-Eu acho que eu sou egocêntrico.
-Mas por quê?
-Muita reflexão em torno de mim mesmo. Acho que falta olhar para fora.
-Mas olhar para si é importante. Primeiro, você precisa saber se priorizar. Por mais bondosos que sejamos não podemos cuidar primeiro dos outros e depois de nós mesmos. Não o tempo todo.
-Ok, mas e em um nível existencial? Nas minhas reflexões, nos meus pensamentos... Estou preocupado com a minha vida. Com as minhas curiosidades. Com a minha visão de mundo. E os outros? Às vezes eu fico tão existencialmente distante dos outros que, de repente, fico chocado ao verificar o grau de ignorância ou certas diferenças que existem com as outras pessoas. Coisas que eu acho serem comuns na verdade não o são. Mas eu demoro para perceber porque estou por demais centrado em mim mesmo.
-Mas qual o maior problema disso?
-É o isolamento mesmo. Não no sentido de tristeza mas sim no sentido de distanciamento da verdade. Acho que tenho visões por demais otimistas com relação ao mundo e às pessoas pura e simplesmente porque sou pouco exposto a elas. Não sei se meu otimismo sobreviveria a um contato mais próximo.
-É, talvez você seja egocêntrico...
-Pois é... Eu tenho um senso de superioridade e uma tendência a subestimar minhas diferenças com relação às outras pessoas, não é?
-Não é só isso...
-O que mais, então?
-Não consegue nem mesmo conversar com os outros sobre isso. No máximo no máximo, fica aí trancado em um quarto, sozinho, escrevendo um diálogo consigo mesmo.
domingo, 3 de setembro de 2017
Sou egocêntrico?
sábado, 2 de setembro de 2017
Mortes
Dei aula para ele. Não era meu aluno. Mas era a última aula do curso e substituí o professor previsto. Era muito gente boa. Um cara simpático. Sorridente. Falante. Curioso. Educado. Não se colocava na posição de "cliente mandão". Foi uma boa aula. Saí de lá contente. Contente por colaborar com o futuro das pessoas. Das pessoas boas.
Três dias depois, a notícia: estava morto. Acidente. Li na internet. Não podia acreditar. Acessei o sistema da escola e confirmei o nome. Sobrenome. Era ele.
-.-
Vou vender minha moto. Quase morri. Mas quase... Não quero tentar a sorte de novo. Ela foi do acidente direto para a autorizada. Depois de meses de enrolação, finalmente a notícia: está pronta. Como ali era oficina e concessionária, resolvi ver se eles mesmos comprariam a moto. Compram sim! Mas ofereceram um valor muito baixo... Até compensaria perder um pouco de dinheiro pela praticidade... a moto está em outra cidade. Ao invés de buscá-la, eu poderia já fechar negócio com a moto lá mesmo. Mas... e se a diferença fosse muito grande? Perder um pouco de dinheiro, tudo bem. Muito, não! Resolvi ligar para a oficina aqui ao lado de casa, onde eu sempre levava a moto. Lá vez ou outra eles divulgam uma moto a venda e certamente estão por dentro dos preços. Telefonei.
- Alô? Por gentileza, o Salvatore?
- Faz tempo que você não vem aqui, não é?
- Sim... por que?
- O Salvatore faleceu... tem três meses.
Eu sempre conversava com ele. Tenho a impressão de que ele tinha alguma amizade por mim também. Afinal minha humilde moto de motoboy ficava deslocada ali naquela oficina cheia de gigantes Harley Davidson e BMW's.
-.-
Há alguns anos fui para o Rio de Janeiro. Passei o ano novo lá. Um amigo meu iria viajar com a namorada e me chamou para ir junto. Ficamos no apartamento do tio dele. Conheci a família toda. Gente muito acolhedora, simpática. O filho mais velho, pouco tempo depois, foi estudar na França. Orgulho da família. Hoje, no Facebook, comecei a ler uma mensagem emocionada deste filho. Falava do pai. Imaginei por um instante que fosse alguma mensagem de aniversário, ou de saudade, ou celebrando alguma conquista.. Mas logo entendi. O pai havia falecido. Câncer no estômago. O levou em cerca de um mês depois de descoberta a doença.
