sexta-feira, 20 de maio de 2016

Perfis

Tem gente inacreditável no mundo. Gente que foi repórter da Globo por muitos anos. Depois decidiu mudar para a aviação. Abandonou tudo e virou piloto. Aí decidiu ir morar nos Estados Unidos e ter a filha lá para dar a ela dupla cidadania. Aí trouxe um monte de aviões dos EUA para o lado de baixo do Equador. Aí finalmente os anos se acumularam e não se deu por vencido: dá instrução de voo em simuladores em uma escola ao lado de Congonhas.

Designorantes

 

Cuidado aí, sabidão

Com suas arrogantes indiretas

Que de minhas palavras tortas

Saem muitas ideias retas

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Futuro

Jovem. Não tem dez anos ainda. Um doce, menino do bem. Coração puro. Mas os amiguinhos o convenceram a atirar um saco de lixo do terceiro andar da escola. Por sorte não acertou em ninguém lá embaixo. Os "amiguinhos" usaram nada mais do que pressão psicológia. "Você NÃO É HOMEM de jogar esse lixo lá embaixo, é?" Desafio aceito. Ao chegar em casa, depois da suspensão na escola, a mãe lhe daria uma enorme lição sobre princípios e a importância de resistir à pressão dos outros. Acho que mais adultos deveriam ter passado por uma experiência dessas...

Guilherme

- Boa tarde amigo, com licença? Teria aí dois reais? Um real? Pra me ajudar...
- ...
- É pra comprar uma marmita, compro ali na frente...
- ...
- Custa quinze reais, lá eles fazem uma boa a quinze reais.
- ...
- Achar lugar pra dormir na rua é foda, sabe? E não dá pra dormir sempre no mesmo lugar.
- ...
- Tem os skinheads.
- ...
- Sim, uma vez chegaram a jogar gasolina em mim. Eu fugi, saí correndo mas cheguei a levar uns chute.
- ...
- Não, sou do sul. Tinha minhas crianças, mas aí não deu pra ficar aqui. Ficaram com minha mulher. Minha ex-mulher. Pelo menos consegui um canto pra elas, sabe?
- ...
- Um barraco. Dei dois mil no terreno. É pouca coisa, mas é um espaço que conquistei. Na verdade foi de assentamento. Mas hoje tem um lugar lá. Um barraco de madeira. Mas coloquei uns móveis lá pra eles. As crianças tão lá.
- ...
- Treze anos. Ela tinha treze anos quando eu engravidei ela da primeira vez. Daí depois a gente teve mais dois. São três filho, sabe? Num dá pra ficar aqui na rua com eles não. Lá é melhor...
- ...
- Tenho vinte. Hoje tenho vinte...
- ...
- Tô com um ferimento na perna também. Precisa de uns remédios, sabe? Anti-inflamatório. As feridas ficam estourando. Daí infecciona. Porque não tem onde tomar banho.
- ...
- Noite fria é foda, mas esses dias tá de boa.
- ...
- Água? Pode ser um refri? Sabe, né? Tem uma glicose, já dá um grau melhor nas energia. Daí a gente vai levando...
- ...
- Obrigado, deus te abençoe!

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Crise

Demissão. Eu me ofereci. Me demitam, me demitam! Feliz. De repente, feliz. Documentos para o RH. E a moça do outro lado da escrivaninha com aquela cara de velório. E eu ansioso: onde eu assino? Onde eu assino? É a crise. Crise.

Substância

Quanto menos leio, menos sou eu. Entrar nos pensamentos alheios. Mas assim também o fazemos ao viajar. Entrar nos olhares. Os cheiros dos lugares. Os sons que nos abraçam nas caminhadas e em nossas distrações. As infinitas variações dos copos de café. Quanto menos viajo, menos existo.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Resumo

