terça-feira, 17 de julho de 2018

Dois tipos de luta


Há lutas que insistem na paz
E há lutas que aumentam as rupturas
Olhe em volta
Para as justiças que assim lhe parecem
Identifique os dois tipos
Há aquele que produz o diálogo, insistindo em aceitá-lo
E aquele que o destrói, agarrando-se às certezas de seus gritos
Porque a humanidade, no fim, não é sobre certezas
Nem mesmo, ouso, sobre verdades.
É sobre pessoas
A razão dos fatos precisa emergir
Mas só terá terreno se antes houver vontade de diálogo
Uma insistente, teimosa e revolucionária vontade de diálogo

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Passeio no parque

Rua vazia
Rua cheia
Navego a saudade
Da minha sereia

Parques de cores de sabores
Folhas de sol escondido
Fontes de brilhos partidos

Vejo a vida ser
Sou a vida a ver

A ver cores nas coisas
Haver cores em tudo
Cores que a vida me dá

Amarelo forte
Amar, elo forte!

domingo, 15 de julho de 2018

Impressões


Cara, quando você chegou aqui, vou te contar. Tive certeza de que eu estava fodido. Pensei, acabou a festa! Acabou tudo! É! Porque vi o cara e pensei Xi, um certinho, nerd, vai estudar, uma mala de livros, deu merda. Eu tenho meu som aqui, tô nessa de aprender a ser DJ. Aí, beleza. Você fica lá no seu quarto estudando, eu vim aqui praticar as músicas. Estou tocando tudo baixinho, com receio de incomodar. E aí você desce as escadas com as mãos para cima gritando "Where is the partyyyyy??????". Aí eu percebi que ia ficar tudo bem.

sábado, 14 de julho de 2018

Minha arte


Que artistas que eu sou? Eu? Eu... Eu sou artista nenhum. Eu só olho as coisas que estão nos caminhos em que passo. Eu só olho as coisas que meus olhos encontram. Nada da arte que tem um olhar diferente sobre as coisas, pessoas e lugares. Eu tenho o olhar que tenho, não é diferente nem igual. É meu e só.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Mudar a história


"Se encontrássemos vida em Marte, seria uma completa revolução para a humanidade, isso mudaria a história para sempre!"
Já houve um momento em minha vida em que eu tomaria essa frase como completamente verdadeira. Hoje acho que ela é consideravelmente egocêntrica, mas olho com ceticismo meu próprio desprezo. Não consigo decidir. Explico.

Por um lado, vejo hoje a humanidade como um conjunto enorme de idiotas, de imbecis, de retardados desconectados da história, da produção intelectual, dos pensamentos, do fluxo de criatividade que produziu as maravilhas da humanidade. Não me entenda mal. Compreendo que não é, na enorme maioria das vezes, culpa dessas próprias pessoas. Mas é assim que o mundo é. Imersos em nossas próprias atividades, estamos falhando na tarefa de instruir a próxima geração. E isso vem acontecendo há tempo demais. Assim, passando do caso geral ao problema particular que o manifesta, e se a humanidade descobrisse, por fim, vestígios de vida em marte? O que isso mudaria para o empresário que quer mais lucro para comprar um relógio de quinze mil ao invés do ultrapassado modelo de dez mil? O que mudaria na vida das pessoas que querem ter um som mais forte no carro e nada mais?

Tenha o cuidado de observar que não estou mencionando diretamente aqueles que normalmente são tidos como "os ignorantes". Os pobres coitados sem estudos e sem recursos. Ainda que para fins do presente raciocínio eles pudessem ser também englobados, creio que o extremismo da exclusão que sofrem os isenta de responsabilidades. Trato, isto sim, de pessoas com algum recurso a mais na vida, porque a estas a escolha é possível. Ver um filme idiota ou se aprender alguma coisa nova? Deveria existir um balanço. Um equilíbrio entre o ludismo da vida e o crescimento espiritual. Não, não há. Eu sei que grandes descobertas, como a de eventuais vestígios de vida em Marte, passarão deliberadamente ao largo para uma gigantesca parcela da humanidade.

