Dia desses o Lula andava por aí todo cheio de si, só falava do Biodiesel. Estava em cima do salto, dizendo que estávamos à frente de países de primeiro mundo... Estávamos avançados em matéria de combustível alternativo. País com o sucesso do pró-álcool, o Brasil caminhava a passos largos para uma nova era de energia renovável.
Mas aí...
Conseguiram achar o petróleo do pré-sal.
- Caramba, quanto petróleo no pré-sal!
- Que maravilha, maravilha!
- Calma, não podemos tirar esse petróleo de lá!
- E por que não?
- Porque petróleo é prejudicial ao meio ambiente. Precisamos explorar o biodiesel!
- Biodiesel é prejudicial ao meu bolso rapaz, dá licença que eu vou vender petróleo!
Acho que a lógica foi essa. Não escuto mais falar de biodiesel. Estamos orgulhosos de termos nos juntado aos países do primeiro mundo mais cedo do que pensávamos - optamos pelo caminho fácil, o de nos tornarmos, assim como eles, em poluidores cada vez mais poluidores.
terça-feira, 6 de abril de 2010
quinta-feira, 25 de março de 2010
Querida
Coitada da minha filha. Não está trabalhando com algo de que goste. Passa os dias lá, contabilizando aqueles números financeiros, montantes que nunca vai ver, que nunca vai tocar. Aí todo fim do mês pinga um dinheirinho na sua conta. Novecentos reais. Têm idéia da miséria que é isso? Se algum nativo do primeiro mundo estiver lendo isso, por favor, faça as devidas correções para o dólar ou o euro. Sim, vai ficar um número bem pequeno. E aí, todo fim do mês ela pega esse dinheirinho, ajuda na conta do telefone, paga ainda a internet sozinha, que é só ela quem usa, depois me deixa cinquenta, para o que eu precisar gastar. Aí o resto... O resto? Ela já recebe resto, mas enfim... O resto ela guarda um pouquinho na poupança para planos futuros. Pobrezinha. Trabalha por dinheiro, apenas. O que ela gostaria de fazer? Será que ela não tem vontade alguma? Será que ela está acomodada apenas? Por pior que seja o trabalho, é um lugar que a emprega e onde não há risco de ser mandada embora. Comodismo. E as coisas dela? O que ela realmente gostaria de estar fazendo? Eu gostaria tanto de saber. Tanto. Talvez ela devesse se jogar no mundo, viver misérias maiores porém mais cheia de emoção. Viver só esperando a vida passar não é lá dessas vidas mais magníficas, não é mesmo? Claro que não, todos sabem que não. Mas como eu a ajudo? Chego perto e ela se esconde. Passa o tempo todo no quarto. Vai ao trabalho, chega, vai pro quarto. Toma banho, quarto. Vai ao banheiro, quarto. Come qualquer tranqueira semi-biológica, quarto. Coitadinha dela.
terça-feira, 23 de março de 2010
Flagrante
Eu me faço mal. Estou com a boca seca, cabeça doendo. Eu não sou um super-homem. Quem disse que eu aguentaria isso? é que eu achei que não passaria por isso. Nunca decidi mentir pra mim: decidi, lembro bem, mudar o que sou. Deixar de amar, afinal, é isso, é mudar o que se é. Mas não consegui, e arco com as conseqüências. Amo, amo escodido. Amar escondido é amar? E minto pra ela todos os dias. Afinal, omitir é uma espécie de mentira menor, mas ainda assim uma mentira, não é? Ela se sentiria traída se soubesse? Não foi a intenção. É covardia se esconder assim e amar escondido? Ela deveria poder decidir se me autoriza ou não a amá-la? Ela deveria poder decidir se me submete ou não a tanto sofrimento por me contar tanto de sua vida? Eu não deveria perder tempo com essas questões. Essas questões, aliás, não deveriam existir, porque deveria ser tão fácil deixar de amar. O maior problema do mundo hoje não é justamente o oposto? As pessoas não conseguem evitar deixar de amar, não é isso? Namoros acabam, casamentos acabam, até a cumplicidade na traição, mais hora menos hora, acaba também. Ou será que acaba justamente porque desgasta, de modo que meu amor será eterno, eterno precisamente porque nunca começou?
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segunda-feira, 22 de março de 2010
Eu líquido
Ler Bauman é perturbador, profundamente perturbador, porque eu me descubro mais filho desta época do que gostaria de ser. Sou mais filho deste mundo do que imaginava ser, e bem lá onde a gente se acredita mais escondido, mais individual: meu íntimo é um produto desta época. Lendo Bauman entendo tanta coisa sobre mim. Mas essa existência interior é tão concreta que permanece a questão: entendê-la é algo capaz de alterá-la?
quinta-feira, 18 de março de 2010
Pós leitura
Tive uma luz ao ler o último livrinho que eu li. Era de uma autora boa, dessas que futucam lugares escondidos, sabe? Já leu algo assim?
Descobri, correndo as páginas, que ando longe de mim. É esse o resumo de todos os problemas. Tenho me escondido, fugido, ficado ausente. Mas não dos outros. De mim mesmo. Minhas sinceridades não me contam nada há um tempão. Só ouço minhas mentiras, minhas coisas escondidas se escondem e se sufocam debaixo de escombros de mentiras. Mentiras pequenas, talvez. Mentiras inocentes até. Mentiras sem importância, considerando-se a história do mundo, o mercado do petróleo ou o risco de destruição por asteróides. Mas, ainda assim, minhas mentiras, minhas, e isso cria perspectivas tão aterradoras de importância pra mim.
Olha só onde estou agora. No trabalho. Estou trabalhando? Não. Estou escrevendo de mim para mim mesmo, uma carta que talvez eu não precisasse escrever pois, autor e destinatário em um só, eu poderia só pensá-la. Mas preciso disso. Nesse momento é necessário. O que é necessário? Estar um pouquinho próximo de mim, e isso envolve confessar abertamente, ainda que só no silêncio das minhas introspecções, a catástrofe que é eu estar preso a um trabalho que não é a coisa mais sensacional do mundo, enquanto todas minhas vidas, todas as coisas que me empolgam, que me movem, que têm um poder de me desabar em lágrimas de desespero, todas essas coisas estão lá fora. Essas coisas, essas pessoas. E aí, o que fazer? Preciso escrever porque, vendo as palavras aí fora, sei com um pouquinho menos de dúvida que meus pensamentos são reais. Pensar apenas pensando é algo muito fácil de apagar.
Quando terei forças de ser sincero? Já conheço o caminho, falta andar nele. Confessar minhas coisas aqui, que coisa mais estranha. Não sei se consigo.
Lembro anos atrás, a empolgação com que eu me atirava às minhas coisas. Meus trabalhos, minhas curiosidades. É aterrador constatar o quão frágil era isso tudo. Frágil sim, porque foi por pouco, tão miseravelmente pouco que tudo se diluiu. Ou isso não é pouco? Um pequeno segredo fica gigante com o tempo? A História se importa?
