quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Trabalho pela frente

Há algo na liberdade de escrever que é intimamente conectado à liberdade da vida, de modo mais amplo, mais geral. Esse algo anda perdido, não sei bem aonde foi parar. Talvez eu tenha deixado em algum canto bagunçado no meu quarto. Há, ultimamente, muitos cantos bagunçados no meu quarto. Talvez tenha sido a rotina, com sua previsibilidade nunca inspirada e totalmente não inspiradora, que derreteu meus pensamentos até o ponto em que só se sente fácil pensar o que já foi pensado antes. Pensamentos novos andam proibidos. Vai que não agradam. Já pensou, ter pensamentos que não agradam? Sai de mim!

Estive lendo minhas páginas velhas, empoeiradas. Senti uma saudade dos dias passados. Um ano, dois anos atrás. Algo em mim estava melhor do que está agora. Não sei dizer bem o que é mas desconfio que o leitor saberá do que estou falando. Mudamos, sempre mudamos. Há momentos na vida em que sentimos um profundo orgulho de nosso momento presente. Há outros momentos em que o presente parece nos engolir. Aí olhamos para o passado e vem esse saudosismo entorpecente. Olhamos para o futuro e fica fácil, bem fácil, se perder em sonhos e imaginações bem diversos.

Eu vou me afogar em clichês, não tem jeito: o momento é de desafios, de aprendizado, demanda serenidade, preciso de confiança em mim mesmo.

Blá.

O discurso chega a ser tão chato que a tentação recai mesmo para soluções menos ortodoxas: deixa rolar, vamos ver no que dá. Hora de arrumar outras distrações para que essas esferas da vida que tanto perturbam se desgastem pela falta de atenção e aí de repente os problemas mudam de figura.

Do que diabos eu estou falando?

Eu sei lá! Emprego, vida amorosa, carreira, família.

São sempre os mesmos temas de sempre.

Que ser humano, na face deste redondinho pedregulho flutuante, teve já a competência de arrumar um tema genuinamente diferente? Religião? O futuro da humanidade? Um impasse cinetífico?

Sei lá, no fundo não somos tão criativos assim.

O que é bom. É nossa pieguice que cria gênios. Li o Caim, de Saramago. E li críticas diversas de religiosos e outros nem tantos. Muita gente gostou, claro. E muitas muitas outras odiaram. De repente Saramago narra uma cena de êxtase sexual. E um pessoal fica abismado, horrorizado. Acha um jeito de criticar: a narrativa não foi literária como seria cabível a um autor-nobel. O conhecimento bíblico do Saramago é pífio e amadoresco.

Pieguice que estabelece padrões e se amarra a eles.

Talvez um dia eu vire escritor ou qualquer coisa parecida. Mas que Alá me proteja, que os céus conspirem, que Deus me acuda... e que não me deixem, de jeito nenhum, virar uma espécie de crítico mal-almado.

Há aqui na minha escrivaninha um formulário com exatas quarenta e sete linhas. Preciso preencher o formulário. Doze linhas já estão preenchidas. São quase três da tarde. Vou até o banco, há uma conta por pagar. Fatura do telefone. Pagar por internet? Nem morto! Quem confia nessa tal de internet? Até eu escrevo o que quiser na internet, não dá pra confiar.

Falta um tipo de liberdade no meu momento presente e preciso sair para procurar. Depois de pagar as contas, quem sabe?

domingo, 26 de dezembro de 2010

Jarro

Confissões inconfessáveis que faço pra mim todos os dias. Todos os dias... Todos os dias nego as coisas que sei que são verdade. As coisas que faço serem verdade. As coisas que gosto que sejam verdade. As coisas que parecem não poder ser verdade. Meus pensamentos não são certos no mundo lá fora, mas são inevitáveis aqui dentro...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Away

As paixões se instalam uma por vez. Neste coração primeiro. Naquele depois. Nunca junto. Nunca simultâneo. É deste descompasso de amores que padecem os desamados, nunca da ausência completa do amor.

