sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Blindados

Quem não é capaz de entender um argumento, quem não consegue se expor à uma ideia diferente de suas próprias, apressa-se logo em tapar a conversa toda com um rótulo, um estereótipo, uma acusação genérica mergulhada em generalizações. Coxinhas, mortadelas, gays, brancos, pretos, pobre, rico, bandido, mulher, capitalistas, proletariado... Seres humanos se dividindo em times, em panelinhas, tudo vale para fugir do diálogo.

O escritor que eu fui está morto

Li um texto que escrevi há alguns anos. Confesso, sem modéstia, que gostei do que li. Gostei do humor sutil, da escolha de palavras, do tratamento do tema. Havia um nível suficiente de criatividade e de articulação ali. E quis escrever mais coisas daquele jeito. E não consegui. Descobri que a pessoa que escreveu aquele texto, quem quer que seja, está morta. Soterrado pelo tempo. Não vai escrever nunca mais. Outros escritores vão nascer em mim. O de hoje faz isso aqui: escreve sobre outras épocas e é o que tem para hoje, goste você ou não. Descobri que nossa existência interior é assim, essa onda: uma crista em movimento, com uma inércia própria, indiferente aos nossos desejos. Não vai parar onde desejamos. Vai continuar mudando. O contínuo movimento do nosso espírito. Nossa existência, diante dessa onda, resume-se a escolher, dia após dia, surfar tudo o que ela tem a oferecer ou deixar-se afogar em suas turbulências.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Amigos próximos terminam noivado

Meus grandes amigos, que vou chamar aqui de Carlos e Joana, terminaram o noivado. Estão pagando um apartamento e tudo o mais. Mas o Carlos não estava feliz. Joana, ao longo dos últimos anos, foi se revelando uma pessoa que não o fazia muito feliz e, além disso, não vinha pagando as prestações do apartamento. Eu sou amigo dos dois. O que me deixa numa posição difícil. Porque a Joana quer conversar comigo agora todos os dias. Ela tem esperanças de voltar. De recuperar o amor do Carlos. O que ela está fazendo? Ela está emagrecendo, correndo. Está fazendo brigadeiros para vender. Está buscando trabalhar seu humor com a vida tendo contato com coisas mais animadas. Teatro e filmes felizes. E as prestações do apartamento? Continua não pagando. O que o Carlos pensa disso? Pensa o que eu esperava que ele pensasse: por melhor que seja a Joana, não dá para confiar em passar a vida com ela. E quando os pais dela não puderem mais ajuda-la com suas dívidas? Ela tem emprego fixo, um salário aceitável e mora com os pais. E ainda assim torra sua grana com distrações corriqueiras. Eu já tentei dizer à Joana exatamente o que penso mas, quando começo a ser mais direto em meu discurso, as mensagens dela desaparecem. Joana... pare de querer voltar. Uma ótima coisa que você poderia fazer agora seria ter raiva do Carlos e não esse desespero de querer voltar. Valorize-se. Não importa aqui quem tem razão ou não. Importa você se valorizar. Ignore tudo o que você acha que ele espera de você. Cuide da sua própria felicidade independentemente dele. Não acho que você saiba o que é isso na verdade mas é uma boa hora para descobrir. Honre seus compromissos com o pagamento do apartamento mas sem vistas a retomar a relação. Faça isso pela sua dignidade. Nem pense em insistir para voltar com ele. Te juro, como amigo, que nada lhe faria mais bem.

Te reencontro mil vezes

Finalmente olho nos seus olhos. Escuto suas histórias. Faz-me amar, faz-me amor. E então se dilui em uma vida distante, te vejo turvada por detrás do seu trabalho, de suas viagens, de suas ambições. Vai-se embora nesse turbilhão de acontecimentos responsáveis. Novamente te encontro. Nos livros. Nas caminhadas. Somos soldados em um mesmo devaneio, soldados de uma mesma causa. Viajamos juntos nas mesmas imaginações. E novamente você desaparece. Levada pela certeza de uma vida estável. Levada pelas escolhas certas. Levada pela casa nova. Levada pelo novo emprego. E eu aqui amarrado aos meus sonhos. Espero. Espero. Procuro. Procuro. E te reencontro. Te redescubro. Te desenterro das músicas diferentes, dos sorrisos escondidos, da timidez dos primeiros carinhos. E novamente, ciclo infinito, a perco para a casa nova com cachorros. Com empregada às segundas. Para a vida com previdência privada. Enquanto eu me recusar a pertencer a este mundo você se recusa a ficar. Vem, aparece e novamente se vai. Já a encontrei nos passeios pelas pinacotecas e nas viagens de moto. Já a encontrei na música sob o luar e nos churrascos entre amigos. Já a encontrei nos bilhetes escondidos e nos alucinados pulos sem fim dos shows de rock. Já a encontrei no chão da sala e na mão dada do cinema. E, sorrateira, escondida por trás de mil rostos e mil vidas, novamente você, meu grande amor, sei vai. Mas eu sei que, logo mais, te encontro. Te reencontro. Te redescubro. Te reinvento. Te renasço. A esculpirei onde você me descobrir. A escreverei onde você me ler. A mergulharei onde você me afogar. A abraçarei onde você me amar. A encontrarei onde você me procurar. A protestarei onde você me manifestar. A dançarei onde você me musicar. A respirarei onde você me oxigenar. Te reencontro mil vezes.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Biblioteca pública discrimina brancos heterossexuais

