quinta-feira, 29 de março de 2018

Diagnóstico

Você está sendo narcisista. Quer atenção para você. Mas que atenção tem para os outros? O equilíbrio fica quebrado. A gente quer atenção, mas precisa doar também. Você diz que está solitária. E como eu me sinto pensando em todas as vezes que quis sua companhia e não tive? Pensando em como todas minhas ambições maiores foram deixadas de lado como se fossem gracejos casuais e em como todas as minhas demonstrações de afeto, preocupação e interesse nunca produziram um eco equiparável? Estou cuidando da minha vida. E você está pedindo mais ao mundo do que está disposta a dar. Ou, então, está vivendo a mesma coisa que todo mundo. Esse vazio carente de um maior contato quando ninguém sabe como romper essa barreira. E quando não conseguimos enxergar aquela pessoa que está realmente disposta a bisbilhotar nos nossos recantos escondidos.

terça-feira, 27 de março de 2018

Machismo não existe

- E o que é que as mulheres conseguiram neste ano, as feministas?
- Conseguiram que o prêmio de melhor cantora fosse para um homem. Conseguiram tomar uma surra de um homem no vôlei. Conseguiram deixar desempregadas as modelos da fórmula um. E também levaram uma surra de um homem na luta de MMA.
- Caralho, né velho?
- São umas arrombadas, chupadoras do cacete. Burras cara, muito burras.

Essa é a conversa que ouvi hoje dentre a minha equipe de trabalho. Sim, hoje, precisamente hoje, dia internacional da mulher.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Ensinei uma puta a falar inglês

Dia desses, colhi em meus ouvidos este depoimento:
-Cara, eu acho que essas pessoas que escondem as coisas das mulheres, das namoradas ou esposas, acho que isso aí não tá com nada. Sabe, quando eu fui na despedida de solteiro do Marcão, a gente estava no carro e meu celular tocou. Minha namorada. Todo mundo no carro ficou quieto. Mas depois ficaram boquiabertos quando me ouviram falar 'não mô, tô indo no puteiro com o pessoal, é despedida de solteiro do Marcão'. Ficaram até bravos comigo. Como assim falar uma coisa dessas? Mas acho que a gente não precisa viver mentindo. A única coisa que eu aprontei no puteiro foi... conseguir uma aluna nova. Fiz amizade com uma puta com quem fiquei conversando e ela me disse que sonhava em passar no vestibular mas não tinha condições. Caíam coisas muito difíceis, como inglês, por exemplo. E eu sou professor de inglês. Falei para ela. Combinamos uma primeira aula e ela virou minha aluna. Não sei se chegou a prestar vestibular, mas pelo menos no inglês ela avançou.

domingo, 25 de março de 2018

Gigantes

Li uma entrevista recente do Chomsky, agora que ele está com noventa anos. Como pode? Como pode essa percepção tão profunda sobre o mundo? Esse olhar sobre o tempo, sobre a civilização. Essa compreensão de diferentes atores da sociedade. Há pessoas que enxergam as coisas mais do alto. Não sei como elas fazem, mas fico admirado. O segredo está no tempo? Nas leituras? Nas viagens? Nas pessoas com quem ele interagiu ao longo da vida? De onde vem tudo isso? Fico admirado. Positivamente admirado. É uma esperança saber que é possível que pessoas cheguem a tanto. Talvez nós, meros mortais, possamos progredir ainda um pouquinho mais.

sábado, 24 de março de 2018

:)

A internet evoluiu... E-mails, HTTPs, mIRC, ICQ, MSN, Orkut, Chat do UOL... Facebook, e então a era dos aplicativos nos celulares. Mas nós, criaturas exóticas que somos, temos sempre um jeito especial de usar a modernidade. Eu, por exemplo, tenho essa coisa com algumas pessoas próximas: podemos não trocar longas mensagens, mas pelo menos uma carinha, feliz ou triste, curiosa ou espantada, enviamos via WhatsApp. É um "ping", um sinal de "estou aqui... está aí?". Só isso. E já é tanto.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Cegueiras

