sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Não deixe a segunda em segundo plano

É o primeiro dia da semana. E todo mundo diz que odeia segunda-feira. Trata-se, vou revelar aqui, de um grande complô. Quem começou a amaldiçoar a segunda-feira tramava um cruel plano para destruir a auto-estima da humanidade. Devemos amar nossas atividades, nosso tempo, nossa rotina. Eu não digo que deve-se amar um trabalho horrível mas o ódio corriqueiro à segunda-feira acaba servindo para esconder uma verdade muito óbvia: quando seu trabalho só lhe traz desânimo está na hora de trocar de trabalho! O problema, neste caso, não é com a segunda-feira, mas com você. Ache logo alguma atividade que lhe faça amar a segunda-feira.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Notas de um explorador em campo

Fui para a África desbravar desconhecimentos e surpreendices. Descobri que sob miragens das mais belas se escondia um grande e árido deserto.

E, continuando a onda de revoluções científicas, descobri que os ventos cruzam o Atlântico não só de leste para oeste mas também na direção oposta, distribuindo chuvas ao longo dessa que se chama, nome apropriado, Zona de Convergência Inter Tropical (ou ITCZ, em inglês).

A melhor parte é quando esses bons ventos se condensam e a aridez dá lugar a esse doce cheiro de chuva, que nos enchem de sorrisos. Como se a natureza abraçasse a gente tão apertado, tão de perto, que é difícil acreditar que tudo partiu de tão longe.

Quero

Quero ver uma foto sua
Mas quero mais

Quero flagrar seu doce caminhar
Mas quero mais

Quero receber do vento teu cheiro
Mas quero mais

Quero teu olhar fundo no meu
Mas quero mais

Quero proteger sua mão nas minhas
Mas quero mais

Quero embrulhar seu abraço no meu
Mas quero mais

Quero incendiar seu beijo
Mas quero mais

Quero rasgar suas roupas, seus pudores
Mas quero mais

Quero deslizar nos seus suores
Mas quero mais

Quero embaralhar nossos corpos
Mas quero mais

Quero nossas palavras misturadas em uníssonos sentimentos

Dona Yolanda

Meus avós moravam em São Paulo mas meu vô havia comprado um terreno no litoral para realizar o sonho de aposentadoria de viver à beira do mar. Quando eu era um bebê a casa estava sendo construída e lá onde minhas primeiras lembranças alcançam a casa já existia. A rua, hoje asfaltada, ainda era de terra. E a casa da memória não quase nenhuma semelhança com a de hoje. Uma coisa, contudo, permanece: o sofrimento da vizinha Yolanda, que só se acentuou com o tempo.

Eu não entendia a dimensão do drama quando ainda era uma criança, mas lembro claramente de ver a Yolanda com sua filha deficiente. Hoje sei da história. Quando os filhos cresceram e foram morar em outras cidades, Dona Yolanda resolveu adotar uma criança. O pequeno bebê tinha uma deficiência de nascença porém essa informação não foi passada para ela. Quando se deu conta, tempos depois, não aceitariam a criança de volta no orfanato. Mas Yolanda estava decidida: era sua filha.

A menina cresceu. Nunca aprendeu a falar além dos balbucios de algumas palavras. Sua locomoção era precária: não dominava o próprio corpo.

À medida a menina crescia, Yolanda envelhecia. Os filhos raramente vinham visita-la. Tinham um misto estranho de ciúme e raiva, ou talvez desprezo, por essa irmã defeituosa.

Certa vez, quando não era época de férias e portanto o bairro estava praticamente deserto, um lunático invadiu a casa, trancou a Dona Yolanda no banheiro, estuprou a menina, roubou coisas da casa e fugiu. Nunca foi pego. Eu só soube disso tempos depois porque ainda era novo para minha família dividir histórias assim comigo.

A história ainda não chegou ao fim e está, enquanto escrevo, passando por mais um momento dramático. Meus avós não são mais vivos. Agora são meus tios que cuidam da nossa casa. Foram para lá passar um final de semana e foram abordados por um outro senhor do bairro. Ele comentou que há dois dias a Dona Yolanda não aparecia varrendo seu quintal. Chamavam e ninguém atendia. Ligaram para a polícia para perguntar sobre arrombar a casa e, sob recomendação da delegacia, chamaram os bombeiros. Eles logo vieram e arrombaram a casa. Dona Yolanda estava no chão. Teve algum ataque. Estava lá não se sabe há quanto tempo. Talvez dois dias inteiros já. Suja, havia urinado e defecado sem sair do lugar. Balbuciava coisas. A menina, agora uma adulta, estava ali como que compartilhando do ataque. Faminta. Assustada. Entendendo muito menos do que o pouco que havia entendido da vida até ali.

