sábado, 23 de novembro de 2019
Silvia
Tinha um certo friozinho no ombro então puxou mais a coberta. Descobriu os pés, inferno. A névoa quase negava a manhã e vidros da cabine respingavam umidade condensada. Já estava acordada, mas se negava a abrir o olho. Um misto de satisfação e arrependimento. Aquele mesmo arrependimento da primeira vez. Será que nunca ia se acostumar? Abriu os olhos, por fim. Estava só. Sozinha na boléia, no estacionamento, na estrada, nos dias, nos choros, nos frios, nos calores, nas saudades, nos sonhos e nas desilusões.
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sexta-feira, 22 de novembro de 2019
Bala perdida
O Rio de Janeiro não muda minha vida. A Garota de Ipanema, com sua caminhada pela praia na frente do poeta já tendo acontecido há tantos anos, fez até agora muito mais pela minha vida que as mortes no Rio que se passam agora. Que me importa que morram miseráveis ou pobres ou inocentes ou bandidos de qualquer espécie por lá? O mesmo acontece o tempo todo em dezenas de guerras que acontecem pelo mundo a todo instante, não é mesmo? Não me importo. Dane-se o Rio. Que se exploda o Rio. E fico contente por não assistir mais TV há tanto tempo. Assim, o Rio também não muda na minha vida naquilo que é o impacto mais significativo e chocante da violência no Rio para milhões de brasileiros: a qualidade da programação da TV.
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quinta-feira, 21 de novembro de 2019
Um
Ela dorme com o rosto pousado em meu abraço, sobre meu peito. Ela sonha com essa união e eu me pergunto o que diabos estou fazendo ali! Não, a vida a dois não é pra mim. Os fins de semana ficam previsíveis. As saudades não têm um cantinho de solidão para acontecer. Os devaneios não se justificam, pois a vida a dois é mais burocrática, você precisa de justificativas. Vou viajar neste fim de semana. Pra onde? Não sei! Como assim? Não sei, vou viajar, quero pegar algum ônibus na rodoviária e me distrair um pouco. Por quê? Como assim por quê? Não sei! Quero fazer isso. Não entendo os motivos. Deve ter alguma relação com neurônios e sódio, mas não esmiucei a tal ponto. Apenas conheço o resultado final, minha vontade de fazer isso. E se no meio do caminho mudar de idéia? Vi uma lanchonete muito muito aconchegante e resolvi entrar lá com o meu livrinho, e passar a tarde toda lendo. Ué, mas você não tinha dito que iria viajar? Tinha, mas mudei de idéia ué, vi esse cantinho e gostei, entrei aqui e fiquei. E então eu sei que eu não fui feito para a vida a dois. Não me justifico nem a mim mesmo.
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quarta-feira, 20 de novembro de 2019
Sé
A vida sobre rodas se foi. Se foi a sessenta por hora, e não precisava mais que isso. Uma discussão. Um coração partido. Um ego ferido. Uma alma insegura. Uma vida sofrida. Um futuro derretido. Os trilhos. O trem vindo. Se jogou. E por meia hora o sistema todo parou! E as pessoas se somaram aos montes pela estação e também pelas estações vizinhas. E todos preocupados com o horário de chegar em casa. De ligar a televisão. De tomar banho antes do sono. De desligar o cansaço horrível da sexta-feira. Os trilhos, o trem vindo, se jogou.
Naquele dia uma vida se foi mas confesso que eu, vivo, encontrei no caos boas atrações. Nessas situações as pessoas dão-se mais às conversas, e assim foi que fiz novos amigos no meio de todo o susto que era a estação Sé. Um contador, um ex-repórter. Conversamos sobre o acidente, sobre metrô, mas também sobre nossos empregos, o mercado para cada uma de nossas profissões, a importância de cursos extras, os cuidados que temos que ter para não sermos explorados no mercado de trabalho, e assim vai. A vida, toda incontida, continua.
Naquele dia uma vida se foi mas confesso que eu, vivo, encontrei no caos boas atrações. Nessas situações as pessoas dão-se mais às conversas, e assim foi que fiz novos amigos no meio de todo o susto que era a estação Sé. Um contador, um ex-repórter. Conversamos sobre o acidente, sobre metrô, mas também sobre nossos empregos, o mercado para cada uma de nossas profissões, a importância de cursos extras, os cuidados que temos que ter para não sermos explorados no mercado de trabalho, e assim vai. A vida, toda incontida, continua.
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Impossível
Quero você inteira
E minha metade de volta
Não sei quem é você
Mas quero você
Inteira!
É possível sentir saudades de sabores desconhecidos?
Ninguém sente sede de refrigerante,
se nunca tomou refrigerante!
Sente?
Quero você inteira
E minha metade de volta!
