domingo, 15 de outubro de 2017

A era das navegações

São todos ilhas, separados por milhares e milhares de mares intransponíveis. Ou quase. É possível navegar. Mas para que se chega até o outro? Há os colonizadores que chegam para tirar vantagens. E há os exploradores que chegam para conhecer os novos mundos. Assim ocorre nos mundos de fora. Assim ocorre nos mundos de dentro.

sábado, 14 de outubro de 2017

Projetos de vida

Eu queria ser astronauta. Mas eu não sabia que minha preguiça em correr e andar de bicicleta e aprender inglês e estudar aquelas coisas complicadas de química orgânica iriam, em conjunto, configurar um grande impedimento. Também não tinha a noção de que havia nascido no país errado. Ainda que possível ser astronauta enquanto Brasileiro, enquanto escrevo as chances de sucesso para essa categoria são de cerca de de 1 para 200 milhões (0,000000005). Depois eu quis ser sociólogo. E quem sabe me tornar um político e atuar pela melhoria da educação. Mas eu não sabia que minha aversão a me misturar com as pessoas do centro acadêmico seriam um grande impedimento. Eu não sabia que me concentrar em estudar e ter boas notas não saria suficiente. E não estava preparado para um pânico que, por esta época, tomou conta até dos meus ossos: onde é que eu iria ganhar dinheiro?
Depois eu quis ser um engenheiro. Fiquei no básico: arrumei um diploma e um emprego com uma mesa e um computador. Mas faltavam coisas. Uma ambinção empreendedora que me motivasse a correr atrás do dinheiro. Eu ficava encantado demais com complicados modelos matemáticos e gráficos exóticos enquanto a carreira, fui descobrir depois, não saia do lugar. Fiquei depressivo.
Aí decidi ser piloto. Coisa com que eu flertava desde criança. Coisa que me levaria de volta a esse meio mágico e maravilhoso. Mas eu já estava ficando velho. "Moleques" dez anos mais velhos que eu já estavam com todos os brevês na mão e conseguindo seus empregos nas grandes companhias aéreas. Quem iria querer um engenheiro já algo barrigudo como novato copiloto? E eu não estava preparado para o bairrismo dos instrutores de voo que não me davam oportunidade porque, bem, eu era um cara de fora. Não era da cidade deles. E era um forasteiro cheio de diplomas e títulos nerds... O que eu estava fazendo ali? Briguei e me desgastei mas isso de nada adianta.
Isso sem contar as outras iniciativas, menos oficiais, que também não deram em nada. Fotógrafo de festas. Professor de inglês. Tradutor de trabalhos escolares. Guia para estrangeiros. Clarinetista em barzinhos. Cantor de bandas amadoras. Blogueiro de assuntos aleatórios. Historiador. Cientista de sistemas complexos. Uma infinidade de áreas exóticas às quais me dediquei por um tempo só para, no meio das complicações da vida, perceber que a correnteza havia mudado antes que eu pudesse me amarrar firmemente a algum atracadouro.
Até que, tempos atrás, descobri algo que eu comecei lá na infância e que nunca parei de praticar. Escrevo. Escrevo contando meus dias, meus namoros, minhas engenharias, minha aviação. Escrevo contando meus sucessos, meus fracassos, meus pensamentos, minhas dores. Escrevo praticando ser essa coisa que, ainda que falhe, não deixará de ter seu sucesso, porque se provou inescapável em minha vida. Descobri que não coleciono diversos projetos de vida que falharam. Descobri que estou fazendo exatamente o que um escritor deve fazer: explorando o máximo do mundo que posso.

