sábado, 9 de setembro de 2017

Minha mãe chegou ao WhatsApp

Morar sozinho foi um desafio e uma conquista. Eu lavo as minhas roupas. Eu controlo o estoque de alimentação na geladeira. Eu decido quando é hora de varrer o quarto ou não. Mas mais do que isso tudo: eu gerencio meu tempo. Nada de ficar dando satisfações sobre horários a chegar ou sair.
-Mas já está saindo? Onde vai? E vestido assim?
Essa liberdade, contudo, parece estar ao menos parcialmente ameaçada.
Pelo WhatsApp.
Eu deveria ter dito para a minha mãe que, na internet, as mensagens demoram um dia para chegar. E que nem sempre chegam já que precisam percorrer milhares de quilômetros em servidores, subir até os satélites e descer de volta bem no meu celular. É claro que o processo é tão complicado que deve falhar em boa parte das vezes.
Não, não consegui inventar a história a tempo. E agora vou parar este texto por aqui porque minha mãe está preocupada: já tem uns dez minutos que ela perguntou como foi meu dia e eu ainda não respondi.
19:38: Oi filho, como foi seu dia?
19:39: Aqui foi tudo bem. Tinham umas frutas boas no mercado e vou fazer uma salada de fruta para sobremesa depois da janta, nham nham!
19:42: Ai, vi o protesto que teve na Paulista no Jornal, não vá passar por lá hein? Fica longe dessas confusões....
19:45: Filho? Cadê você que não responde? Tá tudo bem?
19:46: Filho! Não fala mais comigo? Ai meu Deus... tá tudo bem?
Não, não tá.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Porta da esperança

Eu só queria esvaziar os oceanos para todos descermos de nossas ilhas e nos juntarmos em um grande festão!

Comparações

-Cara, sabe o que meu namorado falou pra mim? Falou "ei, eu não quero ser comparado com seu ex!". É uma situação complicada, porque aí se eu for completamente sincera vai parecer que o estou deliberadamente ofendendo. Mas a resposta é... é claro que eu comparo! Querendo ou não. Comparamos as pessoas o tempo todo. Esse discurso de "não comparar" é uma amenidade mentirosa da linguagem. É claro que eu vou reparar se ele for mais engraçado que meu ex, se for menos trabalhador que meu pai, se for mais bonito que minha paixãozinha do colégio. Não importa. O importante é que não se trata de um "super-trunfo" dos relacionamentos. Mesmo que ele perca em alguns quesitos nessas comparações eu sei que, hoje, escolho ficar com ele. Ele precisa de maturidade para entender isso. Para entender que, independentemente do resultado das comparações, estar ou não com ele é uma questão de escolha minha. E que se ele se desesperar demais com isso, em não querer parecer inferior a quem quer que seja, ironicamente só vai conseguir é perder pontos.
-Concordo amiga, concordo.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Grilhões alfabéticos

Tem dias que não se imaginam coisas. Sento para escrever e penso na hora que eu acordei, no que comi, no que vi no supermercado, nos preços. Penso, enfim, em tudo aquilo que não deve pensar quem quer escrever. Onde está o personagem imaginário com uma vida fantástica, vivendo um conflito interessantíssimo, interagindo com pessoas curiosas, suspeitas, inusitadas? Nem ele veio visitar minha imaginação hoje. Tudo o que eu tenho a narrar hoje é extremamente concreto. As três amigas da mesa da frente, a moça da mesa do lado tomando copos e copos de cerveja à espera de alguém que não chega nunca. Meu celular vibrando sobre a mesa enquanto a bateira acaba e as novidades se acumulam. Novidades de WhatsApp... amigos se zoando, memes sobre política, fotos de pornografia barata e piadas idiotas. Aquela mensagem que eu espero mesmo, aquela saudade profunda, essa segue como meus textos, como minha própria mensagem que hesito em escrever: profundo silêncio.