Vi a notícia de que uma biblioteca pública de São Paulo estava organizando um evento em prol da diversidade racial e cultural. O problema é que, no anúncio da série de palestras, deixava-se claro o seguinte: brancos heterossexuais não vão falar aqui, mas são bem vindos para ouvir. E aí gente? Tá certo isso? Por um lado podemos argumentar o seguinte: brancos heterossexuais falam o tempo todo, em todos os lugares. Na televisão, na política, na literatura... Brancos heterossexuais têm voz na sociedade o tempo todo e em todas as esferas. Por que então não fazer um evento em que, garantidamente, eles não falassem, com o único objetivo de garantir o máximo de voz para aqueles que nunca falam? Não acho de todo errado. Mas tenho medo de que não se perceba que no fundo a igualdade é isso: igualdade absoluta, e não a reversão da exclusão. Sei que discussão similar aparece outras áreas polêmicas, como cotas raciais e feminismo. Nós, brancos heterossexuais, não estamos acostumados à posição de excluídos e não queremos nos sentar nessa cadeira incômoda nem por dez minutos. Mas os "outros" ocuparam este desconfortável lugar por milhares de anos. Até que exista um número adequado de cadeiras confortáveis, custa revezar?

Das entranhas

Eu só sei aprender ensinando
Eu só sei me inspirar inspirando
Eu só sei ser amado amando
Eu só sei ganhar respeito respeitando
Eu só sei ser visto enxergando
Eu só sei ganhar premiando
Tenho uma alma feminina, é inegável:
Uma alma que só sabe viver doando vida à vida
Só sei sorrir se for parindo alegrias

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Sou um marginal

Margem. Aquela linha ao redor de algo bidimensional. Aquela coisa que ainda é parte de algo mas não está no meio, não é sua essência. Mas que, dando-lhe contorno, é parte integrante da sua definição. Marginal, aquele que está à margem. Não confundir com esse uso deturpado do termo quando referente a criminosos infelizes. Sou da paz. Sou honesto. Mas sou um marginal enquanto aquele que rouba e é desonesto. Isso não. Mas sou um marginal enquanto aquele que está à margem, contornando sem entrar.
Ando pelas avenidas largas, pelas movimentadas estações de trem e pelos grandes aeroportos do mundo. Não sou dessa gente de terno e gravata. Não sou desses operários de macacão azul. Também não sou desses nerds de óculos e nem desses artesãos que fazem belas esculturas de arames retorcidos. Estou à margem. Gosto de ler e não conheço os grandes clássicos da literatura, leio devagar. Gosto de música e não tenho a disciplina ou o desespero apaixonado de estudar todos os dias. Um preguiçoso, talvez. Mas não, não é a preguiça porque sou muito inquieto. Estou sempre fazendo algo mas nunca é o mesmo algo. Hoje é o clarinete. Amanhã é a máquina fotográfica. Depois são as equações de elementos finitos nos modelos estruturais do MATLAB. Depois os mapas abertos para traçar os planos de voo. Estou em todos esses lugares e, saltando de um para o outro, não estou em nenhum. Porque é o que a margem faz: percorre, contínua, os contornos de toda a figura. Uma fronteira linear abraçando todo o mapa. Quero abraçar toda a realidade. Quero ser fotógrafo, jornalista, piloto, músico, artesão, operário, deficiente e alpinista, gay e freira, direitista e esquerdista, negro branco japonês índio e inuit. Quero implodir as definições confundindo-as sem fugir, olhando-as nos olhos. Quero ser médico e doente, quero ser astronauta e mergulhador. Quero ser imortal e um defunto. Quero ser sentimental e empresário, apaixonado e contador, honesto e advogado. Quero ser engraçado e mentiroso. Quero ser filósofo e estúpido. Correndo pelas margens vou dando voltas. Sigo não sendo fundamentalmente nada disso e, de um jeito estranho, sigo sendo tudo ao mesmo tempo.

