sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Modéstia egocêntrica

Me orbito

Me gravito

Se distrair

Me óbito

Nem vi

Me sinto

Me sirvo

Se distrair

Me sento

E olho

E nem vi

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

M

Você, com seus costumeiros sorrisos esbanjados e olhares admirados e admiráveis, contando feliz...

Contando que ele é um cara tão inteligente, viajado, conhece o mundo inteiro...

E eu, introspectivo, pensando: "é, eu só te amo..."

Você contando que ele é engraçado, um humor refinadíssimo, foi super divertido jantar com ele outro dia...

E eu, olhando pro alto meio de canto, pensando "é, eu só te amo".

Você contando que ele pagou a conta, que só sua parte passou fácil dos oitenta reais, mas nem sabe precisar quanto, ele não deixou que você visse...

E eu meditando sobre a leveza etérea da minha algibeira: "é, eu só te amo".

Você contando como era repulsiva às primeiras investidas dele. Ele namorava, que coisa horrível! Mas declarava todo amor a você, terminou o namoro. Insistiu, te contrariou, brigou. E você começou a considerar ceder, toda encantada.

Eu, mergulhado na estranheza desumana de tanto respeito que lhe tenho, considero: "é, eu só te amo".

Eu te amo, é só. Vá, viva e seja feliz. Vá!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Virtual

Ele endoidou. Pirou. Não queria mais a própria vida. Foi na internet e fez outra. Hoje em dia essas coisas são quase de graça. Surpresa: o outro eu era mais querido que ele próprio, vejam só! Eis que se revelam por meio de ironias saborosas essas verdades fundamentais: nossas espontaneidades cativam muito mais que nossas vergonhas. Assustado, deletou-se de si.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Conexões

Tem quem esteja discutindo esse último assassinato horrendo, que não sai da TV. Tem quem esteja preocupado com os prazos do trabalho porque a semana corre e logo é sexta-feira e logo o chefe vai conferir se está tudo em dia. Tem quem esteja neste exato momento indo para o hospital, mergulhado em aflições, pelo parente que está com a vida em risco.

E o que importa tudo isso? Eu faço sempre esta pergunta: o que importa? Não deveria me importar, deveria? Minha própria vida. Deveria me importar apenas com minha própria vida.

Os lugares para onde vou. As pessoas com quem falo. As histórias que eu escuto. O que seria de tudo isso se não fosse o resto do mundo? O que seria da minha vida se não fossem todas as outras coisas com que nem me importo? Essas coisas das quais nem sei... coisas fundamentais.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Referências

Você é um pai pra mim. Você confiou em mim quando eu era criança e ninguém mais acreditava em nada de nada de mim. Você me dava responsabilidades. Deixava a chave de casa comigo. Deixava eu preparar o barco para as viagens. Falava para os outros de mim com orgulho: o agregado da família, inteligente, adulto.

Era algo tão intenso que aqueles que queriam tirar sarro da situação me chamavam com voz irônica de "o menino prodígio", uma tentativa de exagerar um tratamento que era bom.

Hoje não nos vemos mais. Meses sem nos falarmos.

Toda vez que eu visito, a família me recebe muito bem.

Mas algo está quebrado. Talvez algo sempre tenha estado assim: quebrado.

Eu segui a carreira em que você acreditava. Me tornei médico, como você. Nada de dedicar a vida aos barcos. Ou ao cinema. Ou à filosofia. A mesma carreira.

Ontem foi dia dos pais. Liguei para meu pai. Não você, meu pai mesmo. Sei tão pouco da vida dele. Não liguei para você. Você não é meu pai. Você é só a pessoa que me criou e que me incentivou a acreditar em mim. Mas não teve tempo de entender meus sonhos. Talvez faltou me conhecer um pouco antes. Um pouco mais. Não sei se sou uma espécie de decepção ou de fracasso por querer largar a carreira.