Silêncio

A palavra "silêncio" lembra diversas coisas. Um cartaz no corredor de um hospital. Um ambiente de meditação. Mas também pode lembrar algo mais autoritário. Mais impositivo. Um professor aos berros com seus alunos. "Silêncio!!", grita estridentemente o professor sem se dar conta dessa profunda contradição. O silêncio é um pedido de atenção. Parem de se distrair aí entre vocês e prestem atenção em mim. É isso o que o professor quer.
Mas agora que dou aula há alguns meses e começo a observar minhas falhas, vejo que a palavra "silêncio" ainda guarda mais segredos. Ela funciona também na outra direção. Uma das minhas grandes falhas nestas primeiras aulas foi a de falar demais. Há um momento em que os alunos devem pensar. Cada aluno deve se concentrar em seu exercício e explorar, sozinho, o alcance das próprias convicções.
É preciso silêncio por parte do professor. Silêncio para que, desta vez, cada aluno possa ouvir a si próprio.

Triste

Ontem ouvi um discurso de ódio. Nojo de nordestinos. E, lá nos EUA, não é por falar não... mas onde tem preto e latino é tudo pior...
Como eu me sinto ouvindo essas aberrações?
Fico profundamente triste com o alcance da ignorância neste país. Tínhamos que colocar mais e mais aulas de filosofia, sociologia e antropologia nas escolas.
E, cada vez mais, entendo o benefício de nos misturarmos mais e mais entre nós. Seres humanos, ao invés de ficarmos de nariz enfiado no ninho, sem enxergar mais de cinco metros para além dos muros.
Tentei argumentar uma coisa ou outra. Mas, confesso, voltei para casa fisicamente ferido. Dormi como se houvesse apanhado. Até me surpreendi. Não imaginava que me afetaria tanto. Mas a ofensa saiu do campo abstrato, teórico. Entendo que inventores de quintal não consigam compreender a segunda lei da termodinâmica e acreditem piamente em mentirinhas maldosas do YouTube. Suporto até a ignorância política que entregou nosso país a terroristas que estão implodindo o futuro dessa nação a uma velocidade impressionante. Faz parte do processo político, entendo. Um preço da nossa ignorância. Mas quando essa estupidez atinge a esfera humana em si, o puro e simples desprezo pelo outro, uma superioridade deturpada de realismo fatalista, então sinto-me habitando o planeta errado.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Prova

É o dia decisivo. Será que eu já estudei tudo o que precisava? Acho que o professor não vai querer me ferrar. Ele precisa que os alunos passem. Se não a casa cai pra ele, né? Eu quero aprender essa matéria, mas não dá tempo de estudar. E tem cálculos no meio. Daí falta tempo para estudar. O curso é bom, mas é muito puxado. Num dia tenho que ir fazer compras. No outro tenho que ir buscar o carro na oficina. Depois teve o dia que o meu filhinho caiu e quebrou os dentes da frente. Ainda bem que são dentes de leite, mas o moleque estava chorando feito um condenado. Aí você acha que eu vou chegar em casa e pegar a apostila? Que tipo de pai eu sou?

É o dia decisivo. Eu sei que ele teve muitas dificuldades. Não é fácil estudar depois de adulto. São muitas outras responsabilidades. O maior desafio é o tempo. Sempre o tempo. Mas algo ele deve ter aprendido. Teve os exercícios que a gente fez em sala de aula. Ele vai lembrar, sei que vai. Eu corrigi várias vezes com ele. Expliquei diversas vezes. Depois das minhas explicações eu fazia ele repetir as frases decisivas, em voz alta, para fixar da melhor forma possível.

E de repente estão lá. Na mesma sala. Frente a frente. Ambos ansiosos, cada um ao seu modo. É praticamente uma roleta russa.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Para o futuro

Vejo o jovem de hoje e vejo o que as escolas estão fazendo. As escolas são instituições de atrofismo mental. Essa gente não fala. Não se expressa. Não é desafiada a ter uma opinião e então defendê-la. É preciso mudar o funcionamento das instituições de ensino. É preciso pensar na formação de pessoas com uma postura ativa sobre o mundo ao redor.

Jornal da manhã

Bom dia, a crise está piorando.

