sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Fundamentos

Uma questão que, ao meu ver, é fundamental para uma profunda compreensão do verdadeiro papel da literatura na aventura humana: será que Anaïs Nin era boa de cama?

Foto #016

Eis que, em frente a uma sorveteria em São Sebastião, encontro esse grande triciclo. Está anunciado como o maior triciclo do mundo. Com a estupidez exagerada dos americanos vivendo no mesmo planeta, duvido que essa informação seja correta. Mas uma porção gringa dentro de mim diverte-se imaginando como seria chegar no sítio dos amigos com um desses. Ou a uma festa de casamento (a noiva iria me odiar até o fim dos dias, certamente). Ou simplesmente em frente à casa de alguém que pediu uma carona. "Sobe aê!".

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Foto #015


Obrigado pela visita nessa manhã improvável tão cheia de concretos e arquitetura morta, ó voador pedaço da natureza.

Feliz Páscoa!

A ilha de Páscoa é um lugarzinho boiando no meio do nada em que um punhado de seres humanos começou a consumir recursos e recursos da ilha, deixando a população crescer descontroladamente até que todos os recursos foram consumidos, o ecossistema local entrou em colapso, as pessoas guerrearam, brigaram contra os deuses ou choraram desoladas a morte dos outros, esperando chegar a derradeira vez. Um alerta que estamos ignorando. Nós, os habitantes do Planeta Páscoa.

Fagocitado

Em um desses documentários super alarmistas, catastrofistas, precisos e corretos que podemos encontrar no YouTube, vi uma declarção interessante. "Eu quero sair desse sistema, mas agora o sistema está em todo lugar".

Para onde quer que você vá no mundo, o clima estará se alterando por consequencia da atividade humana no mundo. As espécies animais colapsando por alterações no meio ambiente. O regime das águas sendo alterados. Os raios solares tornando-se mais intensos por conta de danos nas camadas mais externas das nossas proteções planetárias (o que parece coisa de ficção, mas é uma imagem assustadoramente precisa).

Não há mais para onde fugir. A natureza foi engolida pela civilização.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Câncer

Uma comparação que nunca consigo evitar: sempre que pego um avião e vou ali na janelinha, reparo nas manchas de cidade cercadas de natureza. E lembro das imagens das revistas científicas, mostrando células contaminadas.

Microcosmos

Não consigo resistir. Vindo de uma cidade pequena, sinto-me conectado à vida das pessoas próximas. Assim, sei que minha vizinha trabalha na prefeitura, uma informação que não deveria me interessar. Uma outra coisa que parece ser cacoete de gente de cidade pequena: eu me interesso pelas notícias. Vejo o nível das represas e essa parece ser, no momento, a questão mais importante para esta cidade. Só que a cidade não acha isso. As notícias sobre as chuvas e o total sumiço das notícias de falta de água nas represas parecem sintomáticas de um sentimento de hollywoodianismo profundo. Algo que não se cura com cinco ou dez aninhos de terapia. Talvez isso explique porque, todos os dias, eu escute minha vizinha lavando o quintal. Mangueira na mão, aquele fiozinho de água saindo sem parar enquanto ela molha aqui, varre, molha ali, varre, molha ali mais um pouquinho, e assim vai por uma hora, uma hora e tanto. Já está chovendo, não está? Não há mais problema com as águas. Essa minha vizinha é louca. Essa cidade é louca. Talvez a humanidade inteira esteja condenada às suas esquizofrenias incuráveis.

Foto #014


Há uma pilha acumulada sobre a mesa. Outros tantos e tantos e tantos nas estantes. Alguns em caixas. Outros em pilhas ao pé da estante. Um ou outro na cabeceira. Sempre uns três ou quatro na mochila.
Preciso deles. Não sei explicar. Sou o que sou graças a eles. Tudo o que li. Tudo o que penso quando acordo, olho para a janela. Quando a água escorre pela boca num dia quente. Quando olho para alguém. Nos olhos. Quando leio notícias. Quando tiro fotos.
Meus pensamentos, meus julgamentos, minhas idéias, minhas criações: meus livros. Obrigado por me ensinarem sobre o mundo o que eu jamais descobriria investigando sozinho por aí.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Medida de impacto

Ouvi na lanchonete:

-Cara, foi sério mesmo, saiu até no jornal da Globo!

