sábado, 25 de novembro de 2017

Minha primeira demissão

No fundo no fundo, ainda que com aspirações exóticas e revolucionárias, sou um careta bem estático. Aqui estamos no terceiro milênio de um mundo fervendo a internet e à liquefação baumanniana da existência e eu consigo a proeza olímpica de me formar em uma boa universidade e permanecer cinco anos em uma mesma empresa cheia de velhos e que paga pouco. Sou uma espécie exótica em extinção. Mas minha proeza olímpica não alcançou proporções guinnescas porque recebi cartão vermelho: fui demitido. Em tempos de crise isso deveria me levar ao desespero total. Talvez até leve, já que do futuro ninguém sabe direito, mas confesso que até aqui a experiência está sendo bem interessante. Ser demitido, pra mim, foi assim:
Voltei a falar com outras pessoas da empresa. O pessoal do RH, do setor de benefícios. Gente simpática. No dia de fazer a tal da homologação, preenchimento chato de papéis na presença do pessoal do sindicato, pude conhecer muita gente interessante, velhos e jovens, dos mais diversos setores da empresa, que também estavam tomando um burocrático pé na bunda. Histórias das mais diversas. As realizações de uns, os sonhos de outros. Só gente dessas com quem dá prazer conversar por horas. Será que não demitem ninguém chato? Será por isso que tem tanta gente chata ainda empregada por aí? Fiquei, confesso, aliviado por ter sido demitido. Algo de legal deve existir em mim.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Sem volta

Chegou a hora de voltar para casa. E eu sabia que a casa não estaria mais lá.
As paredes, eu encontraria.
O telhado, eu encontraria.
A calçada com seus conhecidos desníveis, eu encontraria.
A padaria estaria no mesmo lugar.
Mas não era mais minha casa.
Não era mais o lugar em que eu contaria os minutos para te ver.
Não era mais o lugar em que eu escreveria poemas para você.
Não era mais o lugar em que eu sonharia passeios com teus sorrisos.
Não era mais o lugar em que eu aprenderia músicas para seus ouvidos.
E pensei: por que voltar?
Por que voltar se a volta, por fim, é impossível?
Aprendo assim, a tropeços, que a vida não tem volta.
Hora de olhar para frente. Descobrir o que nasce dessa penumbra estranha.
Dessa espeça dor em que você me mergulhou.
Hora de aprender novos sonhos.
Hora de plantar novas dores.
Mais um passo. E outro. E outro.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

As últimas horas

Mais duas horas e já poderei acordar. Mas nem durmo direito, fico acordando o tempo todo. Escuto as pessoas no corredor. Às vezes conversam animadas. Às vezes empurram carrinhos barulhentos. Macas. Escuto pela janela o barulho de compressores de ar automaticamente ligando e desligando. Ligando e desligando. Numa metáfora mecânica horrível para as outras "máquinas" que estão no prédio. Humanos ligando e desligando. Ligando e desligando. Até não ligar mais. Não há cortina na janela. O vento às vezes entra e às vezes desiste. Uso como travesseiro minha jaqueta de andar na moto, toda contorcida sobre si mesma. Não tenho direito a uma cama. Só a este sofá reto e desconfortável. Meu tio acorda. A comadre já está cheia de urina. Ele mal consegue se mover. Olha para mim com vergonha de dizer que mal consegue se mover. Levo a comadre ao banheiro, jogo todo aquele xixi na privada, a limpo com um pouco de água corrente para evitar a formação de odor mais forte e levo de volta para ele. Volto a me deitar. Mais esta noite. Logo amanhece. Mais algumas horas. As últimas horas.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Oceanos

