Deveríamos aprender com os chineses a superar nossa ansiedade. Eles, que conhecem a marcha inexorável dos milênios, não se afligem com um atraso de dez ou vinte anos. Assim, quando se dispuseram a copiar quinquilharias das indústrias ocidentais não se desesperaram falando "a caneta dos EUA é melhor... esse radinho está uma porcaria... que lanterna tosca!". Seguiram em frente.
Nós não. Nós não sabemos copiar. Temos essa ansiedade de quem, desconhecendo história, acha que a existência se decidirá na próxima semana.
"Essas ciclovias são um absurdo! Boas mesmo são as da Holanda!"
Mas estamos de volta aos trilhos. Superamos nossas crises pela via fácil: de volta à zona de conforto.
Finalmente voltamos a cuidar das aparências dos ricos enquanto podemos, em silêncio, voltar a pisar e a ignorar pobres e famintos. É o Brasil com que estamos acostumados.
sábado, 30 de setembro de 2017
Psicologia urbana
Cruzando o Atlântico
Assisti ontem a peça "Cruzando o Atlântico", com texto de Carolina Arksanan. O cartaz mostrava uma senhora ao lado de uma moça e de um rapaz jovens. Com este título pensamos em viagens, na época das navegações ou algo assim. De início é o que a história faz parecer.
Bete é uma senhora de cinquenta e quatro anos e cria sozinha seus dois filhos, Alessandra e Rodrigo. Rodrigo, mais velho, repetiu alguns anos na escola. Mas finalmente tomou jeito. Quanto à irmã, a única coisa que fazia repetir na escola eram os elogios dos professores. Ao entrarem na faculdade, ela estudando egenharia civil e ele estudando jornalismo, conseguem ambos bolsas de estudo para faculdades na Europa. Deixam o Brasil no mesmo voo. E então a mãe se despede e fica aqui, sozinha.
Claro que há o Skype para um oi, mas com todas as novidades da Europa quando é que os filhos tem tempo de estar online? E depois tem o fuso horário, tudo é difícil. Mais e mais Bete se vê em companhia de si mesma. Descobre a vida sem os filhos. E é este novo mundo de solidão, de vazio existencial infinito ao seu redor, recém descoberto, que ela terá que cruzar. É este seu Atlântico.
É uma peça, em resumo, sobre os desafios de redirecionar o ponto focal da vida, e de redirecioná-lo para si mesmo. Passeios, amigas, livros e filmes, diversas coisas às quais ela não tinha tempo e agora tem tempo de sobra mas, nas primeiras vezes em que retoma estas experiências, não sente o prazer que esperava. Onde estão os filhos? Pouco a pouco vai redescobrindo o direito de se sentir feliz por si só e, no processo, abre-se a descobrir pessoas interessantes novamente. Vale a pena assistir.
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Os esforçados
Eu o ouvi falar por meia hora contra essa horda de vagabundos que estão mamando nas tetas do governo. Essa gente que se vende a votos, curral eleitoreiro de petista... Bolsa família, bolsa isso, bolsa aquilo! Bolsa engenheiro não tem, né? Bolsa piloto, pra pagar o curso do filho, não tem, né? O negócio é ajudar pobre. Acabar com o dinheiro da nação comprando votos de miseráveis.
A outra meia hora foi gasta em elogios à filha. Que está estudando no Canadá. Muito esforçada a menina. Conseguiu tudo com méritos próprios. Inclusive a bolsa de estudos. Do governo.
Eu a criei
O Giba, ou Senhor Gilberto, para quem ainda não foi apresentado ao seu jeito amigável e informal, é um italiano lá da escola. Sempre que está em sala de aula sua voz ecoa pelos corredores em um discurso firme, pontuado por risadas leves e contagiantes. Pouco tempo depois que fui trabalhar lá já estávamos amigos. Almoçávamos juntos e, nessas ocasiões, ele me contava de sua vinda ao Brasil, da criação de sua família, de seu primeiro divórcio e outras coisas assim. Ele tinha, sob meu ponto de vista, um grande defeito: era extremamente conservador e havia, portanto, entrado nessa onda recente de falar mal de absolutamente tudo ligado ao governo atual. Mas eu não sou do tipo que faz ou desfaz uma amizade com base em diferenças no discurso político.
Aí ele começou a me contar da filha. Não sua filha, mas a filha de sua mulher.
