“Escreva com vinho, revise com café” – Honoré de Balzac
. . . e eu fico na dúvida, se falava sobre escrever textos, ou sobre escrever a vida mesmo. parece valer a mesma ideia!
O que é um heterônimo afinal? Uma vida escondida atrás de uma mentira? Ou uma verdade escondida atrás de uma vida?
“Escreva com vinho, revise com café” – Honoré de Balzac
. . . e eu fico na dúvida, se falava sobre escrever textos, ou sobre escrever a vida mesmo. parece valer a mesma ideia!
Eu amo cantar. Nem sei explicar. Não é um estilo específico. Não é por dinheiro porque não é nem nunca foi meu trabalho. Só lembro que desde criança tinha uns microfones de plástico e ficava cantarolando por aí. Gosto é da mecânica da coisa. De sentir o diafragma forçando o ar pra fora, a voz saindo, ora apaixonada ora revoltada como se eu fosse um deus a parir humores.
Mas quem vive de cantar? Uns poucos sortudos. Filhos de outros cantores que já ganhavam afagos de empresários muito antes de entender o que é uma conta bancária. Ou uns gênios que nasceram prontos sabe-se lá como. Esses caras que tem uma afinação perfeita e cantam óperas e cujas vozes variam vinte oitavas e atingem duzentos decibéis. E eles têm apenas seis anos. Vão a programas de TV e ganham prêmios até as prateleiras não aguentarem mais.
Eu não sou nada disso. Gostava é de ficar fazendo escândalos na sala ou no quarto, me esgoelando. Eu sempre me senti bem cantando, mas de que importa essa introspecção se o resultado objetivo é não lá muito melhor do que uma galinha sob lenta e sádica tortura?
Eu segui para a vida entendendo que minha paixão era uma distração e mergulhei em infinitos conflitos com todas as paixões que me distraíram.
Os estudos, os trabalhos, as coisas sérias. Infinitas coisas sérias. Tudo parece ser mais sério e mais importante e mais urgente que algo que não é mais que uma paixão íntima e pessoal. Mas nada nos falta tanto.
Viajava a trabalho e, claro, não podia ficar me esgoelando nos hotéis, nas reuniões ou nos táxis. Hoje me arrependo amargamente dessa falta de loucura. Esse comedimento que me corroeu a vida pouco a pouco.
Em busca de uma carreira que desse portas a esse futuro que todos entendem que é futuro, passava noites enchendo páginas e páginas e páginas com os exercícios de contabilidade e as revisões de direito constitucional e tributário enquanto meu quarto me afogava em silêncios.
Mas a gravidade das paixões, as verdadeiras, não tem botão de ON e OFF, não admitem um binário e definitivo abandono. Criamos distâncias mas sua força sutil, enfraquecida, segue agindo, segue puxando, segue com seu efeito invisível dia e noite. E eis que, bêbado num bar, num aniversário, lá está o microfone ligado ao videokê. E lá me vou madrugada adentro. Quando todos já foram embora. Os amigos, o aniversariante, o segurança, o garçom, o dono do bar, os cachorros da calçada e o uber que eu havia chamado.
E sigo cantando. Uma recaída que sinto como uma retomada. Parece que respiro depois de um mergulho de oitocentos metros. Tudo parece ter existido para justificar esse momento. Todas as contas que paguei foram para chegar até aqui e poder pedir minha garrafinha d'água. As roupas que comprei foram para não chegar aqui nu e ser expulso. As comidas que comi foram para ter energias de continuar cantando noite adentro.
Amo cantar. Mas quem vive de cantar? Não um ninguém feito eu. Só os mais sortudos ou os mais sofridos. Aquelas criancinhas, filhos de ciganos ou refugiados, que eram postas a cantar nas praças ao troco de qualquer centavo. Porque passaram assim tanto tempo praticando. Não chegarão a fama das mafiosas indústrias mas terão genuinamente vivido de um dom que esculpiram a força.
Não eu. Tive sorte de menos, conforto demais. Esse limbo que nos enforca com normalidade por todos os lados.
Confesso no meio disso tudo uma ousadia: crio minhas próprias músicas. Escrevo. Minhas letras. Imagino meus álbuns. Ideias que renderiam turnês e grammys e camisetas com meu nome em jovens inconsequentes.
Mas nunca institucionalizei essas paixões. Nunca estudei música embora gaste todo meu salário em livros sobre música, teoria musical, aprenda você mesmo, violão sem mestre, adesivinhos para o teclado, todas essas babaquices de amadores. Nunca entrei para grupos musicais nos centros sociais do bairro porque... É coisa de desocupado. E a prestação do carro, a pintura da sala, as compras para quando a sogra vier?
