sábado, 2 de janeiro de 2016
Mensageiros
Nos tempos antigos as mensagens iam a cavalo. A pé. De barco. Como dava. Nada dessa coisa instantânea de hoje. Então, vai ver, nossa comunicação não se hostilizou. Na verdade ela se primitivou de algum jeito. Viajou no tempo, indo para trás contra o curso normal do tempo. Por isso é que você só falou comigo dois anos depois. Não acho que seja hora de se desculpar. De eu me desculpar. De ouvir suas explicações e justificativas ou oferecer as minhas. Mas decidi não deixar suas palavras sem resposta. Confesso que meu maior medo era o de me tornar um pouco como você. Desistir de respondê-lo seria, por fim, aceitar essa estranha manifestação da resignação que é a indiferença. Escrevi. Enviei. Entenda como quiser.
Origens
Meu tio me levava nas viagens de caminhão pelo sul. Isso desde que eu tinha uns cinco anos. Meu pai foi do exército. Depois acabou indo trabalhar na inteligência. Por conta disso sempre vivemos muito em mudanças. Morei no nordeste, no sudeste, no norte. Em tudo o que é canto do Brasil. Mas meu pai só acabou no exército porque não conseguiu entrar na aeronáutica. Problema de vista. Porque o negócio dele, mesmo, era pilotar aviões. Um sonho que ele nunca realizou. Então hoje eu junto essas duas paixões. Esse sonho do meu pai, que eu abracei, e minha paixão de infância pelas viagens de caminhão com o meu tio por tudo o que é estrada que você pode imaginar. Então meu sonho é me tornar um piloto de avião cargueiro.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Diagnóstico
Eu mostrei meus diários a ela. Eu contei minhas histórias. Contei os detalhes dos meus passados. É uma experiência sempre profunda. Intensa. E então ela, num acesso de sinceridade, me disse:
-Fica a impressão de que você nunca amou de verdade, de que você ainda não experimentou o amor.
Sinceridades de ano novo
Atitude. Levantar da cadeira mesmo quando se está cansado. Ânimo. Se bem que lá se vão vinte horas deste 2016 e vou percebendo os conflitos da vida. Amigos reunidos, o que é bom. Mas nenhum deles tem boas habilidades culinárias, o que é ruim. Calabresa, provolone, pão, cerveja, refrigerante e salgadinhos. O que é dubiamente bom. Internet lenta, o que é bom. Recados que chegam de amigos e familiares queridos, o que é bom também: contradições. Muito sol na rua, o que é bom. Muita preguiça, corpo cansado, ressaca, o que não dá para contornar por algum modo milagroso. No fundo, no fundo, certo está Francis Bacon: a natureza não se vence a não ser quando se lhe obedece. Conhecer melhor a natureza, inclusive a minha, e respeitá-la.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Resoluções de fim de ano
A meta era ter duas postagens por dia. E uma foto. Todo dia. Não atingi a meta, muito menos dobrei a meta. Mas, não é nada, não é nada, já fiz muito mais do que havia feito até então. Foi um ano intenso. Mudanças. Pensamentos. Reflexões. Viagens. Desligamentos. Ligamentos. Novos focos. Novos enquadramentos. Profundidade.
Uma meta muito ousada teve seu efeito:
Foi assim com a escrita e, arrisco extrapolar, foi assim também com a vida. Metas muito absurdas que não foram atingidas mas isso, nem de longe, indica um insucesso. Pois caminhei tanto mais do que teria caminhado sem essas metas, e tanto mais do que antes, que cheguei mais longe. Em um único ano muito mais do que nos anos anteriores. Tantas histórias. Tantas coisas. E só por esta mania de ser diferente, nada de resoluções de ano novo. Vou para resoluções de fim de ano.
Resolvo que este ano que passou ganha um lugar especial em minha memória. Em minha história. Resolvo que as boas portas serão exploradas. Resolvo que as portas ruins receberão seus cadeados. Resolvo que as páginas prosseguem. Resolvo que às 23:59 de hoje não escreverei “fim”. Resolvo que termina, apenas, o primeiro capítulo. E resolvo que não hesitarei em escrever os próximos.
domingo, 27 de dezembro de 2015
Cravo e canela
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
terça-feira, 27 de outubro de 2015
quarta-feira, 24 de junho de 2015
Bafo
Dez e meia da noite. Eu estava andando pela Avenida Paulista e era hora de voltar para casa. Fui até a Consolação e lá estava eu na calçada, em frente ao cinema Belas Artes, esperando o semáforo de pedestres ficar verde. Alguém me cutucou no ombro. Virei-me e vi um rapaz branco, de cabelo preto bem enrolado, coerente em sua figura esguia como uma peruca sobre uma vassoura. Jovem, bem jovem.
