terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Foto #180

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. . . que saudade!

Dos direitos

Cada vez mais eu me convenço de que seguir a risca todas as normas para "agir corretamente" é nada mais nada menos do que um modo perfeito de deixar de existir. Nossa existência consiste em perturbar normas, expectativas e regras.

Morreu no morro

Era meu colega de sala. Não era um desses com quem sempre converso. Mas já havíamos trocados sorrisos e breves ajudas várias vezes. Já dividimos cerveja na mesa do bar. Já comentamos sobre mulheres bonitas e bons empregos. Sonhos de futuros bem sucedidos.

Eu soube ontem. Notícia pela internet. Quando vi a foto dele, não acreditei. Sabia que a situação no morro era terrível. Aqueles morros de tempos em tempos tem problemas de segurança extremos. Talvez ele não tenha se cuidado. Talvez estivesse no lugar errado na hora errada, uma fatalidade. O fato é que está morto. E suas fotos, sempre sorridentes, multiplicam-se na rede, enchem-se de comentários emocionados. Mais uma jovem vítima dos morros. Mais uma morte besta, inexplicável, inaceitável.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Foto #179

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Morte a dois

Deito-me ao lado dela antes de dormir. A televisão está ligada tal qual ela gosta. Resolvo anotar algumas coisas em meu caderninho. Duas ou três palavras para que as ideias não se esqueçam.
-Quer que eu ligue a luminária?
-Não precisa, respondo.
Afinal, para tão poucas palavras a claridade do televisor já é suficiente.
E então escuto o click. A luz da pequena luminária de cabeceira modificando toda a tonalidade do quarto.
Ali, naquele triste instante, eu sabia que não teria como vivermos juntos.

Gosto musical


Tem quem pense que eu sou roqueiro. Eu mesmo já o pensei. E se ainda o penso não é mais com relação ao gosto musical. É quanto a filosofia de vida. Modo de existir. Postura existencial. Mas, roqueiramente confesso, nem sei se o rótulo é correto. Não sei qual é o consenso adotado por aí em torno da palavra "roqueiro". Só que não me importo, e é precisamente nisso que me acho roqueiro. Retornando ao assunto das músicas, o que eu descubro são contrastes.

Posso escutar um Heavy Metal. Angra, talvez. Mas no modo em que mais gosto de utilizar minha playsit, que é o aleatório, não tem como suspeitar do que vem depois. Pode ser um pesado "That I never had", de Ozzy Osbourne, sem levantar suspeitas nenhuma quanto à minha roqueirice. Mas pode ser também um incrível violão e voz de Michael Hedges, uma profunda trilha sonora de Danny Elfman de qualquer um dos filmes que ele musicou, uma versão de Eleanor Rigby no melhor estilo chorinho (de Hamilton de Holanda), a Suíte da Noite Estrelada, no incrível piano de Elisa Meyer Ferreira ou um chorinho tocado pelo Choro das 3 com a família toda... A família e a família extendida, por assim dizer, o que inclui amigos, outros compositores, etc... E depois vem Bluette, de Dave Brubeck. Teatro Mágico. Boi Pirilampo. Corrs. Móveis Coloniais de Acajú. Fica mais um pouco amor, de Adoniran Barbosa. Sher, o doce klezmer de Giora Fiedman. Jamiroquai. O som tradicionalíssimo de Ibrahim Ferrer. O groove arranhado de Betty Davis. O som reflexivo de Coldplay. E escuto coisas pops ou bregas ou raras ou velhas ou clássicas ou tradicionais. Brahms, Língua de Trapo, Madredeus, Caetano, Eddie Danniels, Gospel, Vivaldi... Paula Fernandes, Lorde, Sia, Duke Ellington, Chiquinha Gonzaga, Irene Portela, Silvio Caldas, Altamiro Carrilho, Ceumar...

Então qual é o sentido de eu me dizer roqueiro por ouvir Angra, Aerosmith, Guns n' Roses, Evanescence, Ozzy, Gammaray, Helloween, Blind Guardian, Bruce Dickinson, Iron Maiden, Nightwish e Savatage?