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Pessoas imaginárias
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Progressão
Dói cada vez mais, não era pra ser assim. O tempo devia erodir, apagar. Fiz errado, algo errado. Ela escreveu coisas tão boas. É trivial que eu seja cada vez menos nesta vida tão distante. Que mais eu queria daqui, isolado, fugido, desistido de tudo? E no entanto dói. E dói muito, muito. E eu queria correr pra algum lugar. Chorar. Soluçar igual criança. Brigar com alguma coisa e alguém. Perdi o sono de um dia cansado. De um dia cansado! Acordei hora antes. E não acordei. Anestesiado o dia inteiro. O que mais importa?
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domingo, 17 de novembro de 2019
Alegre
Que calma serena, dias desses. Hoje. Oscilo. Me morro na exaustão da minha ansiedade. Me enterro na clausura da minha calma. Nunca o mesmo, quase como se nunca eu mesmo.
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sábado, 16 de novembro de 2019
Sentimental mood
Que milagre é esse que faz um bom jazz restaurar a alma como se a criasse novamente, destruindo da alma velha todos os pesos e infortúitos, todos os invisíveis terrores insones? O quarto é o mesmo, o cheiro é o mesmo, a iluminação é a mesma, a conta bancária é ainda menor, a solidão vai do mesmo jeito. Mas o jazz toca, o jazz preenche o ambiente, e a alma muda. Muda completamente. Muda para outra, de um jeito que nem se eu fosse rico, nem se todos os amigos aparecessem, nem se os problemas todos sumissem...
Fica o tempo lá fora com seus problemas, que eu fico aqui com o meu jazz, e está tudo certo.
Fica o tempo lá fora com seus problemas, que eu fico aqui com o meu jazz, e está tudo certo.
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sexta-feira, 15 de novembro de 2019
Sky
Morto, caído, destruído. Não sei como ainda respirava, essa bola de pêlos sobrando. Essa peruca velha andante. Essa arte abstrada mal feita com forma de cachorro. Tentou ficar em pé mas não saia de suas células força suficiente para manter as patas verticais, paralelas. Escorregaram. Caiu de volta aonde a gravidade lhe queria. Gravidade da terra, dos corpos, da situação. Teimosia das teimosias, parece que não lhe havia forças para terminar de morrer, e foi tomando do tempo um espaço para ir aos poucos melhorando, e melhorando. E hoje correu atrás de mim por todo o quintal. Pulando até acertar minhas costas com as patas. Mordendo minha mão antes que eu pudesse puxar suas orelhas. Está rindo de todas essas coisas idiotas que pensei nos dias em que o vi doente. É um Husky e tanto!
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Vidas Secas
quinta-feira, 14 de novembro de 2019
Futuro
- Não fique revoltado! Sua irmã gosta dessas coisas, ué! O que é que há de tão errado com a astrologia? Com essas crendices? No fim das contas o grande problema é o dinheiro que ela perde com essas coisas, só isso. E é o dinheiro dela, entende?
- Não é só isso. Não, não pode ser! Vai além disso. Ela compra esses CD's com terapias quânticas. É enganação. Há alguém roubando ela. Talvez um louco que acredite colocar algum poder estranho no CD porém muito provavelmente alguém que sabe, ou até recentemente já soube, que está enganando as pessoas. Ela está sendo enganada. E não é um simples efeito placebo. Num nível local isso é simplesmente uma pessoa perdendo dinheiro com bobagem. Num nível maior isso é a falta de apoio a pesquisas com células tronco porque as pessoas não só não entendem a ciência mas acham também que o cientista típico é uma pessoa querendo fazer algo de ruim e disposto a esconder a "verdade" do público.
- Não é só isso. Não, não pode ser! Vai além disso. Ela compra esses CD's com terapias quânticas. É enganação. Há alguém roubando ela. Talvez um louco que acredite colocar algum poder estranho no CD porém muito provavelmente alguém que sabe, ou até recentemente já soube, que está enganando as pessoas. Ela está sendo enganada. E não é um simples efeito placebo. Num nível local isso é simplesmente uma pessoa perdendo dinheiro com bobagem. Num nível maior isso é a falta de apoio a pesquisas com células tronco porque as pessoas não só não entendem a ciência mas acham também que o cientista típico é uma pessoa querendo fazer algo de ruim e disposto a esconder a "verdade" do público.
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quarta-feira, 13 de novembro de 2019
Quieto
Tem desses dias nada literários, em que sentimos as mesmas coisas profundas que se sente por existir e viver a vida e tal. Mas as palavras fugiram. Nem sempre a vida topa se descrever.
