quinta-feira, 30 de março de 2017

Só de passagem


Os portos do mundo acabaram associados a um nível de decência consideravelmente inferiorizado. De fato. Lá há carga, circulação de dinheiro, e homens em um ambiente com baixíssima densidade demográfica e pronunciadas relações de hierarquia: prolifera-se tudo o que há de errado. Contrabandos, tráfico de influência, propinas. É também um antro de prostituição. Mas isso não acontece apenas nos portos. O que a humanidade associou ao mar, o homem aprendeu a mandar também pelo ar. Ao redor dos aeroportos existem, aqui e ali, alguns conhecidos puteiros.

Não vou dizer prostíbulo ou casa de prostituição ou qualquer outro termo. Vamos à linguagem que as pessoas usam corriqueiramente: puteiro. Porque o assunto é, na verdade, exatamente esse: hipocrisia. Fico pensando... quem frequenta esses lugar? Quem alimenta esse mercado? Entendo, de um pouco de vista ético ou moral, ou mesmo emocional, muito mais a puta que ali trabalha do que seus clientes. Mas nossa sociedade não hesita em condenar a puta e absolver o "homem de família" que "deu uma escapada".

Aliás... tenho um amigo que não considera ser possível trair sua esposa com uma puta. "Porque comer uma puta é um negócio. Não precisa ter sentimentos. É um serviço. Traição é só quando tem sentimentos!" Ele se absolve com esse argumento e mantém sua paz de espírito. Mas eu sempre pergunto para ele se a esposa dele concordaria com tal definição e se eu posso perguntar a ela o que ela acha desta ideia, e então rapidamente a conversa se encaminha para prenúncios de inimizade.

Nem quero mais desenvolver o assunto. Transformar isso aqui numa crônica com ironias. Não vem ao caso. É isso mesmo. Não importa se na relativa pobreza suja dos portos ou se dentre os engravatados executivos que transitam pelos céus... uma sociedade hipócrita e machista sempre acha um jeito de acomodar-se pacificamente às suas desvirtudes.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Protesto

É uma pequena diversão minha: deixar sempre, em minha biblioteca, A Riqueza das Nações ao lado de O Capital. E fica a mensagem subliminar ao mundo: se entendam!

Segurança


Fui conhecer o vagão restaurante. Era dia de festa no pátio do museu, mas o restaurante não funcionava. O que me atraiu foram as luzes coloridas internas e a aparência de que o vagão estava bem conservado. Havia um segurança cuidando do cordão de isolamento. Ele me autorizou a chegar mais próximo ao vagão. Subi as escadas e fotografei o interior através da janela. Aí então veio o comentário inusitado:
- Aí é bom pra levar a amante!
- A amante? Pode ser a namorada também, não é?
- Pode... mas a amante é melhor!
- Por que?
- Porque olha em volta... é um lugar bem escondido, esse aqui! Melhor do que ficar dando bandeira em algum restaurante lá fora.

terça-feira, 28 de março de 2017

O músculo da escrita

E uma ideia tão simples de repente traz um insight tão necessário. É um músculo: o músculo da escrita.
E aí toda sorte de considerações começa a pipocar nos meus pensamentos:
Quais os pesos que eu tenho levantado?
Que tipos de exercícios dá pra fazer? Coxas? Bíceps? Flexão?
Supino às quartas-feiras?
Baterias com três séries de doze repetições?
Por isso é tão importante ir à academia ou arranjar um personal trainer ou ficar mais atento às colunas de saúde nas revistas de avião e dos cabelereiros. É preciso conhecer os diferentes exercícios.
E qual alimentação combina com o que? Gordura trans faz mal à poesia? Carboidratos são necessários às prosas?
Carne vermelha pode provocar excesso de adjetivos? Ser vegetariano não deixa as digressões muito caretas?
E os doces, hein? Energia necessária, mas podem deixar tudo mais lento também, não é? Há que se equilibrar os prazeres e as dores, as energias e o emprego das mesmas.
O que alimenta o músculo da escrita, afinal? Não é à toa que falamos em experiências amargas e doces momentos. Experiências pesadas, assim como uma exagerada macarronada, são alimentos fartos que têm seu papel mas não devem vir em exagero.
A ideia do músculo faz pensar na academia, que faz pensar na alimentação.
Um mundo novo pela frente. Novos pesos, novos exercícios e uma nova dieta. Segunda que vem eu começo, prometo.