Desculpe eu não entender das formas apropriadas para dizer "obrigado". Tenho muito a agradecer, eu sei. Obrigado.

Mas tem caminhos na minha vida que eu não posso aprender com você. Nem com meu pai oficial. Nem com amigos. Nem com ninguém mais.

domingo, 11 de agosto de 2013

Inertiae

- Você sabe que a gente pensa muito diferente sobre muitas coisas, não é? Eu só fico curioso de saber porque você gosta de conversar comigo. Eu gosto de conversar com você porque sou exposto constantemente a perguntas e pontos de vista que normalmente eu não desenvolveria sozinho, e convicções que eu dava como certas são facilmente colocadas em xeque. Mas e você... por que gosta de conversar comigo?

- Eu? Não preciso estar interessada num assunto em particular ou numa coisa ou outra que você fala. Eu converso com você... porque você é você!

sábado, 10 de agosto de 2013

Dionísio

Dionísio. Deus das festas, do vinho, das alegrias. Personificação da irresponsabilidade, da embriaguês.

Dionísio. Colega de trabalho de um escritório em que trabalhei. Magrinho, fala concentrada, de voz baixa. Dedicado, pontual, inteligente.

Que semelhanças e diferenças há entre um Dionísio e outro? O vinho, as festas e tudo o mais... isso remete a irresponsabilidades e excessos. Um espírito inconseqüente. À primeira vista o Dionísio com quem trabalhei era o oposto disso tudo. Responsável pela parte mais complicada dos softwares da empresa, viviam pedindo atualizações e alterações a ele.

- Dionísio, pode inserir este campo no relatório do banco de dados?

- Dionísio, pode descobrir quantos clientes atendem estes critérios?

- Dionísio, pode bloquear a liberação de procedimento quando estas informações cruzadas acontecerem?

Ele ouvia as solicitações. Fazia as perguntas técnicas pertinentes. E desaparecia. Imaginávamos Dionísio como o nerd realizado. Ele e o computador em uma história de amor em plena lua de mel. Ele e os manuais de linguagens de programação, aqueles livros gigantes que ninguém lê. Ninguém, só o Dionísio.

Aí o Dionísio sumiu. Na verdade, levamos alguns dias para perceber que ele tinha sumido. Porque ninguém conversava com ele. Ninguém almoçava com ele. Ninguém dava bom dia e ninguém dava tchau, até amanhã, para o Dionísio. Só falavam com ele quando havia alguma solicitação. Assim, só deram pela falta dele quando surgiu uma nova solicitação e ninguém encontrava o Dionísio em canto nenhum. Telefonaram para a casa dele (depois do enorme parto que foi descobrir qual era o telefone da casa do Dionísio).

- É a esposa dele... o Dionísio faleceu semana passada.. teve um ataque do coração fulminante...

Uma vida engrenada como uma peça de relógio. Dedicada e concentrada como um chip de computador. Uma vida de abstinência de contato social, de distrações, de risadas, de conversas no cantinho do café. Uma vida dedicada a estudo e trabalho.

Dionísio: excesso, inconseqüência, vício e irresponsabilidade. No final das contas, os Dionísios da mitologia e o real não eram assim tão diferentes. Apenas sucede que os vícios do Dionísio com quem trabalhei eram bem mais chatos.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Seu Miro

Passo após passo, desço a rua para o trabalho. Já me sinto gordo, lanche cheio de queijo derretido e café com leite explodindo de açúcar num copo gigante: freqüento padarias do bairro.

Passo pelo portão da empresa, crachá magnético na catraca. O sistema eletrônico me dá as boas vindas.

As ruas internas são de paralelepípedo. Dessas que, se deixar, nascem grama no meio. Dessas que lembram passear por cidades litorâneas quando se era criança e os asfaltos ainda não tinham descido a serra do mar.

