terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Fubini

Era uma aula de cálculo, a professora estava demonstrando a viabilidade de se identificar um plano tangente a uma determinada função lá em um determinado ponto. Eu bufava pensamentos em outras reclusões pra longe dali. Vidas tangentes a funções estranhas, era nisso que eu pensava, até onde se pode verbalizar. Desejos que se jogavam lá no longe mas que vinham se arrastando atrás de mim sempre e sempre, como aquelas latinhas do carro dos recém-casados. Não me abandonam, seguem barulhando o tempo todo.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Pradópolis

É que o tempo da noite, deslisando sobre o sono, corre mais rápido.

É que a urgência do amor, transpirando saudades, morde mais forte.

Yara andou por entre postes e calçadas ignorando o medo da escuridão e dos escuros, medos esses sempre tão seus, tão incontornáveis.

Não avisou a mãe. Não pediu ao pai. Não acordou o cachorro.

Chinelos. Frio. Passos firmes.

Algumas poucas considerações lógicas pulsavam em sua mente, reféns de mil emoções explosivas.

Chegou em frente à casa. Era o quarto da frente, a janela de cima.

- Ei, ei! - murmurou alto, para ele ouvir.

A incredulidade abriu a janela.

- Eu vou! Amanhã eu vou sim! Espere lá na rodoviária, que eu vou sim!

E voltou para casa. Sem acordar o cachorro, o pai, a mãe ou o vizinho. E sem conseguir fazer dormir suas imaginações mais ousadas.

Confissão


































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domingo, 29 de dezembro de 2019

Minha poesia

Há por aí poetas de rimas e flores. Poetas de dicionários longos e exóticos. Poetas de arquiteturas elaboradas nos sons e até no cheiro das palavras. Eu sou rude. Porco e tosco. E defendo, nessa tosquice toda pobre, que assim minha poesia é mais bela. Mais bela porque, fazendo questão de não ter nenhuma aparência que preste, não pode por nenhum momento ser tomada por mais do que aquilo que realmente é. Mais bela porque sua aparência não é em momento algum etérea. Quando amo, choro e digo que amo e é assim que é amar. Quem, por aí, tomado por toda a dor estomacal, peitoral, visceral de uma paixão bem doída, pára para escrever coisas belas? Poetas das belas poesias tinham tempo para não amar. Eu não tenho. Meu peito dói sempre. Não sei parar de amar. Não sei parar de viver para pensar com calma no que escrever. Escrevo só a palavra que vem à mente e não tenho coragem de censurá-la. Não tenho culhões de proibí-la. Belos e comoventes são os presentes românticos que meus amigos comedores dão às menininhas estúpidas e inocentes que sempre os tomam como os caras mais certinhos do mundo. Eu sou sempre deixado de lado como uma pessoa pouco séria e incapaz de me entregar tanto como eles. Acontece que na verdade não sou é capaz de deixar de me entregar, por um segundo sequer, à vida, que me tenta com piadas e sorrisos e devaneios nos pensamentos que me encantam. Os sedutores de plantão, como esses meus amigos comedores, esses sim, furtam-se à vida para elaborar, com calma mecânica, quais velas escolher, qual música colocar, quais frases dizer, numa espontaneidade detalhadamente elaborada, porque se algo nestas almas é espontâneo é o ímpeto ao planejamento, a incapacidade de se dar à vida tal como são naquele segundo. Detesto cada vez mais os poetas belos, e fico com uns poucos exemplos de poetas realmente sublimes, que conseguiam conservar toda sua rudez de cuspir palavras e ainda assim atingirem um patamar transcendente de beleza. Eu sou belo na intenção de ser transparente, e faço questão de não querer beleza nenhuma além disso. Eu amo quando sinto que amo. Eu falo quando sinto que há palavras para serem ditas, e pouco me importa se esse meu julgamento calha de acertar ou não.

sábado, 28 de dezembro de 2019

As alianças

Faz tempo e ainda dói lembrar. Isso significa que isso ainda me fere? Ou lembrar de coisas assim é sempre dolorido, mesmo depois de superarmos tudo que há pra superar? Até onde devemos superar um fato para nos fazermos fortes sem ainda nos tornarmos frios?

Ela estava comigo no shopping, e entramos em uma loja de produtos asiáticos diversos. Loja de mulher. Na vitrine do balcão, várias alianças. Uma a agradou demais, demais. Uma com duas argolas, em que a argola de fora girava.

"Olha, aliança de giro-giro!", dizia com uma alegria infantil, olhos brilhando.

Eu tinha apenas minha primeira bolsa na faculdade, para pesquisa. Meros duzentos e oitenta reais por mês. Dava pro ônibus, pra comer, e já faltava.

Mas eu não guardava moedas. Tinha uma caixinha, envolta com fitas durex, e nela colocava minhas moedas.

Levei a caixinha na loja. Lá tinha dinheiro suficiente, os quase noventa reais. Tudo em moedas. Eu já tinha levado as moedas separadas, pra facilitar a contagem.

Mas, para minha surpresa, aquilo não foi apenas uma negociação. A dona da loja ficou impressionada. Ao ver a cena, ela teve a certeza de que eu era muito, muito pobre, e que aquele era o único meio de pagar as alianças, e achou aquilo a coisa mais romântica que já tinha visto. Correu e foi buscar a filmadora.

Comprei as alianças. As alianças e uma caixinha de madeira para enfeitar a surpresa.

E no dia em que eu estava com as alianças no bolso, na casa dela, ela me contou: não havia deixado de amar o ex-namorado e iria voltar pra ele.

Cristina

Acabei de abrir o blog da Cristina. É um blog secreto, poucos amigos têm o endereço, e lá ela escreve por um pseudônimo. E não é que lá me vejo às vezes? E não é que lá acabei de me ver? Fico pensando o quando de mim vai com ela; se tanto quanto dela não sai de mim. Fico pensando se mutilei esse amor ao ter uma vida que o fizesse tão secreto e incoerente, ou se é só por isso que ele sobreviveu até aqui.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aperto

E se eu cruzar o Atlântico todo a nado, correr por Portugal e através da Espanha, for aos trapos e restos até o coração da França, agarra-la aos braços com minhas últimas forças e com um resto de voz, olhando-a fundo nos olhos, explicar: tô com saudade!?

Weber e os chatos

Sempre achei Weber um chato. Talvez porque Política como Vocação, numa tradução qualquer para o português, tenha sido a primeira coisa que fui obrigado a ler no curso de Ciências Sociais. Eu tinha acabado de sair do cursinho. Estava totalmente por fora de política, de geopolítica, discursos políticos ou acadêmicos não faziam parte da minha realidade. Para mim, enunciados com mais de cinco linhas eram longos e uma redação completa era forçosamente limitada a trinta linhas. Não cabe muita formalidade aí. E de repente as páginas e páginas de Weber.

Tentei me convencer por muito tempo da validade do seu trabalho, mas em mil aspectos fico com o pé atras. Tudo bem que ele tinha idéias válidas de serem expostas para discussão, e etc, mas não vou conseguir deixar de achá-lo um péssimo escritor. Qual o problema em tentar ser sucinto e agradável? Ainda mais se estamos discutindo os problemas do mundo, da sociedade, que são tão complexos, então obviamente há muito o que discutir, e o que quer que tenhamos dito, maior ainda será a réplica, especialmente se tivermos tido alguma idéia relevante. Neste caso, alongar demais já a primeira exposição só colabora para deixar o processo todo mais lento. O mundo talvez tenha uma certa urgência com relação ao caminhar intelectual da humanidade. Especialmente numa era de armas nucleares e manipulação genética. Há tempo a perder com prolixidade?

Tudo bem, no tempo de Weber essas coisas ainda não existiam. Perdoemos Weber: seus leitores viviam num mundo muito mais chato em que, por contraste, provavelmente seus textos eram muito atrativos.

Mas hoje temos que considerar não só o problema de tempo, mas também o prejuízo todo do desinteresse provocado pela chatice. Ser legal e sucinto tem seus méritos. E ser legal não implica em ser superficial ou não-original ou não-relevante.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Escrever

Pensar é um fluxo. Escrever é um fluxo. Mas pensando as idéias desaparecem ao nascer. É como a água no Sol, que é destruída pelo calor absurdo quase que no exato momento em que é criada. Escrevendo não. Escrevendo as idéias adotam contornos, contrastes.