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terça-feira, 12 de novembro de 2019
Tudo
E foi no meio de um churrasco de improviso, com música de improviso, que me ensinaram que tudo é arte. É arte um belo quadro. É arte uma bela música. Mas é arte uma parede bem feita. É arte um software bem bolado por um programador nerd de óculos sem graça e camisa pouco criativa. É arte ali onde a criatividade toca. É arte ali onde um indivíduo mergulha na atividade levando seu trabalho um passo além, transformando pensamentos em coisas quaisquer capazes de ficar, ou de ao menos passar tocando outras vidas. Como a arte da música que é tocada na hora, sem passar pela cristalização da partitura. Arte que saiu ao mundo para quem estava ali a apreciar. Tudo é arte, a recusa a seguir caminhos óbvios. O impulso incontrolável de inserir alguma pessoalidade no mundo.
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segunda-feira, 11 de novembro de 2019
Volta
Sabe, eu queria me abrir com você. Não porque eu ache que lhe deva algo em honestidade, pois embora eu tenha o impulso de buscar um dia a mesma nobreza que em você é tão natural, a mesma postura firme e transparente, não sou idiota a ponto de contrariar meus impulsos hesitantes por conta de um raciocínio mecânico. Eu queria me abrir com você, e é por conta dessa vontade, simplesmente uma vontade de me abrir. De contar coisas pra você como quando andávamos conversando pelas calçadas do campus ainda com folga no horário. E eu simplesmente falava. Não ponderava falar isso ou deixar de falar aquilo. Falava porque as palavras, de repente, saiam. E hoje não faço isso. E logo vou te ver de novo, e não farei isso. E vou desejar tanto que você volte. Só não entendo mais que volta vou querer. Se quero que você volte comigo ao passado em que não estávamos atrasados nem para a aula, nem para o resto todo da vida, e podíamos ter o prazer infinito de uma conversa absolutamente insignificante, prazer que só uma conversa assim desinteressada pode trazer. Ou se quero que você volte para o velho mundo mesmo, para bem longe, com promessa de não voltar nunca mais, que volte para outro mundo, outra galáxia, outra era, outro universo, tão longe que não fará mais a menor diferença falar ou não falar isso e aquilo. Tão longe que não faça mais sentido eu me proteger tanto assim de meus impulsos e aí então não restará mais nada a não ser a liberdade total de me abrir com você, porque aí, assim tão longe, nada mais que eu possa dizer conseguirá ser sério o suficiente para transformar nossa conversa em algo além de uma simples conversa. Sou inocente por querer essa inocência de volta?
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domingo, 10 de novembro de 2019
Sono
É que eu brinco com coisas que não devia
Queria que alguém me levasse daqui
Queria aquelas coisas todas que não podia
Eu fico olhando, olhando
Eu me deixo levar
Eu me deixo sumir
Eu deixo acontecer
Coisas que me fazem um outro eu
Deixo acontecer coisas sem eu estar
Deixo viver
Quem vive em paz quando ama?
Eu machuco pessoas
Arrisco alegria
Brinco com coisas
Coisas que não devia
Queria que alguém me levasse daqui
Queria aquelas coisas todas que não podia
Eu fico olhando, olhando
Eu me deixo levar
Eu me deixo sumir
Eu deixo acontecer
Coisas que me fazem um outro eu
Deixo acontecer coisas sem eu estar
Deixo viver
Quem vive em paz quando ama?
Eu machuco pessoas
Arrisco alegria
Brinco com coisas
Coisas que não devia
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sábado, 9 de novembro de 2019
Wild
Tô nem aí pra solução dos problemas do mundo. De que adianta? Talvez eu não seja competente. Mas, talvez, mais que isso, resolver os problemas do mundo não seja algo pra quem quer resolver os problemas do mundo. Talvez, considerando toda a sociologia, faz algo de útil aquela pessoa cuja vida a leva a fazer algo de útil. É, sem muito livre-arbítrio. Tudo bem, o Obama trilhou o caminho dele com muita garra, bla bla blá, mas ele tinha fibra pra isso e isso vinha de algum lugar, né? Eu não tenho. Eu sou feliz assim, quieto. Eu fico aqui, escrevo. Ando pelas ruas, converso com as pessoas, vejo confusão e corro. Corro pra um lugar onde eu possa ficar tranquilo, ler meus livros, conversar com pessoas legais, ouvir minhas músicas. Faço muito pela humanidade cuidando para que eu seja feliz. E para que aqueles ao meu redor sejam felizes. Que parece pouco, que parece um desleixo, mas que, se feito por todos, resolveria tudo, não é? E quanto a escrever, não quero um épico. Não quero a obra final. Gosto do som que os dedos fazem ao bater nas teclas, então continuo batendo nas teclas. Nada mais. Precisa de mais conteúdo? Gosto do desenho das letras aparecendo na tela. Então escrevo e as letras vão aparecendo na tela. E quando leio, gosto dos pensamentos ecoando dentro da minha cabeça. Então leio, sobre o que for. Sexo, política, ciência, sociologia, romances, mistérios, dramas, investigações policiais. Não importa, importa? Importa é sentir o peso de um livro nas mãos. Importa é ter a sensação de que quem escreveu estava fazendo algo de que gostava, até que se fique quase que com inveja, morrendo de vontade de se sentir assim também, entende? Percebe que estou feliz? E que, por mim, que se dane o resto do mundo?
