quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Beijo do Gordo

Se eu fosse entrevistar o Jô Soares em alguma ocasião, perguntaria sobre sua ida à Globo. Depois de tanto mal que a Globo lhe causou. Depois de tantas deslealdades e golpes baixos que viu a Globo desprender não só contra si mesmo, mas contra tantos outros artistas, outras emissoras inteiras... Deixar o dinheiro falar mais alto? Por que? O SBT não iria renovar seu contrato? Ou simplesmente não poderia pagar a mesma quantia? O plano de saúde era melhor?

Mas não se trata apenas do Jô. Cada um de nós enfrenta, ao longo da vida, o mesmo tipo de dilema. E por diversas e diversas vezes. E o conflito é esse: defender princípios amplos ou meus interesses imediatos?

Vivemos em um mundo que aprendeu e ensina a segunda opção. A primeira só serve para deixar filmes e romances mais bonitinhos.

Foto #021

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Mistérios de Janeiro

Estou escrevendo. Estou lendo. De manhã, depois de tomar o primeiro copo d'água do dia. Depois com os pés estendidos sobre o puff, encostado no sofá e copo de suco de laranja fresquinho ao lado. E vou lendo, lendo. E antes de sair do trabalho, ainda escrevo mais um pouco. Vou para o trabalho. Num dia almoço com o pessoal do escritório. Noutro saio sozinho por aí, acho qualquer lugar nas vizinhanças da República que me chame a atenção. Almoço e leio um pouco. Nesses dias, prefiro sair mais tarde. Ou mais cedo. Porque entre meio dia e uma da tarde é uma loucura. Se você abre um livro à mesa sente-se imediatamente um folgado tomando o lugar dos outros. São Paulo. Cidade grande. Cheia de gente. Será que depois de janeiro será business as usual novamente? Vou dormir até mais tarde, consumido pelo cansaço e com sonhos embaralhados pelas insônias. Vou almoçar já pensando no sono da tarde e vou chegar em casa querendo desligar a cabeça? Se for assim, meu próximo livro vai precisar de vinte Janeiros para terminar de nascer. Ah, Janeiro... como você faz isso?

Foto #020

Métricas

Se o Raul Seixas tivesse se permitido ir ao Jardim Zoológico dar pipoca aos macacos, será que ele acabaria menos amargurado com a vida? Ou certas ragubentices existenciais trancendem as mais leves experiências reenergizantes?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Foto #019

 

 

Born to be a criminal

Em Madrid, a grande maioria dos jovens envolvidos com roubos são enviados pelos seus próprios pais, uma vez que até determinada idade elas não podem ser consideradas responsáveis pelos seus atos. Elas vão sozinhas e tentam roubar mochilas, bolsas. Ou, principalmente, dinheiro sendo sacado de caixas eletrônicos. Há favelas nas cercanias de Madrid. Favelas que fazem as favelas de São Paulo parecerem cidades modernas, limpas e avançadas.

A jovem menina, de treze anos, casou. Uma cerimônia bonita. Não em um lugar bonita. Não com um cheiro bonito. Mas com sorrisos, com pessoas reunidas. A jovem menina tem dois méritos fazendo do novo marido um homem de sorte. É uma virgem. E sabe roubar. É ágil para surrupiar bens alheios e ráida para correr.

Os pais estão orgulhosos.

Fronteiras da normalidade

Um punhado de pessoas morreu na França e o mundo acordou, novamente, para a cruel ameaça do terrorismo.

Apenas no trânsito, no mundo, vemos o mesmo número de morte a cada 8 minutos. Mas é normal.

O pobreza mata outros milhões por ano. Atacando cruelmente sejam velhos ou crianças. Mas é normal.

Erros hospitalares matam muito mais do que câncer, mas são erros velados, frequentemente a culpa é colocada sobre o próprio morto: ele não resistiu. Morreu. E é normal.

Mas o terrorismo... O terrorismo exige a intervenção de nações inteiras. Governos, polícias, exércitos. Comoção das emissoras e reclusão do povo. Porque não é normal.

