quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Resoluções de fim de ano

A meta era ter duas postagens por dia. E uma foto. Todo dia. Não atingi a meta, muito menos dobrei a meta. Mas, não é nada, não é nada, já fiz muito mais do que havia feito até então. Foi um ano intenso. Mudanças. Pensamentos. Reflexões. Viagens. Desligamentos. Ligamentos. Novos focos. Novos enquadramentos. Profundidade.

Uma meta muito ousada teve seu efeito:

PostagensLexico

Foi assim com a escrita e, arrisco extrapolar, foi assim também com a vida. Metas muito absurdas que não foram atingidas mas isso, nem de longe, indica um insucesso. Pois caminhei tanto mais do que teria caminhado sem essas metas, e tanto mais do que antes, que cheguei mais longe. Em um único ano muito mais do que nos anos anteriores. Tantas histórias. Tantas coisas. E só por esta mania de ser diferente, nada de resoluções de ano novo. Vou para resoluções de fim de ano.

Resolvo que este ano que passou ganha um lugar especial em minha memória. Em minha história. Resolvo que as boas portas serão exploradas. Resolvo que as portas ruins receberão seus cadeados. Resolvo que as páginas prosseguem. Resolvo que às 23:59 de hoje não escreverei “fim”. Resolvo que termina, apenas, o primeiro capítulo. E resolvo que não hesitarei em escrever os próximos.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Cravo e canela

O escritório com a janela grande. O japonês nerd que só na manhã de natal me pediu para levá-lo à farmácia para comprar as passagens. À farmácia? Pois é, cidade pequena. Ainda tem dessas farmácias que vendem de tudo. Passagens para a capital. Iria com a namorada ao encontro da família. Fiquei ali na noite de natal. Eu e meus pensamentos. Eu e meus sentimentos. De modo que a casa, mesmo que grande, estava cheia. Lotada. Como uma família em que há gente triste, gente feliz, gente velha, gente nova, gente falante e gente emudecida. A viagem para a capital veio só depois. A estrada. O pastel com caldo de cana na kombi do Toninho. A tempestade com enchente e motoboys aninhados sob a cobertura de um posto de combustível. O rio quase a transbordar e a máquina fotográfica ajustada para um ISO elevado tentando enxergar tudo aquilo.
A saudade. Os beijos. As histórias. A tapioca. A voz. Os sussurros. A presença. As risadas. Os olhares. As unhas e os dedos. O cheiro. O calor. O suor. O canto: Meu Bem Querer, Carinhoso, Bem que se Quis...
Tudo tão rápido. De repente um ônibus e mais um avião. Tudo fica longe de novo. Mas tudo fica, de repente, tão perto.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

terça-feira, 27 de outubro de 2015

quinta-feira, 25 de junho de 2015

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Bafo

Dez e meia da noite. Eu estava andando pela Avenida Paulista e era hora de voltar para casa. Fui até a Consolação e lá estava eu na calçada, em frente ao cinema Belas Artes, esperando o semáforo de pedestres ficar verde. Alguém me cutucou no ombro. Virei-me e vi um rapaz branco, de cabelo preto bem enrolado, coerente em sua figura esguia como uma peruca sobre uma vassoura. Jovem, bem jovem.
-Ei, desculpe a pergunta, mas você bebeu ou está sóbrio?
-Estou sóbrio, por que?
E então ele deu uma esbaforida em minha direção e com toda a sinceridade curiosidade do mundo perguntou:
-E eu estou com bafo de bêbado? Dá pra perceber?
Fui obrigado a ser sincero:
-Olha, bafo não, mas comportamento sim.

Foto #174

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E por falar em egocentrismo

Quem não é egocêntrico afinal? Não tem como. Ou é por maldade ou por bondade, que seja, mas somos todos egocêntricos. Ou a vida não seria possível.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Terapia

Tem já um tempo que parei. Mas sinto falta. Uma conversa de uma hora com uma pessoa realmente habilitada a conversar. Uma pessoa que acompanha sua história e faz comentários ou perguntas pertinentes. Acho que a necessidade de psicólogos não é de todo natural. É consequencia de uma deterioração gradual na qualidade das amizades cotidianas. Dos amigos que temos e também de como nos entregamos a eles. Eu tenho boas amizades. Mas por mil razões não tenho atingido com estas o mesmo grau de transparência que me permito com a psicóloga. Há contudo um problema. Estou me tornando mais egocêntrico. Uma hora contínua falando de mim, sem parar, sem ouvir nada sobre a outra pessoa em troca é definitivamente muito estranho. E o pior: a gente se acostuma.

Foto #173

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Harmonização

Tralhas espalhadas sobre a mesa. Uma máquina fotográfica. Um charuto que ganhei de lembrança em um casamento, anda na embalagem. Um adaptador de tomada. Flanelas. Diversos pedaços de papel com números e nomes anotados. Uma pilha de apostilas e livros. Revistas em um canto. Flanela de limpeza. Um pente. Moeda. Um quadrinho que devo mandar para Israel de presente para uma amiga, em breve. Mas, primeiro, preciso escrever uma carta para ela. Não quero mandar só o quadrinho. Tem que ter a carta junto. Que bagunça, que bagunça! E só descrevi o que está em cima da minha escrivaninha. E nem mencionei o celular, o caderninho de notas, o kindle e meu cortador de unhas. Ao lado do crachá lá do trabalho. Imaginem se eu começar a descrever o resto do meu quarto. Roupas amontoadas em pilhas diversas. Roupas por lavar e roupas limpas para guardar. E roupas que só usei uma vez e ainda posso usar mais uma antes de colocar para lavar. Coisas jogadas. Pilhas de revistas e papel. Sou um acumulador? Tenho pouco espaço para viver e precisava de uma casa maior? Ou é tudo isso apenas um reflexo de como está minha alma por dentro?

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Escritores bêbados

Eu achava que me encher de vinho ou conhaque ou, quem sabe, whisky, era a saída para ser um bom escritor. Descobri que isso é um mito. Há sim, na história, famosos escritores que tinham uma intimidade exagerada com o álcool. Mas na maioria das vezes é tudo questão de pose. Inclusive comigo. Meus textos mais bêbados foram escritos, na verdade, sobre uma sobriedade até incômoda de tão seca.

Foto #172

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Descubra o que você ama

Estavam tristes. Ficavam juntos para dividir o que de pior há na solidão. A sensação de que o outro não está ali. Ou pior: o peso duro de se perceber invisível. Ele a ignorou. Ela chorou. Protestou. Ele reagiu. Rugiu. Distanciaram-se.
Dias depois, as mensagens no celular:
-O que eu posso fazer?
-Descubra o que você ama. O que a faz feliz. A felicidade nunca sai do outro. Amor é de dentro pra fora.

domingo, 21 de junho de 2015

Cometa

As pernas não estão exatamente confortáveis. Mas a sensação de me contorcer em posições não projetadas, esticando-as para o lado por sobre o assento vazio, dá algum alívio. Vejo, no vidro oposto, meu reflexo. Um adulto com um livro na mão. A trepidação da estrada faz a imagem ficar um tanto quanto distorcida. Mas nisso há uma nítida verdade: é assim que nos enxergamos, sem detalhes suficientes. Sem perceber o movimento por completo. Mas, ainda assim, seguindo adiante.

Foto #171

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Beleza

De que adianta você gastar quinhentos reais com o cabelo e comprar o sapato mais caro do shopping se você conta assim, sem pudores, que escondeu o pote de doce de leite para a empregada não provar?

sábado, 20 de junho de 2015

34 cities

"We first meet at the main hall. She was dressing a very casual dress. Not like going to sleep, but also not like going to the Oscar night. I was smoking. I was tired to do anything else but didn't want to stay in the room looking at the walls or, worse, watching some cable channel. She approached me asking for fire. I gave her my lighter and we started a conversation. She was hot. Not lake a playboy bunny. Hot in her middle forties. Better like this, I thought. Enough of those silly little girls. Too innocent and way too dreamy. This lady was different. I was trying my best to think of a way to approach her over that empty conversation about what were we doing there and the weather and all this bla bla bla when she just looked deeply into my eyes and fired: do you want to take me into your bed? Oh my god, you are quite straight aren't you? Well, I know the looks, she replied. And I could only tell her that To be honest, Yes I want. Please don't be offended for my honesty, I mean no disrespect, but you asked me and I feel obliged to tell the truth. She took another drag on her cigarret as if I had said nothing of importance, stared back at my soul and just wispered I cannot be offended at all. I was wishing the same. Let's do it tonight. Her voice made me crazy. Completely crazy. And this was the first city I was visiting of all the thirty four I was intended to drive through in this my new job. I think I'm gonna love this summer."

Foto #170

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Política

As mesas de plástico já estavam cheias de copos vazios. Pratos com guardanapos sujos. Espetinhos de madeira jogados displicentemente, já sem carne. Talvez fosse o álcool da cerveja, talvez fosse só sinceridade mesmo. Talvez fosse algo em sua vida que estivesse errado, profundamente errado, e a raiva era descontada em mim. Dane-se a razão precisa, só sei que a raiva era descontada em mim. Eu mostrei um aplicativo de notícias, em que eu podia ver em tempo real até mesmo as notícias da França ou da China. E ele era áspero "e daí? Vai sair com guarda chuva se tiver chovendo na França?". Era o dia perfeito para começar uma briga. Minha mão fechada encontrando o nariz dele. As pessoas correndo para nos separar quando já seria tarde demais. Um pé contra meu estômago. Talvez contra meus dentes. A violência dessa imaginação me acalmou. Não por completo, mas o suficiente para eu deixá-lo sendo um idiota sozinho.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Tamires

"Eu adoro ler. Estou sempre lendo. Passei quatro anos nos ônibus, indo e voltando para a faculdade. Uma hora e meia toda vez. Cara, isso são três horas por dia, todo dia! É muita coisa. Mas eu peguei gosto por ler, sabe? Nada intelectual. Não gosto de ler coisas intelectuais não. Gosto de coisas distrativas. Gosto de entretenimento, de me sentir bem. Agora, com o trabalho... Eu me formei em contabilidade, mas trabalhava em um escritório. Trabalhei um ano. E não era feliz. Não estava aprendendo nada. Resolvi sair. Falaram para eu ficar até achar outra coisa. Mas eu precisava sair. Agora não sei o que vou fazer. Preciso descobrir. A gente precisa de um trabalho, não é? Mas eu não sei o que quero fazer."