Refúgios

Ouvi uma autora na Flip, e nem lembro quem era, dizer que a página em branco a assustava porque não estava acostumada a lidar com tamanha liberdade. Foi por isso que criei este blog. Uma grande página em branco. Precisava ser publicado. Nada do refúgio seguro das gavetas mofadas. Precisava ter outro nome. Precisava ter outra vida. Nada disso deveria me assustar. Nada disso deveria me prender. A liberdade de ser, nos textos, qualquer outro universo que eu quisesse. Mas há gente lendo. Há pessoas conhecidas lendo. Que erro, que erro! Erro? Preciso lidar com isso. Todos deveriam, na verdade. Explorar os limites absolutos das liberdades de pensamento. Visitar loucuras e voltar. Sair dos trilhos dos estilos e expectativas. Colonizar imaginários selvagens e suas especiarias ainda inexploradas.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Não quero falar com você pelos próximos 20 anos

Sei que a linguagem escrita tem seus problemas de interpretação. O principal deles, nos tempos modernos em que nossa interação cotidiana se dá por mensagens de texto no celular, é a confusão entre uma brincadeira e uma mensagem séria.
Outro dia fiz uma brincadeira com uma amiga. Insinuei que talvez eu não daria muita atenção à ela em nosso próximo encontro de propósito, tal como havia incidentalmente acontecido no encontro anterior devido a outros compromissos meus.
E aí ela respondeu assim:
-Não quero falar com você pelos próximos vinte anos
De início eu ri. Ri porque li como um gracejo. Uma mensagem de humor.
Depois, quando considerei por algum momento que ela estava falando sério, aconteceu algo que eu não esperava: doeu. Uma dor profunda, dessas que acontece com a gente quando algo muito grave acontece, algo que realmente não queremos na nossa vida. Como a perda de um ente querido, o término do casamento, a morte do cachorrinho querido ou a descoberta de que papai noel não existe.
Vinte anos é muito tempo.
Fiquei torcendo para que as coisas se esclarecessem antes. Bem antes.

Nada

Nunca me senti tão nada.
Tão ausente dos seus pensamentos.
Tão insignificante nas suas manhãs.
Tão inexistente nos seus travesseiros.
Você me desapareceu.
Ainda me vejo por você.
Sinto-me desaparecido de mim.
Encontrarei um jeito de quebrar
Essa destrutiva mecânica
Deixarei de te olhar
Para me enxergar novamente

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Choro

Você não quer falar comigo. Você não lê as mensagens que eu escrevo. Você nunca tem a iniciativa de falar comigo. Você não me conta do seu dia. Você não consegue me dizer três ou quatro palavras carinhosas para me deixar feliz. É esforço demais.
O que você sente por mim?
Por que eu insisto em querer quebrar uma parede que você insiste em reforçar, em deixar mais e mais e mais espessa?
Vim para longe, mas só consigo sentir que me quer ainda mais longe.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Manifesto contra os dias jogados fora

