terça-feira, 22 de abril de 2008

Parto

Na natureza a vida rompe-se em dor, em risco, em uma aposta quase impossível. E tem sido assim por bilhões de anos. E tem sido um sucesso. Será assim com nossas vidas também? Que as coisas autônomas, de certa forma maiores que a gente, ao nascerem trazem consigo uma grande revolução invariavelmente associada a alguma dor incontrolável, que não mata, não fere, mas corta o peito e bagunça o fôlego?

Fiquei horas na cama. Música alta para tentar não ouvir meus pensamentos. Tempos depois, era incapaz de dizer a mim mesmo se chegara a dormir ou não. O tempo simplesmente passou.

Tomara que logo aprenda a engatinhar. E a andar sozinho. E que seja forte e saudável.

Esclarecimento

Cumpre esclarecer aos nossos prezados leitores que o post Pobreza não consiste em um momento de alcoolismo descabido ou intoxicação ilícita por parte deste autor. Trata-se apenas da idéia de que o estado do nosso mundo em que a pobreza predomina é um estado de baixa energia, e que diminuir a pobreza é um processo de reversão de tendências naturais de nossa sociedade, tal como uma geladeira constitui uma reversão artificial da tendência do calor "fluir" para o corpo mais frio.

domingo, 20 de abril de 2008

Pobreza

A exibição formal da Primeira Lei ocorreu sem maiores transtornos. Com ela, afinal, os alunos já se encontravam devidamente familiarizados através de outras disciplinas nas quais seu uso é lugar comum. A conservação de energia é uma ferramenta básica do cientista da natureza, embora quando efetivamente estudando termodinâmica pela primeira vez ele perceba o quão pequena é sua capacidade de visualizá-la, de conceituá-la e de fundamentá-la. Ainda assim, o trauma, embora intenso, é rapidamente superado.

Chega então o momento de apresentar a Segunda Lei, e com esta uma breve lista de decorrências tão simples na dedução quanto complexas nas conseqüências. Entropia. Uma nova propriedade. Assim como temperatura, pressão, volume. Um valor associado a um determinado estado. Porém entropia surgindo do nada! Não se conservando portando! Como assim? Rendimentos inerentemente limitados? Imperfeições aparentes que estão já no limite do possível. A perfeição absoluta como qualquer coisa menor que cem por cento.

Tudo isso uma medida da desordem, uma régua da irreversibilidade. E ficam todos então um tanto quanto sem entender porque a natureza é assim, embora sem sombra de dúvidas seja geral o espanto e a admiração pelo fato de que ela efetivamente assim o é.

E no contexto das leis que se mostram irrevogáveis na caminhada pelo caos, vemos que a medida correta de orientação de trabalho é capaz de um aparente absurdo do impossível e fazer a temperatura ir do frio para o quente. Uma geladeira. Com a inserção orientada de uma quantidade devida de trabalho, tem-se uma geladeira.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Hora de dormir

Nossa mãe! Preciso arrumar meu quarto qualquer hora. Só queria dormir mas foi impossível não ser tomado de terror por tamanha bagunça. É tanto talvez jogado, tanto e se do avesso em cima do cesto. Pior é a máquina de lavar, quebrada. Isso ainda fica assim por um bom tempo, que eu sei. Vou dormir assim mesmo. Apagar a luz e deixar isso tudo sumir. Abraçar meu travesseiro. Xingá-lo até esquecer que é um travesseiro. Olhar pra ele, no escuro, tendo a certeza de que no meio da bruma impenetrável aquele olhar me procura também. Que diferença faz, se cinco centímetros ou vinte quilômetros? Aquele olhar me procura também, é o que importa. Um certo desconforto nos meus pés. Eram só uns princípios jogados na cama. Chuto um por um para o chão. Amanhã faço um pacote bem grande e jogo tudo fora, que é dia do lixeiro.

Rotina

Recebi uma ligação. Aguardei um tempo. O professor terminou de falar, saí da sala.

E era assim, assim quando ele pensava estar super ocupado. Assim que surgia em seu íntimo essa sensação de compromisso, de importância, de inusitado. Um telefonema urgente com algo imprevisto acontecendo que demandava sua atenção. E assim também no dia seguinte.

-O que você pensa em fazer quando concluir o curso?

Não sei, realmente não sei. Olha, poucas vezes parei para pensar sobre isso, sabia?

E não pensava mesmo. Os dias distantes constituiam abstração intensa demais, não valia a pena. A vida parecia jamais poder perder esse sabor de ser fundamentalmente a nitidez dos próximos cinco minutos. E agia assim com muitas coisas, muitas. Dos mais variados campos. Das mais distintas naturezas. Parecia de fato que tinha por único plano feito fugir de toda espécie de planejamento. Afinal, estes poderiam ter o grave efeito colateral de levar a alguma realização. E se algum grande desejo se realizasse? E se algum grande sonho se mostrasse conquistado? O que seria do sonhar em si? Ele lembrava vividamente das vezes em que abrira os presentes de natal. Não os abre mais. E a vida parece ir indo cada vez mais ao longe assim. Cada vez mais sem fim.

-Poucos no seu lugar teriam deixado essa oportunidade passar, se é que alguém o faria. Você tem alguma idéia do que estou tentando lhe dizer?

Que as pessoas agem como lhes foi ensinado ser convenientemente correto. E eu só estou tentando me fazer conveniente. Um dia aprendo.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Sem nome

Noite, todos reunidos. Subimos a escadaria para ver se encontrávamos o senhor que vendia brigadeiros no prédio adjacente. Um vira-lata, jogado no caminho, levantou-se para nos seguir. E seguiu. Nada dos brigadeiros. E o cachorro lá. As meninas queriam passar no banheiro antes que fôssemos embora. E o cachorro lá. Agachei-me para conversar com ele. Aproximou-se. Pedi a pata; a pata. Todos gostaram dele. Era um cachorro de rua, mas estava sendo cuidado pelas pessoas dos arredores, pois não estava tão judiado assim. Aprovando nossa atenção, adotou-nos como companhia pelos minutos seguintes. Enquanto conversávamos e nos discontraíamos, ele participava latindo às gesticulações mais pronunciadas. Vez ou outra latíamos de volta.

