Véio, é foda! Ela qué viajá com as amiga dela, beleza. Mas mano, tô falando, se ela for nessa viagem aí que eu tô ligado que vai rolá os baile funk lá, maluco, eu vô tocá pras micareta com a galera também, e tô poco me fudendo! Cacete, ela já não deixa eu í dançá forró... acha que eu fico me esfregando e que as mina às vez vem pra dançá só porque tão a fim. Ela é muito troxa! Como se precisasse disso pra eu traí ela. Se eu quisé traí ela saio com minhas amiga de boa quando me der na telha, num vivo grudado nela! Você tá ligado que eu já traí ela várias vez. Porra, agora ela vem falar na cara larga que qué viajá pra essa festa, vai tomá no cú!
Namoram há seis anos. De todos os meus amigos de infância, são os únicos que estão prestes a casar. Exemplo de amor perfeito.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
Impróprio
Madrugada. Cinco pessoas no carro, eu no banco da frente, passageiro. Conversávamos de tudo. Risadas na volta pra casa. Piadas com nossas vidas. Nossos passados que se entrecruzavam em histórias várias da infância. Semáforo vermelho: paramos.
- Olha a loirinha aí, você ia nela não é, se sela não tivesse seus quarenta anos já!
Olhei a tal para conferir. Que quarenta anos que nada. Mas só tinha um jeito de confirmar a dimensão do erro. Abri o vidro, cabeça pra fora:
- Ei! Posso fazer só uma perguntinha?! Quantos anos você tem?
Ela não me olhou. Olhou pra frente, tensa. Séria. Músculos do pescoço contraídos. Parecia amaldiçoar o semáforo que permanecia vermelho indiferente ao seu desespero de sumir dali. Meus amigos todos me condenaram: isso não se faz!
O que é que há com o mundo? "Isso não se faz!" Isso o que? Falar com outras pessoas?
- Ela deve ter pensado que a gente ia assaltá-la! A essa hora da noite!
Ah, claro! Pois é mesmo uma nova modalidade de assalto, veja só. Quantos anos você tem, pergunta o assaltante. Vinte e dois, responde a vítima. O nobre assaltante consulta então uma lista. Deixe-me ver... Vinte, carteira, vinte e um, o carro, vinte e dois, bolsa... E então grita: passa a bolsa!
A mitologia do medo esfumaça a vida!
- Olha a loirinha aí, você ia nela não é, se sela não tivesse seus quarenta anos já!
Olhei a tal para conferir. Que quarenta anos que nada. Mas só tinha um jeito de confirmar a dimensão do erro. Abri o vidro, cabeça pra fora:
- Ei! Posso fazer só uma perguntinha?! Quantos anos você tem?
Ela não me olhou. Olhou pra frente, tensa. Séria. Músculos do pescoço contraídos. Parecia amaldiçoar o semáforo que permanecia vermelho indiferente ao seu desespero de sumir dali. Meus amigos todos me condenaram: isso não se faz!
O que é que há com o mundo? "Isso não se faz!" Isso o que? Falar com outras pessoas?
- Ela deve ter pensado que a gente ia assaltá-la! A essa hora da noite!
Ah, claro! Pois é mesmo uma nova modalidade de assalto, veja só. Quantos anos você tem, pergunta o assaltante. Vinte e dois, responde a vítima. O nobre assaltante consulta então uma lista. Deixe-me ver... Vinte, carteira, vinte e um, o carro, vinte e dois, bolsa... E então grita: passa a bolsa!
A mitologia do medo esfumaça a vida!
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quinta-feira, 23 de abril de 2009
Cida
Lotação, uma pequena van dessas que a prefeitura anda espalhando por aí. Pessoas sentadas. Pessoas em pé. Sol. Calor. Janelas abertas. Olhares perdidos. Barulho do motor diesel sendo dirigindo de um modo qualquer. Dos solavancos nos buracos. Dos outros carros. Das obras pelas quais passamos. E uma voz: uma voz que insiste em se sobrepor a tudo isso.
Olho pra baixo. No banco à minha frente estão uma velhinha e uma moça. A velhinha falando muitas coisas rapidamente. A moça concordando e, de tempos em tempos, dizendo que é só descer no ponto final. A moça levantou. Sentei-me ao lado da velhinha.
Que bairro seria este por onde passávamos? Qual era o metrô mais próximo? Ela queria saber tudo. Aí eu queria saber também. De onde você vem? O que veio fazer pra esses lados da cidade? Quantos anos tem? Quantos filhos tem? É casada? E ela ia respondendo tudo. Sacou da bolsa fotos da família. De quando tinha dezoito anos. Linda. Vestindo roupas elegantes que ela mesmo fazia.
E eu olhava pra ela ali do meu lado. Baixinha, miúda, toda enrugada. E com um sorriso de rasgar a cara. De orelha a orelha. Pegara naquela manhã quatro ônibus e um metrô só pra ir ver um show gratuito com artistas desconhecidos. Contente. Feliz com sua história. Feliz do seu presente. Cida, chamava-se. Mais sábia que o mundo todo que já vi. Talvez só disso ela não saiba, e nem faz falta...
Olho pra baixo. No banco à minha frente estão uma velhinha e uma moça. A velhinha falando muitas coisas rapidamente. A moça concordando e, de tempos em tempos, dizendo que é só descer no ponto final. A moça levantou. Sentei-me ao lado da velhinha.
Que bairro seria este por onde passávamos? Qual era o metrô mais próximo? Ela queria saber tudo. Aí eu queria saber também. De onde você vem? O que veio fazer pra esses lados da cidade? Quantos anos tem? Quantos filhos tem? É casada? E ela ia respondendo tudo. Sacou da bolsa fotos da família. De quando tinha dezoito anos. Linda. Vestindo roupas elegantes que ela mesmo fazia.
