domingo, 28 de junho de 2009

E finalmente

Ele queria.

Ele não podia.

Ninguém saberia.

Ele não suportaria.

Ele queria.

Ele não podia.

Ela queria.

Ela não sabia.

Ele não suportaria.

Ela não entendia.

Quantos talvez nuns poucos acasos. Tantos afagos nuns muitos desafetos. Quantos afetados nestes desconexos. Quantas conexões nesses tantos corações.

A loja ia abrir. Os ônibus iriam andar. O dia seria como todos os outros.

Ele tinha desejos sujos. Ele tinha vontades lambusadas. Ela estava ali. Fácil. Ele via tudo. Cheirava o cheiro quente e salgado de cada possibilidade próxima.

Ele queria.

Ele não podia.

Ninguém saberia.

Ele hesitava.

Ele não sabia.

Ela queria.

Ela não sabia.

Ela não entendia.

Que maravilha, que maravilha de desencontro... os dois últimos botes do mundo que sobreviveram ao holocausto, passando um ao lado do outro, no meio do oceano. No meio do nevoeiro. Não se viram. Nunca mais se cruzaram. Que maravilha de desencontro! Tão ousado! Tão desalentador. Tão encantador em seus detalhes incontornáveis. Tão concreto em sua materialidade aguada. Motim de acasos.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Multidão

Ah, vida, sua palhaça! Você abusa de mim, não tem vergonha? Você é irônica, mais irônica que eu. Mais sem pudores, mais sem princípios, mais sem remédio!

Ele saiu andando. No meio da noite. Pelas ruas do bairro. Pelas avenidas. Pelas estradas. No meio da noite. Pelo meio do nada. Até a montanha mais alta. No meio da noite. Sentou-se à beira do precipício, pernas balançando ao vento. No meio da noite. Sozinho. Olhava o mundo. Olhava a vida.

Tenho raiva de você, e morro de amores também. Não sei onde você se instala, onde pulsa seu coração, se no acaso das coisas indiferentes ou se no onipresente arquitetar divino. Pouco importa. Seja lá o que for, o efeito é esse: irônica até não poder mais. Vida, querida vida...

Abriu uma garrafa de conhaque. Tomava num pequeno copo de vidro, sem tirar os olhos das luzes ao longe. No meio da noite.

Eu cuspo em você com minhas irresponsabilidades e meus impulsos, e você, feliz dos meus pulos de vida, faz o mesmo em retorno! Que graça, que alegria. Amo ser zombado por você. Invisível. Me abraçando assim sem me tocar, de todos os cantos. Namoro minha vida num namoro angelical. Não sei onde fica seu centro pulsante, mas me sinto abraçado por todos os lados o tempo todo. De forma sedenta. De forma selvagem. Minha vida zomba de mim. Minha vida não me larga. Amo minha vida.

Tomou mais um gole. Jogou o copo ao longo só para ouvir o barulho dos estilhaços lá embaixo.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Secreto

A minha solidão. Eu gosto de preservá-la. Estou num momento da minha vida em que nada me faz mais falta do que uma devida inserção em diversos grupos sociais. Me sinto fora da faculdade. Sou um marginal nas atividades do meu trabalho. E ainda assim, profundamente carente de gente, temo pela paz da minha solidão. Estar sozinho, realmente sozinho. Ocupar minha mente com o que ela quiser ali na hora. Pensar em criar coisas, sem ter o menor compromisso com questões financeiras ou questões práticas de qualquer espécie. Há várias sensações possíveis de se experimentar na vida. Várias. Que podemos subdividir em categorias. E uma das categorias é essa: sensações de dentro. De nossa imaginação. De nossas conversas conosco. Uma boa paisagem sempre ajuda. Uma boa música sempre ajuda. Mas nada que perturbe essa liberdade irrestrita. Incontida. Irresponsável até. Inconseqüente. E, por isso tudo, deliciosa.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Não

Você é bonita. É inteligente. É simpática. Tem um sorriso lindo. Mas eu não sou o mesmo de tempos atrás. E sua vida é tão nos trilhos! Eu não queria magoar você...