Ele estudou eletrônica mas queria mesmo é ter o próprio negócio. Dizia que vendendo poucos pastéis por hora era possível ter uma renda melhor que de assalariado. A mãe se desesperada. Mas, divorciada, não tinha profundo controle sobre o filho mais velho. Que comprou uma bicicleta das mais caras quando terminou o primeiro grau e depois se presenteou com um carro e uma moto ao terminar o colégio. Em boa parte com o dinheiro da mãe. Abriu uma loja de peixes ornamentais. Teve problemas com o sócio. Conheceu uma jovem determinada e impulsiva como ele. Casaram-se. Morou na casa dos fundos por um tempo. Teve uma filha. Mudou-se para o interior. Construiu uma casa perto da casa dos sogros. Voltou a ser empregado mas assim que pode comprou a pequena empresa de eletrônica. Teve uma segunda filha. Está cansado dessa vida de indústria e multímetros e cheiro de ferro de solda. Comprou um terreno enorme e está montando um canil.

Pai

Meu pai era todo diferentão. Ele não era assim de falar com as pessoas, sabe? Sei lá, tinha o mundo dele. Nessas, até que o véio fez muita coisa. Fez coisa pá caráio. Mas arranjou muita treta também. Porque brigava com a família, com os amigos. Na verdade as pessoas é que brigavam com ele, porque ele não fazia por mal. Enfiava um objetivo na cabeça e saía reto, direto. Nessas, comprava máquinas pra fazer motores, peças. E se os negócios não davam certo ele continuava com o objetivo fixo na cabeça. E acabou vendendo casa, carro, a chácara. Foi tudo. O véio era foda. E ele era mergulhado no mundo dele. Lembro de uma vez... A gente tava no carro. Ele ia guiando e minha irmã tava contando de uma prova de inglês. Ela tinha tirado nove. Porra meu, nove! Nunca tinha tirado uma nota assim. Daí ela falou, né: pai, fiz prova de inglês, tirei nove! E o véio lá, olhando pra frente. Mão no volante. Guiando... Pai! Ela insistiu. Tirei uma nota nove, na prova de inglês! E ele olhando pra frente. Olhava pros lados pra fazer a curva. Daí eu virei pra mana e falei, quer ver só? E falei pro velho, olha, aquele giclê ficou torto, não ficou bom não. E na hora o véio, olhando pra frente, falou, o giclê vai ter que mexer de novo! Olhei pra mana... Eu não disse? Assim só que o véio fala. Não tá nem aí pro resto não. E a gente cresceu assim. Acostumado que a gente ficava no nosso mundo e ele ficava no mundo dele.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Só avisando

...que qualquer hora dessas volto a escrever.  Espero!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Foto #186

183

Podia ser uma história de Nelson Rodrigues

Eles dizem se amar. Mas há alguns anos decidiram que não haveria nada sério entre eles. Encontram-se causalmente. Riem, se beijam e conversam. Aos olhos do mundo moderno é, sem dúvida, um relacionamento perfeito. Nenhum grande sofrimento. Mas ela tem um namorado. E ele tem uma namorada. Com seus pares oficiais dividem ainda mais: dividem tudo de ruim que há na vida. Dividem o mau humor. Dividem os xingamentos. Dividem o peso metálico das pequenas irritações cotidianas.

Atratores estranhos

A ignorância é auto-catalítica. Quanto mais ignorante, mais refratário se é às coisas que reduziriam a ignorância.

O último dia

Já há cinco anos era esse vai e vem da UTI. Às vezes ele lembrava quem era. Só às vezes. Na maioria dos dias não reconhecia os netos. Os filhos. A esposa.
- Sou eu, lembra? Sua mulher! - dizia ela com um brilho condescendente e doce nos olhos.
E ele olhava de volta. Um silêncio consternado. Quase em estado de choque. Parecia nem mesmo saber que era casado.
Agora todos em volta do caixão. Todos pensam que é melhor assim. Mas todos sentem a perda. A confirmação de algo que veio se perdendo gradualmente com o tempo. Sim: acabou o sofrimento. Mas agora a certeza de que ele não vai mais voltar, de que não reconhecerá ninguém mais nem mesmo por um segundo sequer... A dor de uma certeza se impondo para além de qualquer esperança.