Enquanto pensamos, temos as palavras pelo pescoço, tiradas com violência da memória, da imaginação, e lançadas com descaso ao esquecimento, ao mundo sombrio e úmido das coisas já pensadas, onde elas passarão toda a eternidade.

Quando escrevemos, o destino das palavras é diferente. Quando escrevemos, tomamos as palavras com cuidado desde seu nascimento, atentando à sua forma, seus detalhes. E então elas amadurecem, e ao se materializarem no mundo, adquirem a força de nos confrontar. Nos olham nos olhos e dizem que não nos pertencem mais. E têm razão.

Diferentes

Terminei com ela. Terminei porque eu não aguentava mais a falta de humor da vida dela, a falta de brilho na experimentação das pequenas coisas. Terminei com ela porque ela era perfeita demais de um jeito que para mim beirava o artificial. Eu não a sentia orgânica demais. Ela me parecia simplesmente bem sucedida demais na tarefa de encaixar a vida em esquadros. Irônico ser eu engenheiro e ela ter feito Letras, não acha?

Ou será uma falha minha? Ou será que estou escondendo meus defeitos? Tantas são as infantilidades que tenho que se chocavam de frente com o jeito dela, que tive que esconder de imediato para que a relação, para início de conversa, pudesse ter começado! Minha completa falta de disciplina com o cotidiano. Minha aleatoriedade total no planejamento e execução da minha vida até aqui. Meu jeito de não saber o que vai acontecer nas próximas semanas. Minha mania de não me importar com o calendário das pessoas ao meu redor. Eu não sei quais são os próximos aniversários. Não sei quais viagens estão sendo combinadas. Eu não sei o que está se passando e não me importo. Estou mergulhado num grande agora, e agora o que faço é escrever à noite. Quando estiver em um outro agora, em que as pessoas estejam se telefonando para ir viajar, então vejo se faço minhas malas ou não. Não há o que pensar antes disso. Dinheiro, irresponsabilidade com o dinheiro. Talvez eu tenha mais de três mil reais nas minhas prateleiras só em livros ainda não lidos, sem contar um outro tanto que acabei lendo às custas de um tempo que comi das minhas aulas na faculdade, de meus compromissos com a família, enfim.

A liberdade de ser eu mesmo não deve implicar numa total falta de necessidade de melhorar. Tenho que melhorar. Tenho meus pontos. Mas terminei com ela. Terminei com ela porque a gente não sorria. De início, ela me fez sentir um total desespero por colocar minha vida mais nos trilhos para que eu ficasse à altura dela, para que eu pudesse merecê-la e tê-la. Depois, com a maior aproximação, apenas passei a sentir uma desvontade completa por essas melhoras: para ter uma vida tão sem graça, simplesmente não valeria a pena mudar tanto.

Estou viciado no caos da minha vida? Estou viciado na ludicidade da minha desorganização?

- Vocês têm muito a acrescentar um ao outro ainda, se conseguirem passar por cima dessas barreiras!

As pessoas são diferentes, são diferentes! Eu não preciso me ajustar a ela, afinal. Se está tão difícil encontrar felicidade ao lado dela, devo deixá-la livre para procurar no mundo algo de que ela realmente goste, e eu procurarei no mundo algo que eu gosto!

Se eu estivesse com a Sá ainda, e tivesse feito o que fiz hoje, dado um brinquedo de presente pro filho recém nascido da Mi, e mais cinquenta reais em dinheiro pra própria mãe, o que teria acontecido? Uma crise de ciúmes, críticas sobre como sou capaz de gastar um dinheiro que não tenho comprando um presente para uma mera amiga enquanto me recuso a gastar o mesmo dinheiro com a gente, com um motel hoje ou com um passeio ou simplesmente economizando porque, afinal, é um dinheiro que não tenho.

Isso é meu jeito apenas, ou são meus erros? Não sei o que a sabedoria dos antigos diriam a respeito, agora me foge o humor com que os comediantes emoldurariam essas verdades... Só sei que é o que estou vivendo. Terminei com ela, mas a esperança é que eu venha a reatar comigo.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Aeroclube

Horas e tantas horas ali, sentado com os pés na grama. Mãos no bolso. Mãos sobre as coxas. Braços cruzados. Olhando e olhando e olhando mais e mais. Os aviõezinhos vinham e iam e ficavam. Ficavam ali tão perto, no pátio, refletindo o sol. Balançando quando vento era um pouquinho mais. E ele ali, tão poucos anos e tantas imaginações sem fim. Aquelas asas impossíveis todas tão perto e ele ali, tão longe sonhando!

Ventre

Vermelho, verde, azul... São diversos véus.

Ele senta e olha. A música, as cordas, os tambores, o quadril, o umbigo, a textura lisa da pele.

O olho no olho.

Muitas mulheres dançam a dança do ventre, mas a verdadeira dançarina mais que dança. Enfeitiça. Tira a alma do homem e embrulha naqueles véus todos e joga fora e deixa o que sobrou ali bobo, olhando, desligado, hipnotizado.

Ondulando ela se faz serpente e vai se esgueirando pelas suas entranhas mais desguarnecidas e morde fundo. E você morre, feliz. Feliz.

domingo, 22 de dezembro de 2019

O mar

Ela nunca tinha voado, muito menos voado para longe. Mas foi. Christiano, ricaço simplório desses que só é rico por ter dinheiro, mais nada, cansou de ver dia após dia a menina vendo os aviőezinhos todos partirem pra longe, longe do oeste dos cafezais e soja.

- Quer ir junto?

- Eu?

- Sua măe deixa?

- Deixa, deixa sim!

E lá de cima foram voando e vendo as cidadezinhas pipocando do horizonte no meio de matos, tudo enroscado em estradinhas tortas.

Até que, de repente, a menina emudeceu. Deixou a boca abrir um pouco, esse verdadeiro cair o queixo. O aviăo, um Minuano, mal conseguia sustentar no ar tamanho assombro. Ali na frente, de horizonte a horizonte, o azul do mar, a maior lagoa que ela já tinha visto.

E de repente seus olhos năo sabiam pra onde olhar. E sentiu poesias que jamais havia experimentado. Reuniu forças e disse tudo o que as palavras sabem dizer:

- Como é bonito, o mar!

domingo, 15 de dezembro de 2019

Aperto

Quantos pais a gente ganha na vida? Um, o pai que nos fez, nos fabricou, este é certo. Há mais, entretanto? Há pais que nos são colocados na vida por eles próprios. Adoções não burocráticas, não planejadas. Afeto e preocupação que nos tomam que nos moldam e que nos definem com muita força. Podemos ficar órfãos tambem destes pais? E, tendo eles se tornado pais sem contudo nos ter feito nascer, poderia ser que ficaríamos deles órfãos sem que tenham que morrer, como é costumeiro à modalidade tradicional de orfandade? Pergunto isso por estar longe de um pai assim. Estou londe de muitos pais. Estou sentindo como se os tivesse matado de minha vida, ainda que não quisesse, que jamais tenha querido. Doloso esse crime invisível? Culposo apenas? Não sei. A gente perde partes da vida e não sabe mais como reconstruir. Mas é fundamental que se reconstrua. Como? Como? Como reconstruir? Como?

sábado, 14 de dezembro de 2019

Consolação

Perguntei aos céus porque é que eu era o escolhido naquela noite para sofrer. Uma nuvem cuspiu em mim e os degraus da calçada me golpearam ao chão. Hesitei. Malditos sejam. Acho que os deuses que me ajudariam foram para Paris, lá há mais o que fazer, sempre há. Sempre teremos Paris? Minha vida não é um filme. Um anjo desvia de mim na calçada e esbraveja xingamentos pelo incômodo que causo. Durmo, esqueço.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Diário

E daí que se viva uma vida diferente? Quantas vidas há para serem vividas, afinal? É uma manifestação estranha disso que nos faz humanos, essa vontade de existir dentro de vidas que já existiram, que estão a existir ao nosso redor. Qual o erro de ser único? Qual o erro de tentar o que nunca foi tentado?

Minha vida é simples. Não estou tentando erger o prédio mais alto.

Não estou tentando conquistar o maior dos impérios.

Não estou tentando fazer funcionar um evento impossível.

Estou tentando, contudo, destruir uma muralha invisível. Estou desafiando o conceito de uma vida bem sucedida. Compro menos. Minha casa não fica maior. Não tenho carro. Não busco salários maiores.

E quanta vida encontro!

E ninguém vê, ninguém vê...