É algo criminoso. Sua família a abandonou ali. São responsáveis por elas mas, nesse momento, devem estar preocupados apenas com a escritura da casa e torcendo para que essas duas, grandes estorvo, morram logo. Nem só de histórias de verão é feito o litoral...

Fé em perspectiva

Um pedaço de rocha redondo, molhado, flutuando no vazio, banhado pela estrela vizinha. Pequenos bichinhos reunidos em suas tocas sobre esse grão de poeira dedicando pensamentos a personagens imaginários.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Vamos por partes

Uma parte de mim
Lê Ferreira Gullar
A outra lê qualquer merda

Uma parte de mim
Só quer olhar
A outra
Só quer foder

Uma parte de mim
É caprichosa
Outra
Faz de qualquer jeito

Uma parte de mim
É literatura
Outra
Só palavrão e cuspe

Uma parte de mim
Tem paciência
A outra
Nem interessa

Uma parte de mim
Escreve a caneta
A outra parte
Faz vídeos

Uma parte de mim
Sente saudades
A outra
Manda à merda

Uma parte de mim
Olha pra fora
Outra parte
É só mistério

Uma parte de mim
Tem medo
A outra
Se joga

Uma parte de mim
Te espera
A outra
Já foi.

Notícias ruins

Não quero ser a pessoa a dar as notícias ruins. Avisar que o trabalho não ficou bom. Contar que fulano não resistiu à cirurgia. Dizer que a roupa escolhida está horrível. Comentar que o tempero definitivamente não deu certo. Mas notícias ruins precisam ser dadas. Quem é que vai me avisar que esse texto não tem razão de ser? Quem é que vai dizer à humanidade que estamos fazendo tudo errado?

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Ignorar tudo o mais

Essa é minha dificuldade espiritual.
E daí que faz tempo que não falo com meus amigos?
E daí que a política está degringolando a galopadas?
E daí que existe trabalho escravo?
E daí que milhões de espécies estão sendo extintas?
E daí que há tanta gente interessante por conhecer?
E daí que há tanta coisa bonita por fotografar?
E daí que há tanta música bonita por ouvir?
E daí que há tanta coisa incrível na matemática?
E daí que há tantos e tantos belos romances por serem lidos?
Tenho que aprender a ignorar
Tenho que aprender a prestar atenção no corredor que estou varrendo
Tenho que aprender a prestar atenção na próxima frase a ser escrita
E nada mais
Tenho que aprender a admirar meu quarto
Que também pertence ao mundo, embora soem coisas mutuamente excludentes
Tenho que aprender a desfrutar de um olhar por vez
E daí que tive essa visão do tamanho do mundo?
Se meu mundo se desenrola um pedaço por vez
Que eu aprenda, no fundo do meu íntimo, a ignorar tudo o mais

Sugerindo livros

Já lhe pediram a sugestão de um livro? É uma tarefa dificílima. Existem tantos milhares de livros. Qual será o gosto da pessoa, realmente? Ainda mais para mim. Eu sei que meu gosto é peculiar. Por vezes posso preferir ler um livro com uma análise histórica de uma região remota do Acre a um romance distrativo. Em outros momentos posso ler de cabo a rabo um "romance de supermercado" de trama previsível e personagens planos ao invés de mergulhar nas profundezas reveladoras da literatura. É uma coisa de momento. Isso! Momento! Por isso é tão difícil. Porque a gente pode até conhecer a personalidade de alguém. Mas como saber em que momento a pessoa está?

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Skinner

Quando pequena fazia desenhos e levava para a vó ver.
- Mas que porcaria é essa? Eu não sou feia assim não!
E, com os anos, aprendeu que só o ódio e o desprezo são aceitos em rascunhos. Deixou de expressar amor.