Bom dia, o dólar subiu novamente.

Bom dia, policiais matam bandidos e pessoas que passavam na calçada.

Bom dia, água está acabando na metrópole, mas cientistas encontraram um pouco... em Marte.

Bom dia, o poder de compra dos trabalhadores diminuiu.

Bom dia, o salário dos ministros aumentou.

Bom dia, casos de AIDS voltam a aumentar.

Bom dia, mais uma vítima de preconceito racial denuncia abusos.

Bom dia, casal gay queria adotar uma criança mas religiosos protestam contra.

Bom dia, congestionamento já ultrapassa 600 quilômetros nessa manhã.

Bom dia, paulistanos protestam contra o uso da bicicleta.

Bom dia, motociclista morre ao ser atingido por veículo em alta velocidade.

Bom dia, motoristas protestam contra excesso de radares nas avenidas.

Bom dia.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Eu não te amo

Lembro quando a olhei nos olhos e disse "eu não te amo". Ela havia acabado de se declarar a mim. Eu já tinha dúvidas sobre nosso relacionamento. Já sentia que não tínhamos futuro juntos. Estávamos em momentos diferentes da vida. Estávamos com sonhos diferentes na cabeça. Mas doeu. Doeu muito. Em mim. Foi um sentimento horrível. Como se de repente eu houvesse deixado de ser um ser humano. Como se eu houvesse abandonado qualquer esperança de ter uma boa imagem comigo mesmo. E, ainda assim, acho que fiz o que devia ter sido feito.

Porque olha só a situação agora. Terminei um outro namoro. Mas ela não me esquece. E eu não queria que ela ficasse sofrendo. Situação clássica, não é? Mas o que é que eu vou fazer?

Deveria ir até lá apenas para dizer a ela "eu não te amo"?

Ao menos da primeira vez, foi no meio de uma conversa. Não exigiu ir até lá só para violentar as emoções alheias.

Odeio esses problemas.

Sonho

Uma viagem de trem pelas serras gaúchas. Ou um voo para a Europa. Ou algo mais simples mas fora de nossa rotina tradicional: alguns dias de folga em alguma chácara no interior de São Paulo. Não importam os detalhes, o que importa mesmo é este sonho de fazer uma viagem com a família toda.

Será que funcionaria? Há muitas coisas que podem dar errado.

Minha mãe vai discutir com minha tia. Meu tio vai beber mais do que deveria e vai ficar impaciente. Meus sobrinhos arranjarão alguma ocupação isolada, no mundo deles, e não vão participar dos nossos momentos juntos tal como imagino.

Mas, tudo considerado, não é sempre assim por aqui também quando estamos juntos? E, por algum estranho milagre do fenômeno "família", não é ainda assim... bom?

domingo, 3 de setembro de 2017

Idiotas funcionais

Existe o analfabeto funcional. Já falaram muito dele, coitado. Mas existe essa outra categoria a que vamos chamar de idiota funcional. Aqui é claro que a palavra funcional é empregada em um sentido diverso. Em "analfabeto funcional" o termo funciona para especificar que nos referimos àqueles que são analfabetos em efeito, na prática. Já em "idiota funcional" me refiro pura e simplesmente ao idiota "que funciona", incansavelmente ostentando suas idiotices por aí.

O idiota funcional muitas vezes tem uma família abastada. Mora bem. Aqueles apartamentos que tem entrada social, entrada de serviço e entrada para os serviçais dos que usam a entrada de serviço. O idiota funcional teve uma infância movimentada. Correu de kart. Viajou pela Europa. Esquiou em neve de verdade. O idiota funcional tem um grande guarda roupa.

O idiota funcional tem perfumes. Nada contra homens se perfumarem também. A questão aqui é a fartura, o exagero. Só o que um idiota funcional típico tem de perfumes no banheiro daria para pagar todas as minhas contas no ano.

