quinta-feira, 19 de abril de 2018

Rotina matinal

Talvez porque o sol nascendo no horizonte tenha essa evocação tão forte de um início, um começo, com tudo o mais pela frente, é que nessa hora do dia funciono melhor para meus estudos, para minhas reflexões, para tudo aquilo que diz respeito ao futuro. A noite não. A noite é o horário em que sigo em marcha. Continuo um trabalho que já vem de longa data. Tenho coragem de encarar aquelas tediosas formatações de planilha, do formato dos parágrafos dos relatórios. Essas são as tarefas que ficam para a noite. A manhã não. Não posso ofender a manhã com coisas tão mecânicas. Estudar um novo idioma, que um dia vai ser usado em um novo país, uma nova viagem. Rascunhar textos que um dia serão publicados. Pensar em pessoas que quero ver de novo. Sonhar com conquistas. Aprender uma música nova. Esses são meus banquetes matinais.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

AINDA VIVOS

Eu tive certeza de que eram os últimos segundos. Não sei porque continuei lutando. Não sei porque tentei controlar a situação. Só sei que deu certo. Não foi um mérito meu. Foi sorte. Nada que conheço sobre a física do mundo diz que deveríamos sobreviver. Fomos perdoados pelo acaso. O que fazer com isso? Como usar esse presente?

terça-feira, 17 de abril de 2018

Sorte

Que feliz presente do acaso para você, poder viver recebendo aplausos de quem não a conhece realmente.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Nobre coração

Minha nobreza aprendo na marra. Não é uma nobreza tonta, patética, feita de aparências. É aliás o contrário. Uma nobreza que descobriu a diferença entre aparência e essência engasgando com seus próprios equívocos. Nobre coração é aquele que enxerga o outro. Nobre coração é aquele que tem coragem de exitir tal qual é. Nobre coração é aquele que não sacrifica a própria existência pelo desespero de mendigar aplausos.

Eco Zulu

O mundo girou ao meu redor e não me refiro a egocentrismo. Tudo aconteceu muito rápido. Em segundos despencamos do topo de nossas crenças para abismos no meio do nada. Saltei de minha passividade a espasmos rápidos. Não acreditei que sobreviveria e ainda assim fiz o que era necessário. Encontrei instintos que eu nem mesmo sabia existirem em mim. Sobrevivemos por condescendência - ou preguiça - da sorte. E jamais seríamos os mesmos.

Métricas

Sim, eu penso demais nas coisas. Sim, eu penso demais em você. Em que mais eu pensaria? Eu me perco em pensamentos. Revivo as coisas que você me disse. Revivo os seus sorrisos. Imagino futuros. Você ocupa meus pensamentos. Não o tempo todo, é claro. Talvez sessenta por cento, se é que devemos colocar um número. Mas pense bem. Sessenta por cento para você. E nos outros quarenta preciso dar um jeito de colocar tudo o mais, o universo real e os imaginários, o presente, passado e futuro. Fique tranquila: os sessenta por cento são só seus! 

domingo, 15 de abril de 2018

Irmão

Eu estou bravo com você. Bravo e decepcionado. Essa decepção profunda, indignada, machucada. Não consigo entender. Não consigo aceitar. A ideia de que você se roubou de mim. Um membro da família, uma pessoa assim tão próxima. Um irmão. Você existia em meu imaginário como outro. Como pode se destruir assim? Como foi capaz de me esfregar na cara essa realidade impura, cheia de contradições? Um irmão meu foi capaz de ameaçar outra pessoa de morte. Como eu vou conviver com isso? Reescrevo a mim mesmo em minha consciência? Não se trata só de você. É muito egoísta de sua parte não perceber isso também. O que vou pensar de mim, agora? De que males sou capaz e nem imagino? Que vida é essa, tão diferente, que você viveu, capaz de te desacreditar de toda a empatia do mundo?

sábado, 14 de abril de 2018

Indiferenças

A Síria está sob mais um ataque. Vivemos ainda em tempos de trevas. Não há uma real preocupação com a pobreza, miséria e sofrimento no mundo. Aos poderosos o que menos importa são os outros. Não há empatia no poder. É só um jogo de xadrez cruel e sanguinário. Quem importa não são as pessoas: é o lucro. Em São Paulo, um enorme camelódromo está sendo posto abaixo para dar lugar a um shopping. O que antes alimentava centenas de famílias menos afortunadas agora vai dar lugar a um empreendimento que vai favorecer meia dúzia de bolsos gordos. Fico achando que as almas boas se distraíram demais. Deixaram a política à vontade. E aqueles de má índole se apressaram a se engasgar com o poder.