Finalidade

A areia do mar já foi uma montanha. Que se ergueu por força tectônicas. E que foi erodida pelo vento. Pela chuva. Os átomos que estão em uma planta hoje, ou adubando a terra, ou constituindo esse lanche que está aqui ao lado num pratinho, já podem ter pertencido ao fígado de um tiranossauro. Ciclos. Mas o que são as pessoas nesses ciclos? O que são nossas coisas? Essa mesa vai apodrecer. Quem vai saber que existi? As grandes coisas. As grandes descobertas. Quem descobriu a roda, quem descobriu a matemática, quem afinou a música... Essas pessoas podem não ser lembradas mas suas obras permanecem. Pra que serve este café? Pra me manter acordado em uma noite inútil. Não vou mudar a fome mundial. A poluição global. O nível dos oceanos. O déficit de educação do meu país. Essas palavras, agora digitais, apodrecerão num lapso instantâneo qualquer. E ainda assim eu aqui, sozinho, sinto qualquer prazer. Essa descoberta estranha de que a existência é o convívio de dois modos distintos: uma ligação com o futuro e um desfrute do presente.

Existir

Eu escrevia e escrevia e escrevia. Mas nem por isso sentia existir. Escrevia como quem canta em um quarto fechado. Escrevia como quem pedala apenas uma bicicleta ergométrica. Sem sair do lugar. Escrevia e escrevia e escrevia. Até que ela disse:
-Se precisar de uma leitora, estou disponível.
Senti voltar a existir.

Paulistas expatriados

Muita gente queria que o Brasil fosse separado. E é uma gente burra. Dentre outras coisas, porque não percebe que o Brasil já está separado: os paulistas e o resto. Paulistando andando pelo Brasil não é a mesma coisa que um brasileiro andando pelo Brasil. Paulistando anandao pelo Brasil é algo como um aristocrata inglês descobrindo tribos na Polinésia. Ou ao menos é assim que ele se sente. E tem em si o que de pior havia nos conquistadores das navegações. Quer comer toda mulher gostosa que vê, gostaria de jogar à fogueira todas as barangas. Desrespeita todos os costumes locais e julga todas as diferenças como um erro grosseiro. Como é que pode estacionarem o carro assim? Vinte minutos pra fazer um pastel? Afe, que música escrota, vamos procurar um barzinho decente! Reclama dos problemas econômicos do país. Mas continua pagando trinta reais numa promoção de hamburger fast food com guaraná últra açucarado. E acha caro cobrarem cinco reais por meio litro de suco natural à beira da praia. Ou por uma comida caseira que lhe é servida em mãos. Que, aliás, demorou porque estavam preparando com capricho. Que, aliás, é perda de tempo. Como esperar que os paulistas se misturem com o resto do país. Perda de tempo.

Relógio biológico

Tem um galo aqui no vizinho. Isso que dá eu resolver morar tão longe. Tem um galo que não sabe a hora certa de cantar. Uma e trinta e quatro da madrugada e o bicho lá se esgoelando. Criatura maluca!

