sábado, 7 de setembro de 2019

Lídia

Era bela a donzela
Mas tanto sorria
Que mal comia
Era leve e magrela

Era doce o toque
Tremia a espinha
E o ânimo que vinha
Chegava ao Oiapoque

Um beijo lhe dei
Malandro, sorrateiro
Não foi cheque nem dinheiro
Um sonho lhe roubei

Modéstia egocêntrica

Me orbito
Me gravito
Se distrair
Me óbito
Nem vi
Me sinto
Me sirvo
Se distrair
Me sento
E olho
E nem vi

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Termo

Trinta átomos numa caixinha. Eles andando à vontade por aí, existem várias combinações possíveis. Existem muito mais cenários possíveis em que os átomos estão mais ou menos igualmente distribuídos pela caixinha, do que todos concentrados num cantinho. Daí que o estado dos átomos todos num cantinho é uma espécie de estado de alta energia. Difícil de se conseguir, dispendioso, e capaz de realizar trabalho. E, mais que isso: impossível de se encontrar na natureza.

As expressões de humor são como um fluxo de átomos de constituição humana. E eis que há muito mais cenários possíveis em que os átomos agrupam-se de qualquer modo pela caixa toda, do mal humor ao bom humor, passando indiferentes pela média. Difícil encontrar todos ali no cantinho do bom humor.

O bom humor não é natural. É uma espécie de geladeira a consumir energia e a contrariar as imposições da natureza, conservando o Humano saudável e aumentando seu prazo de validade.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Putas do Paissandú

Outro dia eu estava voltando do serviço, passando lá pelo Largo do Paissandú por volta das seis e pouco da tarde.

- Psssiu!

- Pisssssiiiiiiiiu!

As putas todas clamando por clientes. Sem grande egocentrismo, acho que elas me chamam com mais insistência, por eu ser assim algo novinho. Antes eu, novo e limpo, que um velho tosco e etranho querendo torrar a aposentadoria falando "boneca" ao ouvido delas enquanto deixa cair a dentadura.

Pela enésima vez pensei: vou escrever sobre essas putas!

Eu já conheço a maioria de vista, somos quase íntimos. Nos olhamos nos olhos quase todas as tardes, antes de vir o brochante pissiiiu.

Um causo de um cliente inusitado.

Um drama existencial a retratar a condição em que elas vivem.

Um grande amor impossível. Um ousado amor que, em meio aos promíscuos ossos do ofício ainda assim se fizesse possível.

Uma história de putas a quebrar expectativas: o foco de repente é o poddle que uma delas, Talita talvez, mantém no quarto de trabalho. É o xodó dela e ela expulsa qualquer cliente que se irritar com o animal.

Sim, sim, e talvez com algum apelo artístico mais elevado, tecendo algum paralelo entre a condição do cachorro e a da puta. Talvez com uma arte mais transgressiva, levando todos a conclusão final de que o único animal é o cliente e mais ninguém.

E por que não a linha comicista? Sei lá, as paredes do quarto são indiscretas, as putas compartilham os sons das colegas de trabalho, ouvem-se conversas, clientes descobrem tramas de outros clientes, segredos se revelam, a verdade se prostitui.

E eu nunca escrevo sobre as putas. Cruzo o Paissandú de um lado a outro. Vejo as saias curtíssimas dos dias frios e quase inexistentes dos dias quentes. Os olhares simpáticos e a expressão estranha, que o rosto nunca mente por completo. Os seios egocêntricos em seus despudores. Pisssiu! Pssssiu!

E vou me divertindo pensando em quantas e quantas histórias são possíveis. E qual o grau de ficção e verdade de cada uma. E, melhor: sai de graça!

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Saudade

Um pouco de Sagatiba.

Eddie Daniels no clarinete, preenchendo o ambiente.

Morangos.

Leminski ecoando em meio a pensamentos imcompletos.

Uvas.

As fotos da festa, mentindo em sorrisos tantas agonias secretas.

Folhas de manjericão.

Caneta tinteiro e papel.

Uma gota de groselha.

Uma pitada de má caligrafia, pra descontrair.

Uma almofada no chão da sala.

Só falta você.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Prático

Pensar dói.
Amar dói.
Ser dói.
As contas doem, ô se doem!
Dormir não dói,
boa noite!