Por outro lado, admito que possa ser um extremismo meu. E se, no fundo, é assim que é e pronto? O quão difundido precisa ser o progresso intelectual? Chega-se ao futuro inundando o rio do Tempo mas também percorrendo apenas um discreto fio d'água num canto esquecido. É a ideia de nicho ecológico, ainda que distorcida a um outro contexto. Talvez nem seja assim tão importante que o mundo todo compartilhe das grandezas da humanidade. Basta um estado mínimo de não-bestialidade em que se evite a destruição de nossas grandezas pela massa de estúpidos. (Não estamos, também, a salvo dessa última hipótese, vide destruição massiva de arquitetura e arte nas guerras, seja na Segunda Guerra, seja com o que ocorreu na Síria.)

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Agora


Um fusca velho na beira de um rio, numa rua com asfalto velho, rachado. Ele está sobre a terra. Aparência de abandonado. A grama da margem já nascendo por em volta das rodas, dos pára-choques. O cheiro podre da água cheia de esgoto invadindo o interior do carro, impregnando as janelas de uma coloração um tanto quanto opaca.

Um móbile feito de bonequinhos de tecido liso, gostoso de passar a mão. Um bebê no berço. Quase dormindo. Olhando hipnotizado para o brinquedo que voa logo acima de seu repouso. As paredes pintadas num levíssimo tom azul claro. Recém pintadas. Tudo com ar de novo. Presentes de parentes e amigos misturam-se com as coisas que os pais compraram. Bonecos, carrinhos, luvinhas, meias, macacões, pacotes de fraldas. E ele fecha os olhos e dorme um sono gostoso. Alheio a tudo isso. E, também por isso, o centro gravitacional de tudo isso.

Duas da madrugada. Sua visão é boa mas agora as coisas da rua lhe parecem meio turvas, desfocadas. É o efeito do vento úmido e gelado da noite em seus olhos enquanto pedala. Gosta de andar de bicicleta. Casas apagadas. Um bar com umas poucas pessoas. Um outro ainda cheio de gente até na calçada e música ao vivo. Uma casa com uma luz acesa. Alguém acordado? Teriam esquecido a luz acesa? Uma conversa? Amor acontecendo? Um doente recebendo cuidados? Uma insônia se manifestando? Um outro mundo... Pedalou e pedalou. Olhando as coisas passarem. Sentido-se ficando para trás também. Parou em frente ao hospital. Uma ambulância chegava. Manobrou rápido na rua, os pneus chegaram a cantar na curva fechada. Pessoas saíram correndo do hospital, auxiliaram a levar uma vítima de um infortúnio qualquer lá para dentro. E então voltou aquele silêncio. Era o hospital. Lá dentro, aquela correria continuava. Mas ali, naquele instante, ele olhou ao redor, e era só a ruía quieta de novo. O vento gelado e úmido por todos os lados. Voltou a pedalar.

Tem essa árvore que é longe de tudo. Que os homens nunca viram. Que fica no meio do nada. E tem nela esse galho com um ninho. E tem nesse ninho ovos chocados. Pequenos filhotes. E vai o pássaro-mãe voar e trazer comida. E vai o pássaro pai afugentando ameaças que aparecem sedentas dos pequenos rebentos. E passam os aviões milhares de metros acima todos os dias levanto pessoas que não sabem de nada disso.

Ajeitou o dedo mindinho. Justo esse, que sempre dá mais trabalho. Soprou. Soltou uma nota longa, suave... Era a nota mais grave de que sua flauta era capaz. E então encontrou ali mais umas cinco ou seis notas. E brincou com tempos. E trocou intensidades. E fez uma música. Em seu quarto. No meio da noite. E ninguém ouviu. E ele não se importou.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Censura


Nos EUA apenas, algo entre meio milhão e um milhão de livros são publicados todos os anos. Sim sim, me refiro a títulos diferentes, livros novos! É uma média de quase um livro novo a cada 300 ou 600 habitantes. Um exagero. Com certeza há muita maravilha perdida aí e há também muito lixo. Não estranha que uma nação tão capaz de produzir lixo de todas as espécies o faça também na produção literária, não é?