Bebês que já tiram selfie
A natureza é sábia. Em cada época e em cada ambiente as criaturas se adaptam às circunstâncias. Quando não havia terra não haviam patas. Quando não havia luz, não haviam olhos. Quando só saltar longe dá esperança de sobrevivência eis que surgem asas. Não há, portanto, porque estranharmos essa profusão de tendências no mundo digital. Bebês que já nascem tirando selfie. Há milhões de anos a atmosfera se poluiu de oxigênio excessivamente e todas as bactérias que prosperavam em uma atmosfera pobre deste gás tiveram que dar espaço à aquelas que o processavam. Hoje aqueles que não se adaptam à cultura de clicks e likes estão fadados a se fossilizar na história.
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
Amiga terapeuta
É claro que um terapeuta é um profissional, que dedicou centenas, milhares de horas de estudos para conhecer os segredos da psique humana e os diversos casos que pode encontrar. Mas, ainda assim, tenho uma teoria. As terapias se instalaram na sociedade moderna, em boa parte, devido à fragmentação nas relações familiares e nas amizades.
Eu mesmo deixei de precisar de terapia quando voltei a recorrer às minhas amizades. Bar. Conversas. Falar da vida. Ouvir opiniões sinceras. Críticas. Sugestões honestas.
Com uma estrutura de vida que permita amizades terapêuticas, as terapias de consultório tornam-se dispensáveis.
É a vida
E é bonita e é bonita!
Hoje a vizinha estava cantando. Ela e as crianças. Muito melhor assim porque, normalmente, ela está aos berros dando broncas horrendas nos pequenos por conta deles serem, bem, crianças...
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
Sou ruim com nomes
Sinto-me um tanto quanto mal por ser ruim com nomes. Demoro a decorar os nomes das pessoas. Dou aulas há vários anos e normalmente só acerto os nomes dos alunos lendo a lista de chamadas. Patético, eu pensava.
Mas patética, no fundo, é essa coisa de nomes. Em um mundo em que somos todos seres humanos. Em um mundo em que não quero me lembrar de rancores ou sucumbir a favores. Não lembro nomes porque os nomes não importam. Nomes mais feios ou nomes mais bonitos não mudam as paisagens das atitudes. Não mudam a sabedoria expressa pelo que são. Não lembro nomes, mas não é que falhe algo nos neurônios de memória em meu cérebro. Há algo em meu interior, percebi, que deliberadamente não quer prestar atenção ao que não importa. E nomes não importam.
Pastel é vida
Eu o vi pedindo um grande pastel e fiz qualquer comentário sobre aquilo não fazer bem para o coração. Usei um nítido tom de brincadeira mas a resposta veio séria:
-E você acha que eu não sei? Já enfartei três vezes. Do próximo tem grandes chances de eu não escapar. E se eu posso morrer amanhã então uma coisa que eu não posso deixar de fazer é comer um pastel de feira caprichado! Morrer triste não vale a pena.
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Tu te tornas eternamente responsável por não ficar de frescurinhas com os outros
Eu sou ateu.
Mas ainda que Deus não exista, padres existem.
E não é por defender uma ideia errada que tudo o mais que alguém tem a dizer está automaticamente condenado. Essa é a falácia do "não fui com sua cara", da qual temos que nos livrar sempre com um árduo esforço.
Sempre trabalhei
Comecei a trabalhar com onze anos, sabe? Catei lixo na rua. Já catei latinha. Já recolhi coisas. Já fui carregador. Já vendi coisas. Já fiz de tudo. Ajudava em casa. Minha mãe lavava roupa pra fora. Pegava muito uniforme de fábrica. Eu ajudava. Era muita coisa para lavar e eu não ficava parado. Foi só em oitenta e seis que fui ajudar meu irmão em uma oficina. Mas eu não entendia nada de oficinas. Eu lavava peças que estavam desmontadas já. E deixava em cima da bancada, secando. Só isso. Depois fui aprendendo, aprendendo. E hoje sei desmontar um motor inteiro e montar de novo. Virei mecânico. Mas já fiz de tudo e se tem uma coisa que não me assusta é ter que trabalhar!
terça-feira, 29 de agosto de 2017
As explicações
Eu seria professora. Era meu sonho. Queria ensinar. Gosto de crianças. Mas fiquei grávida. Eu tinha que trabalhar. E depois não dava mais pra trabalhar e cuidar da criança e estudar direito. Trabalhar, não podia. Deixar a criança de lado não dava. Minha mãe não tinha tanto tempo pra ajudar porque trabalha também. Não temos dinheiro pra bancar uma babá. Não casei, porque o pai da criança sumiu quando soube que eu estava grávida. E ainda estou atrás dele, na justiça, tentando conseguir minha pensão.
