalmente sou apenas na insignificância obscura do completo isolamento com toda a liberdade que lhe é peculiar? Quando não sabem de mim, sinto ser o que me imagino. Quando observam todos de perto, sinto ser apenas em segredo, sem que me saibam. Sem que seja de verdade. Misturado aos outros, facilmente se é mais reflexo que luz. Ou talvez seja só impressão. Talvez todos brilhem e eu apenas não goste da ideia de ser também só mais um. E o que seria mais humano?
sábado, 16 de junho de 2018
Todos os dias
sexta-feira, 15 de junho de 2018
De repente vou dormir
Agora chega de repente
Pois já é hora de dormir
Não adianta implorar
E nem venha insistir
A você deixo um boa noite
E faço uma oração
Que nada de mal lhe açoite
E que Deus lhe dê proteção!
Inquieto
Quem é você? Quem é você, que eu vejo de longe, que eu imagino? Quem é você que eu leio à noite em trechos jogados? Quem é você que aparece e some? Dona de desejos alegres, vivos, um sorriso inspirador. Quem é você que não está quando eu apareço? Que quando a porta se abre, não está? Que quando não procuro escreve dizendo "estava lá!". Vou te dar um abraço apertado pelos últimos dezesseis bilhões de anos em que a gente não se fala... e, quem sabe, um beijo...
quarta-feira, 13 de junho de 2018
O Romeno
Eu vim pra cá há oito anos. Vim porque ofereceram trabalho. Trabalhei pra chinês, sabe? Cara, chinês difícil! Chinês, difícil! Trabalha, trabalha, trabalha. Ganha nada. E dinheiro? Dinheiro no Brasil não vale. Ganha mil, mas vive como? Vem aluguel, aí tem que ter um celular se não fica sem trabalho, aí pega ônibus e pum, nem sobra pra comer! Tá vendo? É assim! Eu fiz tudo, tudo um pouco. Trabalhei na construção. Mas restaurante, melhor. Faz comida e come também. Pelo menos não passa fome enquanto chinês não paga. E chinês pra pagar, difícil! Falava: não tem carteira, não tem documento, não pago! E pronto! Fazia trabalhar mais, mais mais, falando que se não, não paga eu! Só fazia isso, só fazia isso! Minha mãe veio aqui uma vez. Tem dois anos já. Foi assaltada. Com arma na cara dela. Revólver. Malandro, sabe? Filho da puta. Ainda hoje, no Romênia ela fala que faz terapia. Não volta pra cá nem a pau. Eu tô feliz que vou conseguir voltar. Juntei meu dinheiro. Foi difícil, porque muito calote teve. Trabalho com documento, não acha. Trabalho sem documento, não sobra dinheiro. Difícil. Todo mundo louco aqui. Era melhor antes. Quando eu cheguei, era melhor. Todo mundo fala mal do Lula mas era melhor antes. As pessoas parecem não perceber! São meio doidos, os brasileiros, né? Olha, calor bom, comida boa, mulher boa. Mas eu não vou ficar com saudades não. Estou desesperado por voltar. Fui assaltado também. No praça da Sé, porque tinha relógio que parecia caro. Porcaria do chinês, não valia nada! Mas pivete veio com pedra no meu cara. Quebrou os dentes todos. Fiquei meses com pontos na boca. Olha aqui, as fotos. Esse aqui, gordinho, era eu. Perdeu quinze quilos até boca melhorar. Filho da puta do pivete. Aqui é um pouco ilusão. Coisas boas misturadas com muita coisa ruim, aí não vale a pena. Caipirinha é que é bom! Mas vou fazer lá. Aprendi a fazer, muito boa! Chinês falava que não me mandava embora porque meu caipirinha era boa! Mas no Romênia vou ter que fazer com vodka, né? Lá não acha desse Corotinho...
terça-feira, 12 de junho de 2018
Teatro
Uma calça se transforma em um cachecol. Em um laço. Em uma cerca. Em uma serpente ameaçadora.
Um pote plástico transmuta-se num tambor. Numa bomba. Num tijolo. Num livro.
Um coador plástico de repente é uma lupa, uma válvula, uma máscara.