-Sabe, quando comecei a sair com a Elisângela a menina ainda era pequena. Eu queria que o pai fosse vê-la. Mas sempre tinha alguma coisa. Estava viajando a trabalho. Estava fora com os amigos. Estava cuidando de algum projeto, em alguma reunião. A Elisângela jurava que era tudo desculpa e aí ficava aquela situação né, aquele clima de conversa engasgada. Eu comecei a levá-la para vê-lo mas ela não queria, no fundo ela não queria. E ele também não. Quer dizer, eu acho que ele queria ser um bom pai. Mas não conseguia, não sei porque mas não conseguia. E então eu a criei. Ela me chama de pai. Eu virei o pai dela.
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Sempre vou escrever
Sei que essa é minha terapia, minha reza, minha paz. Não sei se algum dia, contudo, serei um escritor. Desses que lapidam as frases. Desses que alimentam imaginações alheias. Eu escrevo meu espírito e depois já é um texto morto. Talvez porque a escrita tenha a ver com a existência de cada um. De que vale meus instantes depois de terem sido vividos? As planilhas preenchidas. Os abraços às visitas. As risadas com os estranhos. Aconteceu e já foi. Não há porque se repetir. Como este texto cuja vida dura o tempo de digitar cada tecla. E o resto é um fóssil morto. Coisa para arqueólogos de interesses estranhos.
Fui despedido
Tenho algum dinheiro no banco. Vou pedir seguro desemprego. Tem uns bicos que andei fazendo por aí e, portanto, algum dinheiro ainda por receber.
Mas estou sem emprego. O que vai ser daqui para a frente? Vou trocar de carreira e realizar meus sonhos?
Vou tomar vergonha na cara e concentrar minhas energias em inúmeros projetos, projetos cuja estagnação eu sempre atribuí ao tempo que meu antigo emprego consumia de mim? Não sei o que vai ser.
O que eu vou fazer amanhã? O que eu vou fazer hoje, no fim do dia?
Espero por mudanças. Mas essa frase é, em si, um erro. Mudanças não devem ser esperadas. Mudanças devem ser criadas.
Que eu crie mudanças. Que eu crie os espaços novos em que pretendo viver. Sei que uma das amarras, ao menos uma grande delas, se foi.
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
A crise
A crise está chegando. Os jornais anunciam. A bolsa oscila. Ricos, desesperados em cortar gastos para se proteger, demitem seus funcionários. Faxineiras ou recepcionistas. Gente que estava ali "a mais". E para estes, finalmente, a crise chega.
A casa
Era uma casa muito engraçada
Não tinha afeto, não tinha nada
Ninguém podia cantar nela não
Porque na casa não havia paixão
Ninguém podia
Rir de repente
Pois nessa casa
Não se é contente
Mas era feita com muito esmero
Bonita aos olhos
Essência zero
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Versões
"Acho que às vezes precisamos aceitar que já somos ótimas versões de nós mesmos."
Obrigado.
Mudou meu dia.
Mudou meus dias.
Presentes que fazem sentido anos depois
Obrigado caro amigo. Na época eu era uma criança e aquele presente era uma mera curiosidade. Algo que eu não era capaz de entender por completo. Um livro sobre um assunto assim tão complicado, quem presenteia uma criança com uma coisa dessas?
Hoje, quase vinte anos depois, aqui em minha escrivaninha, estou com o livro aberto para auxiliar meus estudos. Hoje é minha carreira, é com isso que trabalho. Obrigado.
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Enquanto…
Enquanto acharmos que a beleza das roupas vale mais que a pureza das almas,
Enquanto valorizarmos mais a limpeza dos muros que a harmonia entre as pessoas
Enquanto confiarmos mais no chumbo que no amor
Enquanto nossos silêncios forem mais polidos do que nossos sorrisos
Enquanto aparência for mais aplaudida do que conteúdo
As almas seguirão invisíveis
Isoladas
Maltratadas por si próprias,
Abandonadas ao abandono que às outras condenam
A humanidade em sua pior versão,
Mas engomadinha e bem apresentável.
Dois empregos
Fui fazer exame de sangue outro dia. Exigência da empresa. Depois de furarem meu braço para encher dois tubinhos ganhei uma fichinha que dava direito ao "café da manhã". Devido ao jejum eu estava faminto. Fui ansioso e, para minha surpresa, a crise financeira chegara à lanchonete da clínica. No ano passado haviam sanduíches, pães de queijo e café com leite. Uma atendente recebia minha ficha e perguntava qual das opções eu queria para comer e beber. Dessa vez não havia nem sequer uma atendente. Eu apenas depositava a ficha em uma caixinha e me servia de um café um tanto quanto mal feito e de bolachinhas secas, disponíveis nessas micro embalagens contendo apenas três bolachas cada.
