terça-feira, 1 de julho de 2008

Different Station

I just.. I just... I just... I... just... don't... get it.... Just don't get it... Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it.

Sometimes our values become greater than ourselves. Then we loose control of our feelings. They go in the wrong direction and it seems as if they are running fast and heavy on curved lines leading you to very unnexpected destinations.

Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it.

I'm gonna wait until tomorrow, for it will be a different day. I'm crossing strange borders. I'm gonna wait until tomorrow. I remember the blueness of the sky I left behind. I remember home. I'm gonna wait until tomorrow.

Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it. Just don't get it.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Indelével

Quando ele ia escrever uma carta de amor tirava todas as coisas de cima da escrivaninha. A bagunça e a poeira. Arranjava uma folha sulfite dentre as que estavam no meio do pacote, perfeitamente lisa e plana. Ajeitava sobre a madeira limpa. Usava só a caneta tinteiro, num capricho que lhe era peculiar.

E odiava sua caligrafia sofrida que parecia engasgar a cada vogal. Fazia esse esforço descomunal para endireitá-la, enquadrá-la aos moldes bem definidos de suas boas intenções. E lá iam ós engolindo os ésses. Os érres se derretendo em êmes disformes. E as linhas ondulavam incertas sobre onde encontrar o outro lado da folha. Desesperadas.

Comum que acontecesse de amassar a folha, arremessá-la ao lixo e reiniciar o ritual todo.

E no silêncio de seu perfeccionismo ele sofria essa agonia secreta de não poder apagar assim os garranchos passados de seu coração.

Detalhista

Um ou outro aspecto me escapa. Um cigarro entre os dedos. O manobrista se agitando para afugentar o frio, entre um carro e outro. Mas nem todos os detalhes eu percebo... Não percebo se há ou não limpador traseiro no vidro do carro caríssimo. Não percebo se há ou não aliança na mão da loirona que se vai.

Não percebo se há ou não sentimento nos beijos que aconteceram. Não percebo se há ou não lembranças do que eu costumo sonhar. Não percebo se souberam ou não das coisas que pensei. Não percebo se machuquei demais ou não corações que sofrem também pela sinceridade e transparência...

Sei que a noite passa, que o tempo não pára. Sei que me digo idiota por aí escondendo como inconsciência das possibilidades a profunda ciência das minhas dúvidas.

sábado, 28 de junho de 2008

Passo além

Lembrei de uma cena do famoso filme Indiana Jones - O Santo Graal. No momento em que ele está quase chegando ao graal, passando pelos últimos obstáculos. "Aquele que acredita passará", era algo assim a frase. E ele, diante de um precipício enorme, dá um passo no vazio. E quando está para cair à escuridão seu pé encontra uma ponte. De pedra, rígida, firme e sólida. Que estava ali, invisível o tempo todo sim, mas estava ali.

Quantos de nós dão esse tipo de passo no dia-a-dia? Que filosofia mais barata essa minha, com filmes assim de grandes bilheterias... Boas filosofias são as dos filmes que ninguém assiste, porque levam a insights que ninguém teve ainda.

Mas ainda assim... quantos de nós dão esses passos?

Percebo agora que devo eu, eu mesmo, dar desses passos por aí. Não adianta ficar parado olhando ao redor, esperando os outros começarem a andar assim sobre o nada cheios de coragem para ir ao encontro deles pensando: "finalmente, que gente legal que eu achei!". Ficar parado frente ao nada criticando o resto do mundo não ajuda.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Distinção

Conquistar uma mulher não é o mesmo que amá-la, que fique bem claro. E pode-se trocar as palavras de lugar conservando-se a verdade da sentença. Amar uma mulher não é o mesmo que conquistá-la. De fato, parece muitas vezes que estas coisas se interferem destrutivamente. Encontrar uma harmonia adequada entre amar e conquistar é arte. Vai além do que os instintos ensinam. Vai além do que a mente sabe. Vai além do que se pode ser pelo que se é.

