sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A travessia

Um fio de um prédio a outro. E o equilibrista andando lá em cima. E as pessoas se perguntando: pra que tudo isso?
As pessoas não se dão conta da cadeia de valores da vida. Entendem que utilidade é servir a algo mas não extrapolam o raciocínio. Se trabalhar serve para ganhar dinheiro, e ganhar dinheiro serve para poder comprar roupas, e comprar roupas serve para estar bem apresentável, e estar bem apresentável serve para manter um bom lugar à sociedade, e... ... se a utilidade de cada coisa é determinada por uma coisa seguinte então verdadeiramente útil será aquela coisa com caráter de ponto final. Aquela coisa que não serve para nada. O motivo final de algo realmente importante deve ser "porque eu gosto" ou "porque eu quis". Nada pode ser mais fundamental do que isso. Só assim se chega ao outro lado.

Não existe coisa mais difícil do que o amor

Você pode ser a pessoa mais easy going do mundo. Mais tranquila. Mas caso tenha se permitido amar, então de um modo ou de outro, vai doer. Em algum momento vai doer. Ciúme. Ansiedade. Insegurança. Expectativa. Alguma coisa vai doer. Isso se não vier uma grande decepção. Ou então, tragédia irônica, a dor de deixar de amar. Porque... acontece. Ninguém sabe exatamente a razão. Assim como, ainda bem, ninguém consegue explicar exatamente a natureza do amor. Mas esta situação limite acaba sendo a grande força deste sentimento. Com frequência o conforto será destruído em seus alicerces. Neste terremoto da alma, profundas estruturas serão reveladas. Belezas escondidas transparecerão. Outras serão soterradas. Geologia natural. O importante, fundamento mesmo da vida, é não continuar a ser o que se era antes.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Vício em postergar

Pensei em escrever este texto sobre minha tendência à postergação tem já uns três anos.
Finalmente comecei. Logo mais eu continuo.

Hora de viajar

"Meu pai tem razão. Não dá mais pra ficar neste país de merda. Aqui está tudo errado. Esses petistas mamando nas tetas do governo. Bolsa pra tudo. E o emprego indo embora. Esse país deveria valorizar gente que trabalha. Gente que dá duro. Por isso eu vou fazer o que vagabundo não quer. Eu vou trabalhar. Vou para fora do país, estudar e trabalhar fora. É um programa de intercâmbio. Um tempo estudando e um tempo trabalhando. Aprimorar o idioma. Porque não dá pra crescer na vida só falando essa língua de pobre. Tem que ter o inglês. Depois quero falar francês também. Francês é chique, sabe? Pensa naquelas cantoras francesas, coisa mais fina. Queria ser igual elas... Sabe, estava vendo na internet onde vou morar. É um bairro bom. Posso andar em segurança. Talvez eu arrume um cachorro. Passear com ele pelas tardes. Dá pra andar de bicicleta também."
Meritocracia. O mérito de ter um pai que paga seus estudos no exterior.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Por que eu gosto de tirar fotos

-Por que você gosta de tirar fotos?
-Acho que há várias razões. A criatividade. Cada foto é uma produção nova. Esse desafio. Essa coisa da descoberta. A questão do momento decisivo... As fotos têm sempre um momento único. Ou uma foto é feita em um dado momento ou então a realidade já mudou, já era.
-Isso não vale para tudo.
-Não, não vale, mas é meu tipo de foto preferido.
-De pessoas ou coisas?
-Gosto mais de fotos de pessoas. De animais, seres vivos. Coisas que capturem um sentimento. Um momento especial.
-Então é a captura do momento o que interessa?
-Não. Não é verdade. Pois os momentos estão sempre se sucedendo e não há desespero por registrar todos eles. Mas há algo que aprendi com a fotografia e que, quando extrapolamos para a vida como um todo, deixa tudo mais interessante, inclusive os momentos.
-O que é?
-O poder de observar algo em busca de sua porção bela. Mais do que sua porção bela... do modo certo de olhar para algo de forma a lhe encontrar a beleza escondida. É por isso que eu gosto de fotografia. Porque é um treino para o que quero fazer com toda a minha vida: encontrar e destacar as partes belas.