Era tarde, e voltamos aos nossos carros. E ele nos seguindo. Ao abrirmos os carros, ele entendeu o que iríamos embora. E, antes que nós, foi embora.

Imagem obtida deste site.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Monólogo

- Mas o que se passa afinal, porque é que você anda assim tão ausente?

- Tenho que esconder meus sentimentos. Ou pelo menos julguei que deveria, ou por excesso de prudência, ou para alimentar minha ilusão de caráter.

- Sentimentos por quem?

- Por você minha cara! Por quem mais seria?

- E me conta assim, depois de tamanho esforço?

- Mas é só em meus pensamentos. Decorrerá só um incômodo menor que consiguirei superar sem grandes dificuldades.

- Mas não deveria ter me contado. Não mesmo... Sabe que não há como ficarmos juntos, sabe que...

- Que? Vai dizer que os sentimentos jamais serão conhecidos?

- E seriam algum dia? Por que? Você não acredita no que vê... É mais concreto o que faz sentido ao que você quer do que as histórias que teus olhos lhe contam todos os dias. Eu apareço diante de você vivendo uma outra vida. Estamos intransponivelmente distantes em quase todos os sentidos e você distorce as pequenas proximidades para me aproximar de você em outras formas. Porque não vive o dia de hoje fora da sua mente?

- Vou ficar aqui mais um pouco. Aqui em algum lugar em que eu possa estar mais perto de você sem interferir na sua realidade.

- Mas não se demore. Não é justo me possuir mais perto de você assim se afastando de mim.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Mito da caverna

Imagine pessoas que só viram sombras. A vida toda. E que você sempre viu a luz, a vida toda, desde que nasceu. Isso é ser cego ao contrário. Quando você vai desconfiar que vê? Quando?

E quando vai contar aos outros que vê? Quando vai desistir de contar a eles que há luz?

Vão te isolar, te repreender, te desacreditar. E você continuará insistindo. Continuará?

Vai convencer-se de estar louco. E cultivará sua loucura pois ela não lhe deixa. Cultivará em segredo. Jogará sua testa contra as paredes e baterá seu joelho nas quinas. Fará como todos. E guardará para si as imagens que não existem.

Até que um dia você se apaixona de novo.

Imagem obtida daqui.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Selo de Força Total

Caríssimos!

Recebi já há alguns dias um presente do blog JLouThings: um selo de Força Total.

Creio que os bons costumes da blogosfera pedem que eu repasse o presente a outros blogs de minha preferência. Ficarei hoje com alguns dos que já estão "linkados" aí ao lado. São eles:

  • Alma Bêbada - Um outro point internético cheio de defenestrações aleatórias.


  • Bianca Feijó - Periodicamente uma nova fatia de percepção criativa do mundo.


  • Entre Pernas - O único problema desse blog é não ser atualizado sempre. Porque a idéia é ótima os posts bem interessantes


  • Horas de Clarice - Este blog não é atualizado desde fevereiro. Entrem lá e deixem algum incentivo. Por quê? Bom... leiam qualquer coisa, vejam como esta menina escreve... E confesse que ficou querendo mais!


  • Minha Terapeuta está de Férias - Reflexões de uma estudante de psicologia. Precisa falar mais?
  • Futuro

    Acabou o mundo. O holocausto. Ontem. Foi terrível. As imagens iam chegando pela televisão de cada canto do mundo e, uma a uma, sumindo. Aqui, do último acampamento antes do pico da montanha, vejo que não sou mais o homem mais alto do mundo. Sou só o único, e não sobrou ninguém para comparar.

    Sentado, olhando ao longe para o céu de estranha coloração, detendo-se sob os ventos de fortes rajadas, pensou. Justiça. Injustiça? Havia um crime acontecido? Mais que explodir o mundo pelos ares, aquelas bombas implodiram tudo o que é humano ao coração de um só homem. Que finalmente entendeu o quanto tudo é volátil. Com tamanho conhecimento então, desejou nascer de novo, mas a natureza permanecia rígida e intransponível. Pensou em se matar. Mas a morte perdera por completo o sentido. Tanto faz.

    Sentir sozinho é não sentir, é um sonho morto, é uma mentira, é um impossível.

    Pegou um pouco de neve em suas mãos. Fria. Os dedos ganhando coloração arroxeada. Um pouco de água derretendo com o calor da mão e em seguida congelando ainda enquanto começava a escorrer, ao encontrar o vento. Dor. Sede. Um animal, estava reduzido a um animal. Estava sendo tratado pela natureza como um animal. Estava ali só miseravelmente sendo o que se é. Inconformou-se. Chorou e não foi ouvido. Pensou em não ter mais nenhum pensamento com palavras, afinal não haveria ninguém para ouví-las jamais. Destruiu sua presença pensando com isso puxar o tapete da Solidão. Mais três dias, e morreu.

    Menina

    - Mamãe, borboleta mamãe, borboleta. Borboleta mamãe...

    E nada que a mãe pudesse entender dessa insistência incontida de tamanha concentração numa palavra só. Algum filme, um desenho. Ou mesmo uma borboleta pela casa. Nada. Nada encontrava que pudesse explicar a fixação da filha.

    Pelo fim de tarde, na pracinha da cidade, uma das cenas mais lindas. Uma revoada de pelo menos dez borboletas, das mais coloridas. Nunca havia visto tantas juntas. E novamente a menina disse, com inquietante trivialidade diante daquela cena insólita:

    - Borboleta mamãe... Borboleta.