E nos ensaios, os mundos faz de conta faziam-se reais. E cada hora ali provava que os sonhos mais impossíveis aconteciam, diante dos olhos de todos, e as pessoas viam, viviam, e as estrelas, de inveja, tremiam.
segunda-feira, 11 de junho de 2018
Repensando tudo um pouco
Algum dia, em breve ou nem tanto, será o último dia do meu maior projeto de todos: a própria vida. E sei que será a mesma coisa.
Livros não lidos. Músicas por ouvir. Pessoas com quem não falei. Lugares aonde não fui.
Não sei se terei tempo de repensar tudo isso nos derradeiros minutos ou se terei uma morte rápida, repentina, dessas que nos roubam, além da vida que viria, a apreciação da vida que tivemos, ou se terei o tempo de olhar para trás.
Se tiver, será uma grande agonia, eu sei. Mas, ainda assim, não consigo imaginar o terror de não sentir essa sede.
Essa certeza de que a vida tem muito mais, mas muito mais mesmo, do que consigo abraçar, é ao mesmo tempo uma agonia e um grande motivador. Me deixa inquieto. Me faz querer acelerar ritmos e com frequência sou obrigado a, conscientemente, pisar no freio.
Queria conversar com todas as pessoas.
Queria visitar todos os lugares.
Queria ler todos os livros.
Queria aprender todas as coisas.
Queria ouvir todas as músicas.
Queria saber de todas as histórias.
Assim usei meu tempo aqui. Se não visitei a todos que poderia ter visitado, é porque passei parte do tempo aprendendo coisas. Se não aprendi tudo o que poderia ter sido aprendido, é porque passei parte do tempo ouvindo músicas. Se não ouvi todas as músicas, é por que passei parte do tempo caminhando por aí.
E agora sigo. Hora de caminhar mais longe. Hora de descobrir novas inquietações.
domingo, 10 de junho de 2018
Ri
Ah amada, minha amada!
Quantas outras mulheres preciso amar pra diluir esse amor que lhe tenho?
A quantas preciso ser gentil?
Quantas terei que presentear?
Quantas terei que surpreender com elogios?
Esse amor por você, some um dia?
Desaparece, como tem que ser?
Você é tão feliz por ter achado em mim um amigo desinteressado
Um reduto de acolhimento sem maiores interesses
E me dá tanto trabalho não te desapontar
sábado, 9 de junho de 2018
Idiota
Fui ler aquelas conversas antigas.
Porque hoje as conversas ficam gravadas. Congeladas no tempo.
Vejo que eu estava com o peito rasgado. Não respondi nada dos absurdos insensíveis que lhe diria agora.
"Você estava me cobrando."
Eu estava tentando ser um ser humano normal! É claro que eu queria que a minha namorada quisesse algum carinho, um mínimo. Claro que queria que ela sentisse vontade de me fazer feliz. Isso nunca existiu.
Ela foi a pessoa mais egoísta que já conheci.
Eu me deixei enganar por conta dessa conversinha de "ela é uma pessoa fechada". Acreditei, meses e meses, que ela fosse uma pessoa fechada. Fiz os maiores malabarismos de interpretação para acreditar que ela sentia realmente algo por mim. Mas não... Ela não é uma pessoa fechada. É só uma pessoa sem nada dentro além de sentimento por si mesma. Fui, mais uma vez, um idiota ao inventar explicações para contrariar meus instintos.
quinta-feira, 7 de junho de 2018
Contas
A crise mundial, ah, a crise mundial!
Quem tinha muitos bilhões ficou agora com apenas poucos bilhões.
E a crise que existia já antes dessa crise?
Crise de fome, de saúde, de educação?
Crise de gente que nasceu longe da vida e está fadado a continuar ali, do lado de fora?
Não importa.
Quem se importa?
Você se importa?
Pensa que se importa?
Deixaria de fazer uma viagem de fim de ano para dar comida a quem está prestes a morrer de fome?
Passaria uma semana levando marmita ao serviço para juntar o dinheiro dos caros fast-foods e doá-lo?
Todos se importam, não é?
Todos dizem que se importam.