Números

Tenho lido sobre desarmamento. Há algo de interessante nessa discussão, do ponto de vista teórico: ao mesmo tempo que questões muito tênues estão envolvidas, padrões culturais, etc, em um dado momento tudo reduz-se a números. Quantos casos de morte ocorreram? Vejo aí alguma semelhança com a problemática do suicídio que Durkheim escolheu para fundamentar sua grande obra fundadora da sociologia científica.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Acidentes a vista

Vimos um atropelamento na avenida principal. Um jovem assaltante, perseguido por uma viatura policial, fugia em sua bicicleta. Ao cruzar a avenida desesperadamente na frente de outro veículo foi por este atingido e lançado talvez uns dois metros em direção ao céu. Estávamos no carro à frente. Eu o vi despencando de volta no asfalto duro. Pensei que estivesse seriamente ferido mas ele se levantou e, depois de tontear poucos segundos, pô-se de volta em fuga. O policial seguiu atrás, correndo. Notei que não havia nem mesmo sacado sua arma.

Dentro do carro meus colegas dividiam-se entre o júbilo de terem visto um atropelamento e a frustração de que o bandido continuava vivo. "Deviam ter metido pipoco logo, pá pá pá! Ficava já ali, no chão, um a menos." Vibravam como quem assistiu a um filme emocionante e comentava suas cenas à saída do cinema.

Não estão prontos para enfrentar o mundo real. As contradições e as nuances da vida que não é uma simples divisão de mocinho e bandido como no cinema.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

O Futuro que nunca acontece

Estou sempre afundado em planejamentos. Às vezes penso que não tenho ainda nem uma casa para mim, nem filhos, nem um emprego estável. Desespero. Não comecei a vida ainda. Sigo estudando. Sigo explorando aventuras. Irresponsável?
De onde vem essa lista de afazeres da vida, que nos torna tão desesperados em cumprí-la?
Tenho uma sucessão de dias em que estou buscando o mais interessante a fazer e é aqui que cheguei. Faltou planejamento? Faltou controlar mais meu destino?
Estou explorando o mundo de um modo que ninguém fez antes. Tenho consciência disso. Não é um caminho pronto. Ninguém sabe onde vai chegar. Mas sigo insistindo na ideia de que aproveitar a trajetória é melhor do que se desesperar com o destino. Tem sido uma viagem interessante. Por vezes solitária, por vezes cheia de surpresas incríveis.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Cabeça aberta

Estávamos em uma lanchonete, com as mesinhas na calçada. Um cachorro se aproximou com um ferimento horrível na face. Parte de seu coro cabeludo havia sido arrancado. Um acidente de carro ou algum episódio de violência espúpida. Surpreendentemente o cãozinho parecia alheio ao ferimento. Vagava apenas sem grande estardalhaço, lentamente, pela calçada, e com enorme receio foi aproximando-se das mesas. A reação das pessoas era de nojo, de repulsa. Mas eis que meu amigo Rogério ficou tomado de compaixão. Chamou o cãozinho para perto. Rasgou, com a mão, metade de seu hamburguer e fez o cachorro segui-lo até um canto seguro. Eu, normalmente, sinto um incômodo enorme pelas opiniões preconceituosas e egoístas do Rogério. Mas como não reconhecer o ser humano ali dentro?

terça-feira, 10 de abril de 2018

Meras formalidades

Vi um post no Facebook e que mencionam a quantidade de juízes, advogados e desembargadores que trataram do caso Lula. E o post prossegue, provocativo e irônico: "Se você acha que sabe mais de direito do que todos eles, então vá logo prestar um concurso porque você é o novo gênio do direito no Brasil!". Posso apenas me entristecer diante dessa idiotice. Não percebem essas pessoas que a formalidade do processo não atesta sua justiça. São absolutamente incapazes de entender a diferença entre o cumprimento de formalidades e o conteúdo justo de uma decisão. Estou cercado de imbecis.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Diagnóstico