Descobri, correndo as páginas, que ando longe de mim. É esse o resumo de todos os problemas. Tenho me escondido, fugido, ficado ausente. Mas não dos outros. De mim mesmo. Minhas sinceridades não me contam nada há um tempão. Só ouço minhas mentiras, minhas coisas escondidas se escondem e se sufocam debaixo de escombros de mentiras. Mentiras pequenas, talvez. Mentiras inocentes até. Mentiras sem importância, considerando-se a história do mundo, o mercado do petróleo ou o risco de destruição por asteróides. Mas, ainda assim, minhas mentiras, minhas, e isso cria perspectivas tão aterradoras de importância pra mim.
Olha só onde estou agora. No trabalho. Estou trabalhando? Não. Estou escrevendo de mim para mim mesmo, uma carta que talvez eu não precisasse escrever pois, autor e destinatário em um só, eu poderia só pensá-la. Mas preciso disso. Nesse momento é necessário. O que é necessário? Estar um pouquinho próximo de mim, e isso envolve confessar abertamente, ainda que só no silêncio das minhas introspecções, a catástrofe que é eu estar preso a um trabalho que não é a coisa mais sensacional do mundo, enquanto todas minhas vidas, todas as coisas que me empolgam, que me movem, que têm um poder de me desabar em lágrimas de desespero, todas essas coisas estão lá fora. Essas coisas, essas pessoas. E aí, o que fazer? Preciso escrever porque, vendo as palavras aí fora, sei com um pouquinho menos de dúvida que meus pensamentos são reais. Pensar apenas pensando é algo muito fácil de apagar.
Quando terei forças de ser sincero? Já conheço o caminho, falta andar nele. Confessar minhas coisas aqui, que coisa mais estranha. Não sei se consigo.
Lembro anos atrás, a empolgação com que eu me atirava às minhas coisas. Meus trabalhos, minhas curiosidades. É aterrador constatar o quão frágil era isso tudo. Frágil sim, porque foi por pouco, tão miseravelmente pouco que tudo se diluiu. Ou isso não é pouco? Um pequeno segredo fica gigante com o tempo? A História se importa?
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O imbecil
Qual a receita para ser um completo imbecil? Ele sabe, é claro que ele sabe. Ele chega aqui todo dia e repete a receita. Eu, que não sou imbecil, confesso uma certa dificuldade para entender todos os meandros desse mecanismo de imbecilidade. Não é que apesar de não ser imbecil eu seja burro. Não é isso. É que a imbecilidade é intrinsecamente aleatória e toda aleatoriedade desafia com garras duras as delicadezas da razão. Então eu não cheguei ainda a uma fórmula geral, tenho apenas os eventos isolados. Os comentários jogados, os sorrisos conclusivos que declaram não reconhecer a completa impertinência do que se disse. Isso é importante, ora como é. Um sorriso, qual belo é um sorriso, não é mesmo? Mas ele não é algo de valor absoluto, de forma alguma. Há sorrisos sarcásticos, há sorrisos que produzem ódio. O sorriso do imbecil, logo após ele ter dito alguma imbecilidade, atesta o tamanho de sua burrice. O que é pior do que se orgulhar abertamente de algo que não apresenta o menor mérito? Em uma criança, atribui-se todos esses momentos à infantilidade. Ela ainda não entende, que bonitinha! Está aprendendo, olha que doce. Mas o imbecil, o imbecil é diferente. Ele deveria saber, mas não sabe. Esse não saber causa um grande incômodo. Não se trata necessariamente de um saber técnico, enciclopédico, que deveria estar na cabeça dele mas não está. É em geral um saber mais profundo, social. Ele conta uma piada que não tem a menor graça, que ofende o bom gosto de todos os ouvintes, e ri. Ri com uma sinceridade que irrita, incomoda, desconcerta. E inicia-se um carnaval de calamidades. O riso é medonho não só porque acontece, mas também porque permanece. Ora, um idiota que continua a rir de algo completamente desapropriado, que saiu de sua própria boca, é claramente incapaz de captar os gritantes sinais de desaprovação de todos. Não se trata de ceifar a criatividade. Não se trata de um elitismo verbal de minha parte, como se eu preferisse que todos parassem de falar merda. Falar merda é ótimo, é sensacional, é uma condição essencial para a existência humana ser humana. A pertinência completa e mecânica de todas as sentenças ditas em todas as situações vividas sugeriria com grande ênfase que estaria na hora de nos substituirmos por máquinas, ou que talvez já tivéssemos terminado de nos metamorfosearmos em tal. Não é isso. Mas, quando falo merda, das duas uma... ou eu acreditava falar algo totalmente genial, e então percebi, com a ajuda do espelho público que é o rosto alheio, o tamanho da asneira que proferi, ou então eu já sabia de antemão o desordor da intestinice que iria proferir e cuidei para adotar uma reação cabível. Em suma, o que incomoda no imbecil não é a imbecilidade em si, não é o conteúdo de sua manifestação, propriamente dito. O que incomoda no imbecil é sua completa incapacidade de se saber idiota. De entender o que lhe dizem todos, e enfatizo, todos os que estão ao redor e reagem aos seus ditos com um olhar que não deixa dúvidas: nossa cara, como você é imbecil! Fora isso, não consigo mesmo captar uma receita geral. Às vezes ele é imbecil na reunião. Às vezes é imbecil quando fala de mulher. Quando emite opiniões técnicas sobre os assuntos do trabalho. Quando oferece café. Quando conta uma piada. É um imbecil muito pró-ativo, e eu terei que conviver com isso.
Existir, feliz
Existir, quando eu existo? Quando estou no trabalho, fazendo as coisas? Quando ganho mais dinheiro? Quando a vida é viabilizada? Ou quando me sinto profundamente feliz e vivo com a simples leitura de um livrinho aqui fechado num apertado e meio fedido quartinho dos fundos? Eu estou feliz. O livro é tão bom. A mente se sente tão viva. Como poderia um corpo ser vivo sem uma mente plenamente viva? Eu vivo da mente pra fora, mas ando ou andava morto por aí. Ressucito, volto, teimo. De que adianta morrer e largar o corpo andando por aí? Tenho meu jeito de viver e gosto de deixá-lo acontecer. Feliz, feliz.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
As perguntas...
