domingo, 31 de maio de 2015
Habilidades
Essa pergunta me deixou um tanto quanto consternado. Qualquer domínio no mundo... Nas matemáticas ou nas artes. Nos discursos ou nas danças. Qualquer habilidade. Mas só uma deve ser escolhida.
Se me restasse uma última habilidade por escolher, logo eu que coleciono mediocridades em tantas frentes distintas, escolheria ser um especialista em sorrisos.
Desbalanço
Por que é que o ódio é mais prolixo que o amor?
sábado, 30 de maio de 2015
Chamada oral
Tantas coisas na vida que a gente não sabe...
Eu não sei fazer malabaris.
Não sei falar chinês.
E se, de repente, eu não souber amar?
Dos diários antigos–Parte III
De volta ao começo bem maluco dessas considerações jogadas... Ontem fugi do mundo. Fugi mesmo. Fugi da rotina que anda me engolindo. Saí andando sem avisar ninguém e fui ver uma peça de teatro de estudantes. Estudantes iniciando-se no teatro são uma coisa incrível. Não estão devendo nada pra ninguém, pois não precisam justificar nenhuma fama, e ao mesmo tempo precisam provar tudo para si. Precisam tornar-se ali os melhores atores do mundo, algo assim. Talvez depois a vida lhes quebrará essa ilusão se não tiverem talento suficiente ou, pior ainda, se lhes sobrar sandice para esses julgamentos de valor. Mas ali, nas primeiras apresentações com o primeiro grupo de teatro de que fazem parte realmente, ali são imortais. E vi isso ontem. Vi isso e mergulhei nisso. Os sons da percursão. Os gritos, os momentos de tensão das cenas. O desafio da nudez e os momentos de improviso. O canto da moça loira sentada no balanço... Meu deus, isso deveria ter sido registrado. Seria possível assistir esse vídeo vezes sem conta por semanas adiante. Ela ali sentada, num balanço, encarando a platéia a um metro e meio de distância, olhos nos olhos, nua. E começou a cantar. Doce, preciso, liso, afinado, leve. Mas ficou forte, forte, denso... como se o ar virasse água e a água virasse óleo e de repente na enxurrada de óleo viessem pedras rochedos e montanhas inteiras também. Berros, gritos, desespero.
Não creio que exista uma encenação perfeita. Mas essa descrença deve-se apenas há uma imprecisão semântica. Encenação perfeita é um contra-senso. Há uma fronteira além da qual o ator deixa de encenar. Ele efetivamente torna-se, ali, o personagem. O ator desaparece. Quem está ali é o personagem, realmente. E foi assim. Aquele bando de moleques que estava na platéia, no começo perdidos em risadinhas diante de qualquer nu que surgisse (porque, convenhamos, atores iniciantes parecem sentir uma tentação de explorar mais momentos de nu do que necessário, mas isso é outra história). Aquele bando de moleques que riam de qualquer coisa... De repente pararam de rir. Ela ali, no balanço... Pés cruzados, segurando as cordas, totalmente nua. Cantando. A percursão desapareceu. As sombras desapareceram, como se não houvesse um holofote sobre ela. De repente ela tinha luz própria. E os fedelhos moleques imbecis pararam de rir. Sumiu dali, de repente, diante dos olhos deles, uma aprendiz de atriz nua, e materializou-se uma mulher que sofria e cantava as dores de uma vida inteira e não era mais seu corpo que estava descoberto, era sua alma. Não eram mais seus seios que se viam, era seu coração, não era mais suas pernas, era sua história, tudo ali, desnudo, preenchendo todo o ambiente enquanto transfigurava-se de corpo em voz.
Isso salvou meu dia. Mas, não quero desmerecer ninguém, teria salvo meu dia mesmo que a peça fosse ruim (não era). Um dos pontos importantes foi a completa aleatoriedade... Não planejei ir pra lá. Voltei do trabalho pra casa e, de repente, pensei "tá bom, eu vou!". E fui. Ninguém sabia onde eu estava. Niguém sabe se fui. Celular desligado. (celular desligado, ó deus, bendito seja!). Fugindo de todos os lugares em que oficialmente existo, sumido no meio de um monte de desconhecidos sem ser ninguém além de um corpo quieto, olhos abertos olhando, existi. E fiquei feliz, porra se fiquei!