Olé

No começo eu achava graça. Criar um personagem fictício, um pseudônimo, pra poder escrever sem medo de ser feliz. Qualquer coisa que viesse à cabeça. Sem ter que ser bonitinho, correto, audaz, contundente ou engraçado. Na internet coloca-se qualquer coisa, e ninguém me pagaria por isso. Então tava valendo tudo, tudo!

Mas comecei a perder o controle. De início, ficou estranha a fronteira entre pseudônimo e heterônimo, o que deu um certo trabalho. Daí o heterônimo ganhou vida, começou a ficar meio independente e a fazer coisas por si mesmo.

Até aí tudo bem, acontece, vá lá...

Mas de indiferença passou a desobediência explícita, a competitividades.

O heterônimo que criei passou a ser mais sociável que eu. Pega mais mulher que eu. Escreve melhor que eu. Come melhor, é mais sadio e mais sarado, até sorri mais bonito.

Tô ficando velho.

Já ele, tem a idade que quiser!

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Desesperado

Morena linda, busto altivo,
quadril preciso, sorriso perfeito.

Mas onde está ela?

Olhos verdes, loira fatal.
Vestido fino, quase transparente.

Mas onde está ela?

Carinhosa, toque aveludado.
Mordida provocante.

Mas onde está ELA?

Tantas outras.
Tantas nenhumas...

domingo, 1 de setembro de 2019

Postura

Minha irmã é carente. Eu também sou carente pacas. Minha mãe é carente, sofre a solidão como uma criança curte o vídeo-game: se você tentar impedir, ela morde e esperneia. Tem uma diferença comigo. Eu corro atrás de gente. Fulano, cicrana, beltrano, ziltrana não falaram comigo, não ligaram, não responderam meus e-mails, não retornaram meus sms... Fodam-se! (não todos juntos, enfim, como bem quiserem, mas fodam-se, como bem entenderem). Procuro outras pessoas. Conhecidos-esquecidos ou estranhos-novidade. Tem tanta gente no mundo. Toda amizade, até amor, é tudo efêmero, não precisamos menosprezar a superficialidade de uma novíssima amizade de poucas horas. Tem tanta gente no mundo. Corro atrás de gente nova, diferente, de quem aparecer. Converso, falo, escuto. Proseamos. Sozinho fica mesmo quem quiser, só.

sábado, 31 de agosto de 2019

Mãe

Xícara, pires. Colher perpendicularmente posta.

Leite quente.

Café e aquela fumacinha de vapor indiferente a tudo, subindo, calma que dá inveja.

Azuleijos frios.

Barulho de metal contra a porcelana. Colherinha mexendo, girando, girando, girando, girando...

E ela gritava tantas coisas por dentro. Sofria o marido tê-la deixado.

Os filhos não compreenderem nada. Sofria a irmã controlar sua vida...

Sofria a casa gigante estar velha e caindo pelos cantos

pintura

telhado

goteiras

janelas

poeira

bagunça

ratos

E gritava, e gritava por dentro, músculos rígidos, berro de cançar pulmões, diafragma, até as pernas se cansavam, de tanto berrar!

Metal contra a porcelana, girando, girando, girando... Lá fora, só se ouvia isso.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Dói

Eu a amo há anos. Ela me vê como o melhor amigo. De longe, disparado: o melhor. Ligou aqui de manhã dizendo que estava louca para conversar comigo, daí transformei-me em segundos num ser humano banhado, penteado, cheiroso e arrumado, e lá fui, quase num teletransporte, com aquele zuwwwiiiíííiímmm de fundo e tudo o mais.

Ela estava despenteada, do jeito que a noite de sono a deixou. Chinelos de dedo. Óculos mais pendurados na cara do que encaixados sobre o nariz. Acho que flagrei alguma remela no olho direito. Linda. Lindíssima, não tinha competição... Eu a via, fosse como fosse, e tinha essa sensação dentro de mim, que só se verbaliza assim: linda! Ela sorriu também, pensando os pensamentos dela ao me ver. E desatou a falar:

- Cara, preciso te contar... Ontem fui a um happy hour. Você não imagina! Do nada, sei lá eu como, só sei que conheci um cara tãããão legal!

E ficava eu lá, melhor amigo, ouvindo as inusitâncias da vida dela. E eu lá, apaixonado, fingindo que não era eu ali. E eu lá, apaixonado, fazendo um esforço impossível para não ser eu mesmo e deixar que ela fosse ela própria, em paz.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Verdade

Meu sincero é engolido de mim mesmo pra um buraco vazio, que fica sei lá aonde!

