Ele é um cara legal, todos gostam dele.
No meio das pessoas, as conversas fluem, nascem como se não houvesse outra opção para a Existência.
- Ele não é só doido, ele é meio que um personagem!
Compartilho da opinião do Thiago. Ele é um personagem. Ninguém ri daquele jeito, nem ele. Só o personagem dele. Alegre de uma alegria que contagia.
As pessoas se aglomeram em volta para ouvir qualquer trivialidade que seja. O que importa é que seja contada por ele.
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
Aconchego
Tinha uma poesia passando frio na rua, à noite. Eu a vi e a cena comoveu meu coração. Linda, linda. A trouxe para casa. Fiz chocolate quente, dei-lhe um banho. Nos deitamos juntos, e a noite se transformou em versos com rima e tudo.
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terça-feira, 1 de outubro de 2019
Breve
Eu ainda não via seu rosto
Quando eu fechava os olhos, eu ainda não via seu rosto
Lembrava vagamente do seu sorriso
E da sua voz
Seu jeito de me olhar nos olhos enquanto dançava
Deitava à noite em meu travesseiro
E de você degustava essa lembrança vaga
Que tem quem viu uma única vez
Mas agora que te vi de novo e de novo
Tenho seu rosto comigo
E entendi seu jeito de se aconchegar no meu abraço
Até encontrar todos os pedacinhos de afato
Entendi detalhes do seu cheiro que não sabia
E ouvi suas histórias, segredos, sonhos, medos
E vi suas alegrias. O canto, a dança, a vida
Você gosta de celebrar a vida
Eu ainda não via seu rosto
Quando eu fechava os olhos
E agora vou dormir
Fecho os olhos
E vejo seu rosto
E vejo dentro de você
E a saudade é tão maior
Quando eu fechava os olhos, eu ainda não via seu rosto
Lembrava vagamente do seu sorriso
E da sua voz
Seu jeito de me olhar nos olhos enquanto dançava
Deitava à noite em meu travesseiro
E de você degustava essa lembrança vaga
Que tem quem viu uma única vez
Mas agora que te vi de novo e de novo
Tenho seu rosto comigo
E entendi seu jeito de se aconchegar no meu abraço
Até encontrar todos os pedacinhos de afato
Entendi detalhes do seu cheiro que não sabia
E ouvi suas histórias, segredos, sonhos, medos
E vi suas alegrias. O canto, a dança, a vida
Você gosta de celebrar a vida
Eu ainda não via seu rosto
Quando eu fechava os olhos
E agora vou dormir
Fecho os olhos
E vejo seu rosto
E vejo dentro de você
E a saudade é tão maior
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Ontem eu descobri que sou descartável
E doeu, e entristeceu, e vergou meus ânimos até que tocassem o chão
E olhando a esse rebuliço de humores
Pensativo, pergunto à minha sombra: por que?
Descartáveis somos todos, não somos?
Descartáveis somos todos
Venerável seja essa rara espontaneidade
De deixar pra lá sem delongas
De esquecer sem maiores justificativas
Você é raro, é único
E todo mundo é.
Nessa abundância de raridades insubsituíveis
Há sempre um novo raro
Todos descartáveis
E doeu, e entristeceu, e vergou meus ânimos até que tocassem o chão
E olhando a esse rebuliço de humores
Pensativo, pergunto à minha sombra: por que?
Descartáveis somos todos, não somos?
Descartáveis somos todos
Venerável seja essa rara espontaneidade
De deixar pra lá sem delongas
De esquecer sem maiores justificativas
Você é raro, é único
E todo mundo é.
Nessa abundância de raridades insubsituíveis
Há sempre um novo raro
Todos descartáveis
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
Foi assim
- Finalmente eu fui conhecê-la!
- É mesmo? Não acredito! E aí?
- Ela é linda, linda! E tão, tão... tão interessante!
- E o que aconteceu, me conta!