Contagem regressiva

Penso naquela clássica cena com as cores um tanto quanto desbotadas, filmagem antiga ainda para a TV a antena (antena?!). O foguete na plataforma de lançamento. E os números começam a recuar. Dez... nove... oito. Quando finalmente chega o zero, algo espetacular acontece. Uma nave decola rumo ao espaço. Ao infinito. A um outro planeta. Novas descobertas. Novos desafios. Uma grande aventura. Uma mudança radical.
Contagem regressiva.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Fotos de despedida

Foi bom ficar atrás das lentes. A concentração no trabalho de fotografar me distraiu das verdades que aconteciam ali. Treze anos frequentando o mesmo lugar. Trabalhando ao lado daquelas pessoas. Muitas vezes viajamos juntos. Agora era a despedida. Um bolo. Salgadinhos. Refrigerante e chocolates. Mas não pensei em nada disso. Pensava apenas em enquadrar as pessoas sem cortar partes de rosto, cabeça ou braços. Porque foi assim o tempo todo: concentrado em cada trabalho que tive que fazer ali, nem vi o tempo passar.

O tempo e o ritmo

Há toda essa onda de relaxar. Levar a vida num ritmo adequado. Fazer as coisas sem desespero. É uma ideia muito cativante. Mas há um problema com ela. O tempo não é infinito. Posso estudar lentamente, sem pressa, fazendo dezenas de exercícios sequenciais. Mas um dia vou morrer. Então, até onde terei ido? Posso ficar em casa lendo livros. Mas poderia estar lá fora conversando com as pessoas. Posso estar lá fora conversando com as pessoas. Mas nem todos os livros serão lidos. Angústia. Dimensão inabraçável da vida.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Literaturização dos livros chatos

Era um livro de meteorologia. Um livro que só serve para aulas chatas. Mas de repente ele foi lido em tom teatral. Dramático. Uma brincadeira, um novo hobby. Trocarem leitura de textos. E também um resumo de um grande objetivo de vida: encontrar a graça mesmo nas coisas mais chatas.

Hora de se assumir


- Você precisa assumir o que você sente.
Daí eu assumo o que eu sinto e a pessoa se revolta.
Mas passa.
De qualquer modo, não é o processo de um dia, ou de um momento.
Porque eu sinto muitas coisas.
E não assumimos uma porção de coisas de uma hora pra outra. Ou com um bilhete. Ou um post na internet.
E, além do mais, assumir o que eu sinto envolve medos. E se ela fugir? E se as pessoas rirem? E se não der certo?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Sintomático

Estou em uma livraria. Mais precisamente no café de uma livraria de uma das grandes cidades do interior de São Paulo.

Em uma mesa próxima um senhor observa os livros das estantes próximas e comenta com a mulher à sua frente:

-Olha só! Olha só esse título, hahaha… ‘O Espírito das Leis’! Vê, se pode, que coisa mais sem sentido! Cada uma…

E eu aqui pensando: que coisa mais sem sentido…  Cada uma…

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Suzi

As leituras de livros profundos desperta em mim um sentimento de amplidão contrariado pelas limitações cúbicas deste quarto. Penso na barba mal feita do meu pai quando o vi. Penso no filósofo palestrante sugerindo que eu solte minha raiva dos meus velhos traumas. A atenção dos meus pais? Os namoros que deram errado? A cachorrinha que morreu? Suzi, pobre Suzi. Viveu tantos anos. Eu tinha esse sentimento profundo de amizade por ela. Dos membros da família era o que mais me compreendia. Eu jogado no chão da sala com um livro no colo e ela se aproximava. Apoiava a cabeça na minha perna e ali ficava. Com o tempo, comovido com tanta atenção, desatei a falar. Contava para a Suzi o que tinha acontecido comigo. Falava para ela do meu dia. Meus problemas na escola. Minhas dúvidas sobre o futuro. Os livros interessantes que eu havia lido. A Suzi ali, me olhando com um profundo desespero de quem gostaria muito de entender todas aquelas palavras. Nessa devota vontade de compreensão era como se, efetivamente, ela as entendesse.

A barba mal feita do meu pai. Por que pensei nisso? Medo, tenho medo de me tornar como ele. Esse abandono de si. Esse sentimento de que no fim das contas as coisas não se ajeitaram como deveriam. Eu tinha a Suzi para me ouvir. Quem meu pai tem? Fui socorrê-lo achando que estava tendo acessos suicidas e fiquei com raiva por julgá-lo um velho fracassado que havia desistido de tudo. Depois vi que não era nada disso e fiquei tomado de raiva por achá-lo um velho fresco que reclama demais quando está tudo bem na verdade. Eu vou socorrê-lo. Dirijo as centenas de quilômetros, à noite, sem saber se o encontrarei vivo ou desistido de si, só para dormir ao lado dele e dizer que vai ficar tudo bem. Quem vem aqui dormir do meu lado para me dizer que vai ficar tudo bem? Suzi, onde está a Suzi?

