terça-feira, 31 de março de 2015

Só hoje

Ele saiu de férias. Já tem vinte e tantos dias. Hoje, só hoje, a secretária percebeu que ele não está na sala. Quanto aos chefes, esses acho que ne vão se dar conta. Essa nossa existência está errada. Fundamentalmente errada.

Quinta

Já tem um ano e meio. E toda semana, no whatsapp, acontece algo com alguém. Era uma turma grande, quase cinquenta pessoas. Um conseguiu o certificado. Parabéns! Vamos pro bar? Vamos! E ninguém vai. Outro conseguiu mudar de emprego. Ae! Viva! Maravilha! Vamos marcar um bar? Vamos! Quinta! Quinta não vai dar, tenho um casamento. Meu filho nasceu. Minha vó morreu. Estou na Tailândia numa conferência. Quem sabe na outra quinta, né?

Foto #090


segunda-feira, 30 de março de 2015

Foto #089


Comigo sozinha

Sinto saudade
Saudade de mim
Vontade de ficar sozinha
Sem te deixar ir embora!
Fica sozinho comigo
Fica comigo sozinha
Fica sozinho comigo
Fica comigo sozinha
Gosto de companhia
Mas sinto falta de mim
Gosto de TV a dois
Mas livro é coisa de um só
Só eu e você
Fica sozinho comigo
Fica comigo sozinha
Fica sozinho comigo
Fica comigo sozinha
Gosto de falar bobagem
Mas absurdos sussurro
Pra ninguém ouvir
Chega mais!
Fica sozinho comigo
Fica comigo sozinha

A decisão é sua

-Imagine que você tem a certeza de que o mundo não suporta a humanidade, e que vai haver um colapso do ecossistema, do clima, de suprimentos, e a humanidade vai se dizimar em guerras-civis fazendo o pior do holocausto da segunda guerra parecer um desenho dos ursinhos carinhosos. Imagine que você sabe disso com cem por cento de certeza. E imagine também que você tem o poder de evitar isso, porém essa decisão vai acarretar na eliminação prévia de 75% da humanidade. Você sabe perfeitamente quais pessoas devem ser mortas e quais devem viver. Não importa como você sabe disso; é um pressuposto desse problema que essa certeza existe e não é isso que está em questão. E aí? O que você faz? Dizima bilhões de pessoas para salvar o mundo e tudo o mais, ou deixa a história seguir seu curso e o maior caos já visto no planeta se desenrolar?
-Nesse caso, eu jogaria uma moeda.
-Eu sabia! Deixou a decisão ir para o emocional em detrimento do racional.
-De modo algum!
-Claro que sim! Mesmo sabendo com uma certeza racional, que era hipótese do problema, qual era a escolha boa e a ruim, escolheu jogar uma moeda para não ficar com o ônus da culpa em nenhum dos casos.
-Não é isso! Quem disse que uma das decisões é boa e a outra é ruim? Por isso deixei ao acaso! Ainda que eu tenha, neste cenário, plena certeza quanto ao desenrolar dos dois cenários, não sei o que me garantiria que um dos quadros é bom e que o outro é ruim. Matar 75% da humanidade pode ser bom por salvar o ecossistema e a estrutura social e intelectual da nossa civilização atual. Mas pode ser ruim pelas mortes em si, ou mesmo pelas mesmas razões. Se foi nossa civilização e cultura e tecnologia que deixou tudo chegar ao estágio atual, matar 75% da população para salvar esta estrutura pode significar, apenas, perpetuar o problema. A população voltaria a crescer e os recursos naturais continuariam a ser consumidos e a biodiversidade continuaria sofrendo de nossa voracidade cruel. Já no cenário de deixar a história seguir seu curso e ver a civilização entrar em colapso, a humanidade iria se consumir a si própria em guerras e fome e tragédias. O que talvez arruine toda nossa cultura e possibilite o surgimento, dentre os sobreviventes, de uma cultura mais respeitosa com a escassez, com a natureza. Algo como o Japão, que vive passando por tragédias e tem uma relação mais humana de uns com os outros (ainda que não com os oceanos, porque isso eles sempre tiveram de sobra e então ainda hoje não ligam em matar baleias). Também pode ser algo horrível, bilhões de mortes trágicas e sofridas sem nenhum efeito colateral benéfico para o futuro. O ponto é que, mesmo com as certezas que você deu, essa distinção de valores entre uma escolha e outra não é óbvia e não tenho palpites quanto para um lado ou outro. E, por isso, jogaria a moeda.