E as outras pessoas... as pessoas próximas. Claro que, em ousadias injustificáveis, vez ou outra mostrei alguma música a amigos. Não juristas musicais. Não outros cantores (outros?). Mas amigos. Amigos próximos. Amigos que me conhecem a vida toda. Amigos que riram. Amigos que me convenceram da estupidez de tentar ser qualquer outra coisa que eu pudesse querer vir a ser. Amigos que, em um encabulante esforço de simpatia, balbuciaram um tropeçante "hummm, legal..." que constrangeu até os bonequinhos do Toy Story que meu filho havia esquecido no quarto.
Mas ontem, sei lá porque, reincidi. Deve ser porque me mudei para Recife assim de impulso, de loucura, tem um ano já. Não conhecia ninguém, não sabia direito o que fazer. E ganhei esse sentimento de distância, essa percepção de que se pode fugir das vergonhas se desligar o Skype a tempo. Eu nem sei explicar o que fiz. Uma ousadia arrogante ou uma tentativa de suicídio.
Tenho uma conta secreta no SoundCloud com várias dessas gravações ridículas sem estúdio sem mixagem sem nada e enviei a uma amiga que é fanática por música, que passa as férias ouvindo músicas, que gasta todo o dinheiro com CD's de tudo o que é artista que se possa imaginar. Onde eu estava com a cabeça?
Eu queria o golpe de misericórdia, eu acho. Eu não queria submetê-la aos traumas do desrespeito mas eu estava pronto para entender o silêncio que se seguiria.
Mas ela elogiou. E elogiou de um modo um tanto quanto insistente.
"Não sei se você vai entender a grandeza desse elogio, mas eu escuto muitas coisas. E suas músicas são gostosas de ouvir."
Paralisei. Congelei. Fiquei ali olhando aquela mensagem sem saber o que sentir. O que pensar. Só depois entendi que essa paralisia era consequência de sentimentos precisamente antagônicos entalando no caminho à consciência.
Em um primeiro momento senti uma decepção. Sim, uma decepção. Porque eu queria paz. Queria um silêncio que me convencesse de que não eram apenas meus amigos de gosto musical duvidoso e limitado, ou minha esposa preocupada demais com as urgência das casas e das contas, que não eram capazes de enxergar minhas qualidades latentes. O desprezo frio me daria a certeza de focar em coisas mais úteis da vida e me livrar dessa loucura insistente. Mas ela falou. E veio um elogio.
E com ele, claro, uma alegria toda vaidosa. Mas, mesmo ela, ambígua. Porque fiquei a pensar nas minhas décadas todas. Em todo esforço para tentar ser bem sucedido em mil outras profissões que me tornassem outra pessoa, ou me escondessem, ou me confortassem com essa falha inescapável.
E se eu tivesse reservado um tempo para cantar em algum barzinho toda semana? E se eu tivesse comprado um carro um pouquinho menor e pago um estúdio para gravar algumas coisas? E seu eu não tivesse a bunda-molice de ficar escondendo tudo em contas anônimas nos sites de música e mais e mais pessoas conhecessem o que eu faço? E se? E se? E se? Fico repetindo "e se" dentro da minha cabeça. A seqüência é tão infinita e rítmica que parece uma locomotiva em direção à morte. E..... se..... e.... se.... e... se... e.. se.. e. se. e se esse esse essee... piuuuííííííí! Pum, caixão.
Cinquenta anos logo mais. Meio século. Ainda tem tempo? Tem. Mas não se sabe quanto. Nunca se sabe. Eu podia ter morrido quando o carro capotou na Castello. Desviei do caminhão a tempo. Eu podia ter morrido se aquele sequestrador tivesse puxado o gatilho no meio de qualquer mal entendido. Quando ele perguntou se eu acreditava em deus, por exemplo. E eu dividido entre dizer que sou ateu e despertar desprezo e raiva, ou mentir dizendo que sou crente e ser condenado pelas forças divinas que ignoro por ter mentido. Disse a verdade. Ele não atirou. Sou hoje um pouquinho mais crente por ter tido a honestidade recompensada com a própria vida.
E tem outra. Cada próxima batida do coração pode não acontecer, quem sabe? Há prédios que desabam, aviões que caem, atropelamentos, bujões de gás que explodem, salmonela na comida, celular que pega fogo, um pequeno meteorito entrando na atmosfera a ointenta mil quilômetros por hora bem na noite em que eu acampava longe de tetos seguros, relâmpagos, choque no chuveiro, escorregar no sabão e bater a cabeça na pia.
O que, neste último caso, já quase quase aconteceu. Cheguei meia noite e tanto no apartamento de uma amiga fotógrafa, que morava em Madrid, para um turismo barato de fim de semana. Eu só a havia visto uma vez. Amigos em comum, contato via Facebook e essas coisas. Depois dos cumprimentos era tomar um banho e dormir. Escorreguei na banheira e caí de costas para fora, destruí a cortina do banheiro dela e depois constatei que minha nuca passara a poucos centímetros da pia. Que morte estúpida teria sido. Ficar estribuchando no chão do banheiro da minha anfitriã aterrorizada até que qualquer resgate chegasse tarde demais. Por que é que eu estava viajando por ali, em primeiro lugar? Eu poderia estar cantando.