O mundo desistiu de me tranquilizar. Lia sobre a conquista espacial e as descobertas científicas, o controle do átomo, a manipulação do DNA, e achava que iria ficar tudo bem. Ainda que minha vida tivesse lá seus tropeços, no fundo no fundo ficaria tudo bem. Talvez não comigo mas ao menos com a humanidade como um todo. E assim qualquer excesso de dor que eu tivesse com relação à minha própria vida seria um egoísmo a ser vencido. Mas agora o Trump ganhou. O Brasil foi tomado por ladrões. A Síria foi devastada. Tudo bem que nunca paramos de destruir países e fabricar famintos e mortos de todas as idades. Mas quando perdem o pudor de fazer isso com uma nação que estava inteirinha então uma nova barreira foi rompida. Não são os mesmos mortos de sempre. E a comoção não atinge os níveis devidos.

A leitura de livros profundos me desconecta desse instante. Já foi uma desconexão boa. Sentir pertencer aos milênios. A uma espécie que evoluiu para criar a escrita, a poesia e dominar o aço e o elétron. Mas agora esses livros todos, e a internet, e tudo o mais, me mostra que estamos jogando tudo no lixo. É noite e temo pelo pior. Mas não sei para onde dirigir. Não sei a quem ajudar. Suzi, cadê você?

sábado, 17 de dezembro de 2016

José Alfredo

Nasceu em uma cidade de Goiás cujo nome não interessa a ninguém. De pequeno fez como o pai: carregou coisas. Coisas para dentro da Kombi, coisas para fora a Kombi. Achava a televisão uma coisa maravilhosa mas dormia rapidamente depois da janta. Exaustão. Mudou-se de cidade quando os negócios escassearam por ali. Já havia viajado com seu pai em mudanças para locais mais longe e sabia que existiam outras possibilidades. Aprendeu a sobrepor tijolos, cimentos, tijolos, cimentos. Emparedou a vida alheia tentando dar asas à sua. Casou-se com a bênção da igreja e a desconfiança de parentes que não achavam direito Deus autorizar essa mistura com as gentes pretas. Colocou os filhos na escola sob protestos dos mesmos. “A vovó falou que você ia trabalhar com o vovô… quero ir trabalhar com você, não quero ir à escola!”. Viu muitos amigos fraquejarem diante da vida. Bebidas. Crimes mais leves, mais pesados. Injustiças. Mas manteve seu rumo. Navegou pela vida em direção a tardes de cadeira de balanço e sopas de mandioquinha trazidas pelo filho. Aos fins de tarde costumava sentar-se à calçada para apreciar o por do sol e comentar com um ou outro que por ali passavam: “Ói lá Deus levando o Sol embora. Amanhã ele traz de novo. Eita serviço que não acaba nunca.”

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

E seu pai?

Meu pai andou carpindo uma horta lá... fez bolhas nas mãos mas sumiu algumas bolhas da alma.

Fofocas de WhatsApp

Um ator nu com sua esposa. Um aluno da escola passando por uma situação constrangedora por ter tido uma diarreia em momento altamente inconveniente. E, em instantes, essas coisas ganham o bairro. A cidade. O estado. O país. Outros lugares do mundo inclusive. O milagre da internet.
A tecnologia serve para potencializar o que é humano. E não somos criaturas compartimentadas. Em nossa alma o bem habita não apenas lado a lado com o mal. Estão misturados. São duas fragrâncias oriundas do mesmo líquido. Nossa inocência está misturada com nossa malícia. Nossa vontade de honrar misturada à nossa tentação de sacanear.
Graças à internet nossos lapsos explodem por toda parte em segundos. A humanidade que havia se tornado um gigante lar de anônimos voltou a ser o vilarejo das fofocas.

Era uma casa muito engraçada

- A casa ainda está alugada?
- Ainda.
- E por que? Você está indo lá?
- Não... O plano deu errado.
- Que pena. Achei que você estivesse mais lá do que aqui.
- Não. Banquei o aluguel de uma casa vazia. Fico pensando no que isso pode significar.
- Significa que está jogando dinheiro fora.
- Não só isso. Mas tenho pago por espaços vazios. Preciso começar a valorizar os espaços cheios.

Funcionou

Pelo visto a questão com o OLW, Open Live Writer, é que de tempos em tempos é necessário deletar a conta e criá-la de novo, ao menos no caso dos serviços do blogger, para que os servidores do Google liberem uma nova senha de acesso. Afinal eu não tenho mais que digitar minha própria senha no cadastro do blog. O OLW acessa os servidores do google e solicita um acesso. Bom… exceso de tecnicidades à parte, fico contente que tenha funcionado.

domingo, 7 de agosto de 2016

Milton Cruz, O Homem de Lata

MiltonCriuz

Esta tarde fui à Avenida Paulista encontrar alguns amigos. Aos domingos, esta importante avenida se transforma no palco de diversas bandas e é também local de trabalho para diversos vendedores. Dentre eles, Milton Cruz. Eu não pude resistir e parei para ver sua réplica do 14-bis - o avião com que Alberto Santos Dumont voou em Paris em 1906. Cruz estava sorridente e cheio de piadinhas. "Custa R$50 com o tanque vazio. Com tanque cheio aí já é R$80!"