O problema com essa lógica é sua falaciosa recíproca: se não saiu na Globo, não foi lá tão importante. As pessoas aprendem essas regras subentendidas que depois ficam assim, impregnadas na civilidade de cada um igual piche quente e sujo ficaria preso num delicado vestido de noiva.

Foto #013


Dizem que o não se deve exagerar nos enfeites. Mas que também não devem ser muito espalhados. Uma boa densidade de penduricalhos deve ser encontrada. E o estilo deve ser coerente, claro. Não vá me colocar heróis da disney, X-mens e afins, só porque seu filho gosta.
Essas receitas são típicas. Mas hoje, vendo fotos antigas dos natais, vejo que o que há de mais especial em uma árvore de natal é a união e alegria daqueles que a preparam. A festa que é para as crianças poder mexer com aqueles enfeites subitamente transmitados em brinquedos. Porque tudo é brinquedo na mão de uma criança feliz. E os adultos ao redor, sorrindo. Somos nós que enfeitamos as árvores, mais do que os enfeites em si. E um dos segredos que a Era Moderna esconde de todas as gentes é bem esse: poderíamos fazer isso com todas as árvores, todos os dias.

Conjecturas sobre o fim

E se o mundo for acabar? Nada como nos cinemas. Não o mundo como o planeta inteiro, explodindo contra um super asteróide ou então invadidos por uma raça alienígena hostil. Mas o mundo tal como o conhecemos. O mundo, como diria Tutty Vasques, como tudo isso que está aí.

Variações no preço de petróleo. Falta de água em grandes cidades. Crise de xenofobia na Europa, que vinha se consolidando como o centro cosmopolita do mundo. Estados Unidos sucumbindo à estupidez que cultivou depois de tantos anos de domínio. Chineses decidindo preços e criando novos bolsões de pobreza. Aliás, por pior que pareça, haveria uma certa justiça em ver os chineses escravizando boa parte do mundo em bolsões de pobreza, nos fazendo trabalhar para eles a preço de nada, não acha?

Desculpe

Não tem nada que assuste mais do que uma invasão. Eu sei, porque minha casinha em Linhares foi arrombada uma vez. Eu não estava lá. Mas, quando cheguei, vi que estranhos a haviam invadido. E não levaram nada sabe, nada mesmo! Eu tenho livros. E o meu computador é sempre um computador com dez anos de idade ou mais, em cima da mesa. Dá preguiça de roubar. Esse episódio me perturbou mais do que o assalto no Rio. Que foi a mão armada. Com cano na cabeça e ameaças olho no olho.

Há algo de psicológico responsável por essa diferença. O evento no Rio deveria ser muito mais grave em minhas lembranças do que a invasão da casinha de Linhares. Mas não. Lembrar da casa bagunçada, das coisas reviradas, dá mais raiva em minhas lembranças do que as memórias dos instantes em que a vida esteve por um fio.

Eu sei que eu entrei nos seus espaços sem ser convidado. A página estava na internet, não é mesmo? Qualquer um no mundo poderia entrar lá. Mas era seu espaço. E meus comentários eram invasivos, bagunçavam a ordem natural das coisas. Toda vez que acesso sua página e vejo que o tempo vai passando, passando e passando, e você não escreve mais, fico pensando se tem algo a ver comigo.

Talvez seja pretensão demais por minha parte. Achar que eu, sozinho, teria tanto peso no silenciar de suas inspirações. Talvez tenha sido essa coisa mais horrenda, insensível e indiferente: o chegar da vida adulta. Torço por isso. Para não ser culpa minha. Mas isso também me entristece. Achar que eu poderia, algum dia, desfazer esse seu sumiço, me conforta de algum modo. Eu o faria se soubesse como. Já contra a vida adulta, o que posso fazer?

Você tem o trabalho. O cansaço dos ônibus de ir e vir. Os tempos contabilizando salários e contas. A comida para preparar. O apartamento pra arrumar. O namorado pra curtir. A família para visitar. Os amigos.

Quando tem aqueles tempos sozinha, você diante do teclado, você e seus sentimentos. Aquela solidão espiritual para psicografar belezas de lá de dentro. Foi a vida que silenciou seus escritos? Ou foi minha anônima impertinência? Se tive qualquer parcela nisso: desculpe.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Foto #012


Lembro do calor. Lembro da garrafa de água gelada que tomei num instante planckiano. Lembro dos meus amigos. Cansados. Mas dedicados ao trabalho. E lembro da sombra daquela bela árvore. Lembro do cheiro da sombra. Coisas que só existem no litoral.