E não pense que é fácil te dispensar assim... Não me sinto bem. Me sinto de certa forma sujo, tenho raiva de mim e raiva da história toda. Raiva de como o mundo funciona. Por que você não se interessou assim por mim da primeira vez? Por que tinha que ter escondido tanta coisa de mim a ponto de me deixar mergulhado numa raiva profunda incapaz de te dar atenção ainda que você eventualmente pulasse no telhado da minha casa vestida de caranguejo?

Desencontros. É assim que é, não é... uma coisa cheia de desencontros, a vida. Cadê a arte? As carícias de nossas mãos vão se diluir em nossas lembranças, mas pertencem ao passado.

Talvez assim nos tenhamos um pouco mais. Em sonhos puros de futuros felizes ao invés de tentativas solavancadas que magoam os dias.

Você é linda. Eu sou outro. Te estimo a ponto de me importar realmente com sua felicidade. E sei que atualmente não sou a pessoa para alimentá-la.

sábado, 20 de junho de 2009

O preferido

Essa coisa da vida vir cheia de idéias me cansa. A vida me diz o que fazer, o tempo todo, e não me pergunta nada. E é rabugenta pra caralho também, cheia de dedos com qualquer sugestão de mudança e resmungona sempre que invento qualquer idéia que seja.

Eu não existo. Eu viabilizo a existência extensa dos outros, de alguma forma. Sou desejos alheios, atividades alheias, sonos alheios. Sou civilizado no mundo de civilizadores alheios. Eu não inventei as palavras que uso. Eu não cuido da minha vida. Os amores que quis me fugiram entre os dedos. As ciências que encantaram minha curiosidade não sabem que eu existo. As que conhecem o meu trabalho não acessam o meu encanto. O mundo me é alheio.

Esse texto parece todo desgostoso com a vida, e pode ser só uma documentação dela. Essa é só mais uma das razões pelas quais gosto tanto do Elogio de Erasmo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Minas

A viagem foi o máximo. Todos gostaram, todos felizes. Bom assim. Mas chegou a hora de ir embora, e em um só carro não caberiam tantas pessoas. Quem manda metade do pessoal ir de ônibus? E eu me ferrei. Gosto de parecer o gara gente boa no meio da turma, mas vez ou outras aparece uma situação dessas e, pra não cair em contradição, me ferro. Lá fui eu prontificando-me a voltar pra casa de ônibus.

Ponto de ônibus. Beira de estrada. Dois bêbados se aproximam. Um bem bêbado e com cara de ser a pessoa mais ingênua e bem intencionada do mundo. O outro, não tão bêbado e com cara de ser um mal elemento às vésperas de queimar uma igreja com o padre dentro. Conversavam assuntos deles. Os carros passavam. Os mosquitos me mordiam. Eu olhava o horizonte. Uns urubus ignoravam tudo, em cima de um poste ao lado.

Resolvi fugir dos bêbados e subi no primeiro ônibus que passou, sem nem ver qual era. Fui até o fundo mas só tinha gente feia pra trás, voltei pro primeiro banco e sentei ao lado da morena bonita. Normalmente evito o primeiro banco, mesmo que tenha morenas bonitas, pois considero um lugar perigoso na eventualidade de um acidente.

Fisioterapeuta. Conversei com ela por um longo tempo. A viagem toda. Até Belo Horizonte. Eu nunca tinha ido pra Belo Horizonte.

domingo, 14 de junho de 2009

Subscrito

Eu te disse uma vez que não acredito em palavras, e acho que você se surpreendeu. Logo eu, tão dado a escrever em qualquer guardanapo jogado, não é? Logo eu, que preciso de mais de um nome pra guardar todas as minhas idéias, não é? Mas não, não acredito em palavras. Em declarações, em flores, em juras... Não acredito em nada disso. Essas coisas mentem. Essas coisas são mercenárias, se dão aos usos de quem as pagar e pronto, sem pudor.

Mas naquela tarde a gente se olhou nos olhos... Do jeito que se olhou. Você lembra, eu sei que lembra. Que mais caberia dizer? Que mentira invalidaria aquilo? Você viu em mim, não viu? Eu vi em você também, não vi? Estava lá, não estava?

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Aconteceu

Vai. Então vai, e vive sua vida. Era isso, não era? Eu precisava ter meu coração de pedra quebrado de novo. Não é justo escrever de amor e descrever cenas de amor sem amar, não é? Então vai agora, vai que aqui sua missão está cumprida. Sinto a saudade de que passei um tempo enorme fugindo. E sinto aquele peso no peito que só sente quem ama. Sinto saudade. De todos os tipos de saudade. De querer te abraçar apertado. De querer não te amar mais pra aliviar meu peito. De querer você pra sempre porque não tem outro jeito.