”Não entendo as pessoas que vão todas como gado ver esses filmes da moda. Ou as músicas da moda. E nem sabem o que estão ouvindo. Escutam a ZAZ cantando a música que fala do SOS, a garrafa jogada ao mar, e pensam que é coisa dela. Não é. Os artistas dizem que é uma "homenagem". Só se for uma homenagem à incapacidade deles de criar coisas novas. Não sei o que acontece na nossa época. Temos recursos infinitos para a criatividade e uma criatividade infinitamente morta. Eu gosto dos cinemas pequenos. Dos filmes e músicas antigos. Aqui está, tome. Uma lista de cantores que gosto. Não conte a mais ninguém que eu te dei essa lista. Vão me matar. São, para os outros, um monte de coisas velhas e ultrapassadas. Para mim é o que ainda presta. Porque foi feito com coração livre em uma época em que a criatividade existia. De atual gosto só das músicas idiotas. As paródias, sátiras, bem estúpidas. São felizes e são livres também. Não acho que precisamos ser eruditos o tempo todo. Essa arrogância é estupidez. A vida precisa de alegria e a alegria, quando é um valor em si, não se importa de ser erudita ou boba. Que seja boba, então. Acordo cantando essas paródias imbecis. E sigo feliz olhando um mundo que se pretende sério e culto mas que não é mais livre. Não que todos devam pensar como eu. Mas seguem todos uma mesma maré. Somos correntezas diferentes. Mares diferentes.”

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Fisiologia política

Vendo o que acontece em São Paulo só posso concluir uma coisa: empatia e ética são funções orgânicas que, nos políticos, dependem de água para funcionar direito.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

De saída

Olho o criado mudo ao lado da cama. Olho pela janela as árvores, a disposição das folhas. Sinto o cheiro que vem da cozinha. Último dia aqui. Me despeço da poeira do chão. Da torneira do banheiro. Me despeço da fechadura dos fundos. Mala nas mãos. Olho os céus. Olho o horizonte. Estou de partida. Sigo viagem. Olho as pessoas nas ruas. As crianças brincando ao redor das casas. Os cachorros tão mergulhados no presente quanto sou alheio a ele. Permaneço alheio. Estou em outro lugar. Estou em um futuro que nunca alcanço. E, não obstante, sigo viagem. Adeus.

domingo, 19 de novembro de 2017

Certeza inabalável

Jeferson é meu melhor amigo. E ele tem uma grande consideração por mim. Quando ele dizia aos amigos que sabia o endereço do bar e as pessoas duvidaram, inseguras, ele foi enfático:
-Aposto os rins do Adoniran que é lá mesmo, podem ir!

sábado, 18 de novembro de 2017

Notas de trabalho

Escrever sobre política, sobre experiências de vida, sobre o destino, sobre o tempo, sobre romances, sobre o amor, sobre ciência... Escrever e escrever mais. Escrever até acumular os textos, os conhecimentos, a minha experiência de vida. Escrever e escrever. E de nada valerão as letras ali jogadas, sem ninguém ler. E eis que alguém lê: obrigado.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Moto e medo

As palavras são até parecidas. A primeira e a última letra. Realidades próximas. Eu amaria andar de moto. Mas os motoristas não amam a vida: pouco amam a própria e nada amam a dos outros. Imagina que delícia, andar de moto à noite, na chuva. Tem tudo para ser uma experiência quase mística não fosse a enorme possibilidade de se tornar uma passagem só de ida ao misticismo definitivo. O mundo é cheio dessas coisas. Paixões encantadoras e perigosas. Acordos de paz impossíveis.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Óbito

De que importa se te presenteei meu tempo
Quem quer saber para onde foram minhas atenções
Se nem teus braços a querem
Vazio
Folha em branco
Recolho-me aos rascunhos errados que fiz de você
Abraço-os saudoso de quem sonhei
A dor do fim é a dor de uma morte
Morte de uma imaginação que se descobre falsa

domingo, 22 de outubro de 2017

Extravios

Dói mais fundo,
Por fim,
Dar a outras pessoas
As risadas
Que queria dar
A você

A humanidade é inajudável

A citação não é minha. Li em algum lugar mas sou desorganizado demais para lembrar onde foi. Tristemente, quase deprimido mas me recusando a cortar os pulsos, reconheço que concordo. Aquecimento global, concentração de riqueza, intolerância, extinção de espécies, morte dos oceanos, consumismo desenfreado, desvalorização da cultura e industrialização da existência exterior e esquecimento da interior. Quem quer ser ajudado? Quem quer ajudar? E que merda estou fazendo escrevendo essas palavras imbecis ao invés de sair e fazer algo de verdade?

sábado, 21 de outubro de 2017

Vida off-line

Tenho um projeto para um livro revolucionário. Não sei direito ainda a que categoria vai pertencer. Talvez a "contos fantásticos". Talvez simplesmente a "ficção". Vou falar de uma pessoa que decide viver off-line para se reencontrar. Desliga-se da internet, celular, telefone... Passa a encontrar com as pessoas pessoalmente para tratar de seus assuntos, caminhar prestando atenção ao caminho. Tem seus dias ignorando em boa medida as grandes manchetes mundiais. Dedica-se a ler textos até o final e a folhear o jornal do dia por quase uma hora, prestando atenção aos assuntos.
Já sei... o livro vai ocupar o lugar das "Utopias".