Coisa que eu não sabia: importar-se é um ato contemplativo.
terça-feira, 22 de maio de 2018
Dores
Os mares se alargaram. As terras se tornaram grudentas, lamacentas. Os milhares de quilômetros se alargaram em milhões. Intransponíveis anos-luz lhe raptando a uma escura lonjura. E eu aqui desesperado para apaziguar sua dor. Uma dor injusta. Imaginar suas lágrimas drenou meu olhar. Senti raiva dos horizontes. Senti raiva de não te abraçar. Senti ódio não da injustiça do mundo - mas de sua profunda indiferença. Não importa o quanto eu compreenda essa frieza da natureza, jamais vou me adaptar. Ou, melhor dizendo... Posso sim me adaptar em tudo o que se refere a mim. Mas é impossível aprender a aceitar essa indiferença quando ela recai injustamente sobre as pessoas que amo. Queria reclamar a todo a todos os deuses o quão descabida é essa dor que lhe foi despencada. Mas o universo inteiro, a despeito dos meus gritos, olha adiante.
segunda-feira, 21 de maio de 2018
Foi assim
- Finalmente eu fui conhece-la!
- É mesmo? Não acredito! E aí?
- Ela é linda, linda! E tão, tão... tão interessante!
- E o que aconteceu, me conta!
- Então, conversamos pouco, eu estava tímido, sabe, sei lá, leve, por um lado, e tímido por outro; duas coisas que deixam a gente quieto.
- Ué, então não conversaram muito?
- Na verdade não, porque ela tinha que trabalhar. Mas rascunhamos algumas perguntas sobre as nossas vidas, nos olhamos...
- E depois?
- Depois os anos se passaram, cada um vivendo sua vida no seu canto. Depois um morreu. Depois morreu o outro.
domingo, 20 de maio de 2018
GPS
"Você chegou ao seu destino."
Toda vez que o GPS fala comigo desse jeito eu fico preocupado.
"Então era esse o meu destino? Essa padaria sem graça? A casa do Thiago? Essa agência do Banco do Brasil?"
É uma piada que outros fazem também. Um amigo diz que jamais procura por um cemitério no GPS. Chega aos velórios pedindo informação à moda antiga ou colocando referências próximas. "Já pensou? Estacionar em frente a um monte de tumbas e o GPS dizer que é o meu destino? Prefiro colocar alguma referência próxima. Se for um extra, tanto melhor. Todo mundo chegando pra tumba e eu levando um Extra!"
Rimos.
Mas, piadas à parte, há duas observações mais sérias a fazer sobre essa corriqueira frase dos pilotos eletrônicos.
Primeiro: é a máquina falando ao homem. É ela que o trouxe ali. E é ela que determinou que o objetivo final havia sido alcançado. O pedido inicial do endereço foi inserido por um humano. Detalhe. Logo isso mudará, aguarde.
Segundo: todos os dias, a todos os instantes, pessoas estão ouvindo essa frase ao redor do mundo. A frase "Você chegou ao seu destino" é dita ao menos 150 mil vezes a cada minuto em algum lugar da Terra por um dispositivo eletrônico se dirigindo a humanos.
Não posso deixar de pensar que eles estão certos. A todo instante, e isso vale para todo mundo, chegamos ao nosso destino. A algum destino.
Quando o GPS anuncia o fim de nossa viagem geralmente é motivo de alívio. Chegamos a algum lugar, agora vamos aproveitar esse lugar (não vale para o cemitério, ok, mas o argumento permanece). Hora de aproveitar o barzinho, resolver as coisas no Banco ou assistir um filme na casa do Thiago e pedir uma pizza.
Noutras vezes podemos simplesmente ignorar o aviso. "Você chegou ao seu destino." Aí você olha para o bar e desiste. Mereço algo melhor. E continua indo.
Vale o mesmo para a vida.
A cada instante, ainda que nem os GPS's revelem tanto, Você Chegou ao Seu Destino. E a cada instante cabe a você a decisão de aproveitar um pouco por aí ou seguir viagem.
sábado, 19 de maio de 2018
Eu te amo
Eu te amo
É isso que você não sabe
Eu te amo
Faz tempo
Escondi
Fiz de tudo para que não fosse
Acreditei não te amar,
Só pra ver se conseguia não te amar.
mas eu te amo
Eu te amo
Todos esses anos
Eu te amo
Quando você sentiu saudade de mim
E quando comemorou eu ser seu único amigo
E quando me contou suas histórias
E quando pediu meus conselhos
E quando rimos juntos à toa
E nos telefones
E nos filmes
E nos chás na sua casa
E nas caminhadas à tarde
E na festa de formatura
Eu te amo
Eu te amo e dói
Dói não dizer nunca
Por isso digo, digo e digo, pra ver se sara,
E porque preciso dizer
Eu te amo
Eu amo você
Você não sabe, não acredita e não entende
Mas eu insisto
Eu amo você.