Foto #169

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Traduções

Descobri que a maior parte dos professores ruins não confia em seus alunos. Recebo com frequencia este conselho: "não complica muito, eles precisam passar na prova, passa só o que interessa". O que significa praticamente o mesmo que "treine aqueles macacos". Nada de ensinar a pensar. Apenas dizer umas regras que podem ser memorizadas e repetidas. A memória é muito mais difundida do que inteligência, essa é a crença. Então, como professores que precisam produzir alunos que passam em provas, é melhor apelar para a memória do que para o raciocínio. Eu não consigo assinar embaixo. Não consigo. Não confio nesta abordagem. Acho que a inteligência é também tão difundida quanto a memória. Talvez até mais. Mas a inteligência exige algo que a memória dispensa: diálogo, um diálogo mais profundo. A memória é cópia direta. Você diz uam frase como "sinais iguais, você soma, sinais diferentes, subtrai". Ou então algo mais sucinto ainda como "menos com menos, dá mais". E a memória deve repetir as regras do mesmo jeito. Já com a inteligência algo diferente ocorre. Cada um tem seu idioma, seu vocabulário. É difícil dialogar com a inteligência alheia. E é por isso que a grande maioria dos professores prefere não fazê-lo. A cultura do mundo sofre agonizante por conta de nossa indisposição a buscar diálogo com nossos iguais.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Caminhos de ferro

"Seus braços se tocaram. Suavemente, sem nenhum movimento brusco que pudesse denotar intenção. Era apenas uma conseqüência mecânica dos solavancos do trem. Mas dali em diante, ele reparou, ela não levantava mais o braço esquerdo enquanto gesticulava. Deixava-o aí, prolongando deliberadamente o prazer daquele acaso."

Foto #168

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Das pessoas próximas

Qual seu critério para se aproximar das pessoas? Depende do que elas são para você? Você se importa com o que elas são para os outros? Elas refletem algum ideal maior? Ou alguma viabilidade imediatista? Ou você simplesmente deixa acontecer... Foca em seu trabalho, em sua rotina, e as pessoas que forem aparecendo serão, automaticamente, as pessoas próximas?

Eu, particularmente, nunca fui bom em escolher ou rejeitar pessoas. Embora algumas me incomodem e outras me irritem, sempre considerei que esse ato de escolher era, por si só, algo ofensivo de se fazer para outro ser humano, especialmente em contextos levianos como amizade, ou uma conversa do dia-a-dia. Ou talvez isso tudo seja uma racionalização para uma outra tragédia que nunca confesso: a inabilidade percebida de colocar em minha vida as pessoas que realmente gostaria. Diante dessa derrota prefiro aceitar quem aparece e desistir de fazer escolhas, o que é um modo de não me responsabilizar pela minha distância daqueles que mais amo.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Pesos

"Talvez ela tivesse gostado de ouvir isso, mas nunca cheguei a dizê-lo em voz alta."
(do livro "Nós", de David Nicholls)

Quem nunca incorreu nesse crime das relações humanas? Crime sim, porque tudo podia ser muito mais do que é, não fossem os sentimentos ficarem tão escondidos. Mas, ao mesmo tempo, somos todos inocentes. Porque soterrados sob uma montanha de medos e inseguranças e considerações infinitas. E se ela não sentir o mesmo? E se meus sentimentos mudarem? E se ela achar que isso quer dizer ainda mais do que quer dizer? E se eu o disser de um modo idiota? E se já for óbvio e eu parecer bobo falando? E segue assim o mundo, com essas toneladas de alegrias soterradas.

Foto #167

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Nota rápida

Estou deprimido. Profundamente deprimido com as conversas sobre redução da maioridade penal. Quanta gente idiota.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Qualificações

Eu não sei porque ele está dando aulas dessa matéria. Ele é baixinho. E o que tem de baixo tem de arrogante. Gosta de humilhar os outros. "Afe, como é possível que nem isso você sabe?" É uma frase típica dele. O pai tem dinheiro. A família tem bastante dinheiro. Que não sei de onde veio, mas não importa. Ele nem precisava aparecer. Mas faz questão de dar tantas aulas quanto possível. É um destruidor de futuros.

Foto #166

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Trabalho

Sabe, eu já pensei em parar com isso. Cansei de ficar arrumando o quarto dos outros. Varrendo o chão. Queria ficar só em casa. Tinha um tempo que eu ia é pedir as contas. Mas meu marido nunca fica em casa. Ele tem o caminhão dele. Tem quinze anos já que ele tem o caminhão dele. E ele ia trabalhar e eu lá, sem fazer nada. Aqui eu sei que todo dia a gente reclama. Não vê a hora de ir pra casa em ficar sem fazer nada. Mas a verdade é que se eu for pra lá e ficar jogada no sofá, vou acabar envelhecendo rápido. Igual meu avô, que envelheceu como que uns trinta anos em poucos meses, quando se aposentou, definhou e morreu.

domingo, 14 de junho de 2015

Madrugada

O ar condicionado faz um barulho estranho. Estranho porque parece ser constante, mas de tempos em tempos parece que ele muda. Eu não consigo dormir. Mas estou exausto. Sou como o barulho do ar condicionado. Pareço estar absolutamente indisposto mas também sou refratário ao descanso. O quarto está quieto. Queria que minha cabeça estivesse assim também.

Foto #165

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Ritmos

"A vida, disse um amigo meu, é como uma senoide. Tem hora que está em um pico, tem hora que tudo vai para baixo e você vai parar em um vale. Mas, pode ter certeza, se está em um vale, virá uma subida e um pico no futuro."
Essa definição matemática talvez explique o fluxo do meu trabalho. Dias de fixação excessiva com o teclado. Mil idéias. Criações. Projetos se desenrolando. Trabalho e iniciativas pessoais. Tudo avança. E dias em que, não importa o tempo livre que eu aloque, não consigo produzir nada. Faz parte. É preciso aprender a respeitar essas oscilações do espírito.

sábado, 13 de junho de 2015

Diagnósticos

Vivemos tempos de destruição dos laços familiares. A vida está fragmentada. As amizades são superficiais. O tempo não existe mais como um desenrolar da vida. Existe apenas um tempo imediato. O passado, mês passadou ou cinco anos atrás, não é um lugar para ser visitado. Você conversa com a psicóloga sobre seus problemas. Você ri com o comediante de stand-up para falar da vida. Você vai a um restaurante vegetariano para aproveitar uma vida saudável e vai à Disney divertir-se com a beleza do mundo. Um denominador comum: tudo é pago, e por trás do pagamento está a obrigação do atendimento. Vida enlatada. A obrigação, seja do trabalho seja do prazer. Na vida cronometrada em boletos, também o cidadão livre subitamente encontra-se atrás do código de barras.

Foto #164

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Mais de Assouline

"toda academia é uma prisão, e de toda prisão é preciso fugir"
Run Forest, run!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Prazeres da vida

"Nada deixa [Cartier-Bresson] mais secretamente feliz do que fazer um uso deliberado do aristocrático prazer de desagradar."
A biografia do grande fotógrafo, escrita por Pierre Assouline, vai direto ao ponto. O prazer de desagradar. Deveríamos ter mais consciência desses escondidos prazeres da vida.

Foto #163

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Li por aí

"as confidências menos falsas são feitas com mais facilidade a desconhecidos"
Verdade. E aí fico pensando que um dos grandes desafios que tenho pela frente é o de desconhecer-me. O de ignorar-me a ponto de conseguir confessar a mim mesmo coisas que sei estarem escondidas em algum lugar lá no fundo.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A melhor coisa da vida

-Aquela nossa viagem foi a coisa mais legal que eu já fiz na vida!
E então você se sente especial. Profundamente especial. Injustamente especial.

Foto #162

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Sorriso

Quis tocar...
Não pude sentir
Busco onde ir
Apenas olhar
Viver de visão
Enxergar coração
E ouvir a canção
Saber sonhar
E quando acordar
Conhecer limite
Quebrá-lo
Torcer essência
Fluí-la
Viver ausência
Destruí-la
Criar mundo
Abandonar corpo
Sopro sentir
Vida sonhar
Quando ver e ouvir
E aí encontrá-lo
Calor de tocar
Tocar...
A ordem proibida
A mãe do vazio
Amor
Rebelde por si
O sexto sentido
Toca por si,
Vê por si,
Tudo o que não posso,
Tudo o que cessou
Que sempre por si, amor,
Destrói o erro
Constrói passado
Desenha futuro
Tudo, meu mundo,
De abismos aos picos,
E do breu à luz,
Do seu sorriso se traduz.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Uma foto e uma vida

Eu tinha dezessete anos. Eu era atleta e isso era minha vida. Nunca tinha pensado em outra coisa. Eu colecionava fotos, mas eram fotos de atletismo. Aí um dia veio um pôster, um desses bem grandes. Você desdobra uma vez, duas. E era aquela foto da menina afegã, tirada pelo Steve McCurry. Eu acho que fiquei mais de quinze minutos olhando a foto, sem parar. Eu achei aquilo maravilhoso. Eu olhava cada detalhe. E só conseguia pensar: é isso. É isso o que quero fazer. E então fui estudar fotografia e me tornei fotógrafa.

Foto #161

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terça-feira, 9 de junho de 2015

Morte em dois atos

Primeiro morreu a lanchonete. A lanchonete que tinha os banquinhos antigos ainda, aqueles redondos que ficam sobre tubos de metal, em frente ao balcão. A lanchonete que tinha uma televisão antiga, de tubo de raios catódicos, mostrando vídeos o dia inteiro. Vídeos de aviões. Ficava de frente para o pátio. Pelas janelas largas entreva o sol e saiam olhares apaixonados. Os velhos frequentadores tinham sempre muitas histórias e sorrisos. As paredes eram forradas de quadros colecionados ao longo de décadas. Ilustrações. Frases, brincadeiras, presentes. Tudo isso foi derrubado. Daria lugar a um novo bar. Uma franquia. Móveis modernos. Design oriundo da mente estudada de um arquiteto. Otimização do fluxo de pessoas. Maximização dos lucros e modernas estratégias de marketing. O antigo dono, ao que eu soube, durou pouco mais de um ano. Adoeceu. Desistiu de viver. Rendeu-se ao roubo legalizado de que fora vítima.