Ele constrói modelos de carros e motocicletas também. "Se não encontrar aqui, traga uma foto que eu posso construir o modelo pra você. Ele me contou algumas piadas também. "O japonês quando chegou no Brasil viu uma fila, e perguntou o que era... Falaram que era fila para Catarata. Daí o japonês falou 'eita, num pego fila não! Vô catá lata na rua mesmo". A piada, observo com sinceridade, não era nem de longe tão boa quanto a gargalhada que vinha logo em seguida, cheia de vida e simpatia.

Todos os modelos são construídos com latas de óleo que iriam parar no lixo.

Algumas pessoas o questionam... "Por que você não faz carros modernos?" E ele responde: "Porque os modernos a gente vê na rua! Acho mais produtivo eu trazer um pouco do passado de volta à vida, não acha?"

TratorMiltonCruz

FordMiltonCruz

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Professor gente boa

Aprendizado é um processo individual. O professor não ensina. É o aluno quem aprende. Cabe ao professor, tão somente, lançar o desafio. Provocar. Oferecer as armas para esse combate íntimo e secreto que cada estudante trava - ou não - consigo mesmo. E entendendo assim o processo de ensino fica clara a tragédia que é quando um professor resolver ser "gente boa". O papel de um professor é ser odiado. Não por ser filho da puta e tratar mal os alunos. O professor deve ser odiado principalmente quando tem carisma porque vai usar esse carisma de modo traiçoeiro. Caso não se esqueça de sua missão de professor vai, invariavelmente, empurrar os alunos para fora de suas zonas de conforto mental. Agora, o que eles farão uma vez tendo cruzado a linha, aí já é problema deles.

Feridas

Andava sem mancar. Mas doía a cada passo. Fingia estar tudo bem. Até o dia em que deu um puta grito. Mandou o mundo à merda. E andou torto, tosco, feio, estranho. Mas adaptou seus movimentos até que a dor amenizasse. Até que a dor passasse.

Vivia sem gritar. Sem xingar. Sem olhar feio. Fingia estar tudo bem. Até o dia em que chorou e gritou e disse o quanto sofria. Mandou o mundo à merda. E foi tachado de revoltado, de estranho, de exagerado. Mas adaptou seus sentimentos até que a dor amenizasse. Até que a dor passasse.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Medo do chefe

Eu cresci em um universo cheio de intersecção de importâncias. Lá no clube, nos churrascos de fim de tarde aos sábados, os presidentes de grandes empresas dividiam o balcão e os pedaços de picanha com os faxineiros e o pessoal de "serviços gerais" lá da marina. Quando criança eu passava as férias de meio do ano no interior de São Paulo. Até chegarmos ao sítio do meu pai passávamos, de carro, por inúmeros desconhecidos ao longo do caminho. Independentemente de quem fosse, se gente andando a pé ou de carro, cumprimentávamos. Um aceno com a mão. Com a cabeça. Por isso tudo é que eu acho muito estranho esse medo que as pessoas da cidade têm dos chefes. O chefe visita pouco o local de trabalho e conversa pouco com as pessoas. Porque tem sempre assuntos para resolver. Está sempre com diversas preocupações. Mas, eu juro, por trás desse véu de mistério e suspense é só um ser humano como qualquer outro.

Turning points

E então ele foi para a entrevista. Não sabia se era apenas uma distração para aquele dia cheio de monotonias ou se seria o início de uma nova vida cheia de novos tons.

terça-feira, 19 de julho de 2016

O espanhol

Aprendi a fazer estes artesanatos desde sempre, sei lá. Sou ariano. Tenho que me mexer. Tenho que fazer alguma coisa. E cresci num lugar que não era como aqui, não. O inverno era frio. Seis meses em casa! E aí, o que fazia? Era montar brinquedinhos com arame, pedaços de madeira, lixa uma coisa aqui, corta lá... Um carrinho, um boneco, várias coisas. E eu sempre fui assim meio hippie. Meu negócio é andar por aí.

Já tem muitos anos que vim para o Brasil. Já foi melhor. As pessoas já compraram mais dessas coisas. Artesanatos. Enfeites. Hoje só querem saber de aplicativos no celular.

