terça-feira, 3 de março de 2015

Foto #062


Diplomacia

Eu não pertenço a nenhum desses hectares todos. Fico no alojamento, anônimo. E, ousado, saio às cinco da manhã para caminhar. A matilha escuta o barulho destoante da rotina. Alerta. Latidos vindos da escuridão em direção à minha apreensão. Vinham mostrando os dentes, rosnando, assustando. Agachei-me e estendi a mão, para cheirarem. Pararam a um metro de mim, desconfiados. Aguardaram um pouco. Aproximaram-se. Cheiraram minha mão. E responderam à minha ausência de hostilidade ou de fuga de um jeito simples: dali adiante, me ignoraram. Quando as civilizações vão aprender a fazer o mesmo?

segunda-feira, 2 de março de 2015

Civilização de merda

São Paulo é a grande metrópole mais honesta de todas. A mais justa. Para uma raça de humanos que faz o que faz com o mundo, nada mais justo do que beber merda na água da torneira. Comer merda jogada até nas frutas, venenos pulverizados nas plantações. É coerente com nosso descaso pelo mundo. Somos ratos. Pretensão hipócrita essa de querer viver limpinho. Merecemos uma diarréia interminável até a morte por desidratação. Porque é essa a doença que somos para o mundo.

Foto #061





Essências

A equipe não é gigante, mas é bem heterogênea. O mais velho da turma parece ser também o mais moleque. Fica em seu mundinho, fala pouco. Faz piadas inocentes. Já disseram, em mais de uma ocasião e em inspirações independentes, que ele merece o "Troféu Praça-É-Nossa de Humor". Mas o mais velho da turma não está na equipe há muito tempo. Tem quem já está há muitos anos nesse serviço. E vai casar, inclusive. Já está nessas seriedades. Ainda assim, não dispensa uma boa conversa sobre puteiros ou um contato com a ninfetinha do Tinder. O mais novo, então, não só pela idade, ocupa outros extremos. Bebe mais que todos juntos. Chega à noite no alojamento e já traz um pack de cerveja. As latinhas acabam e ele sai para comprar mais. E em um dia normal haverá pelo menos mais uma viagem para buscar outro pack. Que ele jura estar bebendo com os amigos, mas não há amigo que acompanhe seu ritmo. É uma latinha minha para cada três ou quatro dele, e assim também com os demais. Vive no puteiro a ponto de ficar de namoro com uma das putas, que liga para ele todos os dias. Virou refúgio sentimental dessa moça tão acostumada à inexistência de espíritos. É uma equipe que não é gigante e é bem heterogênea. Juntos, com todas nossas diferenças, contamos histórias e rimos um do outro. Nas risadas a gente é igual.

domingo, 1 de março de 2015

Culpas

Amigo, vou falar com sinceridade. Essa responsabilidade não é sua. Somos todos adultos. Sim, a empresa é sua e os funcionários são seus. Mas estávamos a lazer. Lazer é lazer, não é trabalho. E digo de novo: somos todos adultos. Todos bebemos. Nenhum de nós exigiu a direção no lugar dos mais bêbados. Todos deixamos a coisa acontecer como aconteceu. Não nos alertamos pelas derrapadas que quase deram em besteira. Ao invés disso, rimos. Todos juntos, rimos. Não foi só você. Sim, você conhece a equipe, conhece o perfil de cada um. Mas isso não lhe faz mais responsável. Álcool e é álcool e eu não preciso ser um especialista em álcool ou especialista no perfil de cada um para ser mais responsável que você. Eu também deixei que o Léo dirigisse. Deixei que a coisa toda se passasse como passou. E só me senti realmente errado quando o carro já estava ali sobre a grama, de ponta cabeça. Aquele estrondo acorda a gente. Ainda bem que a porta abriu. Que tiramos vocês de dentro. Ainda bem que parou mais gente na estrada. Que ajudaram a quebrar a janela. E esta responsabilidade não é toda sua. É sua na mesma medida em que é minha, do Léo e de todos nós outros. Não aceito dizer "acontece" para diminuir nossa culpa. Praticamente imploramos para que esta pequena tragédia acontecesse. Já me imaginei em cadeira de rodas. Já me imaginei sem poder nem mesmo mexer as mãos para escrever, para virar uma página numa tarde inválida e longa. Não sei como isso não aconteceu. Sorte das sortes. Mas as sortes têm sua cota. Erramos todos. Faça um favor pra todo mundo e divida essa responsabilidade conosco, porque precisamos todos das lições desse erro.