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sexta-feira, 8 de novembro de 2019
Fotógrafa
Que riqueza que há na alma de quem vê a riqueza das almas?
Que sorriso sorri quem flagra o melhor dos sorrisos todos?
Que momentos tem quem congela dos outros tantos momentos?
Que segredos tem quem tanto revela?
Que tanto esconde quem tanto mostra?
Que sonhos sonha quem sonhos garimpa?
Que vida vive quem vidas descobre?
Quem é a fotógrafa?
Que sorriso sorri quem flagra o melhor dos sorrisos todos?
Que momentos tem quem congela dos outros tantos momentos?
Que segredos tem quem tanto revela?
Que tanto esconde quem tanto mostra?
Que sonhos sonha quem sonhos garimpa?
Que vida vive quem vidas descobre?
Quem é a fotógrafa?
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quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Pedra filosofal
Que inteligência? Inteligência coisa nenhuma! A civilização, a sociedade, e os reality shows só serão compreendidos quando entenderem a ignorância humana. A ignorância humana, com todas suas reentrâncias complexas e suas formas mutáveis, é o verdadeiro átomo da civilidade, o bloco construtor da história. Isso já estava muito claro no que se refere aos reality shows. Quanto às civilizações e à sociedade em geral, ainda há certa resistência no meio acadêmico.
A pluraridade de crendices se alastra pelo tecido social como fogo em palha seca, sempre se reproduzindo porém nunca se conservando. É um sistema muito bem elaborado, e nada poderia exemplificar de forma mais intensa a verdade por trás da afirmação de que Deus escreve certo por linhas tortas. Funciona assim: os espécimes sociais mais estúpidos são aqueles que, por incapacidade de reflexão crítica e outros fatores menos polêmicos, têm a maior tendência a absorver novas informações de seu pacote cultural tal como estas lhes são apresentadas e a rejeitar informações de pacotes culturais destoantes não importando que qualidade tenham. Contudo, a estupidez, em suas manifestações mais primorosas, carrega em seu bojo distorções de entendimento que produzem como que mutações espontâneas nos memes que afortunadamente chegarem a esses indivíduos. Assim, de um jeito ou de outro, Deus arquitetou um mundo em que a realidade social conserva uma dinâmica própria incontrolável, independente do mérito dos pacotes culturais, e sempre sujeita a mutações, mudanças e, portanto, renovação. Abençoado seja!
Busquei no Google por "sociology of irrationality" e, assim com as aspas, nenhum resultado foi encontrado! Prova de que nosso meio acadêmico ainda está muito imaturo na tarefa de entendimento do mundo? Ou, num contexto maior, prova de que o meio acadêmico simplesmente faz parte da sociedade como todo o resto, e que portanto sua racionalidade é na verdade irracional e de modo algum compromissada com uma aproximação à verdade?
-.-
Update: 10 anos depois, agora em 2019, busquei novamente no google por "sociology of irrationality", com aspas. Encontrei um resultado. Estamos progredindo!
A pluraridade de crendices se alastra pelo tecido social como fogo em palha seca, sempre se reproduzindo porém nunca se conservando. É um sistema muito bem elaborado, e nada poderia exemplificar de forma mais intensa a verdade por trás da afirmação de que Deus escreve certo por linhas tortas. Funciona assim: os espécimes sociais mais estúpidos são aqueles que, por incapacidade de reflexão crítica e outros fatores menos polêmicos, têm a maior tendência a absorver novas informações de seu pacote cultural tal como estas lhes são apresentadas e a rejeitar informações de pacotes culturais destoantes não importando que qualidade tenham. Contudo, a estupidez, em suas manifestações mais primorosas, carrega em seu bojo distorções de entendimento que produzem como que mutações espontâneas nos memes que afortunadamente chegarem a esses indivíduos. Assim, de um jeito ou de outro, Deus arquitetou um mundo em que a realidade social conserva uma dinâmica própria incontrolável, independente do mérito dos pacotes culturais, e sempre sujeita a mutações, mudanças e, portanto, renovação. Abençoado seja!