Mas é o que as pessoas normais fazem. Viajam e tiram fotos e colocam nas redes sociais. Trabalham meses juntando dinheiro para fazer algo nas férias e depois viajam para esquecer de tudo o que desistiram ao longo do ano.
Eu fiquei contente com o elogio. É claro que fiquei. A ponto de achar que boa parte dele foi uma gentileza exagerada. Não havia afinal nenhum compromisso ali. Mas não tenho como esconder minha crise.
Estou desapontado comigo por nunca ter confiado o suficiente em mim para continuar a me desenvolver numa ascensão monotônica, ainda que lenta, por todas essas décadas. E estou desapontado comigo por não prestar nem mesmo para ser um fracasso total e viver assim livre das torturas das dúvidas. Fracassei em ser um sucesso e fracassei em fracassar.
Vejo o sol preguiçosamente aparecendo novamente no horizonte e penso no poder dessas teimosias cósmicas. Sinto-me, de repente, uma espécie de rascunho bonito. E vou pensando em como passar a limpo.
“A mind too active is no mind at all.”
THEODORE ROETHKE
Cadê o freio, cadê, cadê?
Mas é claro que os valentões estão felizes. E é claro que o empresário que se diverte no clube de tiro aos fins de semana sabe mais sobre armas que esse cara aí:
Especialista comenta os riscos de ter mais armas em circulação
Todos eles nascem assim, hoje. Assim em dois berços. No berço hermético que habita em mim, berço fechado em si que se projeta pra si que só quer saber de si. E nos exorcismos. Nas erupções incontidas. Nas cuspidas escatológicas pra fora no último desespero abrupto que salva de um engasgue mortal. Exorcismos herméticos. Expressões desesperadas de mim que precisam nascer antes que me matem, mas cujas raízes e ligações finais guardo pra mim, covardemente demais talvez, prudentemente demais, espero. Eu sou um escritor no sentido mecânico de gastar tempo considerável na lida de escrever. Mas sou um leitor também, e como leitor estou longe de ter meus escritos como preferidos. Sou medíocre. Sou consideravelmente medíocre. Na variedade dos temas, na criação de cenas, nas fronteiras do vocabulário e no trançar do estilo próprio. Bem medíocre. E gosto disso, por fim, é estranho, difícil de explicar aos outros e difícil de explicar a mim mesmo. Mas gosto dessa mediocridade. Ela me dá a paz de saber que vou poder continuar escrevendo única e exclusivamente por conta disso: precisar escrever. Porque em outros domínios da vida já me deixei admirar em meus méritos e sei o fardo que é uma admiração próxima toda cheia das expectativas que cheiram de perto, olham de muito perto e querem tocar o tempo todo. Não se tem paz. E se tem algo que quero quando escrevo e que eclipsa toda minha mediocridade e me conforta é bem isso: essa paz.
Eu não acredito nesse papinho barato de exotéricos exóticos místicistas que saem por aí falando de "energia". Energia positiva dali, negativa de lá... Eles não sabem calcular a energia cinética de uma pedra movendo-se a um metro por segundo e muitas vezes, nem mesmo, avaliar corretamente uma conta de luz. Pergunte a eles o que é um "quilowatt-hora"... Então, sem nem precisar discutir a viabilidade filosófica de algum conceito de realidade exótica, posso dispensá-los pura e simplesmente por estarem fazendo um péssimo uso do vocabulário disponível.
Mas embora a fenomenologia que professam esteja errada, devo admitir que ao menos alguns dos fenômenos que buscam explicar de fato ocorrem. Dizem esses místicos que há pessoas por aí que sugam nossa energia. Não, não há pessoas que sugam nossa energia. Mas há, de fato, pessoas que colaboram para que nosso ânimo se esvaia. Há todas as combinações possíveis... Duas pessoas podem fazer um bem danado uma a outra. Qualquer uma delas pode se sentir ótima com o relacionamento que têm ao passo que à outra este é extremamente danoso. E pode ocorrer também que a ambas nada de bom se manifeste.
Duas possibilidades são muito boas: pessoas que se fazem muito bem e pessoas que, mutuamente, se fazem muito mal. Sim, este último caso também é bom, pois em pouco tempo ambos reconhecerão que não há que se misturarem e pronto, problema resolvido, mutuo acordo, sem traumas. Mas duas combinações são potencialmente catastróficas... Sim, pois quando uma pessoa faz um mal danado a outra, mas essa outra faz um bem danado à primeira, tem-se uma forte assimetria que induz uma espécie de instabilidade dinâmica: se a coisa toda já era ruim inicialmente, tende com o tempo só a agravar-se.
Não preciso apelar a energia negativa, vibrações do astral ou sei lá mais o quê. Esse fenômeno do transfluxo de ânimos deve de alguma forma assentar-se sobre explicações físico-psicológicas que não impliquem em abalo nenhum à ciência moderna. Mas fica a conclusão de que devemos reconhecer o que uma pessoa recém-conhecida é pra gente para que possamos administrar tudo da melhor forma possível.