Falta de solidão

Estou sozinho. Fisicamente. Uma casa praticamente vazia que aluguei há pouco tempo. Uma mesinha na sala. Cadeiras de plástico que comprei pelo menor preço. E não muito mais que isso. Mas ao mesmo tempo não estou sozinho. Celular. Internet. Pessoas chamando. Whatsapp. Facebook. Emails (ainda usam emails, uma das tecnologias mais duradouras dessa era informática, veja só). Assim, estou vivendo essa estranha situação de sentir falta de solidão. Estou sozinho mas não consigo ficar sozinho.

NOTA: escrevi isso há sei lá quantos meses. Agora estou em uma viagem no meio do nada e é a internet que está me salvando. O mundo de certa forma é o mesmo, mas na medida em que mudo, muda também a função das coisas ao redor. Infernos se convertem em paraísos, remédios em venenos. Ainda que seja o mesmo mundo. Sou eu mudando.

domingo, 17 de setembro de 2017

Dos critérios

Fazer o que os outros fazem, como os outros fazem, não é se expressar. Fazer o que os outros fazem é, tão somente, imitar. Vale para fazer muros. Vale para as palavras. Vale para a música. Vale para a existência.

Cézar

Cézar é um amigo desses com um bom emprego e com um bom salário. Tudo isso devido ao fato de ser um bom profissional e saber gerenciar sua carreira aproveitando oportunidades. Mesmo quando, a princípio, não está interessado. Lembro quando o chamaram para uma entrevista na empresa da qual ele mesmo havia se demitido alguns anos atrás. E ele não queria voltar lá de jeito nenhum.
-E aí Cézar, como foi?
-Olha, lembra que eu não queria voltar lá né?
-Pois é, mas mesmo assim foi fazer a entrevista...
-Fui, mas continuava não querendo, e a vaga era bem parecida com o que eu fazia antes, então tentei dar um jeito de não aceitar.
-Como assim?
-Ah, pedi mais que o dobro do que eu ganhava antes!
-Afe! E aí?
-E aí... que toparam! Agora vou ter que aceitar, não tem jeito!
Mas ele é uma pessoa humilde. Usa seu dinheiro principalmente para viagens com os amigos e seus interesses esportivos. Seu apartamento serve apenas de dormitório para ficar próximo ao trabalho. Tanto é que outro dia ele veio com essa declaração:
-Cara, eu não gasto com nada! Só compro o que eu preciso. Tanto é que eu não tinha móveis na sala do apartamento, porque eu não uso.
-Mas da última vez que eu fui lá tinham móveis sim! Sofá e mesinha.
-Pois é, mas foi minha empregada quem me deu, de dó.

sábado, 16 de setembro de 2017

Imploro

Abra seu coração. Não guarde bons sentimentos dentro de você. Fale. Escreva. Comunique-se. Tome a iniciativa de dizer "estou com saudades". "Gosto de você". "Ontem foi um dia muito bom." Não seja o bloco de gelo a esfriar a humanidade que nasce entre vocês.

Dia

Olhos se abrindo. Água da pia, pasta escova toalha. Shampoo toalha. Calça meia sapato camisa gravata pente espelho. Água fogão café pão frutas. Rua sol ônibus espera. Pessoas olhares. Trabalho papéis computador tempo. Café. Almoço. Conversas. Papéis. Reunião. Tédio. Lâmpadas. Canetas. Twitter. Blogs. Emails reuniões conversas computador. Rua. Pessoas cansaço olhares. Olhares. Cansados. ônibus. Lotado. Tempo passado. Passado. Rotina. Morfina.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Fale comigo

Quero saber que sente minha falta. Quero saber que pensa em mim. Quero saber das vezes em que apareço em seus pensamentos. Quero saber o tamanho de sua saudade. Te dou meu espírito. Mas preciso de um lugar pra ficar. Abra seu coração. Fale comigo.

Lendo os próprios textos

-Me conta uma história?
-Contar o que? Que história?
Ele queria contar alguma coisa. Mas não era bom com sua memória. E ficava nervoso tentando pensar em algo. E então começou a ler os livros que tinha na estante.
-Que coisa chata, o que é isso?
-Um livro de economia que tava aqui...
-Não, isso não, conta uma história!
Ele arriscou um passo mais ousado. Abriu as velhas gavetas e retirou dali seus cadernos já empoeirados e amarelados. Resolveu ler as próprias histórias. Mas não teve coragem de dizer que eram suas próprias histórias.
-Nossa, que bonito isso! O que é?
-Um livro de histórias infantis.
-Eu não conhecia.
-Coisas da minha mãe...
-Conta mais?
Página por página foi se reconstruindo a partir de seus escombros.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Submerso

Algo silenciou em mim nos últimos tempos. Nos últimos meses. Quase não tenho escrito. Não sei o que escrever. Não sei o que cantar. Não sei o que deve sair de mim. Impotência da alma. Existência inconsequente. Universo indiferente.