Eu não aguentava mais. A vida estava ruim. O dinheiro era pouco e a satisfação, menos ainda. O pequeno era bebê ainda. E tinha essa família... Era ricos, donos de restaurantes por aí, até em shoppings... Eles não podiam ter filhos. E amaram tanto o pequeno. Fizemos um acordo. Eu dei a criança. Eu não tinha registrado ainda porque nem sabia fazer direito essas coisas. Ganhei um dinheiro bom. Não comprei casa não. Fui virar artista. Fui cuidar da minha vida. Fui me dedicar às pinturas, que eu gosto mais. Um dia, espero, o pequeno possa entender. Ou talvez não entenda nunca. Mas tem muita coisa na vida que nunca me explicaram também e que eu acho que nunca vou entender. Não dá pra entender tudo.
Etiqueta corporativa
Amanhã será minha entrevista demissional. Já trouxe para casa um grande questionário para preencher. Quais habilidades a empresa transferiu para mim ao longo desses anos? Qual meu legado para a empresa?
Pensei em responder com sinceridade. Embora o período inicial tenha sido de aprendizado e enriquecimento para ambos os lados, os últimos anos foram de total marasmo e de deslocamento. Gastei até com psicóloga. Não via mais sentido em minhas tarefas e cansei de ver colegas de trabalho sendo ignorados enquanto pessoa. Mas, pensando bem... nunca me perseguiram. E eu sei o que eles querem ouvir. Vou dizer o que eles querem ouvir. Porque, no fundo, essa habilidade de mentir para manter a civilidade foi meu maior aprendizado ao longo deste tempo.
segunda-feira, 28 de agosto de 2017
Procrastinação social
- Quando vamos nos ver?
- Poxa, é mesmo né...
- É!
- Vamos marcar algo!
- Vamos sim!
- Me liga?
- Ligo ou deixo mensagem...
- Manda logo no grupo!
- Boa ideia.
E assim foi mais uma oportunidade perdida de reencontro. Físico. Real. Olhos nos olhos.
É uma característica moderna. A procrastinação como consequência das opções.
Um compromisso é uma constrição, uma limitação, uma imposição da agenda.
Não queremos limitações.
Queremos opções.
Duzentos e setenta e três canais.
Botão de aceitar ou cancelar.
Botão de voltar.
Control + Z. Desfazer.
Por isso não marcamos um compromisso para daqui a uma semana. Para daqui um dia.
"Vou ver direitinho e a gente conversa"
Porque eu posso querer mudar de ideia. Voltar atrás.
Mas a vida não é assim. Nem tudo na vida pode ser assim.
O tempo
Está reduzido pela metade. Eu ia lá para o andar de cima e ficava lendo alguns livros sentado na escada. Há bem menos livros agora. Para onde foram todos? A moça, ao caixa, é a mesma de antes. Mas não tem uma cara feliz. Os negócios não vão bem. Minha vida não está certa. As coisas estão indo mal. Quem lê nesta cidade? Com tantos celulares nas mãos de todos. Com tantas mensagens de WhatsApp, Twitter, tudo apitando o tempo todo... quem ainda tem tempo de ler? O que será dos sebos?
domingo, 27 de agosto de 2017
Ego grande angular
Sou uma artista! Vejam meu trabalho! Vejam como sou maravilhosa! Paguem minha vida para mim, me deem respeito e boas energias! Engulam meu trabalho e curtam minha página! Porque eu mereço, porque eu sou fantástica, porque eu luto muito por isso... Ou pensa que não é uma profunda luta eu fingir que não estou ignorando minhas responsabilidades? Ou pensam que é fácil deixar de ganhar dinheiro mesmo com dívidas e mesmo podendo fazê-lo? Nada como umas boas cervejas com os amigos no bar pra me convencer de que a vida é assim mesmo, de que tenho que passar por essa "luta". Porque... olhando pra mim, cada vez mais só pra mim, não posso deixar de constatar que sou fodona e que o mundo precisa aprender a me valorizar por isso.
Viadagem
No ônibus. Dois gays no banco de trás. Conversavam.
-Não vai mesmo deixar eu ver seu celular?
-Mas que mania! Agora tudo é meu celular? Você não larga meu celular! Quer me deixar em paz?
-Muito bem, se você não pode mostrar é porque está escondendo alguma coisa, não é?