E ainda assim é o exemplo máximo de simplicidade. Por ser de tal transcendência, não é algo planejado, sabido, dominado. É algo que, uma vez existindo, existe e pronto. Assim, dado. Assim, certo. Assim, distinto de tudo o mais.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Deprimido

Agora vejo que insistir em contornar os problemas do jeito fácil leva a dores maiores. Não gosto de envolver outras pessoas. Talvez antes fosse diferente, talvez eu pudesse não ter me tornado o que sou. Mas o fato é que não gosto nem um pouco de chegar perto dessas histórias. Que elas fiquem todas guardadas dentro de mim. Arrependimento. Há um certo arrependimento agora por ter dado margem a impulsos, na hora errada. Porque assim superficialmente as coisas fluem? Porque a amizade atrapalha outros tipos de proximidade? É um infortúito do acaso? Uma inépcia em conduzir as coisas ao meu redor? Ou um princípio fundamental de tudo, desses que são sempre verdade?

Estou triste. Profundamente triste agora. Oscilando entre acreditar em mim ou não, às vezes perco o equilíbrio, caio e me machuco. Derrubo outras pessoas. Não é uma sensação boa. Mas é a que estou sentindo.

O que vemos no mundo é o que sonhamos para o mundo. Enquanto nossos sonhos não mudam, a realidade mostra-se como um contraste estranho, como um "não foi dessa vez", como uma falha das coisas, ao invés da simples coisa em si. Sonhar é visitar com um pouco de ousadia os domínios da loucura. Uma viagem em que a volta é sempre triste.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Noite

Não entendo porque faço isso. Sempre fazendo coisas erradas contra mim para evitar fazer coisas erradas para os outros. Será essa atitude assim comum? Mais importante ainda: será ela assim inevitável? É culpa de minha estranha matriz de interesses, ou de entruncamento no rumo das coisas que faço?

Olhava de perto aquele olhar distanciando-se, acolhido pelo calor das cobertas, rendendo-se ao cansaço incomum. Deixava meus carinhos caminharem por aquela pele desonhecida na exata medida que torna fácil desligar-se do mundo sem impedir que se desligue de si próprio. E ela adormeceu. Sentia sua respiração de perto. E nunca vou entender a verdade por trás de tudo o que estava acontecendo.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Segredos

Amores, amores que nunca se contam. Amores que não se permitem contar aos outros. Amores que se furtam a contar pra mim o que são. O que são em mim. O que são de mim. Muitos amores. Um coração cheio, uma alma cheia.

Não se cabe um mundo grande dentro num mundo grande fora. É muito espaço. Ou vai a vida, ou vai o sentir a vida.

Muitos amores. Lembranças de olhares. Cheiros. O indescritível prazer da companhia. Da conversa. A dor saudável da saudade. A euforia revigorante da expectativa. Muitos, muitos amores.

Sendo-se um pouco de tudo vai-se a quase tudo deixando-se de ser um só. Deixando-se de ser, para todos os efeitos.

Muitos sentidos. Muitas histórias. Muitas memórias. Um só eu. Ninguém. Nem uma letra. Nem uma letra é mentira. Nem uma letra é verdade.

É um certo consumo de mim mesmo este constante nascer do nada. É uma sensação estranha de sempre ser esse limiar de existir. É uma água na boca de um sabor que eu desconheço. É uma lembrança de um lugar onde nunca estive, cheio de cores que nunca vi. Amores. Amores que nunca se contam. Amores que não se permitem contar aos outros.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Quase onze

Eu não era mais quem sou, e sou nada do que nunca seria, sou o oposto das minhas negações do mundo, sou o discurso desmentido desmentindo. Sou uma mentira, uma mentira enoorme. Sou um mergulho em verdades verdades só minhas de ninguém mais.

Dançam em círculos como dois amantes enlouquecidos, num beco abandonado, sob a luz da última lâmpada. Dão-se as mãos e giram, giram e giram... Ele, Impulsivo, ela Cautela. E dançam passos estranhos. Passos imprevistos. Um pensa, o outro fala, um cala e assim vão hesitando entre um ser e outro de si, entre uma possibilidade e outra...

Enterrei algumas espontaneidades debaixo de terra alta, dura e pesada. Outras escapam como água por entre os dedos, fogem ao mundo e lá vivem pra sempre.

