quarta-feira, 16 de maio de 2018

Meu irmão é um babaca

E não digo babaca no sentido engraçadinho e debochado. Digo babaca como quem se refere a um indivídiuo que deu errado, que não chegou aos mínimos qualitativos exigidos para participar da civilização. Um funcionário, ao sair da empresa, ameaçou processá-lo. Ele, que estaria errado na causa trabalhista, dissuadiu o funcionário de fazê-lo colocando uma bala de revólver em cima da mesa. Ele pode ser imbecil demais para entender, mas ainda que por vias não-verbais, foi uma ameaça de morte. "Me processe e eu te mato" foi o que meu irmão disse mesmo sem falar. Se iguala, nisso, aos piores bandidos que espera que o candidato-escória trate justamente na bala. Eu estou desanimado e desapontado. Porque tenho descoberto que meu irmão é tão burro que não vai conseguir nem mesmo vislumbrar os contornos da própria burrice. Não sei o que falar. Não sei para onde apontar. Se uma pessoa com uma vida confortável como o meu irmão, vindo de uma boa família e com acesso a muito mais estudo do que a maioria da população desse país, ainda assim está afundado até a cintura nesse mar de ignorância, o que dizer dos outros? Carecemos urgentemente de mais cultura. Mais cultura humana, empática, mas intelectual também. Precisamos de um mundo com menos burros babacas.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Não me diga

Então ele inventou que era depressão, porque era o nome mais cômodo para dar para aquela vagabundagem toda.

E então ele disse que eram dúvidas aqueles medos todos emoldurados em preguiça. Medo de trabalhar. Preguiça de sair de casa. Medo de ser outra pessoa, de ser adulto. Medo de deixar o tempo passar ainda que visse que passava mesmo assim. "Fiz minha parte para que não passasse. E se ainda assim passa, não é culpa minha." Não era só um irresponsável. Era um alguém que não queria se responsabilizar. Por nada, nadinha. Medo de amar, medo de ter. Medo de ganhar. Medo de aprender.

Os livros são melhores nas estantes do que em suas mãos, em suas leituras. Os folheia e aí joga lá de volta. Em seus lugares. Arrumados, organizados, novos e não lidos.

Ele inventou que era assim mesmo bem agora que podia ser do jeito que quisesse; eventualmente de todos os jeitos.

Era viciado em sonhar.

Sonhar era a melhor coisa que já experimentara, dentre tantas outras.

E quem poderia culpá-lo? E a que tribunal se leva um caso assim?

Sonhar era sempre um delicioso amanhã talvez. Sonhar com algo que quem sabe fosse amanhã era uma fé quase concreta. Esticava-se o dedo e quase podia tocá-la, ali logo depois de uns poucos tiques do relógio no outro quadrinho do calendário.

Um sonhador. Que feridas enormes na sua vida todas as coisas que são. Que invadem o tempo presente.

Traumas? Um fraco? Incapaz de desassociar os fracassos de determinadas experiências das possibilidades de fracasso de outras?

Traumatizado seria se fosse apenas a incapacidade de se aproximar de histórias potencialmente felizes por conta da cegueira que os medos antigos lhe produzem. Mas não é isso. Efetivamente, histórias felizes lhe abraçam. Quentes, completas, envolventes, profundas e inusitadas. Felicidades acima das felicidades dos cidadãos comuns. Mas durava pouco lá dentro. Lá dentro morria logo esse desfrutar. Um arqueólogo que nunca chegava a abrir o sarcófago porque se desesperava em procurar outra tumba. Um piloto que nunca cruzava os muros de um aeroporto porque embarcava direto em outro avião, desesperado por pilotar mais. Um pescador cujo barco afundou de tantos peixes acumulados no convés - mas era irresistível continuar ali pescando mais e mais. Um desesperado. Um desesperado incorrigível. Sem controle de si. Sem controle de nada.

E foi inventar que era depressão...

