As pernas não estão exatamente confortáveis. Mas a sensação de me contorcer em posições não projetadas, esticando-as para o lado por sobre o assento vazio, dá algum alívio. Vejo, no vidro oposto, meu reflexo. Um adulto com um livro na mão. A trepidação da estrada faz a imagem ficar um tanto quanto distorcida. Mas nisso há uma nítida verdade: é assim que nos enxergamos, sem detalhes suficientes. Sem perceber o movimento por completo. Mas, ainda assim, seguindo adiante.
domingo, 21 de junho de 2015
sábado, 20 de junho de 2015
34 cities
"We first meet at the main hall. She was dressing a very casual dress. Not like going to sleep, but also not like going to the Oscar night. I was smoking. I was tired to do anything else but didn't want to stay in the room looking at the walls or, worse, watching some cable channel. She approached me asking for fire. I gave her my lighter and we started a conversation. She was hot. Not lake a playboy bunny. Hot in her middle forties. Better like this, I thought. Enough of those silly little girls. Too innocent and way too dreamy. This lady was different. I was trying my best to think of a way to approach her over that empty conversation about what were we doing there and the weather and all this bla bla bla when she just looked deeply into my eyes and fired: do you want to take me into your bed? Oh my god, you are quite straight aren't you? Well, I know the looks, she replied. And I could only tell her that To be honest, Yes I want. Please don't be offended for my honesty, I mean no disrespect, but you asked me and I feel obliged to tell the truth. She took another drag on her cigarret as if I had said nothing of importance, stared back at my soul and just wispered I cannot be offended at all. I was wishing the same. Let's do it tonight. Her voice made me crazy. Completely crazy. And this was the first city I was visiting of all the thirty four I was intended to drive through in this my new job. I think I'm gonna love this summer."
Política
As mesas de plástico já estavam cheias de copos vazios. Pratos com guardanapos sujos. Espetinhos de madeira jogados displicentemente, já sem carne. Talvez fosse o álcool da cerveja, talvez fosse só sinceridade mesmo. Talvez fosse algo em sua vida que estivesse errado, profundamente errado, e a raiva era descontada em mim. Dane-se a razão precisa, só sei que a raiva era descontada em mim. Eu mostrei um aplicativo de notícias, em que eu podia ver em tempo real até mesmo as notícias da França ou da China. E ele era áspero "e daí? Vai sair com guarda chuva se tiver chovendo na França?". Era o dia perfeito para começar uma briga. Minha mão fechada encontrando o nariz dele. As pessoas correndo para nos separar quando já seria tarde demais. Um pé contra meu estômago. Talvez contra meus dentes. A violência dessa imaginação me acalmou. Não por completo, mas o suficiente para eu deixá-lo sendo um idiota sozinho.
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Tamires
"Eu adoro ler. Estou sempre lendo. Passei quatro anos nos ônibus, indo e voltando para a faculdade. Uma hora e meia toda vez. Cara, isso são três horas por dia, todo dia! É muita coisa. Mas eu peguei gosto por ler, sabe? Nada intelectual. Não gosto de ler coisas intelectuais não. Gosto de coisas distrativas. Gosto de entretenimento, de me sentir bem. Agora, com o trabalho... Eu me formei em contabilidade, mas trabalhava em um escritório. Trabalhei um ano. E não era feliz. Não estava aprendendo nada. Resolvi sair. Falaram para eu ficar até achar outra coisa. Mas eu precisava sair. Agora não sei o que vou fazer. Preciso descobrir. A gente precisa de um trabalho, não é? Mas eu não sei o que quero fazer."
