sábado, 17 de agosto de 2019
Mais das métricas
Mas reconheço que há uma outra métrica, que pode talvez ser dita universal, que prioriza a originalidade, a complexidade agregada, e essas coisas. Assim, um livro de piadas que me faça rir é um bom livro para mim, mas uma grande obra filosófica, por mais merecimento que tenha na história do pensamento universal, só será boa para mim se eu me sentir, de alguma forma, feliz ao lê-la (pode ser uma felicidade sublime, contemplativa... não estou associando o mérito à gargalhada, mas apenas a um sentimento de prazer bom).
Aí é que, agora me ocorre, os bons livros se dividem em duas categorias, se tentarmos unir minha métrica à métrica universal. Existem os bons livros bons e os bons livros ruins. Os bons livros bons são aqueles tidos por todos como bons. Platão, Aristóteles, Marx e Weber são bons livros bons, assim como Shakespeare e sei lá mais quem. Já livros como A Expansão da Memória, de Luís Carlos Eiras, de 1986, se forem conhecidos de alguém mais além de mim, provavelmente serão considerados no máximo como uma ilustre porcaria. O mérito desse que citei, dirão, talvez seja o de ser uma sátira da informática escrito numa época em que a informática ainda engatinhava. Só isso. Mas, em termos de literatura mesmo, de estilo, impacto filosófico e tudo o mais, deve ser considerado pelos caras da Academia como um livro ruim. Já eu o considero um livro bom. Então junto as duas definições e tenho aí um exemplo de um bom livro ruim. Outros exemplos de bons livros ruins: Tratado Geral dos Chatos, de Guilherme Figueiredo, e O Guia do Assaltado, de Roberto Schneider e Vilmar Rodrigues (foram precisos DOIS para escrever esse!). Nenhum desses custará mais que US$0,70 em nenhum sebo do mundo.
Claro deve ser que um bom livro ruim não precisa, necessariamente, ter esse viés de tosquice desvexada dos exemplos acima. É mais uma questão de gosto mesmo. Para quem não gosta de Woody Allen e considera suas peças uma literatura menor, um recorte mal feito de questões que estão muito mais bem abordadas em outros lugares, tratar-se-ão de livros ruins. Como eu gosto de Woody Allen, então, passo a considerá-los também exemplos de bons livros ruins.
Até aqui, me preocupei só com terminologia, o que é uma chatice só (cf. Figueiredo, 1975, que também critica uso indevido de citações). Tenho, contudo, algo a acrescentar. Vou defender que os bons livros ruins são MELHORES que os bons livros bons. Ou, ao menos, que é muito mais nobre a admiração por um bom livro ruim do que a admiração por um bom livro bom.
Vamos lá... Ao admirar um bom livro ruim, você está assumindo ter tido prazer frente a uma arte menor. Então está valorizando o livro com base unicamente em um sentimento que você experimentou, e não em nenhum mérito do livro em si (já que, por definição, esse mérito nem precisa existir!). Você está declarando gostar da vida, valorizar a felicidade. Está dizendo que encontrou algo que tomou seu tempo mas que, como dentro de si algo se sentiu bem, o tempo não foi perdido. Está celebrando a simplicidade e ao mesmo tempo mostrando que você não se vende a padrões estéticos externos, já que sendo o bom livro ruim provavelmente uma grande bosta que não vale nada, declará-lo como algo bom é equivalente a colocar um piercing ou uma tatuagem em um mundo em que ninguém o faz. É equivalente a pintar a casa de verde num bairro em que todas as casas são cinzas. Todos os olhares serão de "hã? Tá louco!". E sua resposta, íntima ou em alto e bom som, será: "que é que tem? gostei, ué!".
Já gostar de um bom livro bom é algo muito suspeito. Talvez só na microscópica minoria dos casos trate-se de uma admiração genuína. Mas, em geral, gostar de bons livros bons levanta suspeitas de elitismo, de fraqueza nos julgamentos estéticos e morais, de falta de originalidade e até mesmo de falta de dedicação ao assunto. Se você realmente gosta de livros, não é possível que não tenha ainda achado algum por aí de que só você goste, um autentíssimo bom livro ruim. E vou ainda mais longe... Não é apenas DOS OUTROS que devemos desconfiar quando dizem gostar de um bom livro bom. É de nós mesmos. Será que realmente captamos a profundidade filosófica da obra, vislumbramos uma nova idéia, e tivemos pequenos orgasmos intelectuais a cada parágrafo, ou será que estamos desfrutando apenas de uma sensação de fartura de nossa vaidade, que acabou de se alimentar de um requintado e reconhecido pedaço literário? É em geral difícil saber a resposta, tão propensos que somos ao Auto-Engano.
Sei que vão dizer que estou construindo tudo isso apenas para defender meus péssimos livros como portadores de algum mérito. Não, não é isso, estou só registrando a idéia, talvez sob seu palpite mais uma idéia ruim dentre outras tantas do livro. Mas, ainda que estivesse falando tudo isso apenas para me defender, reconheça que fico com algum crédito no final... Afinal de contas, não é muito mais interessante defender um livro admitindo a hipótese de que ele é péssimo ao invés de fingir ser o único no mundo a achar que ele presta? E não é, por fim, uma sacada de mestre dizer: "tá, o livro é ruim! mas se ele te agradar, o fato de ser ruim frente a critérios estabelecidos é ainda uma razão a mais para que você o valorize!". E é aí que os invariavelmente pessimistas com problemas psicológicos (o tipo de gente que jamais deveria ler Freud) vai dizer: "se eu admitisse tudo isso, teria que reconhecer que um livro ruim que ninguém valoriza me divertiu, e isso revela antes de mais nada algo sobre mim, não sobre o livro. Qual a vantagem de descobrir que seu íntimo se identifica muito com algo que todo o resto do mundo desvaloriza?". Quanto a esse tipo de gente, que não sabem se bastarem da própria companhia em clima de paz, não posso fazer nada. Não sei se o Figueiredo reservou um capítulo a eles, mas acredito que sim! Caso contrário, já é hora de um volume 2, com melhorias!