Vou fazer café. Beber um pouco de tinta e depois ver se saio cuspindo palavras por aí.

Foco no indivíduo

Terminei ontem a leitura do "Esculpindo personalidades". Título um tanto quanto estranho para um economista mas alinhado com os demais trabalho de Claudio Stanheddas. O autor faz uma ponte entre a psicologia e as teorias econômicas e não é exagero dizer que sua escrita é também uma ponte entre a literatura e o academicismo.

Já se tornou lugar comum nos meios intelectuais dizer que o trabalho de Stanheddas tem o foco de sua análise no trabalhador. De fato o economista não está preocupado com as variações do PIB ou a produtividade que uma determinada organização confere à empresa. Sua preocupação principal é relacionar as estruturas de trabalho à totalidade de experiência de vida possibilitada ao trabalhador. Porém, uma vez que esta experiência de vida abrange muito além daqueles aspectos ligados à atividade profissional, julgo mais apropriado dizer que Stanheddas tem seu foco não no trabalhador mas sim no indivíduo. Afinal, um trabalho estritamente preocupado com o ser humano enquanto recurso de produção jamais dedicaria um capítulo inteiro à relação entre "Organização da empresa e o amor", nem muito menos se aventuraria a fazer ainda o caminho inverso ao investigar o "Tempo com os filhos e potencial de inovação".
Na introdução o leitor já encontra o alerta de que tem em mãos um material de escopo diferenciado. Tais aberturas são comuns nas obras deste acadêmico. Vale a pena aqui dar a voz ao próprio autor:

"A economia é um sistema complexo, e isso o digo no sentido moderno do termo. Não possui hierarquia rígida, todas as partes se influenciam mutuamente e o alcance de interações frequentemente têm alcances imprevisíveis, podendo grandes mudanças ser absorvidas por uma forte resiliência ou inputs aparentemente pequenos levarem a alterações exponencialmente crescentes. Embora análises tradicionais da economia sejam centralizada em seus meios e resultados, o moderno entendimento teórico da complexidade sugere que houve negligência histórica na análise do agente em si - suas propriedades e a relação destas para com o sistema em que está inserido. O agente principal da economia é a pessoa, o indivíduo. Abordagens específicas propuseram tratar a empresa como entidade fundamental e análises mercantilistas muitas vezes consideravam todo um país como um bloco básico de análise, tal qual o faz a chamada abordagem macroedonômica de hoje. Tais abordagens são do tipo top-down não sendo, portanto, pertencentes ao modelo de análise sugerido pela teoria da complexidade. Estas são as razões, digamos assim, teóricas, para o destaque que se dará nesta obra à pessoa individual. Mas há também, claro, uma outra razão.

A história da economia moderna segue linhas institucionais. Trata, por vezes, do ponto de vista da empresa, buscando maximizar lucros e eficiências. Noutras vezes, em estudos mais classicamente ligados a setores da sociologia e humanidades menos endinheiradas, aborda o lado dos sindicatos, organizações de trabalhadores ou simplesmente do interesse dos trabalhadores em geral ainda que não pertencentes a um bloco institucionalmente organizado. De algum modo ligado a este segundo grupo estão os estudos que tratam dos pobres em geral, pois podemos pensá-los como trabalhadores latentes desconectados do sistema (ainda que esta latência possa, e frequentemente tenha, a duração de toda a vida das pessoas em questão). Estas abordagens são inerentemente parciais. E, por serem parciais, instigam algum tipo de conflito não importando o quanto tenham, em suas origens, se proposto a combater algum outro. É por isso que neste trabalho ouso tratar do indivíduo enquanto tal, enxergando sua colocação na posição de empregador ou empregado como atributos secundários e reconhecendo, explicitamente, que a característica original - indivíduo, é completamente comum a ambos os agentes. Tal estrutura analítica é sugerida pela teoria da complexidade quer em seus preceitos quer pelas linguagens de programação tradicionalmente empregadas para estudos computacionais específicos: as linguagens orientadas a objeto pressupõe uma classe de variáveis às quais serão dados diversos atributos. Nada mais lógico, portanto, em uma abordagem bottom-up, do que começar por uma variável "indivíduo" ou "pessoa" e atribuir-lhe então atributos iniciais que podem muito bem começar por "empregador" ou "empregado". Fica explícita, portanto, a possibilidade de trânsito de uma mesma pessoa entre as duas categorias. Ou até o pertencimento às duas funções em contextos específicos.