Saí de casa, saí correndo, saí da cidade, do estado, do país, fui pra sei lá aonde, pra longe! Fui pintar meus sonhos de outra cor, em outras paredes, com outras tintas. E eles estavam lá, sempre os mesmos sonhos, sempre os mesmos desejos.

E continuo num deserto, num deserto em que cada gota de afeto se transforma num oásis que esgoto até o final, todo mililitro, todo pedacinho, toda partezinha. Até acabar. Até acabar numa saudade asfixiante. Numa vontade desnorteante de abraçar, de querer, de ter...

No fim, é ela quem amo, e não me pareço capaz de mudar isso.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Mais que justo

Um dia desses marquei uma reunião com meu autor. As coisas estavam muito bagunçadas, eu estava ficando perdido. Pra começar: sou um pseudônimo ou um heterônimo? Sim, essas coisas precisam ficar bem claras, se não a gente não se organiza, sabe?

Aí ele insistiu para que eu fosse um heterônimo, falei que tudo bem até, mas que isso dava muito trabalho e tal. Ele não mudou o pagamento. Ora, é muito pouco! - esbravejei. Ele ficou irredutível.

- Um personagem fictício não pode viver só de migalhas!

- Ué, não pode?

- Claro que não! É abuso, exploração, escravidão até!

- Ué, mas um personagem fictício não precisa se alimentar, não precisa andar de carro, não precisa ter um guarda-roupa tridimensional como o nosso! Você não precisa de um salário!

- Como não, como não? Olha, um personagem fictício desses figurantes por aí, vá lá. Aparecem num conto, colocam a cara na página, falam umas coisinhas e somem pra nunca mais aparecer em sebo nenhum. Esses realmente, não precisam de nada. Mas e eu?

- Ô bonitão... o que tem você de especial, hein?

- Não ironize! Respeito, ou te denuncio no sindicato! Eu sou um heterônimo, não é isso que exige de mim? Um heterônimo tem que ler outros livros, ter outros princípios políticos, se vestir de outro jeito, amar outras mulheres, ver outras paisagens... Como quer que eu faça tudo isso se ficar o dia inteiro sentado num canto aí vivendo a vento esperando você aparecer?

- Não não, é que...

- É que nada! Sem essa de é que. Exijo um salário, décimo terceiro e tudo, e exijo horário de trabalho definido. Cara, um heterônimo assim culto, viajado, ter que ficar servindo pras suas historinhas no meio da madrugada, soa a fim de carreira, né não?

- Você não está feliz?

- Estou exigindo meus direitos, isso não tem nada a ver com felicidade!

- Você está bravo comigo?

- Olha, não estou bravo. Só estou atrás de uma relação profissional, para que tudo funcione bem. Eu cuido da minha vida, você cuida da sua. Que tal?

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Sistema

Descobri: eu não gosto de exaltações... Não, não gosto. Minha irmã, argumentando sobre o quão falhas são as bolsas de valores e o quão burros foram os capitalistas todos que não aprenderam nada com as lições de 1929, exalta-se. Eu odeio isso. Gosto de razoabilidade. Razoabilidade seria ficar menos irritada para tentar demonstrar contundência, e gastar mais tempo investigando o máximo que puder. Afinal: quais discussões ocorreram após 1929? O que os economistas da época disseram? Como o governo reagiu a isso? Por que determinadas medidas foram tomadas, e outras não?

E aí observo as outras pessoas, e há o mesmo fenômeno por toda a parte: ninguém está nem aí, nas discussões do dia-a-dia, para a razão que sustenta (ou não) cada argumento. Fala-se de política, de aquecimento global, de planejamento familiar, temas importantíssimos, sempre na base da exasperação como recurso lógico principal. Arthur Schopenhauer escreveu o pequeno porém curiosíssimo "Como vencer um debate sem precisar ter razão". Por um lado é uma pequena obra irônica, satírica. Mas o curioso é que a muitos realmente chama a atenção, e digo a quem: aos letrados. Aos educados nas escolas do filosofismos. Esses aprenderam formas tão amenas de tentar vencer um debate por meio da razão que atrofiaram no resto. Para todo o resto da humanidade, o livrinho é dispensável, supérfluo total.

A gente já sabe. Já nasce sabe sabendo. Tá nos genes, tá armado aí dentro da gente. Discordaram: grite. Ameaçaram: ataque. Duvidaram: insista. Muito diferente do que ensina a escola dos letrados. Discordaram: ouça. Ameaçaram: dissuada. Duvidaram: pondere.