Não se trata de você. O Ministério da Cultura não tem a ver com artistas. Quer dizer, tem. Mas não é por isso que ele é importante. Não me interessa saber quais artistas sobrevivem ou não sem este ministério. O importante, e o que deveria estar em discussão, é o acesso à cultura. Você, artista, consegue se virar sozinho. Tem um trabalho reconhecido. Nunca teve um projeto que passasse por projetos de apoio do governo. Parabéns. O ministério da cultura pode não ter nada a ver com você mesmo.
Mas então me diga... Quantas vezes você utiliza dinheiro do seu próprio bolso para viajar a lugares distantes e realizar apresentações para pessoas que não podem pagar? De resto... Financiamentos indevidos devem ser combatidos. Regras inadequadas precisam ser alteradas.
Na política não existe linha reta. Na gestão de um país não existe rota direta. Adequações devem acontecer o tempo todo mas uma coisa é fundamental: não perder de referência o norte. Em muitos países avançados e com bom cenário cultural não há uma entidade autônoma dedicada exclusivamente à cultura.
Muitas vezes é uma área ligada ao ministério da educação ou alguma grande área qualquer. Mas o Brasil tem sua história própria. Tem sua inércia própria de ignorar a cultura. Ou melhor, ignorar a descultura daqueles que mais dela precisam. Um ministério autônomo facilita, dentre outras coisas, a fiscalização de suas ações. A denúncia de seus problemas visando melhorá-lo o quanto antes.
E, lembrando, caro profissional da cultura... o foco não é você. Acho sim escandaloso que artistas endinheirados como Ivete Sangalo ou outros "grandes nomes" (grandes contas) recebam dinheiro público para apresentações. Mas não acho que a briga seja por "deixar de pagar os grandes artistas para pagar os pequenos". O objetivo central de uma boa política pública de cultura deve estar centralizado, repito, nos destinatários... Cursos, teatro, música, acontecendo naquelas cidadezinhas abandonadas. Ou naquela periferia que é um mundo à parte. Aqueles lugares em que muito artista não vai topar ir nem pagando. A cultura precisa chegar a essas pessoas. E esta deveria ser a discussão.
E nem vi ninguém discutindo isso.
Vi gente reclamando que o ministério deveria voltar porque vai acabar dinheiro para atividades culturais. Vi pessoas falando que o ministério não deve existir porque dá dinheiro para quem não deve.
É mais ou menos o seguinte: todo mundo num farto jantar em torno de uma mesa bem recheada, discutindo sobre a fome no mundo, enquanto lá na calçada os mortos de fome continuam a cair pelos cantos.
Condorcet acreditou que o progresso científico implicaria em um progresso humanístico da sociedade. Seu erro foi olhar puramente para o acúmulo de conhecimento sobre a natureza, o acúmulo de domínio técnico, e ter ignorado um outro ingrediente fundamental para o que desejava: a transmissão de conhecimento. Ou, mais precisamente, a transmissão de inspiração pelo saber. Algo que a humanidade tem ignorado sumariamente e que tem sido o principal ingrediente para o ziguezaguear da história.
Ela tinha pernas deliciosas. Não que estivessem completamente à mostra, ou muito menos que eu já as tivesse experimentado. Mas era visível, era notável, óbvio, impossível deixar passar. Deliciosas. Aquele vestido azul de tecido fino e leve descia até pouco abaixo das nádegas. E as nádegas estavam a uns meros centímetros do meu rosto, quase nada abaixo da minha linha de visada. Como não olhar? A escada rolante é uma invenção dos homens, uma criação do sexo masculino. Essa obra prima da tecnologia moderna veio ao mundo mitigar o risco de tropeções indevidos enquanto investimos toda nossa atenção aonde ela deve estar: na gostosa mais próxima.
Não resisti. Resolvi morder. Mordi.
De repente estava num jardim meio abandonado. Pessoas conversavam comigo, queriam saber se deveriam carregar as coisas até a garagem ou deixá-las ali no terraço. Eu estava com frio...
De repente o sol queimava meus olhos. Na boca, um gosto horrível. Olhei para o lado e de repente meu corpo todo sentia o gelo do piso do quarto. Cadê ela?
Confesso duas maneiras distintas e opostas de apreciar a manifestação intelectual. Ambas coexistem em mim.
Por vezes admiro a paciência e o capricho das longas e detalhadas explicações.
Noutras tantas acho que só a manifestação direta e sucinta faz sentido. Afinal, se gastarmos a vida toda lendo longas análises para por fim compreender o mundo, não haverá mais tempo para por nada em prática.
Creio que a manifestação ideal não pertença a nenhum dos extremos.