Uma vez sofri um acidente de moto. Olha só, aqui na minha cabeça. Eu estava voltando para casa no meio da madrugada. Uma Harley Davidson. E eu ia chutando mesmo, rasgando. Queria curtir, sabe? A cidade à noite, tudo livre. Mas tinha um bêbado vindo. Cruzou meu caminho. Ele quem furou o vermelho. Mas e daí? Bateu... Voei. Saí voando no ar, quiquei no chão. Bati com a cabeça numa guia. Voei para a vidraça de uma loja de carros. Quebrei a vidraça. Quebrei ainda o pára-brisas de um carro. Me acharam lá dentro do carro. Eu não lembro de nada disso, é claro. Mas foi o que me contaram.

Estava tão destruído que acharam que não tinha mais jeito. Mas estavam me mantendo vivo porque aí o convênio paga, o seguro dá aquela ajuda. Coisa de médico. Só que eu acabei acordando. Cinco dias de coma. Daí abri os olhos e foi um deus nos acuda. Lembro de estar na maca, tentando entender o que acontecia, e aí os médicos se assustaram. Foi aí que começaram a cuidar de mim pra valer. Foram meses esperando os ossos se juntarem de novo. Perna esticada. Pinos. Gesso. Tudo o que você pode imaginar. Depois andei mais seis meses de moto pra ter certeza que tinha superado os medos. E aí nunca mais subi em nenhuma.

E vivo assim. Já vivi em vários países da Europa. Mas lá não tá muito boa a coisa também. Aqui no Brasil é bom. Muito bom. Gosto do clima. Gosto das pessoas. Mas o país tá uma merda. Ninguém quer saber de nada, sabe? O povo... é incrível. Por muito menos, anos atrás, estaria todo mundo na rua. Estaria todo mundo na rua de verdade. Não como foi nos últimos anos. Sai um dia na rua, e aí chega. Aí é hora de assistir tudo na TV de novo. Não entendo. Temos muita comunicação hoje. Mas pouca gente quer se informar de verdade. Ou então vai ver que bati com a cabeça forte demais. Por isso não entendo nada.

Inteligente, competente e arrogante

Eu a conheci anos atrás. Na faculdade. Ela logo se destacou e foi fazer um curso interno de especialização. Coisa de gente que vai para  NASA. Que aparece em noticiários com grandes descobertas. Tempos depois a encontrei onde menos esperava. Na marina. Estava, como eu, andando de barco. Tirou a carteira de Arrais. Fiquei contente. Mas, tempos depois, em um almoço com outras pessoas das águas, fiquei surpreso ao ouvir o que falavam dela.
-O que? Aquela menina? Deus me livre, ninguém mais quer saber dela não. Super arrogante. Tudo o que você pode imaginar ela sabia mais que os outros. Todo mundo em volta dela estava sempre errado. Nariz empinado demais!
Sua nova carreira, nem preciso dizer, naufragou.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Diálogo comigo mesmo

-Por que você resolveu conversar consigo mesmo?
-Porque estava longe. Porque vejo que estou aceitando ficar longe de mim. Todos estão.
-Mas essa distância, na verdade, tem um quê de saudável!
-Saudável? Está maluco?
-Não é maluquice não. Lembra-se de quando seu professor de sociologia, já há catorze anos, disse que quando os indivíduos olhavam realmente par dentro deles tudo o que encontravam era um vazio?
-Ele estava se referindo à nossa necessidade de conexão com os outros e não literalmente à ideia de que ninguém tem nada dentro de si. Um diálogo comigo mesmo ainda pode ser rico desde que eu não me isole, efetivamente, do resto do mundo. Não é esse o objetivo. É mais o de explorar coerentemente os muitos "eus" que habitam em mim.
-Há uma certa arrogância nessa sua ideia.
-Nessa nossa ideia, você quis dizer.
-Minha não. Se você tem muitos eus assuma-os por completo. Não fique se reduzindo a um só novamente toda vez que isso lhe for vantajoso. Seja coerente. E tenha mais coragem.

Vida nômade

"If you could live a nomadic life, would you? Where would you go? How would you decide? What would life be like without a 'home base'"?

Nossos enviados especiais colheram respostas de diversas pessoas e selecionaram as principais. Aqui estão elas:

Pessoa 1: Não tenho condições de pensar nisso. Não hoje. Quer dizer... talvez já tenha sido um sonho em algum momento, aquela coisa de adolescente. Mas hoje eu tenho família. Meu trabalho é aqui. Essa coisa de pegar a grana e sair vivendo de vento por aí, curtindo a vida e deixando as responsabilidades depois.... Só se eu ganhasse na loteria. De qualquer modo, eu gostaria de conhecer as principais cidades do mundo. Mas já me contento em ir como turista.