Ele a quisera desmedidamente. Fez planos. Aceitou em paz que se tornaria então um adulto. Adulto de ter a própria casa, as próprias contas, os próprios filhos, a própria história. E ela não o amou. E ela o deixou. A vida, ah! Caprichosa... Não os deixou afastarem-se mais que o necessário para que certas feridas se solidificassem em cicatrizes maquiáveis. Redescobriram-se. Amigos. Amigos... E com o passar do tempo a tranquilidade excessiva dele vai soando aos olhos dela mais e mais como um cotidiano perfeito. Uma companhia desejável. Não era como o namoro em que suas carências a tinham metido. Era... era leve. Era natural.

- Eu te amo, ela disse.

- Duvido!, ele pensou, esbravejando dentro de si. Contra ela e contra a história. E silenciou. E desviou o olhar.

Desejo. Corpos se faltando. Mordidas em orelhas escondidas na escuridão. Umas nas costas. Vozes aquecidas em suspiros graves. Suores misturados.

E não se amam mais. Não ao mesmo tempo.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sistemas

As pessoas tentam conduzir suas vidas, melhorá-las e alterá-las, como se a vida fosse um Estado. Um estático a ser moldado, talhado.

Mas a vida é um processo. Um processo sem ponto fixo. Em processos, controla-se as características do fluxo, o aspecto das mudanças, e não uma configuração estática, final e inalterável.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Descarte

Talvez uma das grandes razões para a importância da ciência e de sua difusão, em particular, seja o fato de que os homens, caso geral, não pensam. Não são profundamente críticos, não são dados a investigar, não se atrabalham com os cantos todos do interrogar. Assim, tanto melhor que exista um conjunto de tradições de conclusões bem encaminhadas, para as quais se possa olhar como que a um altar, e ao sair dos templos de instrução transcedental não se tenha que fazer nada mais além de seguir aqueles tantos credos cansadamente repetidos e repetidos.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Dor

Hoje quem sabe eu não poderia só morrer um pouco? Só sumir do mundo?

E não correr mais o risco de deixar minha namorada triste por falta de atenção.

E não ser uma falha nesta ou naquela carreira por não saber o que quero da vida.

E não ser mais uma incógnita pra mim mesmo.

Eu sou uma incógnita pra mim mesmo.

E quando os dias passam, indiferentes e impiedosos,

Ao invés de resolver minhas dúvidas, elas engrossam

Empastam, engessam.

Eu sou uma incógnita para mim mesmo.

E quanto mais os dias passam, mais sou esse não ser

É só mais um dia sem ter sido

É só mais uma tentativa não começada

Sou um potencial adormecido

Adormecido em sono profundo

De que valem os potenciais?!

Tudo tem potencial de tudo. Todo assassino é um anjo potencial

Todo deus é um demônio potencial

Todo caderno em branco é na literatura um nobel em potencial

Em minha casa vazia mora uma família feliz, falando potencialmente

Poderia ser você ali na sala brincando com as crianças

Poderiam ser nossas crianças

Mas você não está aqui

Poderia estar, potencialmente está

Mas não está.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Saída

Caminhei pela cidade de dia,
Andando sem parar, nunca parar
Debaixo de Sol, em bairros bonitos
Em bairros feios, favelas
No meio de feiras
Em ruas desertas

Anoiteceu, anoiteceu e continuei andando
E queria sair dali, sair da cidade
E eu raciocinava a direção do norte
E ponderava minhas escolhas de curvas
E continuei andando
E não havia saída.

A cidade, perfeita ou problemática,
Rica ou pobre
A cidade, cenário de todas as possibilidades
Dessa vida que me engole,
Não tem saída.
E eu lá, só andando, e não há saída.

A cidade me engoliu.
Era outro dia já. E eu continuava andando.
Ao leste, andando ao leste sempre ao leste.
Assim de frente encaro o Sol
Lhe cuspo em revolta
Lhe deixo rir de mim,
Como impedir?

Caminhei, caminhei, caminhei
caminhei, caminhei, caminhei
caminhei caminhei caminhei caminhei
caminheicaminheicaminheicaminhei...
Até que a última gota de disposição queimou
Em alguma célula cansada de meus músculos
Caí ajoelhado no coração da cidade,
Na Praça da Sé

E, exausto, não conseguia mais pensar
Onde era o leste, onde era o norte,
O que era o Sol, o que era a Lua
E assim, sem pensar na fuga,
Sem ter na visão da minha mente
A sede do ar livre
Desci para o Parque Dom Pedro
Lá estava, salgada e tranquila,
Do outro lado da rua,
A praia, já do lado de fora
Onde deitei e durmi e acordei queimado e feliz.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Etimológico