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Progresso

A próxima grande revolução científica será o entendimento detalhado, e sistematizado, da mecânica social. Insisto em um termo que caiu em desgraça depois da empolgação infantil com que sociólogos e economistas quiseram copiar Newton, mas o faço conscientemente. Temos hoje plena noção das diferenças entre o que se pode chamar de mecânica social e o determinismo límpido e claro da mecânica newtoniana quando aplicada a sistemas simples. A sociedade, assim como o clima e a hidrodinâmica, é determinista, mas seus detalhes precisos serão inacessíveis (mesmo com toda a xeretice do Facebook e smartphones). Sistemas caóticos como o clima são ainda assim determinísticos. Restará saber para onde esse conhecimento irá nos levar. Como sempre, o fator determinante será: quem está no poder? Quem está fazendo uso desse conhecimento? A ciência pouco se lixou para a humanidade enquanto ficou mais ocupada desvendando a origem do universo e os segredos do átomo. Deu no que deu. Teremos um dia cientistas capazes de entender que não se dissocia progresso científico de progresso da humanidade? Deixar todo o progresso científico nas mãos de bebezões estúpidos que brigam por petróleo é uma estupidez equivalente.

domingo, 13 de maio de 2018

Mudo

A gente às vezes é plano e às vezes tem tantos lados. Arestas. Cantos. Fundos e rasos. E eu me perco. Não faço a menor ideia de onde estou. De qual dentro de mim que sou. Hoje foi assim. Hoje você falava, falava, falava. E eu quieto. E eu me procurando. Covardia. Covardia? Foi o que foi. Foi como aconteceu. Guardei coisas que não sei onde estão. Não sei onde foram parar. Procurei, procurei procurei procurei. Só que não achei.

sábado, 12 de maio de 2018

Mimimi

O que mais me irrita no mi mi mi é o desprezo com as outras notas.
Gosto que alguns dias sejam assim logo pela manhã: sol sol sol.
E tem gente de quem só sinto dó dó dó.
Curto quando estou em um pub e toca Psycho Killer: todo mundo junto em coro cantando "fá fá fá fá, fá fá fá...".
E quando estou cansado de tudo só quero viajar. Pegar estrada com a janela aberta cantarolando meus lá lá lá.

E quando chegam as bifurcações da vida? Aqueles momentos em que coisas caminhos se mostram? A gente mergulha fundo num mar de si si si.

Não sei se acrescentei algo de útil aqui. Mas no fundo, na vida, o importante é ser feliz, né? Então ria comigo: ré ré ré Winking smile

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Vazios

É claro que eu achei que você iria dar um sinal de vida. Não que eu ache certo uma proximidade. Eu ainda tenho dúvidas sobre quem você é. Se é a pessoa que eu amei e perdi, ou se é a pessoa de quem estou aliviado de me distanciar. Com seu silêncio bélico, contudo, fico mais inclinado à segunda hipótese.

Autoconhecimento

Sou um monge tibetano sem um himalaia para chamar de meu. Sem um manto vermelho no qual me enrolar. Sem um sino para martelar numa rotina regrada. Alguns livros para carregar. Um espaço para caminhar. E minha existência segue. Igual à de todos os demais.

Despertar

Tudo é texto. Tudo é um texto esperando por ser escrito. Os passarinhos se alimentando com as migalhas do quintal pela manhã. Os meus colegas de trabalho mostrando a idiotice adulta a que chegaram com comentários pornográficos esdrúxulos sobre absolutamente tudo. A atenção da empregada a miudezas nos detalhes da arrumação. O cheiro de querosene trazido pelo vento em frente ao hangar. A caixa de e-mails bagunçada. A pilha de livros com conhecimentos sonhados. Tudo é texto esperando por ser escrito.

UTI

Eu tenho um carinho enorme por você. Você tem uma importância na minha vida que nem imagina. Mas não quer te ver de novo. Não tão cedo. De que valeria este encontro? Não preciso provar para ninguém que superei a dor de sonhos impossíveis. E não superei. Apenas consigo fingir. Mas dói.