E eu olhava pra ela ali do meu lado. Baixinha, miúda, toda enrugada. E com um sorriso de rasgar a cara. De orelha a orelha. Pegara naquela manhã quatro ônibus e um metrô só pra ir ver um show gratuito com artistas desconhecidos. Contente. Feliz com sua história. Feliz do seu presente. Cida, chamava-se. Mais sábia que o mundo todo que já vi. Talvez só disso ela não saiba, e nem faz falta...
terça-feira, 21 de abril de 2009
Presília
Ele deixou na caixinha do correio de casa uma presília. Não exatamente igual a que quebrou, aquele dia, no carro. Que desastrado... Dou muita risada com ele. Já namorei, já fui noiva, mas nenhum homem guarda para a vida adulta essa alegria de viver que com ele é algo espontâneo. Eu saí da cama como num dia qualquer, e veio minha mãe falando: "Filha! Deixaram uma cartinha pra você!". Uma cartinha... quem deixa cartinhas hoje em dia? Ele veio até a porta de casa, no meio da madrugada... E deixou uma carta. Está magoado comigo. Talvez ele suma.
Mas eu posso reclamar? O que eu fiz não foi errado? Eu devia ter contato a ele antes, e não acho errado ter finalmente contado, embora todos tenham dito pra guardar segredo. Não querer guardar esse segredo pra mim foi um egoísmo meu? Eu quis me sentir uma pessoa melhor e honesta ainda que isso trouxesse todo esse sofrimento e rancor a ele? E que eu o perdesse? E ainda assim, uma cartinha e a presília deixadas no meio da madrugada na porta de casa... Quem faz isso?
Mas eu posso reclamar? O que eu fiz não foi errado? Eu devia ter contato a ele antes, e não acho errado ter finalmente contado, embora todos tenham dito pra guardar segredo. Não querer guardar esse segredo pra mim foi um egoísmo meu? Eu quis me sentir uma pessoa melhor e honesta ainda que isso trouxesse todo esse sofrimento e rancor a ele? E que eu o perdesse? E ainda assim, uma cartinha e a presília deixadas no meio da madrugada na porta de casa... Quem faz isso?
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Parabéns
Contradições da vida. Mistérios da metafísica. Segredos do bicho homem. Vai entender...
Fazemos aniversário uma vez por ano. Ah, é uma festa. Chamar os amigos, comprar muita comida, muita mesmo; bebida. Cantar alto a mesma, manjada e pouco criativa música, sem se importar com isso. Soprar a velinha e fazer vários pedidos.
E olha que contradição: a festa, feita uma vez por ano cheia de alegrias e presentes, é para celebrar algo que é amaldiçoado todos os outros dias do ano: o envelhecimento, o invencível e inexorável passar do tempo.
Ou será que o aniversário é para comemorar só que mais um ano se passou e ainda estamos vivos? Que sobrevivemos ao tempo mais um pouquinho?
Na dúvida, tenho um plano: agora vou lembrar que sobrevivi cada segundo. Parabéns pra mim. De novo. E de novo. E mais uma vez. E de novo. Já ganhei quinze desejos. Dezoito agora. E parabéns mais uma vez!
Nem sei mais o que desejar. Talvez eu deseje mais comemorações. Todos em festa. Vamos celebrar todos os nossos idos segundos! Que tal? Que tal de novo? Vamos repetir a dose? Mais uma vez???
Fazemos aniversário uma vez por ano. Ah, é uma festa. Chamar os amigos, comprar muita comida, muita mesmo; bebida. Cantar alto a mesma, manjada e pouco criativa música, sem se importar com isso. Soprar a velinha e fazer vários pedidos.
E olha que contradição: a festa, feita uma vez por ano cheia de alegrias e presentes, é para celebrar algo que é amaldiçoado todos os outros dias do ano: o envelhecimento, o invencível e inexorável passar do tempo.
Ou será que o aniversário é para comemorar só que mais um ano se passou e ainda estamos vivos? Que sobrevivemos ao tempo mais um pouquinho?
Na dúvida, tenho um plano: agora vou lembrar que sobrevivi cada segundo. Parabéns pra mim. De novo. E de novo. E mais uma vez. E de novo. Já ganhei quinze desejos. Dezoito agora. E parabéns mais uma vez!
Nem sei mais o que desejar. Talvez eu deseje mais comemorações. Todos em festa. Vamos celebrar todos os nossos idos segundos! Que tal? Que tal de novo? Vamos repetir a dose? Mais uma vez???
domingo, 19 de abril de 2009
Ético
Ah, a crise política. O furação. A fome na África.
Ontem teve um assalto aqui perto. A família reagiu e a mãe foi morta com um tiro na cabeça. Os filhos e o pai assistiram tudo de camarote.
Vi no supermercado um rapaz cedendo a vaga no estacionamento à senhora que vinha em seu carro. Bem na hora, na mesma hora, um senhor veio dirigindo toda sua pressa e tomou a vaga.
Faz já sei lá quantos anos que explodiram as bombas no Japão. Ainda existem milhares de ogivas nucleares pelo mundo. Dizem que muitas delas ligadas a sistemas automáticos de defesa dos tempos da Guerra Fria. Mais hora menos hora o sistema se confunde com alguma coisa e lança um contra-ataque.
Vi no jornal ainda ontem que uma mãe deixava os três ou quatro filhos trancados em casa o dia inteiro, a noite toda, enquanto ia para bailes, saia, esquecia da vida. Os vizinhos davam comida para ela, já que era pobre, mas era o filho mais velho (de 5, 6 anos, algo assim) quem cuidava do fogão. Aos prantos.
Egoísmo, mediocridade. Tristeza aos montes por aí. Uma pequena batida de carro. Uma enorme falta de paciência. Um tiro que não precisava ter acontecido.
Ah! Como gosto das tragédias do mundo! Que ótimas desculpas são para minhas tristezas inconfessáveis!
Ontem teve um assalto aqui perto. A família reagiu e a mãe foi morta com um tiro na cabeça. Os filhos e o pai assistiram tudo de camarote.
Vi no supermercado um rapaz cedendo a vaga no estacionamento à senhora que vinha em seu carro. Bem na hora, na mesma hora, um senhor veio dirigindo toda sua pressa e tomou a vaga.
Faz já sei lá quantos anos que explodiram as bombas no Japão. Ainda existem milhares de ogivas nucleares pelo mundo. Dizem que muitas delas ligadas a sistemas automáticos de defesa dos tempos da Guerra Fria. Mais hora menos hora o sistema se confunde com alguma coisa e lança um contra-ataque.
Vi no jornal ainda ontem que uma mãe deixava os três ou quatro filhos trancados em casa o dia inteiro, a noite toda, enquanto ia para bailes, saia, esquecia da vida. Os vizinhos davam comida para ela, já que era pobre, mas era o filho mais velho (de 5, 6 anos, algo assim) quem cuidava do fogão. Aos prantos.