O que sou, desisti de mostrar o que sou
Porque exibir meu ser é deixar de sê-lo
Porque mostrar é tirar da caixa
E a caixa sou eu
E o ar de fora me enferruja
E o mar namora na praia uma coruja
Mas ela voa
E voa e vai embora
E daí se a rima é tosca?
Se a imagem não faz sentido?
Se o que eu penso não faz sentido
Se o que sou não faz sentido
Se o que escrevi não faz sentido
Ao menos a coruja e o mar se entendem
E não discutem horários
E não se pedem explicações

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Calmo

Vou virar meu guarda-roupa abaixo, espalhar roupas, lençois e cobertores por todo o quarto. Jogar álcool. Meter fogo em tudo. E sair correndo de casa. Não vou andar pela calçada não. Vou passar por cima dos carros estacionados, pulando de um pro outro. Amaçando o teto, riscando o capô. Aí vou parar no meio de um cruzamento e gritar palavras sem sentido. Os cachorros perdidos da cidade, um a um, vão me acompanhar. Serei o líder de uma matilha de ensandecidos mordedores. Vamos todos sair latindo por aí. Bradando aos balbúcios qualquer coisa. Vamos encarnar o caos que todos sentem resignados dentro de si. Aí vou entrar em uma padaria. Pular pro outro lado do balcão. Comer coxinhas e fatias frias de pizza, uma coisa por cima da outra, sujando a cara. Com a cara dentro da estufa. Os cães todos impedirão que me impeçam! E vou passar por toda a Avenida Paulista sendo seguido por mais de mil cães. E não saberão o que fazer. A polícia não vai atirar, tamanho o surrealismo. Estaremos imunes. Muitos compartilharão em segredo com nossa causa. Vou descer a Consolação. Dois mil cachorros. Vou até praça da Sé. Deitar na escada da catedral. Cercado por dez mil cães ferozes. E vou dormir em paz.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Penumbra

Madrugada. Às vezes o som de um ônibus passando longe. Ele andava pela rua. Olhava sombras. Gatos andando sem maiores preocupações, esquivos. Lixo espalhado. Os barulhos de seus tênis. Seus pensamentos jogados. Aquelas palavras. O emprego errado. Tudo machucava. Tudo perturbava. Pensou em gritar. Alívio? Lua indiferente. Madrugada. Aproximava-se daquela casa. Aquela casa... De manhã, bem cedinho, passando ali em frente ainda antes da cidade acordar, era possível vê-la por entre frestas da cortina acordando, no quarto de cima. As frustrações de sua vida. A dor de uma rejeição tão violenta. O emprego entediante. A madrugada quieta e indiferente. E a casa daquela mulher se aproximando. Ela poderia estar lá. Salvaria o dia, a noite. Salvaria a caminhada. Lhe daria um sono tranquilo. Ver aquelas costas lisas. Aquele sutiã branco de volume perfeito para suas mãos. Aquele cabelo desenhado com ondas perfeitas. Foi se aproximando. Viu a casa ao longe. Apagada. Triste. Neurótico. Não passou em frente à casa. Abriu o portão e entrou. Não fez menção de encoleirar o silêncio; deixou-o fugir a longe! Subiu as escadas com pés pesados de sede. Respirava fôlego tenso. A maçaneta. A luz da lua era cúmplice. Ela já estava acordada, apoiando a cabeça sobre a mão direita, o ombro sobre o travesseiro. Não quebrou o silêncio, só remodelou-o com sussuros.

- Então é você mesmo...

- Sabia que eu viria?

- Não esperava a essa hora. Mas estava destrancado, não estava? Vem... vem!

Quebraram a cama, o segundo andar e o quarteirão.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Blues

Aí tinha aquele garoto que todos pensavam conhecer. Eu vi o jovem numa noite de música e conversa. De blues e mentiras. De gaitas e amores. Quieto num canto, por vezes quase ignorado. Abraçado e olhado noutras. As garotas gostavam dele, ah! Ah gostavam sim. E ele realmente parecia um paspalho abichalhado de tão imune que era aos abraços, aos carinhos, às bundas todas ali por se apalpar.

