domingo, 20 de outubro de 2019

Source

Quantos momentos de melancolia se somaram?

Demora lapidar essa arte de amar pra fora, amar a partir de dentro, cultivando o amor por si e não por recompensas.

Aprender a sorrir pro mundo para descobrir que, realmente, ele sorri de volta.

Não é uma forma de manipular o mundo para conseguir o que queremos. Nossas carências podem continuar ali, esperando um afago quente como aquele que há tanto se foi, com que tanto se sonha.

Mas o que paga esse sabor de ver as pessoas livres e felizes, de vê-las olhando em seus olhos e reconhecendo em você alguém feliz e ficando também feliz por isso?

Viola leis de conservação, eu sei. Viola de um jeito bom.

Listener

Pretty. Really pretty.

So young, seems to be my age. But such nice clothes, everything carefully choosen, the glasses, the hair carefully made. Is she married? Think she is. No, no. No ring. Not married. But surelly she graduated as early as possible and is already on a good job making good money, may be she lives alone...

Those were my first thoughts and impressions on the girl that would soon become my girlfriend.

And I had my way through her house, through her family, through her body and through her future. Or so she thought.

How could the two of us be so mixed together and still be living in worlds apart? Is it that her humor was so condemnably different from mine? Is it that love just ceased to exist because of its own will?

On the phone I used to tell stories. Stories that made my day happier, because I had to look for stories in order to have stories to tell and so I became more connected to the world and the world was a place full of stories. And she always loved to listen. And listened. And sometimes made her comments, always serious, thoughtful and pertinent opinious, shortly and objectively stated. And I realized I was happier for the much I found outside in the world after I met her, not for the things I found in her.

Now I tell stories to myself and to those who appreciate it because it's a reflexion of the things they like in the world more than a reflexion of the attention they so desperate want. And she still doesn't understand that the world she loved in me is but a single piece of the world outside which she so eagerly refuses to enjoy. I know I'm not being fair with this opinion on her, but fairness has its own realm, which cannot cover the entirety of life unless you give up being yourself.

sábado, 19 de outubro de 2019

Wired

Lá na Eslováquia, tão longe, tão longe.

Em Ribeirão Pires, seguindo de trem daqui...

Lá na Grécia, à noite, na frente de uma tela. Luz do quarto apagada. Claridade do monitor destacando alguns contornos do rosto.

Na Polônia. Quem diria, na Polônia... Um contorno de riso suave no rosto jovem, ao ler os elogios doces vindos de tão longe.

Mundo bom esse em que se pode exportar amor, agrados e sorrisos pra tão longe.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Muóónnnn

Ah, a mente quântica, nova modinha das livrarias por aí!

O caos libera nossa mente para o livre-arbítrio? Não. Para início de conversa, a inerente imprevisibilidade do mundo associada ao caos não é um indício de que a realidade não seja determinística. Apenas diz que não podemos prevê-la com antecedência, por conta de uma limitação intrínsica no acesso e manuseio de informações.

E as funções de onda? O gato de Schrödinger? A dupla-fenda?

Bom, até onde se sabe, o funcionamento do cérebro depende de um comportamento macro, ou seja, o que átomos e elétrons estão fazendo... Tá, um elétron já é pequeno o suficiente para cair nos encantos da descrição quântica, você vai dizer. Então a situação é aterradora: ao invés de livre-arbítrio, ficamos é com uma impossibilidade total de controle ou de autonomia. Se nossos switches internos saltam aleatoriamente de uma posição à outra, isso não é livre-arbítrio, é arbítrio aleatório, é descontrole total.

Eu gosto, amo, a atividade especulativa e as buscas de se ir além dos domínios atuais do conhecimento estabelecido. O que não quer dizer que eu curta adotar como verdadeiras considerações descuidadas feitas apenas para ter um apêlo encantador às fraquezas do nosso ego.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Darwin e Hawthorne

Taylor que me desculpe. Ford que me perdoe. Um engenheiro que quer entender uma máquina a vapor deve não apenas entender o esquema geral de um pistão sendo comprimido por um gás quente oriundo de uma caldeira e então imprimindo impulso a um eixo que o transformará em movimento circular. O engenheiro que realmente desejar o poder de pensar alterações na máquina, conceber desenhos melhores, deverá também entender a propriedade de cada material. Entender o aço de que são feitos os eixos, para saber o que eles suportam ou não suportam. Em que condições quebrariam, em que condições deslizam melhor, etc.