E aí eu fico pensando: vou escrever. Vou escrever todos os dias. Em pouco tempo acabo essa ideia. Aquela outra também. Não importa como fique. Terei algo escrito.

E horas depois olho para tudo e só só consigo pensar: quanta porcaria! A quem estou tentando enganar?

terça-feira, 10 de julho de 2018

Massa zero


Você por acaso já acordou e, ao olhar em volta, ao olhar pra você... Ao olhar pela janela... de repente sentiu essa profunda sensação de não ter certeza de quem é? Sua vontade para as coisas do dia não existe, você não a encontra. Seus trabalhos não fazem sentido. Não há um desespero, uma razão profunda para que você saia da cama e vá movimentar-se pelas próximas horas. Pouca diferença faz sair ou não. Nenhuma diferença faz. Seu dinheiro chegará da mesma forma. As pessoas lhe tratarão bem, com apreço, quer você vá quer você fique. Nada mudará no mundo. Seu existir se iguala a um inexistir e você então fica atordoado diante da magnitude transuniversal dessa incontornável insignificância. Já se sentiu assim? Não é nada interessante...

O mundo continua lá fora a despeito total do que sinto aqui dentro. À revelia do que faço, do que deixo de fazer, do que sou, do que não sou.

Li que os físicos detectam no espaço a presença de matéria escura pelo efeito gravitacional que ela exerce à sua volta. Um sujeito sem gravidade social é efetivamente um sujeito sem massa social? Sou um humano verbalizado, letrado, vestido e vacinado, e ainda assim, de certa forma, um apêndice da sociedade.

Não se interessam pelo que penso do petróleo, das crianças doentes, da fome, das doenças, das desigualdades ou das guerras. Eu também, para todos os efeitos mensuráveis, diante de todas as marcas que estou deixando para os arqueólogos de daqui a mil anos, também não me interesso por nada disso.

Já acordou assim algum dia?

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Das muralhas


Mentimos o tempo todo. Somos nós em uma intrincada rede de mentiras.

Você vai a uma entrevista de emprego de terno, mas você prefere uma confortável bermuda. Mas precisa ir de terno. Não pode causar uma má impressão ao entrevistador, que estará de terno também. Mesmo sendo que ele acha bermuda mais confortável e adoraria se pudesse estar em algum lugar sem frescura dentro do conforto de sua bermuda preferida.

E a bermuda é só um pequeno exemplo. As redes de mentiras são maiores que a gente. São os tijolos das muralhas que nos isolam. Ficamos dentro dessas fortalezas de mentiras com medo de lidar com as verdades alheias. Mesmo sendo que as verdades alheias são as mesmas que as nossas.

domingo, 8 de julho de 2018

E daí


Só se sabe experimentando.

A mente engana. Conhecer de ouvir falar é conhecer histórias mas é diferente de conhecer as coisas historiadas.

Conhecer não tem palavras. Tem tato, calor, cor e sabor.

Toda opinião possível mora entre amar e odiar.

Eu admito a maior parte do tempo ser alheio às coisas, ou as coisas serem alheias a mim. As coisas e os assuntos. Que mania besta das pessoas essa de inventar uma opinião sobre tudo. Nisso eu opino: acho besta. Deixo o resto do mundo correr em paz e dou atenção às quatro ou cinco coisas que importam na minha vida. O resto não inoportuno e espero que não me deixe em recíproca paz.

Posso até discutir a fome das criancinhas da África, mas depois da sobremesa, por favor. E por que é errado?

É errado e frio deleitar-se num farto churrasco e guloseimosas sobremesas enquanto se pensa na fome mundial, mas não o é nos dias comuns enquanto se pensa em outra coisa? A indiferença é uma falha moral sem crise de consciência, e como paz de consciência é algo muito difícil de se conseguir por outros meios, a indiferença se infiltra em todos os poros sociais como uma anestesia se infiltra nas veias do nervo canceroso.