Nesses dias de tanto em tão pouco tempo, deito no trilho do trem e fico pensando nas descontinuidades da vida. Deitado no trilho do trem olho as estrelas, e escuto festas ao longe. O trem vem, o trem passa. E no meio de todo aquele barulho e daquela vibração que por instantes parece ocupar todo o universo de forma homogênea, entendo que o suceder de descontinuidades é a própria impressão digital da única continuidade que existe. Essa sucessão criações vindas de si, autopoiéticas em suas entranhas.

Falo às vezes sem pensar. Penso às vezes sem falar. Por vezes palavras doces. Noutras lanças pontudas. E sou sempre eu. Sou assim, muitos, muitos como todos são. Como você é muitos.

Deitado no trilho do trem, olho as estrelas. O universo me olha. Sabe de tudo o que fiz. Sabe de tudo o que sou.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sala São Paulo


A estação de trem, Julio Prestes. Onde as pessoas passam apressadas de manhã. Aposentados mostram suas carteirinhas provando o que o rosto não faz duvidar; passam finalmente pela portinha ao lado.

A Sala São Paulo. Concertos de música da maior qualidade. Eventos. Pessoas bem vestidas, felizes por experimentarem a aparência de serem elas próprias. Silêncio. Celulares desligados.

Plataforma lotada. Todos os olhares ao longe, o trem vindo. A questão existencial metafísica profunda que perturba milhares de almas justapostas: onde é que as portas irão parar? Alguns têm lá suas regras astrológicas próprias... Outros partem para espécies diversas de adivinhações seguindo abstrações platônicas. A boa e velha preguiça científica vence por fim e o empiricismo diz a todos, sem sombras das dúvidas: cá há porta, lá não há. Amontoam-se.

Aplausos. Todos de pé. Músicos vindos de todos os cantos do mundo olham pessoas vindas de muitos cantos da cidade. Por vezes de muitos cantos do estado. Ou do Estado, raramente. A música há séculos refina e evolui nesse borbulhar de novas gerações de virtuosas pessoas capazes de dedicarem-se com afinco à exacerbação de seus pontenciais mais escondidos.

"Os bancos de cor cinza são reservados a gestantes, idosos e pessoas com deficiência física. Respeite esse direito."

"A obra que vamos apresentar a seguir é de Igor Stravinsky..."

Um vidro. Um vidro que a arquitetura da ópera escolheu ao bem do estilo e que tanto mais faz ali. Um vidro, fino, transparente. Uma película. Uma fronteira. Olham-se por ele mundos diferentes que coexistem assim, sempre assim: justapostos, olhando-se, mas tocando-se o mínimo. Um protegido da sujeira suada do outro, o outro protegido da futilidade superficial do um. O terno elegante olha o trem chegando e lhe é um espetáculo bonito, um quadro quase distante da "realidade" da cidade. O estudante cansado, já quase meia noite, olha para os vinhos nas taças de coquetel das celebrações especiais. Chegará ali um dia?

O nome é perfeito. Sala São Paulo. É Sala, é um espaço único, amplo porém acolhedor, aglutinador. E é São Paulo, na ruptura, no contraste, no convívio incompreensivelmente harmonioso de contradições tão profundas.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Ketrina

Ele estava lá na estação de trem, esperando sua amiga aparecer.

Uma pequena criança, não mais que cinco anos, brincava de contar passos no chão, entre os quadros de exposição artística espalhados pelo saguão.

- Um, dois, três, quarenta, vinte e dois, mil e um, cinquenta!

Ele falou com ela.

- Não, ó! Tenta assim, com um pé bem juntinho do outro, pra gente ver quantos passos dá até ali.

Contaram passos pelo saguão inteiro. A mãe ali ao canto, esperando alguém e olhando tudo, suspeita. Com um olhar, ele explicou que só estava brincando.

Contaram passos de vários jeitos. Um pé depois do outro. Passos gigantes. Passos pulados. Passos com pés tortos.

Mapearam toda a estação. A amiga dele chegou, iria ambora.

A menina lhe deu um abraço de tchau e um beijo. Sorriu e foi embora, e continuou brincando.