Volta aqui

Eu iria te escrever hoje! Onde você foi?

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Blindados

Quem não é capaz de entender um argumento, quem não consegue se expor à uma ideia diferente de suas próprias, apressa-se logo em tapar a conversa toda com um rótulo, um estereótipo, uma acusação genérica mergulhada em generalizações. Coxinhas, mortadelas, gays, brancos, pretos, pobre, rico, bandido, mulher, capitalistas, proletariado... Seres humanos se dividindo em times, em panelinhas, tudo vale para fugir do diálogo.

O escritor que eu fui está morto

Li um texto que escrevi há alguns anos. Confesso, sem modéstia, que gostei do que li. Gostei do humor sutil, da escolha de palavras, do tratamento do tema. Havia um nível suficiente de criatividade e de articulação ali. E quis escrever mais coisas daquele jeito. E não consegui. Descobri que a pessoa que escreveu aquele texto, quem quer que seja, está morta. Soterrado pelo tempo. Não vai escrever nunca mais. Outros escritores vão nascer em mim. O de hoje faz isso aqui: escreve sobre outras épocas e é o que tem para hoje, goste você ou não. Descobri que nossa existência interior é assim, essa onda: uma crista em movimento, com uma inércia própria, indiferente aos nossos desejos. Não vai parar onde desejamos. Vai continuar mudando. O contínuo movimento do nosso espírito. Nossa existência, diante dessa onda, resume-se a escolher, dia após dia, surfar tudo o que ela tem a oferecer ou deixar-se afogar em suas turbulências.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Amigos próximos terminam noivado

Meus grandes amigos, que vou chamar aqui de Carlos e Joana, terminaram o noivado. Estão pagando um apartamento e tudo o mais. Mas o Carlos não estava feliz. Joana, ao longo dos últimos anos, foi se revelando uma pessoa que não o fazia muito feliz e, além disso, não vinha pagando as prestações do apartamento. Eu sou amigo dos dois. O que me deixa numa posição difícil. Porque a Joana quer conversar comigo agora todos os dias. Ela tem esperanças de voltar. De recuperar o amor do Carlos. O que ela está fazendo? Ela está emagrecendo, correndo. Está fazendo brigadeiros para vender. Está buscando trabalhar seu humor com a vida tendo contato com coisas mais animadas. Teatro e filmes felizes. E as prestações do apartamento? Continua não pagando. O que o Carlos pensa disso? Pensa o que eu esperava que ele pensasse: por melhor que seja a Joana, não dá para confiar em passar a vida com ela. E quando os pais dela não puderem mais ajuda-la com suas dívidas? Ela tem emprego fixo, um salário aceitável e mora com os pais. E ainda assim torra sua grana com distrações corriqueiras. Eu já tentei dizer à Joana exatamente o que penso mas, quando começo a ser mais direto em meu discurso, as mensagens dela desaparecem. Joana... pare de querer voltar. Uma ótima coisa que você poderia fazer agora seria ter raiva do Carlos e não esse desespero de querer voltar. Valorize-se. Não importa aqui quem tem razão ou não. Importa você se valorizar. Ignore tudo o que você acha que ele espera de você. Cuide da sua própria felicidade independentemente dele. Não acho que você saiba o que é isso na verdade mas é uma boa hora para descobrir. Honre seus compromissos com o pagamento do apartamento mas sem vistas a retomar a relação. Faça isso pela sua dignidade. Nem pense em insistir para voltar com ele. Te juro, como amigo, que nada lhe faria mais bem.