Ontem eu fugi do mundo. E descobri que existem outros mundos por aí. Se eu fosse Deus também teria feito o livre-arbítrio. Assim, depois de uma Criação tão atonitamente estupefante e surpreendente, as pessoas iriam cuidando das próprias vidas enquanto eu pudesse, invisível, andar livre por aí só observando. Todos os lugares. Todas as pessoas, todos os mundos. O que não levaria a nada além da admiração. Como essas reflexões estaladas no papel jogadas do quinto andar sem dó nem nexo. Não concluem nada, mas gostei de escrever. É o que importa.
sexta-feira, 29 de maio de 2015
Dos diários antigos–parte II
Frase de um engenheiro e acadêmico ilustre: "o grande problema da vida é minizar o nosso tédio".
Santo cristo! Pobre homem... Ele é realmente genial, Zé Augusto, no que se refere a aulas, às suas apostilas cheias de equações. Estudou no místico M.I.T., o instituto de tecnologia de Massachusetts. A gente adora esses brasileiros que foram estudar lá fora.
Lembro do livro de Jonathan Safran Foer, Extremamente Alto e Incrivelmente Perto. Dessas coisas de papel que você não larga até que acabe. A vista cansou. As mãos não se aguentam, mas você quer ler mais um pouco. A angústia do menininho vai moendo nossos ossos. E lembro de uma palavra que ia se fixando ao longo do livro: "degringolar". Algo está degringolando, ou está se acertando? Como é que a gente sabe? Como diabos a gente sabe?
As perguntas da minha amiga... São importantes porque talvez ajudariam a entender se algo está degringolando ou não. Ou então se pode degringolar no futuro, e assim vai. Eu tenho medo de relacionamentos por conta do divórcio dos meus pais? Como diabos se responde uma coisa dessas? Eu tentei. Abri um e-mail e comecei a escrever. Escrever é principalmente a coragem de começar e a disciplina de continuar, não é? Mas dessa vez não levou a lugar algum, mesmo. Talvez isso seja sintomático. A dúvida é sintomática, não é? Segundo o Giannetti, é sim. Acredito nele. Se eu não tivesse nenhum problema com essa questão, teria respondido de imediato que não, que ela estava viajando.
A segunda questão dela não era bem uma questão, como conferi agora. Era uma afirmação. Eu sou um cara de humanas. O que significa isso? Não na semântica óbvia na frase, mas dentro das decisões e sentimentos que tenho e devo diante da vida. O que significa isso? Sim, eu sei que várias coisas no modo de vida engenheiro não me atraem. Sim, eu sei que eu preciso de determinadas mudanças que vão na direção de uma vida mais Humanas. Sim, eu sei que sou bem bundão pra isso, que se fosse eficiente já teria operado mais mudanças há mais tempo. Mas eu não renego meu lado Exatas. Mais do que tudo, acredito que eu sou as duas coisas. O que, fatalmente, me garantirá uma mediocridade nas duas áreas ao longo da vida, e deverei conviver com isso numa boa. Mas será facil conviver com isso, creio, principalmente porque eu penso muito diferente do J. Augusto que mencionei há pouco.
O problema central da vida é o da minimização do tédio? Que absurdo! Onde diabos está a maximização do prazer? Dar uma estilingada na janela do vizinho minimiza o tédio, e eu adoraria ver o Augusto experimentando uma técnica arrojada dessas. Discutir com as pessoas no trabalho também. Por que então as pessoas não optam por estas soluções? Por que elas diminuem o prazer, e a busca de prazer manda muito.
E por que eu, então, sou tão bundão em promover mudanças necessárias na minha vida? Bem, é nisso que consiste o medo, não é? O medo é uma suspeita exagerada de que determinadas ações implicarão na diminuição do prazer, o que produz a hesitação toda. O que trava demais.