Crianças são assim...

domingo, 1 de junho de 2008

Viagem

Antes que pudesse se esconder em seus medos ouviu gritos vindos de longe.

-Não! Não busque as terras distantes! Não busque as ilhas legendárias! Do contrário jamais as encontrará!

Balela. Blasfêmia. Burrice. Como é que se chegaria a um local precioso, um local tido pelos viajantes antigos como uma extensão do Paraíso descendo à própria Terra? Era impossível ficar parado num mesmo lugar aguardando que ele chegasse.

E foi atrás do lugar encantado. E morreu a caminho, tanto mais longe de seu destino quantos foram os passos pela busca.

E assim foi com muitos outros que o seguiram, um após o outro. Definhando ao longe.

Um, apenas um, séculos mais tarde, sentiu não ser merecedor de uma obra divina tão esplêndida, e contentou-se por deliciar-se com os relatos antigos, com o que sabia das histórias. Nesse saciar sem fim fez-se uma constante presença em seu olhar a tranquilidade relatada como única da terra prometida. E este olhar contagiou um por um todos ao seu redor. E o paraíso havia então vindo ao único que nunca furtou-se a conquistá-lo.

Triste


Isso que faço não é correto. Ah, como é ruim achar que não é correto. As músicas vão sendo ouvidas sendo ignoradas sendo sepultadas. É um breve instante de raiva das músicas. Sim, ando com uma considerável muita raiva ultimamente.

Sem você meu amor eu não sou ninguém...

Nem sei como retratar a desvontade de escrever. Nem sei me olhar de longe agora. Ou até sei, mas não há vontade. Há um certo receido de ser flagrado por mim mesmo como eu sei estar agora. Seria vergonhoso. Seria inquietante a sensação de incapacidade de reverter a realidade. O mundo não é meu. Não... o mundo não é meu.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Fim de tarde

Restos de uma ilha próxima trazidos pela água. Minha própria sombra, calor do sol nas costas. Barulho do vento gritando lá dentro do ouvido, entrando em meu crânio e levando pensamentos tardes afora. A cidade à esquerda, até que passos e mais passos adiante vai ficando para trás. Alguns quilômetros de praia como as praias todas foram feitas. Água, areia e verde.

Vez ou outra um avião cruza os céus como um calendário caindo no mosteiro. Vai embora e tudo se esquece novamente. Grito. Grito forte, muito forte. Não escuto nada. Estou gritando por dentro, mas não percebo. Não escuto, mas a voz já estava em todos os lugares.

Piso passo a passo nas coisas que não têm sentido, nos fantasmas que me perseguem. Castelos de cartas, castelo de areia, castelos de sonhos, castas de monstros incompatíveis com o instantâneo eterno.

Sempre amei, e a areia sabe. Nunca fiquei sem namorar. Nunca deixei que a areia ficasse sozinha. Por vezes perdi olhares de perto. Aprendi a cativá-los com o tempo. Mas corações... Corações caminham todos comigo na praia. Porque a praia não tem tempo. Porque a praia tem todos os tempos.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Teorema

Antes de olhar claramente para as coisas o interior se fazia amplo, mais amplo do que realmente é. Nesse anseio enorme de compreender o abranger interno das coisas, clama-se pelo conhecimento que transcende a mente e deixa-se tomar pela ilusão de uma verdade individual falseada como única e absolutamente única representante da realidade. Ah, como deixam-se levar todos! Principalmente os cultos, os filosofados. Os filosofados de berço então... pobres. Como nos axiomas básicos, como na mecânica elementar, levará séculos e séculos para a tinta das páginas alcançar a sabedoria desverbalizada dos instintos. E quando um dia as letras enclausurarem estas lógicas, virá o controle dos instantes seguintes e com isso implodirá o romantismo. Mais uma vez, deus perderá uma batalha derrotado pelo exército que se pôs em marcha em sua defesa. Curiosa esta oleosidade da fé. Sua verdade se possui quando não se quer transferir responsabilidade aos teoremas. Fé implica responsabilidade. Vale a recíproca.