Lá está ele. Um senhor magro, fininho. Macacão azul, mãos enrugadas. Vassoura limpando o chão, recolhendo as folhas que teimam em cair sempre das árvores. Vez ou outra, alguma pequena foice a lapidar as gramas que crescem aqui e ali. Seu Miro. Vou me aproximando e o cumprimento.

- Bom dia Seu Miro, tudo bem?

- Opa! Só alegria? Tudo na paz! Tudo na paz...

Sorri um sorriso largo. Mal cabe em seu pequeno rosto. Olhar sorridente de quem sente tudo perfeito.

Sigo em frente com a sensação de que Seu Miro não nasceu nunca e nunca vai morrer. E aí paro pra pensar e nem mesmo a eternidade toda me justifica tamanha serenidade e paz de espírito. Só alegria!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Topografia

- Às vezes parece que existe uma muralha dentro do seu coração. Dá pra ir até ali. Mas dali em diante não dá pra passar de jeito nenhum.

É verdade. Agora eu também acho que é verdade.

E nem sei dizer de qual lado da muralha eu estou.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Emergência!

Acabou o pão.

Fui lá comprar.

Logo volto.

Beijo!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Errata filosófica

Aí os filósofos e os autores de livrinhos para criancinhas inventam todos que a questão fundamental é:

- De onde viemos?

Desde quando essa é a questão fundamental? O que ela tem a ver com o preço do dólar? Ou com minha vida em família? Ou com minha escolha de emprego? Ou com a programação da televisão? E se soubéssemos a resposta.... "Viemos... viemos dali, ó!". Isso mudaria algo? Uma questão fundamental deve levar a uma resposta fundamental, e fundamental é aquilo cuja ausência ou presença são sempre relevantes. Água é fundamental para a vida. Sem água, a vida acaba.

Eu, que não tenho moral nenhuma, nem entre filósofos nem muito menos entre autores de livrinhos para criancinhas, ainda assim tomo um espaço de intromissão aqui para esta correção importante. A questão fundamental, para todos nós, e diante de todas as questões sobre as quais valha a pena se deparar, é:

- E daí?

Posso escolher ser médico ou advogado. E daí?

Cientistas podem estudar a cura do câncer ou a produtividade da colheita. E daí?

A televisão pode mostrar bundas grandes ou te apresentar grandes idéias. E daí?

Amores podem dar certo ou não. E daí?

Ou viemos do Big Bang ou somos a ilusão de um alienígena sedado porque bateu o disco voador e está tendo devaneios. E dai?

Podemos ser felizes ou tristes.

E daí?

Dos mistérios

Quando é que nasce uma bela pintura?

É no instante da última pincelada?

Ou no instante em que recebe o primeiro olhar do público?

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Não me diga

Então ele inventou que era depressão, porque era o nome mais cômodo para dar para aquela vagabundagem toda.

E então ele disse que eram dúvidas aqueles medos todos emoldurados em preguiça. Medo de trabalhar. Preguiça de sair de casa. Medo de ser outra pessoa, de ser adulto. Medo de deixar o tempo passar ainda que visse que passava mesmo assim. "Fiz minha parte para que não passasse. E se ainda assim passa, não é culpa minha." Não era só um irresponsável. Era um alguém que não queria se responsabilizar. Por nada, nadinha. Medo de amar, medo de ter. Medo de ganhar. Medo de aprender.

Os livros são melhores nas estantes do que em suas mãos, em suas leituras. Os folheia e aí joga lá de volta. Em seus lugares. Arrumados, organizados, novos e não lidos.

Ele inventou que era assim mesmo bem agora que podia ser do jeito que quisesse eventualmente de todos os jeitos.

Era viciado em sonhar.

Sonhar era a melhor coisa que já experimentara, dentre tantas outras.

E quem poderia culpá-lo? E a que tribunal se leva um caso assim?