A humanidade já fez revoluções pelo petróleo. Pelo ouro. Para defender suas terras. E continuamos perdendo nosso bem mais sagrado e fundamental sem perceber. Nosso tempo. Essa entidade abstrata que não pode ser colocada em containers e escapa a um controle rígido do governo: o tempo continua fluindo a uma taxa constante. Mas o tempo psicológico, o tempo da nossa existência, esse é sim engolido e devorado pela vida moderna. O tempo no trânsito. O tempo em que estamos rendidos ao cansaço. Os filhos lá brincando, lendo histórias, você lá em estilhaços sobre o sofá sem entender o que se passa ao redor. Estaria mais consciente da vida se estivesse em coma em uma UTI.
Por isso estou escrevendo este manifesto contra os dias jogados fora. Um espectro ronda os trabalhadores do mundo. E os vagabundos. E os boêmios. E os ricos: o desperdício dos dias. É um recurso valioso que vai embora para nunca mais voltar. Os dias se perdem quando você se rende ao sofá. Às reprises de série. O tempo se perde quando você se alimenta mal e joga seu corpo na lata do lixo da preguiça. O tempo é aniquilado quando você deixa para ligar para aquele seu amigo ou amiga depois.
Precisamos lutar como gladiadores para salvar nosso tempo. Colocar energia nessa missão. Escrever de tempos em tempos para nossos queridos. Um e-mail, uma mensagem de whatsapp ou, quem sabe, uma carta no papel e caneta, colocada no correio. Precisamos fazer uma caminhada. Às vezes sozinhos, às vezes acompanhados. Precisamos de tempo para aquelas coisas de que gostamos. Nossos projetos pessoais. Seja brincar com o cachorro, ensinar tabuada para o filho ou pintar bugigangas de artesanato. Todas as categorias são válidas desde que estejam conectadas ao seu coração. Se sua grande paixão é ler livros de administração, ou pintar suas unhas ou trocar de piercing, não importa... mergulhe em suas paixões sem medo. Recupere o tempo que está se esvaindo pelos ralos.
E não caia na armadilha do desespero pela eficiência. Coisa que os americanos inventaram para transformar uma causa justa em neurose (coisa em que eles, aliás, são muito bons). Usar bem o tempo signifia que quando o que você quiser fazer for precisamente não fazer nada, precisa fazer isso direito. Nada de celular, televisão, distrações... Encontre seu refúgio de paz e seja um fazedor de nada digno de louvor. Há também aí toda uma arte escondida.
Estamos em uma civilização que decidiu se jogar no lixo. Destruir rios, deturpar a economia, se mutilar em guerras e cultivar a ignorância. Nosso último reduto de salvação é nossa existência interior. E o terreno que essa existência ocupa é o terreno do tempo. É por aí que devemos começar a nos proteger e daí que devemos iniciar nossa revolução se for para, algum dia, ter condições de voltarmos a brigar pelo resto.

Silêncio

Eu queria lhe contar as coisas. O que eu comi de sobremesa. E como o universo foi feito. A velhinha que eu vi no ponto do ônibus e como a música funciona.
Mas só havia silêncio.
Seus silêncios me envolveram.
Escuros e frios.
Doem nas veias dos braços
Desligam as pernas.
Silêncio.
Silêncios
Eu queria lhe contar as coisas.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Ciência dos materiais

Diz a lei de Hook que pequenas tensões produzem pequenas deformações. Estas, ainda, são proporcionais. Isto é: um pequeno aumento na tenção leva a um pequeno aumento na deformação. Sabemos, porém, que tensões maiores podem produzir tensões permanentes. Esforços exagerados, ainda podem levar ao que se denomina genericamente por ruptura. Grandes tensões não são a única forma de produzir ruptura. Há também algo conhecido como "fadiga": a repetição de pequenas tensões alternadamente que acumulam, ciclo após ciclo, mais uma micro-ruptura, e outra e outra, até que o colapso completo seja inevitável.

Eu nunca sei quando estes livros estão falando de vigas ou de corações.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Manual do Adoniran, pg 78

Regra 313 - Não gosto de ficar longamente ao telefone. O tempo sozinho é algo raro na vida de hoje e das duas, uma: ou não poderei atender por estar em algum trabalho envolvendo outras pessoas, ou estarei sozinho, o que é socialmente visto como a condição em que posso atender o telefone. Mas não é o meu caso. Este é o horário mais ocupado do meu dia. Aquela pequena fração da existência em que eu posso ficar em contato comigo mesmo. Ler meus livros. Assistir meus documentários sobre o universo, a biologia, a sexualidade, o tráfico de armas, a direita e a esquerda e o equilibrista exótico. E, muitas vezes, é a janela de horário em que eu posso ficar deitado, olhando para o teto me concentrando no silêncio até poder escutar meus pensamentos. Porque com o barulho da vida moderna nossos pensamentos ficam tão lá dentro, tão quietos. Respeite isso. Não fique horas comigo ao telefone. Pelo amor de deus. Por obséquio. Por misericórdia. Quando estiver mesmo com saudade, me visite e chame para uma caminhada. Aí vou te amar.