domingo, 29 de março de 2015

Grilhões

Qual a fronteira entre responsabilidade e escravidão? Conheci a Cássia e tive o prazer de longas conversas com ela, ainda que poucas vezes. Uma pessoa que vive em um outro mundo. Completa em breve vinte e cinco anos. Já dirige uma das indústrias do pai. "Ele é assim. Joga as coisas na nossa mão e diz 'se vira!'. Fiz muita besteira no começo, mas aprendi muito também. Perdi algum dinheiro, mas rapidinho a gente aprende a se virar." Pergunto sobre férias. "Ah, agora isso não existe. Chego a fazer algumas viagens, mas não dá para ficar mais de quatro ou cinco dias longe. E já teve algumas vezes em que planejei viagens e de última hora tive que adiar. Perdi um bom dinheiro remarcando passagens e hotéis de última hora, mas fazer o que? Acontecem coisas. Problemas com um fornecedor. Um funcionário que se machuca. Uma máquina que dá um problema imprevisto." Escuto essas histórias com um maravilhamento ambíguo. Qual a fronteira entre responsabilidade e escravidão? Será que no futuro ela terá condições de delegar essa responsabilidade a outras pessoas e usufruir mais do pequeno império que possui?

Foto #088


Tramas

Teorias da conspiração. Cada vez gosto mais delas. São irresistíveis. Nos reduzem imediatamente ao papel de vítima. Deixamos de ser culpados também. Comemos alimentos adulterados. Somos vítimas de aviões que pulverizam o céu para alterar nossa biosfera. Os EUA derrubaram o WTC de propósito para dominar o país pelo terror e liberar orçamentos bilionários na máquina de guerra, que andava em crise num período de paz crescente. Estão sucateando o Brasil na verdade por conta de influências externas, com vistas a dominarem nossa reserva de petróleo no pré-sal. O plano, maquiavélico e macabro, tem seu cronograma devidamente planejado. Deixarão que a Petrobrás faça a parte difícil de desenvolver toda a infra-estrutura e depois darão um xeque-mate. O petróleo era nosso, mas isso na época em que não tínhamos tanto petróleo assim. E a água em São Paulo? É algum golpe também. Talvez para expulsarmos os pobres da cidade. Talvez um golpe imobiliário... Quando os preços despencarem no meio do êxodo urbano haverá uma grande troca de escrituras com pouca troca de dinheiro. E aí quando o nível dos reservatórios subir, o nível dos preços subirá mais ainda. Teorias da conspiração. O governo se reúne de tempos em tempos para discutir como manter a população ignorante. E, por trás disso tudo, maçons. Certeza que tem influência dos maçons. Sempre tem. E da Rosacruz, a Mão Negra, Sociedade Teosófica e, claro, os Illuminati. E eu aqui, que ainda não consigo levar adiante uma conspiraçãozinha no Banco Imobiliário.

sábado, 28 de março de 2015

The End

Estuprou uma mulher. Ela anotou a placa do carro. A polícia foi atrás do veículo reportado. Quando o encontrou, o criminoso fugiu e tomou a contra-mão em uma rodovia Castelo Branco. Quatro horas de estrada bloqueada. Estuprou uma à noite e fodeu com a vida de milhares pela manhã. Mas morreu. De frente com um caminhão. O caminhoneiro sobreviveu ao acidente. Antes fosse assim o final de todos os crimes desta cidade maluca.

Foto #087


Sonhos

As represas esvaziando. E aí quando cai uma chuva sobre a metrópole não sobra tempo para comemorações. Carros se amontoam entre postes, árvores e paredes, carregados pela correnteza súbita. Árvores despencam. Trens e metrôs param. Pessoas morrem afogadas. Fios elétricos despencam e salteiam ricocheteando no chão como serpentes ferozes em busca de vítimas. Um caos. Não sobra espaço para as devidas comemorações. A chuva é uma maravilha bem vinda. E a cidade ser assim tão passível de efeitos negativos por parte da água apenas demonstra nossa total indiferença à água. Vivemos, construímos nossas cidades, cuidamos de nossas ruas, efetivamente como se a chuva não fosse vir nunca. Nossa coletividade é profundamente irracional, por mais que gostemos de pensar o contrário.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Indiferença

Um administrador de empresas. Pacaembú, zona oeste de São Paulo. José Paulo Machado, quarenta e sete anos. Choveu na cidade de São Paulo no dia vinte e cinco de fevereiro de dois mil e quinze. Um fio elétrico caiu. O que poderia ser mais desprovido de significado, na vida de alguém? Mas o fio caiu sobre seu carro. Treze mil volts subitamente cruzando o corpo do homem. O noticiário diz apenas: "a chuva fez uma vítima ontem". Ele tinha família? E os amigos dele? Ele era uma boa pessoa? Tinha irmãos? Filhos? Seus pais são vivos ainda? Nada disso importa ao noticiário. Nada disso mudou a queda do fio. A morte, e custamos a admitir isso, não é apenas o fim da vida. É uma brutal constatação da indiferença à vida.