Você está sendo narcisista. Quer atenção para você. Mas que atenção tem para os outros? O equilíbrio fica quebrado. A gente quer atenção, mas precisa doar também. Você diz que está solitária. E como eu me sinto pensando em todas as vezes que quis sua companhia e não tive? Pensando em como todas minhas ambições maiores foram deixadas de lado como se fossem gracejos casuais e em como todas as minhas demonstrações de afeto, preocupação e interesse nunca produziram um eco equiparável? Estou cuidando da minha vida. E você está pedindo mais ao mundo do que está disposta a dar. Ou, então, está vivendo a mesma coisa que todo mundo. Esse vazio carente de um maior contato quando ninguém sabe como romper essa barreira. E quando não conseguimos enxergar aquela pessoa que está realmente disposta a bisbilhotar nos nossos recantos escondidos.

terça-feira, 27 de março de 2018

Machismo não existe

- E o que é que as mulheres conseguiram neste ano, as feministas?
- Conseguiram que o prêmio de melhor cantora fosse para um homem. Conseguiram tomar uma surra de um homem no vôlei. Conseguiram deixar desempregadas as modelos da fórmula um. E também levaram uma surra de um homem na luta de MMA.
- Caralho, né velho?
- São umas arrombadas, chupadoras do cacete. Burras cara, muito burras.

Essa é a conversa que ouvi hoje dentre a minha equipe de trabalho. Sim, hoje, precisamente hoje, dia internacional da mulher.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Ensinei uma puta a falar inglês

Dia desses, colhi em meus ouvidos este depoimento:
-Cara, eu acho que essas pessoas que escondem as coisas das mulheres, das namoradas ou esposas, acho que isso aí não tá com nada. Sabe, quando eu fui na despedida de solteiro do Marcão, a gente estava no carro e meu celular tocou. Minha namorada. Todo mundo no carro ficou quieto. Mas depois ficaram boquiabertos quando me ouviram falar 'não mô, tô indo no puteiro com o pessoal, é despedida de solteiro do Marcão'. Ficaram até bravos comigo. Como assim falar uma coisa dessas? Mas acho que a gente não precisa viver mentindo. A única coisa que eu aprontei no puteiro foi... conseguir uma aluna nova. Fiz amizade com uma puta com quem fiquei conversando e ela me disse que sonhava em passar no vestibular mas não tinha condições. Caíam coisas muito difíceis, como inglês, por exemplo. E eu sou professor de inglês. Falei para ela. Combinamos uma primeira aula e ela virou minha aluna. Não sei se chegou a prestar vestibular, mas pelo menos no inglês ela avançou.

domingo, 25 de março de 2018

Gigantes

Li uma entrevista recente do Chomsky, agora que ele está com noventa anos. Como pode? Como pode essa percepção tão profunda sobre o mundo? Esse olhar sobre o tempo, sobre a civilização. Essa compreensão de diferentes atores da sociedade. Há pessoas que enxergam as coisas mais do alto. Não sei como elas fazem, mas fico admirado. O segredo está no tempo? Nas leituras? Nas viagens? Nas pessoas com quem ele interagiu ao longo da vida? De onde vem tudo isso? Fico admirado. Positivamente admirado. É uma esperança saber que é possível que pessoas cheguem a tanto. Talvez nós, meros mortais, possamos progredir ainda um pouquinho mais.

sábado, 24 de março de 2018

:)

A internet evoluiu... E-mails, HTTPs, mIRC, ICQ, MSN, Orkut, Chat do UOL... Facebook, e então a era dos aplicativos nos celulares. Mas nós, criaturas exóticas que somos, temos sempre um jeito especial de usar a modernidade. Eu, por exemplo, tenho essa coisa com algumas pessoas próximas: podemos não trocar longas mensagens, mas pelo menos uma carinha, feliz ou triste, curiosa ou espantada, enviamos via WhatsApp. É um "ping", um sinal de "estou aqui... está aí?". Só isso. E já é tanto.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Cegueiras