Há vários níveis de cegueira. O mais óbvio é a dos olhos. A que turva a percepção da luz que chega até o olho.
Há aí um paralelo direto com a leitura, com a discussão sobre analfabetismo. O nível mais básico de analfabetismo é aquele em que a pessoa não consegue sequer ler palavras individuais.
No caso da discussão sobre analfabetismo fica óbvio o que queremos dizer com "analfabetismo funcional". Ler as palavras não basta. É preciso compreender a frase. Compreender uma frase não basta. É preciso acompanhar a lógica argumentativa do parágrafo, do capítulo, do livro. É preciso conectar o que foi lido com um conhecimento de mundo mais amplo, exterior ao texto, de modo crítico e ponderado. E isso é raro.
Acontece que o mesmo se dá com a visão pura e simples. Há pessoas que enxergam apenas o que lhes chega aos olhos. E nada mais. Estão presas no tempo presente e na ilusão do momento. Não são capazes de compreender os relativismos do mundo ou enxergar os fluxos da história. Falo aqui de um número enorme de pessoas. Mas não se engane... Não estou me referindo apenas a acadêmicos contra não acadêmicos. Nem mesmo fazendo uma distinção entre místicos e não místicos. Ainda que você seja um cético com uma visão mecanicista do mundo, perceba que muitos místicos têm sim uma visão para além de suas cercanias imediatas. Se essa visão é uma descrição correta do mundo e da vida aí já são outros quinhentos. O importante, aqui, é a diferenciação entre quem coloca a percepção de seu momento em um contexto maior e quem não o faz.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Argumentos

Falei com o fazendeiro, que já estava se tornando meu amigo, e ele me explicou que era comum a prática de exterminar invasores. Quando se escolhia esse caminho a única ressalva é que ninguém poderia sobreviver. Nem uma velhinha. Nem um bebê. Claro que era uma bagunça. Aquele monte de corpo amontoado. Mas as fazendas tem esses fornos de secagem. Chegam a novecentos graus. Serviam para sumir com os corpos. Depois mudou o governo e com mudanças na fiscalização e na polícia ficou mais difícil adotar esse tipo de prática definitiva. E foi com essa história que ele tentou me convencer que o novo governo é ruim...

quarta-feira, 21 de março de 2018

Porto seguro

A vida havia seguido outros caminhos. Para longe, distante. Outra cidade, outras pessoas, outro trabalho, outras perspectivas, outro dinheiro, outros cheiros, outros programas na TV, outras reuniões aos domingos. Mas, tempos depois, desamparada pelos desequilíbrios da vida, dos hormônios, da bolsa, ela ligou pra ele. Ele, do passado. Ele, daquela história estranha. Ela precisava falar com ele. O tempo havia enterrado rancores, raivas, mágoas e incompreensões. E novamente ela encontrou, naquela conversa, as risadas e distrações. O breve "oi" se desenrolou em uma conversa de duas horas e meia. Assuntos aleatórios, pequenos fatos do dia a dia, comentários engraçados e espirituosos. Depois, ambos desligaram e seguiram suas vidas separadas por milhares de quilômetros. Mas haviam se redescobertos como pessoas fundamentais um para o outro.

terça-feira, 20 de março de 2018

Latência

Os sonhos muitas vezes acontecem rapidamente. Uma semana de férias. Um dia de casamento. O dia da formatura. Mas apoiam-se sobre um profundo alicerce. Esse período em que nossos objetivos existem apenas em sonho são de profunda importância. Toda gestação tem um período em que a nova cria é ainda frágil demais para vir ao mundo. E dessas verdades conclui-se uma outra: quando um sonho está demorando demais, isso não significa que ele é impossível... significa, isso sim, que seu alicerce é profundo e forte e que seu nascimento será vigoroso. Por isso, diga não ao aborto de sonhos!