Foto #086


Até já

Quando eu publicar meu primeiro livro, e ele for um sucesso, vai começar o assédio. Vão querer fazer entrevistas. Eventualmente vou viajar para eventos. Dar palestras. E essas coisas todas vão me distrair do foco principal, que é escrever mais e mais. Daí que parece que o único jeito para eu me tornar um escritor bem sucedido, com muitas obras na biografia, é não ser assim um escritor tão bem sucedido. Fico brincando com esses pensamentos idiotas e penso que não são tão idiotas assim. Afinal, não é raro vermos que muitos dos grandes filósofos, pintores, cientistas e afins, ficam famosos apenas no final da vida ou postumamente. Normalmente pensamos que a humanidade é meio lerda. Demora a descobrir e reconhecer suas mentes mais brilhantes. Mas talvez haja um outro fenômeno aí. Gênios descobertos precocemente tendem a ter sua genialidade tolhida pelo excesso de exposição e expectativa. Acho que vou, deliberadamente, continuar à paisana, escondido aqui. Nos falamos daqui a uns sessenta anos.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Espaços

Quantos anos se passaram! A gente ficava junto no intervalo entre as aulas. Todos conversando, rindo. Todos ali eram alunos das mesmas matérias. Mais ou menos as mesmas idades. Estavam todos no mesmo barco. De repente a vida seguiu. Um agora tem um apartamento em Fortaleza. Uma outra foi morar em Londres. Trabalhou alguns anos em empresas por lá, casou com um inglês e hoje tem uma empresa por lá. E eu? O que eu fiz nesse tempo todo? Parece que todo mundo cresceu em duas áreas bem peculiares: família e dinheiro. Eu confesso que meio que ignorei essas coisas. Sei que coloquei outras coisas no lugar. Mas, intangíveis que foram, vez ou outras me flagro com essa pergunta: o que foi, exatamente?

Foto #085


Bola sete

Esse jogo, menino, esse jogo é prática. Mas tudo é prática, sabe? Andar de moto é prática. Baralho é prática. Namorar é prática, falar é prática também. Tem que dar uma tacada, ver que a bola foi no lugar errado. Tacar de novo. Ver quando ela perde a caçapa por todo. Tem que ir aprendendo. Mas a vida é assim também, né? Entrevista de emprego. Tem que praticar. Erra aqui, erra ali. Uma hora certa. Igual dar desculpa pra mulher. No começo, a gente fala e elas ficam puta da vida. Mas com o tempo a gente vai aprendendo a dar a desculpa certa. E é igual jogo também, tem horas que tem que saber perder, né?

quarta-feira, 25 de março de 2015

Pedaço de chão

Brigas de família. Uns brigam pelas ações da empresa que agora atua em todos os continentes. Outros brigam pelas terras, os milhares e milhares de hectares que vão ser divididos entre tantos. Outros brigam, como lá em casa, porque trouxeram menos esfihas de carne do que haviam pedido todos. Na próxima, cada um que faça seu pedido. Ou vou querer mais terras quando chegar o dia da partilha!

Foto #084


Nossa, olha só aquela nuvem!

Desconversar. Desconversar é uma arte. Te perguntam sobre um determinado assunto. Ou você menciona algo de passagem e percebe que a outra pessoa não faz a menor idéia do que você está falando. Será que você deveria mesmo estar falando aquilo? E então um silêncio desastrado. Deixa cair algo. Ou aponta para a janela e grita "ai minha nossa!", ou qualquer coisa assim. O importante é desconversar. Meu amigo está namorando, e fiz amizade com a namorada dele. Agora não sei mais do que ele sabe e do que ele não sabe. Ele sabe que ela já namorou alguém a distância? Ela se importaria se eu contasse? No trabalho, de repente, faço amizade com o pessoal do outro setor. Comento do projeto 312 que se refere a ampliação das vendas também para o Mato Grosso do Sul, estado ainda não atendido pela empresa. Mas percebo que ninguém ali sabe do que se trata. Hora de elogiar o café. Tropeçar no pé da cadeira. Dar um tapa na bunda de alguém e perguntar se andam malhando. Qualquer coisa. Qualquer coisa.