E é interessante isso... Ninguém sabe o que vai acontecer! Ninguém sabe... E mais ainda, digamos logo de uma vez! Ninguém sequer sabe o que acontece! Duas pessoas juntas, dizendo coisas, dividindo gestos, e pensando universos secretos. E sempre será assim... Às vezes as coisas se acertam, discussões, brigas ou sorrisos, coisas leves... Todo jeito é vivido por alguém.
Tem alguém aí sem afinidade com o futuro. Esse alguém talvez seja eu, embora eu costumeiramente minta sobre quem sou. Mexo nas minhas coisas... Compro promessas de futuro e espalho pelo meu quarto. Fico mexendo nelas... Sonhando serem certas histórias emocionantes.
Eu gosto de abrir portas, não de viver dentro da sala. Gosto de folhear livros, de ver filmes, de abrir gavetas, de conversar com estranhos. Adoro conversar com estranhos. E tenho esse problema, esse problema sobre amanhã... O que vai ser amanhã?
Tenho medo do futuro mudar, mas tenho medo de já sabe-lo... Se eu já sei do futuro, tenho um pouco menos dele por desvendar. O inesperado me assusta, mas me seduz...
A mansidão dos intelectuais é o tal do "silêncio dos bons" que tanto assustou Luther King. As pessoas que realmente são capazes de tomar boas decisões para o mundo, que são realmente capazes de entender a economia e as relações culturais diversas, essas estão quietas. Vivendo suas vidas de livros interessantes e programas culturais enriquecedores. Mas uma vida desprovida de ações exceto em casos extremos. O paradoxo é esse: pessoas boas são mansas, mas a mansidão não favorece a propagação cultural dela própria ou a ascensão ao poder das pessoas assim formadas. É assim que temos um mundo oscilante. É preciso que a coisa degringole demais para que as pessoas mais corretas se mexam. Aí depois elas relaxam e os Trumps e Bolsonaros da vida assumem os postos de poder.
Boca seca.
Peito mole, respirando estranho.
Não, eu não sei chatear ninguém.
Bem que deveria.
Sei que deveria.
Mas não gosto de ter que chatear ninguém.
É estranho esse peso de ser quem se é.
Porque é preciso agir sobre o mundo,
Interferir, mudar, agredir...
Boca seca...
Braços largados...
Vontade de cair na cama
E não amar nunca mais.
As conversas deveriam ser o meio principal de interação humana e de troca de ideias. Mas não são. Não é coincidência que precisamos da linguagem escrita para que a humanidade pudesse acelerar seu progresso humano, científico, econômico e tecnológico. A leitura, ainda que seja um contato com o outro, é uma experiência solitária, individual. As palavras alheias soam em nossa mente com nossa própria voz imaginária. Dividem espaço direto com nossos próprios pensamentos sem violentar nossos ouvidos. Há o tempo de ponderação. Há a oportunidade de se completar um raciocínio em algumas páginas.
Donde concluímos que o progresso da humanidade deve ser correlacionado ao progresso da experiência de leitura - quantidade E qualidade.
Donde concluímos que estamos na merda.
Eu desejei. Que mal há em desejar? Macia, apertável, cheia. Água na boca só de olhar. Deixei meus pensamentos pensando o que quisessem, ninguém estava olhando. Tirei toda sua roupa em meus pensamentos, mordi seu corpo. Nos amamos até a exaustão. E ninguém nunca viu. Nem você.
E quando o café acaba? Aí eu fico olhando para a xícara. Olhando para o computador. Olhando para a janela. Acabou-se a minha distração. Acabaram-se as minhas desculpas. Não posso mais enrolar com o trabalho. Estou com a cabeça cheia de café, devo estar a mil, acelerado, estimulado! Não posso mais ficar girando a caneca de um lado para outro, observando as ondulações na superfície escura, imaginando quanta coisa está acontecendo ali. Tensão superficial, forças de Van-der-Walls, força centrífuga. A cafeína atrapalha o Van-der-Walls? Certeza que com a água pura as forças são mais fortes. Aquele mosquitinho que caminha sobre os lagos e beiras de rios nas águas calmas, apoiando-se na tensão superficial da água, será que ele cairia dentro da caneca de café? Será que eu engoli um? Aí será que ele sairia voando feliz, acelerado, estimulado, cheio de energia? Ou ficaria puto da vida com a quebra dos pequenos equilíbrios da sua vida, tal qual eu estou agora, sem saber o que fazer porque acabou a porra do café?!
Minha vida está enferrujando? Meus sentimentos estão enferrujando? Minha poesia? Ah, menina... Não sabe o que fala, mal imagina... Flertamos por aí, nesses acasos deliciosos, cheios de diálogos comportados e olhares indecentes. Eu quero você, e sabe disso. Quer a mim também. Beijo? Mais que beijo, talvez... Na cama, misturados. Em tardes no sofá, em passeios por aí... Desejo... Mas no fundo sabemos mais do teor desses impulsos do que gostaríamos. O que às vezes é orgulho, esse autoconhecimento que temos de nossos instantes e da vida como um todo. Às vezes é também martírio, é odioso e repulsivo. Queríamos tanto não ter laço nenhum com o resto do mundo e nos darmos a esta sede áspera que às vezes até machuca os impulsos, tão incontida que é... Não, não estou enferrujando. Estou investigando essa estranha criação da civilização... Estou experimentando essa coisa que é ter um certo auto-controle. Estou inventando meus segredos proibidos para me tornar um cidadão bom aos olhos até de Dostoiévski.