Há vários níveis de cegueira. O mais óbvio é a dos olhos. A que turva a percepção da luz que chega até o olho.
Há aí um paralelo direto com a leitura, com a discussão sobre analfabetismo. O nível mais básico de analfabetismo é aquele em que a pessoa não consegue sequer ler palavras individuais.
No caso da discussão sobre analfabetismo fica óbvio o que queremos dizer com "analfabetismo funcional". Ler as palavras não basta. É preciso compreender a frase. Compreender uma frase não basta. É preciso acompanhar a lógica argumentativa do parágrafo, do capítulo, do livro. É preciso conectar o que foi lido com um conhecimento de mundo mais amplo, exterior ao texto, de modo crítico e ponderado. E isso é raro.
Acontece que o mesmo se dá com a visão pura e simples. Há pessoas que enxergam apenas o que lhes chega aos olhos. E nada mais. Estão presas no tempo presente e na ilusão do momento. Não são capazes de compreender os relativismos do mundo ou enxergar os fluxos da história. Falo aqui de um número enorme de pessoas. Mas não se engane... Não estou me referindo apenas a acadêmicos contra não acadêmicos. Nem mesmo fazendo uma distinção entre místicos e não místicos. Ainda que você seja um cético com uma visão mecanicista do mundo, perceba que muitos místicos têm sim uma visão para além de suas cercanias imediatas. Se essa visão é uma descrição correta do mundo e da vida aí já são outros quinhentos. O importante, aqui, é a diferenciação entre quem coloca a percepção de seu momento em um contexto maior e quem não o faz.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Argumentos

Falei com o fazendeiro, que já estava se tornando meu amigo, e ele me explicou que era comum a prática de exterminar invasores. Quando se escolhia esse caminho a única ressalva é que ninguém poderia sobreviver. Nem uma velhinha. Nem um bebê. Claro que era uma bagunça. Aquele monte de corpo amontoado. Mas as fazendas tem esses fornos de secagem. Chegam a novecentos graus. Serviam para sumir com os corpos. Depois mudou o governo e com mudanças na fiscalização e na polícia ficou mais difícil adotar esse tipo de prática definitiva. E foi com essa história que ele tentou me convencer que o novo governo é ruim...

quarta-feira, 21 de março de 2018

Porto seguro

A vida havia seguido outros caminhos. Para longe, distante. Outra cidade, outras pessoas, outro trabalho, outras perspectivas, outro dinheiro, outros cheiros, outros programas na TV, outras reuniões aos domingos. Mas, tempos depois, desamparada pelos desequilíbrios da vida, dos hormônios, da bolsa, ela ligou pra ele. Ele, do passado. Ele, daquela história estranha. Ela precisava falar com ele. O tempo havia enterrado rancores, raivas, mágoas e incompreensões. E novamente ela encontrou, naquela conversa, as risadas e distrações. O breve "oi" se desenrolou em uma conversa de duas horas e meia. Assuntos aleatórios, pequenos fatos do dia a dia, comentários engraçados e espirituosos. Depois, ambos desligaram e seguiram suas vidas separadas por milhares de quilômetros. Mas haviam se redescobertos como pessoas fundamentais um para o outro.

terça-feira, 20 de março de 2018

Latência

Os sonhos muitas vezes acontecem rapidamente. Uma semana de férias. Um dia de casamento. O dia da formatura. Mas apoiam-se sobre um profundo alicerce. Esse período em que nossos objetivos existem apenas em sonho são de profunda importância. Toda gestação tem um período em que a nova cria é ainda frágil demais para vir ao mundo. E dessas verdades conclui-se uma outra: quando um sonho está demorando demais, isso não significa que ele é impossível... significa, isso sim, que seu alicerce é profundo e forte e que seu nascimento será vigoroso. Por isso, diga não ao aborto de sonhos!