Já não me deixo surpreender com a violência argumentativa das pessoas em geral. Vou é me deixar ficar curioso. Vou estudá-la. Vou entendê-la. Vou continuar tentando responder minha questão fundamental da existência: por que as pessoas fazem o que fazem, e não qualquer outra coisa?

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Mecânico

- Eu ainda gasto tanto tempo pensando nela...

- Eu sei cara, mas deixe isso de lado, que idiotice! Quanto tempo você acha que ELA gasta pensando em você? Você é o melhor amigo dela, nada mais que isso... São outros que inspiram desejos e tristezas naquele coração.

- ... pois é, eu sei... Sei lá, vez ou outra sou tomado por uma esperança estranha, de que algo, quem sabe um dia, por inusitado que seja, por impossível que pareça...

- Sim, sim, mas olha, você se transformou em uma ilha de paz e segurança pra ela. Não há nenhuma tristeza a ser vencida mais na relação com você. Nenhum problema mais a ser transposto. Logo, você já é algo definido. Me desculpe, mas você errou. Cordial demais. Pacífico demais. Complacente demais...

- Você está dizendo que, além de tudo, isso é culpa minha?

- Mas é claro que é! Você tem muitas amizades com mulheres, certo?

- Certo...

- E sabe me dizer o porquê disso?

- Bem, eu as entendo, converso com elas, eu as respeito...

- Ah, você as respeita! Então esta é a causa do seu sucesso em fazer amizade com as mulheres: você as respeita. E sabe qual é a causa do seu insucesso amoroso com as mulheres?

- Qual?

- Você as respeita...

domingo, 25 de agosto de 2019

Buraco negro

Eu quero todas as músicas do mundo. Todas as vozes, todos os sons, sustenidos e bemóis. Quero todas as letras, todas as rimas. Quero todas as imagens, todas fotos, todos os sons.

sábado, 24 de agosto de 2019

Excessos

E foi tão forte, tão repentino, tão intenso dentro de mim, que não houve tempo para que meu rosto acompanhasse. Que não houve tempo para que meu olhar mudasse. Que não houve tempo para que eu escolhesse palavras mais apropriadas a um sentimento que transcendia a cordialidade e a admiração respeitosa. Paixão. Desejo. Admiração. Uma explosão instantânea de identificação com ela. Tão intensa que ficou para sempre contida dentro de mim. E então foi que ela nunca soube que havia em mim esse sentimento. Desde o segundo milésimo de interação comigo, eu já estava inteiramente tomado por esse sentimento. E eis que, para ela, sempre fui como fui. É meu normal, e pronto. Amá-la é uma obviedade. E como acontece com todas as obviedades ao longo da história, esta também dificilmente será descoberta. E o mundo não é retilíneo e bem definido como em histórias. O que eu faço para esconder todo esse amor? Para onde mando tanto desejo represado? O que fazer com os impulsos mais tenros de bons tratos e agrados? Ao fazer desse amor um amor secreto, tornei-o infinito. Eu gosto dela mais do que de mim. Sem nunca ter declarado todo esse amor, sou dela o "único triunfo", a amizade masculina que deu certo. Teria dado certo, sem tanto amor assim? Sem um amor tão grande que se dispõe a se esconder, assim, voluntariamente?

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Eu

Adoniran Leblon é o que escreve porcarias. É o que não está nem aí. É o que não se importa com o amor dos outros; mergulha no próprio coração e esmiuça todos os cantos até se afogar de tédio com essa infinita monotonia de diferenças sem fim. Adoniran Leblon não pensa antes de se expressar. Expressa o desespero de pôr pra fora do jeito que vem. Adoniran Leblon não tem critérios, não se policia. Adoniran Leblon é um eu meio outro eu, o lado de mim que é pra dentro, sendo portando despudorado por não ter autoria de nada disso que nasce sem controle. Adoniran Leblon é um espelho fosco onde vejo meus contornos. Adoniran Leblon é um rascunho de possibilidades irrealizáveis. Adoniran Leblon é um passado que eu não vivi. Adoniran Leblon... um amigo e tanto!