O círculo do artista


O artista de rua tem à mão um giz. Risca um círculo. Este é seu espaço. Lá ninguém deve entrar. As cenas no filme "A Travessia", com a história de Phillippe Petit, são reveladoras. Mas há um outro espaço que não é físico e que também deve ser respeitado. O espaço mental. Um está associado ao outro. Para onde vai quando quer garantir uma mente tranquila? Para onde vai para ficar longe das coisas que o distraem?

segunda-feira, 27 de março de 2017

Encontros fortuitos


Se eu tiver a oportunidade, entrevistarei Noenio Spinola (nem sei se está vivo, por onde anda, o que faz) a respeito de sua história "Mariana Adeus". Nela um jovem paulistano cruza com uma jovem em uma estação de metrô. E ele está destinado a nunca mais vê-la. Apenas um nome. Mariana. Quantas Marianas existem por aí? A história foi terminada em 1998. Dava para imaginar os aplicativos que iriam invadir nossos celulares? Acho que, para um brasileiro, lá em 1998 ainda era difícil até imaginar que os celulares viriam a ser o que são. Era dos motorolas gigantes nas cintas de gente rica, lembra?

Sinto qualquer paralelo entre o que aconteceu com essa história e o texto do Max Weber "A Ciência como vocação". O desencantamento do mundo. Antes, o mistério. Quem será que são essas pessoas? Hoje, a informação. Com pouca coisa à mão vamos ao Google, Facebook, Whatsapp, Instagram, Twitter e temos um dossiê completo daquela pessoa. Completo?

O dia D


Foi o dia em que eu descobri que não era mais amado. O que fazer com o meu tempo? Com minha atenção? Com meus filhos? Com as ferramentas? Com o futuro? Tudo havia se transformado em inutilidade e desperdício porque ela era, até então, o propósito final. Neste sentido, em linguagem precisa, era a Deusa da minha vida. Meu norte. E então eu descobri que ela não me queria mais. Eu não era mais o centro da atenção dela. Dos carinhos. Mudança de proa. Mudança de vida. Mudança de rumo. Pra onde? Pra onde?

domingo, 26 de março de 2017

Manda nudes!


Já escrevi em algum lugar que a tecnologia só serve para potencializar nossa natureza. Nada mais. E há pessoas assustadas com essa onda de "manda nudes" que invadiu alguns setores mais saidinhos da internet. O verdadeiro incômodo não é o comportamento. Atitudes diferentes das nossas sempre existiram e sempre vão existir. O que a internet tem perturbado, vez ou outra, são as fronteiras. Gente que nunca sequer conversaria sobre algo equivalente a mandar uma foto com a alcinha do vestido mais solta de repente começa a ver mensagens de "manda nudes" circulando por aí e, eventualmente, dirigida para elas! Não se deixem enganar pelo exemplo: o que digo vale para homens e para mulheres. Essa efervecência de fronteiras sociais é a coisa mais interessante da transição de eras.

Raízes


- É como as raízes das árvores, sabe? Se a árvore cresce em uma encosta, torta, então ela precisa se retorcer toda pra acabar virando uma árvore reta. Depois, não é mais possível tirar essa árvore e colocar em um chão plano, achando que ela vai virar uma árvore reta como as outras. Eu tenho as minhas histórias. Eu tenho as minhas feridas. Faço o melhor para me tornar uma árvore reta. Mas tenho minha história. Posso fazer o melhor daqui pra frente. Mas vai sempre existir uma parte torta no tronco.

sábado, 25 de março de 2017

Meu ceticismo


Eu costumo ouvir com alguma frequência a acusação: "Você é cético". Sempre assim com tom de voz de dedo-apontado-na-cara. É um defeito. Um motivo para sentirem pena de mim. Resumindo, constatam o fato e sentem lá no fundo: "pobre homem de pouca fé!".

Mas há algo de bem injusto nessa acusação. Muitas vezes vem de pessoas que dizem ter algum tipo de mediunidade e de sensibilidade aguçada para coisas espirituais. Eu, curioso, converso com elas para entender melhor essa experiência.

-Você sente os espíritos? Tem uma espécie de sensação ou intuição? Ou é algo mais direto?
-É mais direto mesmo. Às vezes eu me assusto porque escuto vozes. E às vezes, ainda que seja mais raro, eu vejo algo.