Não deixemos contudo que as letras corram por um caminho diferente do pretendido. É fundamental, afinal, para o surgimento de uma nova ciência, que se faça a observação de uma impossibilidade intrínseca. É impossível desfrutar por completo das possibilidades da vida interior e da exterior, simultaneamente, com efeitos quaisquer que não incluam a dor da incompatibilidade.

sábado, 17 de maio de 2008

Fundamentos

Mas qual é o tamanho do universo em que permanece válido o conceito de verdade? Até qual resolução conseguimos entender existir algo parecido com justiça? Quando valores sociais implodem em segredos à resolução de um único indivíduo, continuam existindo? Não há atitude verdadeiramente áustera que não tenha sido vendida segundo as regras de marketing preconizadas pelas leis não escritas e não ditas por ninguém jamais. É loucura. Numa religião de um, ainda que esse um seja ele próprio um papa ou o próprio messias, não há mais deus. E é o peso dessa ausência convivendo com a fé das mais profundas que prova a verdade concreta de todas as outras divindades. Em termos de valores morais, não há verdade em si, no acreditar, no defender... A verdade é o fluxo de compartilhar. Compartilhar decorre de ser incontido em um só.

Imagem obtida desde excelente site.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Onda


Pés na areia áspera. Úmida. Meus pés. Pelo princípio da incerteza, eu talvez não estivesse ali. Ou talvez estivesse mais rápido. Ou talvez estivesse pensando em outra coisa. Mas o Heinsenberg não entende nada da minha vida, então é melhor que não se meta a palpitar. Olhei pro horizonte: fato. Ao olhar para trás, a névoa noturna já havia engolido qualquer resquício de luz da cidade mais próxima. Adiante, apenas os contornos mal definidos dos morros que iniciam a grande reserva florestal dali adiante. Deitei na areia. Frio nas costas. Areia no cabelo. Barulho das ondas, vento, céu estrela e nuvens. Ouvi uma sombra se aproximando na areia. Outra pessoa andava ali. Passou. Nos olhamos sem que os rostos se vissem. Sem que os olhos se achassem. E ainda assim nos sabíamos invadindo mundos alheios de uma forma muito mais violenta e íntima do que jamais havíamos experimentado. Continuou andando e foi embora.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Triunfo

Gêmeos, mas separados logo ao nascer. Refugiados no pior momento da guerra, a realeza temia pela vida de seus descendentes e confiou cada uma das crianças a uma família distinta. Um foi criado longe na floresta, o outro sempre próximo aos altos círculos.

O curso da guerra foi revertido, o tempo passou. Embora sem o menor contato por anos e anos, ambos tomaram gosto pelas artes da espadaria. O irmão nobre, obviamente, dominava muitas outras artes de combate, como a literatura, a filosofia, as linguas diversas e a geografia. Nestas destacava-se como imbatível, porém na espada jamais havia conseguido vitória contra os maiores nomes do reinado.

O irmão plebeu soube cedo de seu parentesco secreto. E quando sua fama tornou-se incontida por vencer com classe as mais hábeis lâminas da Europa, foi procurado pelo irmão nobre para um duelo. Todas as noites olha para o corte em seu braço e sente a dor fria em sua orelha - um golpe de misericórdia. Dói na pele a lembrança do secreto desistir. Porém dói mais o peso de esconder o que, exceto por um delicado capricho da História, e só por isso, seria sabido por todos.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Tênue

Segredos são para serem contatos. O que levo comigo não é um segredo. É algo cuja leve idéia de menção me causa náuseas. Levo arrependimentos pela incompetência em guiar minhas verdades prudentemente às margens dos idealismos cultivados pela solidão da humanidade. Nenhuma letra do que se escreveu sobre sentimentos é verdade. Não neste mundo. Sentimentos dos mais verdadeiros devem ser tão intensos quanto suaves, e se consomem numa sede calma, serena porém constante, que não admite o tempo longo de sentar para escrever. Eu não devia ter lido o que li. Não devia ter ouvido o que ouvi. Porque seria inevitável ver quem vi, e agora a inspiração é poluída por essa coisa que se quer tão transcendente que vai por conta própria, degrau a degrau, minando sua realidade mundana.