Ecos

"Eu preciso de qualquer manifestação de saudade, de qualquer manifestação de afeto..."
"Eu não estou disposta a mudar, nem por você e nem por ninguém no mundo..."
Eu não sei, até agora, se o que machuca mais foi o derradeiro fim, ou a descoberta dessa dureza glacial que preferia terminar uma história de amor a dizer "estou com saudades".
Dói. Não tenho outra coisa a dizer. Dói. Todo o resto é explicar a dor.
Todo dia desde então, em algum momento traiçoeiro, o peito aperta pesado. Escuto de novo sua voz como se uma loucura estivesse se instalando em mim. Sólida, presente, real: "Eu não estou disposta a mudar, nem por você e nem por ninguém no mundo..."
Todos os dias machuca de novo.
E foi ontem, só ontem, já meses depois, que me ocorreu a curiosidade: por que é que é justamente essa sua frase, sobre essa sua relutância em mudar, que ecoa todos os dias em minha mente? Deveria ser quando você disse "é melhor a gente parar por aqui então". Afinal foi ali que tudo se cortou, não foi? Ali é que a minha sentença foi dada. Mas esse momento não retorna a mim se não como uma lembrança buscada. Nunca me persegue. Estou em paz com essa lembrança.
Percebi que minha dor não é pelo fim. Não é pela nossa história. É pela sua desistência em amar. É pela sua escolha, deliberada, consciente e ativa, por dizer não ao amor. E, num sentido mais amplo, a mudanças em geral.
Quero crer, no fundo do meu coração, que foi um equívoco. Que foi uma agressão deliberada mais do que uma declaração consciente de si. Quero crer que, na hora certa, você irá mudar. Quero crer que ainda que eu não tenha sido a pessoa capaz de lhe inspirar as mudanças adequadas, alguém um dia irá, ou então você concluirá por si mesma pelos caminhos a seguir. E seguirá, dará seus passos.
Porque todos nós mudamos. Todos nós precisamos mudar. A declaração pela vontade de não mudar foi uma das coisas mais dolorosas que já presenciei na vida. E foi aí que compreendi que a dor que sinto não é uma dor por mim. Pela perda do nosso namoro, da parte que me cabia. É uma tristeza por você. Como se eu houvesse sido derrotado em minhas vontades de lhe inspirar um sentimento maior.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Guitar Hero


Elas foram o símbolo de uma geração. E será que foram exatamente isso e mais nada? Refiro-me às guitarras. Li que suas vendas estão em declínio acentuado e que não apenas lojas mas as maiores fabricantes mundiais estão em dificuldades. Inclua aí a famosa Fender.

Talvez a maior ironia dessa transição seja que um dos emblemas da geração que está matando as guitarras seja um jogo chamado justamente “Guitar Hero”. Ao menos em minha família cometi tanto bullying com meu priminho quando ele se viciava no jogo que ele acabou indo atrás de um violão de verdade e de uma guitarra. Mas não pode ser apenas influência minha. Ele é mesmo mão na massa, um tipo cada vez mais raro na humanidade. Recentemen ele construiu um amplificador ele mesmo para usar com suas guitarras. Sim, comprou os componentes eletrônico, válvulas, placas, soldou tudo como se esperaria ver em uma garagem dos anos setenta ou ointenta.

Tenho a impressão de que as pessoas estão cada vez mais mergulhadas em virtualidades e desconectadas da profundidade do mundo. Os relacionamentos via Tinder e afins não permitem enxergar profundamente a outra pessoa.Combina-se um encontro em busca de alguns beijos ou sexo e ao primeiro sinal de prolema bloqueia-se a pessoa. Nada de entender os sentimentos do outro, anseios, cultivar a empatia. Volta-se à estant para procurar a próxima oferta. Nos discursos políticos temos uma avalanche de mentiras superficiais para corroborar nossas próprias visões, então por que perder tempo tentando raciocinar sobre os argumentos dos opositores? Toma aqui esse link e esse meme que dizem que estou certo, e pronto

Assim também, acredito, morreu o esforço de aprender a tocar um instrumento. Guitar hero já é distração suficiente para quem quer sentir-se um grande astro. E pode-se, já no primeiro dia, encarnar grandes hits. É a urgência dessa nova geração. Não há tempo para o passo a passo inicial. Acordes, posições. Não. Quer-se já o produto acabado. A música na ponta dos dedos. A opinião pronta em um link. O raciocínio terceirizado em um app.