Acabo descobrindo que, no fundo, o que eu não gosto é de um crachá no peito, camisa de força da alma... E, seja o estilo qual for, não aguento um dia inteiro do mesmo som. Que os dias tenham tantos sons quanto o espírito tem humores. Gosto de varandas. De calçadas largas. Não gosto de janelas fechadas. Não gosto da claustrofobia do estilo.

Relendo, vi que esse texto não explicou absolutamente nada sobre o que se propunha, meu gosto musical. E vi também que assim basta.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Agroboy

Sua profição: herdeiro. Sempre teve conforto. Não precisou acordar cedo como os pais. Carregar peso. Dominar os segredos do machado, da pá, dos baldes de água e dos arames farpados. Estudou nas capitais. Morou fora do país aprendendo os idiomas dos endinheirados. E hoje suas lavouras estão morrendo. Ele reclama. Culpa do sol. Culpa da chuva. Foram embora. Deixaram-no apenas com seu dinheiro e suas iniciativas. Com nada.

Foto #178

SetimoAndar

Mudanças

O meu irmão é gay. E, cara, quando ele contou para minha família, foi muito difícil. Na boa? Tem gente que fala que essas coisas são escolhas... Que o cara decide ser gay, que é vagabundagem, vadiagem... Se fosse isso, eu te falo, ninguém ia escolher ser gay. E digo mais! Ninguém ia escolher ser preto, pobre, mulher... Porque é mais difícil! Todo mundo ia escolher ser branco, hétero, homem, rico. Porque aí a vida é bem fácil em tudo o que é canto do mundo e ponto final! Mas daí um belo dia meu irmão vira por meu pai e conta que é gay...

Olha, deu um tilt na cabeça do véio. Não foi fácil. Acho que ele pensou em enfiar um berro na goela e puxar o gatilho. E mais de uma vez. Parou com o emprego dele, não conseguia mais trabalhar. Nunca mais voltou pra área dele. Era técnico. Acabou indo pro comércio. Mas deu a volta por cima. E foi tentando entender. Se esforçando. Leu tudo o que podia. E viu que não ia poder ignorar aquilo.

Hoje ele se juntou com a minha mãe e criaram um grupo de apoio. Não para gays, mas para pais com filhos gays. Dão apoio. Contam suas histórias. Dão esclarecimentos. Para pais mais novos é mais fácil. Existe já uma cultura de normalidade. Mas para pais mais velhos muitas vezes é dificílimo! Pensa num pai de quase setenta anos, militar e religioso! Daí o filho vira e fala que é gay! Teve caso de pai prendendo filho em casa, berrando "só sai daí quando parar com essas suas manias!". Teve pai pensando em suicídio também. Enfim, tem de tudo. Uma vez minha mãe abrigou por alguns dias um jovem que tinha contado para a família que era gay. O pai estava transtornado atrás do moleque. Se encontrasse, enchia o moleque de porrada. Daí, pensa... alguém escolhe essas coisas por sem-vergonhice?

sábado, 2 de janeiro de 2016

Foto #177

OuroPreto

Mensageiros

Nos tempos antigos as mensagens iam a cavalo. A pé. De barco. Como dava. Nada dessa coisa instantânea de hoje. Então, vai ver, nossa comunicação não se hostilizou. Na verdade ela se primitivou de algum jeito. Viajou no tempo, indo para trás contra o curso normal do tempo. Por isso é que você só falou comigo dois anos depois. Não acho que seja hora de se desculpar. De eu me desculpar. De ouvir suas explicações e justificativas ou oferecer as minhas. Mas decidi não deixar suas palavras sem resposta. Confesso que meu maior medo era o de me tornar um pouco como você. Desistir de respondê-lo seria, por fim, aceitar essa estranha manifestação da resignação que é a indiferença. Escrevi. Enviei. Entenda como quiser.