Mas não importa o quão rico o idiota funcional seja. Ele é, antes de tudo, isso: um idiota. Não é capaz de entender um simples parágrafo. Não por alguma questão de autismo ou outro viés biológico. É só falta de prática mesmo. Falta de interesse. Não é capaz de expressar o que está pensando. E aqui eu não sei dizer se é o caso de falta de prática na expressão ou diretamente no ato de pensar. Temo pela segunda opção.

Sou egocêntrico?

-Eu acho que eu sou egocêntrico.
-Mas por quê?
-Muita reflexão em torno de mim mesmo. Acho que falta olhar para fora.
-Mas olhar para si é importante. Primeiro, você precisa saber se priorizar. Por mais bondosos que sejamos não podemos cuidar primeiro dos outros e depois de nós mesmos. Não o tempo todo.
-Ok, mas e em um nível existencial? Nas minhas reflexões, nos meus pensamentos... Estou preocupado com a minha vida. Com as minhas curiosidades. Com a minha visão de mundo. E os outros? Às vezes eu fico tão existencialmente distante dos outros que, de repente, fico chocado ao verificar o grau de ignorância ou certas diferenças que existem com as outras pessoas. Coisas que eu acho serem comuns na verdade não o são. Mas eu demoro para perceber porque estou por demais centrado em mim mesmo.
-Mas qual o maior problema disso?
-É o isolamento mesmo. Não no sentido de tristeza mas sim no sentido de distanciamento da verdade. Acho que tenho visões por demais otimistas com relação ao mundo e às pessoas pura e simplesmente porque sou pouco exposto a elas. Não sei se meu otimismo sobreviveria a um contato mais próximo.
-É, talvez você seja egocêntrico...
-Pois é... Eu tenho um senso de superioridade e uma tendência a subestimar minhas diferenças com relação às outras pessoas, não é?
-Não é só isso...
-O que mais, então?
-Não consegue nem mesmo conversar com os outros sobre isso. No máximo no máximo, fica aí trancado em um quarto, sozinho, escrevendo um diálogo consigo mesmo.

sábado, 2 de setembro de 2017

Mortes

Dei aula para ele. Não era meu aluno. Mas era a última aula do curso e substituí o professor previsto. Era muito gente boa. Um cara simpático. Sorridente. Falante. Curioso. Educado. Não se colocava na posição de "cliente mandão". Foi uma boa aula. Saí de lá contente. Contente por colaborar com o futuro das pessoas. Das pessoas boas.

Três dias depois, a notícia: estava morto. Acidente. Li na internet. Não podia acreditar. Acessei o sistema da escola e confirmei o nome. Sobrenome. Era ele.

-.-

Vou vender minha moto. Quase morri. Mas quase... Não quero tentar a sorte de novo. Ela foi do acidente direto para a autorizada. Depois de meses de enrolação, finalmente a notícia: está pronta. Como ali era oficina e concessionária, resolvi ver se eles mesmos comprariam a moto. Compram sim! Mas ofereceram um valor muito baixo... Até compensaria perder um pouco de dinheiro pela praticidade... a moto está em outra cidade. Ao invés de buscá-la, eu poderia já fechar negócio com a moto lá mesmo. Mas... e se a diferença fosse muito grande? Perder um pouco de dinheiro, tudo bem. Muito, não! Resolvi ligar para a oficina aqui ao lado de casa, onde eu sempre levava a moto. Lá vez ou outra eles divulgam uma moto a venda e certamente estão por dentro dos preços. Telefonei.
- Alô? Por gentileza, o Salvatore?
- Faz tempo que você não vem aqui, não é?
- Sim... por que?
- O Salvatore faleceu... tem três meses.
Eu sempre conversava com ele. Tenho a impressão de que ele tinha alguma amizade por mim também. Afinal minha humilde moto de motoboy ficava deslocada ali naquela oficina cheia de gigantes Harley Davidson e BMW's.