Óbvio
- Olha, eu dizia que era pra ficar mais perto da faculdade. E eu dizia isso com toda a convicção do mundo, com toda assertividade possível. Mas a qualquer um minimamente ciente dos fatos, evidentemente não era só isso. Morando a vinte e cinco quilômetros da faculdade, mesmo com o trânsito todo dessa enorme metrópole, o deslocamento diário era plenamente possível. Acontece que eu queria viver por minha conta. Ficar longe da minha mãe, da minha tia, dos problemas de casa. Queria fazer minha rotina e ter meus jeitos sem interferências alheias.
- E aí ficou um ano morando fora, não foi isso?
- Exatamente.
- Bom, e então, por que voltou? Não deu certo?
- Em um certo sentido deu muito certo sim. Eu saía para ir aos lugares de que gosto, sem preocupações com horários ou grandes satisfações. Também estava sempre de portas abertas para meus amigos. Essa era uma coisa que eu amava: minha casa estava ali do lado da faculdade, e meus amigos a viam como um refúgio próximo, sempre acolhedor. Então às vezes eu estava estudando, ou vendo TV, naquela quase-melancolia de se estar sozinho demais, e o interfone tocava, e eu era invadido por cinco ou seis pessoas que não tinham nada pra fazer mas que faziam questão de ficarem todas juntas, conversando. Era um paraíso. De volta à casa da minha mãe, por várias razões, isso já não mais acontece. Agora a maioria dos meus amigos ou mora longe ou têm horários não condizentes, e mesmo eu estou em casa apenas uma fração do meu tempo, pois por trabalhar e estudar longe passo também boa parte do dia me deslocando de cá a lá.
- Certo, mas o que explica o seu retorno então?
- Sei lá... em meu íntimos há muitos conflitos nesta questão. Não queria deixar minha família sozinha. Não queria eu ficar sozinho. Num apartamento não posso cantar loucamente, como faço em casa de tempos em tempos. Não sentia um completo alívio de minhas tensões por falta dessa bagunça solitária. E tenho muito medo de sentir uma culpa sem fundo por deixar minha família se resolvendo com seus próprios problemas, mas ao mesmo tempo tenho uma certa frustração por não ser capaz de contornar todos os percalços que se apresentam e conseguir interferir nos problemas do meu lar familiar de forma realmente eficiente.
- E voltar pra casa ajudou em algo com relação a isso tudo?
- Não.
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
Só mais um
E daí que tenho incômodos profundos? Que dentro de mim o universo se vira do avesso? E daí que vejo problemas e mais problemas no mundo e tenho dentro de mim respostas, soluções, palpites bons? Quem vai ouvir? Como vou parar o mundo para que escutem?
E daí que minha namorada tem a vida toda nos trilhos, encaminhada, é uma pessoa em quem eu posso confiar e está plenamente determinada a se dedicar a mim? Está apaixonada realmente? E daí? E daí que o que sinto por ela às vezes vacila?
E daí que as coisas são?
E daí que há tantas pessoas assim nesse extremo da confusão ebulente? E daí que sou mais um?
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
Receita
Estudar direito não basta, tem mesmo é que tomar cacaça
E rir até de rima sem graça.
Feliz por dentro, sem critério, sem rodeio
Rir do que é tonto, inútil, besta e fútil. Assim é que se faz pérola de um tosco devaneio.
A gente se reúne. A gente ri.
Não vê o que fez.
E é só assim que se faz.
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
Deprimido
Vão se esvaziando todas as atividades, as ocupações.
E meus desânimos desincentivam minhas forças.
E minhas forças se minguam tristes.
E meus silêncios se emparedam.
E minhas paredes esfriam.
E meus rins se cansam.
Meus pulmões param.
Meu ar cessa.
Morro.
Não há muita poesia numa vida de dúvidas.
E minhas dúvidas engessam meus dias.
Nada acontece, há anos.
Os dias pararam.
Estou parado.
Estático.
Parado.
Outro dia quis ter outra vida,
Uma vida diferente dessa,
Uma vida com ânimos.
Uma vida de risos.
Existência feliz.
Sorrir sempre.
Olhar bom.
Feliz
A depressão é assim funda
Funda e imunda e suja
E pegajosa e oca
e infinita
pra baixo
f
u
n
d
o
terça-feira, 13 de agosto de 2019
Rascunho
Ele saiu de casa. Subiu os sete quarteirões até o fim da rua e virou à direita.
Desceu as escadas. Estava um pouco de sol e ofuscou-se de início. Caminhou decididamente rua acima, até dobrar à direita e continuar seu caminho.
-.-
Faz onze anos que comecei escrever isso.
Só achei hoje.
Vejo que não acabou.
Vejo que não foi a lugar nenhum.
Vejo que nem sei para onde ia.
Vejo que é como a vida.
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
Deprê
Faz tanto tempo que acabou a Segunda Guerra Mundial! A Guerra Fria até teve lá suas emoções, mas não foi a mesma coisa. Agora o mundo é uma monotonia só. Esse papo de terrorismo, com uma ou outra explosãozinhas em que morrem dez ou vinte pessoas, num espaço de anos... Qual é hein? Quando as Torres Gêmeas cairam achei que a coisa ia realmente pegar fogo. Que começariam a caçar os culpados mundo afora, e que esses explodiriam cada vez mais coisas. E que os inocentes seriam perseguidos também, por via das dúvidas, e que aí finalmente minha vida começaria a ficar emocionante. Mas nada, o mundo apenas vai seguindo, sem graça, seus dias normais.
domingo, 11 de agosto de 2019
Estética
Há pessoas que se importam muito mais com a foto do que com a paisagem. Que sentido há nisso?