    Algo na concatenação daqueles fatos fazia toda sua simplicidade transcender de modo inexorável todas as barreiras da natureza e lançar-se ao domínio do fantástico.

    A mãe deu de ombros, por fim.

    quinta-feira, 10 de abril de 2008

    Saudade

    Quantos metros tem a saudade? Precisava saber, queria colocar tudo em escrituras. Papel passado, coisa correta.

    Chamei agrimensores. Trouxe gente estudada. Vasculharam o campo, foram olhar atrás das montanhas, depois dos vales. Nada. Não encontraram nada.

    Roubado! Fui roubado! Onde está minha saudade?

    Chamei a polícia. A divisão anti-seqüestro. Helicópteros. Satélites. Cães farejadores.

    Minhas posses e as alheias debaixo do mais detalhado dos escrutínios.

    E nada. Nada.

    Arqueólogos. Astrônomos. Piratas. O Discovery Channel. O Gugu, Silvio Santos e o Fantástico. E nada. Nada. Físicos nucleares. Aceleradores de partículas. Uma por uma das dez dimensões. E nada.

    Que não se encontre em lugar nenhum dessa matéria estranha é fato mensurável. Que seus efeitos me acompanhem em todos os lugares... quem explica?

    Imagem obtida deste site.

    quarta-feira, 9 de abril de 2008

    Cachorro estóico

    Nenhuma posse é verdadeiramente nossa. As coisas, antes de nos pertencer, pertencem ao mundo, e da forma que nos foram dadas podem nos ser tiradas. E outros bla bla blás à moda dos velhos estóicos. E aí? O que fazer com a palavra pertencer então? Às favas com ela? Tão somente a sabedoria e a nobreza nos pertence? (o que talvez consolasse os romanos, mas hoje certamente nos torna as coisas ainda piores!)

    Como, creio, o assunto não está sob os auspícios de nenhuma legislatura dos conselhos e papéis, sinto-me livre a manobrá-lo conforme as conveniências. Vou é brincar de redefinir posse às minhas vontades atuais.

    Possuir verdadeiramente é ser destinatário de uma manifestação externa em sua ocorrência expontânea, ou seja, independente de qualquer esforço artificial para restrição das liberdades do que é possuído. A posse assim definida não parte do proprietário para o objeto, mas do objeto para o proprietário. Nada se possue. O objeto de posse, em sua deliberação livre, eventualmente se deixa possuir.

    Não gostou? Faça a sua definição, fique à vontade. Eu fico com esta aí de cima porque engloba conceitos bem... bacanas! Ao mesmo tempo que fica excluída a possibilidade de posse de bens materiais, dadas as limitações deliberativas desses, e assim preservamos os ideais de frugalidade dos estóicos e outros desocupados, consigo uma vantagem adicional: a de garantir que, ao menos ontem, possuí um cachorro.

    Isso mesmo: um dog, um au-au, um vira-lata. Não trocamos restos de bolacha, pão ou qualquer outra coisa. Não lhe salvei a pata, a sede, o frio ou o terreno. Apenas o conheci. Nos vimos. E o vira-lata seguiu-me avenida afora. Parei no ponto de ônibus. Sentou-se ao meu lado, sem frescura. Não ficava olhando, ou incomodando minha perna com a pata. Sentou-se ali. Olhou a rua. As outras pessoas. O ônibus demorou, levantei. Levantou-se. Foi ao caixa eletrônico comigo, esperando-me do lado de fora. Deitou-se debaixo da mesa da lanchonete, à calçada. Parei à banca de jornal. Entrei em um sebo. Saí. Sozinho, pensei. E lá ele aparece de novo, passa à minha frente, correndo, e vai liderando o caminho.

    Rendendo-me às normalidades do mundo, entrei na estação do metrô e perdi neste dia a única posse que tive.

    Serão as pessoas capazes de se possuir assim também com tamanha pureza e cristalidade, por cima de tantos planos, carências, sonhos, egoísmos, invejas, sonhos e estratégias?

    Imagem de Maurilio Orozco

    segunda-feira, 7 de abril de 2008

    Homem comum

    Sonho com tudo, quero o mundo. Quero ainda mais. Quero o mundo me querendo. Quero mais que um sorriso, mais que um olhar. Quero um sorriso me sorrindo, um olhar me procurando. Não quero abraços, quero o desejo do abraço. Não quero o dinheiro, quero o sentimento de que vali a pena. Mas quero ainda mais, ainda muito mais.

    Quero meu travesseiro. Cheio de sonhos. Cheio de amanhãs para sempre. Quero mais que todas as conquistas do mundo. Quero desejar o impossível e cada vez mais o impossível. Vida eterna. Tensão. Desespero. Sede. Quero sentir minhas entranhas sedentas por se mover ao próximo segundo numa necessidade de sobrevivência imediata. Quero a morte rondando por perto. Quero a morte em si. Quero o desprendimento de tudo isso. Quero esquecer a vida. Olhar pra ela de longe. Olhar pra mim de longe, olhar para os outros. Quero não me achar na multidão.

    Quero ser ninguém, em definitivo. E conquistar o mundo.

    Eu aposto meus sonhos na nobreza do mundo. Deixo de lado que a ética é a maior desnatureza do homem. E nesse contrasenso garanto dos meus vazios minhas maiores glórias.

    Clique para ir à origem da imagem

    domingo, 6 de abril de 2008

    Curiosidade folgada

    Não, não. Nada de poesias apaixonadas agora. Tá tarde e amanhã é segunda-feira. Comportemo-nos. Venho aqui por outra razão. Um pedido, uma súplica, um clamor à multidão, como queiram...

    NÃO DESPERDICEM AS PESSOAS!

    As pessoas ao nosso redor, com quem cruzamos todos os dias; ou as do outro lado da cidade. Cada uma, um espetáculo à parte. Um baú de repente encontrado no sótão. Um presente de natal ainda não desembrulhado.