Foto #160

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Seja louco


O mundo precisa de pessoas diferentes. Precisa desesperadamente. As praças precisam de artistas que chamem a atenção. As rodas de amigos, nos clubes e bares, precisam de assunto, de pessoas exóticas a quem admirar ou criticar. Os livros precisam de autores loucos, que perturbem a crítica divindindo-a entre apaixonados e odiadores. Não deixe o mundo indiferente a você. A indiferença é a morte.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Perdas


-Não acredito em Deus ou em coisas sobrenaturais em geral...
-Você já perdeu alguém que ama?

Foto #159

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Adeus mundo!

Descobri que não sou necessário. Descobri que posso morrer de repente. Vítima de um crime, de um acidente, ou de um equívoco das batidas do coração. E o mundo seguiria seu curso. O aquecimento global, os trabalhadores voluntários, o preço do pastel. A morte injusta dos pinguins, os xingamentos de trânsito, as denúncias de corrupção. Tudo isso seguiria em frente. E então qual a razão de eu me preocupar em permanecer vivo?

Não me entendam mal. Para a alegria de uns e tristeza de outros, afirmo categoricamente: não estou pensando em suicídio.

Estou, isso sim, pensando na necessidade de viver "como se deve". Assistindo tais e tais programas de TV. Tendo esta e aquela rotina. Sendo a pessoa que devo ser.

Estou, de outro modo, descobrindo a liberdade de existir de outros modos. De um modo que não condiz com as expectativas pouco criativas com que a sociedade nos olha. Casamento. Filhos. Casa própria. Carro na garagem. Terno e gravata nos dias de semana.

Adeus mundo!

domingo, 7 de junho de 2015

Foto #158

Ainda sobre procrastinar

Encontrei uns quinze sites com poesias e prosas sobre a procastinação.

Salvei os links, todas as abas aqui no meu navegador.

Depois eu leio.

Ode à procrastinação

Ó, Procrastinação...
Grande Deusa, poderosa,
Se impõe impiedosa,
Evitando que mediocres idiotas desenvolvam suas estúpidas idéias,
Como, por exemplo,

sábado, 6 de junho de 2015

Foto #157

Lembranças

Aquelas casas com cheiro de barro. Chão de terra batida. Os chinelos ficavam cheios de lama quando eu saía do banho, ainda molhado. Era impossível ser completamente limpo ali. Mas a vida era boa. De algum modo, as coisas eram melhores. Lembro do cheiro do fogão a lenha se espalhando pela casa. Aquele aroma denso e o barulho da lenha estalando em brasa.

Os ares se dividiam em silêncios e lamentos. Risadas e repreensões. Barulhos de botas amassando o chão. Quem deixou o trator no lugar errado? Por que a janta ainda não está pronta? Um boi escapou, vamos lá buscá-lo. Urgências. E eu, criança, achando tudo aquilo uma atração encantadora, sem fazer idéia de que era apenas uma vida sofrida, uma existência privada de outras escolhas.

Lado A e Lado B

Há duas escritas. Há uma escrita para o mundo. E esta, invariavelmente, é uma escrita de fora para dentro. É a escrita que deve inserir algo no interior de alguém que vier a ter contato com as letras. Muitos escritores ignoraram esse fato e publicaram textos que pouco conseguem ensinar e causam mais sofrimento e frustração do que informação.

E há também a escrita de dentro para fora. Que é a escrita-exorcismo. A escrita-auto-psicográfica. A escrita-terapia. A escrita-exploração-de-si. Esta não precisa ser inteligível. Não precisa voltar jamais a ser lida, nem mesmo pelo autor. Sua função é a de estruturar e acalmar pensamentos. Dar voz e estruturas a coisas perdidas lá dentro. Muitos filósofos e sociólogos publicaram textos escritos dessa forma, por não entender esta distinção.

E não é uma diferença óbvia. Não se trata da diferença entre um diário e uma matéria de jornal. Trata-se uma diferença no modo de escrever. Um texto aparentemente jornalístico pode pertencer à segunda categoria, ao passo que uma escrita em diário, devidamente bem estruturada, pode pertencer à primeira. A diferenciação está no modo de escrever. No modo de conceber, ou não, um leitor do outro lado. E sentir empatia por este leitor, ainda que ele seja no momento um completo desconhecido.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Foto #156

Parará-Tim-Bum!

E então você vai à Paulista em um domingo. Está esperando o semáforo se abrir quando nota que, na faixa de pedestres à frente, está atravessando a rua ninguém menos que a Branca de Neve, acompanhada, claro, pelos sete anões. Sem pensar, você saca o celular e prepara-se para uma foto. Percebe, então, que o policial da viatura ao lado faz o mesmo. Não resiste e aproveita as janelas abertas para um comentário:
-Tem que aproveitar... não é todo dia, não é?
Eles apenas riem. Ambos.
A polícia podia ser sempre assim.

Os outros

Li em um livro sobre redação: dispare o cronômetro e comece a escrever. Ao fim de dez minutos, pare de escrever e publique o que tiver escrito em seu blog.

Que loucura, que loucura! Faço com freqüência a prática da escrita livre. Mas as coisas que pensamos livremente... essas são difíceis de contar a quem quer que seja!

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Foto #155

Fotografia

Luz. Sensibilidade. ISO. Abertura. Diafragma. Profundidade focal. Enquadramento. Regra dos terços. Fotometria. Balanço de branco. Temperatura de cor. Henri Cartier-Bresson.

Propriedades

Quem é dono da imagem? Você está andando pela rua. Aponta a máquina fotográfica. Um segundo. E leva um desconhecido para casa.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Arqueologia da ficção

Stephen King, goste você dele ou não, defende uma imagem bem interessante para a criação de histórias em seu livro "Sobre a Escrita", que é exatamente sobre isso aí que você leu. Ele defende que a criação de história é uma espécie de arqueologia telepática. A história, de certa forma, já está pronta em algum lugar, e o trabalho do escritor é desenterrar essa história, com cuidado, limpando delicadamente o véu de areia e poeira que a esconde do mundo. O interessante dessa imagem é a separação aparente entre escritor e criador. Uma vez que se tenha partido da idéia inicial, parecem existir trilhos levando a história para o próximo evento. Isso não é, estritamente falando, verdade. Mas, em termos de postura psicológica, de estado mental em que o escritor deve imergir durante o processo de parto da história, é uma imagem verdadeiramente bela.

Medo de amar

Há pessoas que abraçam. Que ligam. Que dizem que têm saudade. Que aparecem para visita. Eu gostaria de fazer isso, mais vezes, com mais pessoas. Mas tenho medo. Tenho medo e não sei bem dizer do quê. Talez deva ir a algum psicólogo. Mas e se eu não tiver nada de interessante pra contar pra ele também?

Foto #154

Desafio do dia

Fale só coisas boas. Fale bem de você. Sei que você é muito bom em pensar coisas ruins de si mesmo. Mas lanço este desafio. Faça uma lista de coisas boas a seu respeito. Só coisas boas. Depois vá até o banheiro e leia a lista em voz alta, diante do espelho.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Desculpa muito

Fiz uma compra lá nos china. Os china da Av. Paulista. Comprei um eletrônico, mas precisava de um conector USB para que a geringonça conversasse com o computador devidamente. E esqueci a pequena chavinha lá na lojinha do china. Ao voltar para buscar o item, ele se mostrou constrangido por esquecer de verificar o produto: desculpa muito, desculpa muito!
Desculpo seu china, desculpo. Mas puxei assunto. Queria saber coisas.
-Há quanto tempo está no Brasil?
-Oito anos.
-E como foi no começo? Como você pensava que era aqui?
-Primeiro falaram muito perigoso. Brasil muito perigoso. Roubo, muito roubo. E primeiro não ficou aqui. Primeiro lá vinte e cinco, sabe? Lá mais bagunça. E dia que chega Brasil, pára na rua, e vem moto do lado. Mas eu não sabia. Tinha moto e motor fazia bum! bum! bum! Eu pensava era tiro. Muito medo.
Poxa seu china... Desculpa... desculpa muito!

Foto #153

Aprender a olhar

Gosto da fotografia porque ela é um desafio. Um desafio a achar mais coisas bonitas. Você está em um lugar feio, mas tem a máquina fotográfica nas mãos. E se pergunta: como posso encontrar uma imagem bela aqui?
Depois, com a prática, vai se acostumando, até por fim se habituar a buscar coisas belas ao redor mesmo sem ter a máquina fotográfica nas mãos.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A crítica literária

Stephen King, no livro "Sobre a Escrita", conta sobre sua infância e sobre a crítica literária:

"Eula-Beulah era dada a peidos - daqueles barulhentos e fedidos. Às vezes, quando estava atacada, ela me jogava no sofá, coava a bunda coberta por uma saia de lã na minha cara e mandava ver.
-Pou! -Gritava ela, se divertindo.
Era como ser soterrado por fogos de artifício de metano. Eu me lembro da escuridão, da sensação de estar sufocando, e me lembro de gargalhar. Porque, embora aquilo fosse, de certa forma, horrível, também era, de alguma forma, engraçado. De várias maneiras, Eula-Beulah estava me preparando para a crítica literária."

Foto #152

Dos desprezos

Há dois tipos de desprezos. Um decorre do excesso de empatia e outro de sua falta.
Quando se despreza um tirano distante, tem-se um excesso de empatia por aqueles que sofrem sob suas garras.
E quando se despreza a experiência alheia, por puro descompasso com a estética própria, tem-se uma ausência de empatia para com a alegria do outro.

domingo, 31 de maio de 2015

Habilidades

Se você pudesse ser bom em alguma coisa, em que seria?
Essa pergunta me deixou um tanto quanto consternado. Qualquer domínio no mundo... Nas matemáticas ou nas artes. Nos discursos ou nas danças. Qualquer habilidade. Mas só uma deve ser escolhida.
Se me restasse uma última habilidade por escolher, logo eu que coleciono mediocridades em tantas frentes distintas, escolheria ser um especialista em sorrisos.

Desbalanço


Por que é que o ódio é mais prolixo que o amor?