- Então, conversamos pouco, eu estava tímido, sabe, sei lá, leve, por um lado, e tímido por outro; duas coisas que deixam a gente quieto.
- Ué, então não conversaram muito?
- Na verdade não, porque ela tinha que trabalhar. Mas rascunhamos algumas perguntas sobre as nossas vidas, nos olhamos...
- E depois?
- Depois os anos se passaram, cada um vivendo sua vida no seu canto. Depois um morreu. Depois morreu o outro.
- É mesmo? Não acredito! E aí?
- Ela é linda, linda! E tão, tão... tão interessante!
- E o que aconteceu, me conta!
- Então, conversamos pouco, eu estava tímido, sabe, sei lá, leve, por um lado, e tímido por outro; duas coisas que deixam a gente quieto.
- Ué, então não conversaram muito?
- Na verdade não, porque ela tinha que trabalhar. Mas rascunhamos algumas perguntas sobre as nossas vidas, nos olhamos...
- E depois?
- Depois os anos se passaram, cada um vivendo sua vida no seu canto. Depois um morreu. Depois morreu o outro.
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domingo, 29 de setembro de 2019
Impulsos
As pessoas oscilam entre impulsos irresistíveis e maremotos de inseguranças das mais terríveis. A Priscila mandou um e-mail pro cara, chamou ele pra sair, ele respondeu, disse que sim, e ela nunca mais escreveu pra ele. E ela fica triste que ele não escreve um e-mail pra ela. E nada no mundo vai convencer a Pri a escrever. E eu fico pensando, aqui, se o tal cara também não está lá, só esperando uma resposta dela, e pensando "droga, acho que ela desencanou". Essa coisa de "talvez" é uma areia movediça que traga as pessoas pra suas masmorras internas, tranca o cadeado e joga a chave longe.
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sábado, 28 de setembro de 2019
Amanhã
Amanhã eu vou ligar pra você
E vamos conversar coisas leves
Vamos rir saudades de histórias simples
Que em nossas distrações brotam um mundo
Um mundo verde e sereno e morno
Um mundo que a gente gosta de viver
E vamos ser de verdade
Essas coisas que a gente fica sonhando
E vamos ser agora
Essas coisas que se deixam por descaso no futuro
Sempre no futuro
Pensando bem,
É agonia
É agonia, que eu não aguento
Que eu não aguento você ter passado a vida no meu futuro
Sempre no futuro
Sai do meu futuro e me vem de presente
E me xingue por perder tempo com trocadilhos tão estúpidos
De uma estupidez que é do tamanho da minha agonia
Do meu nó no estômago
Do meu nó nas tripas, nos dedos, nos braços, do meu nó nos sonhos, nas pernas, no nariz...
Amanhã vou ligar pra você,
E não vou falar nada disso
Vou falar de coisas simples
Das pequenezas do cotidiano
Porque em nenhuma outra conversa
Farei tanto de tão pouco
E vamos conversar coisas leves
Vamos rir saudades de histórias simples
Que em nossas distrações brotam um mundo
Um mundo verde e sereno e morno
Um mundo que a gente gosta de viver
E vamos ser de verdade
Essas coisas que a gente fica sonhando
E vamos ser agora
Essas coisas que se deixam por descaso no futuro
Sempre no futuro
Pensando bem,
É agonia
É agonia, que eu não aguento
Que eu não aguento você ter passado a vida no meu futuro
Sempre no futuro
Sai do meu futuro e me vem de presente
E me xingue por perder tempo com trocadilhos tão estúpidos
De uma estupidez que é do tamanho da minha agonia
Do meu nó no estômago
Do meu nó nas tripas, nos dedos, nos braços, do meu nó nos sonhos, nas pernas, no nariz...
