sexta-feira, 27 de novembro de 2015

terça-feira, 27 de outubro de 2015

quinta-feira, 25 de junho de 2015

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Bafo

Dez e meia da noite. Eu estava andando pela Avenida Paulista e era hora de voltar para casa. Fui até a Consolação e lá estava eu na calçada, em frente ao cinema Belas Artes, esperando o semáforo de pedestres ficar verde. Alguém me cutucou no ombro. Virei-me e vi um rapaz branco, de cabelo preto bem enrolado, coerente em sua figura esguia como uma peruca sobre uma vassoura. Jovem, bem jovem.
-Ei, desculpe a pergunta, mas você bebeu ou está sóbrio?
-Estou sóbrio, por que?
E então ele deu uma esbaforida em minha direção e com toda a sinceridade curiosidade do mundo perguntou:
-E eu estou com bafo de bêbado? Dá pra perceber?
Fui obrigado a ser sincero:
-Olha, bafo não, mas comportamento sim.

Foto #174

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E por falar em egocentrismo

Quem não é egocêntrico afinal? Não tem como. Ou é por maldade ou por bondade, que seja, mas somos todos egocêntricos. Ou a vida não seria possível.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Terapia

Tem já um tempo que parei. Mas sinto falta. Uma conversa de uma hora com uma pessoa realmente habilitada a conversar. Uma pessoa que acompanha sua história e faz comentários ou perguntas pertinentes. Acho que a necessidade de psicólogos não é de todo natural. É consequencia de uma deterioração gradual na qualidade das amizades cotidianas. Dos amigos que temos e também de como nos entregamos a eles. Eu tenho boas amizades. Mas por mil razões não tenho atingido com estas o mesmo grau de transparência que me permito com a psicóloga. Há contudo um problema. Estou me tornando mais egocêntrico. Uma hora contínua falando de mim, sem parar, sem ouvir nada sobre a outra pessoa em troca é definitivamente muito estranho. E o pior: a gente se acostuma.

Foto #173

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Harmonização

Tralhas espalhadas sobre a mesa. Uma máquina fotográfica. Um charuto que ganhei de lembrança em um casamento, anda na embalagem. Um adaptador de tomada. Flanelas. Diversos pedaços de papel com números e nomes anotados. Uma pilha de apostilas e livros. Revistas em um canto. Flanela de limpeza. Um pente. Moeda. Um quadrinho que devo mandar para Israel de presente para uma amiga, em breve. Mas, primeiro, preciso escrever uma carta para ela. Não quero mandar só o quadrinho. Tem que ter a carta junto. Que bagunça, que bagunça! E só descrevi o que está em cima da minha escrivaninha. E nem mencionei o celular, o caderninho de notas, o kindle e meu cortador de unhas. Ao lado do crachá lá do trabalho. Imaginem se eu começar a descrever o resto do meu quarto. Roupas amontoadas em pilhas diversas. Roupas por lavar e roupas limpas para guardar. E roupas que só usei uma vez e ainda posso usar mais uma antes de colocar para lavar. Coisas jogadas. Pilhas de revistas e papel. Sou um acumulador? Tenho pouco espaço para viver e precisava de uma casa maior? Ou é tudo isso apenas um reflexo de como está minha alma por dentro?

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Escritores bêbados

Eu achava que me encher de vinho ou conhaque ou, quem sabe, whisky, era a saída para ser um bom escritor. Descobri que isso é um mito. Há sim, na história, famosos escritores que tinham uma intimidade exagerada com o álcool. Mas na maioria das vezes é tudo questão de pose. Inclusive comigo. Meus textos mais bêbados foram escritos, na verdade, sobre uma sobriedade até incômoda de tão seca.