    A moça quieta no trem que, quebrada barreira do isolamento por conta de um incômodo celular, contou ser intérprete para surdos e mudos em uma faculdade.

    Todos os dias temos algum tipo de contato com pessoas diferentes, nem que seja um mero acaso de proximidade física. Nem que seja estar acessando o mesmo site ou olhando para a Lua ao mesmo tempo. Sempre que possível, fale com as pessoas.

    O velho senhor de chapéu, roupas simples, sandalha velha, olhar distante e sorriso puro, que com muita luta contruiu ele mesmo quinze casas e os filhos que ajudaram em algumas delas. Que de tanto trabalhar em obras, conversava com a terra. Anteviu o desmoronamento de um barranco quando todos os engenheiros professavam o contrário, e salvou duas vidas.

    Eu tenho minha histórias estranhas. Guardadas comigo. No metrô, de mochila, tênis, jeans e camiseta pólo, sou um estudante e nada mais, ninguém diria outra coisa. E baguncei em viagens, cantei desafinado. Vi acidentes ao vivo e corri com uma gestante hospital adentro. Muito além do grafite, papel e integrais. Quem desconfiaria?

    A senhora que carregava um Voltaire no metrô. Aluna de filosofia, pensei. Certeza. E estava redondamente enganado: uma parapsicóloga investigando segredos da existência e desesperada por descobrir onde se esconde a seita que realiza os rituais que, todas as noites, ela vive em sonhos vívidos. Uma louca, doida: uma conversa e tanto!

    Ou o analista bancário que me encheu de dica sobre ações muito além do que jamais conseguirei lembrar. A velha miúda com fotos de família na bolsa e histórias do marido desleixado que ela amava insistir para pentear o cabelo e para quem fazia roupas e mais roupas com as próprias mãos. O menino que me perguntou tudo sobre o livro que eu lia, para o embaraço dos pais, e em quem cada resposta despertava dez novas curiosidades vivas e inquietas.

    O tio de uma amiga minha, pessoa que por um ano cumprimentei quase toda semana para só então descobrir que ele havia viajado o Brasil em sua infância com um grupo de teatro, chegara a montar um kibutz e a contrabandear livros de comunismo debaixo da ditadura.

    O torneiro mecânico, fala simples e modos rústicos, com melhores idéias para emprego das máquinas ociosas que qualquer empresário ou gerente que já olhara aquele galpão. "Um curso técnico, sabe? Os menino faz aí uma profissão. Montá o que? Sei lá, coisas pra cadera de roda, ou qualqué coisa que possa doá depois pra hospital, quem precisa! E a máquina daí num fica parada, num enferruja assim, que dá até dó!"

    E tem tão mais por aí. Têm sim fatos bizarros, fatos marcantes, feitos e efeitos notáveis. E mais ainda: há tanta profundidade também. As pessoas têm vidas dessas que se espalham pros lados em afazeres, histórias e compromissos. Mas essas mesmas vidas afundam pra dentro em sonhos, prazeres, medos, desejos, raivas e risos. Estes temperos todos que fazem do cotidiano mais banal um épico mais épico que derrubadas de impérios, conquistas das montanhas e estrelas ou qualquer coisa que afete o preço do dólar.

    Um mar sem fim. Nas pessoas que nos aparecem por acaso. Não ignore os acasos! Pergunte, converse, olhe, escute, insista, sorria sempre nos olhos, lábios e modos, e tenha uma certeza: há sempre mais para além do que vemos nos outros, não importa o quão fundo fuxiquemos. Sempre, sempre mais!

    sábado, 5 de abril de 2008

    Taurino

    Fui a uma astróloga. Tinha que ir... Tem tanta gente indo! Ela disse que eu, por ser taurino, ter esse ascendente (ou acendente, pois que diferença faz um ésse a mais ou a menos frente à compassada coreografia dos astros?), sou muito preocupado com as opiniões que os outros têm de mim. Fiquei puto! Se ela espalha isso por aí, vão dizer que não passo de um inseguro sem opinião!

    Ela também disse que tenho um senso de humor refinado, ao que perguntei se ela conhecia a piada do "não nem eu". Gosto de quebrar expectativas.

    Teimoso? Teimoso eu não sou de jeito nenhum!

    Muito menos tímido ou perfeccionista!

    Fosse eu perfeccionista, não publicaria uma porcaria dessas no meu blog, ou talvez apenas pediria aos obedientes leitores que parassem de ler por aqui.

    Parem de ler, por favor!

    Estou pedindo, por que desobedece?

    Olha, vou ter que tomar medidas drásticas, pare de ler agora!

    Foi você quem pediu! Nesses termos, serei forçado a parar de escrever! Olé!

    Atrator estranho

    Sem literatura, os fatos: saímos hoje para comemoração de aniversário, todos os amigos. Os que se conhecem há pouco tempo e os de longa data.

    Nunca só os fatos: e eles dois também, claro! Há tanto tempo se conhecem... namoradinhos dos namoros de infância. Moram perto. Estudaram juntos. Os pais são amigos. São a maior incompetência na tarefa de serem definitivamente nada mais que amigos, embora oficialmente nunca migrem além desse status claustrofóbico. Se encontram. Se brigam. Se beijam. Se querem. Se desconfiam. Se evitam. Se sonham. O fracassado noivado dela não desperta tantas emoções quanto essa história. As amantes de camas incontáveis dele não nocauteiam assim tão forte até mesmo o lado mais bruto e inabalável de sua saudade. Nesses tempos tão modernos, a única coisa que os dois temem nessa paixão contida: é que é amor de verdade. Quem lhes tira a razão?

    quinta-feira, 3 de abril de 2008

    Atemporal

    O trânsito parou. Maravilha. Sim! Maravilha mesmo. Não vou deixar o inconveniente de um simples congestionamento transformar-se numa real ameaça à tranquilidade que carrego de volta comigo. Além do mais, é noite. Noite fria de céu claro. A janela convida a observar a paisagem. Os outros no ônibus dormem. Muitos quilômetros de qualquer lugar.