Ecos

"Eu preciso de qualquer manifestação de saudade, de qualquer manifestação de afeto..."
"Eu não estou disposta a mudar, nem por você e nem por ninguém no mundo..."
Eu não sei, até agora, se o que machuca mais foi o derradeiro fim, ou a descoberta dessa dureza glacial que preferia terminar uma história de amor a dizer "estou com saudades".
Dói. Não tenho outra coisa a dizer. Dói. Todo o resto é explicar a dor.
Todo dia desde então, em algum momento traiçoeiro, o peito aperta pesado. Escuto de novo sua voz como se uma loucura estivesse se instalando em mim. Sólida, presente, real: "Eu não estou disposta a mudar, nem por você e nem por ninguém no mundo..."
Todos os dias machuca de novo.
E foi ontem, só ontem, já meses depois, que me ocorreu a curiosidade: por que é que é justamente essa sua frase, sobre essa sua relutância em mudar, que ecoa todos os dias em minha mente? Deveria ser quando você disse "é melhor a gente parar por aqui então". Afinal foi ali que tudo se cortou, não foi? Ali é que a minha sentença foi dada. Mas esse momento não retorna a mim se não como uma lembrança buscada. Nunca me persegue. Estou em paz com essa lembrança.
Percebi que minha dor não é pelo fim. Não é pela nossa história. É pela sua desistência em amar. É pela sua escolha, deliberada, consciente e ativa, por dizer não ao amor. E, num sentido mais amplo, a mudanças em geral.
Quero crer, no fundo do meu coração, que foi um equívoco. Que foi uma agressão deliberada mais do que uma declaração consciente de si. Quero crer que, na hora certa, você irá mudar. Quero crer que ainda que eu não tenha sido a pessoa capaz de lhe inspirar as mudanças adequadas, alguém um dia irá, ou então você concluirá por si mesma pelos caminhos a seguir. E seguirá, dará seus passos.
Porque todos nós mudamos. Todos nós precisamos mudar. A declaração pela vontade de não mudar foi uma das coisas mais dolorosas que já presenciei na vida. E foi aí que compreendi que a dor que sinto não é uma dor por mim. Pela perda do nosso namoro, da parte que me cabia. É uma tristeza por você. Como se eu houvesse sido derrotado em minhas vontades de lhe inspirar um sentimento maior.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Guitar Hero


Elas foram o símbolo de uma geração. E será que foram exatamente isso e mais nada? Refiro-me às guitarras. Li que suas vendas estão em declínio acentuado e que não apenas lojas mas as maiores fabricantes mundiais estão em dificuldades. Inclua aí a famosa Fender.

Talvez a maior ironia dessa transição seja que um dos emblemas da geração que está matando as guitarras seja um jogo chamado justamente “Guitar Hero”. Ao menos em minha família cometi tanto bullying com meu priminho quando ele se viciava no jogo que ele acabou indo atrás de um violão de verdade e de uma guitarra. Mas não pode ser apenas influência minha. Ele é mesmo mão na massa, um tipo cada vez mais raro na humanidade. Recentemen ele construiu um amplificador ele mesmo para usar com suas guitarras. Sim, comprou os componentes eletrônico, válvulas, placas, soldou tudo como se esperaria ver em uma garagem dos anos setenta ou ointenta.

Tenho a impressão de que as pessoas estão cada vez mais mergulhadas em virtualidades e desconectadas da profundidade do mundo. Os relacionamentos via Tinder e afins não permitem enxergar profundamente a outra pessoa.Combina-se um encontro em busca de alguns beijos ou sexo e ao primeiro sinal de prolema bloqueia-se a pessoa. Nada de entender os sentimentos do outro, anseios, cultivar a empatia. Volta-se à estant para procurar a próxima oferta. Nos discursos políticos temos uma avalanche de mentiras superficiais para corroborar nossas próprias visões, então por que perder tempo tentando raciocinar sobre os argumentos dos opositores? Toma aqui esse link e esse meme que dizem que estou certo, e pronto

Assim também, acredito, morreu o esforço de aprender a tocar um instrumento. Guitar hero já é distração suficiente para quem quer sentir-se um grande astro. E pode-se, já no primeiro dia, encarnar grandes hits. É a urgência dessa nova geração. Não há tempo para o passo a passo inicial. Acordes, posições. Não. Quer-se já o produto acabado. A música na ponta dos dedos. A opinião pronta em um link. O raciocínio terceirizado em um app.

