Vivem dizendo lá no Facebook: valorize as mulheres que têm mais livros do que sapatos.
Há um machismo sutil aí. Homens que pouco valorizam os livros também não valem nada.
O que é um heterônimo afinal? Uma vida escondida atrás de uma mentira? Ou uma verdade escondida atrás de uma vida?
Vivem dizendo lá no Facebook: valorize as mulheres que têm mais livros do que sapatos.
Há um machismo sutil aí. Homens que pouco valorizam os livros também não valem nada.

Quem define os limites para a humanidade?
Se não formos espertos o suficiente para reconhecermos nossos limites nós mesmos, de uma coisa tenho certeza: a natureza vai intervir, e sua força é absolutamente insuperável.
-Desde que, na infância, descobri Chico Buarque, tenho essa dupla sensação de maravilha descoberta e de que nada mais será tão belo.
Cecília, querida amiga, me entristece com essas palavras. Terminamos o chá. Rimos de fofocas triviais para encher os silêncios. E vou embora pensando na tristeza daquela declaração. Não desmerecendo em nada a obra do venerado Buarque, mas creio que minha querida amiga padece desse distúrbio de percepção que chamo de Fixação nos Absolutos. Somente o referencial absoluto importa e todo o resto perde escala.
Ela me lembra um amigo meu, Ricardo, que não conseguia ouvir, por um segundo que fosse, uma criança brincando com um instrumento musical.
E eu ali, maravilhado com o aprendizado acontecendo espontaneamente, diante dos meus olhos. E meu amigo, injustamente, comparando aquelas crianças com seus referenciais musicais abolutos, seja de rock, música clássica ou o que for.
Quanta injustiça cometemos contra nós mesmos, desprezando nossas capacidade de apreciar.
O procedimento a seguir deve ser adotado como obrigatório nas ocasiões pertinentes a fim de evitar a recorrência de problemas verificados recentemente:
-Ao tomar uma latinha de cerveja em uma mesa na calçada e, ao mesmo tempo, observar uma gostosa em trajes veranísticos correndo baywatchmente por aí, verificar sempre se o buraco da latinha está virado para o lado certo.
A civilização atual é caracterizada por um modo de vida baseado no crescimento das cidades. E cidades são agrupamentos humanos grandes o bastante para exigir que recursos necessários sejam trazidos de fora.
Quantos dias faltam para o fim do mundo?
Uma questão que, ao meu ver, é fundamental para uma profunda compreensão do verdadeiro papel da literatura na aventura humana: será que Anaïs Nin era boa de cama?

Eis que, em frente a uma sorveteria em São Sebastião, encontro esse grande triciclo. Está anunciado como o maior triciclo do mundo. Com a estupidez exagerada dos americanos vivendo no mesmo planeta, duvido que essa informação seja correta. Mas uma porção gringa dentro de mim diverte-se imaginando como seria chegar no sítio dos amigos com um desses. Ou a uma festa de casamento (a noiva iria me odiar até o fim dos dias, certamente). Ou simplesmente em frente à casa de alguém que pediu uma carona. "Sobe aê!".

A ilha de Páscoa é um lugarzinho boiando no meio do nada em que um punhado de seres humanos começou a consumir recursos e recursos da ilha, deixando a população crescer descontroladamente até que todos os recursos foram consumidos, o ecossistema local entrou em colapso, as pessoas guerrearam, brigaram contra os deuses ou choraram desoladas a morte dos outros, esperando chegar a derradeira vez. Um alerta que estamos ignorando. Nós, os habitantes do Planeta Páscoa.
Em um desses documentários super alarmistas, catastrofistas, precisos e corretos que podemos encontrar no YouTube, vi uma declarção interessante. "Eu quero sair desse sistema, mas agora o sistema está em todo lugar".
Para onde quer que você vá no mundo, o clima estará se alterando por consequencia da atividade humana no mundo. As espécies animais colapsando por alterações no meio ambiente. O regime das águas sendo alterados. Os raios solares tornando-se mais intensos por conta de danos nas camadas mais externas das nossas proteções planetárias (o que parece coisa de ficção, mas é uma imagem assustadoramente precisa).
Não há mais para onde fugir. A natureza foi engolida pela civilização.