Não é normal.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Indicadores do Macrocosmo

Se os noticiários e as campanhas políticas começarem a exibir indicadores de felicidade humana e pararem de mencionar indicadores de crescimento econômico, então a humanidade terá alguma chance de se salvar. Esse dia parece próximo pra você?

Foto #018


Daí o cara do meu lado, já todo adulto, falou "afe, que perda de tempo. Pagar pra ficarem girando você por aí."
E eu me pergunto se na vida toda não é assim. Aceitamos essas aventuras em que somos virados de cabeça pra baixo e submetidos a emoções que nem imaginávamos.

Indicadores e coisas indicadas

Vivem dizendo lá no Facebook: valorize as mulheres que têm mais livros do que sapatos.

Há um machismo sutil aí. Homens que pouco valorizam os livros também não valem nada.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Foto #017


Presunção humana em sua máxima expressão? Eu gostaria muito, muito, de ter botõezinhos para acertar, conforme a vontade, diversas coisas da vida.

Limites

Quem define os limites para a humanidade?

Se não formos espertos o suficiente para reconhecermos nossos limites nós mesmos, de uma coisa tenho certeza: a natureza vai intervir, e sua força é absolutamente insuperável.

Das maravilhas de se apaixonar

-Desde que, na infância, descobri Chico Buarque, tenho essa dupla sensação de maravilha descoberta e de que nada mais será tão belo.

Cecília, querida amiga, me entristece com essas palavras. Terminamos o chá. Rimos de fofocas triviais para encher os silêncios. E vou embora pensando na tristeza daquela declaração. Não desmerecendo em nada a obra do venerado Buarque, mas creio que minha querida amiga padece desse distúrbio de percepção que chamo de Fixação nos Absolutos. Somente o referencial absoluto importa e todo o resto perde escala.

Ela me lembra um amigo meu, Ricardo, que não conseguia ouvir, por um segundo que fosse, uma criança brincando com um instrumento musical.

  • Cacete, que barulheira dos infernos! Vai aprender a tocar primeiro antes de sair por aí fazendo barulho!

E eu ali, maravilhado com o aprendizado acontecendo espontaneamente, diante dos meus olhos. E meu amigo, injustamente, comparando aquelas crianças com seus referenciais musicais abolutos, seja de rock, música clássica ou o que for.

Quanta injustiça cometemos contra nós mesmos, desprezando nossas capacidade de apreciar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Checklist

O procedimento a seguir deve ser adotado como obrigatório nas ocasiões pertinentes a fim de evitar a recorrência de problemas verificados recentemente:

-Ao tomar uma latinha de cerveja em uma mesa na calçada e, ao mesmo tempo, observar uma gostosa em trajes veranísticos correndo baywatchmente por aí, verificar sempre se o buraco da latinha está virado para o lado certo.

Definições

A civilização atual é caracterizada por um modo de vida baseado no crescimento das cidades. E cidades são agrupamentos humanos grandes o bastante para exigir que recursos necessários sejam trazidos de fora.

Quantos dias faltam para o fim do mundo?

Fundamentos

Uma questão que, ao meu ver, é fundamental para uma profunda compreensão do verdadeiro papel da literatura na aventura humana: será que Anaïs Nin era boa de cama?

Foto #016

Eis que, em frente a uma sorveteria em São Sebastião, encontro esse grande triciclo. Está anunciado como o maior triciclo do mundo. Com a estupidez exagerada dos americanos vivendo no mesmo planeta, duvido que essa informação seja correta. Mas uma porção gringa dentro de mim diverte-se imaginando como seria chegar no sítio dos amigos com um desses. Ou a uma festa de casamento (a noiva iria me odiar até o fim dos dias, certamente). Ou simplesmente em frente à casa de alguém que pediu uma carona. "Sobe aê!".

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Foto #015


Obrigado pela visita nessa manhã improvável tão cheia de concretos e arquitetura morta, ó voador pedaço da natureza.

Feliz Páscoa!

A ilha de Páscoa é um lugarzinho boiando no meio do nada em que um punhado de seres humanos começou a consumir recursos e recursos da ilha, deixando a população crescer descontroladamente até que todos os recursos foram consumidos, o ecossistema local entrou em colapso, as pessoas guerrearam, brigaram contra os deuses ou choraram desoladas a morte dos outros, esperando chegar a derradeira vez. Um alerta que estamos ignorando. Nós, os habitantes do Planeta Páscoa.