Você sabe dos meus desejos porque os instintos vazam informações que não deviam, mas no fundo é tudo ainda um segredo. Nem ideia faz das coisas que penso ao ver a bela foto de suas pernas... O volume bem contornado que você deixa em seus vestidos, o contorno confortável de seus lábios nas fotos... Gosto desses desejos impuros, mas tenho-os para mim apenas.
Bateu no despertador como se estivesse em um ringue prestes a vencer um velho inimigo. Pulou da cama contrariada. As roupas já estavam escolhidas. Vestiu-as a contragosto. Esquentou a água para o café e passou geleia em duas fatias de pão. Não era um banquete de frutas anti-oxidante mas já era melhor do que o jejum do dia anterior. Se bem que, anda lendo, jejum é algo saudável. Vai parar de ler. Anda ficando confusa. E estressada diante de tantas opções. Queria levar uma vida só e pronto. Ter a tranquilidade de estar seguindo adiante corretamente ou, ao menos, sem culpas. Aqueles casos podiam esperar. As vítimas já estavam mortas. O que restava agora era papelada. Quem iria para a cadeia? Não há suspeitos. Quer dizer, há os suspeitos óbvios. Mas não há prova. Rio de Janeiro não é um lugar de prender assassinos. É lugar de curtir praia, futebol, cerveja gelada. E de se esconder de tiros. Ninguém resolve assassinato enquanto tem que se esconder de tiros. Você continua se escondendo para evitar ser o próximo, só isso.
Beto trabalhava há vinte anos no mesmo lugar. Carregava as caixas do caminhão até o armazém. Beto era feliz. Tinha a casa onde sua mulher dera conta de fazer os filhos batalharem na vida. Trabalhavam eles agora, estudavam. Vida difícil, mas vida indo. Aí Beto ficou velho e morreu. E os filhos cuidaram da dona Zuleica, a mãe. Que envelheceu e morreu. E aí os filhos trabalhavam em diversos lugares. O Luca, depois de trabalhar como office-boy, auxiliar de escritório, e várias coisas assim, pagou a faculdade como pôde e virou dentista. Está de férias nesta temporada, viajando em Recife, pra onde nunca tinha ido. A Raquel virou jornalista. Está fazendo a maior parte de seu dinheiro na base dos "freelas". E o Jorge abriu um negócio de carros depois de oito anos de um odioso trabalho no meio bancário, que ao menos lhe permitiu juntar um dinheiro.
A falta de discussão filosófica, de educação argumentativa, produz uma nação capaz de filosofar e de argumentar. Straightfoward, right? E é esse o pé em que estamos. Somos incapazes de compreender princípios. Cada cidadão está mergulhado em sua experiência imediata sem uma percepção de tempo e de contexto que extrapole sua existência individual. A despeito da comunicação verbal e dos smartphones, retornamos à selvageria. A capacidade de abstração desapareceu. Como discutir princípios legais como a presunção de inocência, ou impactos de segunda ordem de políticas públicas a longo prazo, com pessoas que passaram a vida sem contato com a filosofia e com a experiência de discussão de pontos de vista diferetes? Idiocracy está acontecendo.
Outro dia fui discutir com uma amiga se o mundo está evoluindo ou involuindo. Entramos em um embate em torno da palavra “involução”. E eu queria entender melhor o que ela estava querendo dizer. “Imagine um mundo que está involuindo. Como seria esse mundo?”
“Mas não está! As coisas ruins estavam em um estado latente.!”
“Sim, entendo. Mas, por hipótese, em um mundo que sofresse uma involução, o que aconteceria?”
“Mas não está! Há coisas que não apareciam nas estatísticas do passado e agora aparecem, entende?”
E assim foi. Difícil entender o mundo real sem conseguir investigar as nuances das abstrações.
Este post está sendo escrito no dia 14 de julho de 2015. Mas vou publicá-lo no blog sob a etiqueta "26/07/2018". Milagres da era digital. Por que vou fazer isso? Porque eu posso. Porque a eletrônica permite. Porque planejei este ano com dois posts de texto por dia e um post de foto. E quando a coisa começou a degringolar decidi que, tão logo quanto possível, iria correr atrás do atraso e tapar os buracos.
Faria o mesmo com a vida. Mas a vida não é eletrônica como os blogs. A vida é a vida e pronto. Feita de um tempo que passa. Sem uma interface editável. Sem uma caixinha no canto da tela para escolher alterações.