Histórico escolar

Frequento escolas todos os dias. A que mais me deu trabalho foi aquela com paredes paredes e mais paredes. Gosto das escolas abertas. Dessa escola em que entramos ao abrir a porta de casa de manhã. Dessa escola que começa ao cairmos da cama. Dessa escola que começa ao nos depararmos com nós mesmos no despertar. Gosto dos meus muitos professores. Tenho professores velhos, cientistas, analfabetos, feirantes, brancos, pretos e dos olhos fininhos. Tenho professores crianças. Tenho professores que ensinam pelas declarações objetivas, "em agosto começarão as garoas de fim de tarde". Tenho professores que ensinam pelas demonstrações: as crianças com seus olhares curiosos emoldurados em sorrisos. Não fico apenas sentado. Nas minhas escolas também ando, deito, corro e me escondo. Aprendo com escritores de outros recantos do mundo e outros séculos. Aprendo com velhos escondidos em seus quarto escuros. Sou um abridor de gavetas. Um curioso que quer saber o que tem dentro. Pouco me importa o aspecto do cofre. Pouco me importa se o tesouro escondido é ouro ou uma velha carta de amor: me enriqueço do brilho de ambos.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Crise dos 30

O que fazer?
Abrir uma empresa.
Viajar pelo país.
Pelo mundo.
Pela Europa.
Pela África.
Pela cidade.
Fazer um curso. Mandar currículos.
Tocar numa praça pública para ver quantas moedas eu ganho.
Fugir para outro país.
Escrever um livro.
Parar de pensar na vida e adotar uma existência automática. Trabalha. Dorme. Paga contas. Bebe. Reclama e morre.
Crise dos 30.
Trinta anos. 10.957 dias.
262.968 horas.
E eu sinto que, no meio disso tudo, não soube aproveitar meia hora por dia para escrever uma bela poesia. Ler um livro realmente instigante. Ligar para uma pessoa excepcionalmente especial.
Mas no fundo é uma preocupação idiota. O que é uma coerência irônica, porque essa preocupação decorre de não perceber como a existência é idiota. Não fui explodido numa guerra sem sentido e não comando uma grande empresa escravizadora de pobres asiáticos ou africanos. Já está bom. Vou viver mais tempo que esses infelizes. Depois vou morrer também. E daí? E daí que eu queria fazer algo de útil. E daí que eu queria sentir que minha vida tem sentido. E daí que eu sei que se eu ficar pensando nisso minha existência será inútil por mais trinta anos. Ou por mais sessenta, se eu tiver azar.
Crise dos trinta. Um segundo nascimento. Depois de trinta anos olhando pra fora, é hora de aprender a olhar pra dentro.

O amor que eu quero

Não quero um amor garfo e faca.
Quero um amor de lambuzar os dedos
Não quero um amor com agenda
Quero um amor de improvisos
Não quero um amor polícia
Quero um amor transgressor
Um amor capaz de romper com os cabrestos da vida
Quero sentir saudades
As minhas e as tuas
Quero um amor que deixe a comida queimar
Quero um amor que esqueça a água fervendo
Quero um amor que perca a hora
Que estoure a conta do telefone
Que ache que o mundo vai acabar daqui a pouco
E que faça assim nascer,
Rompendo todas as cascas da vida
Nosso próprio mundo

