Eu ia escrever de amor agora. Eu ia escrever de solidão. Ou de alegria, quem sabe? é tão bom escrever sobre alegria, e escrever com alegria. Altivo, animado, inteligente e ainda por cima-bem humorado: o certificado indubitável que grita com o silêncio nobre das letras: "sou uma boa pessoa".
Dane-se. Acho que só gosto de ficar batendo nas teclas. Do barulho que faz. Que mal há? Precisa ter um tema?
Temas há tantos, tantos tantos tantos!
Mas quando a gente escolhe um tema e escreve e escreve sobre ele, escrevendo bem ou escrevendo mal virão muitos a ponderar, avaliar, comparar.
Que é o jeito errado de viver boa parte das coisas da vida.
Comparem os cálculos estruturais da viga da ponte gigante, que desses aí, os errados são assassinos, que a natureza não perdoará.
Mas quanto aos lirismos da alma vomitados em letras quaisquer, não, não há comparação possível, pois sua realidade se define em si.
Na escada suja da Estação da Luz, empoeirada, mal acabada, uns mendigos no chão, cantando felizes uns funks quaisquer, jogados na calçada, cobertores rasgados que afugentariam o frio mais por dissuasão psicológica do que por qualquer isolamento físico. Riam, riam e se riam.
No divã de estofamento aveludado a loira pastificada, siliconada e botoxada (leia "botochada" mesmo, pra ficar mais debochado), ia lá falando das mazelas da vida.
A bolsa do doutorado não saía. Ônibus lotados todos os dias. Ninguém respeitando a privacidade espacial seu corpo feminino: homens se apertando contra sua pequena estatura com a desculpa inegável da coletividade sobrecarregada daquela indecência administrativa. Baixinha, miúda, ia indo. O filho em casa, pequeno. Os pais dela ajudando ainda. E o pai do menino sumiu. Não deu certo, paciência. E ria, e ria com a criança, e contava histórias. E passava o dia no laboratório, escrevendo, lendo, tubos de ensaio, microscópio, egocentrismo da orientadora, exigências idiotas da FAPESP, burocracias fossilizadas da universidade. E conversava rindo, que o Hubble não daria conta de medir a beleza dos seus sorrisos.
Tem todos os temas ao mesmo tempo, mesmo quando a gente não escreve nada demais, nada específico. Tem todos os temas dentro da gente. O leitor que só vê palavras, desculpem ser politicamente incorreto: é um fraco, um idiota, um limitado. É alguém a quem nada mais resta fazer a não ser comparar com outros, a não ser esconder-se atrás de uma pretensa cultura para negar a fraqueza de sua introspecção.
O bom leitor encontra-se com o autor através do tempo. Transcende, entende. Entende que tantas e tantas diferentes expressões nascem das mesmas perturbações da alma.
E você não se engana, não: já mais de dois temas se vão discutindo aqui, sem conexão aparente.
Que a confusão da alma também é um tema em si, não é?
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Janela
Talvez eu seja promovido.
Talvez eu arrume um emprego melhor.
Talvez eu me torne um aluno melhor.
Talvez eu mude de casa.
Talvez eu seja despejado.
Talvez eu seja cantor.
Talvez eu conheça o amor da minha vida.
Talvez eu ganhe na loteria.
Talvez eu vire presidente do mundo.
Talvez eu tenha super-poderes.
Talvez a Lua exploda
Talvez a gente é de mentira
Talvez Deus exista
Talvez eu seja famoso
Talvez eu seja pobre
Talvez eu morra
Talvez eu seja poeta
Talvez eu já tenha morrido
Talvez eu mergulhe
Talvez eu seja um imperador
Talvez eu seja um rei
Talvez seja doente
Talvez eu seja imortal
E nesta tal vez,
Que seja qual for,
Que falta você me faz!
Talvez eu arrume um emprego melhor.
Talvez eu me torne um aluno melhor.
Talvez eu mude de casa.
Talvez eu seja despejado.
Talvez eu seja cantor.
Talvez eu conheça o amor da minha vida.
Talvez eu ganhe na loteria.
Talvez eu vire presidente do mundo.
Talvez eu tenha super-poderes.
Talvez a Lua exploda
Talvez a gente é de mentira
Talvez Deus exista
Talvez eu seja famoso
Talvez eu seja pobre
Talvez eu morra
Talvez eu seja poeta
Talvez eu já tenha morrido
Talvez eu mergulhe
Talvez eu seja um imperador
Talvez eu seja um rei
Talvez seja doente
Talvez eu seja imortal
E nesta tal vez,
Que seja qual for,
Que falta você me faz!
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terça-feira, 10 de setembro de 2019
M
Você, com seus costumeiros sorrisos esbanjados e olhares admirados e admiráveis, contando feliz...
Contando que ele é um cara tão inteligente, viajado, conhece o mundo inteiro...
E eu, introspectivo, pensando: "é, eu só te amo..."
Você contando que ele é engraçado, um humor refinadíssimo, foi super divertido jantar com ele outro dia...
E eu, olhando pro alto meio de canto, pensando "é, eu só te amo".
Você contando que ele pagou a conta, que só sua parte passou fácil dos oitenta reais, mas nem sabe precisar quanto, ele não deixou que você visse...
E eu meditando sobre a leveza etérea da minha algibeira: "é, eu só te amo".
Você contando como era repulsiva às primeiras investidas dele. Ele namorava, que coisa horrível! Mas declarava todo amor a você, terminou o namoro. Insistiu, te contrariou, brigou. E você começou a considerar ceder, toda encantada.
Eu, mergulhado na estranheza desumana de tanto respeito que lhe tenho, considero: "é, eu só te amo".
Eu te amo, é só. Vá, viva e seja feliz. Vá!
Contando que ele é um cara tão inteligente, viajado, conhece o mundo inteiro...