Egoísmo, mediocridade. Tristeza aos montes por aí. Uma pequena batida de carro. Uma enorme falta de paciência. Um tiro que não precisava ter acontecido.
Ah! Como gosto das tragédias do mundo! Que ótimas desculpas são para minhas tristezas inconfessáveis!
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Pauta
Referencial. Tudo depende do referencial. E decisões precisam ser tomadas. Abstração ou a vida concreta? Daqui a pouco a vida já passou, e ficar decidindo não vai permitir que nem uma coisa e nem outra seja vivida.
Referencial: Como é que sou para mim? Onde busco sempre os olhares que me definem?
Bateu um carro lá embaixo, dá pra ver aqui da janela da sala. Devo me importar? Eu tenho minhas coisas para fazer. É um sucesso ter essas ocupações ou um fracasso não estar trabalhando nelas agora? Eu sou pra mim ou sou pro mundo?
Quero tudo, mas dizem que não pode.
Preciso pensar a respeito e chegar a um acordo.
A batida está atrapalhando o trânsito no cruzamento. Já estou em casa, não estou dirigindo: só acho engraçado mesmo.
Sou pra mim ou sou para os outros? Adam Smith me disse no bar que se eu fosse eu pra mim seria automaticamente o melhor eu para os outros também. Jesus discordou, mas já tinha bebido muito vinho. Marx veio me falar que o que contava mesmo era a sociedade. Tá Marx, mas quem é a sociedade, eu, você, ele ali na rua, quem? "Bem, veja que..." E me enrolou. Pensei em dar ouvidos ao Smith, mas quem fica se gabando da mão-invisível me cheira mais a batedor de carteira que só pensa em dinheiro.
Vejo que vou ter que decidir eu mesmo. Qual olhar me define?
Referencial: Como é que sou para mim? Onde busco sempre os olhares que me definem?
Bateu um carro lá embaixo, dá pra ver aqui da janela da sala. Devo me importar? Eu tenho minhas coisas para fazer. É um sucesso ter essas ocupações ou um fracasso não estar trabalhando nelas agora? Eu sou pra mim ou sou pro mundo?
Quero tudo, mas dizem que não pode.
Preciso pensar a respeito e chegar a um acordo.
A batida está atrapalhando o trânsito no cruzamento. Já estou em casa, não estou dirigindo: só acho engraçado mesmo.
Sou pra mim ou sou para os outros? Adam Smith me disse no bar que se eu fosse eu pra mim seria automaticamente o melhor eu para os outros também. Jesus discordou, mas já tinha bebido muito vinho. Marx veio me falar que o que contava mesmo era a sociedade. Tá Marx, mas quem é a sociedade, eu, você, ele ali na rua, quem? "Bem, veja que..." E me enrolou. Pensei em dar ouvidos ao Smith, mas quem fica se gabando da mão-invisível me cheira mais a batedor de carteira que só pensa em dinheiro.
Vejo que vou ter que decidir eu mesmo. Qual olhar me define?
quarta-feira, 15 de abril de 2009
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Essência
O nariz evoluiu para poder suportar os óculos. Confesso ter uma dificuldade em ver a extensão do gênio empreendido nesta frase. As pessoas menosprezam esta frase. E não percebem a extensa manifestação condensada de todas as lógicas aos domínios mais inexplorados da realidade: aqueles que estão presentes em nossa vida em todos os instantes. Discutiu-se muito já, nas filosofias várias que a História andou criando, a natureza do determinismo. O demônio de Descartes era capaz de conhecer o futuro com a mesma clareza com que se conhece o passado, tal era a rigidez das leis do universo. Veio a Termodinâmica e, mais importante que a segunda lei, a idéia de rendimento. As próprias leis da natureza tem um rendimento limitado, extendendo o conceito. Quando extendemos todas essas abordagens a sistemas muito complexos, tão complexos quanto a vida, é espantoso não notarmos a obviedade desta verdade direta e a profundidade de seu princípio oculto: o nariz evoluiu para poder suportar os óculos.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Isso posto...
O céu convidava a voar! Azul, desse azul infinito que vem de onde foi prá até aonde se vê. As árvores todas verdes. As flores contentes. As lápides secas e legíveis. Era um bom dia também para se caminhar pelo cemitério. E uma lápide, em particular, me chamou a atenção. Nela lia-se...
"Julgaram-me depressivo. Julgaram-me dependente de fracassos inventados. Tolos! Leram em minhas tristezas um certo despropósito em existir. Não! Pois é justo agora, neste leito pleno de felicidade que me julgo pronto para morrer. Não construí nenhuma felicidade em minha vida fechando os olhos para a tristeza. Sempre a olhei nos olhos, à mesma altura. Sempre a abracei forte, levava-a comigo pelas caminhadas. Destes, destes todos que me tomam agora por triste lendo as palavras escondidas em meus diários debaixo da escada, de vocês é que sinto pena. Desta felicidade solitária segregadora dos sentimentos todos do mundo. Queria que experimentassem ao menos uma vez a sensação de fazer a própria Tristeza, companheira ao seu lado, rir de seus comentários. Além do mais, que outra amiga me mostraria com tamanha dedicação, os esconderijos da originalidade? A vida não é a felicidade! É o nascer da felicidade. Assim como a arte não é o quadro. Não é a Monalisa. Não é uma tela de Van Gogh. Arte é a tela em branco na hora que a tinta molha. É desenterrar a cor. Agradeço à tristeza por cada segundo de sua companhia. E agora que ela se foi, em protesto retiro-me também, desta que foi uma vida incompreensivelmente feliz."