Alguns pesquisadores têm recentemente investigado a relação entre as crenças religiosas das pessoas e seu grau de otimismo. Será que há alguma força evolutiva que favorece o surgimento de um instinto religioso? No fundo, afinal, é esta a pergunta à qual os pesquisadores se debruçam. O que eu não entendo é a razão para tantas dúvidas num caso em que a relação é tão óbvia. Qualquer pessoa sensata e minimamente informada, observadora das coisas ao redor, saberá de imediato que tanto a religião como o otimismo demandam um elevado poder de blindagem contra a verdade. São, portanto, sintomas diferentes da mesma patologia. Não que não possam trazer benefícios. A lucidez humana enxerga a desgraça em uma perspectiva individualista. Assumindo que todo o resto continuará inalterado, a perspectiva para o isolado indivíduo pensante não é das melhores. Mas um louco jamais manterá sua mente tão limitada, seja ele religioso ou otimista. Ao invés de centrar seus pensamentos sobre si mesmo, cederá à tentação de acreditar que os outros mudarão com ele. E aí volta-se ao mundo da lógica, pois assumindo-se que os outros irão mudar também, muitos outros mundos tornam-se possíveis. O meio ambiente enfrenta problemas, mas se todos mudarem, então a situação não é das mais graves, e tudo se salvará. Comete um equívoco o esperançoso incorrigível por achar que o comportamento humano é assim tão plástico. Mas erra também o cético desolado e isolado ao achar que tudo contiará como está. Muda, sempre muda. O que ninguém sabe, e que é um desconhecimento tão aterrador que convida toda a Sociologia a se confessar ainda não nascida, é a velocidade e a direção da mudança. Qual a inércia do comportamento humano? O que vai mudar o comportamento das pessoas? E para onde este comportamento vai mudar? O economista não sabe. O publicitário adoraria saber. O vendedor faz o que pode. O sociólogo finge que já sabe há séculos. O antropólogo não se dá ao trabalho. O engenheiro nunca pensa no assunto como deveria, o que talvez seja um grande mérito ao seu favor, já que aqueles que o fazem não chegam a lugar algum. É a pergunta fundamental, na verdade, ainda que esta não interesse devidamente aos pesquisadores: por que as pessoas fazem o que fazem? Como acontecem as mudanças de comportamento? Sei lá. Eu? Sei lá!
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Pequena reflexão
Como assim? Meus posts são muito longos? Dez, vinte linhas quando muito!
"Ah, as idéias são boas, mas você escreve bastante, dá preguiça de ler tudo."
Maravilha, maravilha. Não lemos mais. É isso. Achamos um jeito de fazer a comunicação dar a volta ao mundo em segundos. Coisa que antes tomaria meses de viajantes aventureiros destemidos. Coisa que não seria possível em muitos trajetos. Ano mil setecentos e vinte e sete. Você está em Estocolmo e, no dia dezoito de dezembro resolve mandar um cartão de natal para seu filho. Que está viajando o mundo e neste momento encontra-se em Santiago do Chile. Não, não vai dar, esqueça. Talvez ele nem esteja vivo. Ou talvez não sobreviva o suficiente para receber suas felicitações. Não tem como saber.
Ano desses aí em que estamos. Você está num banheiro escuro, num posto de gasolina abandonado, no meio de uma estrada esburacada na Bahia. São quase três da madrugada. Você faria suas necessidades pela estrada mesmo, mas como achou um posto abandonado, resolveu que seria minimamente mais civilizado usar uma instalação sanitária. E lá, sentado no trono da redenção gastronômica, o que você faz? Saca do bolso da calça seu potente Blackberry, seu iPhone, e tuíta. "Três da madrugada e tô num banheiro de posto abandonado aqui na bahia, mó escuridão! Me cagando de medo!". Minutos depois, talvez segundos, seu filho, que está fazendo mestrado no japão, te chama pra um chat de voz via skype, pra sacanear sua situação.
Comunicar-se é trivial. Mas o que comunicar? O que interessa dizer? Com tanta gente dizendo, quem é que tem o direito de falar demais? Olhe o tamanho desse post... Se você está lendo até aqui, sinto muito, você é um perdedor, um desperdiçador de tempo. Até aqui foram quase mil e oitocentos caracteres. Ou seja: dez posts grandes no Twitter!
Mas tenho teorias alternativas. Antes eram poucos os que usavam a linguagem escrita. A imbecilidade já era difundida, talvez até mais que hoje. Mas isso não era registrado ou tão pouco assim manifesto. Não nesse extremo. Acontece que o mundo tecnológico obrigou a alfabetização de milhões, pois a mão de obra especializada precisa saber ler avisos de "não fume" e de "uso obrigatório de ê-pê-í". Então foi que os imbecis aprenderam a escrever, e de posse da escrita, invadiram o mundo dos letrados. A internet é o reinado dessa socialização. A indústria do livro impresso filtra um pouquinho essa imbecilidade. Mas bem pouquinho. Quase nada. Passam pra lá aqueles que sabem escrever mais de cento e oitenta caracteres e os que se dispõe a escrever você ao invés de vc. O que não garante nada quanto ao conteúdo.
E tenho ainda outras teorias. Estamos nos desumanizando. A fala antes refletia o mundo interior. Por isso era complexa, longa, intrincada. Mas há cada vez menos mundo interior em quem quer que seja. Então, pra que falar muito? O mundo exterior é bem mais objetivo. Por isso, desde sempre, engenheiros foram muito menos poéticos que os poetas para escrever sobre o que quer que seja. Falar sobre o sentimento de paixão exige infinitamente mais parâmetros e detalhamentos do que especificar as vigas de uma ponte. E o mundo agora só existe lá fora. Coisas e momentos. Descrições de externidades. Quem quer refletir muito sobre isso? Vc?
"Ah, as idéias são boas, mas você escreve bastante, dá preguiça de ler tudo."
Maravilha, maravilha. Não lemos mais. É isso. Achamos um jeito de fazer a comunicação dar a volta ao mundo em segundos. Coisa que antes tomaria meses de viajantes aventureiros destemidos. Coisa que não seria possível em muitos trajetos. Ano mil setecentos e vinte e sete. Você está em Estocolmo e, no dia dezoito de dezembro resolve mandar um cartão de natal para seu filho. Que está viajando o mundo e neste momento encontra-se em Santiago do Chile. Não, não vai dar, esqueça. Talvez ele nem esteja vivo. Ou talvez não sobreviva o suficiente para receber suas felicitações. Não tem como saber.
Ano desses aí em que estamos. Você está num banheiro escuro, num posto de gasolina abandonado, no meio de uma estrada esburacada na Bahia. São quase três da madrugada. Você faria suas necessidades pela estrada mesmo, mas como achou um posto abandonado, resolveu que seria minimamente mais civilizado usar uma instalação sanitária. E lá, sentado no trono da redenção gastronômica, o que você faz? Saca do bolso da calça seu potente Blackberry, seu iPhone, e tuíta. "Três da madrugada e tô num banheiro de posto abandonado aqui na bahia, mó escuridão! Me cagando de medo!". Minutos depois, talvez segundos, seu filho, que está fazendo mestrado no japão, te chama pra um chat de voz via skype, pra sacanear sua situação.