Uma comparação que nunca consigo evitar: sempre que pego um avião e vou ali na janelinha, reparo nas manchas de cidade cercadas de natureza. E lembro das imagens das revistas científicas, mostrando células contaminadas.
Não consigo resistir. Vindo de uma cidade pequena, sinto-me conectado à vida das pessoas próximas. Assim, sei que minha vizinha trabalha na prefeitura, uma informação que não deveria me interessar. Uma outra coisa que parece ser cacoete de gente de cidade pequena: eu me interesso pelas notícias. Vejo o nível das represas e essa parece ser, no momento, a questão mais importante para esta cidade. Só que a cidade não acha isso. As notícias sobre as chuvas e o total sumiço das notícias de falta de água nas represas parecem sintomáticas de um sentimento de hollywoodianismo profundo. Algo que não se cura com cinco ou dez aninhos de terapia. Talvez isso explique porque, todos os dias, eu escute minha vizinha lavando o quintal. Mangueira na mão, aquele fiozinho de água saindo sem parar enquanto ela molha aqui, varre, molha ali, varre, molha ali mais um pouquinho, e assim vai por uma hora, uma hora e tanto. Já está chovendo, não está? Não há mais problema com as águas. Essa minha vizinha é louca. Essa cidade é louca. Talvez a humanidade inteira esteja condenada às suas esquizofrenias incuráveis.

Ouvi na lanchonete:
-Cara, foi sério mesmo, saiu até no jornal da Globo!
O problema com essa lógica é sua falaciosa recíproca: se não saiu na Globo, não foi lá tão importante. As pessoas aprendem essas regras subentendidas que depois ficam assim, impregnadas na civilidade de cada um igual piche quente e sujo ficaria preso num delicado vestido de noiva.

E se o mundo for acabar? Nada como nos cinemas. Não o mundo como o planeta inteiro, explodindo contra um super asteróide ou então invadidos por uma raça alienígena hostil. Mas o mundo tal como o conhecemos. O mundo, como diria Tutty Vasques, como tudo isso que está aí.
Variações no preço de petróleo. Falta de água em grandes cidades. Crise de xenofobia na Europa, que vinha se consolidando como o centro cosmopolita do mundo. Estados Unidos sucumbindo à estupidez que cultivou depois de tantos anos de domínio. Chineses decidindo preços e criando novos bolsões de pobreza. Aliás, por pior que pareça, haveria uma certa justiça em ver os chineses escravizando boa parte do mundo em bolsões de pobreza, nos fazendo trabalhar para eles a preço de nada, não acha?
Não tem nada que assuste mais do que uma invasão. Eu sei, porque minha casinha em Linhares foi arrombada uma vez. Eu não estava lá. Mas, quando cheguei, vi que estranhos a haviam invadido. E não levaram nada sabe, nada mesmo! Eu tenho livros. E o meu computador é sempre um computador com dez anos de idade ou mais, em cima da mesa. Dá preguiça de roubar. Esse episódio me perturbou mais do que o assalto no Rio. Que foi a mão armada. Com cano na cabeça e ameaças olho no olho.
Há algo de psicológico responsável por essa diferença. O evento no Rio deveria ser muito mais grave em minhas lembranças do que a invasão da casinha de Linhares. Mas não. Lembrar da casa bagunçada, das coisas reviradas, dá mais raiva em minhas lembranças do que as memórias dos instantes em que a vida esteve por um fio.
Eu sei que eu entrei nos seus espaços sem ser convidado. A página estava na internet, não é mesmo? Qualquer um no mundo poderia entrar lá. Mas era seu espaço. E meus comentários eram invasivos, bagunçavam a ordem natural das coisas. Toda vez que acesso sua página e vejo que o tempo vai passando, passando e passando, e você não escreve mais, fico pensando se tem algo a ver comigo.
Talvez seja pretensão demais por minha parte. Achar que eu, sozinho, teria tanto peso no silenciar de suas inspirações. Talvez tenha sido essa coisa mais horrenda, insensível e indiferente: o chegar da vida adulta. Torço por isso. Para não ser culpa minha. Mas isso também me entristece. Achar que eu poderia, algum dia, desfazer esse seu sumiço, me conforta de algum modo. Eu o faria se soubesse como. Já contra a vida adulta, o que posso fazer?
Você tem o trabalho. O cansaço dos ônibus de ir e vir. Os tempos contabilizando salários e contas. A comida para preparar. O apartamento pra arrumar. O namorado pra curtir. A família para visitar. Os amigos.
Quando tem aqueles tempos sozinha, você diante do teclado, você e seus sentimentos. Aquela solidão espiritual para psicografar belezas de lá de dentro. Foi a vida que silenciou seus escritos? Ou foi minha anônima impertinência? Se tive qualquer parcela nisso: desculpe.