"Julgaram-me depressivo. Julgaram-me dependente de fracassos inventados. Tolos! Leram em minhas tristezas um certo despropósito em existir. Não! Pois é justo agora, neste leito pleno de felicidade que me julgo pronto para morrer. Não construí nenhuma felicidade em minha vida fechando os olhos para a tristeza. Sempre a olhei nos olhos, à mesma altura. Sempre a abracei forte, levava-a comigo pelas caminhadas. Destes, destes todos que me tomam agora por triste lendo as palavras escondidas em meus diários debaixo da escada, de vocês é que sinto pena. Desta felicidade solitária segregadora dos sentimentos todos do mundo. Queria que experimentassem ao menos uma vez a sensação de fazer a própria Tristeza, companheira ao seu lado, rir de seus comentários. Além do mais, que outra amiga me mostraria com tamanha dedicação, os esconderijos da originalidade? A vida não é a felicidade! É o nascer da felicidade. Assim como a arte não é o quadro. Não é a Monalisa. Não é uma tela de Van Gogh. Arte é a tela em branco na hora que a tinta molha. É desenterrar a cor. Agradeço à tristeza por cada segundo de sua companhia. E agora que ela se foi, em protesto retiro-me também, desta que foi uma vida incompreensivelmente feliz."
terça-feira, 7 de abril de 2009
Farol
-Tio, leva uma bala?
-Não.
-Tem uma moeda pra mim?
-Não.
-Tio, tem um trocado?
-Tó, toma aqui. Me fala, o que você quer ser quando crescer?
-Eu quero ser motorista de caminhão!
...
-Eu quero ser bailarina!
-Eu quero ter um carro pra mim.
...
-Eu quero ser bombeiro.
-Eu quero ser policial.
...
-Então nunca desista tá? Promete pra mim que vai estudar
bastante?
-Prometo!
-Ó, vem cá... Vão desanimar você. Vão falar que é impossível,
mas não desista nunca! Nunca! Se VOCÊ não desistir, você pode
ser o que você quiser? Combinado? Então toca aqui!
...
-Tio, tem um trocado?
-Tó, toma aqui. Me fala, o que você quer ser quando crescer?
-Ih, nada não tio.
-Nada? O que você sonha, o que você gostaria de ser?
Olhos pro chão. Movimentos quietos. Voz pra dentro:
-Tanto faz, quero nada não.
Farol vermelho: hora de parar.
-Não.
-Tem uma moeda pra mim?
-Não.
-Tio, tem um trocado?
-Tó, toma aqui. Me fala, o que você quer ser quando crescer?
-Eu quero ser motorista de caminhão!
...
-Eu quero ser bailarina!
-Eu quero ter um carro pra mim.
...
-Eu quero ser bombeiro.
-Eu quero ser policial.
...
-Então nunca desista tá? Promete pra mim que vai estudar
bastante?
-Prometo!
-Ó, vem cá... Vão desanimar você. Vão falar que é impossível,
mas não desista nunca! Nunca! Se VOCÊ não desistir, você pode
ser o que você quiser? Combinado? Então toca aqui!
...
-Tio, tem um trocado?
-Tó, toma aqui. Me fala, o que você quer ser quando crescer?
-Ih, nada não tio.
-Nada? O que você sonha, o que você gostaria de ser?
Olhos pro chão. Movimentos quietos. Voz pra dentro:
-Tanto faz, quero nada não.
Farol vermelho: hora de parar.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Jogado
Cadê? Onde está aquele pedaço de eu que eu sei que existe? Que não me deixa aqui inteiro por se furtar insistentemente a qualquer livre aprisionamento que eu tente? Cadê aquele eu do andar sozinho entre as árvores? Aquele eu das conversas sem fim com tão grandes amizades? Aquele eu das empolgações intermináveis dos trabalhos bem feitos?
Pra onde se rouba o existir assim que nos deixa sem controle? Do que é feita a empolgação que se sente assim tão no limiar o tempo todo?
Quando foi que a vida ficou tão grande que não cabe mais no agora?
Vou comrpar bolachas, deu fome.
Pra onde se rouba o existir assim que nos deixa sem controle? Do que é feita a empolgação que se sente assim tão no limiar o tempo todo?
Quando foi que a vida ficou tão grande que não cabe mais no agora?
Vou comrpar bolachas, deu fome.
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sábado, 4 de abril de 2009
Agenda
Cumpri todas as minhas tarefas. As minhas metas começaram a ser alcançadas. Aquele dia em que sentei diante da folha de papel, organizei as tarefas pendentes e minhas metas em cada uma delas. Aquele instante de desejo eu estava contemplando agora, desfrutando do prazer de vencer os desafios que impus a mim mesmo.
Era o prelúdio dos piores dias do ano. Que durariam um... dois... três meses talvez. Uns cinco, sendo mais sincero aqui.
Tinha os objetivos que não estavam escritos. Achei por bem que não os iria contabilizar, assim não corria o risco do fracasso.
Não sei ainda como é que eles foram contabilizados. Quando é que se consumaram como objetivos. Mas essa ignorância voluntária em desconsiderá-los cavou um buraco fundo em que caí cego, sempre olhando pra frente e sorrindo feliz.
Meses de desânimo, levando tudo com enorme peso. Com uma vontade irresistivel de cair num canto e ficar fazendo nada.
Era eu dentro de mim tendo problemas sérios de excesso de sinceridade comigo mesmo. Coisas que não são práticas, essas coisas que são certas.
Era o prelúdio dos piores dias do ano. Que durariam um... dois... três meses talvez. Uns cinco, sendo mais sincero aqui.
Tinha os objetivos que não estavam escritos. Achei por bem que não os iria contabilizar, assim não corria o risco do fracasso.
Não sei ainda como é que eles foram contabilizados. Quando é que se consumaram como objetivos. Mas essa ignorância voluntária em desconsiderá-los cavou um buraco fundo em que caí cego, sempre olhando pra frente e sorrindo feliz.
Meses de desânimo, levando tudo com enorme peso. Com uma vontade irresistivel de cair num canto e ficar fazendo nada.
Era eu dentro de mim tendo problemas sérios de excesso de sinceridade comigo mesmo. Coisas que não são práticas, essas coisas que são certas.