Enganaram-se porém todos os que foram superficiais no entendimento desse ostracismo. Ele estava de luto. Estava de luto de si. Havia um eu morto dentro de si. Morto a cada dia. E ele velava. Chegava em casa. Deitava no teto da sala e olhava para as coisas todas incrédulo. Incompreensível essa mania de apego ao chão. O chão não serve para nada. O chão não lhe servia para nada.

Diziam que ele não tinha tanto assunto. Ele ficava quieto engolindo todos os assuntos, olhando. Era tudo ao mesmo tempo na cabeça dele. O violão. A gaita. O zelador reclamando fazia parte da música que ele ouvia. O refrão seria outro completamente outro se a cerveja não se derrubasse ao tapete. A ficção mudaria de gosto se aqueles romances todos não se fizessem e desfizessem assim quase desnudos diante de seus olhos.

Achavam que ele às vezes se isolava e não fazia parte de nada, quieto num canto. Mergulhado em seu mundo, sabia que um mundo era um só. Fazia parte de tudo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Você

Você me enxerga. Eu me escondo. Atrás da pedra. Você olha. E me vê. E não vê a pedra. Eu tenho olhos verdes. Verdes claros. Verde forte, fosforecente. Verde criptonita. Radioativo. E estou triste. E você me olha. E vê cinza. E vê escuro. E ninguém mais vê. Você me toca. Me toca com sede. Me toca tentando trocar nossos corpos. Aperta. Marca. Arranha. Sangra. Engole. Você é doce. É risonha. É linda. É séria. É mulher. É gostosa. Você me provoca. Você me desperta. Você me deseja. Você me faz te desejar. Você desnuda meu corpo, meus segredos, minhas mentiras, minhas dúvidas. Você é presente. Você é errada. Você é novidade. Você quebra todos os padrões das minhas caretices tuberculósicas que tossem conveniências repetitivas por aí. E não traz padrões novos. Traz tela. Traz tinta. Não traz pincel. Convida a pintar com a mão. Com os pés. Com a cara. Você é ilícita. Você é proibida. Você é diferente. Você é corrosiva. Você é perigosa. Você é irrecomendável. Você é inusitada. Você é exótica. Você é possessiva. Você é ciumenta. Você é carinhosa. Você é problemática. Você é irresistível.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Noites turvas

Li as Noites Brancas e saí pra passear ao lado de um belo riacho.

Margem calçada de pedras velhas e ásperas.

Tinha a mão direita entrelaçada à mão de uma Nástienhka imaginária.

Tão material em mim que a mão esquentava.

Olhei ao horizonte, o Sol brincando de jogar as sombras lá longe.

Eu brincando de jogar o impossível mais perto.

E a Nástienhka ria. Imaginária e ria, desobediente, malandra que era. Um encanto.

Sem menos ou mais, ela tropeçou. Uma pedra ou um musgo a abalar o equilíbrio da mulher.

Caiu com a testa numa pedra pontuda.

Sangrava, eu a agitando em meus braços, aos gritos e soluços, desesperado.

Numa mesa de bar logo ali na esquina ria o próprio Dostoiévski a dar de ombros:

- Esse aí não cuida nem de um draminha curtinho, é novato!

O Camus, no bar da outra esquina, é que achou o máximo. Vibrou, até!

E virava outra vodka, batendo o copo na mesa.

O sol estava circulando o horizonte, que ir por cima de tudo de leste a oeste já lhe era monótono.

As sombras faziam círculos em volta das coisas. O sangue escorria da testa da minha Nástienkha, fugindo de sua sombra.

Veio a mão ao meu ombro, quase acusando. Virei-me.

A Nástienkha, em pé, brava a me olhar condenando de todas as formas silenciosas que se têm para condenar.

A Nástienkha, em meus braços, morrendo por um pequeno deslize, falta de cuidado meu? Fatalidade? Imperícia de meus socorros?

Por uma eu chorava. Da outra eu tinha raiva e queria gritar para ela me deixar em paz, que não era culpa minha.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A escrita

A escrita é uma introspecção que se deixa bisbilhotar.