Busquei no Google por "sociology of irrationality" e, assim com as aspas, nenhum resultado foi encontrado! Prova de que nosso meio acadêmico ainda está muito imaturo na tarefa de entendimento do mundo? Ou, num contexto maior, prova de que o meio acadêmico simplesmente faz parte da sociedade como todo o resto, e que portanto sua racionalidade é na verdade irracional e de modo algum compromissada com uma aproximação à verdade?
-.-
Update: 10 anos depois, agora em 2019, busquei novamente no google por "sociology of irrationality", com aspas. Encontrei um resultado. Estamos progredindo!
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Sociologia
sábado, 2 de novembro de 2019
Sábado
Loucos, todos loucos. Louco eu sendo mais eu ao encarnar um não-eu.
Famílias se diluindo, amores se escondendo, músicas ressoando por teatros e casas cheias. Lei anti-fumo numa cidade super-poluída. Temos direito a respirar a fumaça dos carros sem que nada interfira nesse aroma tão característico da industrialização dos nossos humores.
Eu gosto de tocar. Música. Som preenchendo o ambiente. Tempo, intensidade, ritmo... E a vida vai seguindo. E sou louco, louco de mim de crer que entorto o tempo, de imaginar que o mundo se curva pra longe enquanto eu sento na beira, vejo tudo acontecer, e me distraio em paz... estranha paz.
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quinta-feira, 31 de outubro de 2019
Exausto
Amor me cansa
Estupida mania
De ter esperança
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quarta-feira, 30 de outubro de 2019
Invisíveis II
Na pastelaria aqui perto da estação de trem a coisa ainda se passa como há décadas. Os japoneses atrás do balcão, os pedidos marcados em papeizinhos, o ritmo do serviço impressionando qualquer gerente moderno de fast-food. Pedi meus pastéis. Meu caldo de cana com limão. E logo após ser servido, vi uma apresentação notável: os guardanapos de papel haviam acabado. Eles nunca ficam apenas empilhados, ficam dispostos em uma espiral de papel assombrosamente perfeita. Vi os papéis serem repostos. No meio de toda a correria, lá foi seu Yoshiro pegando a pilha de papéis com a mão, e rodando os dedos ao redor como que num passe de mágica, e eis que em segundos a obra de arte havia nascido. Ninguém mais na cidade seria capaz dessa perfeição, muito menos em tão pouco tempo. Um espetáculo silencioso, gratuito, quase secreto...
Invisíveis
O navio vai se aproximando, lento mas decidido. Milhares de toneladas movendo-se sobre o atlântico, nada pode detê-lo. A pequena lancha é eclipsada em sua pequenez, mas nem por isso menos decidida. Manobra ao redor do navio até que os dois estão lado a lado. A velocidade é a mesma. Século vinte e um, radares modernos, comunicação por satélite... E o que está para acontecer aqui bem poderia ser uma cena de milênios atrás. Por sobre o grande costado, marinheiros descem uma escada de cordas, bem ao lado da lanchinha. Geraldo, o chamado "Prático", está nessa profissão há anos. Prepara-se, na beira da lancha, para saltar para a escada. Um erro aqui e ele pode cair ao lado do grande navio. Se der a sorte de não ser esmagado, terá ainda o azar de estar em uma região muito turbulenta, podendo até ser sugado para baixo do navio, para as hélices. Ele salta. Um dos pés perde-se no vazio. Agarra os degraus com as mãos. O outro pé acha uma beirada de apoio. Cuidadoso, vai subindo. Daqui até o porto, o navio manobrará sob suas ordens, com o capitão ao lado, observando...
terça-feira, 29 de outubro de 2019
Lápis
Tão desconhecida
Contudo, tão familiar
Tão distante
Contudo, tão próxima
Tão diferente
Contudo, tão próxima.
A gente brinca,
Brinca por que é riso
Brinca porque brincar é bom
Brinca porque o futuro é incerto
Brinca porque é sincero demais
E, brincando, é sério.
É sério é verdade.
É sério porque queremos.
Segredos de nossas vontades...
É sério porque é a vida.
Nossas vidas...
Contudo, tão familiar
Tão distante
Contudo, tão próxima
Tão diferente
Contudo, tão próxima.
A gente brinca,
Brinca por que é riso
Brinca porque brincar é bom
Brinca porque o futuro é incerto
Brinca porque é sincero demais
E, brincando, é sério.
É sério é verdade.
É sério porque queremos.
Segredos de nossas vontades...
É sério porque é a vida.
Nossas vidas...
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Ritmo
Há mundos inteiros entre nossos mundos
E através de tantos impossíveis
E no meio de tantos intransponívies
Seu sorriso me alcança,
Sua vida me abraça,
E minha alma, com a sua, dança
Dança como toda dança um ritmo perfeito enquanto houver música
Seqüência harmoniosa de passos conjuntos
Tem sempre um ar de que foi ensaiada,
A coreografia que sai assim perfeita
E assim será até que acabe a música:
Os mundos todos que nos separam,
De lado todos, todos mudos:
Mundos atônitos, a nos admirar!