Mecânica

Ela quis ser difícil
Questão de prudência
Conseguiu o amor
Amor à distância

domingo, 8 de outubro de 2017

Garçon fanfarrão

Tempos modernos. Diversidade cultural, racial, feminismo, secularismo e tudo o mais. É essa a era em que estamos, certo? Isso não impediu um garçon de zoar minha zoeira. Explico. Havíamos todos combinados de nos encontrar em um tradicional bar da Rua Augusta. Trocando os nomes para preservar a privacidade dos meus queridos, digamos que eu aguardava a chegada da Sarah, da Mariana e do Jeferson. Estava sozinho lá e comecei a perturbar meus amigos pelo WhatsApp. Temos um grupo com todos e lá comecei a mandar as tradicionais mensagens.
-Já estou aqui!
-Cadê vocês?
-A cerveja está esfriando!
Aí perguntei para o Jeferson, que costumava se enrolar no serviço:
-Jé! Você vem mesmo? Já arranjei uma mesa!
E ele mandou uma mensagem engraçada:
-Me espere com uma rosa vermelha que eu vou!
Juro que, nesse instante, estava passando bem em frente à janela da minha mesa um vendedor de rosas, desses ambulantes. Ele oferecia as rosas a um jovem de um casal que estava sentado nas mesinhas da calçada.
Como eu acho que o humor e o riso vale mais que qualquer coisa, achei as rosas até que baratas. Comprei e deixei à mesa.
Quando o Jeferson chegou, viu a rosa sobre a mesa e riu. Já ali minha compra havia valido a pena.
Mas aqui deve-se acrescentar um detalhe importante à narrativa. Jeferson é negro. Assim como o garçon. E quando o garçon veio nos oferecer mais uma cerveja viu a seguinte cena:
Ambos sorridentes, eu e o Jeferson, sentados um de frente para o outro, com uma vívida rosa vermelha entre a gente, na mesa.
Estávamos na Rua Augusta, um dos lugares mais liberais da cidade. Mas ainda assim o garçon não se conteve. Olhou para o Jeferson e teve uma efusiva reação.
-Ah não! Poxa amigo! Como é que fica pra gente? (e ao dizer isso apontou, com o indicador da mão direita, para o braço esquerdo, evidenciando a cor da pele).
Rimos, explicamos a piada e ainda reagimos:
-Amigo, mas estamos na Augusta e você reage assim? E se a gente fosse gay mesmo? Acabava processado!
Ao que ele riu novamente e se defendeu:
-Processado nada, estou rindo, brincando. Aqui é tudo na paz.
Era um garçon fanfarrão. O tipo de pessoa que faz valer a pena não ir a um McDonnalds.

Coreografia

É uma dança. É uma dança, por fim. Ao movimento de um cabe um movimento do outro. O par buscará harmonizar-se. Não adianta que um dos dois tente movimentos exagerados enquanto o outro está estático. Não adianta que um silencie de mais quando o outra busca movimento. Devem buscar o denominador comum de seus corações. É uma dança.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Mancada com o melhor amigo

Quem é seu melhor amigo? Há quanto tempo vocês se conhecem? Estudaram juntos? Cresceram juntos? Qual a maior mancada que você já deu com ele? Sim, porque acontece. Com uns mais, outros menos. Às vezes um segredo que foi revelado. Sem querer ou por querer, vai saber.

Eu, que não sou lá uma boa pessoa (mais por acidente do que por má vontade... tenho bom coração mas me atrapalho com a vida porque ela é complicada), tenho várias histórias de mancada com meu melhor amigo. Mas vou contar só uma porque sei que vocês não vão querer ler vinte páginas desse tema.

Meu melhor amigo conheceu uma menina. Pela internet. Não somos velhos, mas já somos da geração em que este jeito de conhecer pessoas era meio que novidade, uma ousadia, um experimento excêntrico. (tá, somos velhos...).

Ele falava sempre com ela. Se telefonavam. E vez ou outra já tinham se encontrado. Mas não estavam ainda "ficando". Eram amigos e nada mais. Até que um dia fomos nós três a um bar. E lá eu bebi. E lá eu conversei com ela e fiz amizade com ela. E depois nós ficamos. E depois nós até namoramos por um período breve. Meu melhor amigo se declarou meu nunca-mais-amigo. Brigamos.