Se não for, perdoe o equívoco, eu estava apenas aqui pensando comigo mesmo...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sempre lá

Já deixei rosas na porta da casa, no meio da noite. Já fiz cartões e deixei de surpresa nas coisas da amada. No armário da faculdade. Na bolsa. Já escrevi cartas apaixonadas. Já dei beijos cinematográficos na frente de muitos. De amigos. E de desconhecidos também. Mas isso, nunca achei que chegaria a um extremo tão grande. E nunca achei que seria tão difícil. E nunca tão pesado, indiluível... Alguém aí, por uma espécie de amor maior, já experimentou enterrar dentro de si um grande amor em segredo eterno?

domingo, 21 de novembro de 2010

Vida

O que é que a gente responde, quando não sabe a resposta?

Sons

Hoje ouvi talvez 25 versões diferentes de Misty. Instrumentais, cantadas... É possível se apaixonar por uma música?

Verdades

Amor...
...rima com dor.

sábado, 20 de novembro de 2010

sábado, 13 de novembro de 2010

Claustrofobia

Vou falar da poeira que se acumula no chão do meu quarto. Vou falar da rachadura que vi na parede do prédio. Vou falar da unha do pé que me incomoda. Vou falar de como é impossível desamassar papel. Vou virar as costas pra poesia. Vou desistir de perceber coisas que tocam o coração. Até que esqueçam de mim. A atenção é esse tipo de lenha que faz queimar uma chama narcisística dentro de cada um. Impossível ser diferente. Modéstia é um sobretudo que aquece o eu narcisístico e o esconde, não é o contrário. Esqueçam de mim e me deixem escrever em paz. Me deixem ser quem sou, nú de minhas censuras de mim. Despido de minha sede de olhares. Não quero escrever olhando para meu futuro de afetos. Não quero escrever por excesso de carência do mundo. Quero escrever para me livrar do mundo. Para tirá-lo de mim. Quero escrever pra olhar pra fora com a lanterna acesa. Não olhem pra mim, não quero cegá-los. Olhem pra fora, na direção que ilumino, e me deixem em paz. Vou falar da sujeira de pneu velho.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Corporativo

- Onde estão os relatórios? Eram pra ontem e ainda não estão prontos!

- Você pode terminar de formatar estas tabelas?

- Você não vai aparecer pra ajudar na construção? Estamos contando com você!

- Quem fizer parte da equipe mesmo, é bom se manifestar! Não vamos pegar ninguém pela mãozinha!

Ótimo, ótimo, ótimo! Deixem minha mãozinha em paz. Me deixem sumir. Não, não faço parte da equipe! Faço parte da minha equipe só. Só falta definir qual é o negócio dessa empresa de um. Quanto custa uma mochila? Quantos caminhoneiros por aí ainda dariam carona a um errante desencontrado de si? Vou conhecer o Brasil. A América do Sul. Do Norte. A Ásia. A Europa. A África. E se pá ainda arranjo uma carona de algum jeito pra Oceania. Austrália. Nova Zelância. Vou subir numa árvore alta em algum canto esquecido da Polinésia. Uma Palmeira, quem sabe. E lá em cima eu vou abrir uma bússola. Voltar-me em direção a São Paulo e gritar:

- Não tenho a menor idéia de onde estão os relatórios! E não estou neeeemmm aííííííí!

Creio que dará uma relaxada e tanto.

Alguém vai comigo? Com mais gente, poderíamos não só gritar, mas fazer um coral, quem sabe dividir a frase toda em várias vozes, alternar os timbres e fazer uma dança de acordes displicentes olhando pro leste. Mal posso esperar!

sábado, 6 de novembro de 2010

Brick

É que eu mergulho num imaginário
E sair é ver que as coisas só são
E eu gosto da agonia da falta de ar
Que dá essa urgência de um novo acontecer
Mas se algo acontece
Mas se a urgência é apaziguada
Pra onde vai minha agonia?
Quero afundar de novo
Não é melancolia
Não é tristeza
Ao contrário
É urgência de que a vida seja insolúvel
Pra que eu imagine não uma,
Mas duas mil soluções diferentes
A cada dia
E que nenhuma solução imaginada
Me prive do prazer de imaginar uma nova
Gosto da vida que é
E de inventar vidas que não são
E de esquecer irresponsavelmente
Se sou eu vivendo minha vida
Se sou eu vivendo minhas imaginações
Se sou eu imaginando minha vida
Se, quem sabe, não é tudo só
Um eu estranho imaginando que é só imaginação

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Mistérios

E para onde vai a poesia, depois que a gente sente?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Eterno retorno