- Gosta de literatura?
- Amo literatura, amo os livros!
- O que tanto gosta na leitura?
- As histórias, os estilos, a forma com que os grandes autores revelam os meandros mais escondidos da alma humana, em diversas situações distintas, é apaixonante!
- E por que diabos você não quer a casa cheia de gente no sábado!
- Não gosto de bagunça!
- Gosta de literatura e não gosta de gente?
E esse é só um ponto... O que dizer então dos críticos, de forma geral? Críticos são seres inferiores. Em geral eles têm um conjunto vastíssimo de informações prontamente disponíveis em seus cérebros, e são capazes de fazer associações rápidas entre essas informações e as obras artísticas que analisam. O que, em princípio, tendemos a associar a alguma espécie respirante de cognição minimamente desenvolvida. Engano.
Tendo uma clara visão do desobjetivo da vida e entendendo que a felicidade é a melhor experiência que um ser vivente pode desfrutar, podemos sem grande dificuldade entender que inteligência é a habilidade de utilizar-se dos recursos disponíveis num dado contexto para alcançar a felicidade ou aproximar-se dela tanto quanto possível. Nessa definição de inteligência, fazendo-se uma comparação entre um crítico, uma pedra e um imbecil, temos que o imbecil sofre uma vantagem fenomenal. Em suas mãos, tudo é transformável em algo feliz. A pedra recai no ponto intermediário, sendo que nada em contexto nenhum afeta-lhe o humor em nenhuma direção. Já o crítico está no extremo oposto do espectro de inteligência, como o ser mais ignóbil que as estranhas combinações de aminoácidos jamais conceberam... Isso porque são extremamente hábeis na arte de colocar tudo em uma perspectiva desanimadora. Não há nada no mundo, aos olhos dos críticos, que não apresente sérios problemas, sérios vícios, desvios da perfeição...
Sei que aqui muitos argumentarão...
- Mas péra lá! Então está dizendo que devemos aceitar tudo no mundo como se fosse algo bom, sem jamais enxergar pontos em que as coisas possam ser melhoradas? Quer que a arte jogue ao lixo seus critérios? Que a capacidade de discernimento do cérebro humano seja jogada às favas, às cucuias, ao diabo que a carregue?
Não, não. Não estou colocando em minha definição de inteligência, em sua conexão com a importância da felicidade, a capacidade crítica. Trata-se na verdade de um foco na POSTURA crítica. Trata-se de uma atitude, de uma forma de vida. Explico melhor... Suponha que está assistindo um filme bem idiota, feito às pressas, com pouco orçamento e sem o menor insight filosófico. Assuma, apenas, que o filme foi feito por novatos em cinema que se divertiam com o que estavam fazendo. Podemos assumir que, sem precisar ser um especialista na arte das telinhas, você é plenamente capaz de enumerar centenas, se não milhares, de defeitos nesse filme. A atuação dos atores, escolha de cenários, iluminação, sentido das tomadas, sequencia do roteiro, ênfases escolhidas para a história... e assim vai. Minha questão é: por que diabos esse conhecimento deveria, obrigatoriamente, minar sua capacidade de se divertir com o filme e fazer da experiência de assistí-lo algo desanimador e tedioso? Será que seu claro discernimento sobre os problemas existentes acabam por minar sua capacidade de enxergar, para além da névoa densa de críticas, a alegria e a naturalidade humana que se esconde por trás do trabalho?
Note que não estou querendo inferiorizar os críticos por eles serem capazes de tantas observações contundentes sobre os aspectos deploráveis da maioria das obras humanas de qualquer espécie. Estou querendo inferiorizá-los porque são chatos sem graça, e considero gente assim uma espécie de existência menor. Fossem eles chamados a participar da elaboração da obra, o que teriam sido capazes de fazer ali, durante o nascimento da arte, com todo seu conhecimento crítico? Posso até assumir que teriam induzido substanciais melhoras (embora não julgue essa a possibilidade mais provável), mas é para isso que a capacidade crítica deve servir: para promover melhorias sempre que as ocasiões para tal se tornarem propícias, pois isso está de acordo com nossa visão de felicidade e nossa definição de inteligência: promover uma melhoria em algo que está nascendo é algo produtivo e que gera realização e alegria em todos os envolvidos. Criticar, sem nada produzir com isso, algo já existente, gera o que? Apenas nos priva de um tempo precioso da vida que poderíamos ter investido na arte da identificação de aspectos felizes da existência.
Podem dizer que sou incoerente por criticar os críticos. Onde na vida está escrita uma imposição suprema por coerência? Ao menos, no resto do tempo, sou feliz.
Descalço
sábado, 10 de agosto de 2019
Patente
Nunca contei à minha Nástienhka das minhas solidões todas. Ou de meu amor por ela. Sou mais um Florentino Ariza, mas também quieto, nunca escrevi cartas de amor, nunca dei os sinais que deveria. O que corrói é a hipótese de que ela também já me amou em segredo. Que talvez até ainda me amasse ou que já tenha feito por diluir esse amor nas águas do tempo.
E a vida segue e esses pensamentos todos são espetáculos secretos, dos quais sei os meus, mas que a muitos acometem.