domingo, 15 de outubro de 2017

Churchill e o Instagram da Mari

Era quase madrugada. Ou era já madrugada. Nem lembro. Tem semanas já. Ela me contava seu drama.
-Eu tenho meus projetos, minhas ideias, mas não sei direito o que fazer. Estou travada, entende. Não me sinto exatamente segura por onde começar, por onde ir.
E então contei a ela a história do Churchill que li anos e anos atrás numa velha coletânea especial da revista Seleções do Readers's Digest. Uma seleção especial sobre os tempos da Segunda Guerra. O texto contava que uma vez Churchill estava recluso em sua casa tentando se dedicar ao seu hobby pessoal. A pintura. E havia instruído os criados a não permitir a entrada de ninguém. Mas então chegou uma moça que era sua amiga de infância e que tinha muita liberdade com ele, com os criados, e que não se dobrava facilmente a instruções do tipo "ele pediu para não ser incomodado". Infelizmente não me lembro agora o nome da moça e ainda não fiz as devida pesquisas no Google (mas você pode cuidar dessa parte e me informar, fique à vontade). Acontece que a moça entrou no salão em que estava o notável primeiro ministro inglês e o viu estático, pincel na mão, diante de uma tela em branco.
-O que está fazendo?
-Estou pintando.
-Mas a tela está em branco! O que está pintando?
-Uma rosa.
-Mas não tem nada no quadro... por que?
-Estou pensando por onde começar!
E então ela retirou o pincel das mãos do Churchill, fez um único traço sobre a tela, devolveu o pincel àquele atordoado fumador de charutos e lhe explicou:
-Pronto, agora é só continuar.
Eu achei a história fantástica. Pensei em quantas e quantas coisas de nossa vida se reduzem no fundo à essa lição fundamental. A importância de um primeiro passo, qualquer que seja, como muito mais importante do que a consciência precisa do "melhor primeiro passo possível". O movimento sobre a estagnação. A vida em si como o próprio movimento. Contei todas essas histórias à Mari. E ela, fotógrafa, me contando sobre o plano de seu Instagram profissional para o qual não tinha coragem de convidar ninguém. Porque ainda não tinha as fotos certas. Porque ainda tinha dúvidas quanto ao projeto.
Conversamos por mais algumas horas. Depois nos despedimos e fui tomar banho.
Antes de dormir não resisti e conferi novamente o celular. Havia um convite daquele novo Instagram dela e uma nova foto publicada.
Minha querida, uma certeza eu tenho: Churchill estaria com inveja.

A era das navegações

São todos ilhas, separados por milhares e milhares de mares intransponíveis. Ou quase. É possível navegar. Mas para que se chega até o outro? Há os colonizadores que chegam para tirar vantagens. E há os exploradores que chegam para conhecer os novos mundos. Assim ocorre nos mundos de fora. Assim ocorre nos mundos de dentro.

sábado, 14 de outubro de 2017

Projetos de vida

Eu queria ser astronauta. Mas eu não sabia que minha preguiça em correr e andar de bicicleta e aprender inglês e estudar aquelas coisas complicadas de química orgânica iriam, em conjunto, configurar um grande impedimento. Também não tinha a noção de que havia nascido no país errado. Ainda que possível ser astronauta enquanto Brasileiro, enquanto escrevo as chances de sucesso para essa categoria são de cerca de de 1 para 200 milhões (0,000000005). Depois eu quis ser sociólogo. E quem sabe me tornar um político e atuar pela melhoria da educação. Mas eu não sabia que minha aversão a me misturar com as pessoas do centro acadêmico seriam um grande impedimento. Eu não sabia que me concentrar em estudar e ter boas notas não saria suficiente. E não estava preparado para um pânico que, por esta época, tomou conta até dos meus ossos: onde é que eu iria ganhar dinheiro?
Depois eu quis ser um engenheiro. Fiquei no básico: arrumei um diploma e um emprego com uma mesa e um computador. Mas faltavam coisas. Uma ambinção empreendedora que me motivasse a correr atrás do dinheiro. Eu ficava encantado demais com complicados modelos matemáticos e gráficos exóticos enquanto a carreira, fui descobrir depois, não saia do lugar. Fiquei depressivo.
Aí decidi ser piloto. Coisa com que eu flertava desde criança. Coisa que me levaria de volta a esse meio mágico e maravilhoso. Mas eu já estava ficando velho. "Moleques" dez anos mais velhos que eu já estavam com todos os brevês na mão e conseguindo seus empregos nas grandes companhias aéreas. Quem iria querer um engenheiro já algo barrigudo como novato copiloto? E eu não estava preparado para o bairrismo dos instrutores de voo que não me davam oportunidade porque, bem, eu era um cara de fora. Não era da cidade deles. E era um forasteiro cheio de diplomas e títulos nerds... O que eu estava fazendo ali? Briguei e me desgastei mas isso de nada adianta.
Isso sem contar as outras iniciativas, menos oficiais, que também não deram em nada. Fotógrafo de festas. Professor de inglês. Tradutor de trabalhos escolares. Guia para estrangeiros. Clarinetista em barzinhos. Cantor de bandas amadoras. Blogueiro de assuntos aleatórios. Historiador. Cientista de sistemas complexos. Uma infinidade de áreas exóticas às quais me dediquei por um tempo só para, no meio das complicações da vida, perceber que a correnteza havia mudado antes que eu pudesse me amarrar firmemente a algum atracadouro.
Até que, tempos atrás, descobri algo que eu comecei lá na infância e que nunca parei de praticar. Escrevo. Escrevo contando meus dias, meus namoros, minhas engenharias, minha aviação. Escrevo contando meus sucessos, meus fracassos, meus pensamentos, minhas dores. Escrevo praticando ser essa coisa que, ainda que falhe, não deixará de ter seu sucesso, porque se provou inescapável em minha vida. Descobri que não coleciono diversos projetos de vida que falharam. Descobri que estou fazendo exatamente o que um escritor deve fazer: explorando o máximo do mundo que posso.