Te reencontro mil vezes

Finalmente olho nos seus olhos. Escuto suas histórias. Faz-me amar, faz-me amor. E então se dilui em uma vida distante, te vejo turvada por detrás do seu trabalho, de suas viagens, de suas ambições. Vai-se embora nesse turbilhão de acontecimentos responsáveis. Novamente te encontro. Nos livros. Nas caminhadas. Somos soldados em um mesmo devaneio, soldados de uma mesma causa. Viajamos juntos nas mesmas imaginações. E novamente você desaparece. Levada pela certeza de uma vida estável. Levada pelas escolhas certas. Levada pela casa nova. Levada pelo novo emprego. E eu aqui amarrado aos meus sonhos. Espero. Espero. Procuro. Procuro. E te reencontro. Te redescubro. Te desenterro das músicas diferentes, dos sorrisos escondidos, da timidez dos primeiros carinhos. E novamente, ciclo infinito, a perco para a casa nova com cachorros. Com empregada às segundas. Para a vida com previdência privada. Enquanto eu me recusar a pertencer a este mundo você se recusa a ficar. Vem, aparece e novamente se vai. Já a encontrei nos passeios pelas pinacotecas e nas viagens de moto. Já a encontrei na música sob o luar e nos churrascos entre amigos. Já a encontrei nos bilhetes escondidos e nos alucinados pulos sem fim dos shows de rock. Já a encontrei no chão da sala e na mão dada do cinema. E, sorrateira, escondida por trás de mil rostos e mil vidas, novamente você, meu grande amor, sei vai. Mas eu sei que, logo mais, te encontro. Te reencontro. Te redescubro. Te reinvento. Te renasço. A esculpirei onde você me descobrir. A escreverei onde você me ler. A mergulharei onde você me afogar. A abraçarei onde você me amar. A encontrarei onde você me procurar. A protestarei onde você me manifestar. A dançarei onde você me musicar. A respirarei onde você me oxigenar. Te reencontro mil vezes.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Biblioteca pública discrimina brancos heterossexuais

Vi a notícia de que uma biblioteca pública de São Paulo estava organizando um evento em prol da diversidade racial e cultural. O problema é que, no anúncio da série de palestras, deixava-se claro o seguinte: brancos heterossexuais não vão falar aqui, mas são bem vindos para ouvir. E aí gente? Tá certo isso? Por um lado podemos argumentar o seguinte: brancos heterossexuais falam o tempo todo, em todos os lugares. Na televisão, na política, na literatura... Brancos heterossexuais têm voz na sociedade o tempo todo e em todas as esferas. Por que então não fazer um evento em que, garantidamente, eles não falassem, com o único objetivo de garantir o máximo de voz para aqueles que nunca falam? Não acho de todo errado. Mas tenho medo de que não se perceba que no fundo a igualdade é isso: igualdade absoluta, e não a reversão da exclusão. Sei que discussão similar aparece outras áreas polêmicas, como cotas raciais e feminismo. Nós, brancos heterossexuais, não estamos acostumados à posição de excluídos e não queremos nos sentar nessa cadeira incômoda nem por dez minutos. Mas os "outros" ocuparam este desconfortável lugar por milhares de anos. Até que exista um número adequado de cadeiras confortáveis, custa revezar?

Das entranhas

Eu só sei aprender ensinando
Eu só sei me inspirar inspirando
Eu só sei ser amado amando
Eu só sei ganhar respeito respeitando
Eu só sei ser visto enxergando
Eu só sei ganhar premiando
Tenho uma alma feminina, é inegável:
Uma alma que só sabe viver doando vida à vida
Só sei sorrir se for parindo alegrias