Pessoa 2: Acredito que este seja o único jeito de viajar. Não acredito na praticidade enlatada do turismo. Viajar significa se entrelaçar aos diferentes lugares. Como fazer isso sem viver alguns meses em uma certa região? Eu gostaria de ir para diversas cidades do mundo. Mas nada de clichês. Quero conhecer cidades pequenas que estão fora do circuito turístico. Cidade turística, afinal, serve só pra isso: turismo.

Pessoa 3: Já vivemos todos uma vida nômade. Não é isso o que significa dizer que estamos aqui de passagem? Por isso, não tenho um apego forte ao local em que estou. O chão em que piso é minha casa. Onde eu puder carregar um livro e qualquer coisa para fazer barulho... um tambor ou uma flauta... então haverá teatro, haverá alegria. Encontrarei alguns amigos para dançar. Por que não? As pessoas se prendem a uma casa. Se prendem às contas do mês. E depois ficam usando o pouco tempo livre que sobra para falar mal dessas coisas todas.

A vizinha gritando com os filhos

Acho que já escrevi sobre isso. Posso estar repetindo o tema mas o incômodo é genuinamente novo. Porque, mais um dia, lá está ela, a vizinha, professora, adulta, gritando com os filhos. Gritos e gritos e mais gritos. Berros de trincar a jugular. Infâncias destroçadas. Triste. Fico profundamente triste.