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Desamando

Andavam pela rua e sorriam das coisas miúdas, sem que grandes preocupações lhes roubassem o tempo de viver. Mas tinham medo demais de macular tanto interesse recíproco com qualquer jura de compromisso. E assim foi que esse amor germinou pra dentro e implodiu numa distância que não agradava a nenhum deles, e nada conseguiam fazer para transformar a saudade em sorrisos de novo.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Triângulo

Ah M., querida... Fiquei sabendo que não estava mais namorando, e dei pulos e mais pulos de alegria, e comemorei até o instante em que lembrei que era eu ainda quem namorava. E ainda namoro. Deveria eu magoar uma pessoa tão boa por conta de meus assuntos mal resolvidos? Quando aceitei namorar a S. não foi como que assumisse o compromisso de superar todos os meus problemas ou de ao menos guardá-los para sempre no alçapão profundo de minha intimidade, de modo a jamais permitir que interferissem na ordem do mundo?! Mas quero terminar, como quero. Não sei qual a razão dessa sede de coerência, não sei porque é tão difícil assim contrariar os próprios sentimentos... E, no entanto, sei que não me ama nem me amará. M., meu amor! Nunca vai saber o tamanho dos sentimentos que nutro por você, nunca vai entender a natureza desse amor que deixo orbitar sua vida de longe, numa órbita perfeitamente circular desenhada para nunca se aproximar nem nunca se afastar nem mais um tanto. Saber que são outras pessoas as que movem seu coração dói, mas já doeu mais. Aprendi a esconder no fundo de minha alma meus sentimentos, e a conservar na roupagem social somente a fração amizade desse amor, que é a fração aceitável, que é a fração que não gasta, que é a fração não egoísta. Eu sofro por te deixar não minha sem brigar, e não entendo porque aceito isso. Mas é fato: prefiro assim. Prefiro ter pra sempre um acesso à sua vida, como amigo, do que o risco de diluir tudo o que podemos sentir um pelo outro nas profundezas obscuras de um amor relâmpago. Conservador demais? Medroso? Covarde? Ou heroico no esforço hercúleo para superar os impulsos mais imediatistas? Com sinceridade: não sei dizer. Sei que amo você e que escondo esse amor dentro de mim como meu segredo mais bem guardado, e sinto que é o preço que pago para não perder você da minha vida. O resto são conjecturas de uma mente e um coração perturbados, que adorariam entender mais dessa realidade que lhes escapa e lhes envolve ao mesmo tempo.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Tango

Ré Fá Si, Buenos Aires Café: tango. Fones de ouvido fazendo meu mundo secreto. E vou passando pelos blogs das pessoas que põe a alma do avesso, que vomitam o lado de dentro, que gritam pro mundo, do alto do Everest: eu! sou eu! Um grito no vazio, e eis que uns, aqui e ali, escutam. Vou vendo as vidas dos outros e entendendo que nestes últimos anos eu morri. Sim, é isso, que outra explicação há? Eu morri... A vida que borbulhava dentro de mim, que pensava, que queria, que sonhava, que dançava no escuro: cadê? Onde? Deixei esses anos sérios diluírem-na para sei lá onde. E agora tenho que reconhecer que morto estou, e que é algo morto que olho o mundo. É um momento importante, afinal esse tango tem qualquer som de que renascer é possível. De que a morte é inevitável, e que nem por isso é um fim. Vou renascer num agudo qualquer, num desespero novo, que não sei bem aonde será. Onde está a vida mais prazerosa de se viver? É só isso que quero saber... quero sentir esse sabor delicioso, que tantas vezes experimentei aqui e ali, mas que se dilui em seriedades inúteis. Seriedades que nos fazem humanos ao nos roubar o melhor de nossa humanidade. Odeio as seriedades.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Saúde

A cada tosse, vai-se embora uma Hiroshima num canto qualquer do meu cérebro. Vista turva. Isso é uma cadeira ou um puf? Desabo em cima e não percebo a diferença. Os olhos ardem: o alto-forno de uma siderúrgica. Pelo nariz escapa um pântano selvagem e indomável. Uma aspirina, sono, cama. Um afago na peruca despenteada. Falta o afago, falta o afago...

domingo, 18 de agosto de 2019

Necrófilo

Há sempre mais no mundo. Me apaixono e jogo na calçada. Não piso e cuspo e chuto por apego ao glamour da aura de homem respeitoso, mas confesso que há em mim o impulso. Amei, ardeu, queimou, já era, já foi! E dói, e dói tanta a saudade! E não quero que volte, não quero de novo. Entende? Já sentiu isso? Aquela menina da faculdade, aquela conhecida da viagem, aquela namorada inusitada, aquela paixão das cartas sem fim... Que saudade sem-vergonha, de dar nós nos dedos enquanto escrevo. E não quero que volte. Não quero reviver. Não quero que seja possível. Gosto da minha galeria de sentimentos extremos.

sábado, 17 de agosto de 2019

Dos espelhos

A Cássia queria prestar o TOEFL, um exame de inglês. Eu a havia encontrado ano passado. Ela estudava os pormenores das gramáticas e sabia todas as regras. Verbos regulares e irregulares. Coisas contáveis e não contáveis. Só havia um problema. Ela não falava.