Neste caso essas pessoas, devo dizer, são tão céticas quanto eu. Mas elas vêem os espíritos! Eu não vejo nada! Então não é culpa minha custar a acreditar. Se os espíritos existem mesmo então só posso pensar que estão de sacanagem comigo por ficarem fingindo que não existem.

Divã

- E o que você descobriu, pensando em tudo isso?
- Descobri que sou carente. Essa carência profunda. Abraço. Afeto. Carinho. Isso tudo tem uma energia profunda. É um combustível. Combustíveis podem explodir, incendiar, ou propelir à distância. Tento encontrar essa conversão motora. Não é simples. Só não consigo mesmo é me livrar do combustível em si. Transforma-se às vezes em ansiedade. Em um vácuo. Em um turbilhão neurótico. A distância é uam coisa estranha de se lidar. Transforma o tempo em incógnitas e hipóteses. Escrevo mais? Escrevo menos? Sou simplesmente natural e corro o risco de enjoar por escrever demais? Tenho o cuidado de escrever menos e corro o risco de ser uma pessoa fria e sistemática com algo que deveria ser tão natural e espontâneo? O que acha, doutora?
- Interessante. A consulta continua semana que vem, já deu o horário.

sábado, 4 de março de 2017

Ironias espontâneas

Tempos atrás dei vazão aos meus sonhos de uma vida saudável e disposta: fiz a inscrição na academia. Deveria ter desconfiado que a escolha de uma academia pelo critério único exclusivo de proximidade com a minha residência denotava um predomínio da preguiça como lógica maior. Hoje, anos depois daquelas tímidas sessões de supino, encontrei o cartão da academia. Praticamente todo em branco. E servindo de marca páginas para um livro que fica sempre pertinho da cabeceira da cama de modo a exigir mínimos movimentos do braço esquerdo para alcançá-lo. Título do livro: O Vagabundo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A travessia

Um fio de um prédio a outro. E o equilibrista andando lá em cima. E as pessoas se perguntando: pra que tudo isso?
As pessoas não se dão conta da cadeia de valores da vida. Entendem que utilidade é servir a algo mas não extrapolam o raciocínio. Se trabalhar serve para ganhar dinheiro, e ganhar dinheiro serve para poder comprar roupas, e comprar roupas serve para estar bem apresentável, e estar bem apresentável serve para manter um bom lugar à sociedade, e... ... se a utilidade de cada coisa é determinada por uma coisa seguinte então verdadeiramente útil será aquela coisa com caráter de ponto final. Aquela coisa que não serve para nada. O motivo final de algo realmente importante deve ser "porque eu gosto" ou "porque eu quis". Nada pode ser mais fundamental do que isso. Só assim se chega ao outro lado.

Não existe coisa mais difícil do que o amor

Você pode ser a pessoa mais easy going do mundo. Mais tranquila. Mas caso tenha se permitido amar, então de um modo ou de outro, vai doer. Em algum momento vai doer. Ciúme. Ansiedade. Insegurança. Expectativa. Alguma coisa vai doer. Isso se não vier uma grande decepção. Ou então, tragédia irônica, a dor de deixar de amar. Porque... acontece. Ninguém sabe exatamente a razão. Assim como, ainda bem, ninguém consegue explicar exatamente a natureza do amor. Mas esta situação limite acaba sendo a grande força deste sentimento. Com frequência o conforto será destruído em seus alicerces. Neste terremoto da alma, profundas estruturas serão reveladas. Belezas escondidas transparecerão. Outras serão soterradas. Geologia natural. O importante, fundamento mesmo da vida, é não continuar a ser o que se era antes.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Vício em postergar

Pensei em escrever este texto sobre minha tendência à postergação tem já uns três anos.
Finalmente comecei. Logo mais eu continuo.