A humanidade está desistindo de se relacionar como mundo real, por pura preguiça, e sem entender nem mesmo que, no processo, deixará de se relacionar consigo mesma.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Desarmados para o debate


Discussões sobre temas importantes como a política armamentista de um país deveriam ter duas dimensões: uma primeira dimensão, objetiva e uma segunda constituída de opiniões, preferências e valores pessoais. Na dimensão objetiva teríamos os fatos. Números, estatísticas para além de qualquer discussão e mesmo algumas implicações que vão além de qualquer disputa. E só então entraríamos em uma esfera de valores e preferências. Infelizmente não é assim que o debate se processa. Quando a discussão está em marcha, o que vejo é que efetivamente cada lado do debate está enxergando um mundo completamente diferente do outro. Diferente inclusive quanto aos dados objetivos. Um lado da discussão acha que nos Estados Unidos as armas resolvem o problema da segurança. E temos, claro, pessoas que acham que os EUA erram ao possuírem tantas armas quanto possuem. Mas existem dados para isso. É possível olhar as estatísticas de cada Estado. É possível conhecer o número de mortes associadas a armas de fogo. É possível fazer comparações entre países. É possível produzir um debate realmente rico olhando o mundo como ele realmente é. E, infelizmente, parece que as pessoas estão cegas aos dados.

Essa cegueira, por si só, tem dois aspectos. O aspecto da ignorância/arrogância e o aspecto da inaptidão técnica. A ignorância/arrogância está em não conhecer a informação, e acrescento a barra-arrogância porque muitas vezes as pessoas assumem que uma determinada informação é falsa quando esta lhes é apresentada simplesmente porque vai contra o que “já sabem” que é verdade. Para o bem ou para o mal, esta é uma característica humana e é muito difícil ir contra este instinto. Requer treino. E o segundo aspecto, o da inaptidão técnica, refere-se ao treinamento formal que é necessário para poder discutir números referentes a dados sociais. Compreender a diferença entre números absolutos e números per capita. Compreender o que são ajustes de algumas estatísticas com base na distribuição estária de diferentes populações. Compreender a diferença entre uma correlação estatística e uma comprovação de causalidade. A sociedade como um todo é absolutamente despreparada para uma ampla discussão nesse nível.

Minha própria opinião? Todo esforço é válido para promover um maior esclarecimento ao debate. Mas tenho, pessoalmente, me tornado mais e mais cético quanto à possibilidade de a geração atual aprender a compreender o mundo como precisa para chegar a boas decisões. Se há alguma esperança para a humanidade encontrar seus bons caminhos, acredito, essa esperança está nas próximas gerações. É nos jovens e crianças que devemos nos concentrar se quisermos ensinar todas as complicadas ferramentas de pensamento necessárias a compreender o mundo de modo a promover boas decisões. Os adultos atuais não tem mais tempo para ler, refletir e aprender tudo o que é necessário e, além disso, neles o aspecto de preconceito quanto às opiniões adquiridas já está solidificado demais. Os adultos não são apenas despreparados para um debate de qualidade; são, em geral, refratários a este.

sábado, 25 de novembro de 2017

Minha primeira demissão

No fundo no fundo, ainda que com aspirações exóticas e revolucionárias, sou um careta bem estático. Aqui estamos no terceiro milênio de um mundo fervendo a internet e à liquefação baumanniana da existência e eu consigo a proeza olímpica de me formar em uma boa universidade e permanecer cinco anos em uma mesma empresa cheia de velhos e que paga pouco. Sou uma espécie exótica em extinção. Mas minha proeza olímpica não alcançou proporções guinnescas porque recebi cartão vermelho: fui demitido. Em tempos de crise isso deveria me levar ao desespero total. Talvez até leve, já que do futuro ninguém sabe direito, mas confesso que até aqui a experiência está sendo bem interessante. Ser demitido, pra mim, foi assim:
Voltei a falar com outras pessoas da empresa. O pessoal do RH, do setor de benefícios. Gente simpática. No dia de fazer a tal da homologação, preenchimento chato de papéis na presença do pessoal do sindicato, pude conhecer muita gente interessante, velhos e jovens, dos mais diversos setores da empresa, que também estavam tomando um burocrático pé na bunda. Histórias das mais diversas. As realizações de uns, os sonhos de outros. Só gente dessas com quem dá prazer conversar por horas. Será que não demitem ninguém chato? Será por isso que tem tanta gente chata ainda empregada por aí? Fiquei, confesso, aliviado por ter sido demitido. Algo de legal deve existir em mim.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Sem volta