Foto #060


Diagnósticos

Tem esse livro, que nos dias de hoje se compra baratinho até nas bancas de jornal. Amores que Matam. Relacionamentos tóxicos, fixação no outro que se torna prejudicial para si. Querida, minha querida... será que nosso amor é assim? Será que meu amor por você é assim? Pois eu sei que me deixei sofrer. Sei que deixei se desenvolver no meu peito esse lado do sentimento que dilacera e sangra o espírito. E não é justo, não é? Não é justo com você. Se hoje estamos distantes é porque fujo desse sofrimento. Um sofrimento que, imagino, você nunca quis para mim. Tenho você como pessoa querida e, ainda assim, tem tempos já que preciso evitar sua companhia. Pois ainda que tenha sempre um lado feliz, tem também esse confronto com o lado que dói. E nos nós dos contraditórios tem essa minha vontade de que não fosse assim, mas acima de tudo porque aí poderíamos ficar mais perto, nas circunstâncias que a vida deixasse. E sei que não é este o motivo certo para eu querer ficar bem.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Família

Dois irmãos. Um é desses dos negócios. Vende. Compra. Telefona. Anuncia. Combina. Fala com estranhos. Vai a lugares diferentes buscar um carro novo, levar o velho. Uma máquina nova. Arruma a velha. Um problema aqui. Outro ali. Resolve. O outro irmão é desses das palavras. Estantes grandes onde se guardam livros e livros e livros. Sai pouco de casa mas sente viajar pelo mundo. Pelas histórias. Tesouros escondidos. Mistérios das estrelas. Segredos do deserto. Duas vidas em muito opostas. Mas complementares.

Foto #059


Contato

Lá era só eu, o barulho do carro e o rugido da terra sob os pneus. Aquele verde que se desenrolava dos dois lados, denso feito espuma, feito esponja de banho. Macio mas impenetrável, intransponível. Mas tinha lá as criaturas que transpunham. No mais certo elas eram do tamanho apropriado. Miúdas feito corujas, passarinhos de cores nunca vistas antes. Preto em cima e branco dos lados, feito corinthiano. Ou marrons de tonalidade calibrada. E claro que muitas minhocas, moscas, vespas, besouros e essas miudezas andantes todas. Mas vi ali à frente o que não deixou dúvidas: era um focinho, focinho grande. Focinho canino. Freiei quase no susto do jeito que freia quem acabou de atropelar um caboclo desavisado. Freiei bem freiado mesmo. E o focinho logo ali na frente, me olhando. Tinha garoado à pouco. Fazia frio para aqueles lugares abertos. Longe de tudo. Longe demais da varanda mais próxima ou do saco de lixo cheio de restos mais próximo. Ficamos alguns minutos nesse olha daqui e olha dali. Eu não trazia comigo nem ração nem pedaços de carne pois não estava nos meus planos ou receios este inusitado encontro. Das coisas alimentares eu só trazia biscoitos. Gostosos, é verdade, mas no meu costume eram bons apenas acompanhados de café com leite e cobertos com manteiga fresca. Resolvi dividí-la com meu improvisado amigo. Abri a porta. Ele ali, olhando. Pé pra fora. Ele ali, olhando. Saí do carro e ao fazer-me plenamente vertical, zup! Ele desapareceu mata adentro. Que engano meu achar que aquela criatura das selvagerias suportaria qualquer próximo convívio. Voltei ao interno do veículo, dei partida e segui em primeira. Ao passar por onde estava o cachorro joguei uma mãozada cheia dos biscoitos todos ao mato, a esmo, sem nem sinal dele, e segui ali mais adiante. Desliguei novamente o carro uns tantos metros lá pra lá e fiquei com os olhos grudados no espelho retrovisor, sem nem o rosto por pra fora do carro, já que é dos instintos catingueiros fugir de outros rostos. Quando vi num repente ressurgir ali o focinho a farejar os biscoitos jogados, religuei o automóvel e meu caminho segui.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

BR-020

A rotatória liga a estrada que cruza o cerrado no sentido norte-sul com aquela que derrama asfalto para além dos horizontes do leste. Ao longo de sua circunferência são dezoito cruzes de madeira. Quem passa tem a impressão de que foi um ônibus a se acidentar ali. Mas foram diversos acidentes separados. Cada um levando um punhado de vidas. Distração de segundos e agora uma cruz de madeira, fincada na grama.