Foto #151

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sábado, 30 de maio de 2015

Chamada oral


Tantas coisas na vida que a gente não sabe...
Eu não sei fazer malabaris.
Não sei falar chinês.
E se, de repente, eu não souber amar?

Foto #150

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Dos diários antigos–Parte III

De volta ao começo bem maluco dessas considerações jogadas... Ontem fugi do mundo. Fugi mesmo. Fugi da rotina que anda me engolindo. Saí andando sem avisar ninguém e fui ver uma peça de teatro de estudantes. Estudantes iniciando-se no teatro são uma coisa incrível. Não estão devendo nada pra ninguém, pois não precisam justificar nenhuma fama, e ao mesmo tempo precisam provar tudo para si. Precisam tornar-se ali os melhores atores do mundo, algo assim. Talvez depois a vida lhes quebrará essa ilusão se não tiverem talento suficiente ou, pior ainda, se lhes sobrar sandice para esses julgamentos de valor. Mas ali, nas primeiras apresentações com o primeiro grupo de teatro de que fazem parte realmente, ali são imortais. E vi isso ontem. Vi isso e mergulhei nisso. Os sons da percursão. Os gritos, os momentos de tensão das cenas. O desafio da nudez e os momentos de improviso. O canto da moça loira sentada no balanço... Meu deus, isso deveria ter sido registrado. Seria possível assistir esse vídeo vezes sem conta por semanas adiante. Ela ali sentada, num balanço, encarando a platéia a um metro e meio de distância, olhos nos olhos, nua. E começou a cantar. Doce, preciso, liso, afinado, leve. Mas ficou forte, forte, denso... como se o ar virasse água e a água virasse óleo e de repente na enxurrada de óleo viessem pedras rochedos e montanhas inteiras também. Berros, gritos, desespero.

Não creio que exista uma encenação perfeita. Mas essa descrença deve-se apenas há uma imprecisão semântica. Encenação perfeita é um contra-senso. Há uma fronteira além da qual o ator deixa de encenar. Ele efetivamente torna-se, ali, o personagem. O ator desaparece. Quem está ali é o personagem, realmente. E foi assim. Aquele bando de moleques que estava na platéia, no começo perdidos em risadinhas diante de qualquer nu que surgisse (porque, convenhamos, atores iniciantes parecem sentir uma tentação de explorar mais momentos de nu do que necessário, mas isso é outra história). Aquele bando de moleques que riam de qualquer coisa... De repente pararam de rir. Ela ali, no balanço... Pés cruzados, segurando as cordas, totalmente nua. Cantando. A percursão desapareceu. As sombras desapareceram, como se não houvesse um holofote sobre ela. De repente ela tinha luz própria. E os fedelhos moleques imbecis pararam de rir. Sumiu dali, de repente, diante dos olhos deles, uma aprendiz de atriz nua, e materializou-se uma mulher que sofria e cantava as dores de uma vida inteira e não era mais seu corpo que estava descoberto, era sua alma. Não eram mais seus seios que se viam, era seu coração, não era mais suas pernas, era sua história, tudo ali, desnudo, preenchendo todo o ambiente enquanto transfigurava-se de corpo em voz.

Isso salvou meu dia. Mas, não quero desmerecer ninguém, teria salvo meu dia mesmo que a peça fosse ruim (não era). Um dos pontos importantes foi a completa aleatoriedade... Não planejei ir pra lá. Voltei do trabalho pra casa e, de repente, pensei "tá bom, eu vou!". E fui. Ninguém sabia onde eu estava. Niguém sabe se fui. Celular desligado. (celular desligado, ó deus, bendito seja!). Fugindo de todos os lugares em que oficialmente existo, sumido no meio de um monte de desconhecidos sem ser ninguém além de um corpo quieto, olhos abertos olhando, existi. E fiquei feliz, porra se fiquei!

Ontem eu fugi do mundo. E descobri que existem outros mundos por aí. Se eu fosse Deus também teria feito o livre-arbítrio. Assim, depois de uma Criação tão atonitamente estupefante e surpreendente, as pessoas iriam cuidando das próprias vidas enquanto eu pudesse, invisível, andar livre por aí só observando. Todos os lugares. Todas as pessoas, todos os mundos. O que não levaria a nada além da admiração. Como essas reflexões estaladas no papel jogadas do quinto andar sem dó nem nexo. Não concluem nada, mas gostei de escrever. É o que importa.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dos diários antigos–parte II

Frase de um engenheiro e acadêmico ilustre: "o grande problema da vida é minizar o nosso tédio".

Santo cristo! Pobre homem... Ele é realmente genial, Zé Augusto, no que se refere a aulas, às suas apostilas cheias de equações. Estudou no místico M.I.T., o instituto de tecnologia de Massachusetts. A gente adora esses brasileiros que foram estudar lá fora.

Lembro do livro de Jonathan Safran Foer, Extremamente Alto e Incrivelmente Perto. Dessas coisas de papel que você não larga até que acabe. A vista cansou. As mãos não se aguentam, mas você quer ler mais um pouco. A angústia do menininho vai moendo nossos ossos. E lembro de uma palavra que ia se fixando ao longo do livro: "degringolar". Algo está degringolando, ou está se acertando? Como é que a gente sabe? Como diabos a gente sabe?

As perguntas da minha amiga... São importantes porque talvez ajudariam a entender se algo está degringolando ou não. Ou então se pode degringolar no futuro, e assim vai. Eu tenho medo de relacionamentos por conta do divórcio dos meus pais? Como diabos se responde uma coisa dessas? Eu tentei. Abri um e-mail e comecei a escrever. Escrever é principalmente a coragem de começar e a disciplina de continuar, não é? Mas dessa vez não levou a lugar algum, mesmo. Talvez isso seja sintomático. A dúvida é sintomática, não é? Segundo o Giannetti, é sim. Acredito nele. Se eu não tivesse nenhum problema com essa questão, teria respondido de imediato que não, que ela estava viajando.

A segunda questão dela não era bem uma questão, como conferi agora. Era uma afirmação. Eu sou um cara de humanas. O que significa isso? Não na semântica óbvia na frase, mas dentro das decisões e sentimentos que tenho e devo diante da vida. O que significa isso? Sim, eu sei que várias coisas no modo de vida engenheiro não me atraem. Sim, eu sei que eu preciso de determinadas mudanças que vão na direção de uma vida mais Humanas. Sim, eu sei que sou bem bundão pra isso, que se fosse eficiente já teria operado mais mudanças há mais tempo. Mas eu não renego meu lado Exatas. Mais do que tudo, acredito que eu sou as duas coisas. O que, fatalmente, me garantirá uma mediocridade nas duas áreas ao longo da vida, e deverei conviver com isso numa boa. Mas será facil conviver com isso, creio, principalmente porque eu penso muito diferente do J. Augusto que mencionei há pouco.

O problema central da vida é o da minimização do tédio? Que absurdo! Onde diabos está a maximização do prazer? Dar uma estilingada na janela do vizinho minimiza o tédio, e eu adoraria ver o Augusto experimentando uma técnica arrojada dessas. Discutir com as pessoas no trabalho também. Por que então as pessoas não optam por estas soluções? Por que elas diminuem o prazer, e a busca de prazer manda muito.

E por que eu, então, sou tão bundão em promover mudanças necessárias na minha vida? Bem, é nisso que consiste o medo, não é? O medo é uma suspeita exagerada de que determinadas ações implicarão na diminuição do prazer, o que produz a hesitação toda. O que trava demais.

Mas estou sendo injusto aqui. Para um texto de dezembro, está muito pessimista. Ainda que com degringolações e bundonices e freudianices atoladas num inconsciente enlameado, preciso ser justo. Há coisas pendentes, sim, ainda bem, mas preciso ser mais justo. Dois mil e dez veio, e eu não estava morando sozinho. Agora estou. Agora estou trabalhando e mandando no meu dinheiro nos meus gastos nos meus planos. Só não estou mandando certo ainda, mas estou mandando. Estou fazendo minhas aulas. Compro livros, mas tenho comprado menos livros e lido mais. Curiosidamente, essa mudança se deve em boa parte ao fato de que eu tenho comprado mais livros de humanas e menos de exatas. Maldita amiga, você está certa. O óbvio revolta, quando não é a gente que vê. Mas se eu não vi, tenho que entender a razão de não ter visto: olho demais para os outros. Para alguns chegados nunca foi possível que eu fosse alguém de humanas. Meus amigos não sabem o que é filosofia, desconhecem por completo as ciências sociais e não se comovem com a história da ciência. Vivem em cima de um prédio alto, gigante, mas ignoram tudo isso. Os andares abaixo. A história do mundo. Gosto deles, mas talvez esse contexto tenha me deixado mais sozinho do que eu deveria na escolha dos meus caminhos. Um tipo especial de solidão. Solidão nerd. Solidão intelectual. Solidão espiritual. Solidão secular.

Você decide estudar alemão. Compra um livro e promete a si mesmo: toda terça e quinta vou chegar do serviço, tomar um bom banho, e das 19:30 às 21:30 vou me trancar no quarto e ler o livro, falar as palavras em voz alta, arrumar filmes em alemão para assistir, et cetera e tal. Funciona na primeira semana. Capenga na segunda. Foi pro espaço na terceira. Consequencia do que? Da solidão. Consequencia do vazio da solidão, esta droga de solidão de que meu professor falou. Essa solidão não afeta a alto disciplina dos nossos estudos. Precisamos dos outros, em certa medida, também para a afirmação de escolhas muito pessoais. Coisa que não é óbvia e que a maioria, a grande maioria das pessoas, vai negar. Mas é assim que é. Você escolhe fazer um curso de administração. E as pessoas ao redor ficam admiradas quando você diz que faz administração. E sua família toda sabe disso, seus amigos. Você faz amizades na área. Imagine agora mudar tudo isso. Trancar o curso. A quantas pessoas você não vai ter que se explicar? Quantas pessoas não mostrariam alguma rejeição? Pessoas importantes...