A humanidade está desistindo de se relacionar como mundo real, por pura preguiça, e sem entender nem mesmo que, no processo, deixará de se relacionar consigo mesma.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Desarmados para o debate


Discussões sobre temas importantes como a política armamentista de um país deveriam ter duas dimensões: uma primeira dimensão, objetiva e uma segunda constituída de opiniões, preferências e valores pessoais. Na dimensão objetiva teríamos os fatos. Números, estatísticas para além de qualquer discussão e mesmo algumas implicações que vão além de qualquer disputa. E só então entraríamos em uma esfera de valores e preferências. Infelizmente não é assim que o debate se processa. Quando a discussão está em marcha, o que vejo é que efetivamente cada lado do debate está enxergando um mundo completamente diferente do outro. Diferente inclusive quanto aos dados objetivos. Um lado da discussão acha que nos Estados Unidos as armas resolvem o problema da segurança. E temos, claro, pessoas que acham que os EUA erram ao possuírem tantas armas quanto possuem. Mas existem dados para isso. É possível olhar as estatísticas de cada Estado. É possível conhecer o número de mortes associadas a armas de fogo. É possível fazer comparações entre países. É possível produzir um debate realmente rico olhando o mundo como ele realmente é. E, infelizmente, parece que as pessoas estão cegas aos dados.

Essa cegueira, por si só, tem dois aspectos. O aspecto da ignorância/arrogância e o aspecto da inaptidão técnica. A ignorância/arrogância está em não conhecer a informação, e acrescento a barra-arrogância porque muitas vezes as pessoas assumem que uma determinada informação é falsa quando esta lhes é apresentada simplesmente porque vai contra o que “já sabem” que é verdade. Para o bem ou para o mal, esta é uma característica humana e é muito difícil ir contra este instinto. Requer treino. E o segundo aspecto, o da inaptidão técnica, refere-se ao treinamento formal que é necessário para poder discutir números referentes a dados sociais. Compreender a diferença entre números absolutos e números per capita. Compreender o que são ajustes de algumas estatísticas com base na distribuição estária de diferentes populações. Compreender a diferença entre uma correlação estatística e uma comprovação de causalidade. A sociedade como um todo é absolutamente despreparada para uma ampla discussão nesse nível.

Minha própria opinião? Todo esforço é válido para promover um maior esclarecimento ao debate. Mas tenho, pessoalmente, me tornado mais e mais cético quanto à possibilidade de a geração atual aprender a compreender o mundo como precisa para chegar a boas decisões. Se há alguma esperança para a humanidade encontrar seus bons caminhos, acredito, essa esperança está nas próximas gerações. É nos jovens e crianças que devemos nos concentrar se quisermos ensinar todas as complicadas ferramentas de pensamento necessárias a compreender o mundo de modo a promover boas decisões. Os adultos atuais não tem mais tempo para ler, refletir e aprender tudo o que é necessário e, além disso, neles o aspecto de preconceito quanto às opiniões adquiridas já está solidificado demais. Os adultos não são apenas despreparados para um debate de qualidade; são, em geral, refratários a este.

sábado, 25 de novembro de 2017

Minha primeira demissão

No fundo no fundo, ainda que com aspirações exóticas e revolucionárias, sou um careta bem estático. Aqui estamos no terceiro milênio de um mundo fervendo a internet e à liquefação baumanniana da existência e eu consigo a proeza olímpica de me formar em uma boa universidade e permanecer cinco anos em uma mesma empresa cheia de velhos e que paga pouco. Sou uma espécie exótica em extinção. Mas minha proeza olímpica não alcançou proporções guinnescas porque recebi cartão vermelho: fui demitido. Em tempos de crise isso deveria me levar ao desespero total. Talvez até leve, já que do futuro ninguém sabe direito, mas confesso que até aqui a experiência está sendo bem interessante. Ser demitido, pra mim, foi assim:
Voltei a falar com outras pessoas da empresa. O pessoal do RH, do setor de benefícios. Gente simpática. No dia de fazer a tal da homologação, preenchimento chato de papéis na presença do pessoal do sindicato, pude conhecer muita gente interessante, velhos e jovens, dos mais diversos setores da empresa, que também estavam tomando um burocrático pé na bunda. Histórias das mais diversas. As realizações de uns, os sonhos de outros. Só gente dessas com quem dá prazer conversar por horas. Será que não demitem ninguém chato? Será por isso que tem tanta gente chata ainda empregada por aí? Fiquei, confesso, aliviado por ter sido demitido. Algo de legal deve existir em mim.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Sem volta