Rotina

A gente sempre brincou que minha filha era preguiçosa. As crianças iam correr e ela cansava primeiro. Ficava ofegante. Mas normal, eu também não sou nenhum atleta, né? Aí uma vez fui com ela fazer alguns exames. Descobrimos um problema no coração. Uma pele num músculo, uma válvula, eu não sei explicar. Não entendo nada disso. Mas entendo que coração é sério. E falamos com um monte de médicos. Fizemos um monte de exames. E a gente estava desesperado. Sabe, ela vinha ficando mais e mais cansada, por isso tínhamos ido fazer os exames. E a coisa estava de um jeito que, se ela não operasse logo, ia acabar ficando tão cansada que ia dormir e não ia acordar mais. Porra cara, minha filha! Dez anos a menina! Cê tem que ver os desenhos dela, ela faz um gibi, um gibi inteiro... Ela conta as histórias, sabe? E falei com os melhores médicos que achei. Fui falar com o melhor da cidade. Uma grana. Dois carros embora, dane-se. Era minha menina. O cara explicou tudo. Como iriam fazer. Disse que só era uma operação perigosa em caso de outras fraquesas. Gente idosa, ou outras doenças concomitantes. Sempre há um risco, mas ele estava confiante. Daí no dia da operação, putz... Era pra demorar três horas. E seis horas e eu lá, sentado naquela cadeira. Levantava. Água. Sentava. TV. Celular, olhava pra parede, não sabia onde me enfiar. Ele tinha dito, explicado tudo. Ele falou: "Faço isso há vinte anos. Não saio da sala de operações até o final do trabalho, não adianta. Ficar dando notícias para a família no meio do trabalho só atrapalha. Então eu não vou sair até terminar, e peço para não se preocupar com isso, é o meu modo de trabalhar." Mas porra, minha menina tava lá dentro, depois daquela porta, de peito aberto. De peito aberto, imagina? Passaram a faca e estavam mexendo no coração dela. Eu queria entrar e mandar fechar logo e me devolverem ela. Eu não dormia mas não era sono. Nem sei falar como eu estava. Aí a porta abriu. Aí o cara sai de lá olhando pra mim e o filho da puta fala, todo sério, "Tivemos alguma dificuldade, alguns contratempos", e daí depois manda: "mas deu tudo certo, ela está anestesiada, estão terminando de fazer os pontos e logo ela vai correr com fôlego!". Porra, meu... Caralho! Eu não sabia se xingava o cara ou se abraçava ele. Chorei ali em pé, soluçando. Ele quase me matou de susto, que papo é esse de "tivemos dificuldades"? Mas depois falou que conseguiu, ele conseguiu! Eu sempre sofri por ser um pai distante, ficar meses fora de casa. Mas valeu para juntar cada centavo que usei pra pagar esse cara, essa operação. Eu estava tremendo, respirando rápido, chorava e ria, soluçava e gaguejava porque tinha achado que podia ter dado tudo errado mas não podia dar nada errado. Aí o cara continua, com a maior normalidade do mundo, de quem faz até três ou quatro dessas operações por dia: "logo vão terminar de fazer os pontos e levá-la ao quarto, eu vou indo pois tenho outra e estou um pouco atrasado, abraço, tchau".

Ideias da madrugada

Quando percebi que não iria dormir resolvi escrever alguma coisa. A cozinha. A cozinha é um bom ambiente. Nada de escritório. Formal demais. A cozinha é um ambiente vivo. E a madrugada, com seus silêncios, exalta a falta de todas as vozes que ao dia ecoam ali. Vou escrever um livro para erumar o mundo.  Argumentos para as pessoas parerem de se odiarem com base em ideias simples e prontas. Um livro para divertir o mundo. Histórias capazes de fazer o leitor rir ainda que sozinho em seu quarto. Ainda que com medo do avião prestes a decolar. Um livro para mudar o mundo. Ensinar os princípios de história, física e matemática de um modo tão estimulante que a mente leitora será, ao final, capaz de criar coisas novas. Coisas ainda nunca sonhadas, nunca pensadas. Investigar a natureza escondida da existência. Se bem que, neste silêncio todo, só aqui com o barulhinho dos teclados e o barulho distante de um ou outro carro perdido na madrugada, já tá dando um soninho bom...

Insônia

Águas e alagamentos. Sol e aridez. Café e leite. Café com leite. Livros velhos. Literatura de cordel.Pernas. Mordidas. Cheiros. Lembranças. Calçadas. Desconhecidos. Frevo. Fervo. O homem foi até a Lua e voltou triste, lá não haviam souvenirs, nem parques para passear, uma tristeza. Um filhote de gatinho perdido na noite. A mãe foi atropelada. Miau, miau. Potinhos velhos de margarina com leite já azedando. Humanos preocupados. Um mendigo que tem tortos os poucos dentes que lhe restam. Um trocado, uma ajuda? Não, nada. E noventa reais mais tarde num restaurante onde todos saem quase vomitando de tanto comer. Empanturrados. Humanidade podre. Jesus volta como mendigo para testar quem tem um coração bom. Li uma historia assim em um Gibi quando era criança. Comerciantes que atendem de má vontade. E reclamam da crise. Água numa parte do país. Seca em outra parte. Dinheiro em uns bolsos. Pobreza em calças furadas. Calor em alguns corações. Invejas de outras vidas. Inveja da minha vida. Preso demais em mim mesmo. Solto demais em mim mesmo. Onde estou? Como vim parar aqui? Embarque. Desembarque. Embarque. Desembarque. O que enxergam essas pessoas com olhar de raios X? Raios A, B, C... Raios letrados. Raios poéticos. Raios rimados. Raios. Que sono! Raios!