Sonhar era sempre um delicioso amanhã talvez. Sonhar com algo que quem sabe fosse amanhã era uma fé quase concreta. Esticava-se o dedo e quase podia tocá-la, ali logo depois de uns poucos tiques do relógio no outro quadrinho do calendário.

Um sonhador. Que feridas enormes na sua vida todas as coisas que são. Que invadem o tempo presente.

Traumas? Um fraco? Incapaz de desassociar os fracassos de determinadas experiências das possibilidades de fracasso de outras?

Traumatizado seria se fosse apenas a incapacidade de se aproximar de histórias potencialmente felizes por conta da cegueira que os medos antigos lhe produzem. Mas não é isso. Efetivamente, histórias felizes lhe abraçam. Quentes, completas, envolventes, profundas e inusitadas. Felicidades acima das felicidades dos cidadãos comuns. Mas durava pouco lá dentro. Lá dentro morria logo esse desfrutar. Um arqueólogo que nunca chegava a abrir o sarcófago porque se desesperava em procurar outra tumba. Um piloto que nunca cruzava os muros de um aeroporto porque embarcava direto em outro avião, desesperado por pilotar mais. Um pescador cujo barco afundou de tantos peixes acumulados no convés - mas era irresistível continuar ali pescando mais e mais. Um desesperado. Um desesperado incorrigível. Sem controle de si. Sem controle de nada.

E foi inventar que era depressão...

domingo, 4 de agosto de 2013

Aconchego

Tinha uma poesia passando frio na rua, à noite. Eu a vi e a cena comoveu meu coração. Linda, linda. A trouxe para casa. Fiz chocolate quente, dei-lhe um banho. Nos deitamos juntos, e a noite se transformou em versos com rima e tudo.

sábado, 3 de agosto de 2013

Angra

Ficamos os dois ali, à beira da vida, deixando tudo passar. Abraçados, quentes. Te sorri três futuros e você me olhou: um presente.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Ano novo

Imagine um colombiano, podemos chamá-lo de Pablo. Imagine uma brasileira que vai passar o ano novo na Colômbia. Chame-a Melina. Um dia juntos. Olhares mãos beijos cama suores saudades. Ela agora aqui, ele ainda lá. Um namoro de seis anos, mas não entre eles. Entre o colombiano e outra nativa lá do mundo da Shakira. E agora? E agora que prometem se fugirem junto deste mundo, destas vidas que levam, para uma nova vida, só deles. Colômbia, não podia dar outra: estão entorpecidos.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Indícios

Eu adoro os oprimidos.

Os que sofrem.

São um recurso infinito para aqueles que precisam de uma promoção fácil.

O político que aperta a mão do favelado.

E depois manda tratores para derrubarem a favela.

O que importa é o quanto circulará cada foto.

O que importa é que o político não estará presente no dia da demolição.

O padre que reza pelos oprimidos.

E a paz quieta e serena do ouro do Vaticano.

Eu adoro os oprimidos.

Sem eles, nossa hipocrisia não seria tão óbvia.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Pradópolis

É que o tempo da noite, deslisando sobre o sono, corre mais rápido.

É que a urgência do amor, transpirando saudades, morde mais forte.

Yara andou por entre postes e calçadas ignorando o medo da escuridão e dos escuros, medos esses sempre tão seus, tão incontornáveis.

Não avisou a mãe. Não pediu ao pai. Não acordou o cachorro.

Chinelos. Frio. Passos firmes.

Algumas poucas considerações lógicas pulsavam em sua mente, reféns de mil emoções explosivas.

Chegou em frente à casa. Era o quarto da frente, a janela de cima.

- Ei, ei! - murmurou alto, para ele ouvir.

A incredulidade abriu a janela.

- Eu vou! Amanhã eu vou sim! Espere lá na rodoviária, que eu vou sim!

E voltou para casa. Sem acordar o cachorro, o pai, a mãe ou o vizinho. E sem conseguir fazer dormir suas imaginações mais ousadas.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Ouvi ontem no ônibus...