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Incidente

Eles dizem para começar a história pelo começo. Para dizer o que vem primeiro, logo de cara. Prender a atenção do leitor. E se eu não sei? E seu eu não sei o começo? E se eu só lembro do gosto maldito de vinho barato vazando pelo canto da boca, de uma náusea fudida e da dor enorme de ser espancado até não poder mais? É esse o começo? Isso não se parece com início de nada, mas é o meu começo. Porque eu não lembro de nada antes disso. Nada. Quebraram minhas costelas e minhas memórias.

Acordei e parecia não haver mais dor. Morto?

Não, não estava morto. Qualquer pequeno movimento lembrava que as dores ainda estavam ali. Abrir os olhos era possível. Exagerar na reação muscular e ativar também qualquer parte da testa, bem, isso não. Isso iria doer demais.

Paredes brancas. Lençóis brancos. Hospital.

Esse é o começo da minha história. Aquele breve flash que tenho de ser espancado, sem nem lembrar para onde ia, o que fazia. E depois esse liso teciso branco cobrindo boa parte do meu corpo. A parede branca ofuscando minha visão. E toda minha tentativa por redescobrir minha vida, a partir daí.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Bravo

Eu já levei você pra voar! Eu me desdobro de todas as formas ao menor sinal de demanda de sua parte... Eu sou totalmente solícito, não sou? Eu estava disponível para ser companhia nos eventos em que ninguém mais iria. Eu aceito qualquer pedido de ajuda a qualquer momento. Eu sou seu vassalo, não sou? E você não enxerga, não vê, não entende o que há por trás disso. É assim tão invisível? Ou será que assim tão entregue o sentimento passa a ser qualquer coisa de outra espécie e sou eu quem erro no julgamento? Talvez, talvez. Talvez o mundo não tenha sido feito para entregas assim.

Alegre

Que calma serena, dias desses. Hoje. Oscilo. Me morro na exaustão da minha ansiedade. Me enterro na clausura da minha calma. Nunca o mesmo, quase como se nunca eu mesmo.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Primeira página

Pedófilo? Excêntrico cheio de plásticas? Freak?

E agora, agora que está morto, agora que seu corpo foi reduzido a uns quilos de carne apodrecente, agora lhe voltam novamente toda a atenção cuja ausência o matou.

Bem disse o piadista: Michael Jackson morreu por que parou de viver. É o Michael que comove o mundo agora ou é a morte em si? A morte inesperada, repentina, sem aviso nem motivo?

Obama matou uma mosca durante uma entrevista.

Sobre o que era a entrevista?

O que os EUA decidiriam com relação a guerras, economia, saúde?

Qual era o assunto em pauta?

Quem sabe? Obama matou uma mosca, das grandes, e ela posou às câmeras todas, ali ao chão, mortinha.

Quem se importa com a vida, afinal? Eu não, eu não ligo. Acho que nem as pessoas. Apenas custam a admitir isso: o importante é o que se desvencilha dos trilhos da normalidade e sai por aí traçando trajetos próprios.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Agradecimento

Pois é. Cá estava dado às minhas coisas, minhas leituras, meu chocolate quente com chuva. Quando sou surpreendido por este agradecimento, vindo sei lá de onde, trazido pela internet talvez vindo daqui mesmo. Porque são paradoxais todas as coisas que me cercam, eu sei. Porque é inexata essa existência louca sem documentos ou históricos ou tempo contínuo.

Agradecia a tal mensagem à liberdade que eu proporciono. Ao resgate que sou.

Sim, é isso que sou: um resgate. Sou um resgate à liberdade de ser por prazer, pelo prazer de ser. É esta a natureza secreta, escondida lá na intimidade daquele que resgato. Não é existência dada a materialismos. A grandes posses, a paredes belas e estofados viçosos. Ou a viagens caras e almoços exorbitantes. Contanta-se tanto com existir e simplesmente existir, vendo o mundo. Vê o mundo pelas frestas amplas dos livros. E gosta.

E por que precisa de tanta libertação assim? Por que tanto me agradece? Porque a vida tem essa força inexorável de afogar a individualidade no que ela tem de mais original. No mundo de hoje chama-se de individualidade os lampejos de labaredas que vomitam restos de tudo o que é reprimido. Isso já não é mais individualidade: é o resto dela. Eu permito talhar no meio do cotidiano um caminho muito mais livre. Aquele em que se pode ser autêntico sem que seja por protesto.

O simples prazer de ser...

Tantas e tantas pessoas já conheci que jamais saberão o que é isso. Tantas e tantas pessoas que associam o cumprir do cotidiano com uma espécie estranha de prazer, enquanto engavetam sonhos e doutrinam as risadas. Risos não deveriam ceder tão facilmente. Que tem a ver um elevado gosto estético com o prazer do riso descompromissado? Aprender a ver os méritos dos grandes artistas é uma coisa. Diminuir o prazer de presenciar a vida em marcha, ainda que sem grandes feitos no momento, é outra.

Saio do teatro municipal. Pego o trem. Desço na periferia. Violeiros desdentados tocam num bar de esquina. Uma das violas com uma corda a menos, inclusive. Não existe um nome para a bizarra combinação de afinações entre as cordas. Entre as vozes.

Onde vi mais pessoas felizes? No municipal ou nesse bar de esquina?

No bar de esquina dançavam, sorriam, gargalhavam, pulavam. No municipal forçavam-se a apreciar a suposta supremacia artística de algo que não entendiam por completo. Empoleiravam-se sobre as migalhas da própria ignorância felizes por sentirem-se pertencentes a uma classe esteticamente superior ao resto.

Por isso o agradecimento tão enfático que recebi desta pessoa que me é muito muito chegada. Eu liberto disso. Eu não tenho medida estética. Eu não tenho pretenssão eztética. Só gosto de ser. Só gosto de sentir o sabor macio de desenterrar pensamentos ainda vivos debaixo dos escombros toscos dessa realidade que desaba o tempo todo em cima da gente. Gosto de ser. E de inspirar que sejam.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Fim

Ontem terminei mais um relacionamento. Mais um, pois é. Como estou? Essa sensação de meia molhada de chuva descendo pela garganta à força, e olha que fui eu quem terminei hein, por ela nós estaríamos juntos até sabe-se lá quando. Mas terminar também é difícil, não importa o que digam. Será que a conversa derradeira nunca vai ser amigável? Sei lá, de repente os dois entendem ao mesmo tempo que não vai rolar, que não tem como dar certo, e se descobrem querendo conversar em direção a um mesmo objetivo. Seria possível?

- Oi Gabi, tudo bom? Precisamos conversar...

- Pois é Carlos, eu tava mesmo te procurando, tinha umas coisas pra te falar também.

- Sério? O que é?

- Ah, sei lá, fala você primeiro.

- Não, pode falar você...

- Olha, sei lá, é que meu assunto é meio sério, sabe?

- O meu também Gabi, e não quero esperar mais pra falar disso, mas você está me deixando preocupado, aconteceu algo?

- Não Carlos! Não aconteceu nada! Quer dizer, aconteceu e não aconteceu, sabe? Mas tenho uma coisa pra falar que não pode esperar.

- Olha, meu assunto é sobre a gente, sabe. Então, se você tem algum outro problema sério aí, sei lá, a gente pode conversar disso depois, primeiro me diga o que aconteceu!

- Mas meu assunto também é sobre a gente!

- Sério?

- É!

E os dois se olham, curiosos...

- Sabe, Carlos... Faz um tempo que eu me sinto meio incomodada, entende?

- Entendo.

- Entende?

- É, entendo. Eu também me sinto um pouco incomodado, sei lá, parece que as coisas estão engripadas, não estão combinando bem.

- Pois é, exatamente! Tô sentindo a mesma coisa!

- Está?

- Estou! Olha, não acha que era melhor a gente por um ponto final nessa história?

- Sabe, eu acho sim. Eu tava pensando nisso vindo pra cá. Afinal, nós temos tantas coisas boas pra dividir um com o outro, e temos que achar a melhor forma de nos colocarmos um na vida do outro.

- Isso! E o que eu tava vendo, o que anda acontecendo é que sermos um casal não é essa melhor forma.

- Nossa Gabi, tirou as palavras da minha boca! Se continuarmos juntos, vamos acabar nos odiando!

- Pois é, e não tem porque nos odiarmos, se conseguirmos ser bons amigos. Se isso exigir que não fiquemos mais juntos, tudo bem.

- Tudo bem, as coisas têm que seguir seu caminho, não é? A vida não pode ficar parada insistindo numa idéia que já provou não funcionar.