E assim ficaram. Um sem admitir sua insegurança e o outro sem assumir de vez as razões de suas confidencialidades. Muita viadagem, até para dois gays. Ou talvez especialmente para dois gays.
sábado, 26 de agosto de 2017
Adeus
A morte de um amigo dói. Dói muito. De surpresa. Um acidente de carro. Ontem conversamos. Ontem estava tudo bem. Ontem tinha sorrisos. Ontem tinha futuro. Hoje não existe mais. Hoje é uma lembrança etérea. Hoje é sem sentido.
E ele havia me ligado uma vez chamando pra ir pra um bar. Eu estava cansado. Fiquei de pés pra cima, no sofá, vendo televisão.
E ele havia sugerido uma viagem nas férias. Mas eu estava economizando dinheiro. Achei melhor não ir. E acabou não indo ninguém. Não teve aquela viagem.
E agora nunca terá.
O tempo está indo sempre embora. Achamos que há alguma poupança. Mas a qualquer momento o saldo vem zerado.
Dizem para não deixar para depois o que pode fazer agora. Não sei se vale para tudo. Nem para lição de casa, nem para aquele relatório chato ou aquele estudo para a prova. Isso depende de muitos fatores e aceita vários argumentos. Mas certamente vale para a vida.
Não deixe para depois a vida que pode viver agora.
Deu errado
Alguns anos já. Falhou. Era para ser uma metamorfose completa. O despertar de um canalha interior. Eu iria me tornar um mulherengo sem sentimentos. Ou melhor: sentimentos apenas por mim mesmo. Falhou. Descobri a empatia.
Hiato
Chegou um momento em que eu não queria falar mais com você. Nunca mais. Eu não queria nunca mais ter o prazer dessas conversas que estragam todas outras conversas. Porque eu conhecia já a abstinência que desabaria. Eu sabia da tristeza que seria conversar com todo o resto da humanidade. Eu sabia que procuraria um pouco de você em cada nova fagulha de companhia que encontrasse. Sabia que juntando todas essas migalhas ainda não daria meio prato. Fome. Dor no ventre. Então silenciei. Silenciei para tentar me livrar da fome. Como se parar definitivamente de comer fosse a saída para o corpo esquecer dessas precisanças. Mas no fundo nunca desisti. Somei todas as conversas que consegui e ainda não resultava nas tuas. Somei todas as risadas que ouvi e ainda não era você. Juntei todos olhares que vi e ainda precisava do seu. Eu fui pra longe. Eu precisava ir pra longe. Mas você volta? Depois você volta? Não diga nada... Só chegue perto e diga "oi". Quantos anos? Dez? Vinte? Cinquenta? Só poucos meses? Sério? Foram várias vidas de espera para mim.
quinta-feira, 30 de março de 2017
Só de passagem
Os portos do mundo acabaram associados a um nível de decência consideravelmente inferiorizado. De fato. Lá há carga, circulação de dinheiro, e homens em um ambiente com baixíssima densidade demográfica e pronunciadas relações de hierarquia: prolifera-se tudo o que há de errado. Contrabandos, tráfico de influência, propinas. É também um antro de prostituição. Mas isso não acontece apenas nos portos. O que a humanidade associou ao mar, o homem aprendeu a mandar também pelo ar. Ao redor dos aeroportos existem, aqui e ali, alguns conhecidos puteiros.
Não vou dizer prostíbulo ou casa de prostituição ou qualquer outro termo. Vamos à linguagem que as pessoas usam corriqueiramente: puteiro. Porque o assunto é, na verdade, exatamente esse: hipocrisia. Fico pensando... quem frequenta esses lugar? Quem alimenta esse mercado? Entendo, de um pouco de vista ético ou moral, ou mesmo emocional, muito mais a puta que ali trabalha do que seus clientes. Mas nossa sociedade não hesita em condenar a puta e absolver o "homem de família" que "deu uma escapada".
Aliás... tenho um amigo que não considera ser possível trair sua esposa com uma puta. "Porque comer uma puta é um negócio. Não precisa ter sentimentos. É um serviço. Traição é só quando tem sentimentos!" Ele se absolve com esse argumento e mantém sua paz de espírito. Mas eu sempre pergunto para ele se a esposa dele concordaria com tal definição e se eu posso perguntar a ela o que ela acha desta ideia, e então rapidamente a conversa se encaminha para prenúncios de inimizade.