Médio prazo

De nada adianta, no fundo, conhecer a contribuição do dióxido de carbono e do metano para o efeito estufa. De nada adianta aperfeiçoar os modelos computacionais para calcular o clima daqui a cinquenta ou cem anos. As pessoas não irão se convencer da necessidade de mudança porque o nível médio de educação e cultura no mundo não condiz com a gravidade do problema. Não se trata de uma ação antecipada para amanhã. Ou para daqui um ano. Nesse horizonte de décadas, séculos, um maior nível de abstração e uma alfabetização científica é necessária. Mais que isso: os valores estão errados. Um carro maior. Uma casa maior. Mais luzes. Mais coisas fabricadas a custo de energia. Países medindo seu sucesso relativo pela métrica de quanto valem as florestas cortadas. Não há como ser esperançoso aqui: a consciência mundial atual é altamente suicida e não dá sinais de mudança.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Rotina matinal

Talvez porque o sol nascendo no horizonte tenha essa evocação tão forte de um início, um começo, com tudo o mais pela frente, é que nessa hora do dia funciono melhor para meus estudos, para minhas reflexões, para tudo aquilo que diz respeito ao futuro. A noite não. A noite é o horário em que sigo em marcha. Continuo um trabalho que já vem de longa data. Tenho coragem de encarar aquelas tediosas formatações de planilha, do formato dos parágrafos dos relatórios. Essas são as tarefas que ficam para a noite. A manhã não. Não posso ofender a manhã com coisas tão mecânicas. Estudar um novo idioma, que um dia vai ser usado em um novo país, uma nova viagem. Rascunhar textos que um dia serão publicados. Pensar em pessoas que quero ver de novo. Sonhar com conquistas. Aprender uma música nova. Esses são meus banquetes matinais.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

AINDA VIVOS

Eu tive certeza de que eram os últimos segundos. Não sei porque continuei lutando. Não sei porque tentei controlar a situação. Só sei que deu certo. Não foi um mérito meu. Foi sorte. Nada que conheço sobre a física do mundo diz que deveríamos sobreviver. Fomos perdoados pelo acaso. O que fazer com isso? Como usar esse presente?

terça-feira, 17 de abril de 2018

Sorte

Que feliz presente do acaso para você, poder viver recebendo aplausos de quem não a conhece realmente.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Nobre coração

Minha nobreza aprendo na marra. Não é uma nobreza tonta, patética, feita de aparências. É aliás o contrário. Uma nobreza que descobriu a diferença entre aparência e essência engasgando com seus próprios equívocos. Nobre coração é aquele que enxerga o outro. Nobre coração é aquele que tem coragem de exitir tal qual é. Nobre coração é aquele que não sacrifica a própria existência pelo desespero de mendigar aplausos.

Eco Zulu

O mundo girou ao meu redor e não me refiro a egocentrismo. Tudo aconteceu muito rápido. Em segundos despencamos do topo de nossas crenças para abismos no meio do nada. Saltei de minha passividade a espasmos rápidos. Não acreditei que sobreviveria e ainda assim fiz o que era necessário. Encontrei instintos que eu nem mesmo sabia existirem em mim. Sobrevivemos por condescendência - ou preguiça - da sorte. E jamais seríamos os mesmos.