Comunicar-se é trivial. Mas o que comunicar? O que interessa dizer? Com tanta gente dizendo, quem é que tem o direito de falar demais? Olhe o tamanho desse post... Se você está lendo até aqui, sinto muito, você é um perdedor, um desperdiçador de tempo. Até aqui foram quase mil e oitocentos caracteres. Ou seja: dez posts grandes no Twitter!
Mas tenho teorias alternativas. Antes eram poucos os que usavam a linguagem escrita. A imbecilidade já era difundida, talvez até mais que hoje. Mas isso não era registrado ou tão pouco assim manifesto. Não nesse extremo. Acontece que o mundo tecnológico obrigou a alfabetização de milhões, pois a mão de obra especializada precisa saber ler avisos de "não fume" e de "uso obrigatório de ê-pê-í". Então foi que os imbecis aprenderam a escrever, e de posse da escrita, invadiram o mundo dos letrados. A internet é o reinado dessa socialização. A indústria do livro impresso filtra um pouquinho essa imbecilidade. Mas bem pouquinho. Quase nada. Passam pra lá aqueles que sabem escrever mais de cento e oitenta caracteres e os que se dispõe a escrever você ao invés de vc. O que não garante nada quanto ao conteúdo.
E tenho ainda outras teorias. Estamos nos desumanizando. A fala antes refletia o mundo interior. Por isso era complexa, longa, intrincada. Mas há cada vez menos mundo interior em quem quer que seja. Então, pra que falar muito? O mundo exterior é bem mais objetivo. Por isso, desde sempre, engenheiros foram muito menos poéticos que os poetas para escrever sobre o que quer que seja. Falar sobre o sentimento de paixão exige infinitamente mais parâmetros e detalhamentos do que especificar as vigas de uma ponte. E o mundo agora só existe lá fora. Coisas e momentos. Descrições de externidades. Quem quer refletir muito sobre isso? Vc?
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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Harmônico
Tão verdade que às vezes existimos pro mundo, às vezes existimos pra gente, e às vezes moramos aí nesse meio termo sem saber ao certo onde enfiar os pés.
Há dias de criar.
Há dias de consumir.
Há dias de ser indiferente.
Há dias de se importar com os outros...
Olha, sério mesmo? Eu nem sei porque é que estou escrevendo isso.
Talvez por uma dessas nossas grandes contradições: o prazer da inutilidade. Sei que nada de útil sairá daqui. E não são as coisas absolutamente inúteis aquelas mais nobres? O ponto final de toda incrível cadeia de esforços objetivos e racionais? Este é meu particular espaço de ser inútil.
Se tudo deu certo, acabei de gastar seu tempo com nada.
De nada.
Há dias de criar.
Há dias de consumir.
Há dias de ser indiferente.
Há dias de se importar com os outros...
Olha, sério mesmo? Eu nem sei porque é que estou escrevendo isso.
Talvez por uma dessas nossas grandes contradições: o prazer da inutilidade. Sei que nada de útil sairá daqui. E não são as coisas absolutamente inúteis aquelas mais nobres? O ponto final de toda incrível cadeia de esforços objetivos e racionais? Este é meu particular espaço de ser inútil.
Se tudo deu certo, acabei de gastar seu tempo com nada.
De nada.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Hoje
- Você está calado, o que houve?
Calado, olhou pra ela. Sorriu.
- Sabe, tenho que contar as histórias do amigo secreto que fizemos lá no curso! Foi muito legal! Eu acabei mandando mensagens misteriosas e surpreendi todo mundo!
Sorrindo, ele ouvia.
Mas ele não pulava no pescoço dela como a saudade pedia.
E ele não gritava a deus e o mundo na rua a alegria de vê-la.
Nem protestava todo o ciúme de tê-la longe tanto tempo.
Ou o desespero de não vê-la nunca mais.
Ele não gritava todo o amor que implodia dentro de si.
- Você está realmente calado!
Calado, olhou pra ela. Sorriu.
- Sabe, tenho que contar as histórias do amigo secreto que fizemos lá no curso! Foi muito legal! Eu acabei mandando mensagens misteriosas e surpreendi todo mundo!
Sorrindo, ele ouvia.
Mas ele não pulava no pescoço dela como a saudade pedia.
E ele não gritava a deus e o mundo na rua a alegria de vê-la.
Nem protestava todo o ciúme de tê-la longe tanto tempo.
Ou o desespero de não vê-la nunca mais.
Ele não gritava todo o amor que implodia dentro de si.
- Você está realmente calado!
Ontem
Segredos segredam sinceras cisões
Segredos segregam singelas visões
Segredos segregam
Tantas paixões...
Segredos segregam singelas visões
Segredos segregam
Tantas paixões...
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Saudade
Acabei de fechar o chat. Mandar você voltar aos estudos. Mas que fique bem claro... Queria tanto esticar a conversa. Queria tanto você de volta. Queria tanto você...
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Normal II
Dá pra sair alguma coisa que preste dos nossos pensamentos, direto como eles são? Sem a menor vontade de escrever algo que preste? Só registrando as coisas como elas pipocaram na cachola e pronto? Quando a gente conversa com alguém não dá pra fugir dessa coisa de medir as palavras, de dosar, e tal. E quando estamos sozinhos no quarto, meio bêbados, meio sozinhos, meio cheio de saudades, meio cheios de solidão, meio cheios de si, contente só de ter mais idéias do que se dá pra escrever... Sai algo que presta? Extrapolando, a questão é importante sim. Sozinho no mundo, último humano, ainda que com vida eterna, esse isoladíssimo Homo sapiens faria algo que presta? Ou só fazemos algo que presta quando tem alguém olhando? Temos momentos solenes para nós mesmos? Quantos de nós brincam de fazer poesias com os próprios pensamentos, rimas bobas? Quantos de nós andam por aí cantarolando músicas que jamais serão conhecidas por ninguém mais no universo? Sons imaginados que nunca serão sons, se perderão pra sempre. Isso acontece? Tem sua razão de ser? É arte? É uma existência artista, ser o espectador de si mesmo? É narcisismo? Ou narcisismo é só quando se é flagrado se apreciando? Aí narcisismo passa a ser uma experiência não mais tão íntima. Passa a ser o show da auto-admiração, algo que pode ser muito mais cinematográfico mas certamente está um degrau abaixo da auto-admiração velada, secreta. A auto-admiração, como qualquer outra forma de amor, encontra um terreno vasto na escuridão dos segredos.
Mas não, não é de auto-admiração que falo aqui. É de pensar assim como estou pensando, etilicamente nem aí. Que importa se é um telefonema, um quarteirão ou um oceano a me afastar de um grande sonho impossível, se mergulhado em mim agora vivo mil mundos meus, só meus, que escrevendo o quando eu puder escrever jamais serão escritos, que dizendo tanto quanto eu possa dizer, jamais serão ditos?
E eu sei que não sou só eu a existir assim.