Refúgios

Ouvi uma autora na Flip, e nem lembro quem era, dizer que a página em branco a assustava porque não estava acostumada a lidar com tamanha liberdade. Foi por isso que criei este blog. Uma grande página em branco. Precisava ser publicado. Nada do refúgio seguro das gavetas mofadas. Precisava ter outro nome. Precisava ter outra vida. Nada disso deveria me assustar. Nada disso deveria me prender. A liberdade de ser, nos textos, qualquer outro universo que eu quisesse. Mas há gente lendo. Há pessoas conhecidas lendo. Que erro, que erro! Erro? Preciso lidar com isso. Todos deveriam, na verdade. Explorar os limites absolutos das liberdades de pensamento. Visitar loucuras e voltar. Sair dos trilhos dos estilos e expectativas. Colonizar imaginários selvagens e suas especiarias ainda inexploradas.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Não quero falar com você pelos próximos 20 anos

Sei que a linguagem escrita tem seus problemas de interpretação. O principal deles, nos tempos modernos em que nossa interação cotidiana se dá por mensagens de texto no celular, é a confusão entre uma brincadeira e uma mensagem séria.
Outro dia fiz uma brincadeira com uma amiga. Insinuei que talvez eu não daria muita atenção à ela em nosso próximo encontro de propósito, tal como havia incidentalmente acontecido no encontro anterior devido a outros compromissos meus.
E aí ela respondeu assim:
-Não quero falar com você pelos próximos vinte anos
De início eu ri. Ri porque li como um gracejo. Uma mensagem de humor.
Depois, quando considerei por algum momento que ela estava falando sério, aconteceu algo que eu não esperava: doeu. Uma dor profunda, dessas que acontece com a gente quando algo muito grave acontece, algo que realmente não queremos na nossa vida. Como a perda de um ente querido, o término do casamento, a morte do cachorrinho querido ou a descoberta de que papai noel não existe.
Vinte anos é muito tempo.
Fiquei torcendo para que as coisas se esclarecessem antes. Bem antes.

Nada

Nunca me senti tão nada.
Tão ausente dos seus pensamentos.
Tão insignificante nas suas manhãs.
Tão inexistente nos seus travesseiros.
Você me desapareceu.
Ainda me vejo por você.
Sinto-me desaparecido de mim.
Encontrarei um jeito de quebrar
Essa destrutiva mecânica
Deixarei de te olhar
Para me enxergar novamente

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Choro

Você não quer falar comigo. Você não lê as mensagens que eu escrevo. Você nunca tem a iniciativa de falar comigo. Você não me conta do seu dia. Você não consegue me dizer três ou quatro palavras carinhosas para me deixar feliz. É esforço demais.
O que você sente por mim?
Por que eu insisto em querer quebrar uma parede que você insiste em reforçar, em deixar mais e mais e mais espessa?
Vim para longe, mas só consigo sentir que me quer ainda mais longe.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Manifesto contra os dias jogados fora