E eu, introspectivo, pensando: "é, eu só te amo..."
Você contando que ele é engraçado, um humor refinadíssimo, foi super divertido jantar com ele outro dia...
E eu, olhando pro alto meio de canto, pensando "é, eu só te amo".
Você contando que ele pagou a conta, que só sua parte passou fácil dos oitenta reais, mas nem sabe precisar quanto, ele não deixou que você visse...
E eu meditando sobre a leveza etérea da minha algibeira: "é, eu só te amo".
Você contando como era repulsiva às primeiras investidas dele. Ele namorava, que coisa horrível! Mas declarava todo amor a você, terminou o namoro. Insistiu, te contrariou, brigou. E você começou a considerar ceder, toda encantada.
Eu, mergulhado na estranheza desumana de tanto respeito que lhe tenho, considero: "é, eu só te amo".
Eu te amo, é só. Vá, viva e seja feliz. Vá!
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segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Leitor
- Viu lá o que ela fez?
- Vi!
- E aí?
- Cara, sério... Sou incapaz de acompanhar. Incapaz.
- Caramba, é tudo isso?
- É sim!
- Qualidade mesmo?
- Qualidade? Você tem que ver como ela escreve sobre as coisas, não dá pra acompanhar, não tem como!
- Tá, mas o que quer dizer com isso? Que ela te fez desistir de escrever? Que vai tentar superá-la?
- Que estou tão feliz que ela exista!
- Vi!
- E aí?
- Cara, sério... Sou incapaz de acompanhar. Incapaz.
- Caramba, é tudo isso?
- É sim!
- Qualidade mesmo?
- Qualidade? Você tem que ver como ela escreve sobre as coisas, não dá pra acompanhar, não tem como!
- Tá, mas o que quer dizer com isso? Que ela te fez desistir de escrever? Que vai tentar superá-la?
- Que estou tão feliz que ela exista!
Quarto
Pessoas que somem. Que não têm tempo. Que não tomam iniciativa. Que não aparecem. Que não se manifestam.
Cansei.
Cansei.
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domingo, 8 de setembro de 2019
Juízos
Espero nunca escrever textos bons. Também espero nunca escrever textos ruins. Espero, mas não me perco em esperanças, que não prestam a nada.
O que é escrito é o que foi escrito, e é esse seu mérito. Não pela palavra, não pela sintaxe. Mas por ter sido escrita. Por ter sido sentida e pensada.
E que importa o que farão com ela depois? E que importa que eu a tenha escrito? Importar, nada importa, que é onde as coisas se igualam, e não podem ser mais belas ou mais rústicas que nada.
Quem aprecia os méritos relativos antes de apreciar as coisas deixa de apreciar as coisas. Por que as coisas não têm em si subjacentes nenhum mérito relativo. As coisas têm nelas as coisas que são.
O que é escrito é o que foi escrito, e é esse seu mérito. Não pela palavra, não pela sintaxe. Mas por ter sido escrita. Por ter sido sentida e pensada.
E que importa o que farão com ela depois? E que importa que eu a tenha escrito? Importar, nada importa, que é onde as coisas se igualam, e não podem ser mais belas ou mais rústicas que nada.
Quem aprecia os méritos relativos antes de apreciar as coisas deixa de apreciar as coisas. Por que as coisas não têm em si subjacentes nenhum mérito relativo. As coisas têm nelas as coisas que são.
sábado, 7 de setembro de 2019
Lídia
Era bela a donzela
Mas tanto sorria
Que mal comia
Era leve e magrela
Era doce o toque
Tremia a espinha
E o ânimo que vinha
Chegava ao Oiapoque
Um beijo lhe dei
Malandro, sorrateiro
Não foi cheque nem dinheiro
Um sonho lhe roubei
Mas tanto sorria
Que mal comia
Era leve e magrela
Era doce o toque
Tremia a espinha
E o ânimo que vinha
Chegava ao Oiapoque
Um beijo lhe dei
Malandro, sorrateiro
Não foi cheque nem dinheiro
Um sonho lhe roubei
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Dos diários antigos
Modéstia egocêntrica
Me orbito
Me gravito
Se distrair
Me óbito
Nem vi
Me sinto
Me sirvo
Se distrair
Me sento
E olho
E nem vi
Me gravito
Se distrair
Me óbito
Nem vi
Me sinto
Me sirvo
Se distrair
Me sento
E olho
E nem vi
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sexta-feira, 6 de setembro de 2019
Termo
Trinta átomos numa caixinha. Eles andando à vontade por aí, existem várias combinações possíveis. Existem muito mais cenários possíveis em que os átomos estão mais ou menos igualmente distribuídos pela caixinha, do que todos concentrados num cantinho. Daí que o estado dos átomos todos num cantinho é uma espécie de estado de alta energia. Difícil de se conseguir, dispendioso, e capaz de realizar trabalho. E, mais que isso: impossível de se encontrar na natureza.
As expressões de humor são como um fluxo de átomos de constituição humana. E eis que há muito mais cenários possíveis em que os átomos agrupam-se de qualquer modo pela caixa toda, do mal humor ao bom humor, passando indiferentes pela média. Difícil encontrar todos ali no cantinho do bom humor.
O bom humor não é natural. É uma espécie de geladeira a consumir energia e a contrariar as imposições da natureza, conservando o Humano saudável e aumentando seu prazo de validade.
As expressões de humor são como um fluxo de átomos de constituição humana. E eis que há muito mais cenários possíveis em que os átomos agrupam-se de qualquer modo pela caixa toda, do mal humor ao bom humor, passando indiferentes pela média. Difícil encontrar todos ali no cantinho do bom humor.
O bom humor não é natural. É uma espécie de geladeira a consumir energia e a contrariar as imposições da natureza, conservando o Humano saudável e aumentando seu prazo de validade.