Mas não, não é de auto-admiração que falo aqui. É de pensar assim como estou pensando, etilicamente nem aí. Que importa se é um telefonema, um quarteirão ou um oceano a me afastar de um grande sonho impossível, se mergulhado em mim agora vivo mil mundos meus, só meus, que escrevendo o quando eu puder escrever jamais serão escritos, que dizendo tanto quanto eu possa dizer, jamais serão ditos?
E eu sei que não sou só eu a existir assim.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Normal
Eu vou te odiar por um tempo. Mas é claro que vou! Que outra coisa eu poderia fazer?
Não me interessa saber se é injusto pensar tanta coisa horrível a seu respeito, se o excesso de confiança que você depositou em mim foi um erro, um eqüívoco compreensível ou explicável, se você não tinha a intenção de me deixar tão vulnerável a esse abandono sem aviso.
Te odiarei e pronto. E não é nem isso que vai doer. Vai doer ser o ódio meio forçado. Porque se eu não te odiar, se eu ouvir claro o que sinto e pronto, o sentimento vai se prolongar mais do que deve.
E depois passa.
E aí passamos.
Não me interessa saber se é injusto pensar tanta coisa horrível a seu respeito, se o excesso de confiança que você depositou em mim foi um erro, um eqüívoco compreensível ou explicável, se você não tinha a intenção de me deixar tão vulnerável a esse abandono sem aviso.
Te odiarei e pronto. E não é nem isso que vai doer. Vai doer ser o ódio meio forçado. Porque se eu não te odiar, se eu ouvir claro o que sinto e pronto, o sentimento vai se prolongar mais do que deve.
E depois passa.
E aí passamos.
domingo, 28 de junho de 2009
E finalmente
Ele queria.
Ele não podia.
Ninguém saberia.
Ele não suportaria.
Ele queria.
Ele não podia.
Ela queria.
Ela não sabia.
Ele não suportaria.
Ela não entendia.
Quantos talvez nuns poucos acasos. Tantos afagos nuns muitos desafetos. Quantos afetados nestes desconexos. Quantas conexões nesses tantos corações.
A loja ia abrir. Os ônibus iriam andar. O dia seria como todos os outros.
Ele tinha desejos sujos. Ele tinha vontades lambusadas. Ela estava ali. Fácil. Ele via tudo. Cheirava o cheiro quente e salgado de cada possibilidade próxima.
Ele queria.
Ele não podia.
Ninguém saberia.
Ele hesitava.
Ele não sabia.
Ela queria.
Ela não sabia.
Ela não entendia.
Que maravilha, que maravilha de desencontro... os dois últimos botes do mundo que sobreviveram ao holocausto, passando um ao lado do outro, no meio do oceano. No meio do nevoeiro. Não se viram. Nunca mais se cruzaram. Que maravilha de desencontro! Tão ousado! Tão desalentador. Tão encantador em seus detalhes incontornáveis. Tão concreto em sua materialidade aguada. Motim de acasos.
Ele não podia.
Ninguém saberia.
Ele não suportaria.
Ele queria.
Ele não podia.
Ela queria.
Ela não sabia.
Ele não suportaria.
Ela não entendia.
Quantos talvez nuns poucos acasos. Tantos afagos nuns muitos desafetos. Quantos afetados nestes desconexos. Quantas conexões nesses tantos corações.
A loja ia abrir. Os ônibus iriam andar. O dia seria como todos os outros.
Ele tinha desejos sujos. Ele tinha vontades lambusadas. Ela estava ali. Fácil. Ele via tudo. Cheirava o cheiro quente e salgado de cada possibilidade próxima.
Ele queria.
Ele não podia.
Ninguém saberia.
Ele hesitava.
Ele não sabia.
Ela queria.
Ela não sabia.
Ela não entendia.
Que maravilha, que maravilha de desencontro... os dois últimos botes do mundo que sobreviveram ao holocausto, passando um ao lado do outro, no meio do oceano. No meio do nevoeiro. Não se viram. Nunca mais se cruzaram. Que maravilha de desencontro! Tão ousado! Tão desalentador. Tão encantador em seus detalhes incontornáveis. Tão concreto em sua materialidade aguada. Motim de acasos.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Multidão
Ah, vida, sua palhaça! Você abusa de mim, não tem vergonha? Você é irônica, mais irônica que eu. Mais sem pudores, mais sem princípios, mais sem remédio!
Ele saiu andando. No meio da noite. Pelas ruas do bairro. Pelas avenidas. Pelas estradas. No meio da noite. Pelo meio do nada. Até a montanha mais alta. No meio da noite. Sentou-se à beira do precipício, pernas balançando ao vento. No meio da noite. Sozinho. Olhava o mundo. Olhava a vida.
Tenho raiva de você, e morro de amores também. Não sei onde você se instala, onde pulsa seu coração, se no acaso das coisas indiferentes ou se no onipresente arquitetar divino. Pouco importa. Seja lá o que for, o efeito é esse: irônica até não poder mais. Vida, querida vida...
Abriu uma garrafa de conhaque. Tomava num pequeno copo de vidro, sem tirar os olhos das luzes ao longe. No meio da noite.
Eu cuspo em você com minhas irresponsabilidades e meus impulsos, e você, feliz dos meus pulos de vida, faz o mesmo em retorno! Que graça, que alegria. Amo ser zombado por você. Invisível. Me abraçando assim sem me tocar, de todos os cantos. Namoro minha vida num namoro angelical. Não sei onde fica seu centro pulsante, mas me sinto abraçado por todos os lados o tempo todo. De forma sedenta. De forma selvagem. Minha vida zomba de mim. Minha vida não me larga. Amo minha vida.
Tomou mais um gole. Jogou o copo ao longo só para ouvir o barulho dos estilhaços lá embaixo.
Ele saiu andando. No meio da noite. Pelas ruas do bairro. Pelas avenidas. Pelas estradas. No meio da noite. Pelo meio do nada. Até a montanha mais alta. No meio da noite. Sentou-se à beira do precipício, pernas balançando ao vento. No meio da noite. Sozinho. Olhava o mundo. Olhava a vida.
Tenho raiva de você, e morro de amores também. Não sei onde você se instala, onde pulsa seu coração, se no acaso das coisas indiferentes ou se no onipresente arquitetar divino. Pouco importa. Seja lá o que for, o efeito é esse: irônica até não poder mais. Vida, querida vida...
Abriu uma garrafa de conhaque. Tomava num pequeno copo de vidro, sem tirar os olhos das luzes ao longe. No meio da noite.
Eu cuspo em você com minhas irresponsabilidades e meus impulsos, e você, feliz dos meus pulos de vida, faz o mesmo em retorno! Que graça, que alegria. Amo ser zombado por você. Invisível. Me abraçando assim sem me tocar, de todos os cantos. Namoro minha vida num namoro angelical. Não sei onde fica seu centro pulsante, mas me sinto abraçado por todos os lados o tempo todo. De forma sedenta. De forma selvagem. Minha vida zomba de mim. Minha vida não me larga. Amo minha vida.