Refutações

Ficaria feliz o Thomas Kuhn, o Popper e essa gente toda, ao saberem que fiz uma teoria falseável.

Mas estou com um problema quanto às conclusões.

Eu disse que a vida era algo que acontecia no terreno difuso entre os extremos óbvios.

Mas eu observei que eu escrevo mais, muito mais, quando estou muito feliz ou muito triste. Muito empolgado ou muito resguardado.

E agora não sei o que isso significa, porque sobraram duas conclusões possíveis.

Ou a vida acontece nos extremos, e minha primeira afirmação era falsa. Ou então a escrita não pertence, propriamente, à vida, e sim a algum domínio paralelo.

O que não deixa de ter, também, sua poesia.

Os tipos de família

Gosto de visitar as pessoas. Todas as pessoas. Visitas inesperadas, melhor ainda. Com o tempo fui aprendendo a diferenciar aquelas casas que recebem bem a surpresa e aquelas em que sou um visitante não anunciado, um incômodo a romper com a rotina diária. Gosto mais, é claro, do primeiro tipo.

E fui aprendendo que há dois tipos de família. Há aquelas em que, quando você está na mesa da cozinha contando histórias da tua vida, deve tomar cuidado para sequer mencionar uma mulher, dizer que ficou com alguém na balada ou que teve um caso com fulana ou ciclana. Vão julgar. Não que achem um absurdo a prática de procurar companhias por aí. Mas não é assunto para o coração central da casa. Vão olhar feio. Responder com silêncios.

E há aquelas famílias em que o diálogo se passa mais ou menos assim. Você começa a história, tateando, vendo até onde pode contar as coisas.

-Sabe quem eu fui ver ontem, de novo?

-Não, quem?

-A Michele.

-Olha só! Tá comendo?

Daí a mãe do meu amigo ri e responde:

-É claro que ele tá comendo! Acha que foi encontrar com a mina pela terceira vez pra falar de Big Brother? Ver o que ela achou do terrorismo na França? Ah, acorda né Rafael!

Famílias italianas. Adoro famílias italianas.

Por que fazem ficção?

Outro dia tomei em minhas mãos um grande volume de ficção. Imaginei quantas horas e horas e horas de trabalho foram desprendidas para se chegar àquele resultado. E aí fiquei pensando que somos uma espécie muito estranha. Tantos e tantos problemas reais, concretos, por serem resolvidos, e essa gente por ai, com os tecladinhos no colo, ou os tiozões ainda nas máquinas de escrever, inventando mundos que não existem. Diálogos que nunca aconteceram. Emergências que nunca ameaçaram ninguém e soluções impossíveis para problemas que nunca existiram.

Será que existe um ramo próprio nos estudos literários para tratar desse problema? Será que os antropólogos já pararam para pensar nisso?

Resolvemos muitos problemas práticos. Nós, a humanidade. Construímos pontes. Entendemos os movimentos do Sol. Aprendemos a plantar. Aprendemos a fazer roupas e a fazer máquinas para fazer roupas. Inventamos a roda.

Mas fico sentado aqui, nessa poltrona num canto da livraria, vendo quantos livros existem tratando de problemas reais e quantos existem tratando de qualquer outra coisa, histórias inventadas, romances, ficções... E penso que a abordagem de problemas reais é um evento acidental, um efeito colateral de nosso impulso maior: o impulso de criar histórias. Eventualmente, ao tratar de coisas reais, a história vai ter sua coerência auditada pela natureza do mundo. Ciência. Engenharia. Medicina. Mas em outros domínios as histórias são mais e mais livres e aí florescem com toda sua coerência.

O impulso de criar histórias é nosso impulso de tatear no escuro dos domínios desconhecidos.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Foto #011

Tem esse sentimento agora. De que parte da realidade olha para frente e parte olha para trás. Eu gosto do passado. Eu gosto de lembrar das coisas, sentí-las nas minhas lembranças. Talvez isso crie minha paz com o presente. Um gosto de passado acabando de escorrer, acabando de se tornar um antes, um outrora. Quero olhar para o meu passado e continuar tendo essas boas lembranças, mas é hora de olhar para frente.

Ah, se você soubesse

-Ow, seu cafageste!