E através de tantos impossíveis
E no meio de tantos intransponívies
Seu sorriso me alcança,
Sua vida me abraça,
E minha alma, com a sua, dança
Dança como toda dança um ritmo perfeito enquanto houver música
Seqüência harmoniosa de passos conjuntos
Tem sempre um ar de que foi ensaiada,
A coreografia que sai assim perfeita
E assim será até que acabe a música:
Os mundos todos que nos separam,
De lado todos, todos mudos:
Mundos atônitos, a nos admirar!
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Saudade putrefada
Escrevi aquele trechinho pensando nela, claro que foi. Via o rosto dela diante de mim e as palavras sairam.
E tantas outras se apaixonaram ao ler. E ela nunca nem ligou.
Escrevi cartas com dezenas de páginas. Cada.
E ela escreve ao amado da vez: "para estar junto não é preciso estar perto, basta estar do lado de dentro".
E ela nunca viu que não sai do meu lado de dentro? Que minhas atenções são dela incondicionalmente?
De uns tempos pra cá essa cegueira, ou instintiva indiferença, me machuca. Me machuca a ponto de tornar difícil continuar amando. Me machuca ao ponto de doer mais e mais continuar amando.
E tantas outras se apaixonaram ao ler. E ela nunca nem ligou.
Escrevi cartas com dezenas de páginas. Cada.
E ela escreve ao amado da vez: "para estar junto não é preciso estar perto, basta estar do lado de dentro".
E ela nunca viu que não sai do meu lado de dentro? Que minhas atenções são dela incondicionalmente?
De uns tempos pra cá essa cegueira, ou instintiva indiferença, me machuca. Me machuca a ponto de tornar difícil continuar amando. Me machuca ao ponto de doer mais e mais continuar amando.
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sábado, 26 de outubro de 2019
Caixas
Disse o psicólogo James Hillman, autor de "The Blue Code" e "The Force of Character", dentre outros:
"I don't think anything changes until ideas change."
Essa é uma questão que se desdobra em inúmeros níveis.
Comecemos superficialmente. As coisas mudam por quê? O que causam as mudanças? Forças da natureza, iniciativa humana, e por aí adiante, segue-se a conversa.
Depois, reconhecemos que se a tal frase atém-se às coisas que mudam devido às mudanças de idéias, no mínimo devemos admitir que podemos apenas considerar aqui as coisas que de alguma forma ligam-se à atividade humana, pois longe dos humanos não haverá nenhuma idéia a persistir ou a mudar. Quase invertendo o raciocínio, mas ainda sem o fazer, concluímos por uma definição do próprio conceito de "mudança": é o fluxo de eventos da natureza que tem seu curso alterado por alguma interferência humana. Fica ainda aberta a questão sobre essas mudanças dependerem ou não da mudança de vontade nos humanos. Pode uma mentalidade não-alterada de repente protagonizar alguma mudança no mundo? Somos sempre conscientes de nossas escolhas, e de suas conseqüências? Não precisamos ser infalíveis em nossas predições para inserir mudança no mundo: ainda que os fatos corram numa direção totalmente adversa da esperada, infligimos ao mundo o estopim da mudança.
Finalmente, saltando para um nível metafísico mais profundo e agora sim revertendo o aparente objetivo inicial da frase do senhor Hillman: não seriam todas as mudanças nada mais que mudanças de idéias? Quer dizer, não importa o que aconteça com o mundo, EFETIVAMENTE, para todos os seres humanos, nada mudou enquanto não houver uma mudança delineável em suas percepções, em suas idéias. Não mudamos o mundo por conta da mudança no mundo em si, mas sim para legitimar a mudança em nossas idéias que tanto desejamos. Somos nossa mente, e toda nossa existência gira em torno de cuidar da sua manutenção e de manobrar o mundo para que ela tenha as percepções e idéias que deseja.
"I don't think anything changes until ideas change."
Essa é uma questão que se desdobra em inúmeros níveis.
Comecemos superficialmente. As coisas mudam por quê? O que causam as mudanças? Forças da natureza, iniciativa humana, e por aí adiante, segue-se a conversa.