- Maaalandro... liga só, que ontem tive uma idéia hiper. Tava pensando sobre nossa aula de literatura, daí li umas matérias de física bizarra na Superinteressante. Aí pensei: o amor é o sexto estado da matéria, e tem massa zero!
- Massa zero, o amor?
- É!
- Você nunca viu minha namorada, não é?
- !

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ela não gosta de ler


Eu a conheço há um bom tempo e sempre a achei muito gostosa. Jamais imaginei que tínhamos qualquer chance mas, de repente, eis que estamos nos beijando, nos mordendo, nos arranhando, nos possuindo. Eu sempre a achei uma mulher muito gostosa, mas não imaginava que seria tão bom assim beijá-la. Ser beijado por ela. Que o jeito dela passar a mão em mim, no meu rosto, no meu ombro, nas minhas costas, fosse tão especial. Havia algo de fisicamente muito compatível entre a gente.

Mas ela não gosta de ler.

Sobre o que vamos conversar? E mais... que esforço hercúleo eu devo fazer sempre que ela me vê com uma revista um pouco maior e diz que acha chato ver essa quantidade toda de textos? O que eu devo sentir quando ela diz que nem lê meu blog... mesmo sentindo uma certa curiosidade, ou ao menos assim ela diz, mas só de ver o tamanho dos posts já se sente desanimada. Eu deveria aprender a escrever menos, ela disse.

E assim uma possível nova namorada se fez ficante que se fez distante.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Falei!


E então eu disse a ela:
Venha, vamos viver juntos! Esqueça esse seu namorado idiota. Essa sua mania de arranjar trabalhos sérios porém chatos. Vamos ser felizes nós dois, com nossas longas conversas, com nossas longas risadas. Vamos ser felizes fazendo aquilo que gostamos, descobrindo pessoas curiosas, pessoas de ouro. Ficando longe desses empregos onde as pessoas vão virando máquina com o tempo. Moramos num canto qualquer, mas tendo um ao outro. E aí vamos descobrindo como resolver os problemas. Juntos. Felizes. Com dificuldades sim, mas vamos contornar essas dificuldades todas. Eu te amo. Eu preciso de você por perto. Sei que você sente minha falta. Sei que você sente saudade das nossas conversas. Sei que juntos podemos muito mais do que cada um em cada canto, fingindo que levar a vida normalmente tem qualquer sentido, qualquer valor. Não é sincero. Não é saudável jogarmos nossos sonhos no lixo. Precisamos tentar. Precisamos um do outro. Preciso de você... Vem, vem comigo!

E então eu acordei.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Agora


Um fusca velho na beira de um rio, numa rua com asfalto velho, rachado. Ele está sobre a terra. Aparência de abandonado. A grama da margem já nascendo por em volta das rodas, dos pára-choques. O cheiro podre da água cheia de esgoto invadindo o interior do carro, impregnando as janelas de uma coloração um tanto quanto opaca.

Um móbile feito de bonequinhos de tecido liso, gostoso de passar a mão. Um bebê no berço. Quase dormindo. Olhando hiptnotizado para o brinquedo que voa logo acima de seu repouso. As paredes pintadas num levíssimo tom azul claro. Recém pintadas. Tudo com ar de novo. Presentes de parentes e amigos misturam-se com as coisas que os pais compraram. Bonecos, carrinhos, luvinhas, meias, macacões, pacotes de fralas. E ele fecha os olhos e dorme um sono gostoso. Alheio a tudo isso. E, também por isso, o centro gravitacional de tudo isso.