- Ai Carlinhos, como você me entende!

- Pois é, pelo menos isso a gente tem de bom, né? A gente consegue conversar como se um já soubesse o que o outro pensa.

- Se as pessoas conseguissem se entender assim por aí, já pensou?

Os dois se olham, sorrindo.

- Querido, me dá um abraço?

Os dois se abraçam.

- Nunca pensei que fosse achar no mundo uma mulher com sua sobriedade. Meus amigos jamais acreditariam se eu contasse.

- Bobagem... Eu é que nunca pensei que encontraria um homem capaz de falar com tanto desembaraço sobre essas decisões difíceis.

- Oh, querida!

- Ai, querido!

- Me beija?!

E os dois se beijam. Se deitam. Se amam. Se misturam indissoluvelmente, unidos pela mesma certeza sobre todas as diferenças que existem.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Miragens

Anos atrás, olhei adiante e vi meu futuro. Hoje, pés no futuro sólido e palpável, olho para trás e vejo meu passado. Tenho a sensação de que, em nenhum dos momentos, a visão está realmente nítida. Quantas coisas mentimos a nós mesmos, como se já não bastasse a avalanche de enganos naturais de jultamento que jamais perceberemos!

Minto para mim sobre a natureza do tempo. Minto para mim sobre minhas limitações pessoais. Minto para mim sobre o tamanho dos meus sonhos. Minto para mim sobre meu julgamento sobre as outras pessoas. Minto para mim quanto a minha preocupação com o mundo. Minto para mim quanto ao tamanho do meu caráter.

Vivo em minha mente, e aí tomo o cuidado de ser alguém invejável. Outros não sabem, não acessam a minha mente, não conhecem meus pensamentos. Minto sobre eles todos. Faço em minha mente com que saibam.

Minto sobre a admiração que recebo do mundo. Minto a mim mesmo sobre os outros e sobre mim.

E não digam que essa mentira destrói a verdade. Não, não me venham com essa superficialidade pobre. Essas mentiras todas são o alicerce das minhas verdades. É aí que vivo. É esta a casa cujos tapetes e paredes quero em ordem.

Mentira.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Corporativo

- Mas e o Tiago, hein?

- Sei lá, tá numas de pegar coroa?

- Sério é? Logo ele que sempre foi tão de namorar e tal.

- Pois é rapaz. Acho que desencanou, viu. Agora tá indo atrás de coroa!

- Mas coroa da onde?

- Ah, dá internet, né?

- E coroa lá sabe mexer em computador?

- Coroa tipo um pouco mais velha, não as embalsamadas.

- Ah bom né! Mas ele tá namorando alguma?

- Não não, parece que não tem essa de namoro.

- Tá o que? Só comendo então?

- É, tá só comendo, mas o Tiago é foda. Meteu na cabeça que tá atrás de envolvimento sentimental, tá cheio das teorias!

- Teorias? Que teorias? Lá vem o Tiago com as viagens dele...

- Teorias! Chegou me dizendo que essas mulheres, na casa dos quarenta, solteiras e tal... Parecem estar cheias de amor pra dar e tudo mais, mas na verdade estão é tentando se esconder de si mesmas, se recusando a amar e tal.

- Ué, mas ele tá ou não tá comendo?

- Tá, tá, pelo que ele contou, tá sim. Aliás, ou ele tá inventando coisa, ou acho que vou entrar na dele viu... Pegar as menininhas de vinte da nossa idade parece que não tá com nada... Ele só me contou loucuras com essas quarentonas que andou pegando!

- Pô, se for assim, eu vou também... Tem uma lá no serviço, ah, aquela eu acho que até rola viu! Na verdade, ela já deu em cima de mim, mas na época eu afastei, por que era novo no serviço, e por ela ser mais velha e tal...

- É, mas ó aí, é a teoria do Tiago, certinha! As mulheres de quarenta, solteiras, vão até atrás! E muito mais que as menininhas de vinte... Elas precisam se sentir amadas. Em parte pra apagar a dor de alguma rejeição passada, do casamento que não deu certo, essas coisas.

- Não rolando namoro, pra mim tá bom.

- Não, pelo que sei, é só sexo.

- E o Tiago, onde tá hein?

- Comendo a Silmara, que conheceu nessa quinta...

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Jeitinho

Não é que eu achei um jeito de te amar?

É não te amando. Não amando você, consegui finalmente amar alguém em paz.

Amo você. Queito, aqui no meu canto. Em paz.

Sempre que dá, sempre que possível, te amo.

Amo você quando precisa de alguém pra conversar.

Amo você quando precisa de um favor, bobo que seja.

Amo você quando visito sua família.

Amo você quando escuto suas histórias.

Amo você quando dividimos qualquer risada.

Amo você quando você não sabe que estou te amando.

E assim sem saber que te amo, me deixa te amar.

Amo você enquanto você, sem ser roubada de sua vida,

Não me ama.

E, não me amando,

Me deixa livre pra te amar em paz.

Te amar pra sempre.

Outsider

Eu não pertenço a nada. É minha tragédia. É o resumo da minha vida. E é meu mérito também. Mas não porque seja um mérito em si. Antes por ser apenas uma característica primitiva, irremovível, inerente à minha pessoa, tão fundamental que tudo de ruim e de bom que me aconteça pode ser, de um jeito ou de outro, reduzido à essa origem. Não sou institucionalizável. Não consegui me comprimir ao que exigiam de mim as profissões que tentei. Não pertenço a país nenhum. Meus documentos são antes equívocos que constatações. Não me defino nem mesmo como escritor, essa vagabunda profissão de não exercer nada além de delírios. Não que não me faltem delírios. Mas transformá-los em profissão exige disciplina, exige domá-los. De algum jeito, louco e inconsequente como todo o resto, rejeito submetê-los a tal atrocidade. Delírios domados já não são tão delirantes.

Mas o pior, é o mais assustador, é que delírios domados já não são capazes de encontrar sua própria verdade: curvaram-se à loucura que criou os moldes de sua dominação.

É essa a dor do parto: permanecer louco como único modo de não sucumbir à loucura dos outros.

Inevitável

Não consegui deixar de te amar sem deixar de amar.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Sombra

Quantas vezes a gente precisa dizer sim até ter coragem de dizer não?

Quantas vezes vamos sorrir até ter coragem de baixar o rosto?

Quantas vezes é preciso dizer eu te amo até entender que o amor não existe?

Eu te amo agora. Logo mais, não sei.

Eu não te amo mais. Te quero bem, mas não posso te amar.

Posso não concordar com seu desamor, mas darei até a vida pelo seu direito de não amar.

Quando o iluminismo vai iluminar também os sentimentos?

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Oitavo andar

Eu precisava dizer a ela o quão impróprio seria depositar sobre mim qualquer esperança de relacionamento mais duradouro. Não estou disposto a esticar meus compromissos além daquilo que consigo controlar, e no momento meus receios sobre mim mesmo impedem que eu controle com precisão mesmo os compromissos mais grosseiros da minha próxima semana. Olhei-a nos olhos. Ela me desejava. Isso era tão claro, tão evidente. Charme com olhar de lado e sorriso de canto dos olhos, um pouco exagerado até, a ponto de estragar um pouco o romantismo do tipo que prefiro, que é espontâneo e sem exageros, mas baixei a guarda do meu senso estético e deixei passar. Enquanto pensava sobre todas essas seriedades que aguardavam por serem ditas, tomei-a contra mim. Lembro-me dos meus amigos perguntando, no bar, na noite em que eu iria encontrá-la, mas e aí, qual é o perfil dela? E eu só respondia que ao que pude ver, era um perfil bem saliente. E era, era mesmo. Trouxe o tronco dela para colado ao meu. Aqueles seios me apertando. Apertava as costas dela, por vezes com força, por vezes correndo a ponta dos dedos sobre a espinha, de cima abaixo.