Traduções
Descobri que a maior parte dos professores ruins não confia em seus alunos. Recebo com frequencia este conselho: "não complica muito, eles precisam passar na prova, passa só o que interessa". O que significa praticamente o mesmo que "treine aqueles macacos". Nada de ensinar a pensar. Apenas dizer umas regras que podem ser memorizadas e repetidas. A memória é muito mais difundida do que inteligência, essa é a crença. Então, como professores que precisam produzir alunos que passam em provas, é melhor apelar para a memória do que para o raciocínio. Eu não consigo assinar embaixo. Não consigo. Não confio nesta abordagem. Acho que a inteligência é também tão difundida quanto a memória. Talvez até mais. Mas a inteligência exige algo que a memória dispensa: diálogo, um diálogo mais profundo. A memória é cópia direta. Você diz uam frase como "sinais iguais, você soma, sinais diferentes, subtrai". Ou então algo mais sucinto ainda como "menos com menos, dá mais". E a memória deve repetir as regras do mesmo jeito. Já com a inteligência algo diferente ocorre. Cada um tem seu idioma, seu vocabulário. É difícil dialogar com a inteligência alheia. E é por isso que a grande maioria dos professores prefere não fazê-lo. A cultura do mundo sofre agonizante por conta de nossa indisposição a buscar diálogo com nossos iguais.
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Caminhos de ferro
"Seus braços se tocaram. Suavemente, sem nenhum movimento brusco que pudesse denotar intenção. Era apenas uma conseqüência mecânica dos solavancos do trem. Mas dali em diante, ele reparou, ela não levantava mais o braço esquerdo enquanto gesticulava. Deixava-o aí, prolongando deliberadamente o prazer daquele acaso."
Das pessoas próximas
Qual seu critério para se aproximar das pessoas? Depende do que elas são para você? Você se importa com o que elas são para os outros? Elas refletem algum ideal maior? Ou alguma viabilidade imediatista? Ou você simplesmente deixa acontecer... Foca em seu trabalho, em sua rotina, e as pessoas que forem aparecendo serão, automaticamente, as pessoas próximas?
Eu, particularmente, nunca fui bom em escolher ou rejeitar pessoas. Embora algumas me incomodem e outras me irritem, sempre considerei que esse ato de escolher era, por si só, algo ofensivo de se fazer para outro ser humano, especialmente em contextos levianos como amizade, ou uma conversa do dia-a-dia. Ou talvez isso tudo seja uma racionalização para uma outra tragédia que nunca confesso: a inabilidade percebida de colocar em minha vida as pessoas que realmente gostaria. Diante dessa derrota prefiro aceitar quem aparece e desistir de fazer escolhas, o que é um modo de não me responsabilizar pela minha distância daqueles que mais amo.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
Pesos
"Talvez ela tivesse gostado de ouvir isso, mas nunca cheguei a dizê-lo em voz alta."
(do livro "Nós", de David Nicholls)
Quem nunca incorreu nesse crime das relações humanas? Crime sim, porque tudo podia ser muito mais do que é, não fossem os sentimentos ficarem tão escondidos. Mas, ao mesmo tempo, somos todos inocentes. Porque soterrados sob uma montanha de medos e inseguranças e considerações infinitas. E se ela não sentir o mesmo? E se meus sentimentos mudarem? E se ela achar que isso quer dizer ainda mais do que quer dizer? E se eu o disser de um modo idiota? E se já for óbvio e eu parecer bobo falando? E segue assim o mundo, com essas toneladas de alegrias soterradas.
Nota rápida
Estou deprimido. Profundamente deprimido com as conversas sobre redução da maioridade penal. Quanta gente idiota.
terça-feira, 16 de junho de 2015
Qualificações
Eu não sei porque ele está dando aulas dessa matéria. Ele é baixinho. E o que tem de baixo tem de arrogante. Gosta de humilhar os outros. "Afe, como é possível que nem isso você sabe?" É uma frase típica dele. O pai tem dinheiro. A família tem bastante dinheiro. Que não sei de onde veio, mas não importa. Ele nem precisava aparecer. Mas faz questão de dar tantas aulas quanto possível. É um destruidor de futuros.