domingo, 4 de maio de 2008

Sangria

Não vi o processo. Fechei o olho. Abri e o mundo já era outro. Virei um rabugento. Ainda sou contido, não explodo, não percebem. Mas hoje meu quarto é meu outro mundo, um espaço meu. Não existe mais o simples ato físico de entrar no meu quarto. Existe o ritual religioso de me desligar da Terra. E quando invadem meu santuário, odeio. Ainda vou resmungar, eu sei. Tempos atrás eu gostava de mostrar meus livros. Era a exposição vaidosa de posses materiais conseguidas a moedas sofridas. E eram diferentes. Meus livros já foram meus moicanos, minhas tatuagens, minhas botas diferentes, minha jaqueta reacionária e meu cabelo comprido. Hoje não. Hoje eles guardam pedaços de mim. Começam a olhar meus livros e fazer perguntas. Me sinto desnudo. Incomodado. Quero mandá-los embora. Quero mandá-los tirar a mão dali e deixá-los todos em paz. Neurótico? Rabugento, rabugento talvez, só rabugento...

Olha! Você se interessa por genética? Por que é que tem um livro de dinâmica aqui? O que é esse livro sobre a louruca?

Calem a boca! Não lhes diz respeito! Acham que entenderiam? Acham que entenderiam se eu explicasse como cada livro que ocupa os pedaços da minha mente compõe a história de meus anseios, meus sonhos amputados ou ainda por aflorar, como cada um deles guarda em segredo uma história de perturbações e de desespero para que eu me encomunhasse com o resto do mundo... Acham que entenderiam que eles são minha chave secreta para momentos de solidão que me recompõe de dentro pra fora e me permitem tocar novamente o mundo? Fossem capazes deste tipo de entendimento, jamais agiriam como agem! Jamais entrariam aqui como fuinhas adrenaladas remexendo as coisas para fora de lugar e cuspindo interrogações sem sentido e bestamente invasivas. Entrariam no meu mundo com um respeito solene que não precisaria de modo algum ser chato ou sem graça. Bastaria não ser vulgar. E olhariam. Contemplariam. Sentiriam. É por isso que existem tantos estúpidos no mundo hoje. As pessoas não param pra sentir. Sentir explica muita coisa. As pessoas não se dão o tempo necessário para sentir. E quando sentem algo, quando o sentimento lhes rouba a atenção, não confiam no que sentem. Ignoram. Pulam por cima. Idiotas... Vão embora. E deixem meus livros em paz. Deixem meu mundo em paz.

domingo, 27 de abril de 2008

De papel passado

Um amigo meu diz que ama a namorada. Diz a ela e aos outros. E trai a pobre sistematicamente semana sim, semana não. Estão juntos há anos e é um namoro de dar inveja a todos.

Que importa o se sente guardado lá dentro, afinal? Pra que serve qualquer declaração se qualquer um pode falar o que quiser? E que adianta sentir o que quer que seja se sentir é sempre algo invisível?

É invisível mas pesa... Inferno, como pesa!............

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terça-feira, 22 de abril de 2008

Parto

Na natureza a vida rompe-se em dor, em risco, em uma aposta quase impossível. E tem sido assim por bilhões de anos. E tem sido um sucesso. Será assim com nossas vidas também? Que as coisas autônomas, de certa forma maiores que a gente, ao nascerem trazem consigo uma grande revolução invariavelmente associada a alguma dor incontrolável, que não mata, não fere, mas corta o peito e bagunça o fôlego?

Fiquei horas na cama. Música alta para tentar não ouvir meus pensamentos. Tempos depois, era incapaz de dizer a mim mesmo se chegara a dormir ou não. O tempo simplesmente passou.

Tomara que logo aprenda a engatinhar. E a andar sozinho. E que seja forte e saudável.