Olhava ela nos olhos e pensava, sério, não me ame. Não me deseje. Não amarre nenhum pedaço de sua felicidade à minha. E beijava. Beijava demoradamente. Beijava sabendo que não haveriam muitos beijos daquele pela frente. E por beijar assim, despertava nela o desejo de mais daqueles beijos. Traição da lógica. Inversão das percepções. Assim é. Ao meu ego jurarei até o fim dos dias que eu estava envolto em muitas dúvidas, tomado pela beleza daquele corpo que se desnudava diante de mim, quente, todo pronto, desejoso. Entretanto, aqui à noite, sozinho, eu sei que eu fui homem no péssimo sentido em que todos os homens, vez ou outra na vida, o são. Antes de mergulhar nela, mergulhei em meu presente e despi-me de toda responsabilidade sobre o curso das coisas. Comê-la e nada mais. Sentir as coxas dela batendo nas minhas, nos meus quadris. Lamber aquele corpo, cada pedacinho, ouvindo gemidos trêmulos, incontidos. Que importa, aí, o que acontece com sentimentos mais abstratos? Por acaso meus sofrimentos todos de tantas e tantas vezes em que me apaixonei não me autorizavam a assumir que as outras pessoas são também capazes de cuidar dos próprios sentimentos? Dos próprios sofrimentos? Das próprias esperanças descabidas?

As mulheres pagam umas pelo sofrimento causado pelas outras. Eu seria até hoje um homem perdidamente mergulhado em meu primeiro amor, não tivesse ela nunca me visto. Eu seria tão menos frio com o sentimentalismo alheio, não fosse aquela vadiazinha que me deixou sozinho com todos os meus sonhos, à beira do nada. Autopiedade? Ou empiricismo subjetivo? Ou estou sendo fraco em não superar meus traumas para permitir viver um presente de uma forma mais pura?

Sou o que sou... E enquanto puxava os quadris dela contra os meus, não pensava nisso. Pensava em demorar mais para gozar, porque estava bom. Pensava que eu podia puxá-la com mais força, porque ela estava gostando. Pensava em arranhar as costas dela, deixar marcas de que estive ali. Não pensei, em momento algum, no que ela sentiria, dias depois, sozinha, ao contemplar estas marcas no espelho.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

We'll always have Paris

Eu ouvi sua voz. Ouvi sua voz com moldes de sono. Ouvi sua voz com contornos nítidos de alegria descontraída. Sei que pensamentos ruins lhe tomam o tempo de assalto nesses dias de distância de tudo e todos. Mas ouvir o som doce do seu acordar desperto e vívido me fez tão bem. Espero que o bem que aparentou lhe tenha sido legítimo também. Não dá pra atravessar o Atlântico a nado para ir conferir.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Chaplin

Você etá em uma festa e aparece um maluco dançando com você. Ele está sem camisa. Veste apenas uma bermuda malhada, pele de tigre, e chinelos. A festa é a fantasia, e isso dá algum perdão ao traje (ausência de traje?). Mas algum perdão não é perdão completo. Ele sorri e dança com você. Sorrisos são bons. Dançar é bom. Então tudo bem. Vocês se beijam. Tudo bem, beijos acontecem. Mas uma semana depois e lá está ele, no telefone. E depois na frente da sua casa. E depois na mesa do restaurante, à sua frente, perguntando por suas histórias e esmiuçando recantos da sua vida normalmente alheios a estranhos. Ele está menos mal vestido agora. O que, em perspectiva, faz até parecer que houve um progresso. Mas é natural que você esteja assustada. É natural que você dificulte as coisas. É natural que você não o queira assim tão perto tão de repente tão não sei pra quê. É natural que você não receba nunca a cartinha que ele lhe escreveu no meio da madrugada nem o conjunto de cordas de violão que ele buscou pelas lojas da cidade para reavivar suas músicas.

sábado, 30 de novembro de 2019

Após

A vida que eu quero se esconde após a vida que eu não quero, sempre após. O momento tranquilo vem depois da reunião de família. O livro preferido vem depois do livro da faculdade. A música preferida vem depois do grande sucesso. E se fosse o contrário? E se a vida que eu quisesse viesse antes? E se viesse agora? Não quero esperar para ser quem sou. Não quero deixar para viver minha vida apenas após a que eu tenho que viver. Quero que sejam uma só, que minha vida sonho seja minha realidade. E não é pedir muito, como parece, é uma certa coragem apenas. Uma certa coragem apenas...

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Pela rede afora

- Você é feliz?
- Não sei, mas sei que você é direta.
- Não aguento mais as perguntas de sempre. De onde você é? Quantos anos têm? Com o que trabalha? E também acho que isso não interessa muito.
- Entendo. Mas essas coisas são parte da resposta. Não tem muito tempo que eu mudei para cá e agora os meus amigos estão longe. Tenho uma namorada, mas é isso. Sinto falta de algumas coisas. Mas não sei se sinto falta dos amigos, se sinto falta de conseguir usar melhor o meu tempo e levar meus projetos adiante. E você?
- Eu às vezes me sinto cansada. Tenho dois filhos. Uma mais velha, com meu ex-marido, e uma menina de três anos, com um namorado. Eu sou viciada nele, mas isso é um problema.
- Viciada em que? Como assim?
- Viciada no amor. Ele bebe. Tem exagerado. Mas eu sinto falta. Volto para ele.

Eles estavam distante. Mas se olharam. Se ajudaram.

Ainda não existe uma devida sociologia da rede. A humanidade não consegue entender nada a tempo, enquanto acontece, e depois não se interessa pelas velhas coisas da história. Ficam então abertas as duas possibilidades.

Primeira possibilidade:
A rede permite que eles resolvam suas crises internas descobrindo outras pessoas similares com quem a troca de ideias, sentimentos e impressões vai enriquecer a vida. Efeito remediador.

Segunda possibilidade:
O relaxamento produzido pela troca de ideias entre as duas pessoas vai aliviar as tensões da vida real permitindo que uma vida problemática se prolongue. Efeito analgésico.

sábado, 23 de novembro de 2019

Silvia

Tinha um certo friozinho no ombro então puxou mais a coberta. Descobriu os pés, inferno. A névoa quase negava a manhã e vidros da cabine respingavam umidade condensada. Já estava acordada, mas se negava a abrir o olho. Um misto de satisfação e arrependimento. Aquele mesmo arrependimento da primeira vez. Será que nunca ia se acostumar? Abriu os olhos, por fim. Estava só. Sozinha na boléia, no estacionamento, na estrada, nos dias, nos choros, nos frios, nos calores, nas saudades, nos sonhos e nas desilusões.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Bala perdida

O Rio de Janeiro não muda minha vida. A Garota de Ipanema, com sua caminhada pela praia na frente do poeta já tendo acontecido há tantos anos, fez até agora muito mais pela minha vida que as mortes no Rio que se passam agora. Que me importa que morram miseráveis ou pobres ou inocentes ou bandidos de qualquer espécie por lá? O mesmo acontece o tempo todo em dezenas de guerras que acontecem pelo mundo a todo instante, não é mesmo? Não me importo. Dane-se o Rio. Que se exploda o Rio. E fico contente por não assistir mais TV há tanto tempo. Assim, o Rio também não muda na minha vida naquilo que é o impacto mais significativo e chocante da violência no Rio para milhões de brasileiros: a qualidade da programação da TV.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Um

Ela dorme com o rosto pousado em meu abraço, sobre meu peito. Ela sonha com essa união e eu me pergunto o que diabos estou fazendo ali! Não, a vida a dois não é pra mim. Os fins de semana ficam previsíveis. As saudades não têm um cantinho de solidão para acontecer. Os devaneios não se justificam, pois a vida a dois é mais burocrática, você precisa de justificativas. Vou viajar neste fim de semana. Pra onde? Não sei! Como assim? Não sei, vou viajar, quero pegar algum ônibus na rodoviária e me distrair um pouco. Por quê? Como assim por quê? Não sei! Quero fazer isso. Não entendo os motivos. Deve ter alguma relação com neurônios e sódio, mas não esmiucei a tal ponto. Apenas conheço o resultado final, minha vontade de fazer isso. E se no meio do caminho mudar de idéia? Vi uma lanchonete muito muito aconchegante e resolvi entrar lá com o meu livrinho, e passar a tarde toda lendo. Ué, mas você não tinha dito que iria viajar? Tinha, mas mudei de idéia ué, vi esse cantinho e gostei, entrei aqui e fiquei. E então eu sei que eu não fui feito para a vida a dois. Não me justifico nem a mim mesmo.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A vida sobre rodas se foi. Se foi a sessenta por hora, e não precisava mais que isso. Uma discussão. Um coração partido. Um ego ferido. Uma alma insegura. Uma vida sofrida. Um futuro derretido. Os trilhos. O trem vindo. Se jogou. E por meia hora o sistema todo parou! E as pessoas se somaram aos montes pela estação e também pelas estações vizinhas. E todos preocupados com o horário de chegar em casa. De ligar a televisão. De tomar banho antes do sono. De desligar o cansaço horrível da sexta-feira. Os trilhos, o trem vindo, se jogou.