-O que?

-Eu descobri, estou sabendo tudo!

-Tudo o que? Do que está falando?

-Sobre a outra!

-Que outra? E a gente nem é namorado!

-A outra página! Seu blog não é sua única página, não é? Há uma página secreta!

-Não é secreta, calma, eu só nunca tinha falado pra você!

-E daí que nunca tinha falado pra mim? Você conhece meu blog secreto. Eu te conto as coisas. Você não me conta nada. Mal amigo. Mal amigo!

-Eu te conto as coisas, claro! Não conto tudo, sei lá! Nunca achei que você fosse se interessar, só isso.

-Talez eu não fosse me interessar, mas caberia a mim julgar. Mas como é que eu poderia me interessar, ou não, sem ao menos saber que a página existia?

-Tá bom, tá bom, olhando por esse lado você tem alguma razão, mas agora você já conhece a página.

-Agora não adianta mais. Não vou ler mais. Ou, se eu ler, as coisas já passaram. Não tem sentido ficar lendo comentários sobre o que aconteceu há tanto tempo.

-Mas eu ainda leio todas as coisas que você escreve. E as antigas escritas há muito tempo.

-Afe, quanta perda de tempo. Já era. Não adianta mais.

History Channel

O ápice do império está no passado. O tempo é de transição de marés. Não sei para onde. Não sei quem vai conquistar sei lá quantos territórios nas próximas jogadas. Mas a nação que se construiu a partir da inventividade, do empreendedorismo e da livre iniciativa acabou por cometer um erro: construiu confortos demais e educação de menos. A lição que vai ficar dessa época, desses dois séculos, é a de que o progresso material humano não pode ocorrer independentemente do progresso intelectual. Infelizmente é muito mais fácil democratizar bens materiais do que cultura, e há pressões opostas operando. Bens materias são democratizados pelo consumo. Bens intelectuais não vendem tão bem. Não sei como será o futuro. Mas sei que não foi nessa geração que acertamos todas as tacadas.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Mais um a Deus

Uma mensagem no Whatsapp. "Ele não resistiu, morreu nesta noite." Mais novo que eu. Mais realizações que eu. Mais sonhos que eu.

O que eu lembro? Lembro da noite do bingo lá no clube. Ele estava animadíssimo. Comemorava cada número como a maior conquista da vida. Gritava, pulava. Criava um espírito de competição nos outros. Eu queria tirar meus bons números também para poder pular como ele. Queria ter minha sorte para poder ser feliz como ele estava sendo.

Ele será velado e enterrado hoje à tarde. Eu estou aqui, escrevendo sobre o assunto. Não éramos amigos próximos. Mas, ambos seres humanos, fico com essa sensação meio "soldado Ryan". Faça valer a pena. Estou vivo e parece até um tanto quanto injusto.

Eu não pensava nessas coisas quando era criança. Eu não pensava nessas coisas nem mesmo há poucos meses. Mas agora penso no quão bela e invejável e mesmo utópica é a imagem de todos morrendo de pura velhice, numa casa cheia de familia feliz, adultos, jovens e crianças. Uma morte com gosto de missão cumprida.

Foto #010


Ou o dia é bom. Ou não é.
Ou o amor é ruim. Ou é um tesão só.
Ou o cara tem que ir para a cadeia. Ou é vítima inocente e indefesa.
Ou o partido tá certo. Ou tá errado.
Ou o cara é corno. Ou não é.
Ou o café vem com leite. Ou vem puro.
Ou a grafia é errada. Ou é correta.
Realidade binária.
Mentalidade eletrônica.
Civilização binária.
Ou o mundo não vai acabar. Ou vai.
Ou somos culpados. Ou inocentes.
Ou estamos prozac. Ou coca-cola.
Ou SBT. Ou Globo.
Ou Imigrantes. Ou Anchieta.
O mundo é binário até no futebol. Ou é Pelé. Ou Maradona.
Ou é gol. Ou não é.
Vai ver o clichê é tão recorrente porque está correto: parando pra pensar, a vida, a humanidade toda... são bem como o futebol: o show todo é está no meio de campo, mas a contabilidade só enxerga os extremos.
Porque as interpretações ou são justas. Ou não são.

Sobre as piores impressões...

É mentira, eu sei que é mentira. Mas nos meus piores pesadelos eu tenho essa impressão de que o amor afasta. O amor repele. Talvez o meu amor. Talvez o meu jeito de amar. E isso cria um pânico que mal consigo descrever.