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quinta-feira, 5 de setembro de 2019
Putas do Paissandú
Outro dia eu estava voltando do serviço, passando lá pelo Largo do Paissandú por volta das seis e pouco da tarde.
- Psssiu!
- Pisssssiiiiiiiiu!
As putas todas clamando por clientes. Sem grande egocentrismo, acho que elas me chamam com mais insistência, por eu ser assim algo novinho. Antes eu, novo e limpo, que um velho tosco e etranho querendo torrar a aposentadoria falando "boneca" ao ouvido delas enquanto deixa cair a dentadura.
Pela enésima vez pensei: vou escrever sobre essas putas!
Eu já conheço a maioria de vista, somos quase íntimos. Nos olhamos nos olhos quase todas as tardes, antes de vir o brochante pissiiiu.
Um causo de um cliente inusitado.
Um drama existencial a retratar a condição em que elas vivem.
Um grande amor impossível. Um ousado amor que, em meio aos promíscuos ossos do ofício ainda assim se fizesse possível.
Uma história de putas a quebrar expectativas: o foco de repente é o poddle que uma delas, Talita talvez, mantém no quarto de trabalho. É o xodó dela e ela expulsa qualquer cliente que se irritar com o animal.
Sim, sim, e talvez com algum apelo artístico mais elevado, tecendo algum paralelo entre a condição do cachorro e a da puta. Talvez com uma arte mais transgressiva, levando todos a conclusão final de que o único animal é o cliente e mais ninguém.
E por que não a linha comicista? Sei lá, as paredes do quarto são indiscretas, as putas compartilham os sons das colegas de trabalho, ouvem-se conversas, clientes descobrem tramas de outros clientes, segredos se revelam, a verdade se prostitui.
E eu nunca escrevo sobre as putas. Cruzo o Paissandú de um lado a outro. Vejo as saias curtíssimas dos dias frios e quase inexistentes dos dias quentes. Os olhares simpáticos e a expressão estranha, que o rosto nunca mente por completo. Os seios egocêntricos em seus despudores. Pisssiu! Pssssiu!
E vou me divertindo pensando em quantas e quantas histórias são possíveis. E qual o grau de ficção e verdade de cada uma. E, melhor: sai de graça!
- Psssiu!
- Pisssssiiiiiiiiu!
As putas todas clamando por clientes. Sem grande egocentrismo, acho que elas me chamam com mais insistência, por eu ser assim algo novinho. Antes eu, novo e limpo, que um velho tosco e etranho querendo torrar a aposentadoria falando "boneca" ao ouvido delas enquanto deixa cair a dentadura.
Pela enésima vez pensei: vou escrever sobre essas putas!
Eu já conheço a maioria de vista, somos quase íntimos. Nos olhamos nos olhos quase todas as tardes, antes de vir o brochante pissiiiu.
Um causo de um cliente inusitado.
Um drama existencial a retratar a condição em que elas vivem.
Um grande amor impossível. Um ousado amor que, em meio aos promíscuos ossos do ofício ainda assim se fizesse possível.
Uma história de putas a quebrar expectativas: o foco de repente é o poddle que uma delas, Talita talvez, mantém no quarto de trabalho. É o xodó dela e ela expulsa qualquer cliente que se irritar com o animal.
Sim, sim, e talvez com algum apelo artístico mais elevado, tecendo algum paralelo entre a condição do cachorro e a da puta. Talvez com uma arte mais transgressiva, levando todos a conclusão final de que o único animal é o cliente e mais ninguém.
E por que não a linha comicista? Sei lá, as paredes do quarto são indiscretas, as putas compartilham os sons das colegas de trabalho, ouvem-se conversas, clientes descobrem tramas de outros clientes, segredos se revelam, a verdade se prostitui.
E eu nunca escrevo sobre as putas. Cruzo o Paissandú de um lado a outro. Vejo as saias curtíssimas dos dias frios e quase inexistentes dos dias quentes. Os olhares simpáticos e a expressão estranha, que o rosto nunca mente por completo. Os seios egocêntricos em seus despudores. Pisssiu! Pssssiu!
E vou me divertindo pensando em quantas e quantas histórias são possíveis. E qual o grau de ficção e verdade de cada uma. E, melhor: sai de graça!
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quarta-feira, 4 de setembro de 2019
Saudade
Um pouco de Sagatiba.
Eddie Daniels no clarinete, preenchendo o ambiente.
Morangos.
Leminski ecoando em meio a pensamentos imcompletos.
Uvas.
As fotos da festa, mentindo em sorrisos tantas agonias secretas.
Folhas de manjericão.
Caneta tinteiro e papel.
Uma gota de groselha.
Uma pitada de má caligrafia, pra descontrair.
Uma almofada no chão da sala.
Só falta você.
Eddie Daniels no clarinete, preenchendo o ambiente.
Morangos.
Leminski ecoando em meio a pensamentos imcompletos.
Uvas.
As fotos da festa, mentindo em sorrisos tantas agonias secretas.
Folhas de manjericão.
Caneta tinteiro e papel.
Uma gota de groselha.
Uma pitada de má caligrafia, pra descontrair.
Uma almofada no chão da sala.
Só falta você.
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terça-feira, 3 de setembro de 2019
Prático
Pensar dói.
Amar dói.
Ser dói.
As contas doem, ô se doem!
Dormir não dói,
boa noite!
Amar dói.
Ser dói.
As contas doem, ô se doem!
Dormir não dói,
boa noite!
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Olé
No começo eu achava graça. Criar um personagem fictício, um pseudônimo, pra poder escrever sem medo de ser feliz. Qualquer coisa que viesse à cabeça. Sem ter que ser bonitinho, correto, audaz, contundente ou engraçado. Na internet coloca-se qualquer coisa, e ninguém me pagaria por isso. Então tava valendo tudo, tudo!