Quanto às áreas não convencionais, agora. Você resolve fazer filosofia. Seu pai reprova. Vai viver de quê? Sua mãe não sabe o que faz um filósofo. Pergunta, jocosamente (ainda que sem usar a palavra "jocoso"), se você vai vestir lençóis brancos na praça da cidade. Os gregos acabaram. Atenas já era. Mas sua mãe não sabe o que faz um filósofo hoje em dia. Até tem uma idéia. Eles podem dar aulas. Mas isso é mais assustador ainda, tratando-se de Brasil como pano de fundo. Tudo bem, ainda assim, a idéia é válida. Os pais frequentemente não são o elo determinante da personalidade e nem mesmo os agentes de mais peso no mundo existencial do filho. Isso é um inferno para os pais. Para o resto do mundo, é simplesmente como o mundo funciona. Se você então tem amigos que amam a filosofia, se gosta de ler sobre o assunto, se conhece pessoas que se formaram nessa área e que estão felizes e que gostam da vida que têm, não importa quantos problemas tenham e quantas reclamações possam fazer sobre esses problemas, haverá aí uma coesão de grupo que quebrará sua solidão. E você terá uma enorme pressão para manter sua coerência de estudar filosofia.

Tudo muito simplificado, não quero teorizar muito, mas a idéia principal está aí. E pensar que o mundo é assim mesmo, que é o jeito natural das coisas, e aí pensar na minha vida, me faz refletir e chegar a algumas conclusões... Talvez seja possível resumí-las.

Tô fodido.

Éfe ó dê i dê ô.

Por que terei sempre solidões demais ao meu redor e talvez por isso venho aprendendo a gostar delas. Isso exige muito para que eu mantenha um caminho, qualquer que seja. Explica eu ter saído de um curso na faculdade e a dificuldade que tive em terminar o outro. Explica eu ainda não saber tocar violão. Não aprender alemão. Meus ritmos são mais lentos, mas sei que não terei o triplo de anos para concluir minha vida. Por que é que eu estou fodido? Por que estou em mundos demais, o que é um problema, mas gosto demais dos mundos demais a ponto de não conseguir largar nenhum deles. O que significa que, no global, sempre estarei cercado de mais gente que não entende minha vida do que gente que entende.

Mundos demais?

Gosto de jazz. Adoro jazz. Jazz clássico. Gosto de música clássica também. Sala São Paulo, Teatro Municipal, Rádio Cultura. Mas adoro pular todo molhado de suor no meio de uma multidão de show de rock, ou pegar um microfone e berrar agudos mal ajustados exaurindo pulmões e diafragma achando que o mundo inteiro está me ouvindo. Faço uma martelação sem sentido na bateria, quebrando periodicamente algumas baquetas, e nem me importo com a falta de estilo estudo técnica ou beleza. É barulho, relaxa.

Converso com eruditos mas a estupidez também me fascina.

Gosto da minha solidão. De mergulhar nela, nos meus livros, sons e pensamentos. Depois eu saio e tudo do mundo para mim serve. Vejo muita gente chata por aí, mas mesmo com elas tendo a me dar bem, uma espécie de neutralidade. Porque, se por um lado são chatas certas pessoas, a chatice me facina. Existindo minha solidão particular, lá no meu canto, sei que vou voltar a ela depois, então não preciso ter medo de me escravizar à chatice alheia. Fico lá, observando atentamente seus detalhes, e depois volto para casa, tranquilo, enquanto todo mundo ao redor se corroeu e se revoltou. Olho isso acontecendo e acho curioso.

Me dou bem entre desconhecidos. Acho um canto meu. Olho. Dizem que tenho uma certa facilidade para me enturmar. Eu já acho diferente. Eu acho que tenho uma certa facilidade para me misturar sem estar no meio. De repente falo com todos, mas deixo todos ainda tão sufientemente à vontade, que efetivamente não estou ali. Pois é a melhor posição para ficar só olhando, veja que maravilha.

E aí? E quando é assim? Esse isolamento ainda tem muito a ver com divórcio dos meus pais ou é algo mais fundamental? Ou é algo mais fundamental, hoje, mas que tem suas origens nessas conturbações do passado?

Gosto do meu tipo de conforto. Mas posso estar no meio de gente rica, iates e lanchas e essas coisas, ou viajando em um carro velho, tudo dando errado, chuva e lama, e está tudo bem. Sentindo que a vida está acontecendo, está tudo bem.

Gosto de mundos demais, e efetivamente, ultimamente, estou em mundos demais. O que seria preocupamente, não fosse algo mais preocupante ainda: não é o bastante. Não sou um contador, sou um cara de humanas. Tá bom. Não no sentido de que eu não goste de exatas, que eu não tenha meus interesses aí, mas sim em um outro sentido. Passo tempo demais mergulhado nas exatas de um jeito que ainda não gosto, e é isso que eu quero diminuir. Achar um jeito de fuçar ainda mais no mundo. Um jeito de ter mais coisas para escrever. Passar o dia fechado em uma mesma sala sem janelas fazendo um programa de computador para calcular esforços físicos dentro de uma chapa de metal... Bem, isso é interessante, um pouco, pra se ver como é que funciona. Mas já experimentei dessa vida, já sei como é que é. Ainda que essa carreira resulte em viagens exóticas às vezes e em algumas viagens pelo Brasil, estou atrás de outra coisa. Tudo bem, tem o problema do salário para contornar, mas hoje estou atrás de outra coisa. Espero que o meu mestrado possa me ajudar com isso. É um mestrado que se aproveitará de tudo o que eu consegui realmente aprender de exatas, programação em computador, cálculos e tudo o mais, mas ao mesmo tempo dará todo o espaço do mundo para minhas paixões humanisticas serem mais inspiradoras.

Dos diários antigos–parte I

Ontem eu fugi do mundo. Fugi para um mundo alternativo onde as coisas eram diferentes. E elas foram sendo diferentes até que eu cansei. O que se faz quando se cansa? Como se reconstrói um mundo? Tentei ser Deus e não consegui. Tentei e aboli minhas solidões. Aboli meus anseios impossíveis. Aboli os próprios impossíveis do mundo. E aí olhei em volta e ninguém sorriu comigo.

A solidão. Tema recorrente, não só para mim mas também para várias outras pessoas curiosas.

A solidão tem várias faces. Falta dos outros. Excesso de si. Mistura destes extremos. Muitas pessoas são sozinhas por terem demais de si mesmas na própria vida, não sobrando espaço às outras. Outras simplesmente estão isoladas. Lhes falta o resto do mundo. Rejeição, isso é horrível, é triste. Compreensível? Quem gosta de estar ao lado da gorda geleienta que baba ao falar? Você a visitaria todas as tardes, levando uns pãezinhos, só para conversar um pouco e saber das novidades (nenhuma novidade, nunca). Hein? É uma crueldade do mundo? Deveriam desconfiar da inexistência de Deus simplesmente pela rejeição que temos pelos feios. Deus existindo, esta foi uma faceta de muito mal gosto. E não apele ao livre-arbítrio coisa nenhuma, pois é um traço comum de todos essa rejeição, não é?

Voltei do meu mundo alternativo imaginário pensando essas coisas. E aqui no mundo de sempre estava tudo sempre igual, sempre na mesma, sempre continuando, e eu não sabendo onde vai dar. Eu nunca sei aonde é que vai dar. Eu crio algumas solidões e depois quero fugir delas. Eu crio algumas alegrias e depois elas me entristecem. Eu mergulho em algumas tristezas e aí olhando seus detalhes, me alegro.

É tudo imprevisível demais. É tudo muito imprevisível. Ou apenas não tenho o controle, algo assim.

Vou me voltar ao mundo lá fora, mais cedo ou mais tarde. Outras pessoas, outras histórias, outros problemas. E minha vida estará bem encaminhada, neste caso. É curioso isso. Quanto mais olhamos para fora, mais parecermos estar bem. Relação curiosa. Meu professor de sociologia falou uma vez que dentro do próprio indivíduo não há nada. O indivíduo que mergulha dentro de si buscando viver seu próprio mundo descobre apenas vazio, e vazio entristece, enlouquece, apodrece e tudo o mais. Curioso. Não faz sentido, no fim das contas. Por que seria interessante, então, olhar pra fora, se lá tudo o que há são pessoas ou também olhando pra fora ou então mergulhadas em si e logo completamente enfadonhas e tristes? Curisoso, muito curioso, não é mesmo?

Por que guardo mais segredos dentro de mim do que gostaria? O que há de problema e o que há de natural no meio disso tudo? Quero saber. Quero entender. Preciso, não é mesmo? Preciso entender tudo isso melhor e é assim que deverá ser.

E meu pai? Como ele irá arrumar a própria vida? E minha irmã, minha pequena irmã, que está casando, meu deus do céu! Minhas sobrinhas, as vi tão pouco neste ano. Meu namoro, onde há tão pouco de mim ultimamente. Quanta coisa pra pensar.

Os e-mails da minha amiga, que eu nunca respondo. Nunca respondo e não sei se eu sei a resposta. Sei que são mais questões na fila. Quando vou pensar nelas? Certas questões não deveriam ir se processando naturalmente, com o correr dos dias, no girar da engrenagem do mundo, e nós gradualmente iríamos ficando mais e mais conscientes da resposta? Ou nisso é o que acreditam os que empurram com a barriga?

Estou com uma certa barriga. Mais bicicleta e menos pizza, 2011 aí vou eu.

Estou com uma certa barriga. Da metafórica. Empurrando o mundo com ela. Qual o equivalente metafórico de mais bicicleta e menos pizza?

Foto #149

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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Coisas positivas

Gosto de ler. Gosto de aprender. Sou obcecado. Enfio uma idéia na cabeça e não consigo largar. Ela fica ali, dando voltas. Isso é bom para muitas coisas. Para achar respostas. Para criar coisas. Para desenvolver projetos. Tenho gostos variados. Não sou bom o suficiente para ser um especialista, mas sou mais inteligente do que a maioria das pessoas a ponto de ter um conhecimento além da média em um leque de assuntos grande o suficiente para ser considerado um generalista. Gosto de dançar e gosto de matemática. Gosto de tocar violão e de ler sobre antigas navegações. Gosto de fotografia e de entender o comportamento do aço. Gosto de carinho e de viagens. Gosto de paisagens. Externas e internas.

Dor


Destruí um lar.
Não sei se o lar já existia antes.
Mas destruí um lar.
Não sei se ele se destruiu sozinho.
Destruí um lar.
Nem sempre somos bem vindos.
Nem sempre boas intenções fazem sentido.
Nem sempre ter um bom coração traz coisas boas.
Nem tudo é culpa minha.
Eles não se falam mais.
Eles não se olham mais.
As paredes estão lá.
As panelas estão lá.
O tapate está limpo.
A faxineira vai toda semana.
Mas não é mais um lar.
Não se falam mais.