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quarta-feira, 1 de abril de 2009
Química
Observei num poderoso microscópio várias moléculas diferentes. Não muito versado nos mistérios da química, muito menos nos meandros impercorríveis da física quântica, decidi observar o que quase toda criança um dia compreendeu de certa maneira. A água, toda simples, com seus dois hidrogênios e seu oxigênio. Curiosamente, as bolotas de moléculas que eu vi não eram "molhadas". Eu vi a água mais de perto do que qualquer outro, e não sei mais o que é o "molhado" tal como eu conhecia. Depois eu quebrei a molécula. Estava ali, diante de mim, e eu joguei os hidrogênios para um lado, e o oxigênio para outro. Mudou tudo. Era a mesma coisa ainda, mas não era mais o que estava lá. Não era como uma xícara rachada ao meio, eram coisas surgidas do nada, e o desaparecimento de uma outra. Percebe?
domingo, 29 de março de 2009
Coragem
Há algo de errado com as frases que nunca foram ditas. Ou, no mínimo, algo de estranho. Com os pensamentos que nunca foram pensados. Explorá-los é asfixiantemente encantador. É essa angústia de preciso-voltar-logo querendo e querendo continuar a ir. Sinto essa asfixia quando sinto meus pensamentos se concretizando em palavras antes de eu ter sondado o quanto eles eram pensáveis. Porque aí faço perguntas que não devia. Faço conjecturas nada éticas, confesso desejos humanos demais. Defendo um ideal muito inatingível. Pensar livremente é assim tão simples quanto ser o que se é. E por ser o que se é, se é diferente, pois isso ninguém faz mais. E por ser assim tão diferente no mundo dos iguais, se fica sozinho. Junto com o deslumbre de um novo e encantador mundo, uma biblioteca gigante em que se entra pela primeira vez, vem esse frio da solidão de um parque vazio no inverno: você de bermuda e camiseta regata. Quando se é assim simplesmente o que se é, lembrando de alguém escondido sei lá aonde dentro de nós, nascemos também para fora, com toda a dor de nascer de novo. Mas agora a dor não é na carne, é nesse outro universo em que nascemos. E com as lágrimas desse mundo metafísico diferente, é impossível, nesse novo nascer, evitar chorar de novo. O desespero incontido poeticamente belo do choro de um bebê.
quinta-feira, 26 de março de 2009
Dependente
Dois minutos se passaram e eu ainda não recebi nenhum e-mail. Será que eu não tenho mais amigos? Será que o mundo parou? Entrei no Orkut, mas não tinha notícia nenhuma na comunidade "O fim do mundo" sobre o mundo parar.
Conectei o MSN, o Yahoo! Messenger, o ICQ e o mIRC para ver quem estava por perto. Conheci uma moça muito bonita, tinha olhos lindos, o corpo na medida que gosto, mas ela tinha conexão discada e caiu a linha. Azar o dela.
Três minutos. Nenhum e-mail para mim. O mundo parou. Eu travei, esperando uma resposta. Eu travei, não sabendo sobre o que seria a resposta.
Não quero aceitar que nada inesperado aconteça voltado a mim. Onde estão os e-mails? Quero ser só uma engrenagem empurrando dentes de uma máquina que não entendo, sem pensar.
Conectei o MSN, o Yahoo! Messenger, o ICQ e o mIRC para ver quem estava por perto. Conheci uma moça muito bonita, tinha olhos lindos, o corpo na medida que gosto, mas ela tinha conexão discada e caiu a linha. Azar o dela.
Três minutos. Nenhum e-mail para mim. O mundo parou. Eu travei, esperando uma resposta. Eu travei, não sabendo sobre o que seria a resposta.
Não quero aceitar que nada inesperado aconteça voltado a mim. Onde estão os e-mails? Quero ser só uma engrenagem empurrando dentes de uma máquina que não entendo, sem pensar.
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segunda-feira, 23 de março de 2009
Entrevista
-Quando o senhor vendeu as fazendas então, não havia mais esse problema?
-Não, não havia mais. Eles já eram crescidos, todos. Também não queriam ir para lá só a lazer, por livre vontade, e a mãe concordava. Então que ficassem na cidade.
-Onde o senhor não aguentou muito tempo.
-Pois é. Voltei para o campo. Eu cresci lá, vivi lá, prosperei lá. Sempre tinha parente indo pra alguma cidade. Cidade grande. Mas o campo me deu muito. Riqueza inclusive. E eu acabei voltando.
-Então isso é mais uma ligação emocional mesmo?
-Ah sim. Mas não sei se posso dizer que foi por isso, pois aí não seria de todo coerente...
-Por ter deixado seus filhos na cidade?
-Sim, pois emotivamente, sinto falta deles também. Meu passado está no campo, mas minha vida são meus filhos, e eles estão longe. Sinto falta deles. De alguma forma senti que eles tinham que viver a vida deles, mas eu não queria que isso fosse longe de mim.
-Mas o senhor está complicando tudo. Temos que decidir logo o que vou fazer da sua alma. Mas nem você sabe se era amor à libedade deles ou egoísmo possessivo com seu passado e suas lembranças...
-Não, não havia mais. Eles já eram crescidos, todos. Também não queriam ir para lá só a lazer, por livre vontade, e a mãe concordava. Então que ficassem na cidade.
-Onde o senhor não aguentou muito tempo.
-Pois é. Voltei para o campo. Eu cresci lá, vivi lá, prosperei lá. Sempre tinha parente indo pra alguma cidade. Cidade grande. Mas o campo me deu muito. Riqueza inclusive. E eu acabei voltando.
-Então isso é mais uma ligação emocional mesmo?
-Ah sim. Mas não sei se posso dizer que foi por isso, pois aí não seria de todo coerente...
-Por ter deixado seus filhos na cidade?
-Sim, pois emotivamente, sinto falta deles também. Meu passado está no campo, mas minha vida são meus filhos, e eles estão longe. Sinto falta deles. De alguma forma senti que eles tinham que viver a vida deles, mas eu não queria que isso fosse longe de mim.
-Mas o senhor está complicando tudo. Temos que decidir logo o que vou fazer da sua alma. Mas nem você sabe se era amor à libedade deles ou egoísmo possessivo com seu passado e suas lembranças...
Longe
Uma tábua de madeira sobre a calçaca, cobrindo uma manutenção de rotina no pavimento. As pessoas andando. E as cenas típicas, as piadas despropositadas... Tudo acontecendo ali. A situação inusitada, os comentários, as fotos. Um cruzamento na cidade grande e lá muitas pessoas fazendo do inútil o objetivo final, dando-se à alegria com gosto.
Sorri um sorriso desacompanhado. Não que não houvessem pessoas comigo. Mas simplesmente não haviam outros sorrisos ao lado do meu. Quando se esmiuça o mundo assim com os pensamentos que vão perguntando o que está por trás de cada parede... vão surgindo salas escuras.
Ah! Mas que é que estou fazendo aqui? Sei que fui aonde não devia, me perdi por esta e aquela viela das pessoas que ficaram ao meu lado.