Mas estou sendo injusto aqui. Para um texto de dezembro, está muito pessimista. Ainda que com degringolações e bundonices e freudianices atoladas num inconsciente enlameado, preciso ser justo. Há coisas pendentes, sim, ainda bem, mas preciso ser mais justo. Dois mil e dez veio, e eu não estava morando sozinho. Agora estou. Agora estou trabalhando e mandando no meu dinheiro nos meus gastos nos meus planos. Só não estou mandando certo ainda, mas estou mandando. Estou fazendo minhas aulas. Compro livros, mas tenho comprado menos livros e lido mais. Curiosidamente, essa mudança se deve em boa parte ao fato de que eu tenho comprado mais livros de humanas e menos de exatas. Maldita amiga, você está certa. O óbvio revolta, quando não é a gente que vê. Mas se eu não vi, tenho que entender a razão de não ter visto: olho demais para os outros. Para alguns chegados nunca foi possível que eu fosse alguém de humanas. Meus amigos não sabem o que é filosofia, desconhecem por completo as ciências sociais e não se comovem com a história da ciência. Vivem em cima de um prédio alto, gigante, mas ignoram tudo isso. Os andares abaixo. A história do mundo. Gosto deles, mas talvez esse contexto tenha me deixado mais sozinho do que eu deveria na escolha dos meus caminhos. Um tipo especial de solidão. Solidão nerd. Solidão intelectual. Solidão espiritual. Solidão secular.
Você decide estudar alemão. Compra um livro e promete a si mesmo: toda terça e quinta vou chegar do serviço, tomar um bom banho, e das 19:30 às 21:30 vou me trancar no quarto e ler o livro, falar as palavras em voz alta, arrumar filmes em alemão para assistir, et cetera e tal. Funciona na primeira semana. Capenga na segunda. Foi pro espaço na terceira. Consequencia do que? Da solidão. Consequencia do vazio da solidão, esta droga de solidão de que meu professor falou. Essa solidão não afeta a alto disciplina dos nossos estudos. Precisamos dos outros, em certa medida, também para a afirmação de escolhas muito pessoais. Coisa que não é óbvia e que a maioria, a grande maioria das pessoas, vai negar. Mas é assim que é. Você escolhe fazer um curso de administração. E as pessoas ao redor ficam admiradas quando você diz que faz administração. E sua família toda sabe disso, seus amigos. Você faz amizades na área. Imagine agora mudar tudo isso. Trancar o curso. A quantas pessoas você não vai ter que se explicar? Quantas pessoas não mostrariam alguma rejeição? Pessoas importantes...
Quanto às áreas não convencionais, agora. Você resolve fazer filosofia. Seu pai reprova. Vai viver de quê? Sua mãe não sabe o que faz um filósofo. Pergunta, jocosamente (ainda que sem usar a palavra "jocoso"), se você vai vestir lençóis brancos na praça da cidade. Os gregos acabaram. Atenas já era. Mas sua mãe não sabe o que faz um filósofo hoje em dia. Até tem uma idéia. Eles podem dar aulas. Mas isso é mais assustador ainda, tratando-se de Brasil como pano de fundo. Tudo bem, ainda assim, a idéia é válida. Os pais frequentemente não são o elo determinante da personalidade e nem mesmo os agentes de mais peso no mundo existencial do filho. Isso é um inferno para os pais. Para o resto do mundo, é simplesmente como o mundo funciona. Se você então tem amigos que amam a filosofia, se gosta de ler sobre o assunto, se conhece pessoas que se formaram nessa área e que estão felizes e que gostam da vida que têm, não importa quantos problemas tenham e quantas reclamações possam fazer sobre esses problemas, haverá aí uma coesão de grupo que quebrará sua solidão. E você terá uma enorme pressão para manter sua coerência de estudar filosofia.
Tudo muito simplificado, não quero teorizar muito, mas a idéia principal está aí. E pensar que o mundo é assim mesmo, que é o jeito natural das coisas, e aí pensar na minha vida, me faz refletir e chegar a algumas conclusões... Talvez seja possível resumí-las.
Tô fodido.
Éfe ó dê i dê ô.