Chegou a hora de voltar para casa. E eu sabia que a casa não estaria mais lá.
As paredes, eu encontraria.
O telhado, eu encontraria.
A calçada com seus conhecidos desníveis, eu encontraria.
A padaria estaria no mesmo lugar.
Mas não era mais minha casa.
Não era mais o lugar em que eu contaria os minutos para te ver.
Não era mais o lugar em que eu escreveria poemas para você.
Não era mais o lugar em que eu sonharia passeios com teus sorrisos.
Não era mais o lugar em que eu aprenderia músicas para seus ouvidos.
E pensei: por que voltar?
Por que voltar se a volta, por fim, é impossível?
Aprendo assim, a tropeços, que a vida não tem volta.
Hora de olhar para frente. Descobrir o que nasce dessa penumbra estranha.
Dessa espeça dor em que você me mergulhou.
Hora de aprender novos sonhos.
Hora de plantar novas dores.
Mais um passo. E outro. E outro.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

As últimas horas

Mais duas horas e já poderei acordar. Mas nem durmo direito, fico acordando o tempo todo. Escuto as pessoas no corredor. Às vezes conversam animadas. Às vezes empurram carrinhos barulhentos. Macas. Escuto pela janela o barulho de compressores de ar automaticamente ligando e desligando. Ligando e desligando. Numa metáfora mecânica horrível para as outras "máquinas" que estão no prédio. Humanos ligando e desligando. Ligando e desligando. Até não ligar mais. Não há cortina na janela. O vento às vezes entra e às vezes desiste. Uso como travesseiro minha jaqueta de andar na moto, toda contorcida sobre si mesma. Não tenho direito a uma cama. Só a este sofá reto e desconfortável. Meu tio acorda. A comadre já está cheia de urina. Ele mal consegue se mover. Olha para mim com vergonha de dizer que mal consegue se mover. Levo a comadre ao banheiro, jogo todo aquele xixi na privada, a limpo com um pouco de água corrente para evitar a formação de odor mais forte e levo de volta para ele. Volto a me deitar. Mais esta noite. Logo amanhece. Mais algumas horas. As últimas horas.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Oceanos

”Não entendo as pessoas que vão todas como gado ver esses filmes da moda. Ou as músicas da moda. E nem sabem o que estão ouvindo. Escutam a ZAZ cantando a música que fala do SOS, a garrafa jogada ao mar, e pensam que é coisa dela. Não é. Os artistas dizem que é uma "homenagem". Só se for uma homenagem à incapacidade deles de criar coisas novas. Não sei o que acontece na nossa época. Temos recursos infinitos para a criatividade e uma criatividade infinitamente morta. Eu gosto dos cinemas pequenos. Dos filmes e músicas antigos. Aqui está, tome. Uma lista de cantores que gosto. Não conte a mais ninguém que eu te dei essa lista. Vão me matar. São, para os outros, um monte de coisas velhas e ultrapassadas. Para mim é o que ainda presta. Porque foi feito com coração livre em uma época em que a criatividade existia. De atual gosto só das músicas idiotas. As paródias, sátiras, bem estúpidas. São felizes e são livres também. Não acho que precisamos ser eruditos o tempo todo. Essa arrogância é estupidez. A vida precisa de alegria e a alegria, quando é um valor em si, não se importa de ser erudita ou boba. Que seja boba, então. Acordo cantando essas paródias imbecis. E sigo feliz olhando um mundo que se pretende sério e culto mas que não é mais livre. Não que todos devam pensar como eu. Mas seguem todos uma mesma maré. Somos correntezas diferentes. Mares diferentes.”

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Fisiologia política

Vendo o que acontece em São Paulo só posso concluir uma coisa: empatia e ética são funções orgânicas que, nos políticos, dependem de água para funcionar direito.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

De saída

Olho o criado mudo ao lado da cama. Olho pela janela as árvores, a disposição das folhas. Sinto o cheiro que vem da cozinha. Último dia aqui. Me despeço da poeira do chão. Da torneira do banheiro. Me despeço da fechadura dos fundos. Mala nas mãos. Olho os céus. Olho o horizonte. Estou de partida. Sigo viagem. Olho as pessoas nas ruas. As crianças brincando ao redor das casas. Os cachorros tão mergulhados no presente quanto sou alheio a ele. Permaneço alheio. Estou em outro lugar. Estou em um futuro que nunca alcanço. E, não obstante, sigo viagem. Adeus.