Foto #148

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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Foto #147

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Contágios


Política, religião e futebol, não se discute.
Há um espectro de interação social. Em um limite, nada acontece. No outro extremo temos guerras e conflito. No meio do caminho, em algum lugar, há um tipo suficientemente lento de troca de idéias e pontos de vista que acaba por permitir algum tipo de entendimento. Agreement, como dizem os gringos.
Política, religião e futebol, não se discute. E assim continuamos com nossas idéias idiotas sobre política, religião e futebol.
Deveríamos discutir mais. Com isso, inevitavelmente, vem um conflito.
Conflitos geram desgaste. Mas uma certa dose de desgaste é necessária para produzir transformações.
O mundo está se tornando extremamente compartimentado. Ilhas de memes tornando-se espécies diferentes.
Especiação de memes.
Na genética, uma nova espécie se forma após duas populações isoladas se tornarem tão distintas entre si que não são mais capazes de se misturarem, de se reproduzirem sexualmente.
Há o mesmo no mundo das idéias. Em um dado momento nossas convicções e pensamentos tornam-se tão distantes entre si que o diálogo não é mais possível.

As verdadeiras jornadas

“A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam nossas fronteiras interiores”. Mia Couto sabe das coisas.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Foto #146

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Estranho

Nos fundos da casa há uma escadaria. Está escura e empoeirada. Subo lentamente. Sinto um ar frio conforme começo a subir. O piso. As paredes. A sombra. A temperatura daquele microclima diminui à medida que os degraus sobem. Uma porta de madeira. Um sensor de presença. Alarmes, segurança e medo mesmo nesses recantos escondidos. Abro a porta. Panos de chão para limpar os pés. Uma escrivaninha é a primeira coisa que eu eu vejo. E muito papel. Muita bagunça. Quem é que é assim por dentro? Muitas idéias e muita bagunça?

Lições

Eu não lembro quantos anos eu tinha. Quantos anos a gente tem quando está na primeira série?
Eu não tinha conseguido copiar toda a lição. Mas o Paulo, um amigo meu, conseguiu copiar tudo a tempo. Eu levei o caderno dele para casa para copiar. Mas não estava conseguindo entender a letra dele. E então eu pedi ajuda ao meu pai. Ele, pacientemente, me ajudou a identificar aquele código estranho. E depois, sereno porém denso, me disse:
-Nunca mais traga um caderno de um amigo para casa. Seu amigo agora está brincando, e você está aqui fazendo lição.
Foi a única vez que meu pai me deu uma bronca assim. E ainda não sei como ele fez para que eu nunca esquecesse dessa lição.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Foto #145

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Latente

Eu já ditei as regras em um dado momento. Tirei as notas mais altas da sala. Contei as melhores piadas da noite. Fui foco de admiração e, por que não, de uma certa inveja também.
De uns tempos pra cá a vida mudou. Estou de lado. A vida parece acontecer lá fora enquanto fico aqui, com minha existência em banho maria, interminada, latente. Espero poder fazer a transição de volta em breve. Não exatamente para o centro das atenções, que é um local estranho e traiçoeiro. Mas para aquela região mais interessante em que as coisas continuam acontecendo.
Nos últimos anos me tornei potenciais. Acumulei potenciais. Aprendi coisas. Viajei. Reorganizei sonhos. Está na hora de abrir a porta de novo e ir lá fora.

Caminhos

Onde há dúvida há liberdade.
Há tantos anos li isso. Utilizei essa frase para distinguir entre livres e ignorantes.
E entendi ignorantes como aqueles que ignoram as liberdades possíveis da própria mente.
E hoje, olhando no espelho, de repente estou me perguntando: quais minhas dúvidas? Porque faço certas escolhas como se houvessem certezas?
Há mais dúvidas por aí do que a gente imagina.

domingo, 24 de maio de 2015

Foto #144

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Clientes

Fiz as compras. Fui com o carrinho ao caixa. Mas eu estava ao celular, finalizando uma conversa. A atendente iniciou a marcação dos preços. Perguntou se eu queria "CPF na nota" (a tal da nota paulista). Fiz que sim com a cabeça mas mal olhei nos olhos dela.
Eu ao telefone.
Ela passando as mercadorias.
Finalizou. Perguntou: "dinheiro ou cartão?"
Apontei para a maquininha de cartão.
Débito ou crédito?
Falei ao telefone: "só um segundo..." Olhei para a atendente: débito!
Ela passou meu cartão. E então finalizei a ligação.
Eu estava constrangido pela minha falta de humanidade e tentei me desculpar.
-Olha, mil desculpas viu...
-Imagina! Por que?
-Por ficar no celular e mal falar com você...
Ela sorriu um sorriso largo e me olhou com sinceridade: não tem problema mesmo!
Tentei brincar:
-Bom, se isso não te incomodou, acho que é porque já viu piores.
Ela gargalhou e disse, quase pra ela mesma: "e como! bem piores..."

A arte de mentir

Um gráfico. Outro gráfico. Este aqui mostra a tendência disso aqui aumentar, percebe? Este outro mostra que as coisas podem melhorar se fizerem isso.

Se fizerem as coisas que vocês nunca vão fazer.

Esses estudos são a evolução da arte de mentir.

Mentir para si mesmo, em nível institucional.

As instituições fazem a mesma coisa que as pessoas.

Imaginam um futuro em que tudo estará resolvido se forem feitas as coisas que não serão feitas.

É a versão civilizada dessa coisa íntima que é a promessa de um regime na próxima segunda-feira.

sábado, 23 de maio de 2015

Sopro de vida

Assim como a asfixia é um apelo ao corpo para a ingestão imediata de ar, a curiosidade é um apelo a alma para a ingestão imediata de vida.

Foto #143


Espírito Ioiô

É um nome técnico bonito, né? Espírito Ioiô. Freud deveria ter utilizado esse tipo de coisa em seus livros chatos. "Quando o Id inicia a transição entre o modo estátua e a característica ioiô então o sujeito...". Seriam textos mais interessantes. Ou não. O importante é que é um termo apropriado para mim. Um espírito ioiô. Que hoje está aqui. Amanhã está lá. E um tempo depois está aqui de novo. Só assim explico essa frequencia assutadora com que me esqueço e com que me redescubro. Esse espanto idiota com oscilações que insistem em se reformularem. Sempre diferentes. Sempre as mesmas.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Hüsnü Senlendirici


Obrigado, música, por vir me resgatar no meio desse tédio lamacento e salvar minha vida. Ninguém mais faria isso em meio a uma noite tão escura.

Foto #142


Equívocos


Você gasta com cremes para a pele. Passa horas cuidando da maquiagem. Gasta uma fortuna com o cabelo, em salões especializados. Preocupa-se com os mínimos detalhes da roupa. O caimento sobre o corpo. O acabamento de cada fio, cada dobra.

E não consegue entender que nada pode te deixar tão bela quanto a alegria natural que sentiu hoje de manhã ao me mostrar o pequenino broto de limão que começava a despontar na terra do vaso. As mãos sujas, o cabelo todo fuá como você diz.

Nada pode te deixar tão radiante como ver um cachorro na rua, um cachorro feliz que quer fazer contato com você, que pula no portão, latindo, pedindo um pouco de carinho.

Não há roupa, maquiagem, idade, peso, unhas, sapatos... nada nada nada no mundo que reproduza essas belezas. Nem de perto.

Só queria que você entendesse isso também.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Engrenagens


O "setting" da máquina: três postagens por dia. Uma com uma foto, e dois textos. Todos os dais. Por pelo menos um ano. Não é preciso escrever e fotografar todos os dias, porque isso é impossível. A rotina, ou a falta dela, não permite tanto. Mas a tecnologia está aí pra isso. Então é possível escrever muita coisa em uma tarde desocupada e ir programando as postagens. Funcionou muito bem em janeiro. Fevereiro foi inacreditavelmente produtivo, mesmo com uma grande viagem, ou talvez especialmente por conta dela. Março dizia que tudo continuaria bem. Abril, o mês que começa com o dia da mentira, viu os primeiros engasgos. E em maio houveram grandes tropeços. E aina não estamos no meio do ano. Vou corrigir isso. Mas não é um projeto tão ambicioso assim. Dar comida para o cachorro todos os dias é algo muito mais importante. Visitar os amigos queridos ao menos uma vez a cada seis meses... uma vez no ano, que seja, é algo muito mais fundamental. E ainda assim a vida se impõe como uma barreira. Será que é uma propriedade inerente à vida ou é mais algo ligado ao meu modo de lidar com a vida?

Talvez seja algo inerente à minha vida e não a todas elas. Quero mudanças. Quero deixar a vida mais coerente com meus pequenos planos. E com meus grandes planos também. Uma vida que comporte pequenas maravilhas. Acordar cedo aos sábados para caminhar em algum parque. Ver os velhinhos andando com seus cachorrinhos, ou andando de mãos dadas com suas velhinhas. Ou sentandos sozinhos num banco, sorrindo. Uma vida que permita uma hora de descanso por dia, não necessariamente todos os dias, em frente a uma folha em branco. Ou com as mãos no teclado ouvindo esse barulhinho quase de borbulhar. Borbulhar... Teclados borbulham. Idéias fervendo. Assim como a água no fogo, não é um processo instantâneo. Demanda um tempo. Um tempo para a alma esquentar. Um tempo que às vezes o caos da vida urbana não permite. Engrenagens desalinhadas.

Paternal


Você é minha criança.
Eu amo isso.
Eu tenho medo disso.
De que não seja um vínculo saudável.
Você é minha criança.
O seu medo do mundo.
O seu trauma com os monstros.
Monstros que existem.
Eu estendo a mão para você.
Quero te atravessar a rua
Mostrar as coisas bonitas do outro lado.
Só espero que você tenha coragem.
Só espero que eu te dê coragem.
Só espero você.
Só, espero você.

Foto #141


quarta-feira, 20 de maio de 2015

Sem pedágio


Quando o corpo quer passear ele viaja... pega um carro, um avião, um ônibus ou sai andando por aí a pé.


Quando a alma quer passear, ela escreve.