Origens

Meu tio me levava nas viagens de caminhão pelo sul. Isso desde que eu tinha uns cinco anos. Meu pai foi do exército. Depois acabou indo trabalhar na inteligência. Por conta disso sempre vivemos muito em mudanças. Morei no nordeste, no sudeste, no norte. Em tudo o que é canto do Brasil. Mas meu pai só acabou no exército porque não conseguiu entrar na aeronáutica. Problema de vista. Porque o negócio dele, mesmo, era pilotar aviões. Um sonho que ele nunca realizou. Então hoje eu junto essas duas paixões. Esse sonho do meu pai, que eu abracei, e minha paixão de infância pelas viagens de caminhão com o meu tio por tudo o que é estrada que você pode imaginar. Então meu sonho é me tornar um piloto de avião cargueiro.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Diagnóstico

Eu mostrei meus diários a ela. Eu contei minhas histórias. Contei os detalhes dos meus passados. É uma experiência sempre profunda. Intensa. E então ela, num acesso de sinceridade, me disse:
-Fica a impressão de que você nunca amou de verdade, de que você ainda não experimentou o amor.

Foto #176

FotoAptoAlojas

Sinceridades de ano novo

Atitude. Levantar da cadeira mesmo quando se está cansado. Ânimo. Se bem que lá se vão vinte horas deste 2016 e vou percebendo os conflitos da vida. Amigos reunidos, o que é bom. Mas nenhum deles tem boas habilidades culinárias, o que é ruim. Calabresa, provolone, pão, cerveja, refrigerante e salgadinhos. O que é dubiamente bom. Internet lenta, o que é bom. Recados que chegam de amigos e familiares queridos, o que é bom também: contradições. Muito sol na rua, o que é bom. Muita preguiça, corpo cansado, ressaca, o que não dá para contornar por algum modo milagroso. No fundo, no fundo, certo está Francis Bacon: a natureza não se vence a não ser quando se lhe obedece. Conhecer melhor a natureza, inclusive a minha, e respeitá-la.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Resoluções de fim de ano

A meta era ter duas postagens por dia. E uma foto. Todo dia. Não atingi a meta, muito menos dobrei a meta. Mas, não é nada, não é nada, já fiz muito mais do que havia feito até então. Foi um ano intenso. Mudanças. Pensamentos. Reflexões. Viagens. Desligamentos. Ligamentos. Novos focos. Novos enquadramentos. Profundidade.

Uma meta muito ousada teve seu efeito:

PostagensLexico

Foi assim com a escrita e, arrisco extrapolar, foi assim também com a vida. Metas muito absurdas que não foram atingidas mas isso, nem de longe, indica um insucesso. Pois caminhei tanto mais do que teria caminhado sem essas metas, e tanto mais do que antes, que cheguei mais longe. Em um único ano muito mais do que nos anos anteriores. Tantas histórias. Tantas coisas. E só por esta mania de ser diferente, nada de resoluções de ano novo. Vou para resoluções de fim de ano.

Resolvo que este ano que passou ganha um lugar especial em minha memória. Em minha história. Resolvo que as boas portas serão exploradas. Resolvo que as portas ruins receberão seus cadeados. Resolvo que as páginas prosseguem. Resolvo que às 23:59 de hoje não escreverei “fim”. Resolvo que termina, apenas, o primeiro capítulo. E resolvo que não hesitarei em escrever os próximos.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Cravo e canela

O escritório com a janela grande. O japonês nerd que só na manhã de natal me pediu para levá-lo à farmácia para comprar as passagens. À farmácia? Pois é, cidade pequena. Ainda tem dessas farmácias que vendem de tudo. Passagens para a capital. Iria com a namorada ao encontro da família. Fiquei ali na noite de natal. Eu e meus pensamentos. Eu e meus sentimentos. De modo que a casa, mesmo que grande, estava cheia. Lotada. Como uma família em que há gente triste, gente feliz, gente velha, gente nova, gente falante e gente emudecida. A viagem para a capital veio só depois. A estrada. O pastel com caldo de cana na kombi do Toninho. A tempestade com enchente e motoboys aninhados sob a cobertura de um posto de combustível. O rio quase a transbordar e a máquina fotográfica ajustada para um ISO elevado tentando enxergar tudo aquilo.
A saudade. Os beijos. As histórias. A tapioca. A voz. Os sussurros. A presença. As risadas. Os olhares. As unhas e os dedos. O cheiro. O calor. O suor. O canto: Meu Bem Querer, Carinhoso, Bem que se Quis...
Tudo tão rápido. De repente um ônibus e mais um avião. Tudo fica longe de novo. Mas tudo fica, de repente, tão perto.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