Amanhã vou ligar pra você,
E não vou falar nada disso
Vou falar de coisas simples
Das pequenezas do cotidiano
Porque em nenhuma outra conversa
Farei tanto de tão pouco
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sexta-feira, 27 de setembro de 2019
Crônica de uma leitura
Leio as letras dela
Palavras bem escolhidas
Sintaxe lapidada
Vírgulas lixadas e bem aparadas
Tudo medido, adequado, próprio
Tão natural
Leio as palavras dela
E como meus olhos que sabem das palavras
Sem que se dêem conta de só ver letras
Sinto que posso tocar seu rosto
Ainda que realmente não o toque
E que tenho pra mim seus olhos
Ainda que realmente não o tenha
Minha alma, embora minha não seja.
Palavras bem escolhidas
Sintaxe lapidada
Vírgulas lixadas e bem aparadas
Tudo medido, adequado, próprio
Tão natural
Leio as palavras dela
E como meus olhos que sabem das palavras
Sem que se dêem conta de só ver letras
Sinto que posso tocar seu rosto
Ainda que realmente não o toque
E que tenho pra mim seus olhos
Ainda que realmente não o tenha
Minha alma, embora minha não seja.
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quinta-feira, 26 de setembro de 2019
Adoniran
As palavras têm rosto
Claro que têm
Um rosto diferente do meu
E que eu não sei se é mais bonito
E que não sei se é mais feio
E ainda assim, de certa forma
É um rosto que também é meu
E quando me olham nos olhos
Esses outros olhos
Por vezes gostam
Por vezes não
E se me gostam nos meus olhos
Meus olhos mesmo
Se me gostam ou não
É coisa que, com aquela,
Não guarda relação
Claro que têm
Um rosto diferente do meu
E que eu não sei se é mais bonito
E que não sei se é mais feio
E ainda assim, de certa forma
É um rosto que também é meu
E quando me olham nos olhos
Esses outros olhos
Por vezes gostam
Por vezes não
E se me gostam nos meus olhos
Meus olhos mesmo
Se me gostam ou não
É coisa que, com aquela,
Não guarda relação
Angra
Ficamos os dois ali, à beira da vida, deixando tudo passar. Abraçados, quentes. Te sorri três futuros e você me olhou: um presente.
quarta-feira, 25 de setembro de 2019
sCRAP
As pessoas deletam scraps no Orkut. Mas essas mesmas pessoas são incapazes de compreender scraps encontrados nos perfis de outras pessoas, e aí causam confusões que motivam essas outras pessoas a deletarem seus scraps.
Ao julgar os outros, mentimos a nós mesmos sobre quem somos.
[SIM, isso foi escrito há milênios... pensei em adaptar para a termilogogia atual, facebookiana, mas que se evidencie aqui a coerência dos meus cabelos já esbranquiçarem].
Ao julgar os outros, mentimos a nós mesmos sobre quem somos.
[SIM, isso foi escrito há milênios... pensei em adaptar para a termilogogia atual, facebookiana, mas que se evidencie aqui a coerência dos meus cabelos já esbranquiçarem].
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Papéis
Às vezes escrevo pra ser mais eu mesmo. Pra deixar nas palavrinhas, fixadas nas suas formas, minhas deformações interiores. Pra eu ver na minha frente, num texto visível, existente, as coisas que sou.
Às vezes escrevo porque não quero ser eu. Não quero ser quem sou. Escrevo para ser outra coisa. Para ser coisas que imagino. Para ver o que consigo imaginar. Para ver se invento um outro passado e penso em outras coisas. Pra ouvir outras vozes. Pra me ver em outros lugares.
Fuga?
Sonhos?
Anseios?
Ou só o prazer inexplicável da imaginação?
Às vezes escrevo porque não quero ser eu. Não quero ser quem sou. Escrevo para ser outra coisa. Para ser coisas que imagino. Para ver o que consigo imaginar. Para ver se invento um outro passado e penso em outras coisas. Pra ouvir outras vozes. Pra me ver em outros lugares.
Fuga?
Sonhos?
Anseios?
Ou só o prazer inexplicável da imaginação?