Hora de viajar

"Meu pai tem razão. Não dá mais pra ficar neste país de merda. Aqui está tudo errado. Esses petistas mamando nas tetas do governo. Bolsa pra tudo. E o emprego indo embora. Esse país deveria valorizar gente que trabalha. Gente que dá duro. Por isso eu vou fazer o que vagabundo não quer. Eu vou trabalhar. Vou para fora do país, estudar e trabalhar fora. É um programa de intercâmbio. Um tempo estudando e um tempo trabalhando. Aprimorar o idioma. Porque não dá pra crescer na vida só falando essa língua de pobre. Tem que ter o inglês. Depois quero falar francês também. Francês é chique, sabe? Pensa naquelas cantoras francesas, coisa mais fina. Queria ser igual elas... Sabe, estava vendo na internet onde vou morar. É um bairro bom. Posso andar em segurança. Talvez eu arrume um cachorro. Passear com ele pelas tardes. Dá pra andar de bicicleta também."
Meritocracia. O mérito de ter um pai que paga seus estudos no exterior.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Por que eu gosto de tirar fotos

-Por que você gosta de tirar fotos?
-Acho que há várias razões. A criatividade. Cada foto é uma produção nova. Esse desafio. Essa coisa da descoberta. A questão do momento decisivo... As fotos têm sempre um momento único. Ou uma foto é feita em um dado momento ou então a realidade já mudou, já era.
-Isso não vale para tudo.
-Não, não vale, mas é meu tipo de foto preferido.
-De pessoas ou coisas?
-Gosto mais de fotos de pessoas. De animais, seres vivos. Coisas que capturem um sentimento. Um momento especial.
-Então é a captura do momento o que interessa?
-Não. Não é verdade. Pois os momentos estão sempre se sucedendo e não há desespero por registrar todos eles. Mas há algo que aprendi com a fotografia e que, quando extrapolamos para a vida como um todo, deixa tudo mais interessante, inclusive os momentos.
-O que é?
-O poder de observar algo em busca de sua porção bela. Mais do que sua porção bela... do modo certo de olhar para algo de forma a lhe encontrar a beleza escondida. É por isso que eu gosto de fotografia. Porque é um treino para o que quero fazer com toda a minha vida: encontrar e destacar as partes belas.

Contagem regressiva

Penso naquela clássica cena com as cores um tanto quanto desbotadas, filmagem antiga ainda para a TV a antena (antena?!). O foguete na plataforma de lançamento. E os números começam a recuar. Dez... nove... oito. Quando finalmente chega o zero, algo espetacular acontece. Uma nave decola rumo ao espaço. Ao infinito. A um outro planeta. Novas descobertas. Novos desafios. Uma grande aventura. Uma mudança radical.
Contagem regressiva.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Fotos de despedida

Foi bom ficar atrás das lentes. A concentração no trabalho de fotografar me distraiu das verdades que aconteciam ali. Treze anos frequentando o mesmo lugar. Trabalhando ao lado daquelas pessoas. Muitas vezes viajamos juntos. Agora era a despedida. Um bolo. Salgadinhos. Refrigerante e chocolates. Mas não pensei em nada disso. Pensava apenas em enquadrar as pessoas sem cortar partes de rosto, cabeça ou braços. Porque foi assim o tempo todo: concentrado em cada trabalho que tive que fazer ali, nem vi o tempo passar.

O tempo e o ritmo

Há toda essa onda de relaxar. Levar a vida num ritmo adequado. Fazer as coisas sem desespero. É uma ideia muito cativante. Mas há um problema com ela. O tempo não é infinito. Posso estudar lentamente, sem pressa, fazendo dezenas de exercícios sequenciais. Mas um dia vou morrer. Então, até onde terei ido? Posso ficar em casa lendo livros. Mas poderia estar lá fora conversando com as pessoas. Posso estar lá fora conversando com as pessoas. Mas nem todos os livros serão lidos. Angústia. Dimensão inabraçável da vida.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Literaturização dos livros chatos

Era um livro de meteorologia. Um livro que só serve para aulas chatas. Mas de repente ele foi lido em tom teatral. Dramático. Uma brincadeira, um novo hobby. Trocarem leitura de textos. E também um resumo de um grande objetivo de vida: encontrar a graça mesmo nas coisas mais chatas.

Hora de se assumir


- Você precisa assumir o que você sente.
Daí eu assumo o que eu sinto e a pessoa se revolta.
Mas passa.
De qualquer modo, não é o processo de um dia, ou de um momento.
Porque eu sinto muitas coisas.
E não assumimos uma porção de coisas de uma hora pra outra. Ou com um bilhete. Ou um post na internet.
E, além do mais, assumir o que eu sinto envolve medos. E se ela fugir? E se as pessoas rirem? E se não der certo?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Sintomático

Estou em uma livraria. Mais precisamente no café de uma livraria de uma das grandes cidades do interior de São Paulo.