Finalmente, e não há porque não o dizê-lo explicitamente, a abordagem desenvolvida nesta obra deve-se também a uma questão de escolha subjetiva que podem, sem receio quanto à rejeição acadêmica ao termo, ser dita como primordialmente utópica. Quero entender a relação entre as estruturas econômicas e a experiência existencial de cada pessoa porque enquanto estas duas entidades forçarem demasiadas tensões entre si, teremos um cenário em que a economia fere a vida daqueles que a sustentam e que estes se rebelam, de diversas maneiras possíveis, contra a estrutura que deveriam sustentar. E finalmente, em última análise, enquanto a economia não oferecer a possibilidade real, viável, de vidas desejáveis para a totalidade daqueles que a compõe, pouco importará o sucesso de qualquer outro indicador. Sucesso econômico às custas de tragédias de vidas deve ser clara e explicitamente visto como algo indesejável e falho."

Não vou comentar mais sobre o desenvolvimento do livro. Com uma introdução desta, quem ainda ousaria dizer que não se interessou?

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sofrimento

A origem do sofrimento está em mim. Vazios que espero serem preenchidos pelos outros. Imaginações infundadas.

Entendemos nossas pequenas desilusões como decorrentes de uma deliberada traição alheia. Uma iniciativa deliberada do outro para nos machucar. O que é um engano. Somos desiludidos por conta de nossos próprios erros. Esperanças infundadas depositadas no mundo exterior, em pessoas ou em circunstâncias externas. Enganos nossos.

Basta identificar esses erros e aprender a errar menos para diluir o sofrimento. Que fácil, que fácil...

Pão e chocolate

Passei no mercado. Fazer compras quando se mora sozinho é um desafio. Até porque eu não entendo muito de cozinhar e não tenho grandes pretensões gastronômicas. Então fica muito fácil comprar tranqueiras demais ou errar nas quantidades e deixar coisas estragarem. Ultimamente, essa crise e tal, o dinheiro anda mais curto. Então comprei macarrão, molho, pães, requeijão, queijo e coisas assim. E ao passar pelo caixa não resisti: chocolates! É mais barato comprar chocolates no mercado do que nos restaurantes e padarias. Se bem que, enchendo minha casa de chocolates, eu os devoro quase que em uma mordida só, não duram tantos dias quanto deveriam.

De sacolas na mão e pensando nessas coisas, saí em direção à minha casa e já fui distraindo meus pensamentos com uma barra de Diamante Negro. Estava começando a me xingar mentalmente por não resistir à gula e já ir cedendo aos doces. Assim eu vou continuar engordando! Ainda mais agora que ando super sedentário. Foi no meio desses pensamentos que vi um mendigo, na calçada, que ia me observando bem atentamente enquanto eu comia meus chocolates. De repente senti a luxúria em que eu estava me afogando: comendo sem precisar, comendo o que até me fazia mal, enquanto ali ao lado alguém morria de fome. Olhei-o nos olhos e perguntei:
-Ô amigo, cê tá com fome?
-Porra se tô, vixe!
Não hesitou em ser tão enfático quanto podia. Dei a ele um chocolate e um pão seco ao que ele foi logo agradecendo e me cobrindo de votos de bênção. Segui para casa pensando na profundidade de nossas gulas que nunca olham ao redor.
Na manhã seguinte liguei a TV. Dentre as tantas tragédias de sempre, com o câmbio e com os deputados, uma notícia algo atípica:havia ocorrido um atropelamento no fim da madrugada ali próximo à minha casa. Um carro cheio de jovens bêbados atropelara um mendigo que dormia na calçada. Naquela manhã não consegui comer nada e ainda hoje, ao me lembrar da história, sinto um embrulho incômodo no estômago.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Insuportável

"Parati foi tomada por pobres que acabaram com a cidade", disse o idiota preconceituoso

"Os nordestinos acabaram com São Paulo. Por que não voltam logo pra terra deles?", disse a egoísta arrogante.