Mas comecei a perder o controle. De início, ficou estranha a fronteira entre pseudônimo e heterônimo, o que deu um certo trabalho. Daí o heterônimo ganhou vida, começou a ficar meio independente e a fazer coisas por si mesmo.
Até aí tudo bem, acontece, vá lá...
Mas de indiferença passou a desobediência explícita, a competitividades.
O heterônimo que criei passou a ser mais sociável que eu. Pega mais mulher que eu. Escreve melhor que eu. Come melhor, é mais sadio e mais sarado, até sorri mais bonito.
Tô ficando velho.
Já ele, tem a idade que quiser!
Mas comecei a perder o controle. De início, ficou estranha a fronteira entre pseudônimo e heterônimo, o que deu um certo trabalho. Daí o heterônimo ganhou vida, começou a ficar meio independente e a fazer coisas por si mesmo.
Até aí tudo bem, acontece, vá lá...
Mas de indiferença passou a desobediência explícita, a competitividades.
O heterônimo que criei passou a ser mais sociável que eu. Pega mais mulher que eu. Escreve melhor que eu. Come melhor, é mais sadio e mais sarado, até sorri mais bonito.
Tô ficando velho.
Já ele, tem a idade que quiser!
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segunda-feira, 2 de setembro de 2019
Desesperado
Morena linda, busto altivo,
quadril preciso, sorriso perfeito.
Mas onde está ela?
Olhos verdes, loira fatal.
Vestido fino, quase transparente.
Mas onde está ela?
Carinhosa, toque aveludado.
Mordida provocante.
Mas onde está ELA?
Tantas outras.
Tantas nenhumas...
quadril preciso, sorriso perfeito.
Mas onde está ela?
Olhos verdes, loira fatal.
Vestido fino, quase transparente.
Mas onde está ela?
Carinhosa, toque aveludado.
Mordida provocante.
Mas onde está ELA?
Tantas outras.
Tantas nenhumas...
domingo, 1 de setembro de 2019
Postura
Minha irmã é carente. Eu também sou carente pacas. Minha mãe é carente, sofre a solidão como uma criança curte o vídeo-game: se você tentar impedir, ela morde e esperneia. Tem uma diferença comigo. Eu corro atrás de gente. Fulano, cicrana, beltrano, ziltrana não falaram comigo, não ligaram, não responderam meus e-mails, não retornaram meus sms... Fodam-se! (não todos juntos, enfim, como bem quiserem, mas fodam-se, como bem entenderem). Procuro outras pessoas. Conhecidos-esquecidos ou estranhos-novidade. Tem tanta gente no mundo. Toda amizade, até amor, é tudo efêmero, não precisamos menosprezar a superficialidade de uma novíssima amizade de poucas horas. Tem tanta gente no mundo. Corro atrás de gente nova, diferente, de quem aparecer. Converso, falo, escuto. Proseamos. Sozinho fica mesmo quem quiser, só.
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sábado, 31 de agosto de 2019
Mãe
Xícara, pires. Colher perpendicularmente posta.
Leite quente.
Café e aquela fumacinha de vapor indiferente a tudo, subindo, calma que dá inveja.
Azuleijos frios.
Barulho de metal contra a porcelana. Colherinha mexendo, girando, girando, girando, girando...
E ela gritava tantas coisas por dentro. Sofria o marido tê-la deixado.
Os filhos não compreenderem nada. Sofria a irmã controlar sua vida...
Sofria a casa gigante estar velha e caindo pelos cantos
pintura
telhado
goteiras
janelas
poeira
bagunça
ratos
E gritava, e gritava por dentro, músculos rígidos, berro de cançar pulmões, diafragma, até as pernas se cansavam, de tanto berrar!
Metal contra a porcelana, girando, girando, girando... Lá fora, só se ouvia isso.
Leite quente.
Café e aquela fumacinha de vapor indiferente a tudo, subindo, calma que dá inveja.
Azuleijos frios.
Barulho de metal contra a porcelana. Colherinha mexendo, girando, girando, girando, girando...
E ela gritava tantas coisas por dentro. Sofria o marido tê-la deixado.
Os filhos não compreenderem nada. Sofria a irmã controlar sua vida...
Sofria a casa gigante estar velha e caindo pelos cantos
pintura
telhado
goteiras
janelas
poeira
bagunça
ratos
E gritava, e gritava por dentro, músculos rígidos, berro de cançar pulmões, diafragma, até as pernas se cansavam, de tanto berrar!
Metal contra a porcelana, girando, girando, girando... Lá fora, só se ouvia isso.
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Pessoas impossíveis?,
Vidas Secas
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
Dói
Eu a amo há anos. Ela me vê como o melhor amigo. De longe, disparado: o melhor. Ligou aqui de manhã dizendo que estava louca para conversar comigo, daí transformei-me em segundos num ser humano banhado, penteado, cheiroso e arrumado, e lá fui, quase num teletransporte, com aquele zuwwwiiiíííiímmm de fundo e tudo o mais.
Ela estava despenteada, do jeito que a noite de sono a deixou. Chinelos de dedo. Óculos mais pendurados na cara do que encaixados sobre o nariz. Acho que flagrei alguma remela no olho direito. Linda. Lindíssima, não tinha competição... Eu a via, fosse como fosse, e tinha essa sensação dentro de mim, que só se verbaliza assim: linda! Ela sorriu também, pensando os pensamentos dela ao me ver. E desatou a falar:
- Cara, preciso te contar... Ontem fui a um happy hour. Você não imagina! Do nada, sei lá eu como, só sei que conheci um cara tãããão legal!