Nem quero mais desenvolver o assunto. Transformar isso aqui numa crônica com ironias. Não vem ao caso. É isso mesmo. Não importa se na relativa pobreza suja dos portos ou se dentre os engravatados executivos que transitam pelos céus... uma sociedade hipócrita e machista sempre acha um jeito de acomodar-se pacificamente às suas desvirtudes.
quarta-feira, 29 de março de 2017
Protesto
É uma pequena diversão minha: deixar sempre, em minha biblioteca, A Riqueza das Nações ao lado de O Capital. E fica a mensagem subliminar ao mundo: se entendam!
Segurança
Fui conhecer o vagão restaurante. Era dia de festa no pátio do museu, mas o restaurante não funcionava. O que me atraiu foram as luzes coloridas internas e a aparência de que o vagão estava bem conservado. Havia um segurança cuidando do cordão de isolamento. Ele me autorizou a chegar mais próximo ao vagão. Subi as escadas e fotografei o interior através da janela. Aí então veio o comentário inusitado:
- Aí é bom pra levar a amante!
- A amante? Pode ser a namorada também, não é?
- Pode... mas a amante é melhor!
- Por que?
- Porque olha em volta... é um lugar bem escondido, esse aqui! Melhor do que ficar dando bandeira em algum restaurante lá fora.
terça-feira, 28 de março de 2017
O músculo da escrita
E uma ideia tão simples de repente traz um insight tão necessário. É um músculo: o músculo da escrita.
E aí toda sorte de considerações começa a pipocar nos meus pensamentos:
Quais os pesos que eu tenho levantado?
Que tipos de exercícios dá pra fazer? Coxas? Bíceps? Flexão?
Supino às quartas-feiras?
Baterias com três séries de doze repetições?
Por isso é tão importante ir à academia ou arranjar um personal trainer ou ficar mais atento às colunas de saúde nas revistas de avião e dos cabelereiros. É preciso conhecer os diferentes exercícios.
E qual alimentação combina com o que? Gordura trans faz mal à poesia? Carboidratos são necessários às prosas?
Carne vermelha pode provocar excesso de adjetivos? Ser vegetariano não deixa as digressões muito caretas?
E os doces, hein? Energia necessária, mas podem deixar tudo mais lento também, não é? Há que se equilibrar os prazeres e as dores, as energias e o emprego das mesmas.
O que alimenta o músculo da escrita, afinal? Não é à toa que falamos em experiências amargas e doces momentos. Experiências pesadas, assim como uma exagerada macarronada, são alimentos fartos que têm seu papel mas não devem vir em exagero.
A ideia do músculo faz pensar na academia, que faz pensar na alimentação.
Um mundo novo pela frente. Novos pesos, novos exercícios e uma nova dieta. Segunda que vem eu começo, prometo.
O círculo do artista
O artista de rua tem à mão um giz. Risca um círculo. Este é seu espaço. Lá ninguém deve entrar. As cenas no filme "A Travessia", com a história de Phillippe Petit, são reveladoras. Mas há um outro espaço que não é físico e que também deve ser respeitado. O espaço mental. Um está associado ao outro. Para onde vai quando quer garantir uma mente tranquila? Para onde vai para ficar longe das coisas que o distraem?
segunda-feira, 27 de março de 2017
Encontros fortuitos
Se eu tiver a oportunidade, entrevistarei Noenio Spinola (nem sei se está vivo, por onde anda, o que faz) a respeito de sua história "Mariana Adeus". Nela um jovem paulistano cruza com uma jovem em uma estação de metrô. E ele está destinado a nunca mais vê-la. Apenas um nome. Mariana. Quantas Marianas existem por aí? A história foi terminada em 1998. Dava para imaginar os aplicativos que iriam invadir nossos celulares? Acho que, para um brasileiro, lá em 1998 ainda era difícil até imaginar que os celulares viriam a ser o que são. Era dos motorolas gigantes nas cintas de gente rica, lembra?
Sinto qualquer paralelo entre o que aconteceu com essa história e o texto do Max Weber "A Ciência como vocação". O desencantamento do mundo. Antes, o mistério. Quem será que são essas pessoas? Hoje, a informação. Com pouca coisa à mão vamos ao Google, Facebook, Whatsapp, Instagram, Twitter e temos um dossiê completo daquela pessoa. Completo?