    Abro a janela. O frio lá de fora toca meu rosto de leve, a brisa me força a cerrar os olhos que estavam acostumados com o calor do ônibus. Uma sensação curiosa de algo concreto, de um instante presente do qual não poderei jamais fugir, para todo o sempre.

    A luz do luar calma toca as árvores. Os motoristas descem de seus ônibus e caminhões para tentar observar melhor lá longe o que causa todo o atraso. Mas a paisagem em volta é só tranquilidade. Serena. Um cenário que está ali.

    Fecho a janela. Vejo meu reflexo contra a cena do luar lá fora. Sinto que um dia o reflexo estará diferente.

    Sou seduzido novamente pela imagem daquele luar, das estrelas que me deixaram ensinar à minha amiga onde é o norte e onde é o sul. E esqueço de meu reflexo. E esqueço mesmo qual era meu reflexo, se jovem, se velho. Todos os meus reflexos estão ali. Há algo de concreto na vida que é frio como a noite, penetrante como o luar, e que dura pra sempre.

    quarta-feira, 2 de abril de 2008

    Avesso

    Lembro do dia em que a vi pela primeira vez, aquele encontro marcado esperando o destino acalmar. Fui para causar a melhor das impressões. Calcei meus melhores sorrisos, vesti uma camisa de bons tratos e, para proteger de qualquer eventual frio naquela sacada de céu estrelado, joguei por sobre tudo um casaco do mais puro bom humor.

    Casamos. À igreja fui com um terno de timidez alugada, que hoje em dia não se usa ter essas coisas de posse própria.

    Naqueles tempos difíceis de pintar paredes e inventar quintais trabalhava o dia inteiro. Só a via aos finais de semana. Vivíamos juntos, mas íamos nos apresentando ainda. Eu costumava colocar uma bermuda de irreverência, meu boné de frases feitas e meu chinelo velho de risadas fáceis, que quanto mais velho mais confortável fica.

    Hoje somos íntimos. Antes de deitarmos, sento à beira da cama. Meia luz. Tiro meus sorrisos fáceis, botão a botão; jogo-os sobre ela com desdém desafiador. Está frio. Ainda assim, me desfaço de minhas melancolias escondidas, puxando-as das pernas com os pés. Dos pés, tiro minha solidão secreta e minhas lembranças pseudo-esquecidas, que em dias normais me aquecem por debaixo de belos sapatos de auto-estima exaltada e extrovertida. Sempre muito bem lustrados.

    Deito-me ao lado dela e nos cobrimos de segredos pesados e macios. Quentinho bom. Tiro por fim, devagar, meus receios desmedidos, pudores mentirosos... Aí então ali, junto a ela, despido de tudo o que sou, a amo. Aí então ali faço do amá-la tudo o que sou.

    terça-feira, 1 de abril de 2008

    Chuva

    Num mundo perfeito não seria assim. Num mundo perfeito pra mim. Num mundo perfeito não haveriam muitos desejos. Num mundo perfeito só seria eu e eu continuaria sozinho.

    Mas tais implicações de lado... Se a amizade não fosse uma barreira tão intransponível e se eu fingisse querer algo menos profundo, as coisas poderiam ter se iniciado antes. É uma questão de energia de ativação. Os químicos entendem disso. Enzimas. O mundo ideal é interessante, tudo bem, mas as coisas vís precisam entrar em cena para diminuir as energias de ativação das coisas da vida.

    Fico remoendo o dia em que quase dividi com as pessoas um pouco destes sentimentos. Pois como hoje é vista a amizade que existe é reflexo de sucesso, enquanto se soubessem de todas histórias trancadas nas entranhas ririam do fracasso tão logo se recobrassem da asma causada pela pena.

    E minha família? Onde estou indo para mais mais perto dela se aqui só há paredes com desconhecidos?

    Esses pensamentos são próprios do correr do tempo.

    segunda-feira, 31 de março de 2008

    Imagens

    O Sol já o fazia suar, queimava sua pele, mas ainda não havia conseguido derreter o sono que pesava sobre seu corpo prendendo-o à cama. Por vezes o incômodo provocado pela luz era enorme. Abria o olho. Remexia-se. Olhava, cabeça caída ao lado da cama, os livros jogados pelo chão. O despertador derrubado da mesa. Já cerca de quatro horas haviam corrido após a primeira vez que o aparelho tocou pela manhã.

    Bebida era algo que não faltava. Todos se divertiam, riam sem dispor de muita concentração para pensar se havia mesmo alguma razão para tal.

    Três da tarde. O Sol já não incomodava mais seus olhos. Já não havia razão para lutar contra o sono.

    Comemorações. Sorrisos. Abraços. Os amigos se reencontram. Xingam-se numa expressão quase selvagem do mais profundo apreço, vestido de manto nenhum de educação ou compostura. Os mais íntimos procuram-se para dividir as comemorações.

    Troveja lá fora. Com a chegada da noite vai ficando insuportável continuar dormindo. Cansa. Ele levanta. Vai até a cozinha. Debruça-se na janela olhando a paisagem lá longe. Horas passam, várias horas.

    Fiquei

    Eles se foram todos, estes seres cuja ausência me deixa um pouco mais longe de mim. E só os deixei ir para ver se assim encontro minha ausência aqui em algum lugar esperando. Esperando para me ver de novo. Ver de olhar nos olhos. Gostar assim não é bom. Não, não é bom. Gostar assim dilui. Gostar assim evapora. Gostar assim é estranho. Gostar é bom alguma vez? Temo ter ido muito contra meus sentimentos quando resolvi lhes dar ouvidos. Não são para ser assim as pessoas. Não. Tem coisa que os outros parecem encontrar quando desistem de buscar. Não entendo a simplicidade. Não me acolhe essa idéia de ter as coisas assim. Algumas honras em que aprendi a acreditar... Causam admiração nos olhares mas aí os passos são todos para trás, e vão ficando todos para longe. Quando será o contrário?