Amor de verdade
Entalhei no granito
Virou lápide

sábado, 30 de outubro de 2010

Confissão

É que eu não me sei, entende? Você me olha, você me vê, me transpassa e ainda assim, também não me sabe. Você não me sabe e eu não me sei. Sou impulsos pra tantos os lados todos... A multiplicidade é cruel, sabia? A soma de todos os vetores que existem apontando em todas as direções é precisamente zero. A multiplicidade absoluta e infinita. E o completo nada. A mesma coisa. É que eu não me sei, precisamente por me saber demais, e ninguém é nessa extensão toda que finjo ser. É que ninguém é nessa lonjura toda que minto alcançar. Então não me perdoe, que é culpa minha. Foi culpa minha. Eu vim pra cá. Eu andei até sumir do seu horizonte. Do meu horizonte. Da linha do horizonte. E hoje é só um dia, sabia? E a gente sente o cheiro de toda a história. E a gente sabe de coisas de amanhã e de depois. O dia em que estamos é sempre o único dia que a gente não vive, mal experimenta até, gastando tempo pensando no resto deles. Vou terminar de construir o muro. Vou pintar a parede. Depois vou sair andando para outra cidade. E não vou levar nada. Não vou levar minhas roupas. Não vou levar meu dinheiro. Não vou levar meus documentos. Não vou levar meu rosto, minha saudade, meus amores, meus pensamentos. Vou ser outro. Vou a pé.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Moeda

Ele quer alguma moeda que o ajude a sobreviver mais um pouco à sua leucemia enquanto tenta de alguma maneira manter os filhos vivos e lutar contra as doenças deles. A pobreza deles. Deles todos.

Ele não vê a hora de chegar em casa, tomar um banho quente, ligar a TV e não assistir nada. Descançar os pés jogados em cima do sofá. Desligar a mente jogada num monte de nada.

Ela quer dar um destino melhor a cada um dos seus seis filhos. Quer que alguém compre seus chocolates e assim nunca mais precisará roubar. Roubar é repulsivo. Tira-se dos outros mas perde-se de si.

Ela só quer ver os e-mails quando chegar em casa. Saber do namorado. Saber da próxima balada de aniversário. Ler as notícias sobre o meio ambiente. Ler os textos cult sobre a miséria urbana.

Eles ocupam o mesmo vagão. Eles nunca fazem a mesma viagem.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Doente

Vou andando pela calçada e os passos pesam e ardem. Como se a cada passo um pedaço do meu pé fosse arrancado. Até minhas pernas começarem a tocar o chão desfeitas como dois tocos patéticos insistindo em ir onde não se deve. E vão também se corroendo pelo peso infinito do meu peito. E tudo vai se desmanchando. Como se eu rolasse por uma grande lixadeira de desfazer humanos. Até que sobra só minha cabeça, cambaleando entre os troncos de árvores e postes. Que finalmente rola para a rua e só persiste na existência por conta de freadas e buzinadas. Sempre na última hora. E vou ali, uma cabeça apenas, rodando, vendo o mundo girar. Vendo o fim chegar e desviar vezes sem conta, sem poder fazer nada. Sentindo que não há vontade que eu tenha que mude alguma coisa. É isso mais ou menos o que eu sinto toda a vez que a sei mais distante. Uma distância que não é segredo, que não é surpresa, que não é estranha nem incoerente. Mas que, toda vez que constatada, me invade intacta e explode lá dentro, estilhaços de granada. Não suporto. Não sei como suporto. Dói. Dói de fazer respirar menos. De por a mão no peito. De querer chorar e de sentir as lágrimas ao mesmo tempo patéticas e insuficientes demais. Machuca. Machuca pensar tanto e saber que vou dizer tão pouco. E não entendo como ainda assim não é suficiente para que eu tenha raiva. Para que eu tenha medo e fuja disso como quem tenta se livrar de uma posse demoníaca. Nunca fui tão pouco meu e ainda assim, a cada pouco que penso em você, não me importo. Se queria me livrar dessa dor toda era por uma só razão que não outra: poder ficar mais e mais perto de você sem maiores incômodos. Sem uma dor tão grande a esconder. Sem precisar fugir para poder existir sem te trazer uma culpa desmerecida; minha dor é minha, disso eu sei.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Serião

O Tiago acompanhou a secretária até o supermercado. Também, tadinha, tinha machucado o dedinho. Topada forte e bem dada no pé da tábua de passar roupa. Quebrou. Mas o Tiago aproveitou-se da situação: arranjou pra Ana um daqueles carrinhos elétricos, de deficiente, só pra vê-la andando com aquilo por entre as gôndolas e poder rir um pouco.