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Sou um marginal

Margem. Aquela linha ao redor de algo bidimensional. Aquela coisa que ainda é parte de algo mas não está no meio, não é sua essência. Mas que, dando-lhe contorno, é parte integrante da sua definição. Marginal, aquele que está à margem. Não confundir com esse uso deturpado do termo quando referente a criminosos infelizes. Sou da paz. Sou honesto. Mas sou um marginal enquanto aquele que rouba e é desonesto. Isso não. Mas sou um marginal enquanto aquele que está à margem, contornando sem entrar.
Ando pelas avenidas largas, pelas movimentadas estações de trem e pelos grandes aeroportos do mundo. Não sou dessa gente de terno e gravata. Não sou desses operários de macacão azul. Também não sou desses nerds de óculos e nem desses artesãos que fazem belas esculturas de arames retorcidos. Estou à margem. Gosto de ler e não conheço os grandes clássicos da literatura, leio devagar. Gosto de música e não tenho a disciplina ou o desespero apaixonado de estudar todos os dias. Um preguiçoso, talvez. Mas não, não é a preguiça porque sou muito inquieto. Estou sempre fazendo algo mas nunca é o mesmo algo. Hoje é o clarinete. Amanhã é a máquina fotográfica. Depois são as equações de elementos finitos nos modelos estruturais do MATLAB. Depois os mapas abertos para traçar os planos de voo. Estou em todos esses lugares e, saltando de um para o outro, não estou em nenhum. Porque é o que a margem faz: percorre, contínua, os contornos de toda a figura. Uma fronteira linear abraçando todo o mapa. Quero abraçar toda a realidade. Quero ser fotógrafo, jornalista, piloto, músico, artesão, operário, deficiente e alpinista, gay e freira, direitista e esquerdista, negro branco japonês índio e inuit. Quero implodir as definições confundindo-as sem fugir, olhando-as nos olhos. Quero ser médico e doente, quero ser astronauta e mergulhador. Quero ser imortal e um defunto. Quero ser sentimental e empresário, apaixonado e contador, honesto e advogado. Quero ser engraçado e mentiroso. Quero ser filósofo e estúpido. Correndo pelas margens vou dando voltas. Sigo não sendo fundamentalmente nada disso e, de um jeito estranho, sigo sendo tudo ao mesmo tempo.

Histórico escolar

Frequento escolas todos os dias. A que mais me deu trabalho foi aquela com paredes paredes e mais paredes. Gosto das escolas abertas. Dessa escola em que entramos ao abrir a porta de casa de manhã. Dessa escola que começa ao cairmos da cama. Dessa escola que começa ao nos depararmos com nós mesmos no despertar. Gosto dos meus muitos professores. Tenho professores velhos, cientistas, analfabetos, feirantes, brancos, pretos e dos olhos fininhos. Tenho professores crianças. Tenho professores que ensinam pelas declarações objetivas, "em agosto começarão as garoas de fim de tarde". Tenho professores que ensinam pelas demonstrações: as crianças com seus olhares curiosos emoldurados em sorrisos. Não fico apenas sentado. Nas minhas escolas também ando, deito, corro e me escondo. Aprendo com escritores de outros recantos do mundo e outros séculos. Aprendo com velhos escondidos em seus quarto escuros. Sou um abridor de gavetas. Um curioso que quer saber o que tem dentro. Pouco me importa o aspecto do cofre. Pouco me importa se o tesouro escondido é ouro ou uma velha carta de amor: me enriqueço do brilho de ambos.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Crise dos 30

O que fazer?
Abrir uma empresa.
Viajar pelo país.
Pelo mundo.
Pela Europa.
Pela África.
Pela cidade.
Fazer um curso. Mandar currículos.
Tocar numa praça pública para ver quantas moedas eu ganho.
Fugir para outro país.
Escrever um livro.
Parar de pensar na vida e adotar uma existência automática. Trabalha. Dorme. Paga contas. Bebe. Reclama e morre.
Crise dos 30.
Trinta anos. 10.957 dias.
262.968 horas.
E eu sinto que, no meio disso tudo, não soube aproveitar meia hora por dia para escrever uma bela poesia. Ler um livro realmente instigante. Ligar para uma pessoa excepcionalmente especial.
Mas no fundo é uma preocupação idiota. O que é uma coerência irônica, porque essa preocupação decorre de não perceber como a existência é idiota. Não fui explodido numa guerra sem sentido e não comando uma grande empresa escravizadora de pobres asiáticos ou africanos. Já está bom. Vou viver mais tempo que esses infelizes. Depois vou morrer também. E daí? E daí que eu queria fazer algo de útil. E daí que eu queria sentir que minha vida tem sentido. E daí que eu sei que se eu ficar pensando nisso minha existência será inútil por mais trinta anos. Ou por mais sessenta, se eu tiver azar.
Crise dos trinta. Um segundo nascimento. Depois de trinta anos olhando pra fora, é hora de aprender a olhar pra dentro.