Uma senhora veio se servir também e comentou em voz alta o que eu estava pensando.
-Piorou muito aqui hein!
Concordei com ela. Começamos a conversar. Ela era evangélica. Comecei a falar da crise. Realmente, a coisa estava complicada. Ela era diarista e algumas amigas haviam perdido o emprego.
-Por isso mantenho dois empregos e não largo de jeito nenhum.
Perguntei o que mais ela fazia.
-Também sou camareira em um motel.
Personagens reais são, com frequência, muito mais interessantes que os da ficção.
domingo, 24 de setembro de 2017
Bendito seja
Uma das minhas maiores dificuldades, enquanto ateu, é a de conviver com a profunda falta de coração, de empatia e de amor daqueles que se dizem crentes. Aquele famoso sábio deveria ter previsto o vasto alcance de nossa voluntária ignorância e ter dito mais claramente: "Amai ao próximo E AO DISTANTE como a si mesmo.". Somos muito rápidos em inventar distâncias onde não deveriam existir.
Perdões
Eu já havia me acostumado a vê-la careca. Mas ali, no leito do hospital, sua imagem havia deteriorado ainda muito mais. Estava magra como não parecia ser possível. E a cor da sua pele havia mudado também. Não sei se é algo da minha cabeça, ou algo devido a alguma outra coisa ali do hospital, mas eu posso jurar que seu cheiro mudou também. Ela iria morrer logo mais. Sabíamos, desde que o câncer havia sido diagnosticado, que esse dia chegaria. Mas é diferente imaginar meses ou mesmo anos pela frente e, como agora acontecia, saber que este momento estava a poucas horas de distância, no máximo.
Lembrei de todas as vezes que a fiz sofrer. Minha tia havia me criado, a mim e aos meus irmãos. Cuidou da gente enquanto minha mãe ia trabalhar. E era necessário que ela trabalhasse primeiro porque a renda do meu pai não era grande o suficiente para manter toda a família com qualidade e depois porque os meus pais se divorciaram.
A visão da morte iminente apagou de minha mente um pensamento que causou revolta por anos e anos: para mim, em uma análise lógica mais fria, foi ela própria, minha tia ali a algumas horas de morrer, que havia sido uma peça chave no divórcio dos meus pais. Primeiro porque sempre fez minha mãe mudar de opinião quanto a planos que havia feito com o meu pai. Meus pais combinavam de fazer uma viagem, depois minha mãe conversava com minha tia e mudava de ideia. Em segundo lugar, e essa é a parte mais grave, enquanto meu pai fazia horas-extras em seu trabalho na empresa automobilística minha tia incutia na mente de minha mãe uma única explicação: ele não estaria fazendo horas-extras coisas nenhuma, estaria é tendo um caso extra-conjugal com alguma vagabunda. Minha mãe não suportou a pressão, entrou em diversas discussões com o meu pai e o divórcio finalmente veio.
Depois, com essa mesma mentalidade super conservadora, minha tia tentou atrapalhar meus namoros, os namoros do meu irmão e da minha irmã também. Em um dado momento eu briguei tanto com ela que disse que ela não precisava mais ir lá em casa cuidar da gente como sempre fazia. E ela nunca mais foi.
Hoje acredito que essa ruptura foi parte do processo de adoecimento dela. De modo que eu me sinto, sim, culpado. Mas não sei se chego a sentir um remorso por isso. Por que haveria eu de absorver todos os males de suportar suas interferências em nossas vidas? Eu queria ser grato a ela, grato por tudo o que ela fez de bom por nós. Costurava roupas, preparava comida em casa. Permitiu que minha mãe trabalhasse fora. Mas ela já havia provado não ter limites para o quanto poderia interferir em nossas vidas. Eu deveria dar-lhe direito ilimitado de interferência como prova inequívoca de minha gratidão? Não me parece uma opção aceitável, até hoje.
E foi nesse contexto em que fiquei ali parado, ao lado do leito, vendo os tubos que entravam e saiam de sua boca, nariz. Repousei minha mão sobre ela. Pensei em todas essas histórias. Senti-me culpado por fazê-la se afastar do lar que ajudou a criar. Aproxime-me do seu ouvido e sussurrei desculpas pela tristeza que causei. Olhei novamente para ela, que me olhou serenamente enquanto balbuciava qualquer coisa como "tudo bem". Senti-me, confesso, um perfeito idiota.
sábado, 23 de setembro de 2017
O riso
Ela faz o sinal da cruz toda vez que passa em frente a uma igreja. Tem dessas proximidades gestuais com o divino.