-.-

Há alguns anos fui para o Rio de Janeiro. Passei o ano novo lá. Um amigo meu iria viajar com a namorada e me chamou para ir junto. Ficamos no apartamento do tio dele. Conheci a família toda. Gente muito acolhedora, simpática. O filho mais velho, pouco tempo depois, foi estudar na França. Orgulho da família. Hoje, no Facebook, comecei a ler uma mensagem emocionada deste filho. Falava do pai. Imaginei por um instante que fosse alguma mensagem de aniversário, ou de saudade, ou celebrando alguma conquista.. Mas logo entendi. O pai havia falecido. Câncer no estômago. O levou em cerca de um mês depois de descoberta a doença.

Bebês que já tiram selfie

A natureza é sábia. Em cada época e em cada ambiente as criaturas se adaptam às circunstâncias. Quando não havia terra não haviam patas. Quando não havia luz, não haviam olhos. Quando só saltar longe dá esperança de sobrevivência eis que surgem asas. Não há, portanto, porque estranharmos essa profusão de tendências no mundo digital. Bebês que já nascem tirando selfie. Há milhões de anos a atmosfera se poluiu de oxigênio excessivamente e todas as bactérias que prosperavam em uma atmosfera pobre deste gás tiveram que dar espaço à aquelas que o processavam. Hoje aqueles que não se adaptam à cultura de clicks e likes estão fadados a se fossilizar na história.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Amiga terapeuta

É claro que um terapeuta é um profissional, que dedicou centenas, milhares de horas de estudos para conhecer os segredos da psique humana e os diversos casos que pode encontrar. Mas, ainda assim, tenho uma teoria. As terapias se instalaram na sociedade moderna, em boa parte, devido à fragmentação nas relações familiares e nas amizades.

Eu mesmo deixei de precisar de terapia quando voltei a recorrer às minhas amizades. Bar. Conversas. Falar da vida. Ouvir opiniões sinceras. Críticas. Sugestões honestas.

Com uma estrutura de vida que permita amizades terapêuticas, as terapias de consultório tornam-se dispensáveis.

É a vida

E é bonita e é bonita!
Hoje a vizinha estava cantando. Ela e as crianças. Muito melhor assim porque, normalmente, ela está aos berros dando broncas horrendas nos pequenos por conta deles serem, bem, crianças...

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Sou ruim com nomes

Sinto-me um tanto quanto mal por ser ruim com nomes. Demoro a decorar os nomes das pessoas. Dou aulas há vários anos e normalmente só acerto os nomes dos alunos lendo a lista de chamadas. Patético, eu pensava.

Mas patética, no fundo, é essa coisa de nomes. Em um mundo em que somos todos seres humanos. Em um mundo em que não quero me lembrar de rancores ou sucumbir a favores. Não lembro nomes porque os nomes não importam. Nomes mais feios ou nomes mais bonitos não mudam as paisagens das atitudes. Não mudam a sabedoria expressa pelo que são. Não lembro nomes, mas não é que falhe algo nos neurônios de memória em meu cérebro. Há algo em meu interior, percebi, que deliberadamente não quer prestar atenção ao que não importa. E nomes não importam.

Pastel é vida

Eu o vi pedindo um grande pastel e fiz qualquer comentário sobre aquilo não fazer bem para o coração. Usei um nítido tom de brincadeira mas a resposta veio séria:
-E você acha que eu não sei? Já enfartei três vezes. Do próximo tem grandes chances de eu não escapar. E se eu posso morrer amanhã então uma coisa que eu não posso deixar de fazer é comer um pastel de feira caprichado! Morrer triste não vale a pena.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Tu te tornas eternamente responsável por não ficar de frescurinhas com os outros

Eu sou ateu.
Mas ainda que Deus não exista, padres existem.
E não é por defender uma ideia errada que tudo o mais que alguém tem a dizer está automaticamente condenado. Essa é a falácia do "não fui com sua cara", da qual temos que nos livrar sempre com um árduo esforço.