Com muitos amigos em comum, contudo, seria difícil uma briga explícita, declarada. Então apenas não nos falávamos. Ele me ignorava. Quando eu falava com ele era como se ninguém tivesse falado nada. Mas aí viajamos em vários amigos. O ex-melhor-amigo e outros ainda bons amigos. E no meio dessa viagem brigamos pra valer. Gritamos um com outro. Recapitulamos as histórias, cada um em sua versão, para que todos pudessem saber dos detalhes e tomar partido. Faltava só aquelas placas de juízes para darem suas notas. Nove e meio. Nove e meio. Nove. Dez. Dois. Teria sido divertido. Mas não foi. Só briga. Brigamos e brigamos e brigamos e não saímos da porrada porque somos velhos mas não somos DESSA geração. Depois de esgotarmos nosso ódio em todos os gritos sobrou só o que havia antes, por baixo: a amizade de sempre.

domingo, 1 de outubro de 2017

Cidade linda

Paredes limpas
Escolas fechadas
Ruas seguras
Mendigos mortos de frio
Prefeito limpando o lixo
Do centro
Lixo de centro
Jogando na periferia
A lógica familiar
O conforto da casa grande
Cidade linda

Amigo desconhecido

A capa não diz muita coisa. Denuncia alguns efeitos do tempo por estar amassada em um pouco suja em alguns cantos. Abrindo o caderno as páginas mostram uma caligrafia que lembra a minha muito a minha, mas é diferente. Eu escrevia assim? Começo a ler.

Sonhos. Hesitações. Sou eu mesmo? Eu era assim?

A experiência de ler um velho diário é estranha. Sou eu ali nas páginas. Mas ao mesmo tempo é como se fosse outra pessoa. Eu leio algumas coisas e acho essa outra pessoa um tanto quanto ridícula. Por vezes infantil. Mas isso é até bom. Ruim é quando leio algo que realmente admiro, que acho até um tanto quanto genial. Será que eu consigo ser assim de novo? Será que esses momentos de inspiração se foram, diluídos pelo tempo?

A verdade é que estas questões não levam a nada. Porque aquele que escreveu estes velhos diários já se foi completamente. Assim como este que escreve agora desaparecerá em breve. Estranho pensar em lutar contra isso.

sábado, 30 de setembro de 2017

Psicologia urbana

Deveríamos aprender com os chineses a superar nossa ansiedade. Eles, que conhecem a marcha inexorável dos milênios, não se afligem com um atraso de dez ou vinte anos. Assim, quando se dispuseram a copiar quinquilharias das indústrias ocidentais não se desesperaram falando "a caneta dos EUA é melhor... esse radinho está uma porcaria... que lanterna tosca!". Seguiram em frente.
Nós não. Nós não sabemos copiar. Temos essa ansiedade de quem, desconhecendo história, acha que a existência se decidirá na próxima semana.
"Essas ciclovias são um absurdo! Boas mesmo são as da Holanda!"
Mas estamos de volta aos trilhos. Superamos nossas crises pela via fácil: de volta à zona de conforto.
Finalmente voltamos a cuidar das aparências dos ricos enquanto podemos, em silêncio, voltar a pisar e a ignorar pobres e famintos. É o Brasil com que estamos acostumados.

Cruzando o Atlântico

Assisti ontem a peça "Cruzando o Atlântico", com texto de Carolina Arksanan. O cartaz mostrava uma senhora ao lado de uma moça e de um rapaz jovens. Com este título pensamos em viagens, na época das navegações ou algo assim. De início é o que a história faz parecer.

Bete é uma senhora de cinquenta e quatro anos e cria sozinha seus dois filhos, Alessandra e Rodrigo. Rodrigo, mais velho, repetiu alguns anos na escola. Mas finalmente tomou jeito. Quanto à irmã, a única coisa que fazia repetir na escola eram os elogios dos professores. Ao entrarem na faculdade, ela estudando egenharia civil e ele estudando jornalismo, conseguem ambos bolsas de estudo para faculdades na Europa. Deixam o Brasil no mesmo voo. E então a mãe se despede e fica aqui, sozinha.