terça-feira, 24 de março de 2015

Depoimentos

Eu matei. Foi há muitos anos. Posso culpar as drogas. Eu era o mais velho ali. Posso culpar a idade também, eu era mais novo. Mas ainda assim, dentre os três, ali eu era o mais velho. Eu desferi pauladas na cabeça deles. O tempo passou. Minha vida continua. Preciso olhar pra frente. Mas esse passado vai me perseguir pra sempre. Eu não sei explicar. Não acho que alguém em sã consciência faria o que eu fiz. Mas eu fiz. Aconteceu. Foi a agitação daquela nossa relação. O plano surgiu, uma idéia, e ganhou vida própria. A gente falava nos detalhes, imaginava, e de repente lá estava a gente pondo tudo em prática. Como uma idéia idiota qualquer. Uns pensam em queimar uma lixeira. Outros aceitam um desafio de racha e de repente estão fazendo merda no trânsito. Ou alguém resolve dançar em cima da mesa numa festa e apronta a maior tragédia. Pode ser. No meu caso, essa vibe toda, essa idéia maluca, foi uma tragédia. Aconteceu assim com a gente. Vai me perseguir pra sempre.

Foto #083


Coisas melhores pra fazer

Coisas que gostamos de pensar como absolutos, absolutos etéreos mas com algo de material: nossa ética, nossos princípios, nossos valores. Essas coisas são dependentes de um excedente que, na verdade, não é garantido: segurança. Sei que esse discurso está algo "jogos mortais". Mas é por aí mesmo. Rousseau, vale ressaltar, não assistia esses filmes escatológicos. Mas bem poderia ter modificado alguns de seus textos. Hobbes não precisaria de tantas adaptações. Se bem que, não posso deixar de pensar, seus livros seriam mais curtos caso fossem escritos hoje. Entre filmes tão bizarros e seus textos longos, longos, longos... a que você acha que ele se dedicaria?

Distâncias

Ano passado foi tudo muito radical. Viajei para um local longe, mas tão longe, tão longe, tão isolado, que não tinha nem internet. Ultimamente prefiro ir, no máximo, até o Japão.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Eu pensaria num título melhor

Eu falaria mais com você. Eu passaria mais tempo com você.
Mas eu também passaria mais tempo viajando.
Também passaria mais tempo com minha mãe.
Também passaria mais tempo com minha filha.
Também passaria mais tempo estudando.
Também passaria mais tempo andando pela Paulista.
Também passaria mais tempo vendo filmes.
Também passaria mais tempo jogando.
Também passaria mais tempo com meus amigos.
Também passaria mais tempo trabalhando.
Também passaria mais tempo lendo livros.
Também passaria mais tempo sozinho, meditando.
Também passaria mais tempo explicando tudo isso.

Foto #082


Termodinâmica da iniciativa

Quando eu escrever um tratado filosófico desses alicerçados em grandes princípios, certamente vou discorrer sobre a grande assimetria entre força disponível e uso dela. Ainda não estou seguro quanto aos termos. Poder e ação. Capacidade e deliberação. Sejam os termos que forem: a ação tende a ser naturalmente menor que o potencial para a grande maioria dos seres. Para uns poucos deles, a ação é desproporcionalmente maior do que a força potencial. Penso aqui num vaqueiro tocando a boiada. Dois, três vaqueiros no máximo. E cento e cinquenta bois vão obedecendo, deixando seus caminhos serem ditados. Quem é mais forte? Um boi sozinho já é muito mais robusto do que o cavalo em que está o boiadeiro. O boiadeiro então, coitado, é o mais fraco de toda a história. Essa assimetria de poder e ação gera o que chamamos de submissão, muito embora o conceito de submissão deva de algum modo tratar também de vontades e desejos. E, que fique claro, não estou aqui preocupado apenas com boiadas e vaqueiros. Penso em última análise em nossa sociedade. Cheia de boiadas obedientes e de uns quatro ou cinco exibidos barulhando em seus berrantes.

domingo, 22 de março de 2015

Formigas

Temos algo em comum com as células. Com os formigueiros. Com as galáxias. Um empresário não está preocupado com os rumos do capitalismo. Com a hegemonia do ocidente. Com a balança comercial. Mas são essas as coisas que ele está afetando. São esses os corpos dos quais ele é parte integrante e fundamental. Não nos percebemos assim. Não temos essa consciência. Será que as formigas sabem, afinal, que constroem um grande formigueiro? Ou elas apenas têm esse repentino impulso de colocar esse grão de terra ali em cima, junto com aquele outro, e ficam contente quando conseguem? Será que um planeta sabe que constitui um sistema solar? Será que o sistema solar sabe que é parte da galáxia? É muito louco isso tudo. Meus pensamentos... fundamentalmente, neorônios trocando impulsos elétricos. Porque é isso que eles fazem. É isso que eles gostam de fazer. Meus pensamentos, meus amores, meus sonhos e minhas memórias: trilhões de impulsos trocados entre neurônios. Mas nenhum deles sabe no que diabos está pensando.

Foto #081