E ficava eu lá, melhor amigo, ouvindo as inusitâncias da vida dela. E eu lá, apaixonado, fingindo que não era eu ali. E eu lá, apaixonado, fazendo um esforço impossível para não ser eu mesmo e deixar que ela fosse ela própria, em paz.
Ela estava despenteada, do jeito que a noite de sono a deixou. Chinelos de dedo. Óculos mais pendurados na cara do que encaixados sobre o nariz. Acho que flagrei alguma remela no olho direito. Linda. Lindíssima, não tinha competição... Eu a via, fosse como fosse, e tinha essa sensação dentro de mim, que só se verbaliza assim: linda! Ela sorriu também, pensando os pensamentos dela ao me ver. E desatou a falar:
- Cara, preciso te contar... Ontem fui a um happy hour. Você não imagina! Do nada, sei lá eu como, só sei que conheci um cara tãããão legal!
E ficava eu lá, melhor amigo, ouvindo as inusitâncias da vida dela. E eu lá, apaixonado, fingindo que não era eu ali. E eu lá, apaixonado, fazendo um esforço impossível para não ser eu mesmo e deixar que ela fosse ela própria, em paz.
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quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Verdade
Meu sincero é engolido de mim mesmo pra um buraco vazio, que fica sei lá aonde!
Saí de casa, saí correndo, saí da cidade, do estado, do país, fui pra sei lá aonde, pra longe! Fui pintar meus sonhos de outra cor, em outras paredes, com outras tintas. E eles estavam lá, sempre os mesmos sonhos, sempre os mesmos desejos.
E continuo num deserto, num deserto em que cada gota de afeto se transforma num oásis que esgoto até o final, todo mililitro, todo pedacinho, toda partezinha. Até acabar. Até acabar numa saudade asfixiante. Numa vontade desnorteante de abraçar, de querer, de ter...
No fim, é ela quem amo, e não me pareço capaz de mudar isso.
Saí de casa, saí correndo, saí da cidade, do estado, do país, fui pra sei lá aonde, pra longe! Fui pintar meus sonhos de outra cor, em outras paredes, com outras tintas. E eles estavam lá, sempre os mesmos sonhos, sempre os mesmos desejos.
E continuo num deserto, num deserto em que cada gota de afeto se transforma num oásis que esgoto até o final, todo mililitro, todo pedacinho, toda partezinha. Até acabar. Até acabar numa saudade asfixiante. Numa vontade desnorteante de abraçar, de querer, de ter...
No fim, é ela quem amo, e não me pareço capaz de mudar isso.
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quarta-feira, 28 de agosto de 2019
Mais que justo
Um dia desses marquei uma reunião com meu autor. As coisas estavam muito bagunçadas, eu estava ficando perdido. Pra começar: sou um pseudônimo ou um heterônimo? Sim, essas coisas precisam ficar bem claras, se não a gente não se organiza, sabe?
Aí ele insistiu para que eu fosse um heterônimo, falei que tudo bem até, mas que isso dava muito trabalho e tal. Ele não mudou o pagamento. Ora, é muito pouco! - esbravejei. Ele ficou irredutível.
- Um personagem fictício não pode viver só de migalhas!
- Ué, não pode?
- Claro que não! É abuso, exploração, escravidão até!
- Ué, mas um personagem fictício não precisa se alimentar, não precisa andar de carro, não precisa ter um guarda-roupa tridimensional como o nosso! Você não precisa de um salário!
- Como não, como não? Olha, um personagem fictício desses figurantes por aí, vá lá. Aparecem num conto, colocam a cara na página, falam umas coisinhas e somem pra nunca mais aparecer em sebo nenhum. Esses realmente, não precisam de nada. Mas e eu?
- Ô bonitão... o que tem você de especial, hein?
- Não ironize! Respeito, ou te denuncio no sindicato! Eu sou um heterônimo, não é isso que exige de mim? Um heterônimo tem que ler outros livros, ter outros princípios políticos, se vestir de outro jeito, amar outras mulheres, ver outras paisagens... Como quer que eu faça tudo isso se ficar o dia inteiro sentado num canto aí vivendo a vento esperando você aparecer?
- Não não, é que...
- É que nada! Sem essa de é que. Exijo um salário, décimo terceiro e tudo, e exijo horário de trabalho definido. Cara, um heterônimo assim culto, viajado, ter que ficar servindo pras suas historinhas no meio da madrugada, soa a fim de carreira, né não?
- Você não está feliz?
- Estou exigindo meus direitos, isso não tem nada a ver com felicidade!
- Você está bravo comigo?
- Olha, não estou bravo. Só estou atrás de uma relação profissional, para que tudo funcione bem. Eu cuido da minha vida, você cuida da sua. Que tal?
Aí ele insistiu para que eu fosse um heterônimo, falei que tudo bem até, mas que isso dava muito trabalho e tal. Ele não mudou o pagamento. Ora, é muito pouco! - esbravejei. Ele ficou irredutível.
- Um personagem fictício não pode viver só de migalhas!
- Ué, não pode?
- Claro que não! É abuso, exploração, escravidão até!
- Ué, mas um personagem fictício não precisa se alimentar, não precisa andar de carro, não precisa ter um guarda-roupa tridimensional como o nosso! Você não precisa de um salário!
- Como não, como não? Olha, um personagem fictício desses figurantes por aí, vá lá. Aparecem num conto, colocam a cara na página, falam umas coisinhas e somem pra nunca mais aparecer em sebo nenhum. Esses realmente, não precisam de nada. Mas e eu?
- Ô bonitão... o que tem você de especial, hein?
- Não ironize! Respeito, ou te denuncio no sindicato! Eu sou um heterônimo, não é isso que exige de mim? Um heterônimo tem que ler outros livros, ter outros princípios políticos, se vestir de outro jeito, amar outras mulheres, ver outras paisagens... Como quer que eu faça tudo isso se ficar o dia inteiro sentado num canto aí vivendo a vento esperando você aparecer?