Duas da madrugada. Sua visão é boa mas agora as coisas da rua lhe parecem meio turvas, desfocadas. É o efeito do vento úmido e gelado da noite em seus olhos enquanto pedala. Gosta de andar de bicicleta. Casas apagadas. Um bar com umas poucas pessoas. Um outro ainda cheio de gente até na calçada e música ao vivo. Uma casa com uma luz acesa. Alguém acordado? Teriam esquecido a luz acesa? Uma conversa? Amor acontecendo? Um doente recebendo cuidados? Uma insônia se manifestando? Um outro mundo... Pedalou e pedalou. Olhando as coisas passarem. Sentido-se ficando para trás também. Parou em frente ao hospital. Uma ambulância chegava. Manobrou rápido na rua, os pneus chegaram a cantar na curva fechada. Pessoas sairam correndo do hospital, auxiliaram a levar uma vítima de um infortuito qualquer lá para dentro. E então voltou aquele silêncio. Era o hospital. Lá dentro, aquela correria continuava. Mas ali, naquele instante, ele olhou ao redor, e era só a rua quieta de novo. O vento gelado e úmido por todos os lados. Voltou a pedalar.

Tem essa árvore que é longe de tudo. Que os homens nunca viram. Que fica no meio do nada. E tem nela esse galho com um ninho. E tem nesse ninho ovos chocados. Pequenos filhotes. E vai o pássaro-mãe voar e trazer comida. E vai o pássaro-pai afugentando ameaças que aparecem sedentas dos pequenos rebentos. E passam os aviões milhares de metros acima todos os dias levanto pessoas que não sabem de nada disso.

Ajeitou o dedo mindinho. Justo esse, que sempre dá mais trabalho. Soprou. Soltou uma nota longa, suave... Era a nota mais grave de que sua flauta era capaz. E então encontrou ali mais umas cinco ou seis notas. E brincou com tempos. E trocou intensidades. E fez uma música. Em seu quarto. No meio da noite. E ninguém ouviu. E ele não se importou.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Blog para quem gosta de livros: O Espanador



Os 80 anos de Philip Roth, O Mágico de Oz ou histórias do nosso sertão. Sem deixar de lado, claro, a ficção de Arthur C. Clarke. Tudo é assunto para quem tem os livros como paixão! Para conhecer este aconchegante recanto da internet, clique aqui.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Geologia do léxico

Não, não minha querida. Esse silêncio todo que mura humores entre a gente nos últimos passeios não é timidez, falta de assunto ou outras indiferenças vazias.

Na geologia das terras ficam as camadas mais antigas lá embaixo. O que o vento soprou ontem é coberto pelo que o vento trouxe ontem. Isso porque nos continentes o nascimento é de fora para dentro. De cima para baixo. Dos ventos para o chão. Da chuva das montanhas para os fundos dos vales.

Na geologia das palavras ocorre o contrário. Porque as palavras nascem lá dentro da gente e assim dá-se que as mais novas estão lá no fundo, dentro, cobertas pelas mais antigas. Daí que, logicamente, só mesmo tendo dito as palavras mais antigas é que as novas poderão encontrar um caminho à superfície do mundo. Assemelha-se mais à mecânica do vulcão que a das planícies costeiras.

Com isso se entende meus silêncios, querida amiga. São muitas palavras velhas, nunca ditas, soterrando as palavras novas.

terça-feira, 26 de março de 2013

Garupa

Ela, justamente ela, ele nunca levava de moto. Já aconteceu sim uma carona ou outra, mas evitava ao máximo. Gostava de levar pessoas na garupa e certamente gostaria de levá-la. Ser abraçado por ela. Estar perto dela. Mas não queria correr o risco. E se, bem com ela, algum acidente acontecesse? E se ela se machucasse? Ele não poderia viver tranquilo nunca mais. Não tinha estrutura para isso. Arranjava sempre uma desculpa. Esqueci o capacete. Estou com a mochila, não há espaço. Ela queria andar um pouco de moto com ele, gostava da aventura e gostava do amigo. Mas ele a queria por perto o tempo todo e nunca soube como lidar com o gigantismo desse desespero.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Alimentação saudável

Um lanche quente. Era o que eu queria. Nada de comida fria. Um lanche com queijo derretido. Um hamburger. Ou um pedaço de carne, peito de peru. Pouco importa. Um lanche quente no pão francês, pão fresquinho, com aquela casca amarelo-pão quebrando, toda trincadinha como aquelas marcas no chão do sertão. Preparei. Comi. Depois uma sobremesa doce e fria. Sorvete. Perfeito. E, por fim, um pouco de água.