Por que terei sempre solidões demais ao meu redor e talvez por isso venho aprendendo a gostar delas. Isso exige muito para que eu mantenha um caminho, qualquer que seja. Explica eu ter saído de um curso na faculdade e a dificuldade que tive em terminar o outro. Explica eu ainda não saber tocar violão. Não aprender alemão. Meus ritmos são mais lentos, mas sei que não terei o triplo de anos para concluir minha vida. Por que é que eu estou fodido? Por que estou em mundos demais, o que é um problema, mas gosto demais dos mundos demais a ponto de não conseguir largar nenhum deles. O que significa que, no global, sempre estarei cercado de mais gente que não entende minha vida do que gente que entende.
Mundos demais?
Gosto de jazz. Adoro jazz. Jazz clássico. Gosto de música clássica também. Sala São Paulo, Teatro Municipal, Rádio Cultura. Mas adoro pular todo molhado de suor no meio de uma multidão de show de rock, ou pegar um microfone e berrar agudos mal ajustados exaurindo pulmões e diafragma achando que o mundo inteiro está me ouvindo. Faço uma martelação sem sentido na bateria, quebrando periodicamente algumas baquetas, e nem me importo com a falta de estilo estudo técnica ou beleza. É barulho, relaxa.
Converso com eruditos mas a estupidez também me fascina.
Gosto da minha solidão. De mergulhar nela, nos meus livros, sons e pensamentos. Depois eu saio e tudo do mundo para mim serve. Vejo muita gente chata por aí, mas mesmo com elas tendo a me dar bem, uma espécie de neutralidade. Porque, se por um lado são chatas certas pessoas, a chatice me facina. Existindo minha solidão particular, lá no meu canto, sei que vou voltar a ela depois, então não preciso ter medo de me escravizar à chatice alheia. Fico lá, observando atentamente seus detalhes, e depois volto para casa, tranquilo, enquanto todo mundo ao redor se corroeu e se revoltou. Olho isso acontecendo e acho curioso.
Me dou bem entre desconhecidos. Acho um canto meu. Olho. Dizem que tenho uma certa facilidade para me enturmar. Eu já acho diferente. Eu acho que tenho uma certa facilidade para me misturar sem estar no meio. De repente falo com todos, mas deixo todos ainda tão sufientemente à vontade, que efetivamente não estou ali. Pois é a melhor posição para ficar só olhando, veja que maravilha.
E aí? E quando é assim? Esse isolamento ainda tem muito a ver com divórcio dos meus pais ou é algo mais fundamental? Ou é algo mais fundamental, hoje, mas que tem suas origens nessas conturbações do passado?
Gosto do meu tipo de conforto. Mas posso estar no meio de gente rica, iates e lanchas e essas coisas, ou viajando em um carro velho, tudo dando errado, chuva e lama, e está tudo bem. Sentindo que a vida está acontecendo, está tudo bem.
Gosto de mundos demais, e efetivamente, ultimamente, estou em mundos demais. O que seria preocupamente, não fosse algo mais preocupante ainda: não é o bastante. Não sou um contador, sou um cara de humanas. Tá bom. Não no sentido de que eu não goste de exatas, que eu não tenha meus interesses aí, mas sim em um outro sentido. Passo tempo demais mergulhado nas exatas de um jeito que ainda não gosto, e é isso que eu quero diminuir. Achar um jeito de fuçar ainda mais no mundo. Um jeito de ter mais coisas para escrever. Passar o dia fechado em uma mesma sala sem janelas fazendo um programa de computador para calcular esforços físicos dentro de uma chapa de metal... Bem, isso é interessante, um pouco, pra se ver como é que funciona. Mas já experimentei dessa vida, já sei como é que é. Ainda que essa carreira resulte em viagens exóticas às vezes e em algumas viagens pelo Brasil, estou atrás de outra coisa. Tudo bem, tem o problema do salário para contornar, mas hoje estou atrás de outra coisa. Espero que o meu mestrado possa me ajudar com isso. É um mestrado que se aproveitará de tudo o que eu consegui realmente aprender de exatas, programação em computador, cálculos e tudo o mais, mas ao mesmo tempo dará todo o espaço do mundo para minhas paixões humanisticas serem mais inspiradoras.