Em uma mesa próxima um senhor observa os livros das estantes próximas e comenta com a mulher à sua frente:

-Olha só! Olha só esse título, hahaha… ‘O Espírito das Leis’! Vê, se pode, que coisa mais sem sentido! Cada uma…

E eu aqui pensando: que coisa mais sem sentido…  Cada uma…

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Suzi

As leituras de livros profundos desperta em mim um sentimento de amplidão contrariado pelas limitações cúbicas deste quarto. Penso na barba mal feita do meu pai quando o vi. Penso no filósofo palestrante sugerindo que eu solte minha raiva dos meus velhos traumas. A atenção dos meus pais? Os namoros que deram errado? A cachorrinha que morreu? Suzi, pobre Suzi. Viveu tantos anos. Eu tinha esse sentimento profundo de amizade por ela. Dos membros da família era o que mais me compreendia. Eu jogado no chão da sala com um livro no colo e ela se aproximava. Apoiava a cabeça na minha perna e ali ficava. Com o tempo, comovido com tanta atenção, desatei a falar. Contava para a Suzi o que tinha acontecido comigo. Falava para ela do meu dia. Meus problemas na escola. Minhas dúvidas sobre o futuro. Os livros interessantes que eu havia lido. A Suzi ali, me olhando com um profundo desespero de quem gostaria muito de entender todas aquelas palavras. Nessa devota vontade de compreensão era como se, efetivamente, ela as entendesse.

A barba mal feita do meu pai. Por que pensei nisso? Medo, tenho medo de me tornar como ele. Esse abandono de si. Esse sentimento de que no fim das contas as coisas não se ajeitaram como deveriam. Eu tinha a Suzi para me ouvir. Quem meu pai tem? Fui socorrê-lo achando que estava tendo acessos suicidas e fiquei com raiva por julgá-lo um velho fracassado que havia desistido de tudo. Depois vi que não era nada disso e fiquei tomado de raiva por achá-lo um velho fresco que reclama demais quando está tudo bem na verdade. Eu vou socorrê-lo. Dirijo as centenas de quilômetros, à noite, sem saber se o encontrarei vivo ou desistido de si, só para dormir ao lado dele e dizer que vai ficar tudo bem. Quem vem aqui dormir do meu lado para me dizer que vai ficar tudo bem? Suzi, onde está a Suzi?

O mundo desistiu de me tranquilizar. Lia sobre a conquista espacial e as descobertas científicas, o controle do átomo, a manipulação do DNA, e achava que iria ficar tudo bem. Ainda que minha vida tivesse lá seus tropeços, no fundo no fundo ficaria tudo bem. Talvez não comigo mas ao menos com a humanidade como um todo. E assim qualquer excesso de dor que eu tivesse com relação à minha própria vida seria um egoísmo a ser vencido. Mas agora o Trump ganhou. O Brasil foi tomado por ladrões. A Síria foi devastada. Tudo bem que nunca paramos de destruir países e fabricar famintos e mortos de todas as idades. Mas quando perdem o pudor de fazer isso com uma nação que estava inteirinha então uma nova barreira foi rompida. Não são os mesmos mortos de sempre. E a comoção não atinge os níveis devidos.

A leitura de livros profundos me desconecta desse instante. Já foi uma desconexão boa. Sentir pertencer aos milênios. A uma espécie que evoluiu para criar a escrita, a poesia e dominar o aço e o elétron. Mas agora esses livros todos, e a internet, e tudo o mais, me mostra que estamos jogando tudo no lixo. É noite e temo pelo pior. Mas não sei para onde dirigir. Não sei a quem ajudar. Suzi, cadê você?