-Ei, desculpe a pergunta, mas você bebeu ou está sóbrio?
-Estou sóbrio, por que?
E então ele deu uma esbaforida em minha direção e com toda a sinceridade curiosidade do mundo perguntou:
-E eu estou com bafo de bêbado? Dá pra perceber?
Fui obrigado a ser sincero:
-Olha, bafo não, mas comportamento sim.
E por falar em egocentrismo
Quem não é egocêntrico afinal? Não tem como. Ou é por maldade ou por bondade, que seja, mas somos todos egocêntricos. Ou a vida não seria possível.
terça-feira, 23 de junho de 2015
Terapia
Tem já um tempo que parei. Mas sinto falta. Uma conversa de uma hora com uma pessoa realmente habilitada a conversar. Uma pessoa que acompanha sua história e faz comentários ou perguntas pertinentes. Acho que a necessidade de psicólogos não é de todo natural. É consequencia de uma deterioração gradual na qualidade das amizades cotidianas. Dos amigos que temos e também de como nos entregamos a eles. Eu tenho boas amizades. Mas por mil razões não tenho atingido com estas o mesmo grau de transparência que me permito com a psicóloga. Há contudo um problema. Estou me tornando mais egocêntrico. Uma hora contínua falando de mim, sem parar, sem ouvir nada sobre a outra pessoa em troca é definitivamente muito estranho. E o pior: a gente se acostuma.
Harmonização
Tralhas espalhadas sobre a mesa. Uma máquina fotográfica. Um charuto que ganhei de lembrança em um casamento, anda na embalagem. Um adaptador de tomada. Flanelas. Diversos pedaços de papel com números e nomes anotados. Uma pilha de apostilas e livros. Revistas em um canto. Flanela de limpeza. Um pente. Moeda. Um quadrinho que devo mandar para Israel de presente para uma amiga, em breve. Mas, primeiro, preciso escrever uma carta para ela. Não quero mandar só o quadrinho. Tem que ter a carta junto. Que bagunça, que bagunça! E só descrevi o que está em cima da minha escrivaninha. E nem mencionei o celular, o caderninho de notas, o kindle e meu cortador de unhas. Ao lado do crachá lá do trabalho. Imaginem se eu começar a descrever o resto do meu quarto. Roupas amontoadas em pilhas diversas. Roupas por lavar e roupas limpas para guardar. E roupas que só usei uma vez e ainda posso usar mais uma antes de colocar para lavar. Coisas jogadas. Pilhas de revistas e papel. Sou um acumulador? Tenho pouco espaço para viver e precisava de uma casa maior? Ou é tudo isso apenas um reflexo de como está minha alma por dentro?
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Escritores bêbados
Eu achava que me encher de vinho ou conhaque ou, quem sabe, whisky, era a saída para ser um bom escritor. Descobri que isso é um mito. Há sim, na história, famosos escritores que tinham uma intimidade exagerada com o álcool. Mas na maioria das vezes é tudo questão de pose. Inclusive comigo. Meus textos mais bêbados foram escritos, na verdade, sobre uma sobriedade até incômoda de tão seca.
Descubra o que você ama
Estavam tristes. Ficavam juntos para dividir o que de pior há na solidão. A sensação de que o outro não está ali. Ou pior: o peso duro de se perceber invisível. Ele a ignorou. Ela chorou. Protestou. Ele reagiu. Rugiu. Distanciaram-se.
Dias depois, as mensagens no celular:
-O que eu posso fazer?
-Descubra o que você ama. O que a faz feliz. A felicidade nunca sai do outro. Amor é de dentro pra fora.
domingo, 21 de junho de 2015
Cometa
As pernas não estão exatamente confortáveis. Mas a sensação de me contorcer em posições não projetadas, esticando-as para o lado por sobre o assento vazio, dá algum alívio. Vejo, no vidro oposto, meu reflexo. Um adulto com um livro na mão. A trepidação da estrada faz a imagem ficar um tanto quanto distorcida. Mas nisso há uma nítida verdade: é assim que nos enxergamos, sem detalhes suficientes. Sem perceber o movimento por completo. Mas, ainda assim, seguindo adiante.