Dos diários antigos–parte I
Ontem eu fugi do mundo. Fugi para um mundo alternativo onde as coisas eram diferentes. E elas foram sendo diferentes até que eu cansei. O que se faz quando se cansa? Como se reconstrói um mundo? Tentei ser Deus e não consegui. Tentei e aboli minhas solidões. Aboli meus anseios impossíveis. Aboli os próprios impossíveis do mundo. E aí olhei em volta e ninguém sorriu comigo.
A solidão. Tema recorrente, não só para mim mas também para várias outras pessoas curiosas.
A solidão tem várias faces. Falta dos outros. Excesso de si. Mistura destes extremos. Muitas pessoas são sozinhas por terem demais de si mesmas na própria vida, não sobrando espaço às outras. Outras simplesmente estão isoladas. Lhes falta o resto do mundo. Rejeição, isso é horrível, é triste. Compreensível? Quem gosta de estar ao lado da gorda geleienta que baba ao falar? Você a visitaria todas as tardes, levando uns pãezinhos, só para conversar um pouco e saber das novidades (nenhuma novidade, nunca). Hein? É uma crueldade do mundo? Deveriam desconfiar da inexistência de Deus simplesmente pela rejeição que temos pelos feios. Deus existindo, esta foi uma faceta de muito mal gosto. E não apele ao livre-arbítrio coisa nenhuma, pois é um traço comum de todos essa rejeição, não é?
Voltei do meu mundo alternativo imaginário pensando essas coisas. E aqui no mundo de sempre estava tudo sempre igual, sempre na mesma, sempre continuando, e eu não sabendo onde vai dar. Eu nunca sei aonde é que vai dar. Eu crio algumas solidões e depois quero fugir delas. Eu crio algumas alegrias e depois elas me entristecem. Eu mergulho em algumas tristezas e aí olhando seus detalhes, me alegro.
É tudo imprevisível demais. É tudo muito imprevisível. Ou apenas não tenho o controle, algo assim.
Vou me voltar ao mundo lá fora, mais cedo ou mais tarde. Outras pessoas, outras histórias, outros problemas. E minha vida estará bem encaminhada, neste caso. É curioso isso. Quanto mais olhamos para fora, mais parecermos estar bem. Relação curiosa. Meu professor de sociologia falou uma vez que dentro do próprio indivíduo não há nada. O indivíduo que mergulha dentro de si buscando viver seu próprio mundo descobre apenas vazio, e vazio entristece, enlouquece, apodrece e tudo o mais. Curioso. Não faz sentido, no fim das contas. Por que seria interessante, então, olhar pra fora, se lá tudo o que há são pessoas ou também olhando pra fora ou então mergulhadas em si e logo completamente enfadonhas e tristes? Curisoso, muito curioso, não é mesmo?
Por que guardo mais segredos dentro de mim do que gostaria? O que há de problema e o que há de natural no meio disso tudo? Quero saber. Quero entender. Preciso, não é mesmo? Preciso entender tudo isso melhor e é assim que deverá ser.
E meu pai? Como ele irá arrumar a própria vida? E minha irmã, minha pequena irmã, que está casando, meu deus do céu! Minhas sobrinhas, as vi tão pouco neste ano. Meu namoro, onde há tão pouco de mim ultimamente. Quanta coisa pra pensar.
Os e-mails da minha amiga, que eu nunca respondo. Nunca respondo e não sei se eu sei a resposta. Sei que são mais questões na fila. Quando vou pensar nelas? Certas questões não deveriam ir se processando naturalmente, com o correr dos dias, no girar da engrenagem do mundo, e nós gradualmente iríamos ficando mais e mais conscientes da resposta? Ou nisso é o que acreditam os que empurram com a barriga?
Estou com uma certa barriga. Mais bicicleta e menos pizza, 2011 aí vou eu.
Estou com uma certa barriga. Da metafórica. Empurrando o mundo com ela. Qual o equivalente metafórico de mais bicicleta e menos pizza?