Parabéns

É hoje. Seu aniversário. Há anos nos falamos pela última vez. Nunca fomos mais que um talvez. Mas eu lembro. Sempre lembro. Parabéns.

Nomes

Eu tinha pressa. Deveria solicitar à funcionária apropriada que inserisse as informações no sistema. Aproxime-me da sala dela. Ela estava de costas para mim e eu podia ver, na tela de seu computador, um filme. Ela tinha fones no ouvido. E estava com a cabeça caída de lado. Ou era uma posição de extremo relaxamento ou então havia, de fato, dormido diante da distração. Eu não tinha acesso direto: dado o caráter restrito daquele departamento, a porta permanecia trancada e a tal funcionária deveria liberar meu acesso apertando um botão. Toquei a campainha. Nada. Bati na porta. Nada. Falei em tom razoavelmente mais elevado. Ô moça, oi! Nada. Intensifiquei minhas atitudes tanto quanto possível evitando, apenas, o limiar a partir do qual eu seria identificado como vândalo ameaçador. Nada. Até que uma outra moça, funcionária da sala ao lado, apareceu. Liberou meu acesso e acordou sua colega. Já sentado de frente à ela, sendo atendido, fui forçado a conter o riso ao ver o nome em seu crachá: Sonilda.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Invisível

Vi uma mendiga na porta da padaria.
Vi um fazendeiro à minha frente.
Fila do caixa.
Café da manhã.
Pão na chapa
Café com leite
Um suco de manga
Um doce
Uma sobremesa
Um chocolatinho
Um dois vinte trinta reais
Fazendeiro sai
Mendiga fala
Oi teria um troc...
Fazendeiro segue andando
Não olha ao lado
Olha para frente
Não olha para dentro
Não olha para o céu
Não olha para nada
Segue andando movido pela inércia de toneladas de cultura escrota
Mendiga fala
Afe, o que foi que eu lhe fiz?
O que foi que ela fez?
O que foi que ele fez?
Negou moeda
Seu direito
Negou olhar
Negou ouvidos
Negou humanidade
Amor
Atenção
Não há mesquinhez maior
Do que se negar a dar
Aquilo que, ao dar, não se perde
Entendo que há lógica profunda
Nas coisas do acaso
Que a aridez de todas as terras de fora
Começou na aridez de todas as coisas de dentro

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Rio de Janeiro Falso

Não há corcovado.
Mas há um Cristo lá em cima no horizonte.
Não há Copacabana
Mas há um lago. Famílias passeiam no fim da tarde.
Não há Guanabara.
Mas há um horizonte.
Que continua lindo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Foto #185

228

Calçadas

Faz tempo já. Quanto? Quarenta? Sessenta anos? Qualquer coisa assim. Não tinha essas músicas de hoje em dia. Não tinha todo mundo com esses telefones na mão. E ninguém tinha carro, moto. Os passeios eram aqui na cidade mesmo. E as pessoas saiam para namorar. Tinha a calçada de quem ainda não tinha ninguém. Os rapazes ficavam encostados ao muro, conversando. As meninas passavam com as amigas, de mãos dadas. Trocavam olhares. Cruzar o olhar uma segunda vez já era uma grande conquista, conquistada com grande euforia e ansiedade. Mas tem tempo já. Hoje os tempos são outros.