terça-feira, 27 de outubro de 2015

quinta-feira, 25 de junho de 2015

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Bafo

Dez e meia da noite. Eu estava andando pela Avenida Paulista e era hora de voltar para casa. Fui até a Consolação e lá estava eu na calçada, em frente ao cinema Belas Artes, esperando o semáforo de pedestres ficar verde. Alguém me cutucou no ombro. Virei-me e vi um rapaz branco, de cabelo preto bem enrolado, coerente em sua figura esguia como uma peruca sobre uma vassoura. Jovem, bem jovem.
-Ei, desculpe a pergunta, mas você bebeu ou está sóbrio?
-Estou sóbrio, por que?
E então ele deu uma esbaforida em minha direção e com toda a sinceridade curiosidade do mundo perguntou:
-E eu estou com bafo de bêbado? Dá pra perceber?
Fui obrigado a ser sincero:
-Olha, bafo não, mas comportamento sim.

Foto #174

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E por falar em egocentrismo

Quem não é egocêntrico afinal? Não tem como. Ou é por maldade ou por bondade, que seja, mas somos todos egocêntricos. Ou a vida não seria possível.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Terapia

Tem já um tempo que parei. Mas sinto falta. Uma conversa de uma hora com uma pessoa realmente habilitada a conversar. Uma pessoa que acompanha sua história e faz comentários ou perguntas pertinentes. Acho que a necessidade de psicólogos não é de todo natural. É consequencia de uma deterioração gradual na qualidade das amizades cotidianas. Dos amigos que temos e também de como nos entregamos a eles. Eu tenho boas amizades. Mas por mil razões não tenho atingido com estas o mesmo grau de transparência que me permito com a psicóloga. Há contudo um problema. Estou me tornando mais egocêntrico. Uma hora contínua falando de mim, sem parar, sem ouvir nada sobre a outra pessoa em troca é definitivamente muito estranho. E o pior: a gente se acostuma.

Foto #173

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Harmonização

Tralhas espalhadas sobre a mesa. Uma máquina fotográfica. Um charuto que ganhei de lembrança em um casamento, anda na embalagem. Um adaptador de tomada. Flanelas. Diversos pedaços de papel com números e nomes anotados. Uma pilha de apostilas e livros. Revistas em um canto. Flanela de limpeza. Um pente. Moeda. Um quadrinho que devo mandar para Israel de presente para uma amiga, em breve. Mas, primeiro, preciso escrever uma carta para ela. Não quero mandar só o quadrinho. Tem que ter a carta junto. Que bagunça, que bagunça! E só descrevi o que está em cima da minha escrivaninha. E nem mencionei o celular, o caderninho de notas, o kindle e meu cortador de unhas. Ao lado do crachá lá do trabalho. Imaginem se eu começar a descrever o resto do meu quarto. Roupas amontoadas em pilhas diversas. Roupas por lavar e roupas limpas para guardar. E roupas que só usei uma vez e ainda posso usar mais uma antes de colocar para lavar. Coisas jogadas. Pilhas de revistas e papel. Sou um acumulador? Tenho pouco espaço para viver e precisava de uma casa maior? Ou é tudo isso apenas um reflexo de como está minha alma por dentro?

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Escritores bêbados

Eu achava que me encher de vinho ou conhaque ou, quem sabe, whisky, era a saída para ser um bom escritor. Descobri que isso é um mito. Há sim, na história, famosos escritores que tinham uma intimidade exagerada com o álcool. Mas na maioria das vezes é tudo questão de pose. Inclusive comigo. Meus textos mais bêbados foram escritos, na verdade, sobre uma sobriedade até incômoda de tão seca.

Foto #172

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Descubra o que você ama

Estavam tristes. Ficavam juntos para dividir o que de pior há na solidão. A sensação de que o outro não está ali. Ou pior: o peso duro de se perceber invisível. Ele a ignorou. Ela chorou. Protestou. Ele reagiu. Rugiu. Distanciaram-se.
Dias depois, as mensagens no celular:
-O que eu posso fazer?
-Descubra o que você ama. O que a faz feliz. A felicidade nunca sai do outro. Amor é de dentro pra fora.