Métricas

Sim, eu penso demais nas coisas. Sim, eu penso demais em você. Em que mais eu pensaria? Eu me perco em pensamentos. Revivo as coisas que você me disse. Revivo os seus sorrisos. Imagino futuros. Você ocupa meus pensamentos. Não o tempo todo, é claro. Talvez sessenta por cento, se é que devemos colocar um número. Mas pense bem. Sessenta por cento para você. E nos outros quarenta preciso dar um jeito de colocar tudo o mais, o universo real e os imaginários, o presente, passado e futuro. Fique tranquila: os sessenta por cento são só seus! 

domingo, 15 de abril de 2018

Irmão

Eu estou bravo com você. Bravo e decepcionado. Essa decepção profunda, indignada, machucada. Não consigo entender. Não consigo aceitar. A ideia de que você se roubou de mim. Um membro da família, uma pessoa assim tão próxima. Um irmão. Você existia em meu imaginário como outro. Como pode se destruir assim? Como foi capaz de me esfregar na cara essa realidade impura, cheia de contradições? Um irmão meu foi capaz de ameaçar outra pessoa de morte. Como eu vou conviver com isso? Reescrevo a mim mesmo em minha consciência? Não se trata só de você. É muito egoísta de sua parte não perceber isso também. O que vou pensar de mim, agora? De que males sou capaz e nem imagino? Que vida é essa, tão diferente, que você viveu, capaz de te desacreditar de toda a empatia do mundo?

sábado, 14 de abril de 2018

Indiferenças

A Síria está sob mais um ataque. Vivemos ainda em tempos de trevas. Não há uma real preocupação com a pobreza, miséria e sofrimento no mundo. Aos poderosos o que menos importa são os outros. Não há empatia no poder. É só um jogo de xadrez cruel e sanguinário. Quem importa não são as pessoas: é o lucro. Em São Paulo, um enorme camelódromo está sendo posto abaixo para dar lugar a um shopping. O que antes alimentava centenas de famílias menos afortunadas agora vai dar lugar a um empreendimento que vai favorecer meia dúzia de bolsos gordos. Fico achando que as almas boas se distraíram demais. Deixaram a política à vontade. E aqueles de má índole se apressaram a se engasgar com o poder.

Números

Tenho lido sobre desarmamento. Há algo de interessante nessa discussão, do ponto de vista teórico: ao mesmo tempo que questões muito tênues estão envolvidas, padrões culturais, etc, em um dado momento tudo reduz-se a números. Quantos casos de morte ocorreram? Vejo aí alguma semelhança com a problemática do suicídio que Durkheim escolheu para fundamentar sua grande obra fundadora da sociologia científica.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Acidentes a vista

Vimos um atropelamento na avenida principal. Um jovem assaltante, perseguido por uma viatura policial, fugia em sua bicicleta. Ao cruzar a avenida desesperadamente na frente de outro veículo foi por este atingido e lançado talvez uns dois metros em direção ao céu. Estávamos no carro à frente. Eu o vi despencando de volta no asfalto duro. Pensei que estivesse seriamente ferido mas ele se levantou e, depois de tontear poucos segundos, pô-se de volta em fuga. O policial seguiu atrás, correndo. Notei que não havia nem mesmo sacado sua arma.

Dentro do carro meus colegas dividiam-se entre o júbilo de terem visto um atropelamento e a frustração de que o bandido continuava vivo. "Deviam ter metido pipoco logo, pá pá pá! Ficava já ali, no chão, um a menos." Vibravam como quem assistiu a um filme emocionante e comentava suas cenas à saída do cinema.

Não estão prontos para enfrentar o mundo real. As contradições e as nuances da vida que não é uma simples divisão de mocinho e bandido como no cinema.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

O Futuro que nunca acontece

Estou sempre afundado em planejamentos. Às vezes penso que não tenho ainda nem uma casa para mim, nem filhos, nem um emprego estável. Desespero. Não comecei a vida ainda. Sigo estudando. Sigo explorando aventuras. Irresponsável?
De onde vem essa lista de afazeres da vida, que nos torna tão desesperados em cumprí-la?
Tenho uma sucessão de dias em que estou buscando o mais interessante a fazer e é aqui que cheguei. Faltou planejamento? Faltou controlar mais meu destino?
Estou explorando o mundo de um modo que ninguém fez antes. Tenho consciência disso. Não é um caminho pronto. Ninguém sabe onde vai chegar. Mas sigo insistindo na ideia de que aproveitar a trajetória é melhor do que se desesperar com o destino. Tem sido uma viagem interessante. Por vezes solitária, por vezes cheia de surpresas incríveis.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Cabeça aberta