- Não não, é que...
- É que nada! Sem essa de é que. Exijo um salário, décimo terceiro e tudo, e exijo horário de trabalho definido. Cara, um heterônimo assim culto, viajado, ter que ficar servindo pras suas historinhas no meio da madrugada, soa a fim de carreira, né não?
- Você não está feliz?
- Estou exigindo meus direitos, isso não tem nada a ver com felicidade!
- Você está bravo comigo?
- Olha, não estou bravo. Só estou atrás de uma relação profissional, para que tudo funcione bem. Eu cuido da minha vida, você cuida da sua. Que tal?
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terça-feira, 27 de agosto de 2019
Sistema
Descobri: eu não gosto de exaltações... Não, não gosto. Minha irmã, argumentando sobre o quão falhas são as bolsas de valores e o quão burros foram os capitalistas todos que não aprenderam nada com as lições de 1929, exalta-se. Eu odeio isso. Gosto de razoabilidade. Razoabilidade seria ficar menos irritada para tentar demonstrar contundência, e gastar mais tempo investigando o máximo que puder. Afinal: quais discussões ocorreram após 1929? O que os economistas da época disseram? Como o governo reagiu a isso? Por que determinadas medidas foram tomadas, e outras não?
E aí observo as outras pessoas, e há o mesmo fenômeno por toda a parte: ninguém está nem aí, nas discussões do dia-a-dia, para a razão que sustenta (ou não) cada argumento. Fala-se de política, de aquecimento global, de planejamento familiar, temas importantíssimos, sempre na base da exasperação como recurso lógico principal. Arthur Schopenhauer escreveu o pequeno porém curiosíssimo "Como vencer um debate sem precisar ter razão". Por um lado é uma pequena obra irônica, satírica. Mas o curioso é que a muitos realmente chama a atenção, e digo a quem: aos letrados. Aos educados nas escolas do filosofismos. Esses aprenderam formas tão amenas de tentar vencer um debate por meio da razão que atrofiaram no resto. Para todo o resto da humanidade, o livrinho é dispensável, supérfluo total.
A gente já sabe. Já nasce sabe sabendo. Tá nos genes, tá armado aí dentro da gente. Discordaram: grite. Ameaçaram: ataque. Duvidaram: insista. Muito diferente do que ensina a escola dos letrados. Discordaram: ouça. Ameaçaram: dissuada. Duvidaram: pondere.
Já não me deixo surpreender com a violência argumentativa das pessoas em geral. Vou é me deixar ficar curioso. Vou estudá-la. Vou entendê-la. Vou continuar tentando responder minha questão fundamental da existência: por que as pessoas fazem o que fazem, e não qualquer outra coisa?
E aí observo as outras pessoas, e há o mesmo fenômeno por toda a parte: ninguém está nem aí, nas discussões do dia-a-dia, para a razão que sustenta (ou não) cada argumento. Fala-se de política, de aquecimento global, de planejamento familiar, temas importantíssimos, sempre na base da exasperação como recurso lógico principal. Arthur Schopenhauer escreveu o pequeno porém curiosíssimo "Como vencer um debate sem precisar ter razão". Por um lado é uma pequena obra irônica, satírica. Mas o curioso é que a muitos realmente chama a atenção, e digo a quem: aos letrados. Aos educados nas escolas do filosofismos. Esses aprenderam formas tão amenas de tentar vencer um debate por meio da razão que atrofiaram no resto. Para todo o resto da humanidade, o livrinho é dispensável, supérfluo total.
A gente já sabe. Já nasce sabe sabendo. Tá nos genes, tá armado aí dentro da gente. Discordaram: grite. Ameaçaram: ataque. Duvidaram: insista. Muito diferente do que ensina a escola dos letrados. Discordaram: ouça. Ameaçaram: dissuada. Duvidaram: pondere.
Já não me deixo surpreender com a violência argumentativa das pessoas em geral. Vou é me deixar ficar curioso. Vou estudá-la. Vou entendê-la. Vou continuar tentando responder minha questão fundamental da existência: por que as pessoas fazem o que fazem, e não qualquer outra coisa?
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segunda-feira, 26 de agosto de 2019
Mecânico
- Eu ainda gasto tanto tempo pensando nela...
- Eu sei cara, mas deixe isso de lado, que idiotice! Quanto tempo você acha que ELA gasta pensando em você? Você é o melhor amigo dela, nada mais que isso... São outros que inspiram desejos e tristezas naquele coração.
- ... pois é, eu sei... Sei lá, vez ou outra sou tomado por uma esperança estranha, de que algo, quem sabe um dia, por inusitado que seja, por impossível que pareça...
- Sim, sim, mas olha, você se transformou em uma ilha de paz e segurança pra ela. Não há nenhuma tristeza a ser vencida mais na relação com você. Nenhum problema mais a ser transposto. Logo, você já é algo definido. Me desculpe, mas você errou. Cordial demais. Pacífico demais. Complacente demais...
- Você está dizendo que, além de tudo, isso é culpa minha?
- Mas é claro que é! Você tem muitas amizades com mulheres, certo?
- Certo...
- E sabe me dizer o porquê disso?
- Bem, eu as entendo, converso com elas, eu as respeito...
- Ah, você as respeita! Então esta é a causa do seu sucesso em fazer amizade com as mulheres: você as respeita. E sabe qual é a causa do seu insucesso amoroso com as mulheres?
- Qual?
- Você as respeita...
- Eu sei cara, mas deixe isso de lado, que idiotice! Quanto tempo você acha que ELA gasta pensando em você? Você é o melhor amigo dela, nada mais que isso... São outros que inspiram desejos e tristezas naquele coração.