Vi uma criança sorrindo um sorriso expontâneo com seu amigos. Vi as duas sorrindo um sorriso só a uma cena que, em si, não mereceria tanto, não fosse o trabalho árduo daquelas crianças que havia pouco garimparam o duro simples do mundo atrás dos tesouros escondidos.
Sorri um sorriso desacompanhado. Mas olhei de volta, deixando de lado as salas escuras. Olhei à volta. Olhei... olhei que volta.
Sorri um sorriso desacompanhado. Não que não houvessem pessoas comigo. Mas simplesmente não haviam outros sorrisos ao lado do meu. Quando se esmiuça o mundo assim com os pensamentos que vão perguntando o que está por trás de cada parede... vão surgindo salas escuras.
Ah! Mas que é que estou fazendo aqui? Sei que fui aonde não devia, me perdi por esta e aquela viela das pessoas que ficaram ao meu lado.
Vi uma criança sorrindo um sorriso expontâneo com seu amigos. Vi as duas sorrindo um sorriso só a uma cena que, em si, não mereceria tanto, não fosse o trabalho árduo daquelas crianças que havia pouco garimparam o duro simples do mundo atrás dos tesouros escondidos.
Sorri um sorriso desacompanhado. Mas olhei de volta, deixando de lado as salas escuras. Olhei à volta. Olhei... olhei que volta.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Das proporções
Às vezes é amor demais.
Às vezes é amor de menos.
Essas medidas são estranhas, bem estranhas.
Eu a amei por anos e anos a fio. Amei com o desespero de declarar todos os dias. Depois amei com a coragem suicida do segredo absoluto e eterno. E amei e amei, e os anos nos separararam, e amei e amei. Amei com o desespero de viver uma vida que me levasse embora desse pensamentos que, lá num canto, sozinhos, respiravam vivinhos vivinhos.
E voltamos a nos falar.
E ela me descobriu.
E ela me disse:
- É muito bom estar com você! Enquanto você estiver aí do meu lado, prometo também estar sempre perto!
Será que algum dia vou conseguir explicar pra alguém a revolta que senti? "enquanto você estiver aí do meu lado"... Enquanto o que se sente for do tamanho promíscuo das condicionais, vá à merda! Te amo de longe, sem te esquecer ainda que você me esqueça, e você não tem nada com isso. Me deixe te amar aqui, em paz...
Às vezes é amor de menos.
Essas medidas são estranhas, bem estranhas.
Eu a amei por anos e anos a fio. Amei com o desespero de declarar todos os dias. Depois amei com a coragem suicida do segredo absoluto e eterno. E amei e amei, e os anos nos separararam, e amei e amei. Amei com o desespero de viver uma vida que me levasse embora desse pensamentos que, lá num canto, sozinhos, respiravam vivinhos vivinhos.
E voltamos a nos falar.
E ela me descobriu.
E ela me disse:
- É muito bom estar com você! Enquanto você estiver aí do meu lado, prometo também estar sempre perto!
Será que algum dia vou conseguir explicar pra alguém a revolta que senti? "enquanto você estiver aí do meu lado"... Enquanto o que se sente for do tamanho promíscuo das condicionais, vá à merda! Te amo de longe, sem te esquecer ainda que você me esqueça, e você não tem nada com isso. Me deixe te amar aqui, em paz...
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Materialista
Religion thus makes easy and felicitous what in any case is necessary.
Já faz muito tempo que William James, autor do clássico "The Varieties of Religious Experience" escreveu a frase acima. Não sou profundo conhecedor de suas reflexões. No caos da minha vagabundagem, aliás, não sou profundo conhecedor de nada. O que não me priva do prazer de alguns pensamentos!
Parece que as reflexões de James vão pouco a pouco acentuando o contraste entre a experiência "religiosa" e o restante das atividades humanas, até revelarem facetas do sentimento de transcendência que, embora possam ser atribuídos única e exclusivamente a fenômenos fisiológicos, são ainda assim importantíssimos para o desempenho da máquina-ser-humano como um todo.
Entender as razões que levam à rápida disseminação da fé é entender mais e mais as emoções humanas, nossas carências, nossos dispositivos inatos e sua relação com o ambiente (seja esse ambiente natural ou social). É entender os limites do nosso auto-controle. É entender o quão limitada é a razão no mando de seu próprio substrato.
O poder da coerência do discurso é assombrosamente maior que o poder da razão... Preferimos descrições coerentes de algo prazeroso ainda que falso a evidências fortes de algo constrangedor ou sem apêlo emocional.
E por fim, não que tenha algo muito diretamente a ver com o post, mas pra distrair... ele... Calvin!
Já faz muito tempo que William James, autor do clássico "The Varieties of Religious Experience" escreveu a frase acima. Não sou profundo conhecedor de suas reflexões. No caos da minha vagabundagem, aliás, não sou profundo conhecedor de nada. O que não me priva do prazer de alguns pensamentos!
Parece que as reflexões de James vão pouco a pouco acentuando o contraste entre a experiência "religiosa" e o restante das atividades humanas, até revelarem facetas do sentimento de transcendência que, embora possam ser atribuídos única e exclusivamente a fenômenos fisiológicos, são ainda assim importantíssimos para o desempenho da máquina-ser-humano como um todo.
Entender as razões que levam à rápida disseminação da fé é entender mais e mais as emoções humanas, nossas carências, nossos dispositivos inatos e sua relação com o ambiente (seja esse ambiente natural ou social). É entender os limites do nosso auto-controle. É entender o quão limitada é a razão no mando de seu próprio substrato.
O poder da coerência do discurso é assombrosamente maior que o poder da razão... Preferimos descrições coerentes de algo prazeroso ainda que falso a evidências fortes de algo constrangedor ou sem apêlo emocional.
E por fim, não que tenha algo muito diretamente a ver com o post, mas pra distrair... ele... Calvin!
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Considerações jogadas
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
terça-feira, 21 de outubro de 2008
terça-feira, 16 de setembro de 2008
sábado, 30 de agosto de 2008
Inquiry
Criei minha mente com cuidado, com muito sofrimento. Não era fácil, quando ela era pequena, encontrar tudo o que era necessário. Não fui um pai perfeito, mas fiz o melhor que pude, com sacrifício.