E ontem conversávamos nós três. Eu, ela e um amigo carioca. O amigo havia sido roubado. Aqui em São Paulo mesmo. Furtaram o celular dele em algum momento de distração.
- Ah rapá, mas se fosse lá no Rio... Lá não ficava assim não. Tenho um amigo que é do BOPE... era ir atrás do moleque, colocar as mãos na calçada e enfiar um chumbo em cada uma! Queria ver ele roubar de novo.
E ela riu, sonhando com um mundo em que as balas fizessem a devida justiça.
O que Deus responderia para ela após cada sinal da cruz, se existisse?
Egocêntrico tímido
Eu declaro explicitamente mas ninguém acredita em mim. Sou tímido. Sou egocêntrico. Sou um egocêntrico tímido.
É fácil e bom ter a atenção para mim. Atenção com alguma admiração talvez. Ou com risadas. Risadas são positivas e passam como tal mesmo em contextos não necessariamente positivos. Podem estar rindo de mim com um certo desprezo mas eu posso ter feito uma idiotice proposital para divertir. Palhaço? Não vou teorizar sobre palhaços, não é foco aqui.
A questão é que há uma fronteira. É fácil eu colocar uma fantasia e fazer algo ridículo para despertar o riso dos outros. Mas ler um poema que escrevi em meu diário ontem ou há dez anos, isso me faz suar frio. Prefiro desistir. É por isso que meus diários estão todos guardados. É por isso que uso pseudônimos, heterônimos e outros covardenômios.
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Não deixe a segunda em segundo plano
É o primeiro dia da semana. E todo mundo diz que odeia segunda-feira. Trata-se, vou revelar aqui, de um grande complô. Quem começou a amaldiçoar a segunda-feira tramava um cruel plano para destruir a auto-estima da humanidade. Devemos amar nossas atividades, nosso tempo, nossa rotina. Eu não digo que deve-se amar um trabalho horrível mas o ódio corriqueiro à segunda-feira acaba servindo para esconder uma verdade muito óbvia: quando seu trabalho só lhe traz desânimo está na hora de trocar de trabalho! O problema, neste caso, não é com a segunda-feira, mas com você. Ache logo alguma atividade que lhe faça amar a segunda-feira.
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Notas de um explorador em campo
Fui para a África desbravar desconhecimentos e surpreendices. Descobri que sob miragens das mais belas se escondia um grande e árido deserto.
E, continuando a onda de revoluções científicas, descobri que os ventos cruzam o Atlântico não só de leste para oeste mas também na direção oposta, distribuindo chuvas ao longo dessa que se chama, nome apropriado, Zona de Convergência Inter Tropical (ou ITCZ, em inglês).
A melhor parte é quando esses bons ventos se condensam e a aridez dá lugar a esse doce cheiro de chuva, que nos enchem de sorrisos. Como se a natureza abraçasse a gente tão apertado, tão de perto, que é difícil acreditar que tudo partiu de tão longe.
Quero
Quero ver uma foto sua
Mas quero mais
Quero flagrar seu doce caminhar
Mas quero mais
Quero receber do vento teu cheiro
Mas quero mais
Quero teu olhar fundo no meu
Mas quero mais
Quero proteger sua mão nas minhas
Mas quero mais
Quero embrulhar seu abraço no meu
Mas quero mais
Quero incendiar seu beijo
Mas quero mais
Quero rasgar suas roupas, seus pudores
Mas quero mais
Quero deslizar nos seus suores
Mas quero mais
Quero embaralhar nossos corpos
Mas quero mais
Quero nossas palavras misturadas em uníssonos sentimentos
Dona Yolanda
Meus avós moravam em São Paulo mas meu vô havia comprado um terreno no litoral para realizar o sonho de aposentadoria de viver à beira do mar. Quando eu era um bebê a casa estava sendo construída e lá onde minhas primeiras lembranças alcançam a casa já existia. A rua, hoje asfaltada, ainda era de terra. E a casa da memória não quase nenhuma semelhança com a de hoje. Uma coisa, contudo, permanece: o sofrimento da vizinha Yolanda, que só se acentuou com o tempo.