    Fraqueza insuportável pela fraqueza que eu não suporto de insistir em suportar esse contínuo desistir de teimar em não se conter. A noite não me engole mas esse vazio dos outros que se foram vem vindo. Embreaguês de pensar na bebida. Repugnância de pensar nos desejos todos de infância que se consumarão mutilados e esquecidos naquele momento em que será celebrada a mais doida e incontida anomalia coletiva. Ou não. Ou estou errado. Ou sou um sozinho. Ou sou um desconectado. Só sei rir sozinho de minhas realidades ininteligíveis. Ou quero ir muito além de onde se deve, e ninguém quer se mostrar tanto assim. Assim como eu, ninguém jamais abraçará com todas as forças seus mais íntimos segredos quando estiverem bem diante deles.

    Eles se foram todos. Lá no meio foi um sorriso. Um olhar. Uma voz. Um anseio que eu gostaria de compartilhar. Uma alegria que eu gostaria de dividir. Uma vivacidade que eu gostaria de abraçar. Mas não me contento com pouco, e não tenho muitas boas maneiras para lidar comigo mesmo. Resta apenas esta mutilação das sinceridades de meu coração.

    quinta-feira, 27 de março de 2008

    A difícil vida de um pseudônimo

    Acordei outro dia, dia como qualquer outro. Moleza do sono resmungando contra um relógio ainda insistente. Tentei lembrar como era o sonho que ia se indo por entre meus dedos, embora pra nunca mais. Vozes, uma paisagem... Qual era o enredo? Como era mesmo aquele cheiro? Pensei nos meus compromissos do dia. Pensei no café da manhã. Mas deixei um pedaço de meus devaneios se ocupar de coisas mais distantes. Perguntas que não dão dinheiro, cenas que não custam nada... Fui pra longe, comecei a ouvir músicas que não tocavam ali. Comecei a pensar em palavras que eu jamais falaria; frases que eu jamais escreveria. Quando dei por mim, era inescapável: já tornara-me alguma espécie de outra pessoa. Eu jamais faria coisas que, perdidas ali na minha imaginação, agora eram minhas pra sempre. Olhei no espelho e vi: sou só um pseudônimo.

    Desespero. Senti o chão sumir nos medos de não ser ninguém. Entendi que minha história era cada vez mais uma mistura pastosa de fatos e vontades, de lembranças e invenções. Eu não sou de verdade! Aí o alívio: e quem o é?

    Escovei os dentes mas a escova não machucava a gengiva. Eu estava então do outro lado do espelho e vivo dali adiante neste mundo. De sensações que existem quando eu invento. De mundos que são concretos quando fecho os olhos. Controle. Liberdade... Mas as coisas não são feitas só com a metade boa do maniqueísmo. E assim é que esta minha condição implica em muitas coisas. Junto com a sede de abandonar todas as minhas histórias para inventar outras, fiquei sem nenhuma... Sou retalhos de idéias. Sou rascunhos misturados. E o doloroso é que às vezes vou pra gaveta. Às vezes fecham o caderno velho e não escrevem nada. Às vezes vejo fotos dos meus filhos mas não sei ainda quando nasceram. Às vezes fui viajar, às vezes nunca fui.

    Tenho o infinito pra mim como que uma posse mágica: futuro e passado são o que eu quiser. Mas, estranho descobrir isso depois de fugir pra longe correndo: esse insignificante ponto na eterna linha do tempo me faz falta... O presente tem lá seus caprichos. Na imutabilidade dura do mundo que se impõe está uma poesia que não se inventa, que não se toma em posse. Transfigurei-me em pseudônimo para sentar no alto desta montanha de abstração e olhar de longe, com toda a inveja que sente quem aprecia de fora, o realismo fantástico das coisas que são simplesmente assim: são.

    sexta-feira, 7 de março de 2008



    Gerentes engravatados. Macacões engraxados. Estalos metálicos. Cliques de mouse. Aço grunhindo. Telefones tocando. Todos ali, paredes apart. Contas do mês. O futebol de quarta. Reformas na casa da praia. Chamar amigos pra encher a lage do puxadinho. Todos ali, paredes apart. Planilhas de cálculos. Gambiarras e improvisos.

    A maldição da elite é ter intelectualidade suficiente para tentar planejar a própria felicidade. A maldição da plebe é ser tão visceralmente humana quanto qualquer outra inveja infundamentada.

    À noite. Dois lares diferentes. Crianças pulam aos pescoços que voltaram do trabalho. Seriam ambos iguais?

    O bom da pobreza é que ela abstrai em sonhos distantes as artificialidades fúteis da vida. Ninguém deveria existir além de seus momentos humanos.

    Trânsito. Ar condicionado. Trânsito. Ônibus lotados. A mesma avenida. A mesma cidade. A mesma economia. De quem são os muros?

    São milhões de pessoas na megalópole. Todas acreditando que seus conhecidos próximos são os únicos honestos e confiáveis do mundo. Vamos desconfiar de todos nas ruas... este é um denominador comum dessa gente, não importa que panos usem. A diferença é que a plebe não consegue comprar seu particular cenário de ignorância e é forçada a misturar-se ao mundo dia após dia. E no meio de tanto cansaço, nem sabe a bênção que é...

    quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

    Entre luzes e sombras

    Sei que a internet não é lá o lugar pra escancarar detalhes pessoais, mas desde que os nomes não sejam revelados, não há problema, não é mesmo? E tem outra coisa: tem certas coisas que, de um jeito ou de outro, não são assunto particular, dado que acontece com tanta gente por aí! Claro que você já deve imaginar qual é o assunto... No meio de aquecimento global, epidemia de dengue, recessão nos EUA e greve dos motoboys, sou perturbado a falar dessas coisas que reverberam pra dentro mesmo quando está tudo quieto, a TV desligada, a conta bancária em ordem e tudo em paz. Amor.