Estranho contraste entre a profunda incongruência desses espectros internos e a rápida solução proposta pelo mundo prático numa trivial reunião de mesa de bar. Olhando essas duas vidas se fundirem na minha, já que não sou nem completo recluso nem invejável boêmio, fico a pensar que nunca somos vítimas. Somos sempre co-autores das emoções que borbulham em nosso peito. Por vezes, e talvez quando menos parece, somos os autores principais.
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
Deixa
Procrastinar... Eu não sei porque faço isso, se por desgosto das coisas que tenho por fazer, ou se por paixão desses instantes de não fazer nada em que todos os esforços mentais dedicam-se a sonhar com o futuro, desenhá-lo de infinitas formas possíveis e impossíveis.
Cada fazer cessa um sonho. Eu gosto de sonhar...
Duna
Se eu fizer da minha falta de tema meu tema oficial, em primeiro lugar passarei a ter uma linha de trabalho definida. Porém, inescapavelmente, cairei também em contradição. Eu até posso ser um escritor fajuto sem assunto, mas quando começo a me dar conta disso, corro o risco de arquitetar minha auto-destruição. O que fazer? Desistir de escrever só para curto-circuitar o cérebro no nada? Escolher um assunto, afinal? Se toda mente inquieta do mundo se desse ao trabalho de verbalizar suas inquietudes sem conteúdo, quem se prestaria a ler tudo isso? Já tem muita gente pensando sobre tudo, outras vivendo coisas diferentes, em lugares diferentes e de jeitos diferentes. Bandidos, gênios, heróis, safados. Tem de tudo lá fora. Não posso só sentar aqui e aniquilar-me num simples Nada que observa? Posso... não posso?
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Da profissão
Eu não sou escritor ou sou escritor? Escritor medíocre, sem tema, sem linha nem bem estilo, com espasmos de falar disso e daquilo mas sem variar muito, de vocabulário parvo, truão. Sem tema e ainda com trema, vacilão. Idiota, medíocre, sem maiores convulcionismos passionais: fato. Ou talvez eu seja isso apenas e o apenas mate de vez: escritor, escritor e só... Porque em geral nunca se é só escritor. Há escritores que são poetas, outros que são romancistas, alguns cientistas, outros cineastas, turistas, repórteres, velhos, sindicalistas, filósofos. Talvez eu esteja explorando um nicho abandonado às traças: sou um escritor desocupado. É esse meu predicado, a mais pura falta do que fazer. Venho aqui à noite quando nada mais é convidativo, engatilho os dedos e não mato um boi gordo sequer... só tiros inocentes no vazio. E não é curioso que esse pequenez toda, ainda que constatada, pouco me importe? Me divirto com o barulho das teclas, com o frio nos dedos expostos. Com os traços de cada letra que vai aparecendo. Quando eu era criança gostava de olhar as palavras nos livros sem fazer mínima ideia do que diziam. Hoje escrevo minhas palavras e fico aqui olhando o colapso de cada pensamento mudo em letra. E não faço a mínima ideia do que dizem.
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
Das mentiras que me escapam
Não era problema, mas ele fez que fosse. Suas desconfianças de si, mal escondidas, transbordaram ao mundo e foram vistas como verdadeiros crimes. Crimes que nunca aconteceram. O mundo é pura aparência, é assim que é, é assim que foi feito. É este o maior desafio para aquele que vive em última instância em nome da paz interior: nada garante que sua bem construída integridade transparecerá límpida e indubitável a quem quer que olhe. Antes o contrário... Toda interpretação é turva. Entorta, dilata, omite e acrescenta do jeito que bem entender, de jeitos que nem percebe. Quem se preocupa com as aparências vai pouco a pouco aprendendo a manobrar essa caótica mecânica da interpretação para segurar o mundo ao redor funcionando a contento. Mas quanto aos que se preocupam em primeiro lugar com o mundo interior, com as decisões em si e não com as informações sobre elas, com a ação ao invés da propaganda, esses pouco tempo tem e, além disso, pouquíssima prática desenvolvem, no trato com a sempre arredia interpretação alheia. Uma saída forte é tão desafiadora quanto a transformação do carbono em diamante: diamante é só carbono, nada mais, porém com uma perfeição infalível. Há que se recorrer à perfeição infalível, integridade total. Aquele que mente muito pouco deve perceber que não poderá mentir nunca.
terça-feira, 30 de julho de 2019
Dicas fundamentais
“Escreva com vinho, revise com café” – Honoré de Balzac
. . . e eu fico na dúvida, se falava sobre escrever textos, ou sobre escrever a vida mesmo. parece valer a mesma ideia!
domingo, 21 de julho de 2019
Das vozes
Eu amo cantar. Nem sei explicar. Não é um estilo específico. Não é por dinheiro porque não é nem nunca foi meu trabalho. Só lembro que desde criança tinha uns microfones de plástico e ficava cantarolando por aí. Gosto é da mecânica da coisa. De sentir o diafragma forçando o ar pra fora, a voz saindo, ora apaixonada ora revoltada como se eu fosse um deus a parir humores.
Mas quem vive de cantar? Uns poucos sortudos. Filhos de outros cantores que já ganhavam afagos de empresários muito antes de entender o que é uma conta bancária. Ou uns gênios que nasceram prontos sabe-se lá como. Esses caras que tem uma afinação perfeita e cantam óperas e cujas vozes variam vinte oitavas e atingem duzentos decibéis. E eles têm apenas seis anos. Vão a programas de TV e ganham prêmios até as prateleiras não aguentarem mais.
Eu não sou nada disso. Gostava é de ficar fazendo escândalos na sala ou no quarto, me esgoelando. Eu sempre me senti bem cantando, mas de que importa essa introspecção se o resultado objetivo é não lá muito melhor do que uma galinha sob lenta e sádica tortura?
Eu segui para a vida entendendo que minha paixão era uma distração e mergulhei em infinitos conflitos com todas as paixões que me distraíram.