Quando deixei todos os exageros transparecerem, ela fugiu. Compreensível.

Quando amei de longe encarnei um fantasma, invisível. Ela não propriamente fugiu. Mas nunca me viu.

E quando amei por acaso, assim como veio, foi embora. Ela tinha as rotinas dela, as obrigações, os sonhos. Os trilhos nunca se tocaram. Passaram lado a lado e acenamos, de um trem ao outro, enquanto estivemos próximos.

Pensar que o amor repele é uma das coisas mais apavorantes que pode me ocorrer. Porque quero continuar amando. Quero continuar me apaixonando. Especialmente os amores sem explicação. Especialmente os amores inesperados. Especialmente os amores secretos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Rivotril

Tenho saudades da Keren. A Keren está agora sei lá aonde. Essas pessoas não pertencem ao dia-a-dia de ninguém. São do mundo. Passam por nós como passa também a água ou o ar. Nos enchem de vida, uma vida fundamental ainda que sem hollywoodianismos. E depois vão sei lá pra onde, continuar seu ciclo incompreensível.

"Menino Rivotril". Assim é que ela me chamava. Uma vez, revelando filmes na sala escura da faculdade, achei que fôssemos nos apaixonar. Nossos sussurros se entendiam de um jeito, de um jeito! Aquilo era romântico. Ou quando fomos viajar pelo sul da amazônia. Conhecer como viviam os garimpeiros. Achei ali que iríamos ser mortos. Não é legal ser olhado com desconfianças por gentes de armas nas mãos.

Mas ela se dizia calma por minha causa. "Brigada, menino Rivotril". E isso me acalmava.

Credenciais

  • Chefe, gostaria de pedir uma licença não-remunerada para buscar tentar seguir carreira na minha paixão pessoal.
  • Sério? Mas você é muito inteligente para isso!

[...obrigado?!]

A single shot

... aquele momento com um gosto amargo na boca. Estou na beirada do trampolim, um dos pés já boiando sobre o nada. Está escuro. Não sei se a piscina está com água ou vazia. Vou pular.

Foto #009


Esta cidade está vivendo uma seca sem precedentes na história moderna. E, ao mesmo tempo, carros e pessoas estão sendo levados por enchentes relâmpago. No fundo no fundo, São Paulo é uma síntese da tragédia humana.

Mortes sem sentido

Esse atentado na França está, como tantas outras coisas, me sufocando em minha própria ignorância. Tanta coisa que eu não entendo.

Não entendo tirar outra vida em nome de um deus, qualquer espécie de deus que seja.

Não entendo ofensas levadas ao extremo por coisas pequenas. Um cartoon. Ou a declaração de um artista na TV. Ou um costume de uma outra cultura manifestado na mesa ao lado.

Há alguns dias passou na Globo "O Pagador de Promessas". Se o Zé do Burro fez sua promessa num terreiro, a Iansã, então a igreja católica não deve aceitar sua devoção. Por que?

Está para surgir uma religião da união. Uma religião cujo deus seja, ele próprio, a aceitação do outro e, e cuja salvação seja a busca de uma harmoniosa convivência com as diferenças.

Talvez seja tudo culpa dessa mentira utópica. Somos todos iguais. Somos todos iguais. Racismo é errado, afinal somos todos iguais. Homofobia é errado, afinal somos todos iguais. O voto deve ser universal, afinal somos todos iguais. Quanta mentira, quanta mentira! Somos todos diferentes. E é esta a verdadeira razão pela qual devemos aceitar a todos igualmente.

Confesso que, ainda que alguns dias atrasado para ler tudo isso, estou triste e chocado. Sei que há tantas outras mortes sem sentido acontecendo. No trânsito. Nos hospitais. Nas casas. Nos esquecimentos. Mas não precisava, ainda, de mais essas...

Realizações

Ontem eu acordei e fiz café para mim mesmo. Sozinho.

Fervi água para café solúvel.

Lavei as laranjas e fiz uma bela laranjada. Elas estavam na geladeira, porque assim eu tenho laranjada gelada sem gelo.

Saí de casa. Dei bom dia para as pessoas na rua. Brinquei com um cachorro que vinha por ali, e mais adiante fui ignorado por um gatinho que fugiu dos meus primeiros "psss-psss-psss!".