Mas minha mente cresceu, ganhou vida, e eu deveria me preparar para o momento em que ela partiria sozinha em direção do mundo. Assim é criar... Preparar-se para libertar.
Agora ganhou essa vida própria. Anda por aí vendo, olhando, fazendo perguntas... Todas as perguntas. As perguntas que não devem ser feitas. As perguntas erradas. Aí no meio saem as certas também. Mas são muitas perguntas. Muitas perguntas. As perguntas certas e as erradas, as erradas e as certas.
Mas ela é jovem ainda, acabou de sair no mundo. Não entende que há coisas que são. São e ponto. São e daí nada mais importa. São e estão feitas.
Vai aprender um dia, mas não agora, não mais de minhas mãos, de minha voz. Não escuta mais, agora, deslumbrada com esse mundo das perguntas todas por serem feitas. Há perguntas que não se visitam. E isso é mais que etiqueta, é prudência. Às vezes, não perguntar é até sabedoria.
Ahh, é o Tempo aí fazendo mais dos seus mistérios sempre prontos.
Mas minha mente cresceu, ganhou vida, e eu deveria me preparar para o momento em que ela partiria sozinha em direção do mundo. Assim é criar... Preparar-se para libertar.
Agora ganhou essa vida própria. Anda por aí vendo, olhando, fazendo perguntas... Todas as perguntas. As perguntas que não devem ser feitas. As perguntas erradas. Aí no meio saem as certas também. Mas são muitas perguntas. Muitas perguntas. As perguntas certas e as erradas, as erradas e as certas.
Mas ela é jovem ainda, acabou de sair no mundo. Não entende que há coisas que são. São e ponto. São e daí nada mais importa. São e estão feitas.
Vai aprender um dia, mas não agora, não mais de minhas mãos, de minha voz. Não escuta mais, agora, deslumbrada com esse mundo das perguntas todas por serem feitas. Há perguntas que não se visitam. E isso é mais que etiqueta, é prudência. Às vezes, não perguntar é até sabedoria.
Ahh, é o Tempo aí fazendo mais dos seus mistérios sempre prontos.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Pensamento positivo
Há dias que acordo com essa sensação ruim. Vão correndo as horas, vai o Sol passeando pelo céu, e a coisa vai piorando.
Estou doente. Tenho pensamentos e não consigo escrevê-los. Tenho as conversas e não consigo escrevê-las. Tenho os sentimentos e -los. Estranho.
Não sei dizer se as palavras andam passando tão rápidas, tão novas e tão inéditas em minha mente que ainda não achei a velocidade de capturá-las, ou se elas simplesmente deixaram de passar. A primeira possibilidade me engrandece num instante a maior que eu mesmo. Logo, a segunda tem um quê de mais provável, sem deixar de lado o otimismo, é claro.
Estou doente. Tenho pensamentos e não consigo escrevê-los. Tenho as conversas e não consigo escrevê-las. Tenho os sentimentos e -los. Estranho.
Não sei dizer se as palavras andam passando tão rápidas, tão novas e tão inéditas em minha mente que ainda não achei a velocidade de capturá-las, ou se elas simplesmente deixaram de passar. A primeira possibilidade me engrandece num instante a maior que eu mesmo. Logo, a segunda tem um quê de mais provável, sem deixar de lado o otimismo, é claro.
Alicerce
Acordei com uma certa sensação eufórica. Não entendi bem o que era. Revirei-me na cama, olhei para o teto, para o quarto iluminado pelo sol. Levantei-me, curioso... olhei janela afora e entendi: estava tudo resolvido. Finalmente, eu tinha uma vida sem mais problemas. Vi a cerca branca em volta da casa, devidamente pintada. Cachorros correndo no quintal e minha filha brincando com eles, ainda de pijama. Cena das mais tenras.
No trabalho, não havia mais preocupações. Meu chefe me tratava bem desde então. Nenhum problema com prazos, inimizades. No mundo, a poluição não acontecia mais. A pobreza ilustrava os livros e ocupava as escolas: tão abstrata quanto a matemática.
O mundo foi assim por dois dias. E então alastrou-se a peste. A depressão e a desmotivação disseminaram-se como um vírus mortal. Não se sabe ao certo a extensão dos prejuízos e das inatividades pois nem os estatísticos e os jornalistas, num primeiro momento, julgaram de algum valor contabilizar o que ocorria.
Acordei com uma certa sensação eufórica. Havia sido um sonho? Um sonho apenas? Aquele acordar era estranhamente melancólico e doce: saí do único mundo onde os sonhos máximos haviam uma única vez ao menos se realizado, mas senti-me como nunca necessário ao meu mundo, parte dele como se é parte do que se é um só. Meus filhos estavam brigando na sala porque o temperamento explosivo e inquieto do mais novo atrapalha profundamente todas as brincadeiras de minha mais velha. E minha esposa resmungava maldições a mim por estar em pleno sábado dormindo até tão tarde. Me fingi dormindo por mais três minutos digerindo aquelas esbravejações e então levantei, revigorado como nunca.
No trabalho, não havia mais preocupações. Meu chefe me tratava bem desde então. Nenhum problema com prazos, inimizades. No mundo, a poluição não acontecia mais. A pobreza ilustrava os livros e ocupava as escolas: tão abstrata quanto a matemática.
O mundo foi assim por dois dias. E então alastrou-se a peste. A depressão e a desmotivação disseminaram-se como um vírus mortal. Não se sabe ao certo a extensão dos prejuízos e das inatividades pois nem os estatísticos e os jornalistas, num primeiro momento, julgaram de algum valor contabilizar o que ocorria.
Acordei com uma certa sensação eufórica. Havia sido um sonho? Um sonho apenas? Aquele acordar era estranhamente melancólico e doce: saí do único mundo onde os sonhos máximos haviam uma única vez ao menos se realizado, mas senti-me como nunca necessário ao meu mundo, parte dele como se é parte do que se é um só. Meus filhos estavam brigando na sala porque o temperamento explosivo e inquieto do mais novo atrapalha profundamente todas as brincadeiras de minha mais velha. E minha esposa resmungava maldições a mim por estar em pleno sábado dormindo até tão tarde. Me fingi dormindo por mais três minutos digerindo aquelas esbravejações e então levantei, revigorado como nunca.