A humanidade já fez revoluções pelo petróleo. Pelo ouro. Para defender suas terras. E continuamos perdendo nosso bem mais sagrado e fundamental sem perceber. Nosso tempo. Essa entidade abstrata que não pode ser colocada em containers e escapa a um controle rígido do governo: o tempo continua fluindo a uma taxa constante. Mas o tempo psicológico, o tempo da nossa existência, esse é sim engolido e devorado pela vida moderna. O tempo no trânsito. O tempo em que estamos rendidos ao cansaço. Os filhos lá brincando, lendo histórias, você lá em estilhaços sobre o sofá sem entender o que se passa ao redor. Estaria mais consciente da vida se estivesse em coma em uma UTI.
Por isso estou escrevendo este manifesto contra os dias jogados fora. Um espectro ronda os trabalhadores do mundo. E os vagabundos. E os boêmios. E os ricos: o desperdício dos dias. É um recurso valioso que vai embora para nunca mais voltar. Os dias se perdem quando você se rende ao sofá. Às reprises de série. O tempo se perde quando você se alimenta mal e joga seu corpo na lata do lixo da preguiça. O tempo é aniquilado quando você deixa para ligar para aquele seu amigo ou amiga depois.
Precisamos lutar como gladiadores para salvar nosso tempo. Colocar energia nessa missão. Escrever de tempos em tempos para nossos queridos. Um e-mail, uma mensagem de whatsapp ou, quem sabe, uma carta no papel e caneta, colocada no correio. Precisamos fazer uma caminhada. Às vezes sozinhos, às vezes acompanhados. Precisamos de tempo para aquelas coisas de que gostamos. Nossos projetos pessoais. Seja brincar com o cachorro, ensinar tabuada para o filho ou pintar bugigangas de artesanato. Todas as categorias são válidas desde que estejam conectadas ao seu coração. Se sua grande paixão é ler livros de administração, ou pintar suas unhas ou trocar de piercing, não importa... mergulhe em suas paixões sem medo. Recupere o tempo que está se esvaindo pelos ralos.
E não caia na armadilha do desespero pela eficiência. Coisa que os americanos inventaram para transformar uma causa justa em neurose (coisa em que eles, aliás, são muito bons). Usar bem o tempo signifia que quando o que você quiser fazer for precisamente não fazer nada, precisa fazer isso direito. Nada de celular, televisão, distrações... Encontre seu refúgio de paz e seja um fazedor de nada digno de louvor. Há também aí toda uma arte escondida.
Estamos em uma civilização que decidiu se jogar no lixo. Destruir rios, deturpar a economia, se mutilar em guerras e cultivar a ignorância. Nosso último reduto de salvação é nossa existência interior. E o terreno que essa existência ocupa é o terreno do tempo. É por aí que devemos começar a nos proteger e daí que devemos iniciar nossa revolução se for para, algum dia, ter condições de voltarmos a brigar pelo resto.

Silêncio

Eu queria lhe contar as coisas. O que eu comi de sobremesa. E como o universo foi feito. A velhinha que eu vi no ponto do ônibus e como a música funciona.
Mas só havia silêncio.
Seus silêncios me envolveram.
Escuros e frios.
Doem nas veias dos braços
Desligam as pernas.
Silêncio.
Silêncios
Eu queria lhe contar as coisas.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Ciência dos materiais

Diz a lei de Hook que pequenas tensões produzem pequenas deformações. Estas, ainda, são proporcionais. Isto é: um pequeno aumento na tenção leva a um pequeno aumento na deformação. Sabemos, porém, que tensões maiores podem produzir tensões permanentes. Esforços exagerados, ainda podem levar ao que se denomina genericamente por ruptura. Grandes tensões não são a única forma de produzir ruptura. Há também algo conhecido como "fadiga": a repetição de pequenas tensões alternadamente que acumulam, ciclo após ciclo, mais uma micro-ruptura, e outra e outra, até que o colapso completo seja inevitável.

Eu nunca sei quando estes livros estão falando de vigas ou de corações.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Manual do Adoniran, pg 78

Regra 313 - Não gosto de ficar longamente ao telefone. O tempo sozinho é algo raro na vida de hoje e das duas, uma: ou não poderei atender por estar em algum trabalho envolvendo outras pessoas, ou estarei sozinho, o que é socialmente visto como a condição em que posso atender o telefone. Mas não é o meu caso. Este é o horário mais ocupado do meu dia. Aquela pequena fração da existência em que eu posso ficar em contato comigo mesmo. Ler meus livros. Assistir meus documentários sobre o universo, a biologia, a sexualidade, o tráfico de armas, a direita e a esquerda e o equilibrista exótico. E, muitas vezes, é a janela de horário em que eu posso ficar deitado, olhando para o teto me concentrando no silêncio até poder escutar meus pensamentos. Porque com o barulho da vida moderna nossos pensamentos ficam tão lá dentro, tão quietos. Respeite isso. Não fique horas comigo ao telefone. Pelo amor de deus. Por obséquio. Por misericórdia. Quando estiver mesmo com saudade, me visite e chame para uma caminhada. Aí vou te amar.