Sempre trabalhei

Comecei a trabalhar com onze anos, sabe? Catei lixo na rua. Já catei latinha. Já recolhi coisas. Já fui carregador. Já vendi coisas. Já fiz de tudo. Ajudava em casa. Minha mãe lavava roupa pra fora. Pegava muito uniforme de fábrica. Eu ajudava. Era muita coisa para lavar e eu não ficava parado. Foi só em oitenta e seis que fui ajudar meu irmão em uma oficina. Mas eu não entendia nada de oficinas. Eu lavava peças que estavam desmontadas já. E deixava em cima da bancada, secando. Só isso. Depois fui aprendendo, aprendendo. E hoje sei desmontar um motor inteiro e montar de novo. Virei mecânico. Mas já fiz de tudo e se tem uma coisa que não me assusta é ter que trabalhar!

terça-feira, 29 de agosto de 2017

As explicações

Eu seria professora. Era meu sonho. Queria ensinar. Gosto de crianças. Mas fiquei grávida. Eu tinha que trabalhar. E depois não dava mais pra trabalhar e cuidar da criança e estudar direito. Trabalhar, não podia. Deixar a criança de lado não dava. Minha mãe não tinha tanto tempo pra ajudar porque trabalha também. Não temos dinheiro pra bancar uma babá. Não casei, porque o pai da criança sumiu quando soube que eu estava grávida. E ainda estou atrás dele, na justiça, tentando conseguir minha pensão.

Eu não aguentava mais. A vida estava ruim. O dinheiro era pouco e a satisfação, menos ainda. O pequeno era bebê ainda. E tinha essa família... Era ricos, donos de restaurantes por aí, até em shoppings... Eles não podiam ter filhos. E amaram tanto o pequeno. Fizemos um acordo. Eu dei a criança. Eu não tinha registrado ainda porque nem sabia fazer direito essas coisas. Ganhei um dinheiro bom. Não comprei casa não. Fui virar artista. Fui cuidar da minha vida. Fui me dedicar às pinturas, que eu gosto mais. Um dia, espero, o pequeno possa entender. Ou talvez não entenda nunca. Mas tem muita coisa na vida que nunca me explicaram também e que eu acho que nunca vou entender. Não dá pra entender tudo.

Etiqueta corporativa

Amanhã será minha entrevista demissional. Já trouxe para casa um grande questionário para preencher. Quais habilidades a empresa transferiu para mim ao longo desses anos? Qual meu legado para a empresa?
Pensei em responder com sinceridade. Embora o período inicial tenha sido de aprendizado e enriquecimento para ambos os lados, os últimos anos foram de total marasmo e de deslocamento. Gastei até com psicóloga. Não via mais sentido em minhas tarefas e cansei de ver colegas de trabalho sendo ignorados enquanto pessoa. Mas, pensando bem... nunca me perseguiram. E eu sei o que eles querem ouvir. Vou dizer o que eles querem ouvir. Porque, no fundo, essa habilidade de mentir para manter a civilidade foi meu maior aprendizado ao longo deste tempo.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Procrastinação social

- Quando vamos nos ver?
- Poxa, é mesmo né...
- É!
- Vamos marcar algo!
- Vamos sim!
- Me liga?
- Ligo ou deixo mensagem...
- Manda logo no grupo!
- Boa ideia.
E assim foi mais uma oportunidade perdida de reencontro. Físico. Real. Olhos nos olhos.
É uma característica moderna. A procrastinação como consequência das opções.
Um compromisso é uma constrição, uma limitação, uma imposição da agenda.
Não queremos limitações.
Queremos opções.
Duzentos e setenta e três canais.
Botão de aceitar ou cancelar.
Botão de voltar.
Control + Z. Desfazer.
Por isso não marcamos um compromisso para daqui a uma semana. Para daqui um dia.
"Vou ver direitinho e a gente conversa"
Porque eu posso querer mudar de ideia. Voltar atrás.
Mas a vida não é assim. Nem tudo na vida pode ser assim.