    Conheceram-se na faculdade. Apaixonaram-se. E eis que um dia, como anunciam os poetas, o amor acabou. Ela podia estar traumatizada, mas estava lá com sua outra história pra distrair-lhe os dias. E ele? O maior trauma que já experimentou. Fraqueza? Frescura? Tristeza? Amar é isso? Precisa se sujeitar a tanto? Mas os dias não se contentaram em diluir tudo a partir daí e deixar por isso mesmo. Anos mais tarde, sim, estão juntos novamente. Não, também não foi dessa vez. Terminaram. Ele terminou. Ufa! Já era tempo de seguir em frente... De seguir para... Não não, anos depois, estão juntos novamente.

    Conheço os dois. Ela é uma mulher bonita, simpática, esperta e sociável. Não sou dado a exaltar a beleza masculina mas creio que ele não seja de se jogar fora também. Olhos verdes e tal. Falei com eles... Ela está namorando, mas está cada vez mais envolvida com ele. Ele está mais confuso do que nunca. Diz que era do tipo que fazia surpresa com flores e escrevia cartas e passava tempo junto. Hoje diz que não quer mais sofrer. Não como já sofreu... Conhece outras pessoas aqui e ali, e tal... Mas e ela, pergunto a ele... É uma companhia super agradável, minha amiga, e tenho vontade de estar sempre junto com ela. Mas e ele, pergunto a ela... Eu só queria que a gente não tivesse terminado da primeira vez, teria sido tudo tão mais fácil, é o que ela diz.

    O que eu faço com essa gente? Às vezes eu dou conselhos demais, porque falo falo e falo sem parar. Mas quando o assunto é sério não é qualquer besteira que se fala... O que eu digo? Digo a ele que ele é um covarde que não superou um trauma e vai perder o amor da vida dele, ou digo que ele já sabe que ela é capaz de ferí-lo e não vai hesitar em fazê-lo de novo se as condições lhe forem favoráveis? E a ela devo encorajar a deixar de lado o relacionamento atual se ela realmente ainda ama esse mero amigo, ou no fundo preservar as coisas já construídas é mais recomendável e um dia o amor aparece?

    Fico em crise diante dessa história por duas razões. Por não saber o que dizer a pessoas próximas, mas também por uma questão conceitual, meio filosófica, ampla: até onde somos capazes de perdoar? Até onde o passado de duas pessoas pode ser realmente sobrepujado por disposições atuais? Esses dois têm um puta desejo de serem felizes um com o outro, mas transformaram o passado numa nuvem negra que causa hesitação em quem quer que seja...

    Talvez eu deva só não dar conselho nenhum... Eu ainda nem consegui decidir, em três meses, em qual das paredes da sala o sofá fica melhor...

    segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

    Inveja do Rio Grande do Sul

    Vamos aos pontos objetivos, pra não parecer que é confete gratúito só por força do carnaval:

    1.Geografia. O RS é um mosaico de bom gosto, com mostras de bom calor e de bom frio espalhadas pelo ano. Com paisagens de confortar a alma e cheiros de perturbar as lembranças

    2.A mistura de gente, com nichos ainda de boa preservação de costumes originais temperando de boa história todo o presente do estado

    3.Mulher bonita. Nunca vi lugar pra dar mulher bonita assim viu... (hesitei em deixar este item como o primeiro da lista mas não quero parecer excessivamente machista ou tentá-las a sentir maior orgulho do que é condizente com o bom casamento do realismo com a modéstia)...

    4.Sotaque. O Brasil todo fala Português. Mas o Rio Grande do Sul canta o Português. E fica bom!

    5.O Aeroclube do Rio Grande do Sul, super organizado e profissional

    6.As canções típicas da região, emolduradas em belas danças e vestimentas

    7.O chimarrão

    8.Uma riqueza paleológica não só fartamente disponível mas também respeitosamente explorada e conservada

    9.O RS tem os Veríssimos, o Mario Quintana, o Moacyr Scliar e mais um monte de gente

    10.Já mencionei as mulheres? Tá, tá... tá bom...

    domingo, 3 de fevereiro de 2008

    Da terapêutica

    Acordei com enxaqueca. Abri a estante, tomei três literaturas e me engasgou o coração. Queria subir a escada mas estava fraco. Precisava de ajuda. Fui ao médico e ele receitou quatro sessões mensais de filantropia. Ajudei a achar a cura para o câncer na primeira semana. Depois dei umas sugestões pra esfriar o aquecimento global e na terceira reflorestei a Amazônia. Na quarta comprei um cachorro pra mim, vinha me sentindo tão sozinho...