Quem imaginou que isso pudesse acontecer assim tão rápido? Era tão impossível, não é mesmo? Era sem sentido, até. Olha só o que você fez. Não sabe como estou hoje. Queria sair correndo pela cidade e te achar. No seu trabalho. Na sua casa. No meio do trânsito, que seja. Te pegar no colo e sair correndo, e correr e correr e correr, fugir pra algum gramado gigante, com árvores, sombra e uma paisagem. E um canto invisível, esquecido. E ficar lá. Te dar meu ombro como travesseiro e meus carinhos como cobertor. Perguntar histórias suas. Dormir com meu rosto grudado no seu.

Por que é que eu quero tanto isso? Eu não sei mais de resposta. Não sei nem das que eu deveria saber, nem das que eu gostaria de saber. Só sei que você já me faz falta. Me faz uma falta danada. Vá... Já se apoderou do meu coração, coisa que deveria ser algo impossível e não lhe foi. Agora vá, tome sua vida para si e vá vivê-la, antes que eu não consiga soltá-la nunca mais.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Silêncio

Pare, pare, por favor pare! Pare de perguntar quem sou! De que interessa? O que muda? Aliás, é exatamente isso: pare de perguntar pois isso mudaria tudo! Eu vivo nesse pseudônimo a liberdade de não me ser. De ser tudo o mais que não sou. E também a de ser o que sou escondido. E também a de ser o que sou imaginado. Aqui eu minto. Aqui eu contrario meus princípios. Aqui não tenho que ser coerente. Hoje tenho um filho. Amanhã, nenhum. Depois cinco. E aí só duas meninas. E quem sabe nenhum de novo? Tanto faz. Sou pedagogo. Sou sociólogo. Sou um bêbado que nunca estudou. Sou um tarado. Sou uma mulher no cio. Sou uma beata. Sou um chinelo metafísico ponderando ingrato sobre os pisões que leva. Sou o nada melancólico querendo se masturbar à noite e pensando que é só o nada, e que portanto isso é errado. Não tem mãos, não tem sexo e não tem um banheiro em casa. Me deixe em paz. Me deixe desconhecido, porque assim, escondido, sou também um pouco você.

domingo, 7 de junho de 2009

Euselino

Eu comprava cachorro quente todas as tardes no mesmo local, seguindo o mesmo ritual. Eu me achava super descolado por cumprimentar o vendedor pelo nome. Euselino. Olá seu Euselino, me vê um dog completo sem passas, por favor? Mas outro dia fiquei ali sentado e tinha mais gente nas mesas do lado. Pedindo coisas também. E perguntavam coisas pro Euselino. O Euselino foi falando... Ele tinha se graduado em direito numa faculdade no Mato Grosso do Sul. Chegou a ser juiz numa cidadezinha, mas foi ameaçado de morte por um jagunço doido que ele condenara à prisão pelo assassinato de oito famílias, um bêbado, o próprio pai e algumas normas gramaticas que vagavam sozinhas à noite, desamparadas e abandonadas. Euselino então mudou-se para o coração do Pantanal onde ensinou jurisprudência da pororoca a uma família de dourados. Mas um jacaré achou que a coisa era com ele e ameaçou arrancar as pernas de Euselino a dentadas. Euselino então mudou-se para uma outra cidade e conheceu Joseph Climber. Este, à época, pintava quadros com sua perna direita, e então Euselino o ajudou a expor seus trabalhos pelos EUA, Ásia e Europa. Mas num dia horrível o senhor Climber sofreu alucinações e amputou as próprias pernas. Euselino fugiu, horrorizado, e perambulou pelas ruas sujas de São Paulo. Aprendeu a fazer malabarismos nos faróis, juntou uma grana e comprou o carro e a barraquinha de cachorro quente. E eu achava que conhecia o Euselino só porque lhe sabia o nome.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Cara ou coroa