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Coisas positivas
Gosto de ler. Gosto de aprender. Sou obcecado. Enfio uma idéia na cabeça e não consigo largar. Ela fica ali, dando voltas. Isso é bom para muitas coisas. Para achar respostas. Para criar coisas. Para desenvolver projetos. Tenho gostos variados. Não sou bom o suficiente para ser um especialista, mas sou mais inteligente do que a maioria das pessoas a ponto de ter um conhecimento além da média em um leque de assuntos grande o suficiente para ser considerado um generalista. Gosto de dançar e gosto de matemática. Gosto de tocar violão e de ler sobre antigas navegações. Gosto de fotografia e de entender o comportamento do aço. Gosto de carinho e de viagens. Gosto de paisagens. Externas e internas.
Dor
Destruí um lar.
Não sei se o lar já existia antes.
Mas destruí um lar.
Não sei se ele se destruiu sozinho.
Destruí um lar.
Nem sempre somos bem vindos.
Nem sempre boas intenções fazem sentido.
Nem sempre ter um bom coração traz coisas boas.
Nem tudo é culpa minha.
Eles não se falam mais.
Eles não se olham mais.
As paredes estão lá.
As panelas estão lá.
O tapate está limpo.
A faxineira vai toda semana.
Mas não é mais um lar.
Não se falam mais.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Contágios
Política, religião e futebol, não se discute.
Há um espectro de interação social. Em um limite, nada acontece. No outro extremo temos guerras e conflito. No meio do caminho, em algum lugar, há um tipo suficientemente lento de troca de idéias e pontos de vista que acaba por permitir algum tipo de entendimento. Agreement, como dizem os gringos.
Política, religião e futebol, não se discute. E assim continuamos com nossas idéias idiotas sobre política, religião e futebol.
Deveríamos discutir mais. Com isso, inevitavelmente, vem um conflito.
Conflitos geram desgaste. Mas uma certa dose de desgaste é necessária para produzir transformações.
O mundo está se tornando extremamente compartimentado. Ilhas de memes tornando-se espécies diferentes.
Especiação de memes.
Na genética, uma nova espécie se forma após duas populações isoladas se tornarem tão distintas entre si que não são mais capazes de se misturarem, de se reproduzirem sexualmente.
Há o mesmo no mundo das idéias. Em um dado momento nossas convicções e pensamentos tornam-se tão distantes entre si que o diálogo não é mais possível.
As verdadeiras jornadas
“A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam nossas fronteiras interiores”. Mia Couto sabe das coisas.
terça-feira, 26 de maio de 2015
Estranho
Nos fundos da casa há uma escadaria. Está escura e empoeirada. Subo lentamente. Sinto um ar frio conforme começo a subir. O piso. As paredes. A sombra. A temperatura daquele microclima diminui à medida que os degraus sobem. Uma porta de madeira. Um sensor de presença. Alarmes, segurança e medo mesmo nesses recantos escondidos. Abro a porta. Panos de chão para limpar os pés. Uma escrivaninha é a primeira coisa que eu eu vejo. E muito papel. Muita bagunça. Quem é que é assim por dentro? Muitas idéias e muita bagunça?
Lições
Eu não tinha conseguido copiar toda a lição. Mas o Paulo, um amigo meu, conseguiu copiar tudo a tempo. Eu levei o caderno dele para casa para copiar. Mas não estava conseguindo entender a letra dele. E então eu pedi ajuda ao meu pai. Ele, pacientemente, me ajudou a identificar aquele código estranho. E depois, sereno porém denso, me disse:
-Nunca mais traga um caderno de um amigo para casa. Seu amigo agora está brincando, e você está aqui fazendo lição.
Foi a única vez que meu pai me deu uma bronca assim. E ainda não sei como ele fez para que eu nunca esquecesse dessa lição.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
Latente
Eu já ditei as regras em um dado momento. Tirei as notas mais altas da sala. Contei as melhores piadas da noite. Fui foco de admiração e, por que não, de uma certa inveja também.
De uns tempos pra cá a vida mudou. Estou de lado. A vida parece acontecer lá fora enquanto fico aqui, com minha existência em banho maria, interminada, latente. Espero poder fazer a transição de volta em breve. Não exatamente para o centro das atenções, que é um local estranho e traiçoeiro. Mas para aquela região mais interessante em que as coisas continuam acontecendo.
Nos últimos anos me tornei potenciais. Acumulei potenciais. Aprendi coisas. Viajei. Reorganizei sonhos. Está na hora de abrir a porta de novo e ir lá fora.