- Fico nervosa quando penso que vou falar para alguém que sabe mais que eu.

Combinamos que ela me enviaria áudios pelo WhatsApp, para praticar.

E nunca mandou. E se passou um dia, uma semana, um ano.

E eu insistindo, insistindo. Passei o último mês escrevendo para ela todos os dias, explicando que não importa o conteúdo, importa que ela vença essa barreira que a faz paralisada quando ela tem, sim, algo a dizer. Esse perfeccionismo que a transforma em silêncios.

Briguei e insisti e fui claro: desse jeito, sem chances. Expliquei tudo de trás pra frente, de frente pra trás, de lado e em cores diferentes. Até que, finalmente, ela enviou um áudio. Quarenta e dois segundos. E eu não perdoei. Elogiei mas com ironia e sarcasmo ácidos: parabéns! Esse levou só treze meses, quatro dias e duzentos e oito minutos pra chegar! Nosso objetivo é continuar reduzindo o tempo até chegarmos a um minuto ou menos!

À noite, depois do jornal, fui organizar os arquivos do computador. Encontrei esse arquivo, Artista.txt. Que eu havia começado a escrever em 2010 e desde então, nove anos, oito meses, dezessete dias, seiscentos e trinta e quatro minutos depois, nunca mais continuei.

A gente só aprende as lições que ensina.

Mais das métricas

A minha métrica é a felicidade, a alegria pessoal vivida, sentida, experimentada.

Mas reconheço que há uma outra métrica, que pode talvez ser dita universal, que prioriza a originalidade, a complexidade agregada, e essas coisas. Assim, um livro de piadas que me faça rir é um bom livro para mim, mas uma grande obra filosófica, por mais merecimento que tenha na história do pensamento universal, só será boa para mim se eu me sentir, de alguma forma, feliz ao lê-la (pode ser uma felicidade sublime, contemplativa... não estou associando o mérito à gargalhada, mas apenas a um sentimento de prazer bom).

Aí é que, agora me ocorre, os bons livros se dividem em duas categorias, se tentarmos unir minha métrica à métrica universal. Existem os bons livros bons e os bons livros ruins. Os bons livros bons são aqueles tidos por todos como bons. Platão, Aristóteles, Marx e Weber são bons livros bons, assim como Shakespeare e sei lá mais quem. Já livros como A Expansão da Memória, de Luís Carlos Eiras, de 1986, se forem conhecidos de alguém mais além de mim, provavelmente serão considerados no máximo como uma ilustre porcaria. O mérito desse que citei, dirão, talvez seja o de ser uma sátira da informática escrito numa época em que a informática ainda engatinhava. Só isso. Mas, em termos de literatura mesmo, de estilo, impacto filosófico e tudo o mais, deve ser considerado pelos caras da Academia como um livro ruim. Já eu o considero um livro bom. Então junto as duas definições e tenho aí um exemplo de um bom livro ruim. Outros exemplos de bons livros ruins: Tratado Geral dos Chatos, de Guilherme Figueiredo, e O Guia do Assaltado, de Roberto Schneider e Vilmar Rodrigues (foram precisos DOIS para escrever esse!). Nenhum desses custará mais que US$0,70 em nenhum sebo do mundo.

Claro deve ser que um bom livro ruim não precisa, necessariamente, ter esse viés de tosquice desvexada dos exemplos acima. É mais uma questão de gosto mesmo. Para quem não gosta de Woody Allen e considera suas peças uma literatura menor, um recorte mal feito de questões que estão muito mais bem abordadas em outros lugares, tratar-se-ão de livros ruins. Como eu gosto de Woody Allen, então, passo a considerá-los também exemplos de bons livros ruins.