Ficaria feliz o Thomas Kuhn, o Popper e essa gente toda, ao saberem que fiz uma teoria falseável.
Mas estou com um problema quanto às conclusões.
Eu disse que a vida era algo que acontecia no terreno difuso entre os extremos óbvios.
Mas eu observei que eu escrevo mais, muito mais, quando estou muito feliz ou muito triste. Muito empolgado ou muito resguardado.
E agora não sei o que isso significa, porque sobraram duas conclusões possíveis.
Ou a vida acontece nos extremos, e minha primeira afirmação era falsa. Ou então a escrita não pertence, propriamente, à vida, e sim a algum domínio paralelo.
O que não deixa de ter, também, sua poesia.
Gosto de visitar as pessoas. Todas as pessoas. Visitas inesperadas, melhor ainda. Com o tempo fui aprendendo a diferenciar aquelas casas que recebem bem a surpresa e aquelas em que sou um visitante não anunciado, um incômodo a romper com a rotina diária. Gosto mais, é claro, do primeiro tipo.
E fui aprendendo que há dois tipos de família. Há aquelas em que, quando você está na mesa da cozinha contando histórias da tua vida, deve tomar cuidado para sequer mencionar uma mulher, dizer que ficou com alguém na balada ou que teve um caso com fulana ou ciclana. Vão julgar. Não que achem um absurdo a prática de procurar companhias por aí. Mas não é assunto para o coração central da casa. Vão olhar feio. Responder com silêncios.
E há aquelas famílias em que o diálogo se passa mais ou menos assim. Você começa a história, tateando, vendo até onde pode contar as coisas.
-Sabe quem eu fui ver ontem, de novo?
-Não, quem?
-A Michele.
-Olha só! Tá comendo?
Daí a mãe do meu amigo ri e responde:
-É claro que ele tá comendo! Acha que foi encontrar com a mina pela terceira vez pra falar de Big Brother? Ver o que ela achou do terrorismo na França? Ah, acorda né Rafael!
Famílias italianas. Adoro famílias italianas.
Outro dia tomei em minhas mãos um grande volume de ficção. Imaginei quantas horas e horas e horas de trabalho foram desprendidas para se chegar àquele resultado. E aí fiquei pensando que somos uma espécie muito estranha. Tantos e tantos problemas reais, concretos, por serem resolvidos, e essa gente por ai, com os tecladinhos no colo, ou os tiozões ainda nas máquinas de escrever, inventando mundos que não existem. Diálogos que nunca aconteceram. Emergências que nunca ameaçaram ninguém e soluções impossíveis para problemas que nunca existiram.
Será que existe um ramo próprio nos estudos literários para tratar desse problema? Será que os antropólogos já pararam para pensar nisso?
Resolvemos muitos problemas práticos. Nós, a humanidade. Construímos pontes. Entendemos os movimentos do Sol. Aprendemos a plantar. Aprendemos a fazer roupas e a fazer máquinas para fazer roupas. Inventamos a roda.
Mas fico sentado aqui, nessa poltrona num canto da livraria, vendo quantos livros existem tratando de problemas reais e quantos existem tratando de qualquer outra coisa, histórias inventadas, romances, ficções... E penso que a abordagem de problemas reais é um evento acidental, um efeito colateral de nosso impulso maior: o impulso de criar histórias. Eventualmente, ao tratar de coisas reais, a história vai ter sua coerência auditada pela natureza do mundo. Ciência. Engenharia. Medicina. Mas em outros domínios as histórias são mais e mais livres e aí florescem com toda sua coerência.
O impulso de criar histórias é nosso impulso de tatear no escuro dos domínios desconhecidos.