Tenho tido nós no estômago diante da intolerância alheia. A intolerância à intolerância me invade.

Encontro com a natureza

Pés na areia macia. A água trazendo espuma de longe. Vento e ecos nos ouvidos.
O topo de um morro, pés nas pedras. Lugar alto com vista a horizontes infinitos em todas as direções. O sol lá longe discretamente se escondendo, discretamente provando ser dono de toda luz que leva consigo.
Lugares de retiro.
Uma rede do lado da floresta, canto dos pássaros.
Ou o papel. Vezes sem conta me retiro ao papel. Porque o papel é um lugar alto com vista infinita. O papel é um espelho profundo com meditações fortes. O papel também é a prova de que tudo depende do nosso grandioso sol, até mesmo esses momentos de reflexão isolada e sincera.
Talvez seja um pouco egoísta ou egocêntrico, e confesso estar descobrindo os detalhes de meu egocentrismo. Mas que assim seja: enquanto meus pés não encontram a natureza lá fora, que minha mente, pisando no papel, reencontre a natureza aqui dentro.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Como você começou a tocar sax?

"Então cara... eu tocava é clarinete. Nunca tinha pego outro instrumento. Estudava de manhã. À tarde. Enchia o saco da família toda. O cachorrinho não aguentava mais, sabe? Fiz o Klosè todo, meu professor me enchia o saco. Mas eu levava a sério. Só que aí comecei a andar pela cidade. E eu via essas boates... Pô cara, ali o pessoal curtia. Tinha música, mulher, gente pra caramba, sabe? Eu queria participar daquilo, só não sabia como. Eu não tinha dinheiro pra ir sempre nesses lugares. Mas um dia eu fui lá, um amigo meu foi me apresentar uns caras da banda que tocava lá. E aí eu fui falar com eles, e eles estavam putos com um tal de Pedro. O cara tinha sumido, sei lá o que deu. Aí me perguntaram se eu conhecia alguém que tocava sax, pra substituir o Pedro. E eu perguntei se servia eu! Me chamaram pra um ensaio na outra semana então, pra ver como eu tocava. Saí de lá correndo, fui falar com meu professor e implorei por um sax emprestado. Passei a semana inteira me achando com as escalas, uns arpejos, pra pegar a digitação... a embocadura era bem mais fácil que o clarinete. Sax é instrumento de bêbado, difícil de errar. Mas as escalas tinha que praticar... Aí na outra semana tava lá. Só fui contar isso pra eles uns dois anos depois. E acharam que era brincadeira minha, que eu estava mentindo."

Dói mais quando é com a gente

Tenho visto alguns filmes e documentários recentemente e não posso deixar de notar como o 11 de setembro é visto como uma das grandes tragédias do século. É claro que foi uma tragédia horrenda. Nada justifica buscar qualquer aspecto de positivo e justo no que ocorreu neste fatídico dia porque tal não existe. Mas sua posição como "tragédia máxima" no imaginário popular é nada mais que um grande equívoco.
Ignoramos as mortes de refugiados, de famintos, de doentes. Ignoramos as mortes no trânsito, as mortes nos crimes, mas mortes em tantas e tantas formas que aprendemos a aceitar como normais ou a simplesmente não ver.
Aprendemos a não ter opinião própria. Copiar a opinião dos outros é muito mais prático e também mais cômodo socialmente. Não erramos quando concordamos com o jornalista da TV porque sabemos que nossos amigos assistiram ao mesmo jornal. Não importa muito o que diz a realidade porque a Realidade é esse lugar mitológico onde ninguém vai.

domingo, 10 de setembro de 2017

Movimento

- Pai... Uma vez eu li uma história. Era sobre o Churchill. Diz a história que ele estava há horas no estúdio da casa dele, ou sei lá eu onde, em pé diante de uma tela em branco. Uma amiga dele chegou e perguntou o que ele estava fazendo. Ele explicou que queria pintar uma flôr e ela questionou o fato de a tela ainda estar em branco. Ele disse que estava indeciso sobre como começar a pintura. Então ela tomou o pincel da mão dele e fez um traço qualquer na tela. E disse "pronto, começou! Agora é só continuar". Entende? Movimento. Movimento.

Horas mais tarde...