Até aqui, me preocupei só com terminologia, o que é uma chatice só (cf. Figueiredo, 1975, que também critica uso indevido de citações). Tenho, contudo, algo a acrescentar. Vou defender que os bons livros ruins são MELHORES que os bons livros bons. Ou, ao menos, que é muito mais nobre a admiração por um bom livro ruim do que a admiração por um bom livro bom.

Vamos lá... Ao admirar um bom livro ruim, você está assumindo ter tido prazer frente a uma arte menor. Então está valorizando o livro com base unicamente em um sentimento que você experimentou, e não em nenhum mérito do livro em si (já que, por definição, esse mérito nem precisa existir!). Você está declarando gostar da vida, valorizar a felicidade. Está dizendo que encontrou algo que tomou seu tempo mas que, como dentro de si algo se sentiu bem, o tempo não foi perdido. Está celebrando a simplicidade e ao mesmo tempo mostrando que você não se vende a padrões estéticos externos, já que sendo o bom livro ruim provavelmente uma grande bosta que não vale nada, declará-lo como algo bom é equivalente a colocar um piercing ou uma tatuagem em um mundo em que ninguém o faz. É equivalente a pintar a casa de verde num bairro em que todas as casas são cinzas. Todos os olhares serão de "hã? Tá louco!". E sua resposta, íntima ou em alto e bom som, será: "que é que tem? gostei, ué!".

Já gostar de um bom livro bom é algo muito suspeito. Talvez só na microscópica minoria dos casos trate-se de uma admiração genuína. Mas, em geral, gostar de bons livros bons levanta suspeitas de elitismo, de fraqueza nos julgamentos estéticos e morais, de falta de originalidade e até mesmo de falta de dedicação ao assunto. Se você realmente gosta de livros, não é possível que não tenha ainda achado algum por aí de que só você goste, um autentíssimo bom livro ruim. E vou ainda mais longe... Não é apenas DOS OUTROS que devemos desconfiar quando dizem gostar de um bom livro bom. É de nós mesmos. Será que realmente captamos a profundidade filosófica da obra, vislumbramos uma nova idéia, e tivemos pequenos orgasmos intelectuais a cada parágrafo, ou será que estamos desfrutando apenas de uma sensação de fartura de nossa vaidade, que acabou de se alimentar de um requintado e reconhecido pedaço literário? É em geral difícil saber a resposta, tão propensos que somos ao Auto-Engano.

  Sei que vão dizer que estou construindo tudo isso apenas para defender meus péssimos livros como portadores de algum mérito. Não, não é isso, estou só registrando a idéia, talvez sob seu palpite mais uma idéia ruim dentre outras tantas do livro. Mas, ainda que estivesse falando tudo isso apenas para me defender, reconheça que fico com algum crédito no final... Afinal de contas, não é muito mais interessante defender um livro admitindo a hipótese de que ele é péssimo ao invés de fingir ser o único no mundo a achar que ele presta?  E não é, por fim, uma sacada de mestre dizer: "tá, o livro é ruim! mas se ele te agradar, o fato de ser ruim frente a critérios estabelecidos é ainda uma razão a mais para que você o valorize!". E é aí que os invariavelmente pessimistas com problemas psicológicos (o tipo de gente que jamais deveria ler Freud) vai dizer: "se eu admitisse tudo isso, teria que reconhecer que um livro ruim que ninguém valoriza me divertiu, e isso revela antes de mais nada algo sobre mim, não sobre o livro. Qual a vantagem de descobrir que seu íntimo se identifica muito com algo que todo o resto do mundo desvaloriza?". Quanto a esse tipo de gente, que não sabem se bastarem da própria companhia em clima de paz, não posso fazer nada. Não sei se o Figueiredo reservou um capítulo a eles, mas acredito que sim! Caso contrário, já é hora de um volume 2, com melhorias!

Óbvio

- Não entendi ainda... Por que foi mesmo que você saiu de casa da primeira vez?

- Olha, eu dizia que era pra ficar mais perto da faculdade. E eu dizia isso com toda a convicção do mundo, com toda assertividade possível. Mas a qualquer um minimamente ciente dos fatos, evidentemente não era só isso. Morando a vinte e cinco quilômetros da faculdade, mesmo com o trânsito todo dessa enorme metrópole, o deslocamento diário era plenamente possível. Acontece que eu queria viver por minha conta. Ficar longe da minha mãe, da minha tia, dos problemas de casa. Queria fazer minha rotina e ter meus jeitos sem interferências alheias.

- E aí ficou um ano morando fora, não foi isso?