Os estudos, os trabalhos, as coisas sérias. Infinitas coisas sérias. Tudo parece ser mais sério e mais importante e mais urgente que algo que não é mais que uma paixão íntima e pessoal. Mas nada nos falta tanto.
Viajava a trabalho e, claro, não podia ficar me esgoelando nos hotéis, nas reuniões ou nos táxis. Hoje me arrependo amargamente dessa falta de loucura. Esse comedimento que me corroeu a vida pouco a pouco.
Em busca de uma carreira que desse portas a esse futuro que todos entendem que é futuro, passava noites enchendo páginas e páginas e páginas com os exercícios de contabilidade e as revisões de direito constitucional e tributário enquanto meu quarto me afogava em silêncios.
Mas a gravidade das paixões, as verdadeiras, não tem botão de ON e OFF, não admitem um binário e definitivo abandono. Criamos distâncias mas sua força sutil, enfraquecida, segue agindo, segue puxando, segue com seu efeito invisível dia e noite. E eis que, bêbado num bar, num aniversário, lá está o microfone ligado ao videokê. E lá me vou madrugada adentro. Quando todos já foram embora. Os amigos, o aniversariante, o segurança, o garçom, o dono do bar, os cachorros da calçada e o uber que eu havia chamado.
E sigo cantando. Uma recaída que sinto como uma retomada. Parece que respiro depois de um mergulho de oitocentos metros. Tudo parece ter existido para justificar esse momento. Todas as contas que paguei foram para chegar até aqui e poder pedir minha garrafinha d'água. As roupas que comprei foram para não chegar aqui nu e ser expulso. As comidas que comi foram para ter energias de continuar cantando noite adentro.
Amo cantar. Mas quem vive de cantar? Não um ninguém feito eu. Só os mais sortudos ou os mais sofridos. Aquelas criancinhas, filhos de ciganos ou refugiados, que eram postas a cantar nas praças ao troco de qualquer centavo. Porque passaram assim tanto tempo praticando. Não chegarão a fama das mafiosas indústrias mas terão genuinamente vivido de um dom que esculpiram a força.
Não eu. Tive sorte de menos, conforto demais. Esse limbo que nos enforca com normalidade por todos os lados.
Confesso no meio disso tudo uma ousadia: crio minhas próprias músicas. Escrevo. Minhas letras. Imagino meus álbuns. Ideias que renderiam turnês e grammys e camisetas com meu nome em jovens inconsequentes.
Mas nunca institucionalizei essas paixões. Nunca estudei música embora gaste todo meu salário em livros sobre música, teoria musical, aprenda você mesmo, violão sem mestre, adesivinhos para o teclado, todas essas babaquices de amadores. Nunca entrei para grupos musicais nos centros sociais do bairro porque... É coisa de desocupado. E a prestação do carro, a pintura da sala, as compras para quando a sogra vier?
E as outras pessoas... as pessoas próximas. Claro que, em ousadias injustificáveis, vez ou outra mostrei alguma música a amigos. Não juristas musicais. Não outros cantores (outros?). Mas amigos. Amigos próximos. Amigos que me conhecem a vida toda. Amigos que riram. Amigos que me convenceram da estupidez de tentar ser qualquer outra coisa que eu pudesse querer vir a ser. Amigos que, em um encabulante esforço de simpatia, balbuciaram um tropeçante "hummm, legal..." que constrangeu até os bonequinhos do Toy Story que meu filho havia esquecido no quarto.
Mas ontem, sei lá porque, reincidi. Deve ser porque me mudei para Recife assim de impulso, de loucura, tem um ano já. Não conhecia ninguém, não sabia direito o que fazer. E ganhei esse sentimento de distância, essa percepção de que se pode fugir das vergonhas se desligar o Skype a tempo. Eu nem sei explicar o que fiz. Uma ousadia arrogante ou uma tentativa de suicídio.
Tenho uma conta secreta no SoundCloud com várias dessas gravações ridículas sem estúdio sem mixagem sem nada e enviei a uma amiga que é fanática por música, que passa as férias ouvindo músicas, que gasta todo o dinheiro com CD's de tudo o que é artista que se possa imaginar. Onde eu estava com a cabeça?
Eu queria o golpe de misericórdia, eu acho. Eu não queria submetê-la aos traumas do desrespeito mas eu estava pronto para entender o silêncio que se seguiria.
Mas ela elogiou. E elogiou de um modo um tanto quanto insistente.
"Não sei se você vai entender a grandeza desse elogio, mas eu escuto muitas coisas. E suas músicas são gostosas de ouvir."
Paralisei. Congelei. Fiquei ali olhando aquela mensagem sem saber o que sentir. O que pensar. Só depois entendi que essa paralisia era consequência de sentimentos precisamente antagônicos entalando no caminho à consciência.
Em um primeiro momento senti uma decepção. Sim, uma decepção. Porque eu queria paz. Queria um silêncio que me convencesse de que não eram apenas meus amigos de gosto musical duvidoso e limitado, ou minha esposa preocupada demais com as urgência das casas e das contas, que não eram capazes de enxergar minhas qualidades latentes. O desprezo frio me daria a certeza de focar em coisas mais úteis da vida e me livrar dessa loucura insistente. Mas ela falou. E veio um elogio.
E com ele, claro, uma alegria toda vaidosa. Mas, mesmo ela, ambígua. Porque fiquei a pensar nas minhas décadas todas. Em todo esforço para tentar ser bem sucedido em mil outras profissões que me tornassem outra pessoa, ou me escondessem, ou me confortassem com essa falha inescapável.