Foto #172

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Descubra o que você ama

Estavam tristes. Ficavam juntos para dividir o que de pior há na solidão. A sensação de que o outro não está ali. Ou pior: o peso duro de se perceber invisível. Ele a ignorou. Ela chorou. Protestou. Ele reagiu. Rugiu. Distanciaram-se.
Dias depois, as mensagens no celular:
-O que eu posso fazer?
-Descubra o que você ama. O que a faz feliz. A felicidade nunca sai do outro. Amor é de dentro pra fora.

domingo, 21 de junho de 2015

Cometa

As pernas não estão exatamente confortáveis. Mas a sensação de me contorcer em posições não projetadas, esticando-as para o lado por sobre o assento vazio, dá algum alívio. Vejo, no vidro oposto, meu reflexo. Um adulto com um livro na mão. A trepidação da estrada faz a imagem ficar um tanto quanto distorcida. Mas nisso há uma nítida verdade: é assim que nos enxergamos, sem detalhes suficientes. Sem perceber o movimento por completo. Mas, ainda assim, seguindo adiante.

Foto #171

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Beleza

De que adianta você gastar quinhentos reais com o cabelo e comprar o sapato mais caro do shopping se você conta assim, sem pudores, que escondeu o pote de doce de leite para a empregada não provar?

sábado, 20 de junho de 2015

34 cities

"We first meet at the main hall. She was dressing a very casual dress. Not like going to sleep, but also not like going to the Oscar night. I was smoking. I was tired to do anything else but didn't want to stay in the room looking at the walls or, worse, watching some cable channel. She approached me asking for fire. I gave her my lighter and we started a conversation. She was hot. Not lake a playboy bunny. Hot in her middle forties. Better like this, I thought. Enough of those silly little girls. Too innocent and way too dreamy. This lady was different. I was trying my best to think of a way to approach her over that empty conversation about what were we doing there and the weather and all this bla bla bla when she just looked deeply into my eyes and fired: do you want to take me into your bed? Oh my god, you are quite straight aren't you? Well, I know the looks, she replied. And I could only tell her that To be honest, Yes I want. Please don't be offended for my honesty, I mean no disrespect, but you asked me and I feel obliged to tell the truth. She took another drag on her cigarret as if I had said nothing of importance, stared back at my soul and just wispered I cannot be offended at all. I was wishing the same. Let's do it tonight. Her voice made me crazy. Completely crazy. And this was the first city I was visiting of all the thirty four I was intended to drive through in this my new job. I think I'm gonna love this summer."

Foto #170

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Política

As mesas de plástico já estavam cheias de copos vazios. Pratos com guardanapos sujos. Espetinhos de madeira jogados displicentemente, já sem carne. Talvez fosse o álcool da cerveja, talvez fosse só sinceridade mesmo. Talvez fosse algo em sua vida que estivesse errado, profundamente errado, e a raiva era descontada em mim. Dane-se a razão precisa, só sei que a raiva era descontada em mim. Eu mostrei um aplicativo de notícias, em que eu podia ver em tempo real até mesmo as notícias da França ou da China. E ele era áspero "e daí? Vai sair com guarda chuva se tiver chovendo na França?". Era o dia perfeito para começar uma briga. Minha mão fechada encontrando o nariz dele. As pessoas correndo para nos separar quando já seria tarde demais. Um pé contra meu estômago. Talvez contra meus dentes. A violência dessa imaginação me acalmou. Não por completo, mas o suficiente para eu deixá-lo sendo um idiota sozinho.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Tamires

"Eu adoro ler. Estou sempre lendo. Passei quatro anos nos ônibus, indo e voltando para a faculdade. Uma hora e meia toda vez. Cara, isso são três horas por dia, todo dia! É muita coisa. Mas eu peguei gosto por ler, sabe? Nada intelectual. Não gosto de ler coisas intelectuais não. Gosto de coisas distrativas. Gosto de entretenimento, de me sentir bem. Agora, com o trabalho... Eu me formei em contabilidade, mas trabalhava em um escritório. Trabalhei um ano. E não era feliz. Não estava aprendendo nada. Resolvi sair. Falaram para eu ficar até achar outra coisa. Mas eu precisava sair. Agora não sei o que vou fazer. Preciso descobrir. A gente precisa de um trabalho, não é? Mas eu não sei o que quero fazer."