    Mundo sob medida

    Ah, palhaços! Acusam-me de me perder em sonhos! Em sonhos me perco sim... são meus sonhos, meu mundo, meu universo. E quanto a vocês, que se perdem também e, pior, se perdem em meio à realidade? Perdido em sonhos, preservo meu sentido.

    sábado, 2 de fevereiro de 2008

    Espera intravenosa

    Na outra mesa tem um monte de gente... Eu acho que eles estão meio à toa, como o meu pé na cadeira que deveria estar sendo aquecida pela sua bunda gostosa. Gostosa e distante... E ausente. E eles lá, conversando... O rapaz de óculos tá a fim daquela morena, certeza... Também, com um vestido daquele, vermelho ainda por cima! Até eu tô a fim da morena... Quer dizer, estaria, não fosse estar puto por você não estar aqui... Eu queria conversar com você hoje. Importa o assunto? Te contar do meu dia, mas mentindo, claro... Dando um jeito de fazer a sucessão de monotonias indutoras de comportamento suicida transformarem-se num pout purri de comédia e alto astral dos mais diversos estilos... Eu preciso de você, eu preciso de você pra conseguir essa alteração na minha vida. Sem você eu sou masmorramente obrigado a ver minha vida tão somente... tão somente como ela é! E aposto que é o marombadão lá que vai pegar a morena... O de óculos fica dando mole... Depois a gente fala de quem usa óculos e acham que é preconceito contra nerds, mas olha lá, mais um que caiu no estereótipo! O que será que ele fez de errado? Será que a morenassa lá só tá a fim de uns amassos e mais nada e o nerdão ali tava romancenado demais o flerte? Acho que é... Porque o marombadão lá tenho certeza que tá a fim de dar umas e vai pular fora depois. Certeza, certeza! Ah, cadê você hein? Por que você não vem me dizer por que é que toda vida é miserável quando olhada de longe, sem tocar a nossa? Vejo histórias iguais as minhas por aí, com a diferença de que as dos outros não valem um centavo, e as minhas são a razão do universo. Deus mandou cristo ir pra Cruz pra jogar um crédito pra mim, nos meus pecados. O resto da humanidade entrou de lambuja. Os judeus fizaram um escândalo danado pra chamar a atenção e se lançarem como a própria definição de mártir história adentro. Não adianta, não adianta. Uns aninhos se passaram e nem mesmo o carnaval eles conquistaram. Eu tenho passe livre. E eu sendo assim tão importante, por que diabos você não aparece aí do outro lado da mesa e me diz um simples oi? Não quero pensar que é outro. Cansei deste tipo de pensamento. Consome a gente em neuras sem fim, bagunça a fome, altera os humores e desorganiza os compromissos... Tudo por uma esquisofrenia psicótica que, no final das contas, vai ver... estava perfeitamente correta, e podia relaxar desde o início ao invés de morrer de dúvidas sem fim. Eu queria estar naquela outra mesa, sendo menor do que sou porém incapaz de entender minha insignificância. Daqui a pouco, tenho certeza, um idiota qualquer vai pedir a cadeira. A cadeira que hoje seria o seu trono diante do qual eu me ajoelharia como humilde serviçal, pronto a entregar minha alma aos seus caprichos mais sem sentido. Mas não... a cadeira vai sair daqui sem cerimônia mesmo. É simbólico isso? É um sinal? Não porra, é só uma cadeira! Olha só como eu tô alterado! Não devia beber sozinho os drinks que diluiríamos em sorrisos e olhares. Assim, puro, faz mal. Eu queria muito poder te encontrar, cuspir na sua cara e te mandar pra puta que a paril! Mas... ah, sempre o mas... Mas me acho um bosta por saber que tão logo eu te veja só vou conseguir te dar um beijo demorado enquanto acaricio cada músculo de suas costas subindo até meus dedos tocarem a ponta de suas orelhas, daí vou olhar nos teus olhos, , morder teus lábios, jogar todas as minhas verdades egoístas no terreno baldio mais próximo e dizer, com um cheiro prateado na voz, que estou morrendo de saudade!

    Alucinógeno

    Ai, meu quarto fechado. Às vezes eu odeio meu quarto fechado. Especialmente quando ele me engole, me digere, me dilacera e regujita meus restos numa chapa quente, num dia de sol como foi hoje... Tem a internet, ah a internet! Ainda bem que tem ela! Assim eu fico aqui sozinho bem informado, sabendo com toda a certeza de que não sou o único sozinho do mundo. A internet é um milagre. Tá, milagre não é, é uma nerdice, eu sei... Mas o mínimo que devemos reconhecer é que é de uma ironia sem tamanho. Uma ironia sádica. Gosto assim. Eu fico aqui sozinho, eu e a internet... Mas, amarrado em minha solidão, preso e algemado na minha momentânea falta de sonhos decentes, fico em contato íntimo com a solidão alheia.. Ironia maior? Sei lá onde se encontraria disso! Tem dias que a solidão faz bem, mas tudo tem limite. Eu queria pelo menos chuva... Uma tempestade grande, enorme, forte, pra ficar aqui curtindo o friozinho que entra ilícito por tudo o que é fresta e me massagear de falsa nobresa enquanto invento sentimentos de piedade distante das notícias de enchentes e de pobres miseráveis lavados pelos excessos de água. Se Deus existe, não é ele que cuida das enchentes... Talvez um anjo seja o encarregado pelas chuvas, pelas milagrosas chuvas que reciclam a vida do mundo e lubrificam a termodinâmica do impossível. Mas aí, vez ou outra, esse anjo se distrai... E entra pela porta um anjo mal e desregula toda a máquina da chuva. Deve ser assim... Eu olho pra chuva e vejo gotas caindo. Gotas e mais gotas. Elas batem contra o chão duro e explodem, voam milhões de gotinhas menores explodindo em volta. Cada gota que cai explode em gotas que explodem em gotas menores. São gotas infinitas. As gotas começam e não acabam nunca mais. E no entanto, logo ali... acabam. Todo infinito acaba. Todo pra sempre foi até ontem e mudou de idéia. O monocromático é uma mentira. A constância é uma ilusão, uma fuga, uma rejeição de todo o resto que é tão ou mais real. Mosaico. Colcha de retalhos. Feijoada. Elenco da Malhação. Mocinhos e bandidos no drama do mundo moderno. É tudo uma prova concreta da multifacetagem camaleônica da pluralística borbulhação da realidade dos poros do nada imaginário até o caldeirão que me ferve dentro da minha própria realidade. Em breve estarei cozido. Mas pelo menos a internet me permite dividir com qualquer um essa emoção inútil de ninguém.