- Oi filho. Fui procurar trabalho voluntário. Passei a tarde dobrando fraldas geriátricas descartáveis. Foi bom. Me movimentei e valeu. E encontrei uma conhecida de quarenta anos atrás. Ela quem me ensinou a dobrar as fraldas. Por hoje consegui vencer a timidez e a sociofobia. E não fiquei aqui em casa com essas coisas ruins na cabeça que têm me acometido às vezes. Agora à noite fui fazer ginástica para idosos. Foi muito bom. Obrigado filho. Você foi muito importante pra mim hoje. Obrigado mesmo.

Aerolitos

As pedras vão cair do céu. É questão de quando. É uma certeza. Pode não acontecer ao longo de nossa vida mas certamente vai acontecer algo relevante em algum momento no futuro. Um grande rochedo caindo do céu. Temos, é claro, eventos menores registrados. O meteoro que caiu sobre a Rússia há alguns anos. O evento de Tunguska no início do século XX. Mas essas são meras curiosidades, notas de rodapé, diante da perspectiva de um pedregulho realmente capaz de arruinar a humanidade. E aí minha grande curiosidade é se vamos ser capazes de nos coordenarmos e empreender os esforços necessários à sobrevivência da nossa espécie ou se imediatismos financeiros e barreiras culturais vão prevalecer e viabilizar o fim da espécie. Em dias como hoje a perspectiva não é das melhores.

sábado, 9 de setembro de 2017

Meu primeiro livro

Ele me entregou um livro. Era um roteiro de uma peça de teatro. Ele havia escrito a peça. Ele havia dirigido a peça. E ele tinha ali um livro impresso. Editado. E, ainda assim, pediu para que eu fosse discreto.
"Não comenta aqui com o pessoal não. Sabe como é, não é? As pessoas não vêm bem essa coisa de arte. Eu nem trago meu livro pra cá. Quanto mais dar às pessoas. Mas esse eu trouxe pra você porque vi que você tem um gosto diferente. Normalmente as pessoas não vêm com bons olhos. Ficam perguntando quando vou aparecer na Globo. Como se essa fosse a definição do sucesso. As pessoas só conhecem isso. Mas tem muita vida no teatro. Tem sempre muita coisa legal acontecendo. É um universo bacana."
E como você conseguiu publicar seu primeiro livro?
"Eu tinha feito a peça. Aí uma vez eu falei com um cara que ouvi, numa conversa, que mexia com livros. Falei da peça e ele confirmou o nome, ficou curioso. Ele disse que já tinha assistido. Acredita nisso, cara? Ele já tinha visto a minha peça! Aí eu perguntei se ele sabia um jeito de conseguir o contato da editora. E ele falou que 'é claro que sei. A editora é do meu pai!'. E então ele pegou o texto e publicaram!"

Minha mãe chegou ao WhatsApp

Morar sozinho foi um desafio e uma conquista. Eu lavo as minhas roupas. Eu controlo o estoque de alimentação na geladeira. Eu decido quando é hora de varrer o quarto ou não. Mas mais do que isso tudo: eu gerencio meu tempo. Nada de ficar dando satisfações sobre horários a chegar ou sair.
-Mas já está saindo? Onde vai? E vestido assim?
Essa liberdade, contudo, parece estar ao menos parcialmente ameaçada.
Pelo WhatsApp.
Eu deveria ter dito para a minha mãe que, na internet, as mensagens demoram um dia para chegar. E que nem sempre chegam já que precisam percorrer milhares de quilômetros em servidores, subir até os satélites e descer de volta bem no meu celular. É claro que o processo é tão complicado que deve falhar em boa parte das vezes.
Não, não consegui inventar a história a tempo. E agora vou parar este texto por aqui porque minha mãe está preocupada: já tem uns dez minutos que ela perguntou como foi meu dia e eu ainda não respondi.
19:38: Oi filho, como foi seu dia?
19:39: Aqui foi tudo bem. Tinham umas frutas boas no mercado e vou fazer uma salada de fruta para sobremesa depois da janta, nham nham!
19:42: Ai, vi o protesto que teve na Paulista no Jornal, não vá passar por lá hein? Fica longe dessas confusões....
19:45: Filho? Cadê você que não responde? Tá tudo bem?
19:46: Filho! Não fala mais comigo? Ai meu Deus... tá tudo bem?
Não, não tá.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Porta da esperança

Eu só queria esvaziar os oceanos para todos descermos de nossas ilhas e nos juntarmos em um grande festão!