E é assim que vi o mundo quando saí pra andar de bicicleta à noite. E não achei errado e nem certo. Não voltei pra casa nem mais triste nem menos feliz. Voltei só mais cansado de pedalar, tomei um gole fresco d'água. Só tinha visto que o mundo é assim. Só, tinha visto que o mundo é assim.

sábado, 7 de julho de 2018

Foto #191

197

Viagem

Fugi do mundo que conhecia
Corri para meus sonhos
Ou seria o contrário
Fugi dos meus sonhos
Corri para um mundo desconhecido
Momentos diferentes
De uma mesma verdade
Verdades diferentes
De um mesmo movimento

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Foto #190

159

Exorcismo


Sai, saia daqui! Saia de dentro de mim!

Preciso tirar esse demônio de mim. Esses demônios todos. Essa confraria do mal. Esse inferno inteiro do meu íntimo preciso tirar agora imediatamente.

E esse demônio sou eu.

Preciso deixar de ser outro acada pequeno depois.

Preciso deixar de lembrar das coisas erradas.

Preciso deixar de precisar dessas necessidades que corroem.

Desejos diferentes, sonhos, sabores. Meu paladar muda a toda hora. Já experimentou isso? Já leu Shakespeare e Paulo Coelho na meia noite e ficou em dúvida sobre quem seria genial? Já ouviu a suíte para cellos de vivaldi e depois arrematou com um bom e adequado Zezé di Camargo & Luciano? Nem eu cheguei a tanto, mas hipérboles me divertem num sarcasmo de sorriso largo.

Que nojo de mim. Que podre. Quero o casamento eterno e apaixonado. Quero a putaria porca e imunda dos relacionamentos despurodados de segundos.

Quero todas as vidas. E nenhuma dessas é minha vida.

Preciso tirar esse demônio de mim.

E depois experimentar demônios diferentes. Porque é incorrigível. Porque não vou achar graça em corrigir.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Foto #189

156

Finalidades

Para que serve a poesia? Para que serve um quadro? Para que serve uma roupa mais bonita? Para que serve uma frase bem escrita? Uma piada?

A utilidade tem esse caráter transitório de conectar finalidades. E, sendo transitórias, as finalidades assim apresentadas não são finais. É assim, por definição lógica, que concluímos que o grande objetivo, aquele realmente final, aquilo que merece por completo a descrição de finalidade, não pode servir para nada. A inutilidade é a grande finalidade ou, dito de outro modo, as verdadeiras finalidades são, necessariamente, inúteis. O problema aqui é o sentido negativo que nossa sociedade altamente instrumentalizada associa à palavra inútil. A inutilidade da verdadeira finalidade não é inútil no mal sentido da palavra, no sentido de algo desprezível ou de qualidade inferior. É inútil no sentido técnico de não depender de uma utilidade posterior para justificá-la. Apóia-se não na alegação de emprego futuro mas sim em algo mais puro: a vontade presente de sua existência. Esse é o conector final. Alguém que diga "porque eu quis", "porque eu gosto".

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Choices


Ele gostava de aviões. Ele sofria na escola. Ele não entendia o mundo, mas tinha curiosidades mil a respeito. Foi fazer Ciências Sociais, e amava o curso. Morreu de medo de ser um pobre no futuro. Foi fazer Engenharia. Caiu em depressão profunda lá pelo terceiro ano. Quanto mais se aproximava de seu futuro, menos sabia o que querer dele. Gostava de mudanças. Queria fugir. Decidiu-se virar jornalista e viajar pelo Brasil. Aceitou uma vaga em uma empresa de engenharia em Vila Velha, Espírito Santo. Pelo fim da tarde dava-se aos bares de jazz e companhias falantes. Voltou a voar, no aeroclube local. Comprou uma moto e uma máquina fotográfica. Aos finais de semana, ou ia voar, ou sumia com sua moto para cidades próximas, onde buscava pessoas diferentes para fotografar, filmar, escrever. Ele pensava sobre o mundo, sobre toda a história, sobre as pessoas... E no meio tempo, vivia seu cotidiano.

Foto #188

154

terça-feira, 3 de julho de 2018

Cruz credo

Essa coisa cristã de carregar a cruz para tudo o que é lado, cultuá-la. . . É um costume doentio, asqueroso. É um instrumento de tortura, de morte. Um revólver não é tão cruel. Mata e pronto. A cruz é feita para produzir uma morte sofrida. Como pode um símbolo desses se tornar um símbolo religioso que as pessoas buscam associar às ideias de piedade, bondade, compaixão e graça divina? Eu me divido entre achar a humanidade esquizofrênica, psicopática ou, simplesmente, burra pra caramba.