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terça-feira, 24 de setembro de 2019
Hoje
E se ela não gostou de mim, teve qualquer impressão ruim? E se ela não ligar mais? E se, aos olhos dela, eu for uma pessoa descartável demais? E se eu descobrir que meu mundo imaginário é assim tão maior que eu, que só de longe agrado? E se eu fiz perguntas demais, fui invasivo demais? E se fui tímido demais, fiquei longe demais, ri pouco, não cheguei perto o suficiente para mostrar uma desinibição mais invejável? E se essa agonia não acabar nunca mais?
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segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Primeira lei da termodinâmica
É uma troca justa: quando a vida acontece, a arte espera. E vice-versa.
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domingo, 22 de setembro de 2019
Urgente
Depois de tantos anos fazendo tantas coisas, descobri: ainda não nasci. Qualquer dia desses, precisarei dar conta dessa pendência. Não muito não. Um sonho, um jeito, e um desespero inconsequente de ser eu mesmo.
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sábado, 21 de setembro de 2019
Estúdio
Ele chegou cedo. Ficou sentado num canto, do lado da mesa de som, de frente para o palco. Pessoas foram chegando. Em casais, em grupos. Ele olhando. Batucando na perna, na bota, e olhando. E a banda seguia tocando músicas e mais músicas. As pessoas ouviam, dançavam, olhavam, se beijavam, se conversavam, se misturavam. E ele ali, olhando. Ansioso, o tempo não passava nunca. Desesperado, o tempo passava rápido demais.
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sexta-feira, 20 de setembro de 2019
Frio
Se um dia eu comprar uma puta, vai ser no inverno. No frio as putas, mais vestidas, são muito mais mulheres.
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quinta-feira, 19 de setembro de 2019
Da diretoria
A competência atribuída é sempre função da posição institucional. Não significa que você está condenado a ser para sempre subjugado, caso tenha grandes competências ainda carentes de oportunidade de manifestação. Significa que você deve, também, cultivar a capacidade de ascensão institucional. A grande injustiça é que essa última capacidade, sozinha, dá conta de elevar uma pessoa até os mais altos postos, não importando o quanto lhe falte das outras habilidades.
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quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Ouvi ontem no ônibus
- Maaalandro... liga só, que ontem tive uma idéia hiper. Tava pensando sobre nossa aula de literatura, daí li umas matérias de física bizarra na Superinteressante. Aí pensei: o amor é o sexto estado da matéria, e tem massa zero!
- Massa zero, o amor?
- É!
- Você nunca viu minha namorada, não é?
- !
- Massa zero, o amor?
- É!
- Você nunca viu minha namorada, não é?
- !
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terça-feira, 17 de setembro de 2019
Paradoxo
Por que é que dizer a um louco que ele é louco só aumenta sua loucura, se a informação é a mais pura tradução da verdade?
Deve ser isso: se tem uma coisa que perturba a pacífica instalação da sanidade, é a verdade!
Deve ser isso: se tem uma coisa que perturba a pacífica instalação da sanidade, é a verdade!
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segunda-feira, 16 de setembro de 2019
Lá em SW-56732LLBTY
Os Tzworgs manobravam rapidamente pelo céu. Canhões a laser combatiam, inutilmente. Disparavam no vazio. Tão inútil que era mais um protesto que um contra-ataque. Tão inútil que era patético.
Mas os Mutiks poderiam deixar que eles tomassem a superfície. Era o subsolo o reino secreto. No subsolo vivia mais de noventa por cento dos mutikianos. Lá estavam as industrias de reprodução genética, as escolas, os centros de treinamento de guerra, as indústrias de construções, de máquinas, de naves. Foi graças ao subsolo que os mutikianos dominaram metade da galáxia.
E disso os Tzorgs, desgravadores rústicos que eram, não tinham idéia. Com eles era destruir, ocupar, se apoderar e só. Vitória na certa, sem muita conversa. Sem lenga-lenga. Assim acreditavam estar tomando mais um planeta, e prestes a possuir a maior pérola deste cantinho do universo.