Esclarecimento

Cumpre esclarecer aos nossos prezados leitores que o post Pobreza não consiste em um momento de alcoolismo descabido ou intoxicação ilícita por parte deste autor. Trata-se apenas da idéia de que o estado do nosso mundo em que a pobreza predomina é um estado de baixa energia, e que diminuir a pobreza é um processo de reversão de tendências naturais de nossa sociedade, tal como uma geladeira constitui uma reversão artificial da tendência do calor "fluir" para o corpo mais frio.

domingo, 20 de abril de 2008

Pobreza

A exibição formal da Primeira Lei ocorreu sem maiores transtornos. Com ela, afinal, os alunos já se encontravam devidamente familiarizados através de outras disciplinas nas quais seu uso é lugar comum. A conservação de energia é uma ferramenta básica do cientista da natureza, embora quando efetivamente estudando termodinâmica pela primeira vez ele perceba o quão pequena é sua capacidade de visualizá-la, de conceituá-la e de fundamentá-la. Ainda assim, o trauma, embora intenso, é rapidamente superado.

Chega então o momento de apresentar a Segunda Lei, e com esta uma breve lista de decorrências tão simples na dedução quanto complexas nas conseqüências. Entropia. Uma nova propriedade. Assim como temperatura, pressão, volume. Um valor associado a um determinado estado. Porém entropia surgindo do nada! Não se conservando portando! Como assim? Rendimentos inerentemente limitados? Imperfeições aparentes que estão já no limite do possível. A perfeição absoluta como qualquer coisa menor que cem por cento.

Tudo isso uma medida da desordem, uma régua da irreversibilidade. E ficam todos então um tanto quanto sem entender porque a natureza é assim, embora sem sombra de dúvidas seja geral o espanto e a admiração pelo fato de que ela efetivamente assim o é.

E no contexto das leis que se mostram irrevogáveis na caminhada pelo caos, vemos que a medida correta de orientação de trabalho é capaz de um aparente absurdo do impossível e fazer a temperatura ir do frio para o quente. Uma geladeira. Com a inserção orientada de uma quantidade devida de trabalho, tem-se uma geladeira.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Hora de dormir

Nossa mãe! Preciso arrumar meu quarto qualquer hora. Só queria dormir mas foi impossível não ser tomado de terror por tamanha bagunça. É tanto talvez jogado, tanto e se do avesso em cima do cesto. Pior é a máquina de lavar, quebrada. Isso ainda fica assim por um bom tempo, que eu sei. Vou dormir assim mesmo. Apagar a luz e deixar isso tudo sumir. Abraçar meu travesseiro. Xingá-lo até esquecer que é um travesseiro. Olhar pra ele, no escuro, tendo a certeza de que no meio da bruma impenetrável aquele olhar me procura também. Que diferença faz, se cinco centímetros ou vinte quilômetros? Aquele olhar me procura também, é o que importa. Um certo desconforto nos meus pés. Eram só uns princípios jogados na cama. Chuto um por um para o chão. Amanhã faço um pacote bem grande e jogo tudo fora, que é dia do lixeiro.

Rotina

Recebi uma ligação. Aguardei um tempo. O professor terminou de falar, saí da sala.

E era assim, assim quando ele pensava estar super ocupado. Assim que surgia em seu íntimo essa sensação de compromisso, de importância, de inusitado. Um telefonema urgente com algo imprevisto acontecendo que demandava sua atenção. E assim também no dia seguinte.

-O que você pensa em fazer quando concluir o curso?

Não sei, realmente não sei. Olha, poucas vezes parei para pensar sobre isso, sabia?

E não pensava mesmo. Os dias distantes constituiam abstração intensa demais, não valia a pena. A vida parecia jamais poder perder esse sabor de ser fundamentalmente a nitidez dos próximos cinco minutos. E agia assim com muitas coisas, muitas. Dos mais variados campos. Das mais distintas naturezas. Parecia de fato que tinha por único plano feito fugir de toda espécie de planejamento. Afinal, estes poderiam ter o grave efeito colateral de levar a alguma realização. E se algum grande desejo se realizasse? E se algum grande sonho se mostrasse conquistado? O que seria do sonhar em si? Ele lembrava vividamente das vezes em que abrira os presentes de natal. Não os abre mais. E a vida parece ir indo cada vez mais ao longe assim. Cada vez mais sem fim.

-Poucos no seu lugar teriam deixado essa oportunidade passar, se é que alguém o faria. Você tem alguma idéia do que estou tentando lhe dizer?