Caminhos
Onde há dúvida há liberdade.
Há tantos anos li isso. Utilizei essa frase para distinguir entre livres e ignorantes.
E entendi ignorantes como aqueles que ignoram as liberdades possíveis da própria mente.
E hoje, olhando no espelho, de repente estou me perguntando: quais minhas dúvidas? Porque faço certas escolhas como se houvessem certezas?
Há mais dúvidas por aí do que a gente imagina.
domingo, 24 de maio de 2015
Clientes
Fiz as compras. Fui com o carrinho ao caixa. Mas eu estava ao celular, finalizando uma conversa. A atendente iniciou a marcação dos preços. Perguntou se eu queria "CPF na nota" (a tal da nota paulista). Fiz que sim com a cabeça mas mal olhei nos olhos dela.
Eu ao telefone.
Ela passando as mercadorias.
Finalizou. Perguntou: "dinheiro ou cartão?"
Apontei para a maquininha de cartão.
Débito ou crédito?
Falei ao telefone: "só um segundo..." Olhei para a atendente: débito!
Ela passou meu cartão. E então finalizei a ligação.
Eu estava constrangido pela minha falta de humanidade e tentei me desculpar.
-Olha, mil desculpas viu...
-Imagina! Por que?
-Por ficar no celular e mal falar com você...
Ela sorriu um sorriso largo e me olhou com sinceridade: não tem problema mesmo!
Tentei brincar:
-Bom, se isso não te incomodou, acho que é porque já viu piores.
Ela gargalhou e disse, quase pra ela mesma: "e como! bem piores..."
A arte de mentir
Um gráfico. Outro gráfico. Este aqui mostra a tendência disso aqui aumentar, percebe? Este outro mostra que as coisas podem melhorar se fizerem isso.
Se fizerem as coisas que vocês nunca vão fazer.
Esses estudos são a evolução da arte de mentir.
Mentir para si mesmo, em nível institucional.
As instituições fazem a mesma coisa que as pessoas.
Imaginam um futuro em que tudo estará resolvido se forem feitas as coisas que não serão feitas.
É a versão civilizada dessa coisa íntima que é a promessa de um regime na próxima segunda-feira.
sábado, 23 de maio de 2015
Sopro de vida
Assim como a asfixia é um apelo ao corpo para a ingestão imediata de ar, a curiosidade é um apelo a alma para a ingestão imediata de vida.
Espírito Ioiô
É um nome técnico bonito, né? Espírito Ioiô. Freud deveria ter utilizado esse tipo de coisa em seus livros chatos. "Quando o Id inicia a transição entre o modo estátua e a característica ioiô então o sujeito...". Seriam textos mais interessantes. Ou não. O importante é que é um termo apropriado para mim. Um espírito ioiô. Que hoje está aqui. Amanhã está lá. E um tempo depois está aqui de novo. Só assim explico essa frequencia assutadora com que me esqueço e com que me redescubro. Esse espanto idiota com oscilações que insistem em se reformularem. Sempre diferentes. Sempre as mesmas.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Hüsnü Senlendirici
Obrigado, música, por vir me resgatar no meio desse tédio lamacento e salvar minha vida. Ninguém mais faria isso em meio a uma noite tão escura.
Equívocos
Você gasta com cremes para a pele. Passa horas cuidando da maquiagem. Gasta uma fortuna com o cabelo, em salões especializados. Preocupa-se com os mínimos detalhes da roupa. O caimento sobre o corpo. O acabamento de cada fio, cada dobra.
E não consegue entender que nada pode te deixar tão bela quanto a alegria natural que sentiu hoje de manhã ao me mostrar o pequenino broto de limão que começava a despontar na terra do vaso. As mãos sujas, o cabelo todo fuá como você diz.
Nada pode te deixar tão radiante como ver um cachorro na rua, um cachorro feliz que quer fazer contato com você, que pula no portão, latindo, pedindo um pouco de carinho.
Não há roupa, maquiagem, idade, peso, unhas, sapatos... nada nada nada no mundo que reproduza essas belezas. Nem de perto.
Só queria que você entendesse isso também.