Eu não entendia a dimensão do drama quando ainda era uma criança, mas lembro claramente de ver a Yolanda com sua filha deficiente. Hoje sei da história. Quando os filhos cresceram e foram morar em outras cidades, Dona Yolanda resolveu adotar uma criança. O pequeno bebê tinha uma deficiência de nascença porém essa informação não foi passada para ela. Quando se deu conta, tempos depois, não aceitariam a criança de volta no orfanato. Mas Yolanda estava decidida: era sua filha.
A menina cresceu. Nunca aprendeu a falar além dos balbucios de algumas palavras. Sua locomoção era precária: não dominava o próprio corpo.
À medida a menina crescia, Yolanda envelhecia. Os filhos raramente vinham visita-la. Tinham um misto estranho de ciúme e raiva, ou talvez desprezo, por essa irmã defeituosa.
Certa vez, quando não era época de férias e portanto o bairro estava praticamente deserto, um lunático invadiu a casa, trancou a Dona Yolanda no banheiro, estuprou a menina, roubou coisas da casa e fugiu. Nunca foi pego. Eu só soube disso tempos depois porque ainda era novo para minha família dividir histórias assim comigo.
A história ainda não chegou ao fim e está, enquanto escrevo, passando por mais um momento dramático. Meus avós não são mais vivos. Agora são meus tios que cuidam da nossa casa. Foram para lá passar um final de semana e foram abordados por um outro senhor do bairro. Ele comentou que há dois dias a Dona Yolanda não aparecia varrendo seu quintal. Chamavam e ninguém atendia. Ligaram para a polícia para perguntar sobre arrombar a casa e, sob recomendação da delegacia, chamaram os bombeiros. Eles logo vieram e arrombaram a casa. Dona Yolanda estava no chão. Teve algum ataque. Estava lá não se sabe há quanto tempo. Talvez dois dias inteiros já. Suja, havia urinado e defecado sem sair do lugar. Balbuciava coisas. A menina, agora uma adulta, estava ali como que compartilhando do ataque. Faminta. Assustada. Entendendo muito menos do que o pouco que havia entendido da vida até ali.
É algo criminoso. Sua família a abandonou ali. São responsáveis por elas mas, nesse momento, devem estar preocupados apenas com a escritura da casa e torcendo para que essas duas, grandes estorvo, morram logo. Nem só de histórias de verão é feito o litoral...
Fé em perspectiva
Um pedaço de rocha redondo, molhado, flutuando no vazio, banhado pela estrela vizinha. Pequenos bichinhos reunidos em suas tocas sobre esse grão de poeira dedicando pensamentos a personagens imaginários.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Vamos por partes
Uma parte de mim
Lê Ferreira Gullar
A outra lê qualquer merda
Uma parte de mim
Só quer olhar
A outra
Só quer foder
Uma parte de mim
É caprichosa
Outra
Faz de qualquer jeito
Uma parte de mim
É literatura
Outra
Só palavrão e cuspe
Uma parte de mim
Tem paciência
A outra
Nem interessa
Uma parte de mim
Escreve a caneta
A outra parte
Faz vídeos
Uma parte de mim
Sente saudades
A outra
Manda à merda
Uma parte de mim
Olha pra fora
Outra parte
É só mistério
Uma parte de mim
Tem medo
A outra
Se joga
Uma parte de mim
Te espera
A outra
Já foi.
Notícias ruins
Não quero ser a pessoa a dar as notícias ruins. Avisar que o trabalho não ficou bom. Contar que fulano não resistiu à cirurgia. Dizer que a roupa escolhida está horrível. Comentar que o tempero definitivamente não deu certo. Mas notícias ruins precisam ser dadas. Quem é que vai me avisar que esse texto não tem razão de ser? Quem é que vai dizer à humanidade que estamos fazendo tudo errado?
terça-feira, 19 de setembro de 2017
Ignorar tudo o mais
Essa é minha dificuldade espiritual.
E daí que faz tempo que não falo com meus amigos?
E daí que a política está degringolando a galopadas?
E daí que existe trabalho escravo?
E daí que milhões de espécies estão sendo extintas?
E daí que há tanta gente interessante por conhecer?
E daí que há tanta coisa bonita por fotografar?
E daí que há tanta música bonita por ouvir?
E daí que há tanta coisa incrível na matemática?
E daí que há tantos e tantos belos romances por serem lidos?