Que as pessoas agem como lhes foi ensinado ser convenientemente correto. E eu só estou tentando me fazer conveniente. Um dia aprendo.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Sem nome

Noite, todos reunidos. Subimos a escadaria para ver se encontrávamos o senhor que vendia brigadeiros no prédio adjacente. Um vira-lata, jogado no caminho, levantou-se para nos seguir. E seguiu. Nada dos brigadeiros. E o cachorro lá. As meninas queriam passar no banheiro antes que fôssemos embora. E o cachorro lá. Agachei-me para conversar com ele. Aproximou-se. Pedi a pata; a pata. Todos gostaram dele. Era um cachorro de rua, mas estava sendo cuidado pelas pessoas dos arredores, pois não estava tão judiado assim. Aprovando nossa atenção, adotou-nos como companhia pelos minutos seguintes. Enquanto conversávamos e nos discontraíamos, ele participava latindo às gesticulações mais pronunciadas. Vez ou outra latíamos de volta.

Era tarde, e voltamos aos nossos carros. E ele nos seguindo. Ao abrirmos os carros, ele entendeu o que iríamos embora. E, antes que nós, foi embora.

Imagem obtida deste site.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Monólogo

- Mas o que se passa afinal, porque é que você anda assim tão ausente?

- Tenho que esconder meus sentimentos. Ou pelo menos julguei que deveria, ou por excesso de prudência, ou para alimentar minha ilusão de caráter.

- Sentimentos por quem?

- Por você minha cara! Por quem mais seria?

- E me conta assim, depois de tamanho esforço?

- Mas é só em meus pensamentos. Decorrerá só um incômodo menor que consiguirei superar sem grandes dificuldades.

- Mas não deveria ter me contado. Não mesmo... Sabe que não há como ficarmos juntos, sabe que...

- Que? Vai dizer que os sentimentos jamais serão conhecidos?

- E seriam algum dia? Por que? Você não acredita no que vê... É mais concreto o que faz sentido ao que você quer do que as histórias que teus olhos lhe contam todos os dias. Eu apareço diante de você vivendo uma outra vida. Estamos intransponivelmente distantes em quase todos os sentidos e você distorce as pequenas proximidades para me aproximar de você em outras formas. Porque não vive o dia de hoje fora da sua mente?

- Vou ficar aqui mais um pouco. Aqui em algum lugar em que eu possa estar mais perto de você sem interferir na sua realidade.

- Mas não se demore. Não é justo me possuir mais perto de você assim se afastando de mim.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Mito da caverna

Imagine pessoas que só viram sombras. A vida toda. E que você sempre viu a luz, a vida toda, desde que nasceu. Isso é ser cego ao contrário. Quando você vai desconfiar que vê? Quando?

E quando vai contar aos outros que vê? Quando vai desistir de contar a eles que há luz?

Vão te isolar, te repreender, te desacreditar. E você continuará insistindo. Continuará?

Vai convencer-se de estar louco. E cultivará sua loucura pois ela não lhe deixa. Cultivará em segredo. Jogará sua testa contra as paredes e baterá seu joelho nas quinas. Fará como todos. E guardará para si as imagens que não existem.

Até que um dia você se apaixona de novo.

Imagem obtida daqui.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Selo de Força Total

Caríssimos!

Recebi já há alguns dias um presente do blog JLouThings: um selo de Força Total.

Creio que os bons costumes da blogosfera pedem que eu repasse o presente a outros blogs de minha preferência. Ficarei hoje com alguns dos que já estão "linkados" aí ao lado. São eles:

  • Alma Bêbada - Um outro point internético cheio de defenestrações aleatórias.


  • Bianca Feijó - Periodicamente uma nova fatia de percepção criativa do mundo.


  • Entre Pernas - O único problema desse blog é não ser atualizado sempre. Porque a idéia é ótima os posts bem interessantes


  • Horas de Clarice - Este blog não é atualizado desde fevereiro. Entrem lá e deixem algum incentivo. Por quê? Bom... leiam qualquer coisa, vejam como esta menina escreve... E confesse que ficou querendo mais!


  • Minha Terapeuta está de Férias - Reflexões de uma estudante de psicologia. Precisa falar mais?
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