O dia D
Foi o dia em que eu descobri que não era mais amado. O que fazer com o meu tempo? Com minha atenção? Com meus filhos? Com as ferramentas? Com o futuro? Tudo havia se transformado em inutilidade e desperdício porque ela era, até então, o propósito final. Neste sentido, em linguagem precisa, era a Deusa da minha vida. Meu norte. E então eu descobri que ela não me queria mais. Eu não era mais o centro da atenção dela. Dos carinhos. Mudança de proa. Mudança de vida. Mudança de rumo. Pra onde? Pra onde?
domingo, 26 de março de 2017
Manda nudes!
Já escrevi em algum lugar que a tecnologia só serve para potencializar nossa natureza. Nada mais. E há pessoas assustadas com essa onda de "manda nudes" que invadiu alguns setores mais saidinhos da internet. O verdadeiro incômodo não é o comportamento. Atitudes diferentes das nossas sempre existiram e sempre vão existir. O que a internet tem perturbado, vez ou outra, são as fronteiras. Gente que nunca sequer conversaria sobre algo equivalente a mandar uma foto com a alcinha do vestido mais solta de repente começa a ver mensagens de "manda nudes" circulando por aí e, eventualmente, dirigida para elas! Não se deixem enganar pelo exemplo: o que digo vale para homens e para mulheres. Essa efervecência de fronteiras sociais é a coisa mais interessante da transição de eras.
Raízes
- É como as raízes das árvores, sabe? Se a árvore cresce em uma encosta, torta, então ela precisa se retorcer toda pra acabar virando uma árvore reta. Depois, não é mais possível tirar essa árvore e colocar em um chão plano, achando que ela vai virar uma árvore reta como as outras. Eu tenho as minhas histórias. Eu tenho as minhas feridas. Faço o melhor para me tornar uma árvore reta. Mas tenho minha história. Posso fazer o melhor daqui pra frente. Mas vai sempre existir uma parte torta no tronco.
sábado, 25 de março de 2017
Meu ceticismo
Eu costumo ouvir com alguma frequência a acusação: "Você é cético". Sempre assim com tom de voz de dedo-apontado-na-cara. É um defeito. Um motivo para sentirem pena de mim. Resumindo, constatam o fato e sentem lá no fundo: "pobre homem de pouca fé!".
Mas há algo de bem injusto nessa acusação. Muitas vezes vem de pessoas que dizem ter algum tipo de mediunidade e de sensibilidade aguçada para coisas espirituais. Eu, curioso, converso com elas para entender melhor essa experiência.
-Você sente os espíritos? Tem uma espécie de sensação ou intuição? Ou é algo mais direto?
-É mais direto mesmo. Às vezes eu me assusto porque escuto vozes. E às vezes, ainda que seja mais raro, eu vejo algo.
Neste caso essas pessoas, devo dizer, são tão céticas quanto eu. Mas elas vêem os espíritos! Eu não vejo nada! Então não é culpa minha custar a acreditar. Se os espíritos existem mesmo então só posso pensar que estão de sacanagem comigo por ficarem fingindo que não existem.
Divã
- E o que você descobriu, pensando em tudo isso?
- Descobri que sou carente. Essa carência profunda. Abraço. Afeto. Carinho. Isso tudo tem uma energia profunda. É um combustível. Combustíveis podem explodir, incendiar, ou propelir à distância. Tento encontrar essa conversão motora. Não é simples. Só não consigo mesmo é me livrar do combustível em si. Transforma-se às vezes em ansiedade. Em um vácuo. Em um turbilhão neurótico. A distância é uam coisa estranha de se lidar. Transforma o tempo em incógnitas e hipóteses. Escrevo mais? Escrevo menos? Sou simplesmente natural e corro o risco de enjoar por escrever demais? Tenho o cuidado de escrever menos e corro o risco de ser uma pessoa fria e sistemática com algo que deveria ser tão natural e espontâneo? O que acha, doutora?
- Interessante. A consulta continua semana que vem, já deu o horário.
sábado, 4 de março de 2017
Ironias espontâneas
Tempos atrás dei vazão aos meus sonhos de uma vida saudável e disposta: fiz a inscrição na academia. Deveria ter desconfiado que a escolha de uma academia pelo critério único exclusivo de proximidade com a minha residência denotava um predomínio da preguiça como lógica maior. Hoje, anos depois daquelas tímidas sessões de supino, encontrei o cartão da academia. Praticamente todo em branco. E servindo de marca páginas para um livro que fica sempre pertinho da cabeceira da cama de modo a exigir mínimos movimentos do braço esquerdo para alcançá-lo. Título do livro: O Vagabundo.