Tenho que aprender a ignorar
Tenho que aprender a prestar atenção no corredor que estou varrendo
Tenho que aprender a prestar atenção na próxima frase a ser escrita
E nada mais
Tenho que aprender a admirar meu quarto
Que também pertence ao mundo, embora soem coisas mutuamente excludentes
Tenho que aprender a desfrutar de um olhar por vez
E daí que tive essa visão do tamanho do mundo?
Se meu mundo se desenrola um pedaço por vez
Que eu aprenda, no fundo do meu íntimo, a ignorar tudo o mais
Sugerindo livros
Já lhe pediram a sugestão de um livro? É uma tarefa dificílima. Existem tantos milhares de livros. Qual será o gosto da pessoa, realmente? Ainda mais para mim. Eu sei que meu gosto é peculiar. Por vezes posso preferir ler um livro com uma análise histórica de uma região remota do Acre a um romance distrativo. Em outros momentos posso ler de cabo a rabo um "romance de supermercado" de trama previsível e personagens planos ao invés de mergulhar nas profundezas reveladoras da literatura. É uma coisa de momento. Isso! Momento! Por isso é tão difícil. Porque a gente pode até conhecer a personalidade de alguém. Mas como saber em que momento a pessoa está?
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
Skinner
Quando pequena fazia desenhos e levava para a vó ver.
- Mas que porcaria é essa? Eu não sou feia assim não!
E, com os anos, aprendeu que só o ódio e o desprezo são aceitos em rascunhos. Deixou de expressar amor.
Falta de solidão
Estou sozinho. Fisicamente. Uma casa praticamente vazia que aluguei há pouco tempo. Uma mesinha na sala. Cadeiras de plástico que comprei pelo menor preço. E não muito mais que isso. Mas ao mesmo tempo não estou sozinho. Celular. Internet. Pessoas chamando. Whatsapp. Facebook. Emails (ainda usam emails, uma das tecnologias mais duradouras dessa era informática, veja só). Assim, estou vivendo essa estranha situação de sentir falta de solidão. Estou sozinho mas não consigo ficar sozinho.
NOTA: escrevi isso há sei lá quantos meses. Agora estou em uma viagem no meio do nada e é a internet que está me salvando. O mundo de certa forma é o mesmo, mas na medida em que mudo, muda também a função das coisas ao redor. Infernos se convertem em paraísos, remédios em venenos. Ainda que seja o mesmo mundo. Sou eu mudando.
domingo, 17 de setembro de 2017
Dos critérios
Fazer o que os outros fazem, como os outros fazem, não é se expressar. Fazer o que os outros fazem é, tão somente, imitar. Vale para fazer muros. Vale para as palavras. Vale para a música. Vale para a existência.
Cézar
Cézar é um amigo desses com um bom emprego e com um bom salário. Tudo isso devido ao fato de ser um bom profissional e saber gerenciar sua carreira aproveitando oportunidades. Mesmo quando, a princípio, não está interessado. Lembro quando o chamaram para uma entrevista na empresa da qual ele mesmo havia se demitido alguns anos atrás. E ele não queria voltar lá de jeito nenhum.
-E aí Cézar, como foi?
-Olha, lembra que eu não queria voltar lá né?
-Pois é, mas mesmo assim foi fazer a entrevista...
-Fui, mas continuava não querendo, e a vaga era bem parecida com o que eu fazia antes, então tentei dar um jeito de não aceitar.
-Como assim?
-Ah, pedi mais que o dobro do que eu ganhava antes!
-Afe! E aí?
-E aí... que toparam! Agora vou ter que aceitar, não tem jeito!
Mas ele é uma pessoa humilde. Usa seu dinheiro principalmente para viagens com os amigos e seus interesses esportivos. Seu apartamento serve apenas de dormitório para ficar próximo ao trabalho. Tanto é que outro dia ele veio com essa declaração:
-Cara, eu não gasto com nada! Só compro o que eu preciso. Tanto é que eu não tinha móveis na sala do apartamento, porque eu não uso.
-Mas da última vez que eu fui lá tinham móveis sim! Sofá e mesinha.
-Pois é, mas foi minha empregada quem me deu, de dó.
sábado, 16 de setembro de 2017
Imploro
Abra seu coração. Não guarde bons sentimentos dentro de você. Fale. Escreva. Comunique-se. Tome a iniciativa de dizer "estou com saudades". "Gosto de você". "Ontem foi um dia muito bom." Não seja o bloco de gelo a esfriar a humanidade que nasce entre vocês.