Foto # 187

151

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Remoendo

Por que eu me fecho? Começo a guardar um mundo dentro de mim, pensamentos e considerações, coisas que acho não serem necessariamente corretas, aceitáveis... Jogo tanta, tanta coisa pra baixo do tapete... Sentimentos e sonhos, xingamentos e posturas... As coisas vão pra baixo do tapete. Como se eu acreditasse que somos o que parecemos ser ao mesmo tempo em que mantemos uma vida interior independente... Quando consigo sucesso em esconder meus grandes segredos, sinto como se o mundo estivesse aceitando de bom grado a oportunidade de me tornar um pouco menos eu mesmo. E dói. E é estranho. Não é certo, ao menos...

O que faz aquele para quem a vida é claustrofóbica? Eu preciso de coisas novas sempre, é um fluxo constante, que não pode cessar, assim como o alimento de proteínas e vitaminas e água... um fluxo de gente que nunca vi antes, de vozes diferentes, de histórias que os ensinamentos sobre o mundo nem imaginariam possíveis.

domingo, 1 de julho de 2018

Condomínio fechado


Mordidas nas suas costas, nos seus ombros. Puxar o seu cabelo. Tenho essas sensações fortes ainda. Mas você já foi. Agora um som estranho vem de longe. Uma festa? Ou alguém solitário colocando uma música animada no último volume? Acho que é meu vizinho. O party-guy. Será que ele sabe? Será que está celebrando minha alegria? Fico com essa sensação de que o mundo todo sabe. Fico com essa sensação de que o mundo todo celebra junto com meus pensamentos.

sábado, 30 de junho de 2018

Pai

Eu tenho tantas mágoas que eu não tinha antes. Tantas coisas que me perseguem em meus silêncios que tempos atrás eram vultos distantes e abstratos. Como foi que isso aconteceu? Certas reviravoltas dão-se lentamente, sem estardalhaços, e a gente nem percebe. E a gente nem se protege. Tenho raiva de pessoas que eu deveria amar. E deixo me corroer essa Consciência toda que morre de raiva por eu ter raiva. E como se arruma isso? Eu não sei... Ninguém sabe. Alguém sabe? Alguém me conta? Eu tenho escuros que antes eram claros. E meus silêncios não pensam as mesmas coisas à toa, inocentes. Tantos pensamentos ácidos que ulcerizam minha solidão. Estou mal. As pessoas ficam mal às vezes, é normal, não é? Estou mal...

Meu pai aparece depois de meses distantes, depois de um infinito de tempo sem saber da minha vida, depois de me deixar mergulhado na casa cheia de problemas da qual ele fugiu em busca de conforto. E parece querer saber da minha vida. Da minha vida amorosa, até...

- E o coraçãozinho, como vai?

E o seu, hein pai? Como vai O SEU? Está feliz por viver ao lado de quem não ama, longe dos filhos, e sem a mínima coragem de encarar um segundo divórcio? Está feliz por se entregar à crença de que já é velho e deixar sua vida parar? Está feliz por jogar todos seus sonhos na gaveta, trancá-la e jogar a chave fora? Velho com sessenta e um anos... Conheci tanta gente mais velha que era mais nova... Quero ficar longe do meu pai antes que eu aprenda algo desse mal exemplo. Será que nesse meu mal humor todo já não estou sucumbindo um pouco também?

Será que minha sede de caos tem a ver com tudo isso? Será que meu desespero por fugir de uma rotina previsível, meu amor a qualquer coisa que apareça de última hora e não tenha razão de ser, tenha a ver com essa aversão ao curso normal das coisas? Quem sabe eu não engano a vida, ela pensa que me leva pra lá e eu corro pra cá, às escondidas quase... Quem sabe?

É possível enganar a vida?