Naquele dia uma vida se foi mas confesso que eu, vivo, encontrei no caos boas atrações. Nessas situações as pessoas dão-se mais às conversas, e assim foi que fiz novos amigos no meio de todo o susto que era a estação Sé. Um contador, um ex-repórter. Conversamos sobre o acidente, sobre metrô, mas também sobre nossos empregos, o mercado para cada uma de nossas profissões, a importância de cursos extras, os cuidados que temos que ter para não sermos explorados no mercado de trabalho, e assim vai. A vida, toda incontida, continua.

Impossível

Quero você inteira
E minha metade de volta

Não sei quem é você
Mas quero você
Inteira!

É possível sentir saudades de sabores desconhecidos?
Ninguém sente sede de refrigerante,
se nunca tomou refrigerante!

Sente?

Quero você inteira
E minha metade de volta!

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Progressão

Dói cada vez mais, não era pra ser assim. O tempo devia erodir, apagar. Fiz errado, algo errado. Ela escreveu coisas tão boas. É trivial que eu seja cada vez menos nesta vida tão distante. Que mais eu queria daqui, isolado, fugido, desistido de tudo? E no entanto dói. E dói muito, muito. E eu queria correr pra algum lugar. Chorar. Soluçar igual criança. Brigar com alguma coisa e alguém. Perdi o sono de um dia cansado. De um dia cansado! Acordei hora antes. E não acordei. Anestesiado o dia inteiro. O que mais importa?

domingo, 17 de novembro de 2019

Alegre

Que calma serena, dias desses. Hoje. Oscilo. Me morro na exaustão da minha ansiedade. Me enterro na clausura da minha calma. Nunca o mesmo, quase como se nunca eu mesmo.

sábado, 16 de novembro de 2019

Sentimental mood

Que milagre é esse que faz um bom jazz restaurar a alma como se a criasse novamente, destruindo da alma velha todos os pesos e infortúitos, todos os invisíveis terrores insones? O quarto é o mesmo, o cheiro é o mesmo, a iluminação é a mesma, a conta bancária é ainda menor, a solidão vai do mesmo jeito. Mas o jazz toca, o jazz preenche o ambiente, e a alma muda. Muda completamente. Muda para outra, de um jeito que nem se eu fosse rico, nem se todos os amigos aparecessem, nem se os problemas todos sumissem...

Fica o tempo lá fora com seus problemas, que eu fico aqui com o meu jazz, e está tudo certo.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Sky

Morto, caído, destruído. Não sei como ainda respirava, essa bola de pêlos sobrando. Essa peruca velha andante. Essa arte abstrada mal feita com forma de cachorro. Tentou ficar em pé mas não saia de suas células força suficiente para manter as patas verticais, paralelas. Escorregaram. Caiu de volta aonde a gravidade lhe queria. Gravidade da terra, dos corpos, da situação. Teimosia das teimosias, parece que não lhe havia forças para terminar de morrer, e foi tomando do tempo um espaço para ir aos poucos melhorando, e melhorando. E hoje correu atrás de mim por todo o quintal. Pulando até acertar minhas costas com as patas. Mordendo minha mão antes que eu pudesse puxar suas orelhas. Está rindo de todas essas coisas idiotas que pensei nos dias em que o vi doente. É um Husky e tanto!

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Futuro

- Não fique revoltado! Sua irmã gosta dessas coisas, ué! O que é que há de tão errado com a astrologia? Com essas crendices? No fim das contas o grande problema é o dinheiro que ela perde com essas coisas, só isso. E é o dinheiro dela, entende?

- Não é só isso. Não, não pode ser! Vai além disso. Ela compra esses CD's com terapias quânticas. É enganação. Há alguém roubando ela. Talvez um louco que acredite colocar algum poder estranho no CD porém muito provavelmente alguém que sabe, ou até recentemente já soube, que está enganando as pessoas. Ela está sendo enganada. E não é um simples efeito placebo. Num nível local isso é simplesmente uma pessoa perdendo dinheiro com bobagem. Num nível maior isso é a falta de apoio a pesquisas com células tronco porque as pessoas não só não entendem a ciência mas acham também que o cientista típico é uma pessoa querendo fazer algo de ruim e disposto a esconder a "verdade" do público.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Quieto

Tem desses dias nada literários, em que sentimos as mesmas coisas profundas que se sente por existir e viver a vida e tal. Mas as palavras fugiram. Nem sempre a vida topa se descrever.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Tudo

E foi no meio de um churrasco de improviso, com música de improviso, que me ensinaram que tudo é arte. É arte um belo quadro. É arte uma bela música. Mas é arte uma parede bem feita. É arte um software bem bolado por um programador nerd de óculos sem graça e camisa pouco criativa. É arte ali onde a criatividade toca. É arte ali onde um indivíduo mergulha na atividade levando seu trabalho um passo além, transformando pensamentos em coisas quaisquer capazes de ficar, ou de ao menos passar tocando outras vidas. Como a arte da música que é tocada na hora, sem passar pela cristalização da partitura. Arte que saiu ao mundo para quem estava ali a apreciar. Tudo é arte, a recusa a seguir caminhos óbvios. O impulso incontrolável de inserir alguma pessoalidade no mundo.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Volta

Sabe, eu queria me abrir com você. Não porque eu ache que lhe deva algo em honestidade, pois embora eu tenha o impulso de buscar um dia a mesma nobreza que em você é tão natural, a mesma postura firme e transparente, não sou idiota a ponto de contrariar meus impulsos hesitantes por conta de um raciocínio mecânico. Eu queria me abrir com você, e é por conta dessa vontade, simplesmente uma vontade de me abrir. De contar coisas pra você como quando andávamos conversando pelas calçadas do campus ainda com folga no horário. E eu simplesmente falava. Não ponderava falar isso ou deixar de falar aquilo. Falava porque as palavras, de repente, saiam. E hoje não faço isso. E logo vou te ver de novo, e não farei isso. E vou desejar tanto que você volte. Só não entendo mais que volta vou querer. Se quero que você volte comigo ao passado em que não estávamos atrasados nem para a aula, nem para o resto todo da vida, e podíamos ter o prazer infinito de uma conversa absolutamente insignificante, prazer que só uma conversa assim desinteressada pode trazer. Ou se quero que você volte para o velho mundo mesmo, para bem longe, com promessa de não voltar nunca mais, que volte para outro mundo, outra galáxia, outra era, outro universo, tão longe que não fará mais a menor diferença falar ou não falar isso e aquilo. Tão longe que não faça mais sentido eu me proteger tanto assim de meus impulsos e aí então não restará mais nada a não ser a liberdade total de me abrir com você, porque aí, assim tão longe, nada mais que eu possa dizer conseguirá ser sério o suficiente para transformar nossa conversa em algo além de uma simples conversa. Sou inocente por querer essa inocência de volta?

domingo, 10 de novembro de 2019

Sono

É que eu brinco com coisas que não devia
Queria que alguém me levasse daqui
Queria aquelas coisas todas que não podia
Eu fico olhando, olhando
Eu me deixo levar
Eu me deixo sumir
Eu deixo acontecer
Coisas que me fazem um outro eu
Deixo acontecer coisas sem eu estar
Deixo viver
Quem vive em paz quando ama?
Eu machuco pessoas
Arrisco alegria
Brinco com coisas
Coisas que não devia

sábado, 9 de novembro de 2019

Wild

Tô nem aí pra solução dos problemas do mundo. De que adianta? Talvez eu não seja competente. Mas, talvez, mais que isso, resolver os problemas do mundo não seja algo pra quem quer resolver os problemas do mundo. Talvez, considerando toda a sociologia, faz algo de útil aquela pessoa cuja vida a leva a fazer algo de útil. É, sem muito livre-arbítrio. Tudo bem, o Obama trilhou o caminho dele com muita garra, bla bla blá, mas ele tinha fibra pra isso e isso vinha de algum lugar, né? Eu não tenho. Eu sou feliz assim, quieto. Eu fico aqui, escrevo. Ando pelas ruas, converso com as pessoas, vejo confusão e corro. Corro pra um lugar onde eu possa ficar tranquilo, ler meus livros, conversar com pessoas legais, ouvir minhas músicas. Faço muito pela humanidade cuidando para que eu seja feliz. E para que aqueles ao meu redor sejam felizes. Que parece pouco, que parece um desleixo, mas que, se feito por todos, resolveria tudo, não é? E quanto a escrever, não quero um épico. Não quero a obra final. Gosto do som que os dedos fazem ao bater nas teclas, então continuo batendo nas teclas. Nada mais. Precisa de mais conteúdo? Gosto do desenho das letras aparecendo na tela. Então escrevo e as letras vão aparecendo na tela. E quando leio, gosto dos pensamentos ecoando dentro da minha cabeça. Então leio, sobre o que for. Sexo, política, ciência, sociologia, romances, mistérios, dramas, investigações policiais. Não importa, importa? Importa é sentir o peso de um livro nas mãos. Importa é ter a sensação de que quem escreveu estava fazendo algo de que gostava, até que se fique quase que com inveja, morrendo de vontade de se sentir assim também, entende? Percebe que estou feliz? E que, por mim, que se dane o resto do mundo?