Mecânica

Ela quis ser difícil
Questão de prudência
Conseguiu o amor
Amor à distância

domingo, 8 de outubro de 2017

Garçon fanfarrão

Tempos modernos. Diversidade cultural, racial, feminismo, secularismo e tudo o mais. É essa a era em que estamos, certo? Isso não impediu um garçon de zoar minha zoeira. Explico. Havíamos todos combinados de nos encontrar em um tradicional bar da Rua Augusta. Trocando os nomes para preservar a privacidade dos meus queridos, digamos que eu aguardava a chegada da Sarah, da Mariana e do Jeferson. Estava sozinho lá e comecei a perturbar meus amigos pelo WhatsApp. Temos um grupo com todos e lá comecei a mandar as tradicionais mensagens.
-Já estou aqui!
-Cadê vocês?
-A cerveja está esfriando!
Aí perguntei para o Jeferson, que costumava se enrolar no serviço:
-Jé! Você vem mesmo? Já arranjei uma mesa!
E ele mandou uma mensagem engraçada:
-Me espere com uma rosa vermelha que eu vou!
Juro que, nesse instante, estava passando bem em frente à janela da minha mesa um vendedor de rosas, desses ambulantes. Ele oferecia as rosas a um jovem de um casal que estava sentado nas mesinhas da calçada.
Como eu acho que o humor e o riso vale mais que qualquer coisa, achei as rosas até que baratas. Comprei e deixei à mesa.
Quando o Jeferson chegou, viu a rosa sobre a mesa e riu. Já ali minha compra havia valido a pena.
Mas aqui deve-se acrescentar um detalhe importante à narrativa. Jeferson é negro. Assim como o garçon. E quando o garçon veio nos oferecer mais uma cerveja viu a seguinte cena:
Ambos sorridentes, eu e o Jeferson, sentados um de frente para o outro, com uma vívida rosa vermelha entre a gente, na mesa.
Estávamos na Rua Augusta, um dos lugares mais liberais da cidade. Mas ainda assim o garçon não se conteve. Olhou para o Jeferson e teve uma efusiva reação.
-Ah não! Poxa amigo! Como é que fica pra gente? (e ao dizer isso apontou, com o indicador da mão direita, para o braço esquerdo, evidenciando a cor da pele).
Rimos, explicamos a piada e ainda reagimos:
-Amigo, mas estamos na Augusta e você reage assim? E se a gente fosse gay mesmo? Acabava processado!
Ao que ele riu novamente e se defendeu:
-Processado nada, estou rindo, brincando. Aqui é tudo na paz.
Era um garçon fanfarrão. O tipo de pessoa que faz valer a pena não ir a um McDonnalds.

Coreografia

É uma dança. É uma dança, por fim. Ao movimento de um cabe um movimento do outro. O par buscará harmonizar-se. Não adianta que um dos dois tente movimentos exagerados enquanto o outro está estático. Não adianta que um silencie de mais quando o outra busca movimento. Devem buscar o denominador comum de seus corações. É uma dança.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Mancada com o melhor amigo

Quem é seu melhor amigo? Há quanto tempo vocês se conhecem? Estudaram juntos? Cresceram juntos? Qual a maior mancada que você já deu com ele? Sim, porque acontece. Com uns mais, outros menos. Às vezes um segredo que foi revelado. Sem querer ou por querer, vai saber.

Eu, que não sou lá uma boa pessoa (mais por acidente do que por má vontade... tenho bom coração mas me atrapalho com a vida porque ela é complicada), tenho várias histórias de mancada com meu melhor amigo. Mas vou contar só uma porque sei que vocês não vão querer ler vinte páginas desse tema.

Meu melhor amigo conheceu uma menina. Pela internet. Não somos velhos, mas já somos da geração em que este jeito de conhecer pessoas era meio que novidade, uma ousadia, um experimento excêntrico. (tá, somos velhos...).

Ele falava sempre com ela. Se telefonavam. E vez ou outra já tinham se encontrado. Mas não estavam ainda "ficando". Eram amigos e nada mais. Até que um dia fomos nós três a um bar. E lá eu bebi. E lá eu conversei com ela e fiz amizade com ela. E depois nós ficamos. E depois nós até namoramos por um período breve. Meu melhor amigo se declarou meu nunca-mais-amigo. Brigamos.

Com muitos amigos em comum, contudo, seria difícil uma briga explícita, declarada. Então apenas não nos falávamos. Ele me ignorava. Quando eu falava com ele era como se ninguém tivesse falado nada. Mas aí viajamos em vários amigos. O ex-melhor-amigo e outros ainda bons amigos. E no meio dessa viagem brigamos pra valer. Gritamos um com outro. Recapitulamos as histórias, cada um em sua versão, para que todos pudessem saber dos detalhes e tomar partido. Faltava só aquelas placas de juízes para darem suas notas. Nove e meio. Nove e meio. Nove. Dez. Dois. Teria sido divertido. Mas não foi. Só briga. Brigamos e brigamos e brigamos e não saímos da porrada porque somos velhos mas não somos DESSA geração. Depois de esgotarmos nosso ódio em todos os gritos sobrou só o que havia antes, por baixo: a amizade de sempre.

domingo, 1 de outubro de 2017

Cidade linda

Paredes limpas
Escolas fechadas
Ruas seguras
Mendigos mortos de frio
Prefeito limpando o lixo
Do centro
Lixo de centro
Jogando na periferia
A lógica familiar
O conforto da casa grande
Cidade linda

Amigo desconhecido

A capa não diz muita coisa. Denuncia alguns efeitos do tempo por estar amassada em um pouco suja em alguns cantos. Abrindo o caderno as páginas mostram uma caligrafia que lembra a minha muito a minha, mas é diferente. Eu escrevia assim? Começo a ler.