Trabalho
Sabe, eu já pensei em parar com isso. Cansei de ficar arrumando o quarto dos outros. Varrendo o chão. Queria ficar só em casa. Tinha um tempo que eu ia é pedir as contas. Mas meu marido nunca fica em casa. Ele tem o caminhão dele. Tem quinze anos já que ele tem o caminhão dele. E ele ia trabalhar e eu lá, sem fazer nada. Aqui eu sei que todo dia a gente reclama. Não vê a hora de ir pra casa em ficar sem fazer nada. Mas a verdade é que se eu for pra lá e ficar jogada no sofá, vou acabar envelhecendo rápido. Igual meu avô, que envelheceu como que uns trinta anos em poucos meses, quando se aposentou, definhou e morreu.
domingo, 14 de junho de 2015
Madrugada
O ar condicionado faz um barulho estranho. Estranho porque parece ser constante, mas de tempos em tempos parece que ele muda. Eu não consigo dormir. Mas estou exausto. Sou como o barulho do ar condicionado. Pareço estar absolutamente indisposto mas também sou refratário ao descanso. O quarto está quieto. Queria que minha cabeça estivesse assim também.
Ritmos
"A vida, disse um amigo meu, é como uma senoide. Tem hora que está em um pico, tem hora que tudo vai para baixo e você vai parar em um vale. Mas, pode ter certeza, se está em um vale, virá uma subida e um pico no futuro."
Essa definição matemática talvez explique o fluxo do meu trabalho. Dias de fixação excessiva com o teclado. Mil idéias. Criações. Projetos se desenrolando. Trabalho e iniciativas pessoais. Tudo avança. E dias em que, não importa o tempo livre que eu aloque, não consigo produzir nada. Faz parte. É preciso aprender a respeitar essas oscilações do espírito.
sábado, 13 de junho de 2015
Diagnósticos
Vivemos tempos de destruição dos laços familiares. A vida está fragmentada. As amizades são superficiais. O tempo não existe mais como um desenrolar da vida. Existe apenas um tempo imediato. O passado, mês passadou ou cinco anos atrás, não é um lugar para ser visitado. Você conversa com a psicóloga sobre seus problemas. Você ri com o comediante de stand-up para falar da vida. Você vai a um restaurante vegetariano para aproveitar uma vida saudável e vai à Disney divertir-se com a beleza do mundo. Um denominador comum: tudo é pago, e por trás do pagamento está a obrigação do atendimento. Vida enlatada. A obrigação, seja do trabalho seja do prazer. Na vida cronometrada em boletos, também o cidadão livre subitamente encontra-se atrás do código de barras.
sexta-feira, 12 de junho de 2015
Prazeres da vida
"Nada deixa [Cartier-Bresson] mais secretamente feliz do que fazer um uso deliberado do aristocrático prazer de desagradar."
A biografia do grande fotógrafo, escrita por Pierre Assouline, vai direto ao ponto. O prazer de desagradar. Deveríamos ter mais consciência desses escondidos prazeres da vida.
Li por aí
"as confidências menos falsas são feitas com mais facilidade a desconhecidos"
Verdade. E aí fico pensando que um dos grandes desafios que tenho pela frente é o de desconhecer-me. O de ignorar-me a ponto de conseguir confessar a mim mesmo coisas que sei estarem escondidas em algum lugar lá no fundo.
quinta-feira, 11 de junho de 2015
A melhor coisa da vida
-Aquela nossa viagem foi a coisa mais legal que eu já fiz na vida!
E então você se sente especial. Profundamente especial. Injustamente especial.
Sorriso
Quis tocar...
Não pude sentir
Busco onde ir
Apenas olhar
Viver de visão
Enxergar coração
E ouvir a canção
Saber sonhar
E quando acordar
Conhecer limite
Quebrá-lo
Torcer essência
Fluí-la
Viver ausência
Destruí-la
Criar mundo
Abandonar corpo
Sopro sentir
Vida sonhar
Quando ver e ouvir
E aí encontrá-lo
Calor de tocar
Tocar...
A ordem proibida
A mãe do vazio
Amor
Rebelde por si
O sexto sentido
Toca por si,
Vê por si,
Tudo o que não posso,
Tudo o que cessou
Que sempre por si, amor,
Destrói o erro
Constrói passado
Desenha futuro
Tudo, meu mundo,
De abismos aos picos,
E do breu à luz,
Do seu sorriso se traduz.