Chegou a hora de voltar para casa. E eu sabia que a casa não estaria mais lá.
As paredes, eu encontraria.
O telhado, eu encontraria.
A calçada com seus conhecidos desníveis, eu encontraria.
A padaria estaria no mesmo lugar.
Mas não era mais minha casa.
Não era mais o lugar em que eu contaria os minutos para te ver.
Não era mais o lugar em que eu escreveria poemas para você.
Não era mais o lugar em que eu sonharia passeios com teus sorrisos.
Não era mais o lugar em que eu aprenderia músicas para seus ouvidos.
E pensei: por que voltar?
Por que voltar se a volta, por fim, é impossível?
Aprendo assim, a tropeços, que a vida não tem volta.
Hora de olhar para frente. Descobrir o que nasce dessa penumbra estranha.
Dessa espeça dor em que você me mergulhou.
Hora de aprender novos sonhos.
Hora de plantar novas dores.
Mais um passo. E outro. E outro.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

As últimas horas

Mais duas horas e já poderei acordar. Mas nem durmo direito, fico acordando o tempo todo. Escuto as pessoas no corredor. Às vezes conversam animadas. Às vezes empurram carrinhos barulhentos. Macas. Escuto pela janela o barulho de compressores de ar automaticamente ligando e desligando. Ligando e desligando. Numa metáfora mecânica horrível para as outras "máquinas" que estão no prédio. Humanos ligando e desligando. Ligando e desligando. Até não ligar mais. Não há cortina na janela. O vento às vezes entra e às vezes desiste. Uso como travesseiro minha jaqueta de andar na moto, toda contorcida sobre si mesma. Não tenho direito a uma cama. Só a este sofá reto e desconfortável. Meu tio acorda. A comadre já está cheia de urina. Ele mal consegue se mover. Olha para mim com vergonha de dizer que mal consegue se mover. Levo a comadre ao banheiro, jogo todo aquele xixi na privada, a limpo com um pouco de água corrente para evitar a formação de odor mais forte e levo de volta para ele. Volto a me deitar. Mais esta noite. Logo amanhece. Mais algumas horas. As últimas horas.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Oceanos

”Não entendo as pessoas que vão todas como gado ver esses filmes da moda. Ou as músicas da moda. E nem sabem o que estão ouvindo. Escutam a ZAZ cantando a música que fala do SOS, a garrafa jogada ao mar, e pensam que é coisa dela. Não é. Os artistas dizem que é uma "homenagem". Só se for uma homenagem à incapacidade deles de criar coisas novas. Não sei o que acontece na nossa época. Temos recursos infinitos para a criatividade e uma criatividade infinitamente morta. Eu gosto dos cinemas pequenos. Dos filmes e músicas antigos. Aqui está, tome. Uma lista de cantores que gosto. Não conte a mais ninguém que eu te dei essa lista. Vão me matar. São, para os outros, um monte de coisas velhas e ultrapassadas. Para mim é o que ainda presta. Porque foi feito com coração livre em uma época em que a criatividade existia. De atual gosto só das músicas idiotas. As paródias, sátiras, bem estúpidas. São felizes e são livres também. Não acho que precisamos ser eruditos o tempo todo. Essa arrogância é estupidez. A vida precisa de alegria e a alegria, quando é um valor em si, não se importa de ser erudita ou boba. Que seja boba, então. Acordo cantando essas paródias imbecis. E sigo feliz olhando um mundo que se pretende sério e culto mas que não é mais livre. Não que todos devam pensar como eu. Mas seguem todos uma mesma maré. Somos correntezas diferentes. Mares diferentes.”

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Fisiologia política

Vendo o que acontece em São Paulo só posso concluir uma coisa: empatia e ética são funções orgânicas que, nos políticos, dependem de água para funcionar direito.