Fagocitado

Em um desses documentários super alarmistas, catastrofistas, precisos e corretos que podemos encontrar no YouTube, vi uma declarção interessante. "Eu quero sair desse sistema, mas agora o sistema está em todo lugar".

Para onde quer que você vá no mundo, o clima estará se alterando por consequencia da atividade humana no mundo. As espécies animais colapsando por alterações no meio ambiente. O regime das águas sendo alterados. Os raios solares tornando-se mais intensos por conta de danos nas camadas mais externas das nossas proteções planetárias (o que parece coisa de ficção, mas é uma imagem assustadoramente precisa).

Não há mais para onde fugir. A natureza foi engolida pela civilização.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Câncer

Uma comparação que nunca consigo evitar: sempre que pego um avião e vou ali na janelinha, reparo nas manchas de cidade cercadas de natureza. E lembro das imagens das revistas científicas, mostrando células contaminadas.

Microcosmos

Não consigo resistir. Vindo de uma cidade pequena, sinto-me conectado à vida das pessoas próximas. Assim, sei que minha vizinha trabalha na prefeitura, uma informação que não deveria me interessar. Uma outra coisa que parece ser cacoete de gente de cidade pequena: eu me interesso pelas notícias. Vejo o nível das represas e essa parece ser, no momento, a questão mais importante para esta cidade. Só que a cidade não acha isso. As notícias sobre as chuvas e o total sumiço das notícias de falta de água nas represas parecem sintomáticas de um sentimento de hollywoodianismo profundo. Algo que não se cura com cinco ou dez aninhos de terapia. Talvez isso explique porque, todos os dias, eu escute minha vizinha lavando o quintal. Mangueira na mão, aquele fiozinho de água saindo sem parar enquanto ela molha aqui, varre, molha ali, varre, molha ali mais um pouquinho, e assim vai por uma hora, uma hora e tanto. Já está chovendo, não está? Não há mais problema com as águas. Essa minha vizinha é louca. Essa cidade é louca. Talvez a humanidade inteira esteja condenada às suas esquizofrenias incuráveis.

Foto #014


Há uma pilha acumulada sobre a mesa. Outros tantos e tantos e tantos nas estantes. Alguns em caixas. Outros em pilhas ao pé da estante. Um ou outro na cabeceira. Sempre uns três ou quatro na mochila.
Preciso deles. Não sei explicar. Sou o que sou graças a eles. Tudo o que li. Tudo o que penso quando acordo, olho para a janela. Quando a água escorre pela boca num dia quente. Quando olho para alguém. Nos olhos. Quando leio notícias. Quando tiro fotos.
Meus pensamentos, meus julgamentos, minhas idéias, minhas criações: meus livros. Obrigado por me ensinarem sobre o mundo o que eu jamais descobriria investigando sozinho por aí.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Medida de impacto

Ouvi na lanchonete:

-Cara, foi sério mesmo, saiu até no jornal da Globo!

O problema com essa lógica é sua falaciosa recíproca: se não saiu na Globo, não foi lá tão importante. As pessoas aprendem essas regras subentendidas que depois ficam assim, impregnadas na civilidade de cada um igual piche quente e sujo ficaria preso num delicado vestido de noiva.

Foto #013


Dizem que o não se deve exagerar nos enfeites. Mas que também não devem ser muito espalhados. Uma boa densidade de penduricalhos deve ser encontrada. E o estilo deve ser coerente, claro. Não vá me colocar heróis da disney, X-mens e afins, só porque seu filho gosta.
Essas receitas são típicas. Mas hoje, vendo fotos antigas dos natais, vejo que o que há de mais especial em uma árvore de natal é a união e alegria daqueles que a preparam. A festa que é para as crianças poder mexer com aqueles enfeites subitamente transmitados em brinquedos. Porque tudo é brinquedo na mão de uma criança feliz. E os adultos ao redor, sorrindo. Somos nós que enfeitamos as árvores, mais do que os enfeites em si. E um dos segredos que a Era Moderna esconde de todas as gentes é bem esse: poderíamos fazer isso com todas as árvores, todos os dias.