E se eu tivesse reservado um tempo para cantar em algum barzinho toda semana? E se eu tivesse comprado um carro um pouquinho menor e pago um estúdio para gravar algumas coisas? E seu eu não tivesse a bunda-molice de ficar escondendo tudo em contas anônimas nos sites de música e mais e mais pessoas conhecessem o que eu faço? E se? E se? E se? Fico repetindo "e se" dentro da minha cabeça. A seqüência é tão infinita e rítmica que parece uma locomotiva em direção à morte. E..... se..... e.... se.... e... se... e.. se.. e. se. e se esse esse essee... piuuuííííííí! Pum, caixão.
Cinquenta anos logo mais. Meio século. Ainda tem tempo? Tem. Mas não se sabe quanto. Nunca se sabe. Eu podia ter morrido quando o carro capotou na Castello. Desviei do caminhão a tempo. Eu podia ter morrido se aquele sequestrador tivesse puxado o gatilho no meio de qualquer mal entendido. Quando ele perguntou se eu acreditava em deus, por exemplo. E eu dividido entre dizer que sou ateu e despertar desprezo e raiva, ou mentir dizendo que sou crente e ser condenado pelas forças divinas que ignoro por ter mentido. Disse a verdade. Ele não atirou. Sou hoje um pouquinho mais crente por ter tido a honestidade recompensada com a própria vida.
E tem outra. Cada próxima batida do coração pode não acontecer, quem sabe? Há prédios que desabam, aviões que caem, atropelamentos, bujões de gás que explodem, salmonela na comida, celular que pega fogo, um pequeno meteorito entrando na atmosfera a ointenta mil quilômetros por hora bem na noite em que eu acampava longe de tetos seguros, relâmpagos, choque no chuveiro, escorregar no sabão e bater a cabeça na pia.
O que, neste último caso, já quase quase aconteceu. Cheguei meia noite e tanto no apartamento de uma amiga fotógrafa, que morava em Madrid, para um turismo barato de fim de semana. Eu só a havia visto uma vez. Amigos em comum, contato via Facebook e essas coisas. Depois dos cumprimentos era tomar um banho e dormir. Escorreguei na banheira e caí de costas para fora, destruí a cortina do banheiro dela e depois constatei que minha nuca passara a poucos centímetros da pia. Que morte estúpida teria sido. Ficar estribuchando no chão do banheiro da minha anfitriã aterrorizada até que qualquer resgate chegasse tarde demais. Por que é que eu estava viajando por ali, em primeiro lugar? Eu poderia estar cantando.
Mas é o que as pessoas normais fazem. Viajam e tiram fotos e colocam nas redes sociais. Trabalham meses juntando dinheiro para fazer algo nas férias e depois viajam para esquecer de tudo o que desistiram ao longo do ano.
Eu fiquei contente com o elogio. É claro que fiquei. A ponto de achar que boa parte dele foi uma gentileza exagerada. Não havia afinal nenhum compromisso ali. Mas não tenho como esconder minha crise.
Estou desapontado comigo por nunca ter confiado o suficiente em mim para continuar a me desenvolver numa ascensão monotônica, ainda que lenta, por todas essas décadas. E estou desapontado comigo por não prestar nem mesmo para ser um fracasso total e viver assim livre das torturas das dúvidas. Fracassei em ser um sucesso e fracassei em fracassar.
Vejo o sol preguiçosamente aparecendo novamente no horizonte e penso no poder dessas teimosias cósmicas. Sinto-me, de repente, uma espécie de rascunho bonito. E vou pensando em como passar a limpo.
sexta-feira, 5 de abril de 2019
A porrada do dia
“A mind too active is no mind at all.”
THEODORE ROETHKE
Cadê o freio, cadê, cadê?
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
Pela culatra
Mas é claro que os valentões estão felizes. E é claro que o empresário que se diverte no clube de tiro aos fins de semana sabe mais sobre armas que esse cara aí:
Especialista comenta os riscos de ter mais armas em circulação
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Tudo isso aqui
Todos eles nascem assim, hoje. Assim em dois berços. No berço hermético que habita em mim, berço fechado em si que se projeta pra si que só quer saber de si. E nos exorcismos. Nas erupções incontidas. Nas cuspidas escatológicas pra fora no último desespero abrupto que salva de um engasgue mortal. Exorcismos herméticos. Expressões desesperadas de mim que precisam nascer antes que me matem, mas cujas raízes e ligações finais guardo pra mim, covardemente demais talvez, prudentemente demais, espero. Eu sou um escritor no sentido mecânico de gastar tempo considerável na lida de escrever. Mas sou um leitor também, e como leitor estou longe de ter meus escritos como preferidos. Sou medíocre. Sou consideravelmente medíocre. Na variedade dos temas, na criação de cenas, nas fronteiras do vocabulário e no trançar do estilo próprio. Bem medíocre. E gosto disso, por fim, é estranho, difícil de explicar aos outros e difícil de explicar a mim mesmo. Mas gosto dessa mediocridade. Ela me dá a paz de saber que vou poder continuar escrevendo única e exclusivamente por conta disso: precisar escrever. Porque em outros domínios da vida já me deixei admirar em meus méritos e sei o fardo que é uma admiração próxima toda cheia das expectativas que cheiram de perto, olham de muito perto e querem tocar o tempo todo. Não se tem paz. E se tem algo que quero quando escrevo e que eclipsa toda minha mediocridade e me conforta é bem isso: essa paz.
domingo, 19 de agosto de 2018
Curto circuito
Eu não acredito nesse papinho barato de exotéricos exóticos místicistas que saem por aí falando de "energia". Energia positiva dali, negativa de lá... Eles não sabem calcular a energia cinética de uma pedra movendo-se a um metro por segundo e muitas vezes, nem mesmo, avaliar corretamente uma conta de luz. Pergunte a eles o que é um "quilowatt-hora"... Então, sem nem precisar discutir a viabilidade filosófica de algum conceito de realidade exótica, posso dispensá-los pura e simplesmente por estarem fazendo um péssimo uso do vocabulário disponível.