Os Mutiks deixaram que toda a superfície fosse destruída. Esperaram que o último Tzorg pousasse sobre a maré de corpos e destroços, comemorando. E os engoliram para sempre.
Mas os Mutiks poderiam deixar que eles tomassem a superfície. Era o subsolo o reino secreto. No subsolo vivia mais de noventa por cento dos mutikianos. Lá estavam as industrias de reprodução genética, as escolas, os centros de treinamento de guerra, as indústrias de construções, de máquinas, de naves. Foi graças ao subsolo que os mutikianos dominaram metade da galáxia.
E disso os Tzorgs, desgravadores rústicos que eram, não tinham idéia. Com eles era destruir, ocupar, se apoderar e só. Vitória na certa, sem muita conversa. Sem lenga-lenga. Assim acreditavam estar tomando mais um planeta, e prestes a possuir a maior pérola deste cantinho do universo.
Os Mutiks deixaram que toda a superfície fosse destruída. Esperaram que o último Tzorg pousasse sobre a maré de corpos e destroços, comemorando. E os engoliram para sempre.
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domingo, 15 de setembro de 2019
Mãe
Ela cuida da cozinha, mas deixa que a cozinha a agrida. Ela suspira, ela bufa. Movimentos rápidos, gestos descoordenados de uma felicidade forçada que não engana ninguém. Panelas, pedaços de frango, o gás, fósforos. E ela bufa, olhar pesado, reclama duas frases soltas ao ar, entremeadas de um "não quero reclamar, não estou reclamando", que jamais conseguirão mentir o que querem. Ela se pôs embaixo da própria vida e deixou-se esmagar. E de repente ela canta, uma música alegre, mimetiza alguma espécie de passo dançante enquanto transita a bandeja da pia à mesa. Tiras de carne queimadas pela mesma desatenção e descapricho que ela tem consigo mesma. E ela cantarola algum "tchu-ru-ru" em ritmo de juventudo beatle-maníaca. É assim no hospício: a ausência completa de coerência ou continuidade entre humores e atos. Ela está louca. Não consegue ser quem quer. Não quer ser quem é.
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sábado, 14 de setembro de 2019
Escovando os dentes de manhã
Eu queria ser o Alberto Caeiro. Mas que coisa é essa de querer ser alguém? Eu sou quem sou, e apenas isso. E serei mais quanto menos pensar em ser. Querer ser qualquer coisa é uma espécie de doença do pensamento, que se distrai de perceber que, o mundo completo que é, já nos tem sendo o que se é.
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sexta-feira, 13 de setembro de 2019
Pergunta
O Clube Militar no Rio de Janeiro comemorou o golpe militar.
E daí?
Há os que comemoram a ascensão de Hitler.
Há os que comemoram o ataque ao World Trade Center.
Há os que comemoram uma grande final de futebol.
Há os que comemoram a saúde.
Há os que comemoram a indenização.
Há os que comemoram o pôr-do-sol.
Há os que comemoram sem pensar.
Há os que comemoram os sofrimentos.
Há os que comemoram os sorrisos.
Cada um no seu canto.
Não acredito em juízo final. E nem vou acreditar, ao menos enquanto não me disserem quando raios foi o dia do juízo inicial...
E daí?
Há os que comemoram a ascensão de Hitler.
Há os que comemoram o ataque ao World Trade Center.
Há os que comemoram uma grande final de futebol.
Há os que comemoram a saúde.
Há os que comemoram a indenização.
Há os que comemoram o pôr-do-sol.
Há os que comemoram sem pensar.
Há os que comemoram os sofrimentos.
Há os que comemoram os sorrisos.
Cada um no seu canto.
Não acredito em juízo final. E nem vou acreditar, ao menos enquanto não me disserem quando raios foi o dia do juízo inicial...