Tem esse sentimento agora. De que parte da realidade olha para frente e parte olha para trás. Eu gosto do passado. Eu gosto de lembrar das coisas, sentí-las nas minhas lembranças. Talvez isso crie minha paz com o presente. Um gosto de passado acabando de escorrer, acabando de se tornar um antes, um outrora. Quero olhar para o meu passado e continuar tendo essas boas lembranças, mas é hora de olhar para frente.
-Ow, seu cafageste!
-O que?
-Eu descobri, estou sabendo tudo!
-Tudo o que? Do que está falando?
-Sobre a outra!
-Que outra? E a gente nem é namorado!
-A outra página! Seu blog não é sua única página, não é? Há uma página secreta!
-Não é secreta, calma, eu só nunca tinha falado pra você!
-E daí que nunca tinha falado pra mim? Você conhece meu blog secreto. Eu te conto as coisas. Você não me conta nada. Mal amigo. Mal amigo!
-Eu te conto as coisas, claro! Não conto tudo, sei lá! Nunca achei que você fosse se interessar, só isso.
-Talez eu não fosse me interessar, mas caberia a mim julgar. Mas como é que eu poderia me interessar, ou não, sem ao menos saber que a página existia?
-Tá bom, tá bom, olhando por esse lado você tem alguma razão, mas agora você já conhece a página.
-Agora não adianta mais. Não vou ler mais. Ou, se eu ler, as coisas já passaram. Não tem sentido ficar lendo comentários sobre o que aconteceu há tanto tempo.
-Mas eu ainda leio todas as coisas que você escreve. E as antigas escritas há muito tempo.
-Afe, quanta perda de tempo. Já era. Não adianta mais.
O ápice do império está no passado. O tempo é de transição de marés. Não sei para onde. Não sei quem vai conquistar sei lá quantos territórios nas próximas jogadas. Mas a nação que se construiu a partir da inventividade, do empreendedorismo e da livre iniciativa acabou por cometer um erro: construiu confortos demais e educação de menos. A lição que vai ficar dessa época, desses dois séculos, é a de que o progresso material humano não pode ocorrer independentemente do progresso intelectual. Infelizmente é muito mais fácil democratizar bens materiais do que cultura, e há pressões opostas operando. Bens materias são democratizados pelo consumo. Bens intelectuais não vendem tão bem. Não sei como será o futuro. Mas sei que não foi nessa geração que acertamos todas as tacadas.
Uma mensagem no Whatsapp. "Ele não resistiu, morreu nesta noite." Mais novo que eu. Mais realizações que eu. Mais sonhos que eu.
O que eu lembro? Lembro da noite do bingo lá no clube. Ele estava animadíssimo. Comemorava cada número como a maior conquista da vida. Gritava, pulava. Criava um espírito de competição nos outros. Eu queria tirar meus bons números também para poder pular como ele. Queria ter minha sorte para poder ser feliz como ele estava sendo.
Ele será velado e enterrado hoje à tarde. Eu estou aqui, escrevendo sobre o assunto. Não éramos amigos próximos. Mas, ambos seres humanos, fico com essa sensação meio "soldado Ryan". Faça valer a pena. Estou vivo e parece até um tanto quanto injusto.
Eu não pensava nessas coisas quando era criança. Eu não pensava nessas coisas nem mesmo há poucos meses. Mas agora penso no quão bela e invejável e mesmo utópica é a imagem de todos morrendo de pura velhice, numa casa cheia de familia feliz, adultos, jovens e crianças. Uma morte com gosto de missão cumprida.

É mentira, eu sei que é mentira. Mas nos meus piores pesadelos eu tenho essa impressão de que o amor afasta. O amor repele. Talvez o meu amor. Talvez o meu jeito de amar. E isso cria um pânico que mal consigo descrever.
Quando deixei todos os exageros transparecerem, ela fugiu. Compreensível.
Quando amei de longe encarnei um fantasma, invisível. Ela não propriamente fugiu. Mas nunca me viu.
E quando amei por acaso, assim como veio, foi embora. Ela tinha as rotinas dela, as obrigações, os sonhos. Os trilhos nunca se tocaram. Passaram lado a lado e acenamos, de um trem ao outro, enquanto estivemos próximos.
Pensar que o amor repele é uma das coisas mais apavorantes que pode me ocorrer. Porque quero continuar amando. Quero continuar me apaixonando. Especialmente os amores sem explicação. Especialmente os amores inesperados. Especialmente os amores secretos.
Tenho saudades da Keren. A Keren está agora sei lá aonde. Essas pessoas não pertencem ao dia-a-dia de ninguém. São do mundo. Passam por nós como passa também a água ou o ar. Nos enchem de vida, uma vida fundamental ainda que sem hollywoodianismos. E depois vão sei lá pra onde, continuar seu ciclo incompreensível.
"Menino Rivotril". Assim é que ela me chamava. Uma vez, revelando filmes na sala escura da faculdade, achei que fôssemos nos apaixonar. Nossos sussurros se entendiam de um jeito, de um jeito! Aquilo era romântico. Ou quando fomos viajar pelo sul da amazônia. Conhecer como viviam os garimpeiros. Achei ali que iríamos ser mortos. Não é legal ser olhado com desconfianças por gentes de armas nas mãos.
Mas ela se dizia calma por minha causa. "Brigada, menino Rivotril". E isso me acalmava.
[...obrigado?!]