Conjecturas sobre o fim

E se o mundo for acabar? Nada como nos cinemas. Não o mundo como o planeta inteiro, explodindo contra um super asteróide ou então invadidos por uma raça alienígena hostil. Mas o mundo tal como o conhecemos. O mundo, como diria Tutty Vasques, como tudo isso que está aí.

Variações no preço de petróleo. Falta de água em grandes cidades. Crise de xenofobia na Europa, que vinha se consolidando como o centro cosmopolita do mundo. Estados Unidos sucumbindo à estupidez que cultivou depois de tantos anos de domínio. Chineses decidindo preços e criando novos bolsões de pobreza. Aliás, por pior que pareça, haveria uma certa justiça em ver os chineses escravizando boa parte do mundo em bolsões de pobreza, nos fazendo trabalhar para eles a preço de nada, não acha?

Desculpe

Não tem nada que assuste mais do que uma invasão. Eu sei, porque minha casinha em Linhares foi arrombada uma vez. Eu não estava lá. Mas, quando cheguei, vi que estranhos a haviam invadido. E não levaram nada sabe, nada mesmo! Eu tenho livros. E o meu computador é sempre um computador com dez anos de idade ou mais, em cima da mesa. Dá preguiça de roubar. Esse episódio me perturbou mais do que o assalto no Rio. Que foi a mão armada. Com cano na cabeça e ameaças olho no olho.

Há algo de psicológico responsável por essa diferença. O evento no Rio deveria ser muito mais grave em minhas lembranças do que a invasão da casinha de Linhares. Mas não. Lembrar da casa bagunçada, das coisas reviradas, dá mais raiva em minhas lembranças do que as memórias dos instantes em que a vida esteve por um fio.

Eu sei que eu entrei nos seus espaços sem ser convidado. A página estava na internet, não é mesmo? Qualquer um no mundo poderia entrar lá. Mas era seu espaço. E meus comentários eram invasivos, bagunçavam a ordem natural das coisas. Toda vez que acesso sua página e vejo que o tempo vai passando, passando e passando, e você não escreve mais, fico pensando se tem algo a ver comigo.

Talvez seja pretensão demais por minha parte. Achar que eu, sozinho, teria tanto peso no silenciar de suas inspirações. Talvez tenha sido essa coisa mais horrenda, insensível e indiferente: o chegar da vida adulta. Torço por isso. Para não ser culpa minha. Mas isso também me entristece. Achar que eu poderia, algum dia, desfazer esse seu sumiço, me conforta de algum modo. Eu o faria se soubesse como. Já contra a vida adulta, o que posso fazer?

Você tem o trabalho. O cansaço dos ônibus de ir e vir. Os tempos contabilizando salários e contas. A comida para preparar. O apartamento pra arrumar. O namorado pra curtir. A família para visitar. Os amigos.

Quando tem aqueles tempos sozinha, você diante do teclado, você e seus sentimentos. Aquela solidão espiritual para psicografar belezas de lá de dentro. Foi a vida que silenciou seus escritos? Ou foi minha anônima impertinência? Se tive qualquer parcela nisso: desculpe.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Foto #012


Lembro do calor. Lembro da garrafa de água gelada que tomei num instante planckiano. Lembro dos meus amigos. Cansados. Mas dedicados ao trabalho. E lembro da sombra daquela bela árvore. Lembro do cheiro da sombra. Coisas que só existem no litoral.

Refutações

Ficaria feliz o Thomas Kuhn, o Popper e essa gente toda, ao saberem que fiz uma teoria falseável.

Mas estou com um problema quanto às conclusões.

Eu disse que a vida era algo que acontecia no terreno difuso entre os extremos óbvios.

Mas eu observei que eu escrevo mais, muito mais, quando estou muito feliz ou muito triste. Muito empolgado ou muito resguardado.

E agora não sei o que isso significa, porque sobraram duas conclusões possíveis.

Ou a vida acontece nos extremos, e minha primeira afirmação era falsa. Ou então a escrita não pertence, propriamente, à vida, e sim a algum domínio paralelo.

O que não deixa de ter, também, sua poesia.