Foto #058


Horas de Sonhos

Você fala de como a vida é bonita dessa beleza que os adolecentes de colegial não entendem e aí eu quero poder te olhar nos olhos e admirar este olhar que tanta coisa bonita vê, que só pode ser um olhar bonito. Você fala das rimas que admira, do frio na barriga nas ansiedades da vida. E eu leio, leio, leio. Tão distante. No tempo. No espaço. Na vida. Só as palavrinhas me chegaram. E ainda assim penso como seria rir com você. Tão longe, tão abstrata. Só o papel me veio. E ainda assim penso em que textura teria sua mão ao admirar o pôr do sol lá em cima da montanha.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O andar da vida

Por que o ar condicionado começou a vazar água?

Tenho que assinar três vias do acompanhamento de estágio da menina nova.

A quantos quilômetros por hora os carros estavam quando bateram?

Tenho que terminar o trabalho cujo prazo está estourado em dois meses.

Quando foi a última vez que liguei para minha mãe?

Parei a leitura do livro que comprei no aeroporto. No segundo capítulo.

Onde está dona Maria, com quem fiquei conversando na Rodoviária?

Cai uma garoa e as tensões se acalmam, mas a seca continua se aproximando.

Quando vou comprar um carro novo?

Assisto filmes europeus e rezo para aquela beleza não ser da boca pra fora.

O que é amor de verdade?

Foto #057


Das distâncias

Tem uma coisa que eu gosto na internet. Ela faz com que a gente tenha acesso a muitas coisas distantes e em muitos momentos importantes. Mas tem uma coisa que eu não gosto da internet. Ela não tem me permitido experimentar um verdadeiro isolamento ou senso de distância. Quando eu era pequeno viajava para a cidade em que meu pai nasceu. Não ficava muito longe da capital. Só uns duzentos quilômetros. Mas nos tempos do Fusca isso eram várias horas. E nos tempos da infância as várias horas era uma longa eternidade necessariamente pontuada por sonos no banco de trás. Ao chegar lá, um outro mundo. Um mês de férias sem saber das coisas da cidade. Sem saber de notícias das pessoas. Tempo para ver as coisas locais. Os cheiros. Os doces da pequena cidade. Os tipos diferentes de flores e árvores no meio do mato. Hoje não. Hoje viajo para muito mais longe. Mil. Mil e quinhentos. Dois mil quilômetros nas entranhas do Brasil. E se tiver sinal de internet, Whatsapp e o escambau, continuo me sentindo no meio da Av. Paulista.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Foto #056


Tem em todo lugar

-Fica tranquilo. Campo de futebol, puteiro e buteco tem em todo lugar. Então o buteco você vai achar, com certeza!
-Hum... e esse puteiro, acha que é garantido mesmo?

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Raspão

Mais uma vez, a morte passou perto. O barulho da lataria amassando, do vidro estilhaçando. E da borracha raspando contra o asfalto. Memórias confusas, enevoadas. Distantes como se fosse já há décadas. Foi há menos de trinta horas. Ter acontecido o que aconteceu foi azar. Um carro colidindo com outro. A capotagem. Os pedestres surgindo no meio da pista, saídos daquele breu negro na última hora. Mas foi sorte também. Não colidimos de frente com outro veículo. Não desviamos para cima daquela família de andarilhos. Não batemos contra uma árvore quando capotamos para fora da estrada. Não ficamos prensados nas ferragens. Não quebramos um osso sequer. Nossas pernas ainda funcionam. Foi só ferro torcido e um grande susto. Mas é difícil acreditar nisso, vendo as fotos. Não gosto de ficar flertando com a morte assim. Tivemos nossa culpa. Todos tivemos. Vamos passear? Vamos ver a cachoeira? Vamos ver a reserva? Vamos, vamos, vamos! E vamos comprar mais cerveja e vamos bebendo o caminho todo. Fizemos as contas depois. Foram seis packs e meio de cerveja. Em cinco pessoas. Detalhe: eu praticamente não bebo, devo ter bebido três latinhas. Detalhe: não era eu dirigindo. Por que eu não exigi a direção? Que idiotice, quanta idiotice! Não gosto de flertar assim com a morte. Mas a gente deixa. A gente sempre deixa. Sempre acha que não vai ser dessa vez. Na hora, quando o acidente mostra que vai acontecer, não há mais nada para fazer. Gritos de FREIA! DESVIA! VOLTA! DIREITA! ESQUERDA! Nada mais funciona. De repente, quem está dirigindo o veículo é a inércia e quem faz as curvas são os obstáculos à frente. Dessa vez escapei. Escapamos.