Mas embora a fenomenologia que professam esteja errada, devo admitir que ao menos alguns dos fenômenos que buscam explicar de fato ocorrem. Dizem esses místicos que há pessoas por aí que sugam nossa energia. Não, não há pessoas que sugam nossa energia. Mas há, de fato, pessoas que colaboram para que nosso ânimo se esvaia. Há todas as combinações possíveis... Duas pessoas podem fazer um bem danado uma a outra. Qualquer uma delas pode se sentir ótima com o relacionamento que têm ao passo que à outra este é extremamente danoso. E pode ocorrer também que a ambas nada de bom se manifeste.
Duas possibilidades são muito boas: pessoas que se fazem muito bem e pessoas que, mutuamente, se fazem muito mal. Sim, este último caso também é bom, pois em pouco tempo ambos reconhecerão que não há que se misturarem e pronto, problema resolvido, mutuo acordo, sem traumas. Mas duas combinações são potencialmente catastróficas... Sim, pois quando uma pessoa faz um mal danado a outra, mas essa outra faz um bem danado à primeira, tem-se uma forte assimetria que induz uma espécie de instabilidade dinâmica: se a coisa toda já era ruim inicialmente, tende com o tempo só a agravar-se.
Não preciso apelar a energia negativa, vibrações do astral ou sei lá mais o quê. Esse fenômeno do transfluxo de ânimos deve de alguma forma assentar-se sobre explicações físico-psicológicas que não impliquem em abalo nenhum à ciência moderna. Mas fica a conclusão de que devemos reconhecer o que uma pessoa recém-conhecida é pra gente para que possamos administrar tudo da melhor forma possível.
sábado, 18 de agosto de 2018
Os outros
Não se trata de você. O Ministério da Cultura não tem a ver com artistas. Quer dizer, tem. Mas não é por isso que ele é importante. Não me interessa saber quais artistas sobrevivem ou não sem este ministério. O importante, e o que deveria estar em discussão, é o acesso à cultura. Você, artista, consegue se virar sozinho. Tem um trabalho reconhecido. Nunca teve um projeto que passasse por projetos de apoio do governo. Parabéns. O ministério da cultura pode não ter nada a ver com você mesmo.
Mas então me diga... Quantas vezes você utiliza dinheiro do seu próprio bolso para viajar a lugares distantes e realizar apresentações para pessoas que não podem pagar? De resto... Financiamentos indevidos devem ser combatidos. Regras inadequadas precisam ser alteradas.
Na política não existe linha reta. Na gestão de um país não existe rota direta. Adequações devem acontecer o tempo todo mas uma coisa é fundamental: não perder de referência o norte. Em muitos países avançados e com bom cenário cultural não há uma entidade autônoma dedicada exclusivamente à cultura.
Muitas vezes é uma área ligada ao ministério da educação ou alguma grande área qualquer. Mas o Brasil tem sua história própria. Tem sua inércia própria de ignorar a cultura. Ou melhor, ignorar a descultura daqueles que mais dela precisam. Um ministério autônomo facilita, dentre outras coisas, a fiscalização de suas ações. A denúncia de seus problemas visando melhorá-lo o quanto antes.
E, lembrando, caro profissional da cultura... o foco não é você. Acho sim escandaloso que artistas endinheirados como Ivete Sangalo ou outros "grandes nomes" (grandes contas) recebam dinheiro público para apresentações. Mas não acho que a briga seja por "deixar de pagar os grandes artistas para pagar os pequenos". O objetivo central de uma boa política pública de cultura deve estar centralizado, repito, nos destinatários... Cursos, teatro, música, acontecendo naquelas cidadezinhas abandonadas. Ou naquela periferia que é um mundo à parte. Aqueles lugares em que muito artista não vai topar ir nem pagando. A cultura precisa chegar a essas pessoas. E esta deveria ser a discussão.
E nem vi ninguém discutindo isso.
Vi gente reclamando que o ministério deveria voltar porque vai acabar dinheiro para atividades culturais. Vi pessoas falando que o ministério não deve existir porque dá dinheiro para quem não deve.
É mais ou menos o seguinte: todo mundo num farto jantar em torno de uma mesa bem recheada, discutindo sobre a fome no mundo, enquanto lá na calçada os mortos de fome continuam a cair pelos cantos.
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
Contágio
Condorcet acreditou que o progresso científico implicaria em um progresso humanístico da sociedade. Seu erro foi olhar puramente para o acúmulo de conhecimento sobre a natureza, o acúmulo de domínio técnico, e ter ignorado um outro ingrediente fundamental para o que desejava: a transmissão de conhecimento. Ou, mais precisamente, a transmissão de inspiração pelo saber. Algo que a humanidade tem ignorado sumariamente e que tem sido o principal ingrediente para o ziguezaguear da história.
quinta-feira, 16 de agosto de 2018
Freud
Ela tinha pernas deliciosas. Não que estivessem completamente à mostra, ou muito menos que eu já as tivesse experimentado. Mas era visível, era notável, óbvio, impossível deixar passar. Deliciosas. Aquele vestido azul de tecido fino e leve descia até pouco abaixo das nádegas. E as nádegas estavam a uns meros centímetros do meu rosto, quase nada abaixo da minha linha de visada. Como não olhar? A escada rolante é uma invenção dos homens, uma criação do sexo masculino. Essa obra prima da tecnologia moderna veio ao mundo mitigar o risco de tropeções indevidos enquanto investimos toda nossa atenção aonde ela deve estar: na gostosa mais próxima.