O amor que eu quero

Não quero um amor garfo e faca.
Quero um amor de lambuzar os dedos
Não quero um amor com agenda
Quero um amor de improvisos
Não quero um amor polícia
Quero um amor transgressor
Um amor capaz de romper com os cabrestos da vida
Quero sentir saudades
As minhas e as tuas
Quero um amor que deixe a comida queimar
Quero um amor que esqueça a água fervendo
Quero um amor que perca a hora
Que estoure a conta do telefone
Que ache que o mundo vai acabar daqui a pouco
E que faça assim nascer,
Rompendo todas as cascas da vida
Nosso próprio mundo

domingo, 15 de outubro de 2017

Churchill e o Instagram da Mari

Era quase madrugada. Ou era já madrugada. Nem lembro. Tem semanas já. Ela me contava seu drama.
-Eu tenho meus projetos, minhas ideias, mas não sei direito o que fazer. Estou travada, entende. Não me sinto exatamente segura por onde começar, por onde ir.
E então contei a ela a história do Churchill que li anos e anos atrás numa velha coletânea especial da revista Seleções do Readers's Digest. Uma seleção especial sobre os tempos da Segunda Guerra. O texto contava que uma vez Churchill estava recluso em sua casa tentando se dedicar ao seu hobby pessoal. A pintura. E havia instruído os criados a não permitir a entrada de ninguém. Mas então chegou uma moça que era sua amiga de infância e que tinha muita liberdade com ele, com os criados, e que não se dobrava facilmente a instruções do tipo "ele pediu para não ser incomodado". Infelizmente não me lembro agora o nome da moça e ainda não fiz as devida pesquisas no Google (mas você pode cuidar dessa parte e me informar, fique à vontade). Acontece que a moça entrou no salão em que estava o notável primeiro ministro inglês e o viu estático, pincel na mão, diante de uma tela em branco.
-O que está fazendo?
-Estou pintando.
-Mas a tela está em branco! O que está pintando?
-Uma rosa.
-Mas não tem nada no quadro... por que?
-Estou pensando por onde começar!
E então ela retirou o pincel das mãos do Churchill, fez um único traço sobre a tela, devolveu o pincel àquele atordoado fumador de charutos e lhe explicou:
-Pronto, agora é só continuar.
Eu achei a história fantástica. Pensei em quantas e quantas coisas de nossa vida se reduzem no fundo à essa lição fundamental. A importância de um primeiro passo, qualquer que seja, como muito mais importante do que a consciência precisa do "melhor primeiro passo possível". O movimento sobre a estagnação. A vida em si como o próprio movimento. Contei todas essas histórias à Mari. E ela, fotógrafa, me contando sobre o plano de seu Instagram profissional para o qual não tinha coragem de convidar ninguém. Porque ainda não tinha as fotos certas. Porque ainda tinha dúvidas quanto ao projeto.
Conversamos por mais algumas horas. Depois nos despedimos e fui tomar banho.
Antes de dormir não resisti e conferi novamente o celular. Havia um convite daquele novo Instagram dela e uma nova foto publicada.
Minha querida, uma certeza eu tenho: Churchill estaria com inveja.

A era das navegações

São todos ilhas, separados por milhares e milhares de mares intransponíveis. Ou quase. É possível navegar. Mas para que se chega até o outro? Há os colonizadores que chegam para tirar vantagens. E há os exploradores que chegam para conhecer os novos mundos. Assim ocorre nos mundos de fora. Assim ocorre nos mundos de dentro.