A assim dita administração científica era como o engenheiro ingênuo que se preocupa apenas com o esquema geral. Se a fábrica constitui-se de um grande número de pessoas desenvolvendo certas tarefas, vamos fazer as pessoas desempenharem suas tarefas o mais rapidamente possível, o mais "eficientemente" possível. Muniram-se de um cronômetro. Isso é como entender o esquema geral sem entender a natureza do material constituinte. Finalmente, anos depois, aconteceu o famigerado experimento de Howthorne, para mostrar que a natureza das pessoas envolvidas nas atividades é sim um elemento a ser considerado.

Mas ainda está para nascer uma consciência global desse fato. Por que não estamos conquistando o espaço? Indo para outros planetas? Por que não estamos explorando intensivamente os rincões mais escondidos deste planeta em busca de seus segredos científicos? Por que um problema tão bobo como a fome permanece como um dos grandes cânceres da nossa sociedade? Por que na era do computador, da comunicação instantânea, da investigação de partículas muito menores que o átomo, guerras ainda são uma ocorrência frequente sobre o globo?

Não quero ser ingênuo e dizer que é "porque ainda não evoluímos", ou porque "estamos ignorando nossa natureza". Se assim a natureza se manifesta, então ainda que este não seja o melhor dos mundos, é este o único mundo real e entender sua verdadeira natureza através dos detalhes de sua manifestação é o único jeito de enxergar as escolhas realmente possíveis num futuro próximo. Mas, para isso, essa natureza deve ser vista como realmente é, sem idealismos distorcedores da verdade.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Eta

O prazer é um dos combustíveis mais poderosos para a atividade humana. Será? As grandes criações da humanidade não são necessariamente frutos do prazer, do trabalho apaixonado. As pirâmides e a esfinge, as grandes metrópoles, ou mesmo o envio do homem à Lua. Emprego maciço do trabalho escravo, uso intensivo de assalariados vivendo nas camadas mais baixas da cadeia econômica, ou então uma rígida estrutura burocrática coordenando os esforços de um grande número de pessoas mais díspares. Quais dessas realizações surgiriam se, por hipótese, não tivéssemos que nos preocupar com nossas necessidades básicas e pudéssemos empregar todo o tempo da vida à satisfação de nossas paixões?
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Dez anos depois: Fica claro aqui o quão difícil é deixarmos os equívocos da humanidade para trás e pensarmos com a própria cabeça até ver o que olhamos por nós mesmos. "Grandes criações da humanidade"? Sim, quando ohamos o coliseu, as pirâmides e a esfinge, sabemos que esse monte de pedras não se amontoa sozinho daquele jeito. E se você e seus amigos quiserem construir outros pra vocês, não vai dar. A não ser que você tenha uns milhares de amigos (não de facebook; amigos mesmo!) Hoje está claro para mim que quando a sociedade classifica algo de "grande" está frequentemente deixando algo de lado, varrendo algo para baixo do tapete. Nem mesmo a ciência, desafio real de desvender os segredos da natureza, escapa dessa sede de hipocrisia. O que seria da ciência sem a matemática das balísticas, a quimica da pólvora? O radar que hoje salva aviões de colisões foi desenvolvido para poder derrubar outros aviões. As radiações que hoje encontram e tratam doenças foram compreendidas para destruir cidades inteiras.

Curioso que sociólogos, cientistas, políticos, turistas... todo mundo, continuam considerando coisas como a música e a literatura como eventos "lúdicos" - sempre com uma certa conotação de vagabundagem, mesmo quando esta não é explícita. Deveríamos nos questionar mais quanto às nossas motivações - e lidar com todas as vergonhas que virão à tona no processo.