Foto #055


Continuum

Não, o conhecimento intelectual não é dicotômico. Se posso fazer uma analogia matemática, meio à moda de Lacan, mas com muito mais propriedade que ele (porque eu sei o que estou fazendo, vou me explicar, e há uma pertinência no que vou dizer), aqui está: o conhecimento intelectual distribui-se sobre um continuum. Assim como entre qualquer número racional encontra-se um outro número racional, criando uma sequencia de números efetivamente sem nenhum espaço entre si (não importa o quão próximos dois números estejam, sempre existem infinitos números entre eles!), assim também o é com o conhecimento humano. Não existe loucura de um lado, razão do outro, e um vazio no meio. Prova disso é montanha de papel que já se gastou com a doutrina filosófica do Solipsismo. Que nada mais é do que a loucura dos manicômios e dos botecos, manifesta em quem senta em poltronas confortáveis e tem tempo de sobra para não usar em nada que preste. Mas, de coisa inútil em coisa inútil, a humanidade vai se construindo. Até eu aqui, escrevendo essa coisa que ninguém vai ler, num site que ninguém acessa, sou parte da marcha adiante.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Locus

Nos muitos milhares de quilômetros de estradas que vascularizam a atrofiada economia brasileira, encontrar auxílio muitas vezes é uma aventura em si. Auxílio, veja bem, qualquer que seja. Um posto de gasolina. Um banheiro. Um lugar para comer uma coxinha com coca-cola. Um borracheiro. E teve uma vez que vivi isso de perto. Estava lá para aqueles lados do norte. Eram quilômetros e quilômetros de estrada de terra para sair da fazenda. Choveu, atolou. Eu sempre tinha uma garrafa de água grande no carro e alguns salgadinhos também, biscoitos, essas coisas. Vai que eu fico atolado ali. Pode ser que só passe uma possível ajuda no dia seguinte. Ou depois. E eu vivo do que? Posso até passar um aperto, mas passar sede absoluta no meio do mato? Isso é coisa de quem vive em São Paulo.

Um dos pneus do carro dizia: vou estourar logo mais! Na cidade a gente não se preocupa tanto. Ou estoura, ou não estoura. Dá um certo medo de estourar na estrada, de provocar um acidente. Aqui, nesse contrasenso que é um lugar sem ninguém em que o homem já destruiu tudo (não há mais floresta nativa quase em parte alguma), acidente é o de menos. Perigo mesmo é o ficar parado. Eu tinha que dar um jeito de arrumá-lo. Disseram que tinha um posto de combustível, seguindo depois da estrada de asfalto, pegando à esquerda. Mais sessenta e cinco quilômetros. Era mais perto. Tem borracharia lá? Tem sim! Maravilha. Fui.

Chovia. Estrada. Plantações dos dois lados. Terrenos vazios. Passaram as máquinas e decidiram que não valia a pena plantar nada. Quilômetros. Quilômetros. Quilômetros. Quilômetros. Buraco. Uma curva. Vira um pouquinho a direita. Parece que começou a subir. Uma leve subida. Mas pelos próximos cinco quilômetros a diferença de altitude será considerável. Um ônibus passa. Um ônibus! Fico com a impressão de que essa estrada é movimentada demais. Um ônibus! E parecia ter muita gente dentro, que coisa. Quilômetros. Quilômetros. Quilômetros. Fico conhecendo todas as trepidações do carro. Como ele se comporta a oitenta quilômetros por hora. A noventa. A noventa e cinco. E decido não passar mais disso. A direção parece querer se arrancar do painel, pular no meu colo e sair correndo. Nunca vi trepidação assim.