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quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Escada
Eu ia escrever de amor agora. Eu ia escrever de solidão. Ou de alegria, quem sabe? é tão bom escrever sobre alegria, e escrever com alegria. Altivo, animado, inteligente e ainda por cima-bem humorado: o certificado indubitável que grita com o silêncio nobre das letras: "sou uma boa pessoa".
Dane-se. Acho que só gosto de ficar batendo nas teclas. Do barulho que faz. Que mal há? Precisa ter um tema?
Temas há tantos, tantos tantos tantos!
Mas quando a gente escolhe um tema e escreve e escreve sobre ele, escrevendo bem ou escrevendo mal virão muitos a ponderar, avaliar, comparar.
Que é o jeito errado de viver boa parte das coisas da vida.
Comparem os cálculos estruturais da viga da ponte gigante, que desses aí, os errados são assassinos, que a natureza não perdoará.
Mas quanto aos lirismos da alma vomitados em letras quaisquer, não, não há comparação possível, pois sua realidade se define em si.
Na escada suja da Estação da Luz, empoeirada, mal acabada, uns mendigos no chão, cantando felizes uns funks quaisquer, jogados na calçada, cobertores rasgados que afugentariam o frio mais por dissuasão psicológica do que por qualquer isolamento físico. Riam, riam e se riam.
No divã de estofamento aveludado a loira pastificada, siliconada e botoxada (leia "botochada" mesmo, pra ficar mais debochado), ia lá falando das mazelas da vida.
A bolsa do doutorado não saía. Ônibus lotados todos os dias. Ninguém respeitando a privacidade espacial seu corpo feminino: homens se apertando contra sua pequena estatura com a desculpa inegável da coletividade sobrecarregada daquela indecência administrativa. Baixinha, miúda, ia indo. O filho em casa, pequeno. Os pais dela ajudando ainda. E o pai do menino sumiu. Não deu certo, paciência. E ria, e ria com a criança, e contava histórias. E passava o dia no laboratório, escrevendo, lendo, tubos de ensaio, microscópio, egocentrismo da orientadora, exigências idiotas da FAPESP, burocracias fossilizadas da universidade. E conversava rindo, que o Hubble não daria conta de medir a beleza dos seus sorrisos.
Tem todos os temas ao mesmo tempo, mesmo quando a gente não escreve nada demais, nada específico. Tem todos os temas dentro da gente. O leitor que só vê palavras, desculpem ser politicamente incorreto: é um fraco, um idiota, um limitado. É alguém a quem nada mais resta fazer a não ser comparar com outros, a não ser esconder-se atrás de uma pretensa cultura para negar a fraqueza de sua introspecção.
O bom leitor encontra-se com o autor através do tempo. Transcende, entende. Entende que tantas e tantas diferentes expressões nascem das mesmas perturbações da alma.
E você não se engana, não: já mais de dois temas se vão discutindo aqui, sem conexão aparente.
Que a confusão da alma também é um tema em si, não é?
Dane-se. Acho que só gosto de ficar batendo nas teclas. Do barulho que faz. Que mal há? Precisa ter um tema?
Temas há tantos, tantos tantos tantos!
Mas quando a gente escolhe um tema e escreve e escreve sobre ele, escrevendo bem ou escrevendo mal virão muitos a ponderar, avaliar, comparar.
Que é o jeito errado de viver boa parte das coisas da vida.
Comparem os cálculos estruturais da viga da ponte gigante, que desses aí, os errados são assassinos, que a natureza não perdoará.
Mas quanto aos lirismos da alma vomitados em letras quaisquer, não, não há comparação possível, pois sua realidade se define em si.
Na escada suja da Estação da Luz, empoeirada, mal acabada, uns mendigos no chão, cantando felizes uns funks quaisquer, jogados na calçada, cobertores rasgados que afugentariam o frio mais por dissuasão psicológica do que por qualquer isolamento físico. Riam, riam e se riam.
No divã de estofamento aveludado a loira pastificada, siliconada e botoxada (leia "botochada" mesmo, pra ficar mais debochado), ia lá falando das mazelas da vida.