Talvez esse seja um ponto central de uma devida definição de estágio civilizatório - se alguém ousar tentar tal definição. A mudança em nossas motivações. Quando deixarmos de considerar manifestações de poder e capacidade de opressão como nossos maiores feitos e passarmos a valorizar e admirar abertamente, mais que tudo, as verdadeiras grandezas, então teremos finalmente passado a um estágio significativamente diferente. Até o momento temos apenas a ilusão. A ilusão em forma de tecnologia, gravata e pib. Mas não passamos de selvagens estúpidos segurando uma tecnologia fantástica sem saber o que fazer com ela. Ainda estamos no primeiro estágio. Ainda apresentamos um rendimento extremamente baixo quando comparamos a felicidade real que obtemos com o esforço empreendido e com o conhecimento disponível.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Impulsos

As pessoas oscilam entre impulsos irresistíveis e maremotos de inseguranças das mais terríveis. A Priscila mandou um e-mail pro cara, chamou ele pra sair, ele respondeu, disse que sim, e ela nunca mais escreveu pra ele. E ela fica triste que ele não escreve um e-mail pra ela. E nada no mundo vai convencer a Pri a escrever. E eu fico pensando, aqui, se o tal cara também não está lá, só esperando uma resposta dela, e pensando "droga, acho que ela desencanou". Essa coisa de "talvez" é uma areia movediça que traga as pessoas pra suas masmorras internas, tranca o cadeado e joga a chave longe.

15 de outubro de 2019



Nasci.








segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Efeitos e meios

Ah, quantos protestos bobos pelo meu expresso ateísmo! Me deixem, me deixem, e pensem por um minuto...

O que lhes causa indignação nessa discussão sobre Deus é antes a vontade que repousa no coração de vocês de que Ele exista mesmo do que qualquer evidência irrefutável e incontestável de alguma manifestação.

E quanto ao bem estar ao rezar? E quanto à curas milagrosas de pessoas que têm fé?

Então vamos esclarecer uma coisa: uma coisa é caracterizar um determinado EFEITO no mundo natural. Outra coisa é ponderar sobre os mecanismos e a natureza subjacente da realidade que foram responsáveis pela ocorrência desse efeito.

Pessoas com fé recuperam-se melhor. Têm uma vida melhor. Claro, estamos considerando aqui as pessoas simpáticas que têm suas vidinhas tranqüilas e tal, não religiosos fundamentalistas que se explodem ou guerreiam com outras religiões. Enfim.

E daí? O cara acredita em Deus e se recupera mais rápido, logo Deus existe? Negativo! O que isso prova é o efeito benéfico DA CRENÇA em Deus, não a existência de Deus em si. Um ateu com uma postura positiva com relação à vida certamente experimentará efeitos benéficos também.

Além disso, pessoas religiosas tendem a viver em ambientes gregários dinâmicos. Reuniões na igreja, etc etc... Ora, a qual ser humano o convívio social faz mal?

É preciso distinguir claramente, nos efeitos observados, os limites das extrapolações que se pode fazer ao tentar explicar suas naturezas.

domingo, 13 de outubro de 2019

Ponderações

É tentador dizer de uma vez que Deus não existe, afinal de contas, não obstante a impossibilidade de provar tal afirmação definitivamente, é assombrosamente mais plausível a hipótese de que os homens criaram a idéia de Deus do que a estranha possibilidade de algum Deus real ter criado os homens. Não há sinais de Deus no Universo que não dependam de nossa vontade de encontrá-lo. Não é como a manifestação das outras realidades. Rejeite a idéia da gravidade e ande precipício adentro: cairá, certamente. Use toda a fé e poder de mentalização de que seu espírito é capaz negando a eletricidade, e morda um fio de alta tensão. Certifique-se de que um de seus pés esteja sobre uma poça d'água, pra mostrar que realmente seu poder de mentalização é capaz de negar a natureza. E verá que, na prática, a natureza não hesita em negar nossa fé sempre que essa fé apela para absurdos. Ainda assim, direi não que Deus não existe, mas para manter-me coerente como bons princípios de investigação que tanto admiro, ficarei apenas com isso: Deus é altamente improvável. Apenas uma observação a mais: a vida é altamente improvável e aí está. O grand Canyon é altamente improvável e lá está. O Google é altamente improvável e lá está. Minha primeira namorada se chamar Gisele e morar no Tatuapé é altamente improvável mas foi o que aconteceu. Objeção registrada. Diferentemente de todas essas improbabilidades, contudo, Deus até agora não deu um sinal que preste.