Depois, reconhecemos que se a tal frase atém-se às coisas que mudam devido às mudanças de idéias, no mínimo devemos admitir que podemos apenas considerar aqui as coisas que de alguma forma ligam-se à atividade humana, pois longe dos humanos não haverá nenhuma idéia a persistir ou a mudar. Quase invertendo o raciocínio, mas ainda sem o fazer, concluímos por uma definição do próprio conceito de "mudança": é o fluxo de eventos da natureza que tem seu curso alterado por alguma interferência humana. Fica ainda aberta a questão sobre essas mudanças dependerem ou não da mudança de vontade nos humanos. Pode uma mentalidade não-alterada de repente protagonizar alguma mudança no mundo? Somos sempre conscientes de nossas escolhas, e de suas conseqüências? Não precisamos ser infalíveis em nossas predições para inserir mudança no mundo: ainda que os fatos corram numa direção totalmente adversa da esperada, infligimos ao mundo o estopim da mudança.
Finalmente, saltando para um nível metafísico mais profundo e agora sim revertendo o aparente objetivo inicial da frase do senhor Hillman: não seriam todas as mudanças nada mais que mudanças de idéias? Quer dizer, não importa o que aconteça com o mundo, EFETIVAMENTE, para todos os seres humanos, nada mudou enquanto não houver uma mudança delineável em suas percepções, em suas idéias. Não mudamos o mundo por conta da mudança no mundo em si, mas sim para legitimar a mudança em nossas idéias que tanto desejamos. Somos nossa mente, e toda nossa existência gira em torno de cuidar da sua manutenção e de manobrar o mundo para que ela tenha as percepções e idéias que deseja.
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sexta-feira, 25 de outubro de 2019
Who else
Could it be true that Edgar Allan Poe killed the poor Mary Rogers? The twnety-one years old girl was found with her hands tighted on her back when the body was found on the Hudson river. It was then the year 1841.
No matter if this is true or not, we are left with this consideration: what's really fiction among all the fictious stories we are left with? When it comes to aliens, vampires, witchcraft and so, it's easy to use the very laws of nature as a judge of the author's creativity. But what about strange stories that, no matter who improbable, are still plausible?
Sitting here, looking toward the horizon far away in this nice and soft noon, I feel that in fact I like these doubts. I like living with some possibilities in my mind instead of a bunch of strictly defined facts. It reminds me that I, myself, am not condemned to let all my imaginations forever locked inside. Some of them can come out, the world allowing or not, knowing or not, caring about it or not.
Nature is a very gentile hostess that allows us more than we imagine at first...
No matter if this is true or not, we are left with this consideration: what's really fiction among all the fictious stories we are left with? When it comes to aliens, vampires, witchcraft and so, it's easy to use the very laws of nature as a judge of the author's creativity. But what about strange stories that, no matter who improbable, are still plausible?
Sitting here, looking toward the horizon far away in this nice and soft noon, I feel that in fact I like these doubts. I like living with some possibilities in my mind instead of a bunch of strictly defined facts. It reminds me that I, myself, am not condemned to let all my imaginations forever locked inside. Some of them can come out, the world allowing or not, knowing or not, caring about it or not.
Nature is a very gentile hostess that allows us more than we imagine at first...
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quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Fill in the blanks
Acordo mergulhado num tempo que me engole
Me digere em pensamentos de longe,
Em vontades de outras coisas
Demora-se a escolher a própria vida, e a vida escolhe
Carreira brilhante, a tua
Futuro próspero vai ter!
Todos dizem, todos olham com uma certa inveja
Eu sem entender. Sem sentir o mesmo
Por que não vejo em mim o mesmo eu que vêem os outros?
Me digere em pensamentos de longe,
Em vontades de outras coisas
Demora-se a escolher a própria vida, e a vida escolhe
Carreira brilhante, a tua
Futuro próspero vai ter!
Todos dizem, todos olham com uma certa inveja
Eu sem entender. Sem sentir o mesmo
Por que não vejo em mim o mesmo eu que vêem os outros?
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quarta-feira, 23 de outubro de 2019
Nove
Vou defender a nota nove. É, nove. Nove é a nota máxima, dez não. Claro, não estou me referindo aos alunos de engenharia, matemática, física ou afins. A menos que o curso seja realmente bom e as provas tenham questões inteligentes. Deve ficar claro que estes comentários não se aplicam a provas teste.
Por que o nove? Ora, pensem num curso como o de sociologia, ou direito. O que significa um dez? Significa que você disse exatamente o que o professor queria ouvir. E que, se foi original em alguma medida na sua resposta, no máximo o foi por questão de estilo e elegância, não no arrojo das idéias. Uma idéia genuinamente nova irá certamente chocar o professor. Ele pode até ficar encantado com a originalidade, mas como cuidar desse desvio da normalidade no contexto de uma avaliação? Nessas horas, na grande maioria dos casos, ou o professor não conseguirá rapidamente captar a idéia inovadora e recorrerá à praticidade de subjulgá-la, ou entenderá sua grandiosidade mas deixará que as nuvens do ego eclipsem um devido reconhecimento do mérito. Por isso que, para uma mente realmente livre e original, o dez é uma nota de mérito inferior ao nove...