A alimentação precisava respeitar essa ordem precisa. Jogar em um liquidificador tudo junto, água, sorvete e um lanche quente no pão francês e alimentar-se da maçaroca resultante soa para todos os sensatos algo pateticamente repulsivo. Somos uma máquina estranha. Porque no estômago, efetivamente, tudo se mistura. Os poucos minutos que separam a ingestão de uma coisa ou outra não são suficientes para separar a comida no estômago. O que significa que, para fins de nutrição, a mistura não é ofensiva. Mas para fins de degustação, de apreciação, isso faz toda a diferença do mundo.

Somos uma máquina estranha. Quanto à alimentação, é óbvio que a absorvemos assim. Mas muito mais do mundo é artificialmente segmentado em nossas degustações diárias e se torna impossível pensar a vida de outra forma. O mundo é um só, mas jamais conseguiremos efetivamente vê-lo assim. Assim como a necessidade nutricional é composta por um só conjunto de alimentos variados, mas não podemos absorver estes alimentos de uma vez, misturados. Precisamos segmentá-los em parcialidades.

Você conhece uma pessoa. Não pode absorver suas verdades todas de uma vez. Precisa escolher se vai degustar primeiro a aparência, depois as histórias contadas por ela, depois as histórias contadas pelos outros, depois a rica observação quieta de suas atitudes. Como trata o garçon. Como responde à mãe sobre assuntos triviais.

A verdade do mundo. Há uma guerra acontecendo em algum lugar. Há uma pessoa ajudando um necessitado. Alguém faz uma gentileza aqui. Um assassinato segue em marcha ali. Um animal devora outro num canto. Noutro há uma fera prenha dando a luz. Uma criança joga video-game em seu quarto de apartamento alheia a toda a cidade ao seu redor. Que parte do mundo você quer degustar agora?

Assim como as refeições do estômago, vale observar, para uma alma verdadeiramente saudável uma refeição balanceada é necessária. Ainda que a alimentação siga esse fracionamento exagerado, necessário ao paladar mas artificial ao estômago, os diversos tipos de nutrientes devem ser absorvidos. Ainda que só possamos experiementar este ou aquele aspecto do mundo, da vida, das pessoas, a cada vez, para uma existência saudável e balanceada de tempos em tempos todos os tipos de mundos, verdades e pessoas, devem ser devidamente apreciados.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Quase aos 30

Conversas com amigos na mesa da lanchonete. Falar mal da menina que pegava todo mundo na faculdade e ao mesmo tempo não ficava com ninguém. Sentimentalmente indecisa. E dava toda a atenção do mundo para os homens e não queria ficar perto de nenhuma das outras mulheres. Falar sobre roupas de trabalho. O cara que vai com a gravata estranha. Que não sabe combinar calça com blazer. Sapato com meia. Pessoas que não conseguem experimentar um pouco de formalidade sem reinventar o ridículo. Trabalho. Quais as pendências atuais. Chefes legais. Chefes chatos. Histórias de reuniões sem objetivo. De pessoas com boas frases feitas. De pessoas que não conseguem abrir a boca com sucesso. Piadas. As piadas de sempre. Quais as carreiras presentes na mesa? Engenheiros, advogados, gente de computação, um empresário. Os estereótipos de sempre, sob a forma de piada. Assuntos aleatórios. Música. Música sempre é um assunto aleatório. Cérebro, um artigo que alguém leu na revista nerd da semana passada. Como era mesmo a história daquela menina que beijava todo mundo? A conta. A conta, por favor. E não nos esqueçamos de cantar parabéns à aniversariante. Pode ser na calçada mesmo.