A bolsa do doutorado não saía. Ônibus lotados todos os dias. Ninguém respeitando a privacidade espacial seu corpo feminino: homens se apertando contra sua pequena estatura com a desculpa inegável da coletividade sobrecarregada daquela indecência administrativa. Baixinha, miúda, ia indo. O filho em casa, pequeno. Os pais dela ajudando ainda. E o pai do menino sumiu. Não deu certo, paciência. E ria, e ria com a criança, e contava histórias. E passava o dia no laboratório, escrevendo, lendo, tubos de ensaio, microscópio, egocentrismo da orientadora, exigências idiotas da FAPESP, burocracias fossilizadas da universidade. E conversava rindo, que o Hubble não daria conta de medir a beleza dos seus sorrisos.
Tem todos os temas ao mesmo tempo, mesmo quando a gente não escreve nada demais, nada específico. Tem todos os temas dentro da gente. O leitor que só vê palavras, desculpem ser politicamente incorreto: é um fraco, um idiota, um limitado. É alguém a quem nada mais resta fazer a não ser comparar com outros, a não ser esconder-se atrás de uma pretensa cultura para negar a fraqueza de sua introspecção.
O bom leitor encontra-se com o autor através do tempo. Transcende, entende. Entende que tantas e tantas diferentes expressões nascem das mesmas perturbações da alma.
E você não se engana, não: já mais de dois temas se vão discutindo aqui, sem conexão aparente.
Que a confusão da alma também é um tema em si, não é?
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quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Janela
Talvez eu seja promovido.
Talvez eu arrume um emprego melhor.
Talvez eu me torne um aluno melhor.
Talvez eu mude de casa.
Talvez eu seja despejado.
Talvez eu seja cantor.
Talvez eu conheça o amor da minha vida.
Talvez eu ganhe na loteria.
Talvez eu vire presidente do mundo.
Talvez eu tenha super-poderes.
Talvez a Lua exploda
Talvez a gente é de mentira
Talvez Deus exista
Talvez eu seja famoso
Talvez eu seja pobre
Talvez eu morra
Talvez eu seja poeta
Talvez eu já tenha morrido
Talvez eu mergulhe
Talvez eu seja um imperador
Talvez eu seja um rei
Talvez seja doente
Talvez eu seja imortal
E nesta tal vez,
Que seja qual for,
Que falta você me faz!
Talvez eu arrume um emprego melhor.
Talvez eu me torne um aluno melhor.
Talvez eu mude de casa.
Talvez eu seja despejado.
Talvez eu seja cantor.
Talvez eu conheça o amor da minha vida.
Talvez eu ganhe na loteria.
Talvez eu vire presidente do mundo.
Talvez eu tenha super-poderes.
Talvez a Lua exploda
Talvez a gente é de mentira
Talvez Deus exista
Talvez eu seja famoso
Talvez eu seja pobre
Talvez eu morra
Talvez eu seja poeta
Talvez eu já tenha morrido
Talvez eu mergulhe
Talvez eu seja um imperador
Talvez eu seja um rei
Talvez seja doente
Talvez eu seja imortal
E nesta tal vez,
Que seja qual for,
Que falta você me faz!
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terça-feira, 10 de setembro de 2019
M
Você, com seus costumeiros sorrisos esbanjados e olhares admirados e admiráveis, contando feliz...
Contando que ele é um cara tão inteligente, viajado, conhece o mundo inteiro...
E eu, introspectivo, pensando: "é, eu só te amo..."
Você contando que ele é engraçado, um humor refinadíssimo, foi super divertido jantar com ele outro dia...
E eu, olhando pro alto meio de canto, pensando "é, eu só te amo".
Você contando que ele pagou a conta, que só sua parte passou fácil dos oitenta reais, mas nem sabe precisar quanto, ele não deixou que você visse...
E eu meditando sobre a leveza etérea da minha algibeira: "é, eu só te amo".