Eu amo você.
sexta-feira, 18 de maio de 2018
Medo
Vou aprender seu mundo. Vou entender sua vida. Vou olhar seus gostos. Vou ver como você posiciona a xícara sobre a mesa.
Vou trazer você para meus imaginários. Vou te abrir minhas memórias. Vou te sentar com meus sonhos.
E depois vai embora? Não vai não... Fica. Abraça um abraço quente. Pra sempre...
quinta-feira, 17 de maio de 2018
Desenvolvimento humano
E aí tinha o metrô que era mais limpo do que eu pensava mas fora dele a estação estava pichada, mijada, suja e zoada. E eu andei no táxi, com o motorista do BOPE, que fazia trampo de taxista pra levar um a mais. Todos têm sua índole, dizia. E uns acham uns meios não muito legais para completar o bolso, enquanto outros se viram com a consciência tranquila. Era o discurso dele. Discurso justo. Qual discurso é injusto? Eu não sei o que ele faz, o que ele fez, o que vai fazer. Sei que me deixou na porta do hotel. Combinado, conforme combinado. Fui pro quarto com a cabeça explodindo. Deixei o Flamengo pra lá. As praias e as avenidas. Deitei na cama e pensei que estava longe.
E aí era um outro país e tinham problemas, mas outros problemas. E eu fazia coisas também, mas outras coisas. Eu tinha um jornal pequeno, que tratava da venda de válvulas. E ninguém queria saber de válvulas. Exceto nos congressos de válvulas, onde iam engenheiros, industriais, homens de negócios, e todos falavam de expansão e planos e depois era tudo a mesma coisa. Aí comecei a animar meu jornal. Aí comecei a escrever feliz e contente as notícias mesmo nos artigos técnicos. Deixava que escrevessem piadas, os textos riam pra falar de coisa séria. E em pouco tempo tinha mais gente lend, gente que nem mexer com válvulas mexia. Que coisa, que coisa... E aí tinha gente comprando válvula que nem precisava, inventavam um uso. Faziam a água dar alguma volta, fosse o caso dela ir reto demais. E ali metiam a tal da válvula. Tudo pra justificar ler a revista simpática. E o país virou a capital mundial da tecnologia de válvulas. Tudo graças a essas tecnologias que a Tecnologia não entende.
quarta-feira, 16 de maio de 2018
Meu irmão é um babaca
E não digo babaca no sentido engraçadinho e debochado. Digo babaca como quem se refere a um indivídiuo que deu errado, que não chegou aos mínimos qualitativos exigidos para participar da civilização. Um funcionário, ao sair da empresa, ameaçou processá-lo. Ele, que estaria errado na causa trabalhista, dissuadiu o funcionário de fazê-lo colocando uma bala de revólver em cima da mesa. Ele pode ser imbecil demais para entender, mas ainda que por vias não-verbais, foi uma ameaça de morte. "Me processe e eu te mato" foi o que meu irmão disse mesmo sem falar. Se iguala, nisso, aos piores bandidos que espera que o candidato-escória trate justamente na bala. Eu estou desanimado e desapontado. Porque tenho descoberto que meu irmão é tão burro que não vai conseguir nem mesmo vislumbrar os contornos da própria burrice. Não sei o que falar. Não sei para onde apontar. Se uma pessoa com uma vida confortável como o meu irmão, vindo de uma boa família e com acesso a muito mais estudo do que a maioria da população desse país, ainda assim está afundado até a cintura nesse mar de ignorância, o que dizer dos outros? Carecemos urgentemente de mais cultura. Mais cultura humana, empática, mas intelectual também. Precisamos de um mundo com menos burros babacas.
terça-feira, 15 de maio de 2018
Não me diga
Então ele inventou que era depressão, porque era o nome mais cômodo para dar para aquela vagabundagem toda.
E então ele disse que eram dúvidas aqueles medos todos emoldurados em preguiça. Medo de trabalhar. Preguiça de sair de casa. Medo de ser outra pessoa, de ser adulto. Medo de deixar o tempo passar ainda que visse que passava mesmo assim. "Fiz minha parte para que não passasse. E se ainda assim passa, não é culpa minha." Não era só um irresponsável. Era um alguém que não queria se responsabilizar. Por nada, nadinha. Medo de amar, medo de ter. Medo de ganhar. Medo de aprender.