Foto #140


Mentiroso

Infantilmente mentiroso. Porque eu disse para mim mesmo que estaria dormindo. Tem três horas já.
Fiquei acordado. Pensando na camada de ozônio. Na extinsão dos dinossauros. Na lista de compras do mercado. Na falta de água da cidade. Fiquei gastando o tempo com questões fundamentais sobre as quais não poderia fazer, naquele momento, rigorosamente nada. Nada mais humano.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Distante no tempo

O que eu escrevi está lá e não sou eu. Eu leio e vejo que não sou eu. O tempo levou de mim um ser que já não existe mais. Quais outros trará no lugar? Não controlo esse fluxo. Ninguém controla. Ilusão. Ilusão pura essa de controlar o tempo. As pessoas não sabem. Não vêem. Porque uma foto, dessas coloridas, no filme antigo ou no iPhone moderno, não é suficiente. Uma foto não grava a alma. Mas a escrita grava. Ainda que um espectro tênue. E vejo que a alma é outra. Não previu esta em que se tornou. Assim como esta não faz idéia do que será no futuro.

Foto #139

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Negativo

Eu li seu blog tantas e tantas vezes. Toda vez que o acessava era essa alegria tomando conta de mim. Eu te amava. Tinha certeza de que te amava. Mas um dia me dei conta de que amava aquelas palavras. E nunca havia olhado em seus olhos. Ouvido sua voz. Vibrado com sua risada. As palavras poderiam ser assim tão verdadeiras? Eu li seu blog. Eu imaginei você. Eu me apaixonei. Me apaixonei por minha imaginação. Não apareça. Não desfaça meus sonhos.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Relativo

Tenho amizade com ela há muitos anos. Desde os tempos do ICQ. Ela veio de outro estado. Nos correspondíamos por carta, por carta escrita, veja só. Quem é que se corresponde por carta escrita hoje em dia? Ela é três anos mais nova que eu. O que significa que quando começamos a conversar ela era uma criança perto de mim. Hoje essa diferença já não importa mais. Mas ela tem uma vida muito mais ativa. Trabalha em uma agência de publicidade. Mora sozinha. Tem sempre histórias para contar. O cara da jaqueta. O cara do Tinder. O cara que parecia que era mentira, depois se mostrou machista e estúpido, mas que hoje ela entende porque adora ficar falando sacanagem com ele e ficarem juntos pelo menos uma vez por semana. E aí vamos nos encontrar para falar da vida e eu com minhas histórias. Triste porque achei chata a família da minha namorada no último almoço em família. Chateado com cobranças de atenção. Talvez as soluções para os meus problemas sejam mais simples do que eu imagino. E aí ela comenta:

-Nem sei o que falar, porque eu nem sei mais o que é essa coisa de ficar tão junto assim com alguém, a ponto de conhecer as histórias, conhecer a família, chegar a se cansar de ficar junto...

Definições

Durante o almoço, de algum modo, começamos a conversar sobre a definição de inteligência. E meus amigos tinham vários comentários:

-Mas inteligência é um atributo muito over-rated hoje em dia. Nem todo mundo tem. A maioria não tem. Há outras habilidades. Mas não é porque uma pessoa é muito bem sucedida em uma coisa que ela é, necessariamente, inteligente.

-Inteligência tem que ser capaz de se sobrepor a preconceitos. De se questionar. De se perguntar "e se eu estiver errado? e se isso não vor verdade?" e levar essas questões adiante.

Foto #138


domingo, 17 de maio de 2015

Institucionalizar a vida

É o que eu preciso fazer. Concluí isso outro dia. Não lembro se foi no banho ou se foi colocando o lixo pra fora. Essa última opção é mais devidamente alegórica. Mas como assim, institucionalizar a vida?

O que você gosta de fazer? Passear com cachorros? Que tal ser um dog-walker, ao menos aos fins de semana?

Escrever? Que tal um jornal local? O compromisso de um pequeno livro? Um clube de leitura? Um ghost writer para alguém? Traduzir trabalhos?

Assistir TV? Até para isso há trabalho. Pessoas que assistem filmes e programas para determinar a faixa etária limite. Ou para colocar legenda. Ou para dublar.

Preciso fazer isso com minha vida. Porque hoje é assim: ao terminar o horário de trabalho é que surge uma pequena chance de minha vida acontecer. As coisas que quero estudar. Os locais que quero visitar. Mas meu trabalho tornou-se absolutamente sem conteúdo. Sem vida. Sem sentido. Um completo desperdício de tempo a troco de dinheiro. E depois fico me lamentando por não encontrar tempo para usar o dinheiro como gostaria. Preciso institucionalizar minha vida.

Foto #137

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Desnamorar

Se eu pudesse iria desnamorar todas as minhas ex-namoradas. Assim mesmo, apagando o passado. Fazer com que nunca tivéssemos namorado. Porque hoje elas estão distantes. É assim que é a vida. Mas eu não as queria distante. São pessoas incríveis. Interessantes. Pessoas com quem eu adorava conversar. E se nunca tivéssemos namorado quem sabe então hoje ainda seria possível algumas conversas ao vivo durante o ano. Um bate papo num café. Um encontro com mais amigos. Mas o fato de tê-las namorado destrói esse vínculo. Queria poder desnamorar.

sábado, 16 de maio de 2015

Coisas que ninguém acredita

Coisa 1: sou tímido

Coisa 2: meu mundo é fechado, quase ninguém entra.

Excessos

Será que ficar mal faz parte da vida tanto assim? Ou foi só um erro? Ou é só minha burrice em não aprender logo como evitar esses erros? Era tão óbvio que iria acontecer... E é tão óbvio que os problemas vão continuar. Na prática, a teoria é outra.

Foto #136

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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Amor

Mais um dia perdido para tédio e raiva acumulados à toa. E eu insisto nisso. Que idéia idiota. Ser capaz de existir sem fazer sentido nenhum é uma das coisas mais assustadoramente curiosas sobre o amor.

Tempos modernos

Ah, vida urbana.
Tudo é mais interessante que o trabalho.
Os vídeos de gatinhso fofos na internet.
A notícia de que um ajudante do Silvio Santos foi assaltado.
Discutir com anônimos sobre ciclovias.
Mas eu não sou um escravo.
Não estou vivendo em um lixão.
A vida é confortável e boa.
Mas esse conforto desmerece meu tédio?
Ah, vida urbana!

Foto #135

109

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Foto #134


Correntes...

Sou um chato. Até se resolver participar de correntes de internet. De facebook. Vi essa aqui: Abra o décimo livro da sua estante e publique abaixo o a primeira frase do primeiro parágrafo da página 43. E eis minha frase:
"Um grupo de astrônomos, incluindo Laplace, desempenharam um importante papel no estabelecimento da Gaussiana, ou distribuição normal (a curva em forma de sino da qual falamos)."
Fala aí: romântico, né?

Madrugada

Era um grande barco, e eu virava o leme e algumas pessoas caiam. Outras apareciam, não sei da onde. E então um barulho de vidro. Vidro quebrando. Abri os olhos. Quatro da madrugada. Haveria alguém na cozinha? Pensei em chamar a polícia. Havia alguém na cozinha, um copo caiu e acordei assustado com o barulho, no meio de um sono. Mas tudo era silêncio. Silêncio absoluto. O que eu deveria fazer? Esperando chegar a alguma conclusão sensata sobre o que fazer, fiz precisamente nada. E o tempo foi passando. E com o continuar do silêncio, levantei e fui até a cozinha, onde encontrei tudo na mais absoluta ordem. Será que o barulho foi em outro lugar? Na rua? No vizinho? Ou... no meu sonho? Mas quem iria quebrar um copo de vidro naquele navio? Os sonhos deveriam ter uma incoerência minimamente coerente.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Foto #133


Botões mágicos

Queria um botão que mudasse tudo. Um milagre. O gênio da lâmpada. O controle remoto milagroso. Um botão. Um único botão. Um botão capaz de extinguir os medos. O medo de ser exatamente quem se é. O medo de não saber exatamente quem se é. Em mim e em todos. Alguns sabem demais. Estão cheios de certezas erradas. E outros sabem de menos. Falta-lhes coragem para assumir as respostas às quais já chegaram por vias lícitas e cautelosas. Desequilíbrio. Esse é um desequilíbrio do mundo. Não sei se é uma inferioridade cultural nossa. Se é algo difundido no mundo, inerente à espécie humana. Vejo sempre isso. Pessoas que são muito dadas à ação mas que não tem paciência para a teoria, que não param para estudar profundamente o problema, mas que vão adiante pura e simplesmente porque... porque vão, saem fazendo coisas. Gravam músicas, escrevem livros, abrem empresas, compram um novo imóvel. Enqanto outras, cheias de idéias geniais, ficam ali paradas, ponderando, olhando. Tomando consciência mais e mais das incertezas que abundam em suas análises do mundo. Se esses buracos pudessem todos ser tampados. Por um botão mágico... já pensou?

Sia

A famosa cantora dispensa apresentações. Se você não sabe de quem se trata, digite Chandelier no youtube e desfrute dessa música sensacional, mas saiba que a criança que você vê dançando em todo o vídeo não é a Sia, é a pequena Madison Nicole Ziegler, dançarina que ainda não completou 13 anos mas já foi vista literalmente bilhões de vezes nos clipes que estrelou. Sia é a autora da música. Ela escreveu música para muita gente famosa já, como a música Diamonds, sucesso na voz de Rihanna. Mas Sia faz muito mais sucesso agora, que está lançando suas músicas na própria voz. Curiosidade: ela não mostra o rosto. Raramente seu rosto é visto. Em apresentações, em programas de TV, ela prefere se apresentar cobrindo a cara, seja com uma grande peruca, ou alguma espécie de máscara, ou simplesmente dançando de costas, por mais estranho que isso possa parecer. E estranho é, mas há também algo de belo nisso. Gostamos de sua música e não fazemos associação à pessoa, à imagem. E se ela fosse uma mega gostosa? E se ela fosse horrível, alguém com uma cara capaz de fazer a Susan Boyle se contorcer de aflição? Não importa... estamos olhando para sua música e a julgando por este padrão. Quisera eu que nesse nosso pequeno mundo mais e mais pessoas conseguissem atingir na vida esse tipo especuak de invisibilidade que torna tudo muito mais nitidamente visível.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Foto #132


As perguntas...