Tudo ao mesmo tempo

Acordo. Ligar o gás para a água esquentar. Achar a toalha. A toalha está misturada com a dos outros. Maldita empregada. Achar minha roupa. Minha roupa está dobrada, passada. Bendita empregada. Leite com nescafé com nescau. Água. Banho. Roupas, pentear cabelo. Barba. Tênis. Chaves do carro. Fechar as janelas. E se chove? Agenda do dia. Telefone. Baterias carregadas? E o carregador? Elevador. Carro. Trânsito. Café da manhã. A mensagem dela. O que ela quis dizer? Pão na chapa. Como está meu pai? Operou? Chego atrasado. Relatórios. Planilhas. Calor. Controle remoto do ar condicionado. Pés cansados. Lesões por Esforços Repetitivos, ginástica laboral. Meus amigos se reuniram, eu não fui. Recebo fotos pelo WhatsApp. O David Bowie morreu. Eu por minha vez já vivi 41% da minha vida caso o meu destino se atenha às médias. Números. Formatação. Os livros que não estou lendo hoje. O Windows quer atualizar. Justo agora? Acabou o café. Almoço. Nota fiscal com CNPJ da empresa. Como está minha mãe? Faz tempo que não ligo para ela. O El Niño está babunçando as chuvas da região. Tem fazendeiro perdendo tudo. Os turistas jogando garrafas nas praias. E o novo contrato? E minha irmã? Preciso fazer alguns cursos... Quais escolas tem o melhor preço? Ainda não recebi meu cronograma para o mês que vem. Preciso saber as datas, comprar as passagens. Parei de tocar. As aulas de música. Minhas distrações. Preciso correr. O Dráusio Varella diz que faz bem ao coração, ao corpo. Se eu não começar logo a correr, talvez já tenha vivido 67% da minha vida. Será que desliguei o gás depois do banho? Ajudar lá no galpão, empurrar as coisas, carregar caixas. Enviar os relatórios. Não conferi todos os números. Qual restaurante tem a melhor pizza? Quero dormir. Oito horas de sono. Dráusio, o que é melhor? Correr ou manter o sono em dia? Uma coisa por vez. Terminar as planilhas. Ligar para minha mãe. Falar com o meu pai. Atualizar o Windows de novo. Carregar o celular. Abastecer o carro. Comprar filtros de café. Pedir a nota com CNPJ. Uma coisa de cada vez, uma coisa de cada vez!

domingo, 10 de janeiro de 2016

Choro

Era início da noite. Hora das mães darem às crianças comidas gostosas e broncas por modos inapropriados ou escolhas erradas de cardápio. Mas minha mãe chorava sentada na beirada da cama. O quarto escuro. A noite já escura demais. Não digo que chorava copiosamente porque nunca entendi essa expressão. Quem quer copiar um choro? E porque justamente um choro intenso inspiraria essa idéia de cópia, como inferiu minha curiosa ignorância acerca do uso dessa problemática expresão. Fiquei ali em pé naquele chão de tacos de madeiras. As ranhuras cheias de poeiras e pulgas escondidas que meu pai matava quando fugiam do calor para se alimentarem de nossas entranhas. Olhei minha mãe e a via soluçar de olhos cerrados. Essa expressão eu entendo. Chorar triste assim vai serrando mesmo. Primeiro os olhos, desce pelo nariz e chega fundo na alma. Uma trinca que se abre. O choro é o terremoto na tectônica da alma.

Eu tinha nove anos. Meu pai, com seus quarenta e cinco, havia decidido ir embora e assim o fez. Pegou aquele fusca amarelo, colocou em tudo o que era espaço livre suas malas velhas e sacolinhas de mercado cheias das coisas que lhe assegurariam não precisar retornar. Meias. Sapatos tênis e chinelos. Os desodorantes baratinhos de usar no dia-a-dia e aqueles perfurmes um pouco mais caros, de jogar por cima para disfarçar a pobreza dos outros cheiros. As camisas e calças. Bermudas. Livros. O que coube. Uma luminária de lâmpada fluorescente. Uma caixa de ferramenta que o possibilitaria ser útil diante de qualquer emergência doméstica que nunca acontecia. Ele só não tinha uma ferramenta de consertar o choro da minha mãe, que largou ali chorando como a gente joga no canto uma lâmpada que não tem mais jeito. Fique lá ela com seus defeitos que vamos arranjar outra coisa.