sábado, 12 de outubro de 2019

Ilhas

Os engenheiros não sabem nada sobre as pessoas que usam seus carros. Os apaixonados por jazz não têm a menor idéia de como são as alegrias dos apaixonados por rock. Os roqueiros não entendem todas os sentimentos de uma boa noite de forró. Os sérios não entendem os alegres. Os saidinhos não concebem a paz da vida reclusa como algo venerável. O que sabem os diplomatas sobre os mundos que articulam? O que sabem uns sobre os outros?

Somos ilhas, ilhas fechadas, isoladas. Raramente sai um tímido barquinho de uma ilha a outra, e nunca sem perder muita coisa ao mar antes de chegar a um destino aleatório qualquer. Você e seus amigos são ilhas. Você e seu trabalho: ilhas. Os músicos todos que você não conhece: ilhas. Somos fundamentais para que o mundo aconteça como acontece, mas ninguém sabe o que está acontecendo. Colhemos garrafinhas mensageiras trazidas nas ondas e achamos que são o universo.

Ninguém tem o controle. Ninguém tem as rédeas. Ninguém vê a cena. Talvez porque o palco seja grande demais. Talvez porque não tenha ninguém olhando.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Festa

Tá certo que meus ânimos voavam longe por terrenos abstratos demais perto da rotina mundana e casual dos últimos dias.

E que o ambiente era de uma alegria pura, todos dançando, conversando, som alto e sorrisos.

Mas como ficar só ali? Eu via um senhor e uma senhora dançando, e pensava na vida inteira, da solidão às famílias gigantes, em todos os espectros. A humanidade tinha ali um contra-argumento veemente contra guerras e intolerâncias. Porque aquelas pessoas estavam ocupadíssimas sendo felizes e nada mais, e era bom. Valia a pena.

E ela dançando... Linda.

Há injustiça em tentar descrever? Talvez sim.

Deus deve tê-la concebido antes de todo o resto. A viu dançando e pensou que a obra valeria a pena. E que deveria haver toda uma humanidade em volta para poder apreciar também.

E se esse deleite todo de apreciar essas coisas não fosse a resposta final para todas as filosofias que já minuciaram sobre os objetivos da vida, o que mais seria?

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Pudores

- Esse excesso de pudores com piadas é horrível! Tipo, quando o Obama fez menção aos jogadores de pára-olimpíadas e todos cairam matando criticando-o... Foi uma colocação apenas, sabe? Informal... nada de mais!

- Não sei não! Imagina se começam a usar você em frases informais do tipo: "Eu ainda não danço bem não, danço quase tão mal quanto o Adoniran!".

- É, tá, entendo...

Mas depois desentendi de novo. Eu danço mal, não danço, então se alguém fizer menção a esse fato e eu ficar chateado, o problema é antes da minha relação pessoal com a verdade do mundo do que da sinceridade indevida da pessoa, não é?

Nossos egos demandam algum tipo especial de monopólio pela mentira, vai ver é isso.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Conselho

Eu lembro daquele apartamento pequeno, num bairro afastado. Casado, minha família. Eu saía cedo todo dia para o trabalho. Entrava em casa no começo da noite e os pequenos pulavam no meu pescoço. Quem não é pai consegue imaginar a sensação que isso dá?

Agora os vejo poucas vezes por ano. Um casado, tem filhos. Outros trabalhando, estudando.

Outro dia o do meio me ligou. Queria conselhos sobre emprego. Tinha uma vaga que pagava bem mas na qual ele temia ser infeliz.

Ele queria um conselho meu. Eu mal sei quem ele é hoje e ele queria um conselho meu.

Fui trabalhar na pastelaria onde evito usar o tempo livre para pensar na minha vida. Mas fiquei pensando nele.

O que eu poderia dizer? Dinheiro é importante, claro.

Que conselho teriam me dado?

Quis ligar pro meu pai e reclamar da falta de conselhos nas últimas décadas...