Os livros são melhores nas estantes do que em suas mãos, em suas leituras. Os folheia e aí joga lá de volta. Em seus lugares. Arrumados, organizados, novos e não lidos.
Ele inventou que era assim mesmo bem agora que podia ser do jeito que quisesse; eventualmente de todos os jeitos.
Era viciado em sonhar.
Sonhar era a melhor coisa que já experimentara, dentre tantas outras.
E quem poderia culpá-lo? E a que tribunal se leva um caso assim?
Sonhar era sempre um delicioso amanhã talvez. Sonhar com algo que quem sabe fosse amanhã era uma fé quase concreta. Esticava-se o dedo e quase podia tocá-la, ali logo depois de uns poucos tiques do relógio no outro quadrinho do calendário.
Um sonhador. Que feridas enormes na sua vida todas as coisas que são. Que invadem o tempo presente.
Traumas? Um fraco? Incapaz de desassociar os fracassos de determinadas experiências das possibilidades de fracasso de outras?
Traumatizado seria se fosse apenas a incapacidade de se aproximar de histórias potencialmente felizes por conta da cegueira que os medos antigos lhe produzem. Mas não é isso. Efetivamente, histórias felizes lhe abraçam. Quentes, completas, envolventes, profundas e inusitadas. Felicidades acima das felicidades dos cidadãos comuns. Mas durava pouco lá dentro. Lá dentro morria logo esse desfrutar. Um arqueólogo que nunca chegava a abrir o sarcófago porque se desesperava em procurar outra tumba. Um piloto que nunca cruzava os muros de um aeroporto porque embarcava direto em outro avião, desesperado por pilotar mais. Um pescador cujo barco afundou de tantos peixes acumulados no convés - mas era irresistível continuar ali pescando mais e mais. Um desesperado. Um desesperado incorrigível. Sem controle de si. Sem controle de nada.
E foi inventar que era depressão...
segunda-feira, 14 de maio de 2018
Progresso
A próxima grande revolução científica será o entendimento detalhado, e sistematizado, da mecânica social. Insisto em um termo que caiu em desgraça depois da empolgação infantil com que sociólogos e economistas quiseram copiar Newton, mas o faço conscientemente. Temos hoje plena noção das diferenças entre o que se pode chamar de mecânica social e o determinismo límpido e claro da mecânica newtoniana quando aplicada a sistemas simples. A sociedade, assim como o clima e a hidrodinâmica, é determinista, mas seus detalhes precisos serão inacessíveis (mesmo com toda a xeretice do Facebook e smartphones). Sistemas caóticos como o clima são ainda assim determinísticos. Restará saber para onde esse conhecimento irá nos levar. Como sempre, o fator determinante será: quem está no poder? Quem está fazendo uso desse conhecimento? A ciência pouco se lixou para a humanidade enquanto ficou mais ocupada desvendando a origem do universo e os segredos do átomo. Deu no que deu. Teremos um dia cientistas capazes de entender que não se dissocia progresso científico de progresso da humanidade? Deixar todo o progresso científico nas mãos de bebezões estúpidos que brigam por petróleo é uma estupidez equivalente.
domingo, 13 de maio de 2018
Mudo
A gente às vezes é plano e às vezes tem tantos lados. Arestas. Cantos. Fundos e rasos. E eu me perco. Não faço a menor ideia de onde estou. De qual dentro de mim que sou. Hoje foi assim. Hoje você falava, falava, falava. E eu quieto. E eu me procurando. Covardia. Covardia? Foi o que foi. Foi como aconteceu. Guardei coisas que não sei onde estão. Não sei onde foram parar. Procurei, procurei procurei procurei. Só que não achei.
sábado, 12 de maio de 2018
Mimimi
O que mais me irrita no mi mi mi é o desprezo com as outras notas.
Gosto que alguns dias sejam assim logo pela manhã: sol sol sol.
E tem gente de quem só sinto dó dó dó.
Curto quando estou em um pub e toca Psycho Killer: todo mundo junto em coro cantando "fá fá fá fá, fá fá fá...".