Claro que há o Skype para um oi, mas com todas as novidades da Europa quando é que os filhos tem tempo de estar online? E depois tem o fuso horário, tudo é difícil. Mais e mais Bete se vê em companhia de si mesma. Descobre a vida sem os filhos. E é este novo mundo de solidão, de vazio existencial infinito ao seu redor, recém descoberto, que ela terá que cruzar. É este seu Atlântico.

É uma peça, em resumo, sobre os desafios de redirecionar o ponto focal da vida, e de redirecioná-lo para si mesmo. Passeios, amigas, livros e filmes, diversas coisas às quais ela não tinha tempo e agora tem tempo de sobra mas, nas primeiras vezes em que retoma estas experiências, não sente o prazer que esperava. Onde estão os filhos? Pouco a pouco vai redescobrindo o direito de se sentir feliz por si só e, no processo, abre-se a descobrir pessoas interessantes novamente. Vale a pena assistir.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Os esforçados

Eu o ouvi falar por meia hora contra essa horda de vagabundos que estão mamando nas tetas do governo. Essa gente que se vende a votos, curral eleitoreiro de petista... Bolsa família, bolsa isso, bolsa aquilo! Bolsa engenheiro não tem, né? Bolsa piloto, pra pagar o curso do filho, não tem, né? O negócio é ajudar pobre. Acabar com o dinheiro da nação comprando votos de miseráveis.
A outra meia hora foi gasta em elogios à filha. Que está estudando no Canadá. Muito esforçada a menina. Conseguiu tudo com méritos próprios. Inclusive a bolsa de estudos. Do governo.

Eu a criei

O Giba, ou Senhor Gilberto, para quem ainda não foi apresentado ao seu jeito amigável e informal, é um italiano lá da escola. Sempre que está em sala de aula sua voz ecoa pelos corredores em um discurso firme, pontuado por risadas leves e contagiantes. Pouco tempo depois que fui trabalhar lá já estávamos amigos. Almoçávamos juntos e, nessas ocasiões, ele me contava de sua vinda ao Brasil, da criação de sua família, de seu primeiro divórcio e outras coisas assim. Ele tinha, sob meu ponto de vista, um grande defeito: era extremamente conservador e havia, portanto, entrado nessa onda recente de falar mal de absolutamente tudo ligado ao governo atual. Mas eu não sou do tipo que faz ou desfaz uma amizade com base em diferenças no discurso político.

Aí ele começou a me contar da filha. Não sua filha, mas a filha de sua mulher.

-Sabe, quando comecei a sair com a Elisângela a menina ainda era pequena. Eu queria que o pai fosse vê-la. Mas sempre tinha alguma coisa. Estava viajando a trabalho. Estava fora com os amigos. Estava cuidando de algum projeto, em alguma reunião. A Elisângela jurava que era tudo desculpa e aí ficava aquela situação né, aquele clima de conversa engasgada. Eu comecei a levá-la para vê-lo mas ela não queria, no fundo ela não queria. E ele também não. Quer dizer, eu acho que ele queria ser um bom pai. Mas não conseguia, não sei porque mas não conseguia. E então eu a criei. Ela me chama de pai. Eu virei o pai dela.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Sempre vou escrever

Sei que essa é minha terapia, minha reza, minha paz. Não sei se algum dia, contudo, serei um escritor. Desses que lapidam as frases. Desses que alimentam imaginações alheias. Eu escrevo meu espírito e depois já é um texto morto. Talvez porque a escrita tenha a ver com a existência de cada um. De que vale meus instantes depois de terem sido vividos? As planilhas preenchidas. Os abraços às visitas. As risadas com os estranhos. Aconteceu e já foi. Não há porque se repetir. Como este texto cuja vida dura o tempo de digitar cada tecla. E o resto é um fóssil morto. Coisa para arqueólogos de interesses estranhos.