Sonhos. Hesitações. Sou eu mesmo? Eu era assim?

A experiência de ler um velho diário é estranha. Sou eu ali nas páginas. Mas ao mesmo tempo é como se fosse outra pessoa. Eu leio algumas coisas e acho essa outra pessoa um tanto quanto ridícula. Por vezes infantil. Mas isso é até bom. Ruim é quando leio algo que realmente admiro, que acho até um tanto quanto genial. Será que eu consigo ser assim de novo? Será que esses momentos de inspiração se foram, diluídos pelo tempo?

A verdade é que estas questões não levam a nada. Porque aquele que escreveu estes velhos diários já se foi completamente. Assim como este que escreve agora desaparecerá em breve. Estranho pensar em lutar contra isso.

sábado, 30 de setembro de 2017

Psicologia urbana

Deveríamos aprender com os chineses a superar nossa ansiedade. Eles, que conhecem a marcha inexorável dos milênios, não se afligem com um atraso de dez ou vinte anos. Assim, quando se dispuseram a copiar quinquilharias das indústrias ocidentais não se desesperaram falando "a caneta dos EUA é melhor... esse radinho está uma porcaria... que lanterna tosca!". Seguiram em frente.
Nós não. Nós não sabemos copiar. Temos essa ansiedade de quem, desconhecendo história, acha que a existência se decidirá na próxima semana.
"Essas ciclovias são um absurdo! Boas mesmo são as da Holanda!"
Mas estamos de volta aos trilhos. Superamos nossas crises pela via fácil: de volta à zona de conforto.
Finalmente voltamos a cuidar das aparências dos ricos enquanto podemos, em silêncio, voltar a pisar e a ignorar pobres e famintos. É o Brasil com que estamos acostumados.

Cruzando o Atlântico

Assisti ontem a peça "Cruzando o Atlântico", com texto de Carolina Arksanan. O cartaz mostrava uma senhora ao lado de uma moça e de um rapaz jovens. Com este título pensamos em viagens, na época das navegações ou algo assim. De início é o que a história faz parecer.

Bete é uma senhora de cinquenta e quatro anos e cria sozinha seus dois filhos, Alessandra e Rodrigo. Rodrigo, mais velho, repetiu alguns anos na escola. Mas finalmente tomou jeito. Quanto à irmã, a única coisa que fazia repetir na escola eram os elogios dos professores. Ao entrarem na faculdade, ela estudando egenharia civil e ele estudando jornalismo, conseguem ambos bolsas de estudo para faculdades na Europa. Deixam o Brasil no mesmo voo. E então a mãe se despede e fica aqui, sozinha.

Claro que há o Skype para um oi, mas com todas as novidades da Europa quando é que os filhos tem tempo de estar online? E depois tem o fuso horário, tudo é difícil. Mais e mais Bete se vê em companhia de si mesma. Descobre a vida sem os filhos. E é este novo mundo de solidão, de vazio existencial infinito ao seu redor, recém descoberto, que ela terá que cruzar. É este seu Atlântico.

É uma peça, em resumo, sobre os desafios de redirecionar o ponto focal da vida, e de redirecioná-lo para si mesmo. Passeios, amigas, livros e filmes, diversas coisas às quais ela não tinha tempo e agora tem tempo de sobra mas, nas primeiras vezes em que retoma estas experiências, não sente o prazer que esperava. Onde estão os filhos? Pouco a pouco vai redescobrindo o direito de se sentir feliz por si só e, no processo, abre-se a descobrir pessoas interessantes novamente. Vale a pena assistir.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Os esforçados

Eu o ouvi falar por meia hora contra essa horda de vagabundos que estão mamando nas tetas do governo. Essa gente que se vende a votos, curral eleitoreiro de petista... Bolsa família, bolsa isso, bolsa aquilo! Bolsa engenheiro não tem, né? Bolsa piloto, pra pagar o curso do filho, não tem, né? O negócio é ajudar pobre. Acabar com o dinheiro da nação comprando votos de miseráveis.
A outra meia hora foi gasta em elogios à filha. Que está estudando no Canadá. Muito esforçada a menina. Conseguiu tudo com méritos próprios. Inclusive a bolsa de estudos. Do governo.