Mudar aquele dia em que decidi não mudar de casa e poderia ter mudado. Mudar aquele dia em que aceitei fazer uma viagem e poderia ter ficado em casa. Mudar aquele dia em que fiquei em casa e poderia ter saído para viajar. Mudar aquele dia em que falei umas verdades e feri. Mudar aquele dia em que fiquei quieto e depois pensei em respostas fantásticas que deveria ter dito na hora para não ficar na pior.
A vida é um ensaio. Mas é também a primeira e única apresentação.
O controle do mundo está em mãos muito erradas. Quem são os políticos e empresários que governam este planeta? Que decidem as políticas que irão não apenas influenciar a vida de bilhões de pessoas e de uma infinidade de espécies hoje, agora, mas também comprometer definitivamente o futuro? Qual a apreciação que essas pessoas têm pela história da humanidade? Pelo conhecimento científico tão arduamente criado ao longo de milênios? Infelizmente, por alguma razão, pessoas com uma devida apreciação da aventura humana são demasiado mansas nos jogos de poder e de empreendedorismo. Isso irá produzir um novo solavanco no avanço da história humana. Infelizmente, as gerações que desfrutam do conforto produzido pelo trabalho duro de cientistas, filósofos e ativistas que mais arduamente se dedicaram ao avanço das grandes questões são as gerações que se dedicam às distrações mais fúteis e se tornam incapazes de apreciar a real profundidade dos debates em voga.
Era tão claro que ia acabar. Não que fosse esse o único curso possível para os fatos. Não. Mas também... Você apareceu pelas vias erradas. Sim, eu te quis em minha solidão, em meu íntimo. Mas não dentro do meu íntimo mais secreto, esse que precisa continuar fechado para que eu seja eu. Esse que os amantes mais íntimos não devem nunca compartilhar sob pena de não suportarem a verdade incontornável da material humanidade de que somos feitos. E você chegou já, direto, justamente aí. Justamente na minha intimidade secreta. Lembro da gente junto, seus gemidos inesquecíveis enquanto parecia ser impossível beijar todos os beijos de uma vez, e a gente continuava tentando... Mas eu queria mais que uma fusão de corpos, e sua vida parecia distante. E eu não vi minha sede de intimidade saciada do meu jeito e isso é egoísta e é assim que as coisas são. Algumas descronologias não foram complacentes com meus ciúmes e minhas inseguranças. Fraco? Fraco, é... fraco. Mas não sei o quanto ser fraco contra a própria natureza é uma fraqueza em si. Sou assim que sou e me nocautear por você é também deixar de ser quem se apaixonou por você. Mais natural ver o amor se ir, apenas ele... Eu fico aqui. Eu fico aqui, com uma certa saudade. Com a cena do seu cabelo cobrindo o rosto. Com o som de sua risada. Com a sensação insípida dessas vidas não misturadas. Com uma certa saudade...
Se é verdade, como de um modo ou de outro analisaram Hobbes, Rousseau e outros pensadores, que o Estado consiste em uma transmissão do direito de violência do povo ao governo para que a vida transcorra de um modo mais civilizado, então esse momento em que o cidadão compra uma arma e vai praticar tiros para se sentir mais poderoso e ter a certeza de que "qualquer coisa, eu resolvo", é o momento em que o fim do Estado foi declarado. São cidadãos apolíticos, são uma verdadeira ameaça à constituição de uma civilização melhor.
Ela lia. Chegava em casa, o marido já descansando. A bagunça reproduzia-se à volta como no dia anterior. Na semana anterior. Como fora em toda a eternidade, antes do mundo ser feito.
Ele estava em seu escritório, que ficava dentro do próprio quarto. A porta trancada, e ele de cueca apenas. Não que o conforto dessa pouca vestimenta tivesse algum atrativo especial, mas gostava de imaginar que estava se comportando como a maioria das pessoas jamais se comportaria. Foi para isso também que tomou um copo de conhaque logo depois da janta, em plena quarta-feira. No mais, o álcool lhe era extremamente incômodo à garganta.
Ela estava com o coração palpitante, esperando que o computador se fizesse em pleno funcionamento. Internet. Blogs. Os textos dele. Ela lia, lia... Do começo ao fim. Seriam pra ela? Estaria ele pensando nela? A incerteza é cruel. Às vezes penso que se Deus desse provas concretas de sua existência por aí o número de fiéis diminuiria ao invés de aumentar. A dúvida insolúvel libera a mente a ir de encontro aos seus anseios mais profundos, a moldar a realidade exterior tal como sua essência mais escondida. Ele a amava, era a única explicação.
Ele brincava com palavras com um misto de alegria e tristeza. Queria ser poeta. Queria ser livre. Queria ser inédito. Mas frustrava-se com as demonstrações irrefutáveis de sua pequenez. Ainda assim, buscava o prazer de criar, prazer infantil desconexo de julgamentos de qualidade. Escrevia, escrevia... Imaginava coisas, e escrevia.