Fui despedido

Tenho algum dinheiro no banco. Vou pedir seguro desemprego. Tem uns bicos que andei fazendo por aí e, portanto, algum dinheiro ainda por receber.

Mas estou sem emprego. O que vai ser daqui para a frente? Vou trocar de carreira e realizar meus sonhos?

Vou tomar vergonha na cara e concentrar minhas energias em inúmeros projetos, projetos cuja estagnação eu sempre atribuí ao tempo que meu antigo emprego consumia de mim? Não sei o que vai ser.

O que eu vou fazer amanhã? O que eu vou fazer hoje, no fim do dia?

Espero por mudanças. Mas essa frase é, em si, um erro. Mudanças não devem ser esperadas. Mudanças devem ser criadas.

Que eu crie mudanças. Que eu crie os espaços novos em que pretendo viver. Sei que uma das amarras, ao menos uma grande delas, se foi.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A crise

A crise está chegando. Os jornais anunciam. A bolsa oscila. Ricos, desesperados em cortar gastos para se proteger, demitem seus funcionários. Faxineiras ou recepcionistas. Gente que estava ali "a mais". E para estes, finalmente, a crise chega.

A casa

Era uma casa muito engraçada
Não tinha afeto, não tinha nada
Ninguém podia cantar nela não
Porque na casa não havia paixão

Ninguém podia
Rir de repente
Pois nessa casa
Não se é contente

Mas era feita com muito esmero
Bonita aos olhos
Essência zero

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Versões

"Acho que às vezes precisamos aceitar que já somos ótimas versões de nós mesmos."
Obrigado.
Mudou meu dia.
Mudou meus dias.

Presentes que fazem sentido anos depois

Obrigado caro amigo. Na época eu era uma criança e aquele presente era uma mera curiosidade. Algo que eu não era capaz de entender por completo. Um livro sobre um assunto assim tão complicado, quem presenteia uma criança com uma coisa dessas?

Hoje, quase vinte anos depois, aqui em minha escrivaninha, estou com o livro aberto para auxiliar meus estudos. Hoje é minha carreira, é com isso que trabalho. Obrigado.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Enquanto…

Enquanto acharmos que a beleza das roupas vale mais que a pureza das almas,
Enquanto valorizarmos mais a limpeza dos muros que a harmonia entre as pessoas
Enquanto confiarmos mais no chumbo que no amor
Enquanto nossos silêncios forem mais polidos do que nossos sorrisos
Enquanto aparência for mais aplaudida do que conteúdo
As almas seguirão invisíveis
Isoladas
Maltratadas por si próprias,
Abandonadas ao abandono que às outras condenam
A humanidade em sua pior versão,
Mas engomadinha e bem apresentável.

Dois empregos

Fui fazer exame de sangue outro dia. Exigência da empresa. Depois de furarem meu braço para encher dois tubinhos ganhei uma fichinha que dava direito ao "café da manhã". Devido ao jejum eu estava faminto. Fui ansioso e, para minha surpresa, a crise financeira chegara à lanchonete da clínica. No ano passado haviam sanduíches, pães de queijo e café com leite. Uma atendente recebia minha ficha e perguntava qual das opções eu queria para comer e beber. Dessa vez não havia nem sequer uma atendente. Eu apenas depositava a ficha em uma caixinha e me servia de um café um tanto quanto mal feito e de bolachinhas secas, disponíveis nessas micro embalagens contendo apenas três bolachas cada.
Uma senhora veio se servir também e comentou em voz alta o que eu estava pensando.
-Piorou muito aqui hein!
Concordei com ela. Começamos a conversar. Ela era evangélica. Comecei a falar da crise. Realmente, a coisa estava complicada. Ela era diarista e algumas amigas haviam perdido o emprego.
-Por isso mantenho dois empregos e não largo de jeito nenhum.
Perguntei o que mais ela fazia.
-Também sou camareira em um motel.
Personagens reais são, com frequência, muito mais interessantes que os da ficção.

domingo, 24 de setembro de 2017

Bendito seja

Uma das minhas maiores dificuldades, enquanto ateu, é a de conviver com a profunda falta de coração, de empatia e de amor daqueles que se dizem crentes. Aquele famoso sábio deveria ter previsto o vasto alcance de nossa voluntária ignorância e ter dito mais claramente: "Amai ao próximo E AO DISTANTE como a si mesmo.". Somos muito rápidos em inventar distâncias onde não deveriam existir.