- Exatamente.

- Bom, e então, por que voltou? Não deu certo?

- Em um certo sentido deu muito certo sim. Eu saía para ir aos lugares de que gosto, sem preocupações com horários ou grandes satisfações. Também estava sempre de portas abertas para meus amigos. Essa era uma coisa que eu amava: minha casa estava ali do lado da faculdade, e meus amigos a viam como um refúgio próximo, sempre acolhedor. Então às vezes eu estava estudando, ou vendo TV, naquela quase-melancolia de se estar sozinho demais, e o interfone tocava, e eu era invadido por cinco ou seis pessoas que não tinham nada pra fazer mas que faziam questão de ficarem todas juntas, conversando. Era um paraíso. De volta à casa da minha mãe, por várias razões, isso já não mais acontece. Agora a maioria dos meus amigos ou mora longe ou têm horários não condizentes, e mesmo eu estou em casa apenas uma fração do meu tempo, pois por trabalhar e estudar longe passo também boa parte do dia me deslocando de cá a lá.

- Certo, mas o que explica o seu retorno então?

- Sei lá... em meu íntimos há muitos conflitos nesta questão. Não queria deixar minha família sozinha. Não queria eu ficar sozinho. Num apartamento não posso cantar loucamente, como faço em casa de tempos em tempos. Não sentia um completo alívio de minhas tensões por falta dessa bagunça solitária. E tenho muito medo de sentir uma culpa sem fundo por deixar minha família se resolvendo com seus próprios problemas, mas ao mesmo tempo tenho uma certa frustração por não ser capaz de contornar todos os percalços que se apresentam e conseguir interferir nos problemas do meu lar familiar de forma realmente eficiente.

- E voltar pra casa ajudou em algo com relação a isso tudo?

- Não.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Só mais um

Eu não tenho a menor idéia do que fazer da minha vida. Tenho tantas possibilidades diante de mim no momento que me sinto até um tanto quanto sufocado, confesso.

E daí que tenho incômodos profundos? Que dentro de mim o universo se vira do avesso? E daí que vejo problemas e mais problemas no mundo e tenho dentro de mim respostas, soluções, palpites bons? Quem vai ouvir? Como vou parar o mundo para que escutem?

E daí que minha namorada tem a vida toda nos trilhos, encaminhada, é uma pessoa em quem eu posso confiar e está plenamente determinada a se dedicar a mim? Está apaixonada realmente? E daí? E daí que o que sinto por ela às vezes vacila?

E daí que as coisas são?

E daí que há tantas pessoas assim nesse extremo da confusão ebulente? E daí que sou mais um?

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Receita

É assim que faz pra se criar magia, pra que o novo tenha graça...

Estudar direito não basta, tem mesmo é que tomar cacaça

E rir até de rima sem graça.

Feliz por dentro, sem critério, sem rodeio

Rir do que é tonto, inútil, besta e fútil. Assim é que se faz pérola de um tosco devaneio.

A gente se reúne. A gente ri.

Não vê o que fez.

E é só assim que se faz.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Deprimido

Não há muito o que fazer quando não se acredita nos compromissos.
Vão se esvaziando todas as atividades, as ocupações.
E meus desânimos desincentivam minhas forças.
E minhas forças se minguam tristes.
E meus silêncios se emparedam.
E minhas paredes esfriam.
E meus rins se cansam.
Meus pulmões param.
Meu ar cessa.
Morro.

Não há muita poesia numa vida de dúvidas.
E minhas dúvidas engessam meus dias.
Nada acontece, há anos.
Os dias pararam.
Estou parado.
Estático.
Parado.

Outro dia quis ter outra vida,
Uma vida diferente dessa,
Uma vida com ânimos.
Uma vida de risos.
Existência feliz.
Sorrir sempre.
Olhar bom.
Feliz

A depressão é assim funda
Funda e imunda e suja
E pegajosa e oca
e infinita
pra baixo
f
u
n
d

o

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Rascunho

Ele saiu de casa. Subiu os sete quarteirões até o fim da rua e virou à direita.

Desceu as escadas. Estava um pouco de sol e ofuscou-se de início. Caminhou decididamente rua acima, até dobrar à direita e continuar seu caminho.

-.-

Faz onze anos que comecei  escrever isso.

Só achei hoje.

Vejo que não acabou.

Vejo que não foi a lugar nenhum.

Vejo que nem sei para onde ia.

Vejo que é como a vida.