Estávamos em uma lanchonete, com as mesinhas na calçada. Um cachorro se aproximou com um ferimento horrível na face. Parte de seu coro cabeludo havia sido arrancado. Um acidente de carro ou algum episódio de violência espúpida. Surpreendentemente o cãozinho parecia alheio ao ferimento. Vagava apenas sem grande estardalhaço, lentamente, pela calçada, e com enorme receio foi aproximando-se das mesas. A reação das pessoas era de nojo, de repulsa. Mas eis que meu amigo Rogério ficou tomado de compaixão. Chamou o cãozinho para perto. Rasgou, com a mão, metade de seu hamburguer e fez o cachorro segui-lo até um canto seguro. Eu, normalmente, sinto um incômodo enorme pelas opiniões preconceituosas e egoístas do Rogério. Mas como não reconhecer o ser humano ali dentro?

terça-feira, 10 de abril de 2018

Meras formalidades

Vi um post no Facebook e que mencionam a quantidade de juízes, advogados e desembargadores que trataram do caso Lula. E o post prossegue, provocativo e irônico: "Se você acha que sabe mais de direito do que todos eles, então vá logo prestar um concurso porque você é o novo gênio do direito no Brasil!". Posso apenas me entristecer diante dessa idiotice. Não percebem essas pessoas que a formalidade do processo não atesta sua justiça. São absolutamente incapazes de entender a diferença entre o cumprimento de formalidades e o conteúdo justo de uma decisão. Estou cercado de imbecis.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Diagnóstico

Você está sendo narcisista. Quer atenção para você. Mas que atenção tem para os outros? O equilíbrio fica quebrado. A gente quer atenção, mas precisa doar também. Você diz que está solitária. E como eu me sinto pensando em todas as vezes que quis sua companhia e não tive? Pensando em como todas minhas ambições maiores foram deixadas de lado como se fossem gracejos casuais e em como todas as minhas demonstrações de afeto, preocupação e interesse nunca produziram um eco equiparável? Estou cuidando da minha vida. E você está pedindo mais ao mundo do que está disposta a dar. Ou, então, está vivendo a mesma coisa que todo mundo. Esse vazio carente de um maior contato quando ninguém sabe como romper essa barreira. E quando não conseguimos enxergar aquela pessoa que está realmente disposta a bisbilhotar nos nossos recantos escondidos.

terça-feira, 27 de março de 2018

Machismo não existe

- E o que é que as mulheres conseguiram neste ano, as feministas?
- Conseguiram que o prêmio de melhor cantora fosse para um homem. Conseguiram tomar uma surra de um homem no vôlei. Conseguiram deixar desempregadas as modelos da fórmula um. E também levaram uma surra de um homem na luta de MMA.
- Caralho, né velho?
- São umas arrombadas, chupadoras do cacete. Burras cara, muito burras.

Essa é a conversa que ouvi hoje dentre a minha equipe de trabalho. Sim, hoje, precisamente hoje, dia internacional da mulher.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Ensinei uma puta a falar inglês

Dia desses, colhi em meus ouvidos este depoimento:
-Cara, eu acho que essas pessoas que escondem as coisas das mulheres, das namoradas ou esposas, acho que isso aí não tá com nada. Sabe, quando eu fui na despedida de solteiro do Marcão, a gente estava no carro e meu celular tocou. Minha namorada. Todo mundo no carro ficou quieto. Mas depois ficaram boquiabertos quando me ouviram falar 'não mô, tô indo no puteiro com o pessoal, é despedida de solteiro do Marcão'. Ficaram até bravos comigo. Como assim falar uma coisa dessas? Mas acho que a gente não precisa viver mentindo. A única coisa que eu aprontei no puteiro foi... conseguir uma aluna nova. Fiz amizade com uma puta com quem fiquei conversando e ela me disse que sonhava em passar no vestibular mas não tinha condições. Caíam coisas muito difíceis, como inglês, por exemplo. E eu sou professor de inglês. Falei para ela. Combinamos uma primeira aula e ela virou minha aluna. Não sei se chegou a prestar vestibular, mas pelo menos no inglês ela avançou.