terça-feira, 12 de março de 2013

Plástica

Ela, Célia, já tem uma filha. A menina está quase em idade de prestar vestibular. Se chama Luisa. Célia é divorciada, mas não quer saber de ficar sozinha. Arrumou um novo namorado. Não sem antes fazer plástica nos seios. Aproveitou as férias, período em que está longe dos comentários do trabalho e em que é possível repousar. Mas a vaidade não se conteve já ao primeiro telefonema com a secretária amiga dela. Não, contava Célia, não fui viajar não porque fiz uma operação, estou bem, é coisa de estética. Coisa de estética, ela diz, plástica nos seios, pensa a outra. E a fofoca se espalha. Confiante e de namorado novo, Célia agora não quer que a filha faça apenas engenharia civil, quer que faça arquitetura ou teatro, quer a ela uma vida de prazer artístico, pois descobrir que todos os prazeres da vida são assim, meio artísticos. Era como se a filha, derivação sua, obra sua, tivesse também seios novos, uma nova alma, mais acabada, mais perfeita, mais capaz e mais merecedora. A filha não conectava as duas coisas. Imaginava a mãe como vítima de uma loucura meio genérica, dessas que acometem as mães em tantos momentos inescapáveis. Seguiu com a vontade anterior de fazer engenharia civil. Inconformada, lá foi a mãe, ela própria, estudar teatro. Trabalhava durante o dia e dividia o tempo livre entre o teatro e o novo namoro. Sérgio, o namorado, trabalhava em um escritório de investigação de dados contábeis. Caçava gente que de um jeito ou de outro desvia dinheiro para si sem matar ninguém, sem roubar nada material, gatunamente, mas ainda assim ilicitamente. Estava enciumado. De repente a namorada, uma mulher já séria, adulta, fazendo teatro? Andando com aqueles jovens todos com os hormônios à flor da pele? Não era aceitável. Não era possível. Não era lógico. Deu um basta naquilo tudo, um esporro cheio de autoridade masculina selvagem, à moda das cavernas. Célia não se abalou. Olhou para ele, nos olhos, e decretou: você precisa de seios novos.

segunda-feira, 4 de março de 2013

O sentido da frase


Eu achei que ela era uma escritora com alma de escritora. Resolvi perturbá-la, criar uma situação dessas estranhas, dessas que se pode perturbar e ver o que acontece. Escrevi para ela, algumas vezes, como se eu estivesse bêbado. Um bêbado que, contudo, escreve sem erros de digitação e com frases estruturadas. Ela deveria ter desconfiado que eu nunca estive bêbado de outra coisa se não um desespero por conversas inusitadas. Ela, embora escreva sempre fingindo uma sensibilidade para situações e amores e tudo o mais, não tem o sentido da frase. A acuso assim porque ela se recusou a conversar com alguém que se dizia bêbado? Sim, exatamente. Conversar pela internet. Trocar e-mails. Não há bafos, não há riscos. E, minimamente mais inteligente, deveria ter percebido que eu nunca colocara uma gota de álcool goela abaixo. Triste. Fiquei triste, desapontado. Não com ela em particular, mas um pouco desapontado com a humanidade. As pessoas carecem de um certo desejo de comunicação. De uma certa curiosidade pelo ser humano. Muitas vezes o lado humano das pessoas ao nosso redor é aparência. Uma vontade de auto-promoção anunciando-se como uma pessoa boa. Veja como eu sou sensível! Veja como eu percebo as belezas do amor, das pessoas, dos velhinhos conversando na praça! Besteira. Pessoas de verdade, interessadas no mundo para além dessa postura falsa, não dispensam uma boa conversa. Especialmente uma que se anuncie com rumos inesperados.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Gramática


- Sardade doce.

- Eu também... doce sardade docê!