Começo a ver algo ao longe, à esquerda. Uma construção, algumas placas. Será que é ali o posto? Vou me aproximando e vejo a placa: Hospedaria. O hotel parece um pequeno vilarejo. Uma sede, uma área central aberta para a estrada, um grande pátio de terra batida, e ao redor os quartos individuais, dispostos. Um mini tabuleiro de banco imobiliário em que ninguém conseguiu ainda fazer uma grande construção. Só casinhas pequenas. Mais à frente o símbolo mundialmente famoso. Shell. Aproveito para abastecer toda a gasolina que gastei até ali e pergunto pela borracharia. É ali atrás, virando ali ó moço. Pago o combustível e vou até lá.

Sob o alto telhado, protegidos da chuva densa que insistia em cair, os três mais velhos jogam dominó e o menino fica ali ao lado, observando. Olá! Desculpe atrapalhar o jogo de vocês. Não tem nada não moço, não tá atrapalhando, veio foi é ajudar. Claro, penso. Estou ajudando. Esse tédio que deve ser ficar olhando o jogo dos outros. Ou será que ele já havia jogado também e tinha perdido? Quanto tempo faz que eu não jogo dominó? Não consigo me lembrar. Conto sobre o problema com o pneu, sobre o caráter preventivo de minha visita ali. O garoto, metade do meu tamanho, um terço da espessura do meu tronco, parece querer sair voando com aquele vento. Mas toma em mãos a chave em cruz e desfecha golpes contra os parafusos todos. Retira a roda e a dedica empenhadas marretadas contra todos os amassados. Ao lado, os três seguem no jogo de dominó, indiferentes ao esforço do menino. E conversam nesses sussuros cheios de sotaque local que a gente não consegue entender. Será que estão falando algo de mim? Será que estão contando histórias à toa? Será que estão falando de mulheres? Uma borracharia, no meio do nada, isolada em um dia de chuva... como imaginar que não estariam falando de mulher?

O tempo ali estava parado. Nem o "movimento" no posto de gasolina, logo ali à frente, era observável de onde estávamos, já que a borracharia era instalada nos fundos de lugar nenhum. O tempo parado. Mas os três ali, jogando dominó e rindo. E eu os observando. Há quanto tempo que eu não parava para jogar dominó fosse com quem fosse? Ou um carteado à toa. Os trabalhos seguidos de trabalhos imprimem uma urgência ao tempo. Mas essa urgência não é inerente aos tics do relógio. Ali estavam os três desafiando o lado pesado da vida. Não sobrava dinheiro em parte alguma. A vida não estava resolvida. Talvez as contas não fechariam no fim do mês, se não parassem veículos suficientes ali com seus pneus furados. Mas e daí? Isso era coisa de depois. Agora, agora só importava ver se alguém iria colocar uma pedra com um cinco sobre a mesa para poder usar também o cinco que tenho à mão. Assim que funciona. Fiquei ali, observando-os jogar. E morrendo de inveja.

Foto #054


Casca

Eu acreditei por um bom tempo que você defendesse elevados valores morais. E, bem, você os defende. Mas e quanto à prática? Vai ver é um princípio humano. A ética é o véu de imunidade que desenvolvemos para burlá-la.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O tempo

Outro dia parei pra pensar e tive as idéias mais grandiosas de todas. As histórias para escrever. As fotografias artísticas ultra criativas. As viagens cheias de narrativas inspiradoras. O tempo passou e eu, ali, sentado, envelheci e morri.

Foto #053


Perfil

Um cachorro maltratado é aquele que tende a morder sua mão quando você tenta fazer carinho na cabeça dele. É justamente o cãozinho que mais precisa de carinho, mas é o que acaba mordendo sua mão. E as pessoas continuam achando que são diferentes. Não são. As pessoas que mais precisam de carinho são aquelas que tendem a "morder". São ríspidas, não manifestam empatia com os outros. Não estão acostumadas à idéia de poder manifestar suas carências. À idéia de se abrirem para os pequenos prazeres da boa convivência. O mundo sempre foi um lugar selvagem em que sobreviver custa muita briga. Mas eu gosto dos cachorros. E gosto das pessoas. Ainda acredito nos dois.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Pólis

Cada vez mais eu me impressiono com a falta de água no Brasil. O país da água. O país cheio de rios. O país das enchentes de verão. E falta água. Vamos morrer de sede. Algo está errado nessa questão. Não sabemos cuidar da própria casa. Aprendemos a não nos importar com a política e a política aprendeu a não se importar com a gente.

Foto #052