- ... pois é, eu sei... Sei lá, vez ou outra sou tomado por uma esperança estranha, de que algo, quem sabe um dia, por inusitado que seja, por impossível que pareça...
- Sim, sim, mas olha, você se transformou em uma ilha de paz e segurança pra ela. Não há nenhuma tristeza a ser vencida mais na relação com você. Nenhum problema mais a ser transposto. Logo, você já é algo definido. Me desculpe, mas você errou. Cordial demais. Pacífico demais. Complacente demais...
- Você está dizendo que, além de tudo, isso é culpa minha?
- Mas é claro que é! Você tem muitas amizades com mulheres, certo?
- Certo...
- E sabe me dizer o porquê disso?
- Bem, eu as entendo, converso com elas, eu as respeito...
- Ah, você as respeita! Então esta é a causa do seu sucesso em fazer amizade com as mulheres: você as respeita. E sabe qual é a causa do seu insucesso amoroso com as mulheres?
- Qual?
- Você as respeita...
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domingo, 25 de agosto de 2019
Buraco negro
Eu quero todas as músicas do mundo. Todas as vozes, todos os sons, sustenidos e bemóis. Quero todas as letras, todas as rimas. Quero todas as imagens, todas fotos, todos os sons.
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Considerações jogadas
sábado, 24 de agosto de 2019
Excessos
E foi tão forte, tão repentino, tão intenso dentro de mim, que não houve tempo para que meu rosto acompanhasse. Que não houve tempo para que meu olhar mudasse. Que não houve tempo para que eu escolhesse palavras mais apropriadas a um sentimento que transcendia a cordialidade e a admiração respeitosa. Paixão. Desejo. Admiração. Uma explosão instantânea de identificação com ela. Tão intensa que ficou para sempre contida dentro de mim. E então foi que ela nunca soube que havia em mim esse sentimento. Desde o segundo milésimo de interação comigo, eu já estava inteiramente tomado por esse sentimento. E eis que, para ela, sempre fui como fui. É meu normal, e pronto. Amá-la é uma obviedade. E como acontece com todas as obviedades ao longo da história, esta também dificilmente será descoberta. E o mundo não é retilíneo e bem definido como em histórias. O que eu faço para esconder todo esse amor? Para onde mando tanto desejo represado? O que fazer com os impulsos mais tenros de bons tratos e agrados? Ao fazer desse amor um amor secreto, tornei-o infinito. Eu gosto dela mais do que de mim. Sem nunca ter declarado todo esse amor, sou dela o "único triunfo", a amizade masculina que deu certo. Teria dado certo, sem tanto amor assim? Sem um amor tão grande que se dispõe a se esconder, assim, voluntariamente?
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sexta-feira, 23 de agosto de 2019
Eu
Adoniran Leblon é o que escreve porcarias. É o que não está nem aí. É o que não se importa com o amor dos outros; mergulha no próprio coração e esmiuça todos os cantos até se afogar de tédio com essa infinita monotonia de diferenças sem fim. Adoniran Leblon não pensa antes de se expressar. Expressa o desespero de pôr pra fora do jeito que vem. Adoniran Leblon não tem critérios, não se policia. Adoniran Leblon é um eu meio outro eu, o lado de mim que é pra dentro, sendo portando despudorado por não ter autoria de nada disso que nasce sem controle. Adoniran Leblon é um espelho fosco onde vejo meus contornos. Adoniran Leblon é um rascunho de possibilidades irrealizáveis. Adoniran Leblon é um passado que eu não vivi. Adoniran Leblon... um amigo e tanto!
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quinta-feira, 22 de agosto de 2019
Desamando
Andavam pela rua e sorriam das coisas miúdas, sem que grandes preocupações lhes roubassem o tempo de viver. Mas tinham medo demais de macular tanto interesse recíproco com qualquer jura de compromisso. E assim foi que esse amor germinou pra dentro e implodiu numa distância que não agradava a nenhum deles, e nada conseguiam fazer para transformar a saudade em sorrisos de novo.
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quarta-feira, 21 de agosto de 2019
Triângulo
Ah M., querida... Fiquei sabendo que não estava mais namorando, e dei pulos e mais pulos de alegria, e comemorei até o instante em que lembrei que era eu ainda quem namorava. E ainda namoro. Deveria eu magoar uma pessoa tão boa por conta de meus assuntos mal resolvidos? Quando aceitei namorar a S. não foi como que assumisse o compromisso de superar todos os meus problemas ou de ao menos guardá-los para sempre no alçapão profundo de minha intimidade, de modo a jamais permitir que interferissem na ordem do mundo?! Mas quero terminar, como quero. Não sei qual a razão dessa sede de coerência, não sei porque é tão difícil assim contrariar os próprios sentimentos... E, no entanto, sei que não me ama nem me amará. M., meu amor! Nunca vai saber o tamanho dos sentimentos que nutro por você, nunca vai entender a natureza desse amor que deixo orbitar sua vida de longe, numa órbita perfeitamente circular desenhada para nunca se aproximar nem nunca se afastar nem mais um tanto. Saber que são outras pessoas as que movem seu coração dói, mas já doeu mais. Aprendi a esconder no fundo de minha alma meus sentimentos, e a conservar na roupagem social somente a fração amizade desse amor, que é a fração aceitável, que é a fração que não gasta, que é a fração não egoísta. Eu sofro por te deixar não minha sem brigar, e não entendo porque aceito isso. Mas é fato: prefiro assim. Prefiro ter pra sempre um acesso à sua vida, como amigo, do que o risco de diluir tudo o que podemos sentir um pelo outro nas profundezas obscuras de um amor relâmpago. Conservador demais? Medroso? Covarde? Ou heroico no esforço hercúleo para superar os impulsos mais imediatistas? Com sinceridade: não sei dizer. Sei que amo você e que escondo esse amor dentro de mim como meu segredo mais bem guardado, e sinto que é o preço que pago para não perder você da minha vida. O resto são conjecturas de uma mente e um coração perturbados, que adorariam entender mais dessa realidade que lhes escapa e lhes envolve ao mesmo tempo.