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Festa

Quatro dias para que eu me torne outra pessoa, praticamente. Falta pouco, quatro dias. Quatro dias e um mundo de coisas que só eu sei será sabido de muitos. Muda-se assim? Eu já era outro? Ânimos e segredos, sonhos e vergonhas. Tão simples. Tão impossível.

Ingratos

Os religiosos, além da ignorância cega sobre o mundo que os circunda e da triste sub-utilização que fazem de suas massas cinzentas, são também muito ingratos com todos os céticos da história, que lhes deram o mundo moderno repleto de recursos para saúde e utilidades diárias tecnológicas de todas as formas.

Que possível progresso trouxe a religião à humanidade?

Ana

Minha doce impossível
Tem um doce quando dói esse amar
Tem um suave nas ranhuras dessa tragédia
E as palavras que você me inspira
A tantas outras comove
Pra acreditar no amor
Só mesmo não sendo amada, não é?
E esta, talvez, seja a prova maior
Que amar não é coisa do mundo das coisas
Que amar é sonhar

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Ingratos

Os religiosos, além da ignorância cega sobre o mundo que os circunda e da triste sub-utilização que fazem de suas massas cinzentas, são também muito ingratos com todos os céticos da história, que lhes deram o mundo moderno repleto de recursos para saúde e utilidades diárias tecnológicas de todas as formas.

Que possível progresso trouxe a religião à humanidade?

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Faxina

Apesar do sol lá fora, fiquei em casa. Fiquei para arrumar as coisas. Literaturas velhas e uns rascunhos jogados, misturados. Fussei aqui e ali, joguei tudo no chão. Parece que o caos completo é um convite muito mais enfático à ordem do que a quase-ordem. Ontem no bar estava vendo as pessoas... Umas muito donas de si, outras sem nem saber onde estão.

Hoje estou aqui, comigo, me vendo. Não sei se sou por demais dono de mim. Ou se não sei onde estou.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Carisma

Ele é um cara legal, todos gostam dele.
No meio das pessoas, as conversas fluem, nascem como se não houvesse outra opção para a Existência.
- Ele não é só doido, ele é meio que um personagem!
Compartilho da opinião do Thiago. Ele é um personagem. Ninguém ri daquele jeito, nem ele. Só o personagem dele. Alegre de uma alegria que contagia.
As pessoas se aglomeram em volta para ouvir qualquer trivialidade que seja. O que importa é que seja contada por ele.

Aconchego

Tinha uma poesia passando frio na rua, à noite. Eu a vi e a cena comoveu meu coração. Linda, linda. A trouxe para casa. Fiz chocolate quente, dei-lhe um banho. Nos deitamos juntos, e a noite se transformou em versos com rima e tudo.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Breve

Eu ainda não via seu rosto
Quando eu fechava os olhos, eu ainda não via seu rosto
Lembrava vagamente do seu sorriso
E da sua voz
Seu jeito de me olhar nos olhos enquanto dançava
Deitava à noite em meu travesseiro
E de você degustava essa lembrança vaga
Que tem quem viu uma única vez
Mas agora que te vi de novo e de novo
Tenho seu rosto comigo
E entendi seu jeito de se aconchegar no meu abraço
Até encontrar todos os pedacinhos de afato
Entendi detalhes do seu cheiro que não sabia
E ouvi suas histórias, segredos, sonhos, medos
E vi suas alegrias. O canto, a dança, a vida
Você gosta de celebrar a vida
Eu ainda não via seu rosto
Quando eu fechava os olhos
E agora vou dormir
Fecho os olhos
E vejo seu rosto
E vejo dentro de você
E a saudade é tão maior

Oferta

Ontem eu descobri que sou descartável
E doeu, e entristeceu, e vergou meus ânimos até que tocassem o chão
E olhando a esse rebuliço de humores
Pensativo, pergunto à minha sombra: por que?
Descartáveis somos todos, não somos?
Descartáveis somos todos
Venerável seja essa rara espontaneidade
De deixar pra lá sem delongas
De esquecer sem maiores justificativas
Você é raro, é único
E todo mundo é.
Nessa abundância de raridades insubsituíveis
Há sempre um novo raro
Todos descartáveis

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Foi assim

- Finalmente eu fui conhecê-la!