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Roubos

Fizemos o exame de DNA. Não, o filho não era meu. É claro que eu sabia que não era meu. Eu nunca tinha dormido com a Clara. Mas como convencer minha mulher disso? Como convencer os amigos dela? Os meus amigos? Os meus parentes? Os boatos se espalharam como fogo. Como uma gripe. Como uma peste. Agora o exame de DNA não serve para nada. Percebo que não adianta de nada. Serve apenas para a justiça. Apenas para o processo do divórcio. Por mim, ela que enfiasse a casa toda no rabo já que quer tanto assim. Não é apenas a casa que construí em toda a minha vida. Aqui, nesta cidade, eu tinha os amigos que havia construído durante a vida toda. Eu tinha meus parentes a quem busquei dar atenção e tratar bem e ajudar, durante toda a vida. Aqui eu tinha construído uma história. Uma história em torno de mim. Isso ela destruiu também. Arrancou de mim. O exame de DNA, com inutilidade patética de qualquer verdade, não conseguiu me devolver nada.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Virtual


Ele endoidou. Pirou. Não queria mais a própria vida. Foi na internet e fez outra. Hoje em dia essas coisas são quase de graça. Surpresa: o outro eu era mais querido que ele próprio, vejam só! Eis que se revelam por meio de ironias saborosas essas verdades fundamentais: nossas espontaneidades cativam muito mais que nossas vergonhas. Assustado, deletou-se de si.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Das compreensões fundamentais


O interesse que temos nos outros é um egoísmo. Sempre um egoísmo. Esse desespero para que as maneiras, gostos e julgamentos alheios se adequem aos nossos. Essa carência que vê no desvio da atenção alheia um crime, uma falta. É um grande aprendizado deixar de lado esse egoísmo. Eu, pessoalmente, tenho oscilado entre os dias em que falho miseravelmente, dias em que percebo a grande paz que essa evolução espiritual pode trazer e percebo a falta que ela faz ao mundo e, finalmente, dias em que compreendo tratar-se apenas de uma escolha minha enquanto os outros fazem suas melhores escolhas, cada um à sua maneira, cada um em sua experiência de vida.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Pseudo eu

 
Mas é que ele não se importava com a namorada! Porque ele, em um certo sentido, não tinha namorada... Era uma outra existência... Não se importava com a faculdade, com a vida, com a morte, com o dinheiro ou com a fome. Ele não tossia. Ele não ia ao banheiro. Ele não queimava no Sol nem perdia a hora. Ele existia só na hora de escrever. Materializava-se e depois se diluía no mundo, fundindo-se com imaginações alheias e sons diversos.

E ele não tinha olhar introspectivo, porque dada sua quase completa não existência, só conseguia olhar pra fora... Mas é místico que, justamente por essa imaterialidade, transpunha muitos outros seres, olhando-os de dentro. Era assim que se munia de uma espécie de introspecção do alheio. Era assim que sabia dos medos que surgiam mudando o canto do sorriso dela na hora de um tchau. Era assim que sentia a indiferença do chefe com relação à importância do trabalho. O cansaço da vida. O despropósito do dinheiro. Era assim que sentia as músicas dentro das pessoas, independentemente das caras ou declarações, mas vendo as próprias vísceras se comoverem com os sons... Não há segredos.

Não, não há segredos.

Mas, para quem não existe por completo, também não há verdades, o que o colocava em um ponto de vista curioso.

A existência é sempre assim paradoxal. E sabe-se agora ser também de uma ironia profunda: vê sem restrições as verdades justamente aquele que não termina de existir, aquele que não pertence a essa realidade.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Marcas


Eu perdi um filho. Tem seis anos já, sete talvez. Eu descobri que estava grávida. Fiquei desesperada. Mas o tempo foi passando e fui me acostumando com a ideia. Não, não tirei. Perdi naturalmente. Passei mal e fiquei uma semana no hospital. A minha mãe não foi me visitar porque todo mundo no hospital conhecia ela. Cidade pequena, sabe? Ela não foi me ver nem mesmo um dia.

domingo, 24 de junho de 2018

Corrente


Como se machuca alguém que não fez nada de errado para receber alguma espécie de retaliação?