Colapso
O som era alto, o ambiente um tanto quanto tomado pela fumaça. A conversa ia caminhando por meandros estranhos, trazendo à tona tudo o que já era sabido de todos (quase todos), mas ainda assim produzindo um enorme constrangimento. De ambos os lados.
Ao constrangimento, reagiam: riam. Ridicularizavam o que eram constrangedor. Ignoravam o que mais lhes era próprio.
Beijaram-se, olharam-se nos olhos. Abraçaram-se. Sentiram uns aos outros.
Não houve amor. Houve apenas desse sentimento que chateia a saudade e que corrói a imaginação.
E estavam felizes: havia um pretexto para, naqueles instantes, não se pensar em felicidade.
Ao constrangimento, reagiam: riam. Ridicularizavam o que eram constrangedor. Ignoravam o que mais lhes era próprio.
Beijaram-se, olharam-se nos olhos. Abraçaram-se. Sentiram uns aos outros.
Não houve amor. Houve apenas desse sentimento que chateia a saudade e que corrói a imaginação.
E estavam felizes: havia um pretexto para, naqueles instantes, não se pensar em felicidade.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Surface
Há um não-eu que me persegue em todos os instantes, uma sombra da qual não me livro às custas de nada, nada nada nada. Essa aparência que produz o que quero sendo o que não quero.
Lógica corrompida que realiza feitos incríveis por caminhos inaceitáveis. Lugares inaceitáveis. Vou processar o destino por este humor impróprio.
Há este dançar inaceitável das coisas se colocando em lugares estranhos. E eu acho que nem quero mais escrever sobre isso. Dane-se, vivo escrevendo sobre essa desistência.
Quando o sonho nos procura achamos que não é hora de dormir.
Não sabemos sonhar acordados.
Não, nunca sabemos sonhar acordados.
Quando o sonha nos procura achamos que não é hora de dormir.
Não sabemos que é realidade.
Andava à noite carregando duas malas grandes, bem vestido. A rua estava deserta e escura. Um carro aproximou-se lentamente e fui abrindo a janela.
Ofereceram uma carona.
O mundo é bom.
Não sabemos que é realidade.
Era frio, a cidade estava destruída e a noite já ia longe. Duas pessoas. Um único cobertor. Desconhecidos.
Dividindo o resto de nada.
Não sabemos que é realidade, não sabemos que a realidade nos ronda, não sabemos que a realidade existe na gente agora escondida. Não enxergamos o que acontece, não vemos a essência do que é a cada instante esse algo que é o tempo todo e que só ele é esse algo capaz de ser o tempo todo.
Sonhar acordado...
Lógica corrompida que realiza feitos incríveis por caminhos inaceitáveis. Lugares inaceitáveis. Vou processar o destino por este humor impróprio.
Há este dançar inaceitável das coisas se colocando em lugares estranhos. E eu acho que nem quero mais escrever sobre isso. Dane-se, vivo escrevendo sobre essa desistência.
Quando o sonho nos procura achamos que não é hora de dormir.
Não sabemos sonhar acordados.
Não, nunca sabemos sonhar acordados.
Quando o sonha nos procura achamos que não é hora de dormir.
Não sabemos que é realidade.
Andava à noite carregando duas malas grandes, bem vestido. A rua estava deserta e escura. Um carro aproximou-se lentamente e fui abrindo a janela.
Ofereceram uma carona.
O mundo é bom.
Não sabemos que é realidade.
Era frio, a cidade estava destruída e a noite já ia longe. Duas pessoas. Um único cobertor. Desconhecidos.
Dividindo o resto de nada.
Não sabemos que é realidade, não sabemos que a realidade nos ronda, não sabemos que a realidade existe na gente agora escondida. Não enxergamos o que acontece, não vemos a essência do que é a cada instante esse algo que é o tempo todo e que só ele é esse algo capaz de ser o tempo todo.
Sonhar acordado...
Meticuloso
Tirei da escrivaninha toda a bagunça que estava lá. Deixei só uma folha sulfite, colocada meio inclinada, a luminária acesa no canto da direita, junto à parede, e minha caneta de estimação. Sentei-me sobre a cadeira mais confortável, e deixei os pensamentos virarem tinta até secarem.
Olhei o formato daquilo e eram bem pensamentos meus mesmo. Toscos quando olhando meio de longe. Tortos, mal agrupados. De perto, nunca se repetiam. Minha caligrafia não permite isso. Uso folha sulfite porque meus pensamentos ofenderiam as linhas tradicionais: não caem jamais onde deveriam.
Mas a quem olhar mais de perto, há uma linha líquida correndo rápido desde há muitos anos ganhando volume e fazendo esse esforço descomunal, sem perder energia, para levar tudo consigo correnteza adiante.
Seguro a caneta sempre na posição certa, para que a pena, ao se apoiar sobre o papel, abra um pouco o sulco que tem na ponta de modo a deixar correr a tinta.
Até que faz sentido.
Olhei o formato daquilo e eram bem pensamentos meus mesmo. Toscos quando olhando meio de longe. Tortos, mal agrupados. De perto, nunca se repetiam. Minha caligrafia não permite isso. Uso folha sulfite porque meus pensamentos ofenderiam as linhas tradicionais: não caem jamais onde deveriam.
Mas a quem olhar mais de perto, há uma linha líquida correndo rápido desde há muitos anos ganhando volume e fazendo esse esforço descomunal, sem perder energia, para levar tudo consigo correnteza adiante.
Seguro a caneta sempre na posição certa, para que a pena, ao se apoiar sobre o papel, abra um pouco o sulco que tem na ponta de modo a deixar correr a tinta.
Até que faz sentido.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Nítido
Não não... Não é aceitável. Demanda muita coragem, muita força de vontade daqui em diante este fato que teria tudo para ser inocente. Ou, quando muito, incriminar a mim e a ninguém mais. Porém eis que meu pequeno deslize quebra de forma brusca tudo o que é expectativa alheia, e escuto daqui e dali esses lapsos de sinceridade. Sinceridade vergonhosa.
Mas o que esperar? Idealismo é só um quadro bonito que serve para ser colocado na porta da realidade. Ali dentro é outra coisa.
As aparências enganam: sim, as aparências importam.
Mas o que esperar? Idealismo é só um quadro bonito que serve para ser colocado na porta da realidade. Ali dentro é outra coisa.
As aparências enganam: sim, as aparências importam.
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