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Fotógrafa

Que riqueza que há na alma de quem vê a riqueza das almas?

Que sorriso sorri quem flagra o melhor dos sorrisos todos?

Que momentos tem quem congela dos outros tantos momentos?

Que segredos tem quem tanto revela?

Que tanto esconde quem tanto mostra?

Que sonhos sonha quem sonhos garimpa?

Que vida vive quem vidas descobre?

Quem é a fotógrafa?

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Pedra filosofal

Que inteligência? Inteligência coisa nenhuma! A civilização, a sociedade, e os reality shows só serão compreendidos quando entenderem a ignorância humana. A ignorância humana, com todas suas reentrâncias complexas e suas formas mutáveis, é o verdadeiro átomo da civilidade, o bloco construtor da história. Isso já estava muito claro no que se refere aos reality shows. Quanto às civilizações e à sociedade em geral, ainda há certa resistência no meio acadêmico.

A pluraridade de crendices se alastra pelo tecido social como fogo em palha seca, sempre se reproduzindo porém nunca se conservando. É um sistema muito bem elaborado, e nada poderia exemplificar de forma mais intensa a verdade por trás da afirmação de que Deus escreve certo por linhas tortas. Funciona assim: os espécimes sociais mais estúpidos são aqueles que, por incapacidade de reflexão crítica e outros fatores menos polêmicos, têm a maior tendência a absorver novas informações de seu pacote cultural tal como estas lhes são apresentadas e a rejeitar informações de pacotes culturais destoantes não importando que qualidade tenham. Contudo, a estupidez, em suas manifestações mais primorosas, carrega em seu bojo distorções de entendimento que produzem como que mutações espontâneas nos memes que afortunadamente chegarem a esses indivíduos. Assim, de um jeito ou de outro, Deus arquitetou um mundo em que a realidade social conserva uma dinâmica própria incontrolável, independente do mérito dos pacotes culturais, e sempre sujeita a mutações, mudanças e, portanto, renovação. Abençoado seja!

Busquei no Google por "sociology of irrationality" e, assim com as aspas, nenhum resultado foi encontrado! Prova de que nosso meio acadêmico ainda está muito imaturo na tarefa de entendimento do mundo? Ou, num contexto maior, prova de que o meio acadêmico simplesmente faz parte da sociedade como todo o resto, e que portanto sua racionalidade é na verdade irracional e de modo algum compromissada com uma aproximação à verdade?
-.-
Update: 10 anos depois, agora em 2019, busquei novamente no google por "sociology of irrationality", com aspas. Encontrei um resultado. Estamos progredindo!

sábado, 2 de novembro de 2019

Sábado

Loucos, todos loucos. Louco eu sendo mais eu ao encarnar um não-eu.

Famílias se diluindo, amores se escondendo, músicas ressoando por teatros e casas cheias. Lei anti-fumo numa cidade super-poluída. Temos direito a respirar a fumaça dos carros sem que nada interfira nesse aroma tão característico da industrialização dos nossos humores.

Eu gosto de tocar. Música. Som preenchendo o ambiente. Tempo, intensidade, ritmo... E a vida vai seguindo. E sou louco, louco de mim de crer que entorto o tempo, de imaginar que o mundo se curva pra longe enquanto eu sento na beira, vejo tudo acontecer, e me distraio em paz... estranha paz.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Exausto

Amor me cansa
Estupida mania
De ter esperança

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Invisíveis II

Na pastelaria aqui perto da estação de trem a coisa ainda se passa como há décadas. Os japoneses atrás do balcão, os pedidos marcados em papeizinhos, o ritmo do serviço impressionando qualquer gerente moderno de fast-food. Pedi meus pastéis. Meu caldo de cana com limão. E logo após ser servido, vi uma apresentação notável: os guardanapos de papel haviam acabado. Eles nunca ficam apenas empilhados, ficam dispostos em uma espiral de papel assombrosamente perfeita. Vi os papéis serem repostos. No meio de toda a correria, lá foi seu Yoshiro pegando a pilha de papéis com a mão, e rodando os dedos ao redor como que num passe de mágica, e eis que em segundos a obra de arte havia nascido. Ninguém mais na cidade seria capaz dessa perfeição, muito menos em tão pouco tempo. Um espetáculo silencioso, gratuito, quase secreto...

Invisíveis

O navio vai se aproximando, lento mas decidido. Milhares de toneladas movendo-se sobre o atlântico, nada pode detê-lo. A pequena lancha é eclipsada em sua pequenez, mas nem por isso menos decidida. Manobra ao redor do navio até que os dois estão lado a lado. A velocidade é a mesma. Século vinte e um, radares modernos, comunicação por satélite... E o que está para acontecer aqui bem poderia ser uma cena de milênios atrás. Por sobre o grande costado, marinheiros descem uma escada de cordas, bem ao lado da lanchinha. Geraldo, o chamado "Prático", está nessa profissão há anos. Prepara-se, na beira da lancha, para saltar para a escada. Um erro aqui e ele pode cair ao lado do grande navio. Se der a sorte de não ser esmagado, terá ainda o azar de estar em uma região muito turbulenta, podendo até ser sugado para baixo do navio, para as hélices. Ele salta. Um dos pés perde-se no vazio. Agarra os degraus com as mãos. O outro pé acha uma beirada de apoio. Cuidadoso, vai subindo. Daqui até o porto, o navio manobrará sob suas ordens, com o capitão ao lado, observando...

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Lápis

Tão desconhecida
Contudo, tão familiar
Tão distante
Contudo, tão próxima
Tão diferente
Contudo, tão próxima.
A gente brinca,
Brinca por que é riso
Brinca porque brincar é bom
Brinca porque o futuro é incerto
Brinca porque é sincero demais
E, brincando, é sério.
É sério é verdade.
É sério porque queremos.
Segredos de nossas vontades...
É sério porque é a vida.
Nossas vidas...

Ritmo

Há mundos inteiros entre nossos mundos

E através de tantos impossíveis

E no meio de tantos intransponívies

Seu sorriso me alcança,

Sua vida me abraça,

E minha alma, com a sua, dança

Dança como toda dança um ritmo perfeito enquanto houver música

Seqüência harmoniosa de passos conjuntos

Tem sempre um ar de que foi ensaiada,

A coreografia que sai assim perfeita

E assim será até que acabe a música:

Os mundos todos que nos separam,

De lado todos, todos mudos:

Mundos atônitos, a nos admirar!

Saudade putrefada

Escrevi aquele trechinho pensando nela, claro que foi. Via o rosto dela diante de mim e as palavras sairam.

E tantas outras se apaixonaram ao ler. E ela nunca nem ligou.

Escrevi cartas com dezenas de páginas. Cada.

E ela escreve ao amado da vez: "para estar junto não é preciso estar perto, basta estar do lado de dentro".

E ela nunca viu que não sai do meu lado de dentro? Que minhas atenções são dela incondicionalmente?

De uns tempos pra cá essa cegueira, ou instintiva indiferença, me machuca. Me machuca a ponto de tornar difícil continuar amando. Me machuca ao ponto de doer mais e mais continuar amando.

sábado, 26 de outubro de 2019

Caixas

Disse o psicólogo James Hillman, autor de "The Blue Code" e "The Force of Character", dentre outros:

"I don't think anything changes until ideas change."

Essa é uma questão que se desdobra em inúmeros níveis.

Comecemos superficialmente. As coisas mudam por quê? O que causam as mudanças? Forças da natureza, iniciativa humana, e por aí adiante, segue-se a conversa.