Quem diria que essas vidas viriam a se misturar? Quem diria que essas solidões se acolheriam por alguns dias, desesperadas?
E depois nunca mais se souberam.
Estou confuso. Minha professora ficou horrorizada quando falei um palavrão em sala de aula. Mas era uma aula sobre comunicação, sobre linguagem, e eu usei o palavrão explicitamente como um exemplo de como uma situação se passaria na prática, no "mundo real".
"Adoniran, ninguém fala assim!"
Falam, as pessoas falam sim!
Minha professora é jovem. Vem de uma cidade pequena. Será que isso é um fator? Será que em seu recorte do mundo realmente o uso de palavrões é tão negligenciado a ponto de passar como algo absolutamente inaceitável? Eu achei que não existissem mais pessoas assim. Acho curioso que os palavrões sejam vistos por uns como um sinal de má educação quando, na prática, é frequentemente um sinônimo de amizade mais intensa.
Imagine um homem atendendo o telefone. O Armando. E duas respostas possíveis:
Resposta 1: Olá Armando. Como vai? Estou ligando para saber como você está.
Resposta 2: Fala aê seu merda? Como é que estão as coisas com você, minha putinha?
Qual dos dois interlocutores parece ser mais amigo do Armando? É sem sombra de dúvidas o interlocutor da resposta 2, e se para você essa resposta pareceu apenas ofensiva, sinto informar mas seu círculo de amizades é muito careta ou ninguém tem por você uma amizade muito profunda. A ofensa-fake entre amigos é uma espécie de extensão das brincadeiras físicas que se verificam entre todos os mamíferos. Se observarmos como pequenos leões, ou macacos, ou humanos brincam, frequentemente essas brincadeiras envolvem atitudes que parecem uma luta simulada. Assim é também com as palavras. São palavras ofensivas, sim, mas usadas de um modo que evidencia a brincadeira e a boa intenção e, assim, reforça a amizade ao invés de enfraquecê-la.
Nossa linguagem é complicada pra caralho, não tenha dúvidas.
Se eu estou criando, estou feliz. Que importa a criação em si, afinal? Sua qualidade, seu acabamento? Deus, o criador supremo, que nós mesmos veneramos e tudo o mais, num momento de inspiração não se deu ao trabalho de fazer nada melhor do que este mundo que está aí fora. Que qualquer um poderia imaginar melhor sem a mínima dificuldade. Que tanto trabalho dá a teólogos e filósofos para a elaboração de pesadas justificativas para os problemas existentes dentro dos moldes de alguma lógica maior. Que tão ridículo torna o otimismo incontorcível de Pangloss. Estou criando, e estou feliz. Ficar sentado à beira da cama, olhando a sombra dos móveis mudar de lugar... Isso não legal. Mudar o mundo, isso não é pra mim. Não de forma desesperada. Mudo o mundo sendo o que sou e deixando que as consequências reverberem. Não quero mudar o mundo dos outros, quero meu mundo aos meus moldes. Quem se inspirar, que faça um bom proveito do que vê.
Estamos em 2018. Em algum lugar das florestas africanas uma menina retorna para casa com um cesto feito de palha amarrado às costas. Carrega frutas e lenha. Em sua mão, um celular fazendo uma selfie que ela colocará com orgulho em sua conta do instagram. Em algum lugar das cidades europeias, em meio a sistemas de transporte eficientes e com bibliotecas por todos os lados, e internet rápida, uma família debate sobre a ameaça que os homossexuais representam aos bons costumes. Estamos em 2018.
Nada é óbvio. A ideia de progresso da humanidade é uma ficção. Há sim conquista de novos conhecimentos e de princípios melhores. Mas ninguém tem tempo de avaliar devidamente os rumos da própria vida. Fazê-lo decentemente demanda o tempo da própria vida. É assim que, então, as pessoas seguem sendo aquilo que sabem ser. E nada mais.
Estamos em 2018. Em algum lugar uma professora fica horrorizada porque um aluno falou um palavrão em sala de aula. Em algum lugar um aluno reflete que aquele tipo de pudor é absolutamente simbólico e arbitrário. E que sua transmissão e mesmo sua rejeição está condicionada a determinados recortes da sociedade. A ideia de que certos palavrões são inaceitáveis, bem como a atitude de vê-los como simples ferramentas de comunicação que nada implicam sobre quem os utiliza, precisa se difundir pela sociedade. Essa difusão é como nanquim na água. Precisa percorrer um caminho. Precisa se diluir. Se difundir. Mesmo hoje, com toda a modernidade, as ideias não fluem facilmente. Por que?
Veio mais um trem
Trem lotado
Todos cabiam
Menos eu, fiquei.
Sentei ao lado de sei lá quem.
Abri um livro.
Li.
Veio outro trem.
Li.
Outro trem.
Li.
Outro trem.
Li...
Os outros entravam nos trens
Eu ia mais longe