Foto #169

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Traduções

Descobri que a maior parte dos professores ruins não confia em seus alunos. Recebo com frequencia este conselho: "não complica muito, eles precisam passar na prova, passa só o que interessa". O que significa praticamente o mesmo que "treine aqueles macacos". Nada de ensinar a pensar. Apenas dizer umas regras que podem ser memorizadas e repetidas. A memória é muito mais difundida do que inteligência, essa é a crença. Então, como professores que precisam produzir alunos que passam em provas, é melhor apelar para a memória do que para o raciocínio. Eu não consigo assinar embaixo. Não consigo. Não confio nesta abordagem. Acho que a inteligência é também tão difundida quanto a memória. Talvez até mais. Mas a inteligência exige algo que a memória dispensa: diálogo, um diálogo mais profundo. A memória é cópia direta. Você diz uam frase como "sinais iguais, você soma, sinais diferentes, subtrai". Ou então algo mais sucinto ainda como "menos com menos, dá mais". E a memória deve repetir as regras do mesmo jeito. Já com a inteligência algo diferente ocorre. Cada um tem seu idioma, seu vocabulário. É difícil dialogar com a inteligência alheia. E é por isso que a grande maioria dos professores prefere não fazê-lo. A cultura do mundo sofre agonizante por conta de nossa indisposição a buscar diálogo com nossos iguais.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Caminhos de ferro

"Seus braços se tocaram. Suavemente, sem nenhum movimento brusco que pudesse denotar intenção. Era apenas uma conseqüência mecânica dos solavancos do trem. Mas dali em diante, ele reparou, ela não levantava mais o braço esquerdo enquanto gesticulava. Deixava-o aí, prolongando deliberadamente o prazer daquele acaso."

Foto #168

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Das pessoas próximas

Qual seu critério para se aproximar das pessoas? Depende do que elas são para você? Você se importa com o que elas são para os outros? Elas refletem algum ideal maior? Ou alguma viabilidade imediatista? Ou você simplesmente deixa acontecer... Foca em seu trabalho, em sua rotina, e as pessoas que forem aparecendo serão, automaticamente, as pessoas próximas?

Eu, particularmente, nunca fui bom em escolher ou rejeitar pessoas. Embora algumas me incomodem e outras me irritem, sempre considerei que esse ato de escolher era, por si só, algo ofensivo de se fazer para outro ser humano, especialmente em contextos levianos como amizade, ou uma conversa do dia-a-dia. Ou talvez isso tudo seja uma racionalização para uma outra tragédia que nunca confesso: a inabilidade percebida de colocar em minha vida as pessoas que realmente gostaria. Diante dessa derrota prefiro aceitar quem aparece e desistir de fazer escolhas, o que é um modo de não me responsabilizar pela minha distância daqueles que mais amo.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Pesos

"Talvez ela tivesse gostado de ouvir isso, mas nunca cheguei a dizê-lo em voz alta."
(do livro "Nós", de David Nicholls)

Quem nunca incorreu nesse crime das relações humanas? Crime sim, porque tudo podia ser muito mais do que é, não fossem os sentimentos ficarem tão escondidos. Mas, ao mesmo tempo, somos todos inocentes. Porque soterrados sob uma montanha de medos e inseguranças e considerações infinitas. E se ela não sentir o mesmo? E se meus sentimentos mudarem? E se ela achar que isso quer dizer ainda mais do que quer dizer? E se eu o disser de um modo idiota? E se já for óbvio e eu parecer bobo falando? E segue assim o mundo, com essas toneladas de alegrias soterradas.

Foto #167

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Nota rápida

Estou deprimido. Profundamente deprimido com as conversas sobre redução da maioridade penal. Quanta gente idiota.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Qualificações

Eu não sei porque ele está dando aulas dessa matéria. Ele é baixinho. E o que tem de baixo tem de arrogante. Gosta de humilhar os outros. "Afe, como é possível que nem isso você sabe?" É uma frase típica dele. O pai tem dinheiro. A família tem bastante dinheiro. Que não sei de onde veio, mas não importa. Ele nem precisava aparecer. Mas faz questão de dar tantas aulas quanto possível. É um destruidor de futuros.

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