Perdões

Eu já havia me acostumado a vê-la careca. Mas ali, no leito do hospital, sua imagem havia deteriorado ainda muito mais. Estava magra como não parecia ser possível. E a cor da sua pele havia mudado também. Não sei se é algo da minha cabeça, ou algo devido a alguma outra coisa ali do hospital, mas eu posso jurar que seu cheiro mudou também. Ela iria morrer logo mais. Sabíamos, desde que o câncer havia sido diagnosticado, que esse dia chegaria. Mas é diferente imaginar meses ou mesmo anos pela frente e, como agora acontecia, saber que este momento estava a poucas horas de distância, no máximo.

Lembrei de todas as vezes que a fiz sofrer. Minha tia havia me criado, a mim e aos meus irmãos. Cuidou da gente enquanto minha mãe ia trabalhar. E era necessário que ela trabalhasse primeiro porque a renda do meu pai não era grande o suficiente para manter toda a família com qualidade e depois porque os meus pais se divorciaram.

A visão da morte iminente apagou de minha mente um pensamento que causou revolta por anos e anos: para mim, em uma análise lógica mais fria, foi ela própria, minha tia ali a algumas horas de morrer, que havia sido uma peça chave no divórcio dos meus pais. Primeiro porque sempre fez minha mãe mudar de opinião quanto a planos que havia feito com o meu pai. Meus pais combinavam de fazer uma viagem, depois minha mãe conversava com minha tia e mudava de ideia. Em segundo lugar, e essa é a parte mais grave, enquanto meu pai fazia horas-extras em seu trabalho na empresa automobilística minha tia incutia na mente de minha mãe uma única explicação: ele não estaria fazendo horas-extras coisas nenhuma, estaria é tendo um caso extra-conjugal com alguma vagabunda. Minha mãe não suportou a pressão, entrou em diversas discussões com o meu pai e o divórcio finalmente veio.

Depois, com essa mesma mentalidade super conservadora, minha tia tentou atrapalhar meus namoros, os namoros do meu irmão e da minha irmã também. Em um dado momento eu briguei tanto com ela que disse que ela não precisava mais ir lá em casa cuidar da gente como sempre fazia. E ela nunca mais foi.

Hoje acredito que essa ruptura foi parte do processo de adoecimento dela. De modo que eu me sinto, sim, culpado. Mas não sei se chego a sentir um remorso por isso. Por que haveria eu de absorver todos os males de suportar suas interferências em nossas vidas? Eu queria ser grato a ela, grato por tudo o que ela fez de bom por nós. Costurava roupas, preparava comida em casa. Permitiu que minha mãe trabalhasse fora. Mas ela já havia provado não ter limites para o quanto poderia interferir em nossas vidas. Eu deveria dar-lhe direito ilimitado de interferência como prova inequívoca de minha gratidão? Não me parece uma opção aceitável, até hoje.

E foi nesse contexto em que fiquei ali parado, ao lado do leito, vendo os tubos que entravam e saiam de sua boca, nariz. Repousei minha mão sobre ela. Pensei em todas essas histórias. Senti-me culpado por fazê-la se afastar do lar que ajudou a criar. Aproxime-me do seu ouvido e sussurrei desculpas pela tristeza que causei. Olhei novamente para ela, que me olhou serenamente enquanto balbuciava qualquer coisa como "tudo bem". Senti-me, confesso, um perfeito idiota.