domingo, 19 de novembro de 2017

Certeza inabalável

Jeferson é meu melhor amigo. E ele tem uma grande consideração por mim. Quando ele dizia aos amigos que sabia o endereço do bar e as pessoas duvidaram, inseguras, ele foi enfático:
-Aposto os rins do Adoniran que é lá mesmo, podem ir!

sábado, 18 de novembro de 2017

Notas de trabalho

Escrever sobre política, sobre experiências de vida, sobre o destino, sobre o tempo, sobre romances, sobre o amor, sobre ciência... Escrever e escrever mais. Escrever até acumular os textos, os conhecimentos, a minha experiência de vida. Escrever e escrever. E de nada valerão as letras ali jogadas, sem ninguém ler. E eis que alguém lê: obrigado.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Moto e medo

As palavras são até parecidas. A primeira e a última letra. Realidades próximas. Eu amaria andar de moto. Mas os motoristas não amam a vida: pouco amam a própria e nada amam a dos outros. Imagina que delícia, andar de moto à noite, na chuva. Tem tudo para ser uma experiência quase mística não fosse a enorme possibilidade de se tornar uma passagem só de ida ao misticismo definitivo. O mundo é cheio dessas coisas. Paixões encantadoras e perigosas. Acordos de paz impossíveis.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Óbito

De que importa se te presenteei meu tempo
Quem quer saber para onde foram minhas atenções
Se nem teus braços a querem
Vazio
Folha em branco
Recolho-me aos rascunhos errados que fiz de você
Abraço-os saudoso de quem sonhei
A dor do fim é a dor de uma morte
Morte de uma imaginação que se descobre falsa

domingo, 22 de outubro de 2017

Extravios

Dói mais fundo,
Por fim,
Dar a outras pessoas
As risadas
Que queria dar
A você

A humanidade é inajudável

A citação não é minha. Li em algum lugar mas sou desorganizado demais para lembrar onde foi. Tristemente, quase deprimido mas me recusando a cortar os pulsos, reconheço que concordo. Aquecimento global, concentração de riqueza, intolerância, extinção de espécies, morte dos oceanos, consumismo desenfreado, desvalorização da cultura e industrialização da existência exterior e esquecimento da interior. Quem quer ser ajudado? Quem quer ajudar? E que merda estou fazendo escrevendo essas palavras imbecis ao invés de sair e fazer algo de verdade?

sábado, 21 de outubro de 2017

Vida off-line

Tenho um projeto para um livro revolucionário. Não sei direito ainda a que categoria vai pertencer. Talvez a "contos fantásticos". Talvez simplesmente a "ficção". Vou falar de uma pessoa que decide viver off-line para se reencontrar. Desliga-se da internet, celular, telefone... Passa a encontrar com as pessoas pessoalmente para tratar de seus assuntos, caminhar prestando atenção ao caminho. Tem seus dias ignorando em boa medida as grandes manchetes mundiais. Dedica-se a ler textos até o final e a folhear o jornal do dia por quase uma hora, prestando atenção aos assuntos.
Já sei... o livro vai ocupar o lugar das "Utopias".

Volta aqui

Eu iria te escrever hoje! Onde você foi?

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Blindados

Quem não é capaz de entender um argumento, quem não consegue se expor à uma ideia diferente de suas próprias, apressa-se logo em tapar a conversa toda com um rótulo, um estereótipo, uma acusação genérica mergulhada em generalizações. Coxinhas, mortadelas, gays, brancos, pretos, pobre, rico, bandido, mulher, capitalistas, proletariado... Seres humanos se dividindo em times, em panelinhas, tudo vale para fugir do diálogo.

O escritor que eu fui está morto

Li um texto que escrevi há alguns anos. Confesso, sem modéstia, que gostei do que li. Gostei do humor sutil, da escolha de palavras, do tratamento do tema. Havia um nível suficiente de criatividade e de articulação ali. E quis escrever mais coisas daquele jeito. E não consegui. Descobri que a pessoa que escreveu aquele texto, quem quer que seja, está morta. Soterrado pelo tempo. Não vai escrever nunca mais. Outros escritores vão nascer em mim. O de hoje faz isso aqui: escreve sobre outras épocas e é o que tem para hoje, goste você ou não. Descobri que nossa existência interior é assim, essa onda: uma crista em movimento, com uma inércia própria, indiferente aos nossos desejos. Não vai parar onde desejamos. Vai continuar mudando. O contínuo movimento do nosso espírito. Nossa existência, diante dessa onda, resume-se a escolher, dia após dia, surfar tudo o que ela tem a oferecer ou deixar-se afogar em suas turbulências.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Amigos próximos terminam noivado