O tempo

Está reduzido pela metade. Eu ia lá para o andar de cima e ficava lendo alguns livros sentado na escada. Há bem menos livros agora. Para onde foram todos? A moça, ao caixa, é a mesma de antes. Mas não tem uma cara feliz. Os negócios não vão bem. Minha vida não está certa. As coisas estão indo mal. Quem lê nesta cidade? Com tantos celulares nas mãos de todos. Com tantas mensagens de WhatsApp, Twitter, tudo apitando o tempo todo... quem ainda tem tempo de ler? O que será dos sebos?

domingo, 27 de agosto de 2017

Ego grande angular

Sou uma artista! Vejam meu trabalho! Vejam como sou maravilhosa! Paguem minha vida para mim, me deem respeito e boas energias! Engulam meu trabalho e curtam minha página! Porque eu mereço, porque eu sou fantástica, porque eu luto muito por isso... Ou pensa que não é uma profunda luta eu fingir que não estou ignorando minhas responsabilidades? Ou pensam que é fácil deixar de ganhar dinheiro mesmo com dívidas e mesmo podendo fazê-lo? Nada como umas boas cervejas com os amigos no bar pra me convencer de que a vida é assim mesmo, de que tenho que passar por essa "luta". Porque... olhando pra mim, cada vez mais só pra mim, não posso deixar de constatar que sou fodona e que o mundo precisa aprender a me valorizar por isso.

Viadagem

No ônibus. Dois gays no banco de trás. Conversavam.
-Não vai mesmo deixar eu ver seu celular?
-Mas que mania! Agora tudo é meu celular? Você não larga meu celular! Quer me deixar em paz?
-Muito bem, se você não pode mostrar é porque está escondendo alguma coisa, não é?
E assim ficaram. Um sem admitir sua insegurança e o outro sem assumir de vez as razões de suas confidencialidades. Muita viadagem, até para dois gays. Ou talvez especialmente para dois gays.

sábado, 26 de agosto de 2017

Adeus

A morte de um amigo dói. Dói muito. De surpresa. Um acidente de carro. Ontem conversamos. Ontem estava tudo bem. Ontem tinha sorrisos. Ontem tinha futuro. Hoje não existe mais. Hoje é uma lembrança etérea. Hoje é sem sentido.

E ele havia me ligado uma vez chamando pra ir pra um bar. Eu estava cansado. Fiquei de pés pra cima, no sofá, vendo televisão.

E ele havia sugerido uma viagem nas férias. Mas eu estava economizando dinheiro. Achei melhor não ir. E acabou não indo ninguém. Não teve aquela viagem.

E agora nunca terá.

O tempo está indo sempre embora. Achamos que há alguma poupança. Mas a qualquer momento o saldo vem zerado.

Dizem para não deixar para depois o que pode fazer agora. Não sei se vale para tudo. Nem para lição de casa, nem para aquele relatório chato ou aquele estudo para a prova. Isso depende de muitos fatores e aceita vários argumentos. Mas certamente vale para a vida.

Não deixe para depois a vida que pode viver agora.

Deu errado

Alguns anos já. Falhou. Era para ser uma metamorfose completa. O despertar de um canalha interior. Eu iria me tornar um mulherengo sem sentimentos. Ou melhor: sentimentos apenas por mim mesmo. Falhou. Descobri a empatia.

Hiato

Chegou um momento em que eu não queria falar mais com você. Nunca mais. Eu não queria nunca mais ter o prazer dessas conversas que estragam todas outras conversas. Porque eu conhecia já a abstinência que desabaria. Eu sabia da tristeza que seria conversar com todo o resto da humanidade. Eu sabia que procuraria um pouco de você em cada nova fagulha de companhia que encontrasse. Sabia que juntando todas essas migalhas ainda não daria meio prato. Fome. Dor no ventre. Então silenciei. Silenciei para tentar me livrar da fome. Como se parar definitivamente de comer fosse a saída para o corpo esquecer dessas precisanças. Mas no fundo nunca desisti. Somei todas as conversas que consegui e ainda não resultava nas tuas. Somei todas as risadas que ouvi e ainda não era você. Juntei todos olhares que vi e ainda precisava do seu. Eu fui pra longe. Eu precisava ir pra longe. Mas você volta? Depois você volta? Não diga nada... Só chegue perto e diga "oi". Quantos anos? Dez? Vinte? Cinquenta? Só poucos meses? Sério? Foram várias vidas de espera para mim.