Não resisti. Resolvi morder. Mordi.
De repente estava num jardim meio abandonado. Pessoas conversavam comigo, queriam saber se deveriam carregar as coisas até a garagem ou deixá-las ali no terraço. Eu estava com frio...
De repente o sol queimava meus olhos. Na boca, um gosto horrível. Olhei para o lado e de repente meu corpo todo sentia o gelo do piso do quarto. Cadê ela?
Das apreciações
Confesso duas maneiras distintas e opostas de apreciar a manifestação intelectual. Ambas coexistem em mim.
Por vezes admiro a paciência e o capricho das longas e detalhadas explicações.
Noutras tantas acho que só a manifestação direta e sucinta faz sentido. Afinal, se gastarmos a vida toda lendo longas análises para por fim compreender o mundo, não haverá mais tempo para por nada em prática.
Creio que a manifestação ideal não pertença a nenhum dos extremos.
terça-feira, 7 de agosto de 2018
Dilema
E é interessante isso... Ninguém sabe o que vai acontecer! Ninguém sabe... E mais ainda, digamos logo de uma vez! Ninguém sequer sabe o que acontece! Duas pessoas juntas, dizendo coisas, dividindo gestos, e pensando universos secretos. E sempre será assim... Às vezes as coisas se acertam, discussões, brigas ou sorrisos, coisas leves... Todo jeito é vivido por alguém.
Tem alguém aí sem afinidade com o futuro. Esse alguém talvez seja eu, embora eu costumeiramente minta sobre quem sou. Mexo nas minhas coisas... Compro promessas de futuro e espalho pelo meu quarto. Fico mexendo nelas... Sonhando serem certas histórias emocionantes.
Eu gosto de abrir portas, não de viver dentro da sala. Gosto de folhear livros, de ver filmes, de abrir gavetas, de conversar com estranhos. Adoro conversar com estranhos. E tenho esse problema, esse problema sobre amanhã... O que vai ser amanhã?
Tenho medo do futuro mudar, mas tenho medo de já sabe-lo... Se eu já sei do futuro, tenho um pouco menos dele por desvendar. O inesperado me assusta, mas me seduz...
sábado, 4 de agosto de 2018
A mansidão que mata
A mansidão dos intelectuais é o tal do "silêncio dos bons" que tanto assustou Luther King. As pessoas que realmente são capazes de tomar boas decisões para o mundo, que são realmente capazes de entender a economia e as relações culturais diversas, essas estão quietas. Vivendo suas vidas de livros interessantes e programas culturais enriquecedores. Mas uma vida desprovida de ações exceto em casos extremos. O paradoxo é esse: pessoas boas são mansas, mas a mansidão não favorece a propagação cultural dela própria ou a ascensão ao poder das pessoas assim formadas. É assim que temos um mundo oscilante. É preciso que a coisa degringole demais para que as pessoas mais corretas se mexam. Aí depois elas relaxam e os Trumps e Bolsonaros da vida assumem os postos de poder.
sexta-feira, 3 de agosto de 2018
De novo
Boca seca.
Peito mole, respirando estranho.
Não, eu não sei chatear ninguém.
Bem que deveria.
Sei que deveria.
Mas não gosto de ter que chatear ninguém.
É estranho esse peso de ser quem se é.
Porque é preciso agir sobre o mundo,
Interferir, mudar, agredir...
Boca seca...
Braços largados...
Vontade de cair na cama
E não amar nunca mais.
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
Da leitura e da fala
As conversas deveriam ser o meio principal de interação humana e de troca de ideias. Mas não são. Não é coincidência que precisamos da linguagem escrita para que a humanidade pudesse acelerar seu progresso humano, científico, econômico e tecnológico. A leitura, ainda que seja um contato com o outro, é uma experiência solitária, individual. As palavras alheias soam em nossa mente com nossa própria voz imaginária. Dividem espaço direto com nossos próprios pensamentos sem violentar nossos ouvidos. Há o tempo de ponderação. Há a oportunidade de se completar um raciocínio em algumas páginas.
Donde concluímos que o progresso da humanidade deve ser correlacionado ao progresso da experiência de leitura - quantidade E qualidade.
Donde concluímos que estamos na merda.
Assim
Eu desejei. Que mal há em desejar? Macia, apertável, cheia. Água na boca só de olhar. Deixei meus pensamentos pensando o que quisessem, ninguém estava olhando. Tirei toda sua roupa em meus pensamentos, mordi seu corpo. Nos amamos até a exaustão. E ninguém nunca viu. Nem você.
terça-feira, 31 de julho de 2018
Olha o nível
E quando o café acaba? Aí eu fico olhando para a xícara. Olhando para o computador. Olhando para a janela. Acabou-se a minha distração. Acabaram-se as minhas desculpas. Não posso mais enrolar com o trabalho. Estou com a cabeça cheia de café, devo estar a mil, acelerado, estimulado! Não posso mais ficar girando a caneca de um lado para outro, observando as ondulações na superfície escura, imaginando quanta coisa está acontecendo ali. Tensão superficial, forças de Van-der-Walls, força centrífuga. A cafeína atrapalha o Van-der-Walls? Certeza que com a água pura as forças são mais fortes. Aquele mosquitinho que caminha sobre os lagos e beiras de rios nas águas calmas, apoiando-se na tensão superficial da água, será que ele cairia dentro da caneca de café? Será que eu engoli um? Aí será que ele sairia voando feliz, acelerado, estimulado, cheio de energia? Ou ficaria puto da vida com a quebra dos pequenos equilíbrios da sua vida, tal qual eu estou agora, sem saber o que fazer porque acabou a porra do café?!