Os livros do fim do mundo

Eu estava em um aeroporto nas imediações de Paris naquela época dos atentados. Tentei não ficar neurótico com a onda de preocupação que se seguiu. Não queria assistir os noticiários, ouvir o rádio ou mexer nos aplicativos de notícia do meu celular. Não queria nem mesmo ver as manchetes dos jornais na livraria. Fui para a seção de ficção descansar minha mente com a abstração de realidades imaginárias.
Um título então me saltou aos olhos. "A Sombra do Juízo Final" Como já acontecera com inúmeros outros livros, adiantei-me a amaldiçoá-lo mentalmente pensando tratar-se de um besteirol religioso qualquer. Lá fui eu dialogando comigo mesmo. "Afe, que jeito de ganhar dinheiro. Alimentando a ignorância alheia. Eu deveria deixar de lado meus princípios de honestidade e partir em busca desses níqueis também." Mas ao tomar o livro em mãos para um exame mais detalhado fui surpreendido pelo seu conteúdo. Não se tratava de uma obra religiosa. Tratava-se de um trabalho de ficção. A história se passava em um futuro não muito distante. Dois grandes vulcões da Terra haviam entrado em erupção lançando milhões de toneladas de detritos na atmosfera e diminuindo a entrada de luz do Sol em todo o globo.
Efeitos climáticos se seguiram. Com um inicial resfriamento em algumas regiões seguido de um acúmulo generalizado de calor devido a um efeito estufa. Mas o efeito mais importante foi a deterioração de produtividade nas grandes plantações da Terra, prejudicando o suprimento de alimentos. Guerras de todas as espécies começaram a irromper. Êxodos urbanos inimagináveis se seguiram. O livro retrata não o fim absoluto da humanidade mas, ao menos, a completa destruição da civilização moderna. Me chamou a atenção esse final e confesso que, ali mesmo, de pé na livraria, adiantei-me às páginas finais em busca de um final feliz. Não o encontrei. Não se tratava de um trabalho aos moldes de filmes de Hollywood. Achei isso positivo.
Já no avião, seguindo meu roteiro para a Estônia, qual não foi minha surpresa ao encontrar uma entrevista do autor na revista de bordo? Fiquei feliz ao ver que algum trabalho literário diferenciado tem chamado a atenção da mídia de alguma maneira. E creio que o autor teve uma certa sorte. Agora, depois dos atentados, certamente uma matéria assim não teria lugar. Afinal os editores se preocupam em alimentar um pouco de otimismo também. Deixo aqui um trecho da entrevista:
- Alguns críticos dizem que o seu texto é apenas uma descrição cataclísmica, desprovida de moral maior, e portanto seria uma literatura de menor valor. O que você tem a dizer a eles?
- Em primeiro lugar não cabe a mim julgar o peso de minha literatura. Uma vez pronto, acredito, o texto não é mais meu. Deve ser julgado pelo que ali está escrito e não pelo que eu possa ter a acrescentar. Mas este julgamento refletirá, invariavelmente, algo de quem está a julgar. O que posso dizer então, para não parecer que me esquivei da pergunta, entra aqui como uma opinião de leitor. Ou como a opinião de um idealizador do trabalho. O livro descreve uma verdadeira calamidade planetária, mas o foco é a reação da humanidade perante esta calamidade. Quem quer que tenha deixado de perceber isso, ao meu ver, fez um julgamento precipitado do texto. Porque isso está bastante explícito e enfatizado. Ou talvez simplesmente não leram o livro inteiro. Em termos de moral, de lição do texto, faço ressalva similar. Enxergar uma moral ou não em uma história reflete o grau de alerta do leitor e quanto a isso não posso esperar muito de boa parte dos críticos. Lembre-se que o grande cataclisma da história é a explosão de dois super-vulcões. Mas nenhum deles, de fato, causa diretamente um grande dano à humanidade. Dali em diante o suprimento de alimentos começa a entrar em declínio devido à diminuição da luz solar. E dali em diante é a humanidade que começa a se destruir a si própria. Para alguns essa pode ser uma descrição fantástica de um futuro improvável ou impossível. Para outros pode soar como um alerta quanto ao limites do comportamento humano. Ao segundo grupo posso fornecer material de discussão. Ao primeiro, enquanto escritor, não tenho nada para dizer.
- Minha próxima pergunta diz respeito a outro consenso entre muitos críticos, de que sua visão da humanidade é excessivamente ou particularmente pessimista. Pelo que você diz quanto aos próprios críticos e leitores insensíveis, posso assumir que esse pessimismo existe?
- Não me sinto um pessimista. Mas tenho profunda preocupação em ser o mais realista possível. Se eu achasse que o livro não conseguiria dialogar com ninguém eu simplesmente não o escreveria. Ou não me preocupararia em dar entrevistas agora. Deixaria o livro publicado na esperança de que a posteridade soubesse aproveitá-lo mas não me incomodaria em dialogar com o mundo agora. Há pessoas com uma profunda percepção e sensibilidade para questões importantes. Pessoas que vão muitíssimo além de mim nesses quesitos e com quem tenho muito a aprender. Mas a ignorância e a indiferença são também realidades fortes dentre os humanos. Não posso fingir que esses traços não existem. São tristes aspectos encontrados em qualquer grupo de seres humanos. Dentre pobres. Dentre militares. Dentre críticos literários. Dentre escritores. Dentre políticos. Dentre bilionários. Dentre médicos. Dentre padres. Todos os grupos possuem, em maior ou menor grau, sua parcela de seres humanos empáticos e aquela contrapartida de indiferentes insensíveis. Não acho que isso seja pessismo.
- Mas estritamente quanto ao rumo da história em seu livro pode-se dizer que você foi pessimista, não é?
- A história, em si, pode ser dita pessimista. A civilização empreende sua própria destruição em um caos sem fim devido à situação extrema a que foi exposta. Espero que os leitores entendam que não estou aqui "entregando o ouro" da leitura porque este nem é o ponto principal do livro. Tenho outros trabalhos rumo à publicação em breve e este é um traço comum a todas as histórias. Mas meu ato de publicar o livro e a minha postura enquanto escritor, enquanto ser humano, não é pessimista.
- Como assim? Poderia explicar melhor? E poderia também falar mais sobre o projeto de livros futuros?
- Claro. Primeiramente quanto à questão do pessimismo. Meu ato de escrever é um alerta. Estou apontando o problema da coordenação da sociedade como um todo diante de sérias questões. Não é um ato pessimista apontar um problema embora as pessoas rasas façam esta confusão com frequencia. Se estou pilotando um avião e o motor pifa de uma vez eu não sou um pessimista por dizer "o motor parou" ou mesmo "vamos cair". Pessimismo e otimismo decorrem do que faço diante dessas informações. Posso tomar medidas para procurar um bom local para pouso de emergência. Tentar prosseguir para outra pista ou mesmo retornar ao aeroporto de onde sair, ou ainda preparar os passageiros para um pouso forçado em condições difíceis. Ou mesmo voar o avião com um motor só se isso for possível, sei lá. Então aquela declaração inicial de que as coisas não iam bem foi tão somente uma constatação realista e, se dali em diante todas as minhas atitudes mostraram uma crença embutida de que no fundo tudo iria acabar bem, não faz sentido dizer que fui pessimista. Pessimista seria dizer "o motor parou" e então cruzar os braços e deixar o avião cair onde quer que fosse. Pessimismo envolve desistência. Pessimismo é uma atitude de indiferença. É neste sentido que não me considero pessimista enqanto autor mesmo que não esteja preocupado em defender que minhas histórias não são pessimistas. Elas são. Eu sou como o piloto que diz "estamos caindo". Se bem que não sou piloto. Sou um dos passageiros. Ou talvez esse seja outro erro... Na sociedade somos todos passageiros mas também com responsabilidades de piloto, mesmo quando não somos presidentes ou empresários ou generais, enfim...
- E quanto aos projetos futuros?
- São outras ideias na mesma linha. Este livro já traz em algum lugar da capa a menção à "série apocalipse". Há outros livros a caminho. Outras desgraças que colocam a civilização em risco. Um grande meteoro. Uma guerra nuclear. Uma invasão alienígena. Uma tempestade solar sem precedentes. Uma grande epidemia. São temas que aparecem em outras histórias. Em filmes e livros. Mas em todos os meus livros, de um jeito ou de outro, a civilização chega ao fim. Esta é a diferença. Os heróis não são suficientes. Mas, é preciso deixar claro, até para evitar a gafe dos críticos mais preguiçosos, que em nenhum desses livros o fim da civilização se dará pela calamidade inicial em si. Em A Sombra do Juízo Final não são os vulcões que fazem a humanidade acabar. E não é a falta de alimentos, no final, a principal causa de mortalidade. Há uma ferrenha guerra por comida e os poderosos tomam a iniciativa de matar aqueles que querem se apoderar de suas reservas de alimentos. A civilização provê, no fim, o próprio caos que a engolirá.
- Este é seu alerta de emergência, no fim das contas? Crê que nossa civilização caminha para isso?
- Sim, apenas não estou decidido quanto à palavra "caminha". Temos em nossa estrutura cultural a latência da auto-destruição. Porque não tratamos a questão de frente. Estamos preocupados com o dia de hoje. Com a produção industrial. Com os impostos. Com as próximas chuvas e com algum escândalo político. No caminhar do dia-a-dia vamos cultivando posturas políticas, ou favorecendo certas ignorãncias, que podem se condensar em algo mais intenso quando sob circunstâncias extremas. É parte da visão que tenho da nossa sociedade. Nossa cultura atual não diz respeito apenas ao que estamos vivendo agora. Ela carrega uma espécie de latência quanto ao comportamento que teríamos em situações diferentes. Um exemplo leve disso é o que vemos em países que guinam rapidamente da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. Observamos, subitamente, emergir julgamentos políticos que pensavamos estar abandonados ou esquecidos. E eles surgem com intensidade. Vozes que estavam adormecidas. Ideias latentes que de repente irrompem. Então este é meu grito de emergência. A metáfora do avião não é uma escolha aleatória. Estamos, literalmente, em uma grande nava espacial. Um rochedo esférico flutuando pelo espaço. Mas aqui não há aeromoça. Não há um speech inicial de segurança. Então o que faremos no caso de uma emergência não está combinado. Será um cada um por si baseado em iniciativas próprias oriundas de posturas intelectuais, ideológicas e mesmo espirituais que já estão aí, apenas expostas a um contexto diferente. Dito de um outro modo... estamos tão preocupados com alguns aspectos imediatos da nossa sociedade, que também não estão resolvidos, que não atentamos para o potencial adormecido de nossa sociedade. O Holocausto já estava presente na sociedade alemã, como um potencial, antes de a Segunda Guerra eclodir.