Meus grandes amigos, que vou chamar aqui de Carlos e Joana, terminaram o noivado. Estão pagando um apartamento e tudo o mais. Mas o Carlos não estava feliz. Joana, ao longo dos últimos anos, foi se revelando uma pessoa que não o fazia muito feliz e, além disso, não vinha pagando as prestações do apartamento. Eu sou amigo dos dois. O que me deixa numa posição difícil. Porque a Joana quer conversar comigo agora todos os dias. Ela tem esperanças de voltar. De recuperar o amor do Carlos. O que ela está fazendo? Ela está emagrecendo, correndo. Está fazendo brigadeiros para vender. Está buscando trabalhar seu humor com a vida tendo contato com coisas mais animadas. Teatro e filmes felizes. E as prestações do apartamento? Continua não pagando. O que o Carlos pensa disso? Pensa o que eu esperava que ele pensasse: por melhor que seja a Joana, não dá para confiar em passar a vida com ela. E quando os pais dela não puderem mais ajuda-la com suas dívidas? Ela tem emprego fixo, um salário aceitável e mora com os pais. E ainda assim torra sua grana com distrações corriqueiras. Eu já tentei dizer à Joana exatamente o que penso mas, quando começo a ser mais direto em meu discurso, as mensagens dela desaparecem. Joana... pare de querer voltar. Uma ótima coisa que você poderia fazer agora seria ter raiva do Carlos e não esse desespero de querer voltar. Valorize-se. Não importa aqui quem tem razão ou não. Importa você se valorizar. Ignore tudo o que você acha que ele espera de você. Cuide da sua própria felicidade independentemente dele. Não acho que você saiba o que é isso na verdade mas é uma boa hora para descobrir. Honre seus compromissos com o pagamento do apartamento mas sem vistas a retomar a relação. Faça isso pela sua dignidade. Nem pense em insistir para voltar com ele. Te juro, como amigo, que nada lhe faria mais bem.

Te reencontro mil vezes

Finalmente olho nos seus olhos. Escuto suas histórias. Faz-me amar, faz-me amor. E então se dilui em uma vida distante, te vejo turvada por detrás do seu trabalho, de suas viagens, de suas ambições. Vai-se embora nesse turbilhão de acontecimentos responsáveis. Novamente te encontro. Nos livros. Nas caminhadas. Somos soldados em um mesmo devaneio, soldados de uma mesma causa. Viajamos juntos nas mesmas imaginações. E novamente você desaparece. Levada pela certeza de uma vida estável. Levada pelas escolhas certas. Levada pela casa nova. Levada pelo novo emprego. E eu aqui amarrado aos meus sonhos. Espero. Espero. Procuro. Procuro. E te reencontro. Te redescubro. Te desenterro das músicas diferentes, dos sorrisos escondidos, da timidez dos primeiros carinhos. E novamente, ciclo infinito, a perco para a casa nova com cachorros. Com empregada às segundas. Para a vida com previdência privada. Enquanto eu me recusar a pertencer a este mundo você se recusa a ficar. Vem, aparece e novamente se vai. Já a encontrei nos passeios pelas pinacotecas e nas viagens de moto. Já a encontrei na música sob o luar e nos churrascos entre amigos. Já a encontrei nos bilhetes escondidos e nos alucinados pulos sem fim dos shows de rock. Já a encontrei no chão da sala e na mão dada do cinema. E, sorrateira, escondida por trás de mil rostos e mil vidas, novamente você, meu grande amor, sei vai. Mas eu sei que, logo mais, te encontro. Te reencontro. Te redescubro. Te reinvento. Te renasço. A esculpirei onde você me descobrir. A escreverei onde você me ler. A mergulharei onde você me afogar. A abraçarei onde você me amar. A encontrarei onde você me procurar. A protestarei onde você me manifestar. A dançarei onde você me musicar. A respirarei onde você me oxigenar. Te reencontro mil vezes.