domingo, 25 de março de 2018

Gigantes

Li uma entrevista recente do Chomsky, agora que ele está com noventa anos. Como pode? Como pode essa percepção tão profunda sobre o mundo? Esse olhar sobre o tempo, sobre a civilização. Essa compreensão de diferentes atores da sociedade. Há pessoas que enxergam as coisas mais do alto. Não sei como elas fazem, mas fico admirado. O segredo está no tempo? Nas leituras? Nas viagens? Nas pessoas com quem ele interagiu ao longo da vida? De onde vem tudo isso? Fico admirado. Positivamente admirado. É uma esperança saber que é possível que pessoas cheguem a tanto. Talvez nós, meros mortais, possamos progredir ainda um pouquinho mais.

sábado, 24 de março de 2018

:)

A internet evoluiu... E-mails, HTTPs, mIRC, ICQ, MSN, Orkut, Chat do UOL... Facebook, e então a era dos aplicativos nos celulares. Mas nós, criaturas exóticas que somos, temos sempre um jeito especial de usar a modernidade. Eu, por exemplo, tenho essa coisa com algumas pessoas próximas: podemos não trocar longas mensagens, mas pelo menos uma carinha, feliz ou triste, curiosa ou espantada, enviamos via WhatsApp. É um "ping", um sinal de "estou aqui... está aí?". Só isso. E já é tanto.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Cegueiras

Há vários níveis de cegueira. O mais óbvio é a dos olhos. A que turva a percepção da luz que chega até o olho.
Há aí um paralelo direto com a leitura, com a discussão sobre analfabetismo. O nível mais básico de analfabetismo é aquele em que a pessoa não consegue sequer ler palavras individuais.
No caso da discussão sobre analfabetismo fica óbvio o que queremos dizer com "analfabetismo funcional". Ler as palavras não basta. É preciso compreender a frase. Compreender uma frase não basta. É preciso acompanhar a lógica argumentativa do parágrafo, do capítulo, do livro. É preciso conectar o que foi lido com um conhecimento de mundo mais amplo, exterior ao texto, de modo crítico e ponderado. E isso é raro.
Acontece que o mesmo se dá com a visão pura e simples. Há pessoas que enxergam apenas o que lhes chega aos olhos. E nada mais. Estão presas no tempo presente e na ilusão do momento. Não são capazes de compreender os relativismos do mundo ou enxergar os fluxos da história. Falo aqui de um número enorme de pessoas. Mas não se engane... Não estou me referindo apenas a acadêmicos contra não acadêmicos. Nem mesmo fazendo uma distinção entre místicos e não místicos. Ainda que você seja um cético com uma visão mecanicista do mundo, perceba que muitos místicos têm sim uma visão para além de suas cercanias imediatas. Se essa visão é uma descrição correta do mundo e da vida aí já são outros quinhentos. O importante, aqui, é a diferenciação entre quem coloca a percepção de seu momento em um contexto maior e quem não o faz.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Argumentos

Falei com o fazendeiro, que já estava se tornando meu amigo, e ele me explicou que era comum a prática de exterminar invasores. Quando se escolhia esse caminho a única ressalva é que ninguém poderia sobreviver. Nem uma velhinha. Nem um bebê. Claro que era uma bagunça. Aquele monte de corpo amontoado. Mas as fazendas tem esses fornos de secagem. Chegam a novecentos graus. Serviam para sumir com os corpos. Depois mudou o governo e com mudanças na fiscalização e na polícia ficou mais difícil adotar esse tipo de prática definitiva. E foi com essa história que ele tentou me convencer que o novo governo é ruim...