Saudades de Aberdeen

Lembrei da cidade por acaso. Fui tomar café lá na escola e falei com o professor de inglês. Eu achava que ele era brasileiro. E que essa coisa de falar inglês com os alunos fosse um mero exagero de professor dedicado. "Só falamos em inglês e pronto!". Mas não. Ele é um gringo original. E me contou coisas da Escócia. E me lembrei daqueles poucos dias há cerca de quatro anos. O passeio nas ruas noturnas. As paisagens frias. A antiga igreja medieval, de estilo gótico, transformada em um bar-balada. De sua porta ampla de madeira saiam luzes coloridas. Jovens bebiam e conversavam. Conversas amistosas. E o sotaque. Adoro aquele sotaque. E a ajuda na noite fria. E o bar de videokê. Em que cantei com desconhecidos. Beatles! Quem diria, eu cantando Beatles em um barzinho de quinta categoria rodeado por escoceses felizes. Saudades de Aberdeen.

Raiva

Não pai, eu não quero saber dos seus problemas. Não quero saber se o leite vai ferver, se a lâmpada queimou, se vai perder a casa e se as contas estão vencidas. Você por vinte anos não ouviu os meus problemas. E agora estou aqui, cheio deles de novo, e você não vai ouvir. De novo. Foda-se. Vamos falar qualquer inutilidade. Pra constar que conversamos. Falar do vento. Do gato que engordou. Falar de quantos litros por quilômetros o carro está fazendo. Assuntos de hoje. Assuntos isentos. Assuntos que não interessam a nada. Porque dos seus problemas eu não quero saber. Porque esse tempo todo que eu quis saber deles, de nada adiantou.