sábado, 14 de outubro de 2017

Projetos de vida

Eu queria ser astronauta. Mas eu não sabia que minha preguiça em correr e andar de bicicleta e aprender inglês e estudar aquelas coisas complicadas de química orgânica iriam, em conjunto, configurar um grande impedimento. Também não tinha a noção de que havia nascido no país errado. Ainda que possível ser astronauta enquanto Brasileiro, enquanto escrevo as chances de sucesso para essa categoria são de cerca de de 1 para 200 milhões (0,000000005). Depois eu quis ser sociólogo. E quem sabe me tornar um político e atuar pela melhoria da educação. Mas eu não sabia que minha aversão a me misturar com as pessoas do centro acadêmico seriam um grande impedimento. Eu não sabia que me concentrar em estudar e ter boas notas não saria suficiente. E não estava preparado para um pânico que, por esta época, tomou conta até dos meus ossos: onde é que eu iria ganhar dinheiro?
Depois eu quis ser um engenheiro. Fiquei no básico: arrumei um diploma e um emprego com uma mesa e um computador. Mas faltavam coisas. Uma ambinção empreendedora que me motivasse a correr atrás do dinheiro. Eu ficava encantado demais com complicados modelos matemáticos e gráficos exóticos enquanto a carreira, fui descobrir depois, não saia do lugar. Fiquei depressivo.
Aí decidi ser piloto. Coisa com que eu flertava desde criança. Coisa que me levaria de volta a esse meio mágico e maravilhoso. Mas eu já estava ficando velho. "Moleques" dez anos mais velhos que eu já estavam com todos os brevês na mão e conseguindo seus empregos nas grandes companhias aéreas. Quem iria querer um engenheiro já algo barrigudo como novato copiloto? E eu não estava preparado para o bairrismo dos instrutores de voo que não me davam oportunidade porque, bem, eu era um cara de fora. Não era da cidade deles. E era um forasteiro cheio de diplomas e títulos nerds... O que eu estava fazendo ali? Briguei e me desgastei mas isso de nada adianta.
Isso sem contar as outras iniciativas, menos oficiais, que também não deram em nada. Fotógrafo de festas. Professor de inglês. Tradutor de trabalhos escolares. Guia para estrangeiros. Clarinetista em barzinhos. Cantor de bandas amadoras. Blogueiro de assuntos aleatórios. Historiador. Cientista de sistemas complexos. Uma infinidade de áreas exóticas às quais me dediquei por um tempo só para, no meio das complicações da vida, perceber que a correnteza havia mudado antes que eu pudesse me amarrar firmemente a algum atracadouro.
Até que, tempos atrás, descobri algo que eu comecei lá na infância e que nunca parei de praticar. Escrevo. Escrevo contando meus dias, meus namoros, minhas engenharias, minha aviação. Escrevo contando meus sucessos, meus fracassos, meus pensamentos, minhas dores. Escrevo praticando ser essa coisa que, ainda que falhe, não deixará de ter seu sucesso, porque se provou inescapável em minha vida. Descobri que não coleciono diversos projetos de vida que falharam. Descobri que estou fazendo exatamente o que um escritor deve fazer: explorando o máximo do mundo que posso.

Refúgios

Ouvi uma autora na Flip, e nem lembro quem era, dizer que a página em branco a assustava porque não estava acostumada a lidar com tamanha liberdade. Foi por isso que criei este blog. Uma grande página em branco. Precisava ser publicado. Nada do refúgio seguro das gavetas mofadas. Precisava ter outro nome. Precisava ter outra vida. Nada disso deveria me assustar. Nada disso deveria me prender. A liberdade de ser, nos textos, qualquer outro universo que eu quisesse. Mas há gente lendo. Há pessoas conhecidas lendo. Que erro, que erro! Erro? Preciso lidar com isso. Todos deveriam, na verdade. Explorar os limites absolutos das liberdades de pensamento. Visitar loucuras e voltar. Sair dos trilhos dos estilos e expectativas. Colonizar imaginários selvagens e suas especiarias ainda inexploradas.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Não quero falar com você pelos próximos 20 anos

Sei que a linguagem escrita tem seus problemas de interpretação. O principal deles, nos tempos modernos em que nossa interação cotidiana se dá por mensagens de texto no celular, é a confusão entre uma brincadeira e uma mensagem séria.
Outro dia fiz uma brincadeira com uma amiga. Insinuei que talvez eu não daria muita atenção à ela em nosso próximo encontro de propósito, tal como havia incidentalmente acontecido no encontro anterior devido a outros compromissos meus.
E aí ela respondeu assim:
-Não quero falar com você pelos próximos vinte anos
De início eu ri. Ri porque li como um gracejo. Uma mensagem de humor.
Depois, quando considerei por algum momento que ela estava falando sério, aconteceu algo que eu não esperava: doeu. Uma dor profunda, dessas que acontece com a gente quando algo muito grave acontece, algo que realmente não queremos na nossa vida. Como a perda de um ente querido, o término do casamento, a morte do cachorrinho querido ou a descoberta de que papai noel não existe.
Vinte anos é muito tempo.
Fiquei torcendo para que as coisas se esclarecessem antes. Bem antes.

Nada

Nunca me senti tão nada.
Tão ausente dos seus pensamentos.
Tão insignificante nas suas manhãs.
Tão inexistente nos seus travesseiros.
Você me desapareceu.
Ainda me vejo por você.
Sinto-me desaparecido de mim.
Encontrarei um jeito de quebrar
Essa destrutiva mecânica
Deixarei de te olhar
Para me enxergar novamente