Engenheiro. Engenheiro formado em faculdade boa. E trabalhar em uma grande empresa, ter um ótimo salário. Uma casa grande, um carro. Mais de um carro. E viajar sempre. Viajar a trabalho e viajar nas férias. Trabalhar na Petrobrás e... na Petrobrás? Mas e o aquecimento global? A poluição do mundo e tantas e tantas guerras alicerçadas no fundamentalismo do petróleo? Acho que vou deixar essa vida de engenheiro pra lá... Vou ser um ativista do Greenpace. Ou vou deixar tudo isso de lado e viver uns anos mochilando por aí. Pela América do Sul. Pela Europa. Pela África. Ou vou construir uma casinha no meu terreno em Araçoiaba da Serra e viver uma vida pacata, alheio a auto-fagocitose humana. Participando dela. Em paz.

Quero comprar um clarinete e aprender a tocá-lo muito bem. Ler partitura como quem lê palavras de cartilha. Quero ser piloto. E voar vários tipos diferentes de aviões. E ganhar alguns prêmios de acrobacias. Quebrar récordes. Ter histórias. Quero pescar com amigos à toa. No mar. No pantanal. Quero não ser ninguém e ter histórias de quem anda pelo mundo despercebido, com acesso aos mais díspareces seres e cenas. Quero brincar de kart. E ganhar um grande prêmio de fórmula um. Quero galinhar pelo mundo conquistando mais gostosas que qualquer amigo rico e com mais classe que Vinícios de Moraes. Quero ter uma única mulher pra vida toda. Filhos e uma história. Paz de espírito. Quero escrever o manifesto da frugalidade, mas exijo que seja na escrivaninha de Fausto, e com uma das canetas dele.

Quero o yin e o yang. Mas não na dose certa não... Quero pelo menos três doses. Com limão, açúcar e um pingo de mel. Pra virar de uma vez, ficar tonto, perder a vergonha e sair dançando pelo salão. Gafieira, salsa, zouk, soltinho... E conquistar todas as atenções do salão. E fazer um filme dançante.

Só sei querer tudo. Tudo. Do bife como a gordura. O osso. A pele. O casco. O pasto. A fazenda. O hemisfério. O periélio.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Vazio


Estou há uma hora querendo escrever. Duas horas? Quatro horas? Passa rápido. Não vem nada. O que vem é lixo e eu apago. É assim que funciona quando fico pensando que quero pensar algo de útil. É assim que funciona quando fico pensando que não quero pensar em nada.

Ontem à noite, no ônibus, pensei que eu poderia escrever grandes coisas.

Lembrei de coisas bonitas que me disseram. Coisas significativas que vi fazerem por aí. Paisagens que despertam um sentimento de religião, de tão belas.

E nada disso se presta a uma boa descrição agora, porque se as idéias existem e se as palavras continuam obedientes, falta qualquer coisa daquela víscera estranha que é a inspiração genuína, que impulsiona as palavras meio que um passo à frente de nossas ordens, que revoluciona nossos próprios conceitos em mosaicos inéditos montados com estilhaços de nosso antigo mundo inquebrável. E nada disso se presta a uma boa descrição agora. Nada de útil por hoje.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Presente


Faz tempo, não faz? Quem iria acreditar numa história dessas. Passo aqui os dias todos imaginando coisas, caçando na rede imaginações alheias. E nada que seja ao mesmo tempo tão inocente e profundo.

Lembra? Era meio que segredo. Era algo proibido. Era tentador, não sem conflitos. Não sem dúvidas. Como que um vício novo sem recomendações. Seríamos os primeiros a experimentar?

Aquela tarde foi especial. Primeiro encontro de olhares e éramos velhos conhecidos.

Você já tinha ido àquele parque, assim como eu. Você já tinha visto várias vezes o pôr do Sol no horizonte dessa nossa cidade. Ainda assim, não era tudo novo? Ainda assim, não tinha uma familiaridade diferente? Mudamos o gosto das coisas.

Indo para o aeroporto hoje meu peito apertou. Apertou estranho. Queria outro abraço. Sede gulosa. Gula insaciável. Sacear irresponsável. Queria te rir de novo, só mais uma vez. Passagem. Bagagem. Horário. Quilômetros. Outra vida. Outras pessoas. Outras histórias.

Ainda assim, você veio. Sem pagar passagem. Sem atrasos na imigração. Sem carimbo no passaporte. Eu não fujo, mas você me persegue.