Beleza
De que adianta você gastar quinhentos reais com o cabelo e comprar o sapato mais caro do shopping se você conta assim, sem pudores, que escondeu o pote de doce de leite para a empregada não provar?
sábado, 20 de junho de 2015
34 cities
"We first meet at the main hall. She was dressing a very casual dress. Not like going to sleep, but also not like going to the Oscar night. I was smoking. I was tired to do anything else but didn't want to stay in the room looking at the walls or, worse, watching some cable channel. She approached me asking for fire. I gave her my lighter and we started a conversation. She was hot. Not lake a playboy bunny. Hot in her middle forties. Better like this, I thought. Enough of those silly little girls. Too innocent and way too dreamy. This lady was different. I was trying my best to think of a way to approach her over that empty conversation about what were we doing there and the weather and all this bla bla bla when she just looked deeply into my eyes and fired: do you want to take me into your bed? Oh my god, you are quite straight aren't you? Well, I know the looks, she replied. And I could only tell her that To be honest, Yes I want. Please don't be offended for my honesty, I mean no disrespect, but you asked me and I feel obliged to tell the truth. She took another drag on her cigarret as if I had said nothing of importance, stared back at my soul and just wispered I cannot be offended at all. I was wishing the same. Let's do it tonight. Her voice made me crazy. Completely crazy. And this was the first city I was visiting of all the thirty four I was intended to drive through in this my new job. I think I'm gonna love this summer."
Política
As mesas de plástico já estavam cheias de copos vazios. Pratos com guardanapos sujos. Espetinhos de madeira jogados displicentemente, já sem carne. Talvez fosse o álcool da cerveja, talvez fosse só sinceridade mesmo. Talvez fosse algo em sua vida que estivesse errado, profundamente errado, e a raiva era descontada em mim. Dane-se a razão precisa, só sei que a raiva era descontada em mim. Eu mostrei um aplicativo de notícias, em que eu podia ver em tempo real até mesmo as notícias da França ou da China. E ele era áspero "e daí? Vai sair com guarda chuva se tiver chovendo na França?". Era o dia perfeito para começar uma briga. Minha mão fechada encontrando o nariz dele. As pessoas correndo para nos separar quando já seria tarde demais. Um pé contra meu estômago. Talvez contra meus dentes. A violência dessa imaginação me acalmou. Não por completo, mas o suficiente para eu deixá-lo sendo um idiota sozinho.
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Tamires
"Eu adoro ler. Estou sempre lendo. Passei quatro anos nos ônibus, indo e voltando para a faculdade. Uma hora e meia toda vez. Cara, isso são três horas por dia, todo dia! É muita coisa. Mas eu peguei gosto por ler, sabe? Nada intelectual. Não gosto de ler coisas intelectuais não. Gosto de coisas distrativas. Gosto de entretenimento, de me sentir bem. Agora, com o trabalho... Eu me formei em contabilidade, mas trabalhava em um escritório. Trabalhei um ano. E não era feliz. Não estava aprendendo nada. Resolvi sair. Falaram para eu ficar até achar outra coisa. Mas eu precisava sair. Agora não sei o que vou fazer. Preciso descobrir. A gente precisa de um trabalho, não é? Mas eu não sei o que quero fazer."
Traduções
Descobri que a maior parte dos professores ruins não confia em seus alunos. Recebo com frequencia este conselho: "não complica muito, eles precisam passar na prova, passa só o que interessa". O que significa praticamente o mesmo que "treine aqueles macacos". Nada de ensinar a pensar. Apenas dizer umas regras que podem ser memorizadas e repetidas. A memória é muito mais difundida do que inteligência, essa é a crença. Então, como professores que precisam produzir alunos que passam em provas, é melhor apelar para a memória do que para o raciocínio. Eu não consigo assinar embaixo. Não consigo. Não confio nesta abordagem. Acho que a inteligência é também tão difundida quanto a memória. Talvez até mais. Mas a inteligência exige algo que a memória dispensa: diálogo, um diálogo mais profundo. A memória é cópia direta. Você diz uam frase como "sinais iguais, você soma, sinais diferentes, subtrai". Ou então algo mais sucinto ainda como "menos com menos, dá mais". E a memória deve repetir as regras do mesmo jeito. Já com a inteligência algo diferente ocorre. Cada um tem seu idioma, seu vocabulário. É difícil dialogar com a inteligência alheia. E é por isso que a grande maioria dos professores prefere não fazê-lo. A cultura do mundo sofre agonizante por conta de nossa indisposição a buscar diálogo com nossos iguais.