E como deve ocorrer a todo suspeito de genialidade, inicialmente paira a ambiguidade: é um nove devido à grandiosidade ou à mediocridade? Duvido que o gênio genuíno perderá tempo com esses detalhes...
Por que o nove? Ora, pensem num curso como o de sociologia, ou direito. O que significa um dez? Significa que você disse exatamente o que o professor queria ouvir. E que, se foi original em alguma medida na sua resposta, no máximo o foi por questão de estilo e elegância, não no arrojo das idéias. Uma idéia genuinamente nova irá certamente chocar o professor. Ele pode até ficar encantado com a originalidade, mas como cuidar desse desvio da normalidade no contexto de uma avaliação? Nessas horas, na grande maioria dos casos, ou o professor não conseguirá rapidamente captar a idéia inovadora e recorrerá à praticidade de subjulgá-la, ou entenderá sua grandiosidade mas deixará que as nuvens do ego eclipsem um devido reconhecimento do mérito. Por isso que, para uma mente realmente livre e original, o dez é uma nota de mérito inferior ao nove...
E como deve ocorrer a todo suspeito de genialidade, inicialmente paira a ambiguidade: é um nove devido à grandiosidade ou à mediocridade? Duvido que o gênio genuíno perderá tempo com esses detalhes...
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terça-feira, 22 de outubro de 2019
Sociológico
E dá lá pra arrumar uma namorada se você não tem carro? Como vai buscá-la? Como vai chegar em pouco tempo até a casa dela?
Até nos desenhos da Disney... O que seria do Aladdin sem o tapete mágico? Duvido que a Jasmin iria ficar separando os camelos dela para ir buscá-lo. Ele não teria a menor chance...
Até nos desenhos da Disney... O que seria do Aladdin sem o tapete mágico? Duvido que a Jasmin iria ficar separando os camelos dela para ir buscá-lo. Ele não teria a menor chance...
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segunda-feira, 21 de outubro de 2019
Primeira aula
Aula de escrita, de literatura. Por que não? A idéia pareceu tão interessante, organizar um pouco as idéias...
O que levar na primeira aula? Nada? Com tantos textos escritos na gaveta? Vou escolher alguma coisa, sei que vou. E se não gostarem? E se não for bem assim que a aula funciona? Não é melhor deixar para depois, ir hoje só como um ouvinte curioso para depois pegar o esquema melhor?
Não, que fiquem os receios pra lá. Vou levar alguma coisa. Vou mostrar um pouco de mim e, se tiver que mudar, que saibam todos de onde estou partindo. Uma carta de amor? Um pequeno conto que escrevi sobre os bêbados que vi na rua? Meus secretos registros de que não tenho pudores com assuntos sexuais? O que vou lavar?
Poesia escrevo poucas, mas há um punhadinho delas também. E se rirem do meu pobre vocabulário?
Páginas dos meus diários? Registros super pessoais e nada imaginativos, registros do que a vida me deu, e não do que dei a ela... Valem também?
Há algumas centenas de fragmentos na gaveta. Cada um vindo de um passado diferente. De isolamento. De festas. De lágrimas e amores. Tantas diferenças. Tantas coisas que escolhi e lapidei e outras tantas que de modo algum controlei.
Fico olhando essas lascas de passados inacabados e pensando nos novos colegas que logo vão me ouvir. Quem quero ser hoje?
O que levar na primeira aula? Nada? Com tantos textos escritos na gaveta? Vou escolher alguma coisa, sei que vou. E se não gostarem? E se não for bem assim que a aula funciona? Não é melhor deixar para depois, ir hoje só como um ouvinte curioso para depois pegar o esquema melhor?
Não, que fiquem os receios pra lá. Vou levar alguma coisa. Vou mostrar um pouco de mim e, se tiver que mudar, que saibam todos de onde estou partindo. Uma carta de amor? Um pequeno conto que escrevi sobre os bêbados que vi na rua? Meus secretos registros de que não tenho pudores com assuntos sexuais? O que vou lavar?
Poesia escrevo poucas, mas há um punhadinho delas também. E se rirem do meu pobre vocabulário?
Páginas dos meus diários? Registros super pessoais e nada imaginativos, registros do que a vida me deu, e não do que dei a ela... Valem também?
Há algumas centenas de fragmentos na gaveta. Cada um vindo de um passado diferente. De isolamento. De festas. De lágrimas e amores. Tantas diferenças. Tantas coisas que escolhi e lapidei e outras tantas que de modo algum controlei.
Fico olhando essas lascas de passados inacabados e pensando nos novos colegas que logo vão me ouvir. Quem quero ser hoje?
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