Quais sonhos são possíveis?
Estou perdendo tempo quando paro para sonhar, ou ainda é possível fazer esta ou aquela manobra em minha vida?
Ser astronauta?
Tornar-me um milionário?
Escrever muitos livros?
Viver de música?
O que eu quero afinal?
O que... afinal... eu quero?
Mais trinta dias se passam e essas perguntas vão ecoando entre cafés e filas para passar o cartão nas portarias. E chegam as contas. E é depositado o salário.
Tics de um relógio moroso mas inexorável.

Dilema moral

-O que andou lendo?
-Um livro sobre dilemas morais. Tinha um bem interessante...
-E como era?
-Imagine que você está em uma passarela sobre um trilho de trem. E o trem vem vindo e há dez pessoas presas ao trilho, de modo que o trem irá matar todas elas.
-Afe, que horrível!
-Calma, há uma escolha... Você tem acesso a uma alavanca que desvia o trem para o trilho vizinho. Mas nesse trilho há uma pessoa amarrada.
-Credo!
-Pois é... Você tem a opção de não fazer nada, e aí dez pessoas morrem... Ou então você pode interferir no problema e mexer na alavanca, e aí apenas uma pessoa vai morrer. Mas é uma pessoa que não morreria se não fosse por você! E aí, o que você faz? Mexe na alavanca ou não faz nada?
-Bom... eu jogaria uma moeda e deixaria a decisão nas mãos de Deus. Assim eu não abandonei o problema, mas também não fui autor da decisão final.
-Nossa, não sei dizer se é cômico ou irônico.
-O quê?
-Essa coisa de conversar com Deus por meio de uma moeda!

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Foto #131


Estrada 47

Adorei o filme. É uma pena que os brasileiros tenham uma ativa vontade de não assistí-lo. Filme brasileiro? Que merda! E sobre militares brasileiros na europa? O que é que os brasileiros foram fazer lá?

Mas foram. E não foram poucos. Foram 25.334 brasileiros enviados para a Europa durante a Segunda Guerra Mundial, número que só é pequeno se comparado aos números estúpidos dessa catástrofe humana.

O filme é uma lupa, uma visão microscópica, sobre um pequeno grupo dentro desse universo. Não é um filme violento, mas seu realismo despertou em mim ainda mais aflição do que cenas hiper sangrentas em que milhares de pessoas são esquartejadas em todos os lados do campo de batalha. A aflição de que um único personagem vai acabar levando um único tiro numa situação qualquer acaba despertando mais pavor, mais indignação, mais sentimento de que a guerra é algo que, simplesmente, não deveria acontecer.

Genial

Aí eu me atrevo a ler estes blogs mais nerds, e não me contento com a notícia. Vou para os comentários. A matéria discutia o chamado "modelo padrão" da física, uma teoria para explicar todas as forças que conhecemos em nosso universo mas que engasga na dificuldade de conciliar a força gravitacional com as demais e esta acaba ficando de lado. Aí eu vou para os comentários e me deparo com uma revolta genuinamente notável:

-Cara... esse modelo padrão aí tem mais buracos que a Petrobras!

domingo, 10 de maio de 2015

Foto #130


Pela culatra

Eu juro que tive a melhor das intenções. Gastei caro no presente. Queria que você se envolvesse com algo, que ocupasse seu tempo com algo que ama, despertando assim uma energia interior adormecida. Mas você não se identificou com a escola. Algo deu errado. E agora você sente algum tipo de culpa que não quer dividir comigo. Sente que gastei dinheiro à toa, sente que não honrou o presente que eu lhe dei. Eu não queria ter causado esse peso todo, juro que não queria. E ainda assim, é assim que aconteceu.

Todos foram embora

E a sala está vazia. O barulho dos carros passando lá na avenida. O celular sobre a mesa. As notícias do UOL abertas na tela do computador. Abro a notícia do Gizmodo sobre civilizações extraterrestres. Leio os comentários. Penso no coeficiente de estupidez: a razão entre comentários briguentos ou idiotas para o número total de comentários, C1. E no coeficiente de esperança, necessariamente 1-C1. É raro encontrar algum lugar na internet em que C1 seja menor que 0,5. Ou seja... pelo menos metade dos comentários presentes em qualquer notícia com fórum de discussão aberto está ali apenas para falar mal, provocar, falar besteira... A predisposição humana a falar sem a menor necessidade é incrível.

Concluo: sou humano.

sábado, 9 de maio de 2015

Foto #129


Bom dia

Manhã fria. Eu tomando café na lanchonete e, teimosamente, escolho uma das mesinhas de fora. Gosto de sentir a temperatura do dia, mesmo que seja fria.

No estacionamento, ao lado, um gari varria as folhas caídas no chão. De repente vi que ele se deteve, olhando para baixo, e não entendi bem a razão.

Observei que ele começou a cutucar o chão com cuidado, com a ponta da vassoura, bem de leve, e uma borboleta saiu voando. Então, normalmente, ele retomou seu trabalho.

Teste do sofá

O couchsurfing.org é um site incrível. Em português a tradução livre seria algo como "surfando nos sofás". Permite que viajantes se encontrem com pessoas que gostam de viajantes. Você quer ir para Piacenza, na Itália, mas não quer saber de hotéis e instalações "artificiais"? Que tal uma opção monetariamente mais barata e culturalmente mais rica: ficar na casa de alguma família genuinamente italiana por lá?! É isso o que o site permite. Que viajantes encontrem pessoas dispostas a recebê-los.

Fazia três meses que eu estava com a Silvia. Eu estava encantado com ela. Apaixonada por livros. Por boa arte. Bonita, educada e inteligente. Conseguia conversar de tudo com ela. Política, cultura, religião. Até que cometi um erro. Comentei a ela sobre o couchsurfing.

E ela ficou indignada.

"Que absurdo! Receber algum estranho dentro da minha casa? Que idéia louca!"

Pior de tudo. Ela nem tinha entendido ainda que em boa parte das vezes não há nem mesmo cobrança financeira dos hóspedes. Em geral acerta-se alguma "ajuda de custo", referente a alimentação, ou algum presente de gratidão, mas não se cobra uma estadia.

"O quê? De graça? Ah não, você perdeu o juízo, isso é ridículo."

Naquele instante eu tive certeza de que éramos fundamentalmente tão incompatíveis que não poderíamos, de modo algum, continuar juntos por muito tempo. E assim foi.

Esse caso foi o primeiro de muitos. A Silvia não foi a primeira namorada a, digamos, não passar no teste do sofá.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Foto #128


Fútil

As pessoas conversam sobre quem está confinado no BBB. As pessoas vão aos shoppings comprar bolsas e sapatos caros. Acho as pessoas fúteis, vazias. Não estão preocupadas com o avanço da humanidade. Não estão preocupadas com a história da ciência. Não estão preocupada com as grandes crizes políticas. Aí eu penso em mim mesmo neste contexto. Onde me encaixo em tudo isso. E onde todas as coisas se encaixam.

Penso que exite um sentido em se preocupar com as questões maiores. Queremos construir um mundo melhor. Queremos resolver os grandes problemas da humanidade.

Mas... pra que? Queremos resolver tudo isso para termos a chance de ter uma existência pacífica.

Aí, vivendo uma existência pacífica, poderíamos fazer qualquer coisa e sermos felizs à vontade.

Qualquer coisa.

Como, por exemplo, discutir sobre os confinados do BBB ou comprar sapatos e bolsas só porque são bonitos.

Sinto-me fútil em minha profunda dificuldade em aceitar certas diversidades.

Valeranello

C'era li i gatti. Erano in realtà come fossero le veri proprietari della casa. E c'era il proprietario. Questo signore vecchio però non troppo. Aveva una energia per parlare, per domandare cosa. Da dove vieni? Cosa fai? Cosa studia? Aveva energia per dicermi le cose buone. Sei un ragazzo inteligente. Fai un bel lavoro. Bravo, giovane. Aveva energia per dire le cose cattiva rispeto ai napolitani. Questi non hanno voglia di studiare come te. Siano tutti perdutti. Per questo Napoli non va. Un vero romano, questo vecchio e simpatico signore.

Ogni giorno, a mattina, io mi svegliavo a quello letto povero, con le vechie lenzuole. Penso oggi que il vecchi faceva questo come un piano... Cosi le ospede compravano lenzuole nuova e dopo laciavano questo a casa. Io non ho mai fatto questo. Haveva soltanto il soldi della borsa di studio e non voleva fare impiego di un centesimi in piu. Quindi non ho comprato lenzuole nuovi. Nemmeno durante il inverno. E quello inverno, credimi, ha nevicato a Roma. Due volte!

Quando sono arrivato, tutto mi dispertava un incanto, anche una certa invidia. Una casa grande. Piscina. Una stanza ampia e buona cosa da mangiare.

A mattina me ne andavo al laboratorio. Non ero proprio a lavorare con il modelli piccoli di navi. Ero al computer. Software con codici incomprensibili a gli umani normali.

Oggi sono lontano piu di quattro mile chilometri da quella vitta. Mi manca parlare con il vecchio. Pero ho anche paura. Un po di paura da quella vita. Perche aveva la casa. Aveva il soldi tutti. Aveva li gatti e anche un impiegatto nella casa per fare tutto lavoro piu pesante. Ma no lo se si era felice. Non aveva tutta questa voglia di trovare li amici. Non parlava benne della sorella.

Io era gia da questo latto del'oceano cuando una cosa terribile è sucessa. Uno dei gatti morio. Non ho mai sentito di una persona cosi triste. Ad un unico tempo a me è stata una storia bella e triste. Bello perche ogni persona doveva svilupare questa ligazione prossina con i gatti e con i cani. Pero anche triste, perche no lo so si qualcuno umano, si morto, poteva fare questo vecchi cosi triste come il gatto aveva fatto.

Oggi lo so che si amo qualcuno, questa persona à anche la che puo farmi piu triste. Ed è per questo, proprio per questo, lo so, che ho tutta questa paura di avicinarmi della gente che amo. Ed è anche proprio per questo che ho paura di, al fine della vita, avere vicino a me soltanti li gatti.

Penso che la vita sia qualcosa come il modo che scrivo in italiano. Piena di sbagli e cose strane, pero qualche senso c'e lai.