Não resolvi a causa feminista.

Não me informei sobre os novos ministros.

Não impedi a destruição da Amazônia.

Sei que o pedaço de frango que comi no almoço vinha de produção industrializada.

Mas sorri para o garçom e para a moça do caixa que cobrou a conta.

Não assaltei ninguém.

Mas não impedi nenhum assalto.

Mas não fui assaltado.

Na média, o quão útil foi minha vida hoje? Fico com uma sensação boa de ter tido um dia prazeroso. E com um peso na consciência por não ter feito o bastante. O mundo é cheio de urgências. Tão cheio de urgências, e com tantas pessoas as ignorando, que talvez um dia de descanso, um dia ao acaso, já seja luxo demais. Escândalo inaceitável. E amanhã? E depois?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Professores

Quem foram os professores importantes em sua vida? Eu consigo me alguns.

Um professor de música. Não exatamente pelas aulas de música. Mas pela postura diante de tudo. Sempre disposto a rir. Das coisas engraçadas e dos problemas. Do aluno que não conseguia aprender e do dia em que invadiram a escola e roubaram alguns instrumentos. Tudo virava uma história divertida. Até comentei isso com ele. Foi uma das poucas vezes em que ele ficou sério, retrucando em seguida com seu linguajar peculiar: "mas claro, porra! vou ficar chorando da vida agora? Tanta coisa de ruim acontecendo e ainda vou deixar tudo pior choramingando por aí?". Me olhou sério. E, poucos segundos depois, começou a rir da minha cara de susto! "Calma aê que eu não vou te bater não Dodô!". Também tinha essa mania. Ninguém mais me chama de Dodô. Até tenho alguns apelidos. Variações de Adoniran ou um simpes Lê para o Leblon. Mas esse professor gostava de inventar apelidos.

Uma professora lá no primário. Os traços marcantes: era incorruptível, confiava em nosso potencial e era perfeccionista. "Você é capaz" era o que dizia sempre que pedia para alguém melhorar a lição.

Mas quem são, de verdade, nossos professores? Há tantos e tantos aqui que não vou poder homenagear.

Aquele pasteleiro lá da pequenina cidade do sul de Minas (nem lembro mais o nome da cidade, olha só que lástima!). Era perfeccinista e parecia, na verdade, que não estava interessado em vender pastel ou ganhar dinheiro. Estava interessado em agradar as pessoas que se sentavam ali para uma breve refeição. Seu pastel era praticamente uma obra de arte. E tinha boas conversas para quem se interessasse, ou uma boa postura profissional pra quem não queria ser incomodado (e, mais importante de tudo, era muito rápido em distinguir um tipo de gente do outro!).

Meu pai quando me ajudou a copiar a lição de um amigo e depois me deu a maior bronca não-bronca do mundo, me explicando, calma porém longamente, que naquela hora meu amigo estava brincando e fazendo qualquer outra coisa enquanto eu estava copiando a lição que não havia copiado na aula. Ele foi meu professor também, não foi?

De domínios e dominâncias

Meu irmão tem um pequeno império.

De certo modo posso dizer que as origens nunca foram as mesmas. A mesma família, a mesma casa, os mesmos pais, é verdade. É verdade. Mas a diferença de idade produziu uma certa diferença de mundos.

Ele saia para andar sozinho com o carro, pelo quarteirão. E eu podia ficar em casa. Matando o tempo como podia. Imaginando como deveria ser legal andar de carro por aí. No futuro, quando meus pés também alcançassem os pedais...

Hoje meu irmão tem um pequeno império.

Empresas. Ele faz negócios. Vende um carro e compra outro. Vende uma empresa e compra outra. De tempos em tempos se mete em encrencas. Inventa um negócio novo e dá um jeito de arrumar tudo.

E eu continuo introvertido. De certo modo, meus pés nunca alcaçaram os pedais e eu continuo achando um jeito para me distrair.

Falando assim parece algo carregado de fatalismo e um certo rancor, mas não é verdade. Enganos da narrativa exagerada. Sou o que sou e gosto de ser assim. Hoje fico inquieto quando meu tempo é consumido demais por empreendedorices em que não vejo muito sentido. Quero ter tempo para ler. Para as minhas músicas. Para as minhas viagens contemplativas. Para andar pelo centro. Da pequena Analândia ou pela Avenida Paulista. Que seja.