Tomou mais um gole. Jogou o copo ao longo só para ouvir o barulho dos estilhaços lá embaixo.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Secreto
A minha solidão. Eu gosto de preservá-la. Estou num momento da minha vida em que nada me faz mais falta do que uma devida inserção em diversos grupos sociais. Me sinto fora da faculdade. Sou um marginal nas atividades do meu trabalho. E ainda assim, profundamente carente de gente, temo pela paz da minha solidão. Estar sozinho, realmente sozinho. Ocupar minha mente com o que ela quiser ali na hora. Pensar em criar coisas, sem ter o menor compromisso com questões financeiras ou questões práticas de qualquer espécie. Há várias sensações possíveis de se experimentar na vida. Várias. Que podemos subdividir em categorias. E uma das categorias é essa: sensações de dentro. De nossa imaginação. De nossas conversas conosco. Uma boa paisagem sempre ajuda. Uma boa música sempre ajuda. Mas nada que perturbe essa liberdade irrestrita. Incontida. Irresponsável até. Inconseqüente. E, por isso tudo, deliciosa.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Não
Você é bonita. É inteligente. É simpática. Tem um sorriso lindo. Mas eu não sou o mesmo de tempos atrás. E sua vida é tão nos trilhos! Eu não queria magoar você...
E não pense que é fácil te dispensar assim... Não me sinto bem. Me sinto de certa forma sujo, tenho raiva de mim e raiva da história toda. Raiva de como o mundo funciona. Por que você não se interessou assim por mim da primeira vez? Por que tinha que ter escondido tanta coisa de mim a ponto de me deixar mergulhado numa raiva profunda incapaz de te dar atenção ainda que você eventualmente pulasse no telhado da minha casa vestida de caranguejo?
Desencontros. É assim que é, não é... uma coisa cheia de desencontros, a vida. Cadê a arte? As carícias de nossas mãos vão se diluir em nossas lembranças, mas pertencem ao passado.
Talvez assim nos tenhamos um pouco mais. Em sonhos puros de futuros felizes ao invés de tentativas solavancadas que magoam os dias.
Você é linda. Eu sou outro. Te estimo a ponto de me importar realmente com sua felicidade. E sei que atualmente não sou a pessoa para alimentá-la.
E não pense que é fácil te dispensar assim... Não me sinto bem. Me sinto de certa forma sujo, tenho raiva de mim e raiva da história toda. Raiva de como o mundo funciona. Por que você não se interessou assim por mim da primeira vez? Por que tinha que ter escondido tanta coisa de mim a ponto de me deixar mergulhado numa raiva profunda incapaz de te dar atenção ainda que você eventualmente pulasse no telhado da minha casa vestida de caranguejo?
Desencontros. É assim que é, não é... uma coisa cheia de desencontros, a vida. Cadê a arte? As carícias de nossas mãos vão se diluir em nossas lembranças, mas pertencem ao passado.
Talvez assim nos tenhamos um pouco mais. Em sonhos puros de futuros felizes ao invés de tentativas solavancadas que magoam os dias.
Você é linda. Eu sou outro. Te estimo a ponto de me importar realmente com sua felicidade. E sei que atualmente não sou a pessoa para alimentá-la.
sábado, 20 de junho de 2009
O preferido
Essa coisa da vida vir cheia de idéias me cansa. A vida me diz o que fazer, o tempo todo, e não me pergunta nada. E é rabugenta pra caralho também, cheia de dedos com qualquer sugestão de mudança e resmungona sempre que invento qualquer idéia que seja.
Eu não existo. Eu viabilizo a existência extensa dos outros, de alguma forma. Sou desejos alheios, atividades alheias, sonos alheios. Sou civilizado no mundo de civilizadores alheios. Eu não inventei as palavras que uso. Eu não cuido da minha vida. Os amores que quis me fugiram entre os dedos. As ciências que encantaram minha curiosidade não sabem que eu existo. As que conhecem o meu trabalho não acessam o meu encanto. O mundo me é alheio.
Esse texto parece todo desgostoso com a vida, e pode ser só uma documentação dela. Essa é só mais uma das razões pelas quais gosto tanto do Elogio de Erasmo.
Eu não existo. Eu viabilizo a existência extensa dos outros, de alguma forma. Sou desejos alheios, atividades alheias, sonos alheios. Sou civilizado no mundo de civilizadores alheios. Eu não inventei as palavras que uso. Eu não cuido da minha vida. Os amores que quis me fugiram entre os dedos. As ciências que encantaram minha curiosidade não sabem que eu existo. As que conhecem o meu trabalho não acessam o meu encanto. O mundo me é alheio.
Esse texto parece todo desgostoso com a vida, e pode ser só uma documentação dela. Essa é só mais uma das razões pelas quais gosto tanto do Elogio de Erasmo.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Minas
A viagem foi o máximo. Todos gostaram, todos felizes. Bom assim. Mas chegou a hora de ir embora, e em um só carro não caberiam tantas pessoas. Quem manda metade do pessoal ir de ônibus? E eu me ferrei. Gosto de parecer o gara gente boa no meio da turma, mas vez ou outras aparece uma situação dessas e, pra não cair em contradição, me ferro. Lá fui eu prontificando-me a voltar pra casa de ônibus.
Ponto de ônibus. Beira de estrada. Dois bêbados se aproximam. Um bem bêbado e com cara de ser a pessoa mais ingênua e bem intencionada do mundo. O outro, não tão bêbado e com cara de ser um mal elemento às vésperas de queimar uma igreja com o padre dentro. Conversavam assuntos deles. Os carros passavam. Os mosquitos me mordiam. Eu olhava o horizonte. Uns urubus ignoravam tudo, em cima de um poste ao lado.
Resolvi fugir dos bêbados e subi no primeiro ônibus que passou, sem nem ver qual era. Fui até o fundo mas só tinha gente feia pra trás, voltei pro primeiro banco e sentei ao lado da morena bonita. Normalmente evito o primeiro banco, mesmo que tenha morenas bonitas, pois considero um lugar perigoso na eventualidade de um acidente.
Fisioterapeuta. Conversei com ela por um longo tempo. A viagem toda. Até Belo Horizonte. Eu nunca tinha ido pra Belo Horizonte.
Ponto de ônibus. Beira de estrada. Dois bêbados se aproximam. Um bem bêbado e com cara de ser a pessoa mais ingênua e bem intencionada do mundo. O outro, não tão bêbado e com cara de ser um mal elemento às vésperas de queimar uma igreja com o padre dentro. Conversavam assuntos deles. Os carros passavam. Os mosquitos me mordiam. Eu olhava o horizonte. Uns urubus ignoravam tudo, em cima de um poste ao lado.