Eu não entendi nada disso na época, é claro. Meu pai estava indo para o carro mas ele sempre ia para o carro. Todo dia saia com aquele fusca barulhento que precisava de aceleradas exageradas para não morrer na marcha lenta. Todo dia ele voltava. Quando carregava o carro em exagero era para viagens. Demorava mais, mas voltava também. O que havia de errado?

Ele tinha pressa e pediu para meu irmão ajudar no carregamento das sacolas, malas e caixas. Ainda hoje meu irmão o olha como um agressor que o mutilou. E eu entendo. Porque é de uso comum dizermos "meu pai". E esse "meu" é uma posse. Meu irmão foi obrigado a levar ao carro algo que era posse dele. Foi roubado. Meu pai se transfigurou ali em um assantante que roubou a si próprio do lar ao qual pertencia. Das pessoas que o possuiam. Esse é o dilema insolúvel das separações: ele se pertencia também e, dono de si, bem podia se levar a qualquer canto a qualquer hora.

Sem entender nada disso, até porque as décadas ainda não tinham transcorrido, eu olhava minha mãe se transformar lentamente em lágrimas e soluços. Eu precisava falar algo. Ou fazer alguma coisa. Buscar uma almofada. Fazer um chá. Oferecer benflogin ou biotônico fontoura. Essas coisas todas que os adultos me faziam para induzir melhoras e reforços. Eu não sabia fazer nada disso. Não mexia no fogão e não alcançava o armário dos remédios. Só sobrou falar. Balbuciei incentivos como pude. Mãe, falei, você é como uma formiguinha.

Ela ficou me olhando, um pouco sem saber se devia continuar a chorar. Porque o enigma daquela declaração desconexa roubava suas atenções. O que, embora eu ainda não soubesse, já era um lucro e uma das grandes vantagens das declarações sem sentido imediato. Prossegui tentando dar um sentido àquilo. A formiguinha, expliquei, é muito pequenininha, mas carrega coisas bem pesadas quando precisa. E vai muito longe. E nunca chora. Já viu, mamãe, formiguinha chorando? Eu nunca vi, e já olhei bem de perto.

E aí ela chorou mais. E eu achei que tinha feito tudo errado. Mas ela me abraçou forte, bem forte. E aí eu comecei a aprender que existem vários tipos de choro.

Momento decisivo

O vagão de trem ficou mais de uma hora parado. Ela estava sem dormir, emendando o trabalho da noite anterior com a aula de fotografia de hoje. Iríamos para Paranapiacaba. De repente, começou o desespero. Ela precisava sair dali. As mãos esfriaram, tremendo. Formigação no rosto. Voltamos. Saímos do trem ainda algumas estações antes do destino, pois ela não aguentava mais ficar no trem. Chamamos os pais dela. E chamamos também resgate. Ninguém entendia o que estava acontecendo.

Aí as mãos dela começaram a se contrair novamente, ela começou a reclamar de mais formigação no rosto. Não conseguia falar as palavras direito. Pediu ajuda desesperadamente. Fui acompanhá-la a uma sala próxima, onde havia sombra e alguns banquinhos. Ela se apoiou em mim. Os passos começaram a se enganar quanto a direção correta a seguir. Ela anunciou:

-Acho que vou desmaiar.

E eu apenas disse:

-Pode desmaiar!

Foi como se tirassem as pilhas um brinquedo. Ela desabou na hora. A segurei antes que viesse ao chão e dois seguranças se aproximaram para ajudar.
Em pouco tempo o pai chegou de carro, com a irmã, e a levaram para um hospital.
Fizeram todos os exames possíveis. Coração. Possibilidade de ter havido um AVC. Tudo foi considerado.

A conclusão é de que ela foi vítima de uma epidemia moderna: estresse. Recomendação: trabalhar menos.