- É mesmo? Não acredito! E aí?

- Ela é linda, linda! E tão, tão... tão interessante!

- E o que aconteceu, me conta!

- Então, conversamos pouco, eu estava tímido, sabe, sei lá, leve, por um lado, e tímido por outro; duas coisas que deixam a gente quieto.

- Ué, então não conversaram muito?

- Na verdade não, porque ela tinha que trabalhar. Mas rascunhamos algumas perguntas sobre as nossas vidas, nos olhamos...

- E depois?

- Depois os anos se passaram, cada um vivendo sua vida no seu canto. Depois um morreu. Depois morreu o outro.

domingo, 29 de setembro de 2019

Impulsos

As pessoas oscilam entre impulsos irresistíveis e maremotos de inseguranças das mais terríveis. A Priscila mandou um e-mail pro cara, chamou ele pra sair, ele respondeu, disse que sim, e ela nunca mais escreveu pra ele. E ela fica triste que ele não escreve um e-mail pra ela. E nada no mundo vai convencer a Pri a escrever. E eu fico pensando, aqui, se o tal cara também não está lá, só esperando uma resposta dela, e pensando "droga, acho que ela desencanou". Essa coisa de "talvez" é uma areia movediça que traga as pessoas pra suas masmorras internas, tranca o cadeado e joga a chave longe.

sábado, 28 de setembro de 2019

Amanhã

Amanhã eu vou ligar pra você
E vamos conversar coisas leves
Vamos rir saudades de histórias simples
Que em nossas distrações brotam um mundo
Um mundo verde e sereno e morno
Um mundo que a gente gosta de viver
E vamos ser de verdade
Essas coisas que a gente fica sonhando
E vamos ser agora
Essas coisas que se deixam por descaso no futuro
Sempre no futuro
Pensando bem,
É agonia
É agonia, que eu não aguento
Que eu não aguento você ter passado a vida no meu futuro
Sempre no futuro
Sai do meu futuro e me vem de presente
E me xingue por perder tempo com trocadilhos tão estúpidos
De uma estupidez que é do tamanho da minha agonia
Do meu nó no estômago
Do meu nó nas tripas, nos dedos, nos braços, do meu nó nos sonhos, nas pernas, no nariz...
Amanhã vou ligar pra você,
E não vou falar nada disso
Vou falar de coisas simples
Das pequenezas do cotidiano
Porque em nenhuma outra conversa
Farei tanto de tão pouco

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Crônica de uma leitura

Leio as letras dela
Palavras bem escolhidas
Sintaxe lapidada
Vírgulas lixadas e bem aparadas
Tudo medido, adequado, próprio
Tão natural
Leio as palavras dela
E como meus olhos que sabem das palavras
Sem que se dêem conta de só ver letras
Sinto que posso tocar seu rosto
Ainda que realmente não o toque
E que tenho pra mim seus olhos
Ainda que realmente não o tenha
Minha alma, embora minha não seja.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Adoniran

As palavras têm rosto
Claro que têm
Um rosto diferente do meu
E que eu não sei se é mais bonito
E que não sei se é mais feio
E ainda assim, de certa forma
É um rosto que também é meu
E quando me olham nos olhos
Esses outros olhos
Por vezes gostam
Por vezes não
E se me gostam nos meus olhos
Meus olhos mesmo
Se me gostam ou não
É coisa que, com aquela,
Não guarda relação

Angra

Ficamos os dois ali, à beira da vida, deixando tudo passar. Abraçados, quentes. Te sorri três futuros e você me olhou: um presente.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

sCRAP

As pessoas deletam scraps no Orkut. Mas essas mesmas pessoas são incapazes de compreender scraps encontrados nos perfis de outras pessoas, e aí causam confusões que motivam essas outras pessoas a deletarem seus scraps.

Ao julgar os outros, mentimos a nós mesmos sobre quem somos.

[SIM, isso foi escrito há milênios... pensei em adaptar para a termilogogia atual, facebookiana, mas que se evidencie aqui a coerência dos meus cabelos já esbranquiçarem].