Resolvi fugir dos bêbados e subi no primeiro ônibus que passou, sem nem ver qual era. Fui até o fundo mas só tinha gente feia pra trás, voltei pro primeiro banco e sentei ao lado da morena bonita. Normalmente evito o primeiro banco, mesmo que tenha morenas bonitas, pois considero um lugar perigoso na eventualidade de um acidente.
Fisioterapeuta. Conversei com ela por um longo tempo. A viagem toda. Até Belo Horizonte. Eu nunca tinha ido pra Belo Horizonte.
domingo, 14 de junho de 2009
Subscrito
Eu te disse uma vez que não acredito em palavras, e acho que você se surpreendeu. Logo eu, tão dado a escrever em qualquer guardanapo jogado, não é? Logo eu, que preciso de mais de um nome pra guardar todas as minhas idéias, não é? Mas não, não acredito em palavras. Em declarações, em flores, em juras... Não acredito em nada disso. Essas coisas mentem. Essas coisas são mercenárias, se dão aos usos de quem as pagar e pronto, sem pudor.
Mas naquela tarde a gente se olhou nos olhos... Do jeito que se olhou. Você lembra, eu sei que lembra. Que mais caberia dizer? Que mentira invalidaria aquilo? Você viu em mim, não viu? Eu vi em você também, não vi? Estava lá, não estava?
Mas naquela tarde a gente se olhou nos olhos... Do jeito que se olhou. Você lembra, eu sei que lembra. Que mais caberia dizer? Que mentira invalidaria aquilo? Você viu em mim, não viu? Eu vi em você também, não vi? Estava lá, não estava?
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Aconteceu
Vai. Então vai, e vive sua vida. Era isso, não era? Eu precisava ter meu coração de pedra quebrado de novo. Não é justo escrever de amor e descrever cenas de amor sem amar, não é? Então vai agora, vai que aqui sua missão está cumprida. Sinto a saudade de que passei um tempo enorme fugindo. E sinto aquele peso no peito que só sente quem ama. Sinto saudade. De todos os tipos de saudade. De querer te abraçar apertado. De querer não te amar mais pra aliviar meu peito. De querer você pra sempre porque não tem outro jeito.
Quem imaginou que isso pudesse acontecer assim tão rápido? Era tão impossível, não é mesmo? Era sem sentido, até. Olha só o que você fez. Não sabe como estou hoje. Queria sair correndo pela cidade e te achar. No seu trabalho. Na sua casa. No meio do trânsito, que seja. Te pegar no colo e sair correndo, e correr e correr e correr, fugir pra algum gramado gigante, com árvores, sombra e uma paisagem. E um canto invisível, esquecido. E ficar lá. Te dar meu ombro como travesseiro e meus carinhos como cobertor. Perguntar histórias suas. Dormir com meu rosto grudado no seu.
Por que é que eu quero tanto isso? Eu não sei mais de resposta. Não sei nem das que eu deveria saber, nem das que eu gostaria de saber. Só sei que você já me faz falta. Me faz uma falta danada. Vá... Já se apoderou do meu coração, coisa que deveria ser algo impossível e não lhe foi. Agora vá, tome sua vida para si e vá vivê-la, antes que eu não consiga soltá-la nunca mais.
Quem imaginou que isso pudesse acontecer assim tão rápido? Era tão impossível, não é mesmo? Era sem sentido, até. Olha só o que você fez. Não sabe como estou hoje. Queria sair correndo pela cidade e te achar. No seu trabalho. Na sua casa. No meio do trânsito, que seja. Te pegar no colo e sair correndo, e correr e correr e correr, fugir pra algum gramado gigante, com árvores, sombra e uma paisagem. E um canto invisível, esquecido. E ficar lá. Te dar meu ombro como travesseiro e meus carinhos como cobertor. Perguntar histórias suas. Dormir com meu rosto grudado no seu.
Por que é que eu quero tanto isso? Eu não sei mais de resposta. Não sei nem das que eu deveria saber, nem das que eu gostaria de saber. Só sei que você já me faz falta. Me faz uma falta danada. Vá... Já se apoderou do meu coração, coisa que deveria ser algo impossível e não lhe foi. Agora vá, tome sua vida para si e vá vivê-la, antes que eu não consiga soltá-la nunca mais.
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Considerações jogadas
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Silêncio
Pare, pare, por favor pare! Pare de perguntar quem sou! De que interessa? O que muda? Aliás, é exatamente isso: pare de perguntar pois isso mudaria tudo! Eu vivo nesse pseudônimo a liberdade de não me ser. De ser tudo o mais que não sou. E também a de ser o que sou escondido. E também a de ser o que sou imaginado. Aqui eu minto. Aqui eu contrario meus princípios. Aqui não tenho que ser coerente. Hoje tenho um filho. Amanhã, nenhum. Depois cinco. E aí só duas meninas. E quem sabe nenhum de novo? Tanto faz. Sou pedagogo. Sou sociólogo. Sou um bêbado que nunca estudou. Sou um tarado. Sou uma mulher no cio. Sou uma beata. Sou um chinelo metafísico ponderando ingrato sobre os pisões que leva. Sou o nada melancólico querendo se masturbar à noite e pensando que é só o nada, e que portanto isso é errado. Não tem mãos, não tem sexo e não tem um banheiro em casa. Me deixe em paz. Me deixe desconhecido, porque assim, escondido, sou também um pouco você.
domingo, 7 de junho de 2009
Euselino
Eu comprava cachorro quente todas as tardes no mesmo local, seguindo o mesmo ritual. Eu me achava super descolado por cumprimentar o vendedor pelo nome. Euselino. Olá seu Euselino, me vê um dog completo sem passas, por favor? Mas outro dia fiquei ali sentado e tinha mais gente nas mesas do lado. Pedindo coisas também. E perguntavam coisas pro Euselino. O Euselino foi falando... Ele tinha se graduado em direito numa faculdade no Mato Grosso do Sul. Chegou a ser juiz numa cidadezinha, mas foi ameaçado de morte por um jagunço doido que ele condenara à prisão pelo assassinato de oito famílias, um bêbado, o próprio pai e algumas normas gramaticas que vagavam sozinhas à noite, desamparadas e abandonadas. Euselino então mudou-se para o coração do Pantanal onde ensinou jurisprudência da pororoca a uma família de dourados. Mas um jacaré achou que a coisa era com ele e ameaçou arrancar as pernas de Euselino a dentadas. Euselino então mudou-se para uma outra cidade e conheceu Joseph Climber. Este, à época, pintava quadros com sua perna direita, e então Euselino o ajudou a expor seus trabalhos pelos EUA, Ásia e Europa. Mas num dia horrível o senhor Climber sofreu alucinações e amputou as próprias pernas. Euselino fugiu, horrorizado, e perambulou pelas ruas sujas de São Paulo. Aprendeu a fazer malabarismos nos faróis, juntou uma grana e comprou o carro e a barraquinha de cachorro quente. E eu achava que conhecia o Euselino só porque lhe sabia o nome.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Cara ou coroa

Engenheiro. Engenheiro formado em faculdade boa. E trabalhar em uma grande empresa, ter um ótimo salário. Uma casa grande, um carro. Mais de um carro. E viajar sempre. Viajar a trabalho e viajar nas férias. Trabalhar na Petrobrás e... na Petrobrás? Mas e o aquecimento global? A poluição do mundo e tantas e tantas guerras alicerçadas no fundamentalismo do petróleo? Acho que vou deixar essa vida de engenheiro pra lá... Vou ser um ativista do Greenpace. Ou vou deixar tudo isso de lado e viver uns anos mochilando por aí. Pela América do Sul. Pela Europa. Pela África. Ou vou construir uma casinha no meu terreno em Araçoiaba da Serra e viver uma vida pacata, alheio a auto-fagocitose humana. Participando dela. Em paz.