Lá pelas tantas, amaldiçoou o céu e a Terra por não ter um celular capaz de tirar foto. Imagina, o celular dele não tira foto! Qual é o celular, hoje em dia, que não tira foto? Absurdo, absurdo!

Isso não seria problema. Não pro Tiago, que é altivo, comunicativo e descarado. É só pedir pra alguém tirar a foto e mandar por e-mail, ele pensou.

Aquela senhora?

Aquele moleque?

Aquele rapaz?

Aquele... aquele ali! Jaqueta preta, aparentando uns dezoito, dezenove anos...

- Amigo!

- Hum?

- O seu celular tira foto?

Olhar mal-encarado. Um assassino, parecia um assassino com raiva por a vítima ainda estar respirando!

- Tira, por que?

- É que, é que...

Pobre Tiago. As palavras lhe falhavam. Nunca tinha visto tamanha repulsa da parte de ninguém.

- .. é que eu queria tirar uma foto ali, daí você me mandava por e-mail...

- Não tô a fim! Serião! Num dá.

E saiu andando.

E o Tiago, perplexo...

- Nem todo mundo é como eu, poxa!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Pró-Money

Dia desses o Lula andava por aí todo cheio de si, só falava do Biodiesel. Estava em cima do salto, dizendo que estávamos à frente de países de primeiro mundo... Estávamos avançados em matéria de combustível alternativo. País com o sucesso do pró-álcool, o Brasil caminhava a passos largos para uma nova era de energia renovável.

Mas aí...

Conseguiram achar o petróleo do pré-sal.

- Caramba, quanto petróleo no pré-sal!

- Que maravilha, maravilha!

- Calma, não podemos tirar esse petróleo de lá!

- E por que não?

- Porque petróleo é prejudicial ao meio ambiente. Precisamos explorar o biodiesel!

- Biodiesel é prejudicial ao meu bolso rapaz, dá licença que eu vou vender petróleo!

Acho que a lógica foi essa. Não escuto mais falar de biodiesel. Estamos orgulhosos de termos nos juntado aos países do primeiro mundo mais cedo do que pensávamos - optamos pelo caminho fácil, o de nos tornarmos, assim como eles, em poluidores cada vez mais poluidores.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Querida

Coitada da minha filha. Não está trabalhando com algo de que goste. Passa os dias lá, contabilizando aqueles números financeiros, montantes que nunca vai ver, que nunca vai tocar. Aí todo fim do mês pinga um dinheirinho na sua conta. Novecentos reais. Têm idéia da miséria que é isso? Se algum nativo do primeiro mundo estiver lendo isso, por favor, faça as devidas correções para o dólar ou o euro. Sim, vai ficar um número bem pequeno. E aí, todo fim do mês ela pega esse dinheirinho, ajuda na conta do telefone, paga ainda a internet sozinha, que é só ela quem usa, depois me deixa cinquenta, para o que eu precisar gastar. Aí o resto... O resto? Ela já recebe resto, mas enfim... O resto ela guarda um pouquinho na poupança para planos futuros. Pobrezinha. Trabalha por dinheiro, apenas. O que ela gostaria de fazer? Será que ela não tem vontade alguma? Será que ela está acomodada apenas? Por pior que seja o trabalho, é um lugar que a emprega e onde não há risco de ser mandada embora. Comodismo. E as coisas dela? O que ela realmente gostaria de estar fazendo? Eu gostaria tanto de saber. Tanto. Talvez ela devesse se jogar no mundo, viver misérias maiores porém mais cheia de emoção. Viver só esperando a vida passar não é lá dessas vidas mais magníficas, não é mesmo? Claro que não, todos sabem que não. Mas como eu a ajudo? Chego perto e ela se esconde. Passa o tempo todo no quarto. Vai ao trabalho, chega, vai pro quarto. Toma banho, quarto. Vai ao banheiro, quarto. Come qualquer tranqueira semi-biológica, quarto. Coitadinha dela.