sábado, 17 de dezembro de 2016

José Alfredo

Nasceu em uma cidade de Goiás cujo nome não interessa a ninguém. De pequeno fez como o pai: carregou coisas. Coisas para dentro da Kombi, coisas para fora a Kombi. Achava a televisão uma coisa maravilhosa mas dormia rapidamente depois da janta. Exaustão. Mudou-se de cidade quando os negócios escassearam por ali. Já havia viajado com seu pai em mudanças para locais mais longe e sabia que existiam outras possibilidades. Aprendeu a sobrepor tijolos, cimentos, tijolos, cimentos. Emparedou a vida alheia tentando dar asas à sua. Casou-se com a bênção da igreja e a desconfiança de parentes que não achavam direito Deus autorizar essa mistura com as gentes pretas. Colocou os filhos na escola sob protestos dos mesmos. “A vovó falou que você ia trabalhar com o vovô… quero ir trabalhar com você, não quero ir à escola!”. Viu muitos amigos fraquejarem diante da vida. Bebidas. Crimes mais leves, mais pesados. Injustiças. Mas manteve seu rumo. Navegou pela vida em direção a tardes de cadeira de balanço e sopas de mandioquinha trazidas pelo filho. Aos fins de tarde costumava sentar-se à calçada para apreciar o por do sol e comentar com um ou outro que por ali passavam: “Ói lá Deus levando o Sol embora. Amanhã ele traz de novo. Eita serviço que não acaba nunca.”

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

E seu pai?

Meu pai andou carpindo uma horta lá... fez bolhas nas mãos mas sumiu algumas bolhas da alma.

Fofocas de WhatsApp

Um ator nu com sua esposa. Um aluno da escola passando por uma situação constrangedora por ter tido uma diarreia em momento altamente inconveniente. E, em instantes, essas coisas ganham o bairro. A cidade. O estado. O país. Outros lugares do mundo inclusive. O milagre da internet.
A tecnologia serve para potencializar o que é humano. E não somos criaturas compartimentadas. Em nossa alma o bem habita não apenas lado a lado com o mal. Estão misturados. São duas fragrâncias oriundas do mesmo líquido. Nossa inocência está misturada com nossa malícia. Nossa vontade de honrar misturada à nossa tentação de sacanear.
Graças à internet nossos lapsos explodem por toda parte em segundos. A humanidade que havia se tornado um gigante lar de anônimos voltou a ser o vilarejo das fofocas.

Era uma casa muito engraçada

- A casa ainda está alugada?
- Ainda.
- E por que? Você está indo lá?
- Não... O plano deu errado.
- Que pena. Achei que você estivesse mais lá do que aqui.
- Não. Banquei o aluguel de uma casa vazia. Fico pensando no que isso pode significar.
- Significa que está jogando dinheiro fora.
- Não só isso. Mas tenho pago por espaços vazios. Preciso começar a valorizar os espaços cheios.

Funcionou

Pelo visto a questão com o OLW, Open Live Writer, é que de tempos em tempos é necessário deletar a conta e criá-la de novo, ao menos no caso dos serviços do blogger, para que os servidores do Google liberem uma nova senha de acesso. Afinal eu não tenho mais que digitar minha própria senha no cadastro do blog. O OLW acessa os servidores do google e solicita um acesso. Bom… exceso de tecnicidades à parte, fico contente que tenha funcionado.

domingo, 7 de agosto de 2016

Milton Cruz, O Homem de Lata

MiltonCriuz

Esta tarde fui à Avenida Paulista encontrar alguns amigos. Aos domingos, esta importante avenida se transforma no palco de diversas bandas e é também local de trabalho para diversos vendedores. Dentre eles, Milton Cruz. Eu não pude resistir e parei para ver sua réplica do 14-bis - o avião com que Alberto Santos Dumont voou em Paris em 1906. Cruz estava sorridente e cheio de piadinhas. "Custa R$50 com o tanque vazio. Com tanque cheio aí já é R$80!"

Ele constrói modelos de carros e motocicletas também. "Se não encontrar aqui, traga uma foto que eu posso construir o modelo pra você. Ele me contou algumas piadas também. "O japonês quando chegou no Brasil viu uma fila, e perguntou o que era... Falaram que era fila para Catarata. Daí o japonês falou 'eita, num pego fila não! Vô catá lata na rua mesmo". A piada, observo com sinceridade, não era nem de longe tão boa quanto a gargalhada que vinha logo em seguida, cheia de vida e simpatia.

Todos os modelos são construídos com latas de óleo que iriam parar no lixo.

Algumas pessoas o questionam... "Por que você não faz carros modernos?" E ele responde: "Porque os modernos a gente vê na rua! Acho mais produtivo eu trazer um pouco do passado de volta à vida, não acha?"

TratorMiltonCruz

FordMiltonCruz