Quero comprar um clarinete e aprender a tocá-lo muito bem. Ler partitura como quem lê palavras de cartilha. Quero ser piloto. E voar vários tipos diferentes de aviões. E ganhar alguns prêmios de acrobacias. Quebrar récordes. Ter histórias. Quero pescar com amigos à toa. No mar. No pantanal. Quero não ser ninguém e ter histórias de quem anda pelo mundo despercebido, com acesso aos mais díspareces seres e cenas. Quero brincar de kart. E ganhar um grande prêmio de fórmula um. Quero galinhar pelo mundo conquistando mais gostosas que qualquer amigo rico e com mais classe que Vinícios de Moraes. Quero ter uma única mulher pra vida toda. Filhos e uma história. Paz de espírito. Quero escrever o manifesto da frugalidade, mas exijo que seja na escrivaninha de Fausto, e com uma das canetas dele.
Quero o yin e o yang. Mas não na dose certa não... Quero pelo menos três doses. Com limão, açúcar e um pingo de mel. Pra virar de uma vez, ficar tonto, perder a vergonha e sair dançando pelo salão. Gafieira, salsa, zouk, soltinho... E conquistar todas as atenções do salão. E fazer um filme dançante.
Só sei querer tudo. Tudo. Do bife como a gordura. O osso. A pele. O casco. O pasto. A fazenda. O hemisfério. O periélio.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Vazio

Estou há uma hora querendo escrever. Duas horas? Quatro horas? Passa rápido. Não vem nada. O que vem é lixo e eu apago. É assim que funciona quando fico pensando que quero pensar algo de útil. É assim que funciona quando fico pensando que não quero pensar em nada.
Ontem à noite, no ônibus, pensei que eu poderia escrever grandes coisas.
Lembrei de coisas bonitas que me disseram. Coisas significativas que vi fazerem por aí. Paisagens que despertam um sentimento de religião, de tão belas.
E nada disso se presta a uma boa descrição agora, porque se as idéias existem e se as palavras continuam obedientes, falta qualquer coisa daquela víscera estranha que é a inspiração genuína, que impulsiona as palavras meio que um passo à frente de nossas ordens, que revoluciona nossos próprios conceitos em mosaicos inéditos montados com estilhaços de nosso antigo mundo inquebrável. E nada disso se presta a uma boa descrição agora. Nada de útil por hoje.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Presente
Faz tempo, não faz? Quem iria acreditar numa história dessas. Passo aqui os dias todos imaginando coisas, caçando na rede imaginações alheias. E nada que seja ao mesmo tempo tão inocente e profundo.
Lembra? Era meio que segredo. Era algo proibido. Era tentador, não sem conflitos. Não sem dúvidas. Como que um vício novo sem recomendações. Seríamos os primeiros a experimentar?
Aquela tarde foi especial. Primeiro encontro de olhares e éramos velhos conhecidos.
Você já tinha ido àquele parque, assim como eu. Você já tinha visto várias vezes o pôr do Sol no horizonte dessa nossa cidade. Ainda assim, não era tudo novo? Ainda assim, não tinha uma familiaridade diferente? Mudamos o gosto das coisas.
Indo para o aeroporto hoje meu peito apertou. Apertou estranho. Queria outro abraço. Sede gulosa. Gula insaciável. Sacear irresponsável. Queria te rir de novo, só mais uma vez. Passagem. Bagagem. Horário. Quilômetros. Outra vida. Outras pessoas. Outras histórias.
Ainda assim, você veio. Sem pagar passagem. Sem atrasos na imigração. Sem carimbo no passaporte. Eu não fujo, mas você me persegue.
sábado, 30 de maio de 2009
Todo dia
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Método
- Sabia que o pai de Nietzsche, o Karl Ludwig, era um pastor protestante fanático? Quando Nietzsche diz que Deus está morto ele estava é perturbando o pai, era uma crise familiar acontecendo ali!
- Não sei... Ele fundamenta bem seus pensamentos de que Deus é uma invenção humana, de que a divindade como se apresenta não faz sentido e nem é viável à nossa sociedade, e que nos submetermos cegamente à invenções literárias do nosso passado é fraqueza pura. Algo assim, se entendi direito, embora não seja nenhum especialista... Acho que não era só a questão familiar da briga com o pai não.
- Não, não era só isso, claro. Mas a inspiração familiar é uma coisa muito forte. Mesmo uma mente sagaz e atenta como a de Nietzsche acaba por perceber sua revolta com a cultura religiosa como uma dedução lógica de sua própria mente e nunca chega a explicitar a parcela de influência que sua vida pessoal, por vias irracionais, tem no processo. Nossas histórias de vida nos engolem, creio que esse seja o ponto. Ele chegou às conclusões que chegou por vias lógicas, mas talvez tivesse adotado outras vias lógicas, tivesse tido outra infância, outra ascendência.
- Não está simplificando muito não?
- E quem disse que não pode ser simples?
- Não sei... Ele fundamenta bem seus pensamentos de que Deus é uma invenção humana, de que a divindade como se apresenta não faz sentido e nem é viável à nossa sociedade, e que nos submetermos cegamente à invenções literárias do nosso passado é fraqueza pura. Algo assim, se entendi direito, embora não seja nenhum especialista... Acho que não era só a questão familiar da briga com o pai não.
- Não, não era só isso, claro. Mas a inspiração familiar é uma coisa muito forte. Mesmo uma mente sagaz e atenta como a de Nietzsche acaba por perceber sua revolta com a cultura religiosa como uma dedução lógica de sua própria mente e nunca chega a explicitar a parcela de influência que sua vida pessoal, por vias irracionais, tem no processo. Nossas histórias de vida nos engolem, creio que esse seja o ponto. Ele chegou às conclusões que chegou por vias lógicas, mas talvez tivesse adotado outras vias lógicas, tivesse tido outra infância, outra ascendência.
- Não está simplificando muito não?
- E quem disse que não pode ser simples?
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