E quando estou cansado de tudo só quero viajar. Pegar estrada com a janela aberta cantarolando meus lá lá lá.
E quando chegam as bifurcações da vida? Aqueles momentos em que coisas caminhos se mostram? A gente mergulha fundo num mar de si si si.
Não sei se acrescentei algo de útil aqui. Mas no fundo, na vida, o importante é ser feliz, né? Então ria comigo: ré ré ré
sexta-feira, 27 de abril de 2018
Vazios
É claro que eu achei que você iria dar um sinal de vida. Não que eu ache certo uma proximidade. Eu ainda tenho dúvidas sobre quem você é. Se é a pessoa que eu amei e perdi, ou se é a pessoa de quem estou aliviado de me distanciar. Com seu silêncio bélico, contudo, fico mais inclinado à segunda hipótese.
Autoconhecimento
Sou um monge tibetano sem um himalaia para chamar de meu. Sem um manto vermelho no qual me enrolar. Sem um sino para martelar numa rotina regrada. Alguns livros para carregar. Um espaço para caminhar. E minha existência segue. Igual à de todos os demais.
Despertar
Tudo é texto. Tudo é um texto esperando por ser escrito. Os passarinhos se alimentando com as migalhas do quintal pela manhã. Os meus colegas de trabalho mostrando a idiotice adulta a que chegaram com comentários pornográficos esdrúxulos sobre absolutamente tudo. A atenção da empregada a miudezas nos detalhes da arrumação. O cheiro de querosene trazido pelo vento em frente ao hangar. A caixa de e-mails bagunçada. A pilha de livros com conhecimentos sonhados. Tudo é texto esperando por ser escrito.
UTI
Eu tenho um carinho enorme por você. Você tem uma importância na minha vida que nem imagina. Mas não quer te ver de novo. Não tão cedo. De que valeria este encontro? Não preciso provar para ninguém que superei a dor de sonhos impossíveis. E não superei. Apenas consigo fingir. Mas dói.
Médio prazo
De nada adianta, no fundo, conhecer a contribuição do dióxido de carbono e do metano para o efeito estufa. De nada adianta aperfeiçoar os modelos computacionais para calcular o clima daqui a cinquenta ou cem anos. As pessoas não irão se convencer da necessidade de mudança porque o nível médio de educação e cultura no mundo não condiz com a gravidade do problema. Não se trata de uma ação antecipada para amanhã. Ou para daqui um ano. Nesse horizonte de décadas, séculos, um maior nível de abstração e uma alfabetização científica é necessária. Mais que isso: os valores estão errados. Um carro maior. Uma casa maior. Mais luzes. Mais coisas fabricadas a custo de energia. Países medindo seu sucesso relativo pela métrica de quanto valem as florestas cortadas. Não há como ser esperançoso aqui: a consciência mundial atual é altamente suicida e não dá sinais de mudança.
quinta-feira, 19 de abril de 2018
Rotina matinal
Talvez porque o sol nascendo no horizonte tenha essa evocação tão forte de um início, um começo, com tudo o mais pela frente, é que nessa hora do dia funciono melhor para meus estudos, para minhas reflexões, para tudo aquilo que diz respeito ao futuro. A noite não. A noite é o horário em que sigo em marcha. Continuo um trabalho que já vem de longa data. Tenho coragem de encarar aquelas tediosas formatações de planilha, do formato dos parágrafos dos relatórios. Essas são as tarefas que ficam para a noite. A manhã não. Não posso ofender a manhã com coisas tão mecânicas. Estudar um novo idioma, que um dia vai ser usado em um novo país, uma nova viagem. Rascunhar textos que um dia serão publicados. Pensar em pessoas que quero ver de novo. Sonhar com conquistas. Aprender uma música nova. Esses são meus banquetes matinais.
quarta-feira, 18 de abril de 2018
AINDA VIVOS
Eu tive certeza de que eram os últimos segundos. Não sei porque continuei lutando. Não sei porque tentei controlar a situação. Só sei que deu certo. Não foi um mérito meu. Foi sorte. Nada que conheço sobre a física do mundo diz que deveríamos sobreviver. Fomos perdoados pelo acaso. O que fazer com isso? Como usar esse presente?
terça-feira, 17 de abril de 2018
Sorte
Que feliz presente do acaso para você, poder viver recebendo aplausos de quem não a conhece realmente.