Você contando como era repulsiva às primeiras investidas dele. Ele namorava, que coisa horrível! Mas declarava todo amor a você, terminou o namoro. Insistiu, te contrariou, brigou. E você começou a considerar ceder, toda encantada.
Eu, mergulhado na estranheza desumana de tanto respeito que lhe tenho, considero: "é, eu só te amo".
Eu te amo, é só. Vá, viva e seja feliz. Vá!
Contando que ele é um cara tão inteligente, viajado, conhece o mundo inteiro...
E eu, introspectivo, pensando: "é, eu só te amo..."
Você contando que ele é engraçado, um humor refinadíssimo, foi super divertido jantar com ele outro dia...
E eu, olhando pro alto meio de canto, pensando "é, eu só te amo".
Você contando que ele pagou a conta, que só sua parte passou fácil dos oitenta reais, mas nem sabe precisar quanto, ele não deixou que você visse...
E eu meditando sobre a leveza etérea da minha algibeira: "é, eu só te amo".
Você contando como era repulsiva às primeiras investidas dele. Ele namorava, que coisa horrível! Mas declarava todo amor a você, terminou o namoro. Insistiu, te contrariou, brigou. E você começou a considerar ceder, toda encantada.
Eu, mergulhado na estranheza desumana de tanto respeito que lhe tenho, considero: "é, eu só te amo".
Eu te amo, é só. Vá, viva e seja feliz. Vá!
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segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Leitor
- Viu lá o que ela fez?
- Vi!
- E aí?
- Cara, sério... Sou incapaz de acompanhar. Incapaz.
- Caramba, é tudo isso?
- É sim!
- Qualidade mesmo?
- Qualidade? Você tem que ver como ela escreve sobre as coisas, não dá pra acompanhar, não tem como!
- Tá, mas o que quer dizer com isso? Que ela te fez desistir de escrever? Que vai tentar superá-la?
- Que estou tão feliz que ela exista!
- Vi!
- E aí?
- Cara, sério... Sou incapaz de acompanhar. Incapaz.
- Caramba, é tudo isso?
- É sim!
- Qualidade mesmo?
- Qualidade? Você tem que ver como ela escreve sobre as coisas, não dá pra acompanhar, não tem como!
- Tá, mas o que quer dizer com isso? Que ela te fez desistir de escrever? Que vai tentar superá-la?
- Que estou tão feliz que ela exista!
Quarto
Pessoas que somem. Que não têm tempo. Que não tomam iniciativa. Que não aparecem. Que não se manifestam.
Cansei.
Cansei.
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domingo, 8 de setembro de 2019
Juízos
Espero nunca escrever textos bons. Também espero nunca escrever textos ruins. Espero, mas não me perco em esperanças, que não prestam a nada.
O que é escrito é o que foi escrito, e é esse seu mérito. Não pela palavra, não pela sintaxe. Mas por ter sido escrita. Por ter sido sentida e pensada.
E que importa o que farão com ela depois? E que importa que eu a tenha escrito? Importar, nada importa, que é onde as coisas se igualam, e não podem ser mais belas ou mais rústicas que nada.
Quem aprecia os méritos relativos antes de apreciar as coisas deixa de apreciar as coisas. Por que as coisas não têm em si subjacentes nenhum mérito relativo. As coisas têm nelas as coisas que são.
O que é escrito é o que foi escrito, e é esse seu mérito. Não pela palavra, não pela sintaxe. Mas por ter sido escrita. Por ter sido sentida e pensada.
E que importa o que farão com ela depois? E que importa que eu a tenha escrito? Importar, nada importa, que é onde as coisas se igualam, e não podem ser mais belas ou mais rústicas que nada.
Quem aprecia os méritos relativos antes de apreciar as coisas deixa de apreciar as coisas. Por que as coisas não têm em si subjacentes nenhum mérito relativo. As coisas têm nelas as coisas que são.
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