- Superamiga, conta pra mim... quando você terminou seu namoro, como foi? Ele era um cara tão perfeito, tão apaixonado por você, tão disposto a tudo e tão certinho... E você simplesmente não o amava... De onde tirou coragem para isso? Como superou isso?

Há entretanto pessoas que conseguem essas coisas com a maior facilidade.

- Me conta, como ela pôde fazer isso? A gente estava tão bem... eu podia jurar que dessa vez tinha acertado... Éramos um casal perfeito, perfeito! E aí, ela aparece aqui em casa... e termina!

E nunca poderemos dar a devida dimensão da verdade...

- Desculpe as brincadeiras, mas é que você parece estar bem... Ele é que ficou meio arrasado.

- Hahahaha, eu tô ótima! Você cuida dele pra mim?

Sem comentários...

Eu é que não tenho dessas forças, que não conheço esses meus meandros. Eu fico preso em minhas correntes. Eu sou levado por marés. E isso não é bom. Não para mim. E para quem seria?

sábado, 23 de junho de 2018

Cesta básica

Estávamos na mesa mais próxima à calçada, logo na entrada da pizzaria. O Diego falava mal de comunistas e esquerdistas. Essa gente que vive de mortadela doada em manifestações com dinheiro de corrupção. Essa gente que quer vida fácil sem ter que fazer nada. O Rafa concordava com tudo. E adicionava eloquentemente a necessidade de se meter bala na fuça dos vagabundos logo. Bolsonaro neles!

Foi então que ele se aproximou. Sujo, caminhando com pés arrastados. Parou à extremidade da mesa dando-se uns segundos a nos olhar antes de dizer qualquer coisa. Aquela atitude de cachorro acuado certo de que vai ser chutado e apedrejado a todo instante. Tinha em mãos uns papéis que pareciam mastigados e cuspidos de tão torturados que estavam pelas circunstâncias.

"Boa noite. Desculpe atrapalhar a janta de vocês. Eu sou trabalhador. Trabalhei a vida toda. Mas estou sem trabalho agora. Procuro, procuro todo dia. E não estou achando. Será que não poderiam me ajudar a completar uma cesta básica?"

O Rafa tomou a palavra.

"O senhor trabalha com o que?"

"De tudo um pouco. Ajudo em obra. Carrego as coisa. Corto madeira. Subo nos andaime. Tudo. Sou ajudante pro que precisá. Mas não tá tendo trabalho não. As criança tão com fome."

"Quantos filhos o senhor tem?"

"Tenho cinco. Tem as pequetitica, tadinha. A mãe tá lá cuidando. Se não fossem tão pequenas, ela vinha mais eu buscar alguma ajuda também. Desculpe atrapalhar a janta de vocês."

O Rafa prosseguiu.

"Olha, não tenho dinheiro aqui não. A gente só tem cartão. Dinheiro pra dar, não tenho. Então, posso ir no mercado e commprar alguma comida pra você. Pode ser?"

Os olhos daquela magreza caminhante se dilataram todos, indisfarçados: "Pode, nossa! Pode!"

Eu não acreditava no que estava vendo. O que deu no Rafa? Fiquei tocado. Orgulhoso. Senti-me culpado pelos inúmeros julgamentos negativos que eu fazia com base no discurso político deles.

Não havia mercado ali próximo. Dissemos para o Diego aguardar. Fomos ao carro. Acho que o tal pedinte nunca havia entrado num carro.

"Nossa, carro! Vocês tem carro! Puxa, gente? Eu não imaginava. A gente vai de carro mesmo? Eu vou também! Nossa, como é cheiroso, né? Tem cheiro de coisa nova, de coisa limpa! É muito chique!"

Era um Fiat Uno alugado. Mas nos sentíamos proprietários de uma limosine dourada graças à admiração daquele pobre homem.

Compramos a cesta básica. Demos a ele. Nos despedimos em frente ao mercado.

Quando entramos no carro para voltarmos ao restaurante, o Rafa disparou:

"Filho da puta, né?! Achei que iria negar a comida! Da última vez que me vieram com esse papinho de filhos com fome, ofereci comida e o cara não quis. Agora esse aí aceitou, a casa caiu, né? Tive que vir comprar, carái!"