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terça-feira, 20 de agosto de 2019
Tango
Ré Fá Si, Buenos Aires Café: tango. Fones de ouvido fazendo meu mundo secreto. E vou passando pelos blogs das pessoas que põe a alma do avesso, que vomitam o lado de dentro, que gritam pro mundo, do alto do Everest: eu! sou eu! Um grito no vazio, e eis que uns, aqui e ali, escutam. Vou vendo as vidas dos outros e entendendo que nestes últimos anos eu morri. Sim, é isso, que outra explicação há? Eu morri... A vida que borbulhava dentro de mim, que pensava, que queria, que sonhava, que dançava no escuro: cadê? Onde? Deixei esses anos sérios diluírem-na para sei lá onde. E agora tenho que reconhecer que morto estou, e que é algo morto que olho o mundo. É um momento importante, afinal esse tango tem qualquer som de que renascer é possível. De que a morte é inevitável, e que nem por isso é um fim. Vou renascer num agudo qualquer, num desespero novo, que não sei bem aonde será. Onde está a vida mais prazerosa de se viver? É só isso que quero saber... quero sentir esse sabor delicioso, que tantas vezes experimentei aqui e ali, mas que se dilui em seriedades inúteis. Seriedades que nos fazem humanos ao nos roubar o melhor de nossa humanidade. Odeio as seriedades.
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segunda-feira, 19 de agosto de 2019
Saúde
A cada tosse, vai-se embora uma Hiroshima num canto qualquer do meu cérebro. Vista turva. Isso é uma cadeira ou um puf? Desabo em cima e não percebo a diferença. Os olhos ardem: o alto-forno de uma siderúrgica. Pelo nariz escapa um pântano selvagem e indomável. Uma aspirina, sono, cama. Um afago na peruca despenteada. Falta o afago, falta o afago...
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Dos diários antigos
domingo, 18 de agosto de 2019
Necrófilo
Há sempre mais no mundo. Me apaixono e jogo na calçada. Não piso e cuspo e chuto por apego ao glamour da aura de homem respeitoso, mas confesso que há em mim o impulso. Amei, ardeu, queimou, já era, já foi! E dói, e dói tanta a saudade! E não quero que volte, não quero de novo. Entende? Já sentiu isso? Aquela menina da faculdade, aquela conhecida da viagem, aquela namorada inusitada, aquela paixão das cartas sem fim... Que saudade sem-vergonha, de dar nós nos dedos enquanto escrevo. E não quero que volte. Não quero reviver. Não quero que seja possível. Gosto da minha galeria de sentimentos extremos.
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sábado, 17 de agosto de 2019
Dos espelhos
A Cássia queria prestar o TOEFL, um exame de inglês. Eu a havia encontrado ano passado. Ela estudava os pormenores das gramáticas e sabia todas as regras. Verbos regulares e irregulares. Coisas contáveis e não contáveis. Só havia um problema. Ela não falava.
- Fico nervosa quando penso que vou falar para alguém que sabe mais que eu.
Combinamos que ela me enviaria áudios pelo WhatsApp, para praticar.
E nunca mandou. E se passou um dia, uma semana, um ano.
E eu insistindo, insistindo. Passei o último mês escrevendo para ela todos os dias, explicando que não importa o conteúdo, importa que ela vença essa barreira que a faz paralisada quando ela tem, sim, algo a dizer. Esse perfeccionismo que a transforma em silêncios.
Briguei e insisti e fui claro: desse jeito, sem chances. Expliquei tudo de trás pra frente, de frente pra trás, de lado e em cores diferentes. Até que, finalmente, ela enviou um áudio. Quarenta e dois segundos. E eu não perdoei. Elogiei mas com ironia e sarcasmo ácidos: parabéns! Esse levou só treze meses, quatro dias e duzentos e oito minutos pra chegar! Nosso objetivo é continuar reduzindo o tempo até chegarmos a um minuto ou menos!
À noite, depois do jornal, fui organizar os arquivos do computador. Encontrei esse arquivo, Artista.txt. Que eu havia começado a escrever em 2010 e desde então, nove anos, oito meses, dezessete dias, seiscentos e trinta e quatro minutos depois, nunca mais continuei.
A gente só aprende as lições que ensina.
- Fico nervosa quando penso que vou falar para alguém que sabe mais que eu.
Combinamos que ela me enviaria áudios pelo WhatsApp, para praticar.
E nunca mandou. E se passou um dia, uma semana, um ano.
E eu insistindo, insistindo. Passei o último mês escrevendo para ela todos os dias, explicando que não importa o conteúdo, importa que ela vença essa barreira que a faz paralisada quando ela tem, sim, algo a dizer. Esse perfeccionismo que a transforma em silêncios.
Briguei e insisti e fui claro: desse jeito, sem chances. Expliquei tudo de trás pra frente, de frente pra trás, de lado e em cores diferentes. Até que, finalmente, ela enviou um áudio. Quarenta e dois segundos. E eu não perdoei. Elogiei mas com ironia e sarcasmo ácidos: parabéns! Esse levou só treze meses, quatro dias e duzentos e oito minutos pra chegar! Nosso objetivo é continuar reduzindo o tempo até chegarmos a um minuto ou menos!
À noite, depois do jornal, fui organizar os arquivos do computador. Encontrei esse arquivo, Artista.txt. Que eu havia começado a escrever em 2010 e desde então, nove anos, oito meses, dezessete dias, seiscentos e trinta e quatro minutos depois, nunca mais continuei.
A gente só aprende as lições que ensina.
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