Depois, reconhecemos que se a tal frase atém-se às coisas que mudam devido às mudanças de idéias, no mínimo devemos admitir que podemos apenas considerar aqui as coisas que de alguma forma ligam-se à atividade humana, pois longe dos humanos não haverá nenhuma idéia a persistir ou a mudar. Quase invertendo o raciocínio, mas ainda sem o fazer, concluímos por uma definição do próprio conceito de "mudança": é o fluxo de eventos da natureza que tem seu curso alterado por alguma interferência humana. Fica ainda aberta a questão sobre essas mudanças dependerem ou não da mudança de vontade nos humanos. Pode uma mentalidade não-alterada de repente protagonizar alguma mudança no mundo? Somos sempre conscientes de nossas escolhas, e de suas conseqüências? Não precisamos ser infalíveis em nossas predições para inserir mudança no mundo: ainda que os fatos corram numa direção totalmente adversa da esperada, infligimos ao mundo o estopim da mudança.

Finalmente, saltando para um nível metafísico mais profundo e agora sim revertendo o aparente objetivo inicial da frase do senhor Hillman: não seriam todas as mudanças nada mais que mudanças de idéias? Quer dizer, não importa o que aconteça com o mundo, EFETIVAMENTE, para todos os seres humanos, nada mudou enquanto não houver uma mudança delineável em suas percepções, em suas idéias. Não mudamos o mundo por conta da mudança no mundo em si, mas sim para legitimar a mudança em nossas idéias que tanto desejamos. Somos nossa mente, e toda nossa existência gira em torno de cuidar da sua manutenção e de manobrar o mundo para que ela tenha as percepções e idéias que deseja.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Who else

Could it be true that Edgar Allan Poe killed the poor Mary Rogers? The twnety-one years old girl was found with her hands tighted on her back when the body was found on the Hudson river. It was then the year 1841.

No matter if this is true or not, we are left with this consideration: what's really fiction among all the fictious stories we are left with? When it comes to aliens, vampires, witchcraft and so, it's easy to use the very laws of nature as a judge of the author's creativity. But what about strange stories that, no matter who improbable, are still plausible?

Sitting here, looking toward the horizon far away in this nice and soft noon, I feel that in fact I like these doubts. I like living with some possibilities in my mind instead of a bunch of strictly defined facts. It reminds me that I, myself, am not condemned to let all my imaginations forever locked inside. Some of them can come out, the world allowing or not, knowing or not, caring about it or not.

Nature is a very gentile hostess that allows us more than we imagine at first...

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Fill in the blanks

Acordo mergulhado num tempo que me engole

Me digere em pensamentos de longe,

Em vontades de outras coisas

Demora-se a escolher a própria vida, e a vida escolhe

Carreira brilhante, a tua

Futuro próspero vai ter!

Todos dizem, todos olham com uma certa inveja

Eu sem entender. Sem sentir o mesmo

Por que não vejo em mim o mesmo eu que vêem os outros?

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Nove

Vou defender a nota nove. É, nove. Nove é a nota máxima, dez não. Claro, não estou me referindo aos alunos de engenharia, matemática, física ou afins. A menos que o curso seja realmente bom e as provas tenham questões inteligentes. Deve ficar claro que estes comentários não se aplicam a provas teste.

Por que o nove? Ora, pensem num curso como o de sociologia, ou direito. O que significa um dez? Significa que você disse exatamente o que o professor queria ouvir. E que, se foi original em alguma medida na sua resposta, no máximo o foi por questão de estilo e elegância, não no arrojo das idéias. Uma idéia genuinamente nova irá certamente chocar o professor. Ele pode até ficar encantado com a originalidade, mas como cuidar desse desvio da normalidade no contexto de uma avaliação? Nessas horas, na grande maioria dos casos, ou o professor não conseguirá rapidamente captar a idéia inovadora e recorrerá à praticidade de subjulgá-la, ou entenderá sua grandiosidade mas deixará que as nuvens do ego eclipsem um devido reconhecimento do mérito. Por isso que, para uma mente realmente livre e original, o dez é uma nota de mérito inferior ao nove...

E como deve ocorrer a todo suspeito de genialidade, inicialmente paira a ambiguidade: é um nove devido à grandiosidade ou à mediocridade? Duvido que o gênio genuíno perderá tempo com esses detalhes...

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Sociológico

E dá lá pra arrumar uma namorada se você não tem carro? Como vai buscá-la? Como vai chegar em pouco tempo até a casa dela?

Até nos desenhos da Disney... O que seria do Aladdin sem o tapete mágico? Duvido que a Jasmin iria ficar separando os camelos dela para ir buscá-lo. Ele não teria a menor chance...

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Primeira aula

Aula de escrita, de literatura. Por que não? A idéia pareceu tão interessante, organizar um pouco as idéias...

O que levar na primeira aula? Nada? Com tantos textos escritos na gaveta? Vou escolher alguma coisa, sei que vou. E se não gostarem? E se não for bem assim que a aula funciona? Não é melhor deixar para depois, ir hoje só como um ouvinte curioso para depois pegar o esquema melhor?

Não, que fiquem os receios pra lá. Vou levar alguma coisa. Vou mostrar um pouco de mim e, se tiver que mudar, que saibam todos de onde estou partindo. Uma carta de amor? Um pequeno conto que escrevi sobre os bêbados que vi na rua? Meus secretos registros de que não tenho pudores com assuntos sexuais? O que vou lavar?

Poesia escrevo poucas, mas há um punhadinho delas também. E se rirem do meu pobre vocabulário?

Páginas dos meus diários? Registros super pessoais e nada imaginativos, registros do que a vida me deu, e não do que dei a ela... Valem também?

Há algumas centenas de fragmentos na gaveta. Cada um vindo de um passado diferente. De isolamento. De festas. De lágrimas e amores. Tantas diferenças. Tantas coisas que escolhi e lapidei e outras tantas que de modo algum controlei.

Fico olhando essas lascas de passados inacabados e pensando nos novos colegas que logo vão me ouvir. Quem quero ser hoje?

Título

O título é a última coisa que vai no texto, porque o nascimento é um processo sem controle. Escolhe-se o nome da criança depois dela nascida, não importa quanta discussão venha antes. O nascimento de um texto, por planejado e esquadrinhado, é também imprevisível.

domingo, 20 de outubro de 2019

Source

Quantos momentos de melancolia se somaram?

Demora lapidar essa arte de amar pra fora, amar a partir de dentro, cultivando o amor por si e não por recompensas.

Aprender a sorrir pro mundo para descobrir que, realmente, ele sorri de volta.

Não é uma forma de manipular o mundo para conseguir o que queremos. Nossas carências podem continuar ali, esperando um afago quente como aquele que há tanto se foi, com que tanto se sonha.

Mas o que paga esse sabor de ver as pessoas livres e felizes, de vê-las olhando em seus olhos e reconhecendo em você alguém feliz e ficando também feliz por isso?

Viola leis de conservação, eu sei. Viola de um jeito bom.

Listener

Pretty. Really pretty.

So young, seems to be my age. But such nice clothes, everything carefully choosen, the glasses, the hair carefully made. Is she married? Think she is. No, no. No ring. Not married. But surelly she graduated as early as possible and is already on a good job making good money, may be she lives alone...

Those were my first thoughts and impressions on the girl that would soon become my girlfriend.

And I had my way through her house, through her family, through her body and through her future. Or so she thought.

How could the two of us be so mixed together and still be living in worlds apart? Is it that her humor was so condemnably different from mine? Is it that love just ceased to exist because of its own will?

On the phone I used to tell stories. Stories that made my day happier, because I had to look for stories in order to have stories to tell and so I became more connected to the world and the world was a place full of stories. And she always loved to listen. And listened. And sometimes made her comments, always serious, thoughtful and pertinent opinious, shortly and objectively stated. And I realized I was happier for the much I found outside in the world after I met her, not for the things I found in her.

Now I tell stories to myself and to those who appreciate it because it's a reflexion of the things they like in the world more than a reflexion of the attention they so desperate want. And she still doesn't understand that the world she loved in me is but a single piece of the world outside which she so eagerly refuses to enjoy. I know I'm not being fair with this opinion on her, but fairness has its own realm, which cannot cover the entirety of life unless you give up being yourself.

sábado, 19 de outubro de 2019

Wired

Lá na Eslováquia, tão longe, tão longe.

Em Ribeirão Pires, seguindo de trem daqui...

Lá na Grécia, à noite, na frente de uma tela. Luz do quarto apagada. Claridade do monitor destacando alguns contornos do rosto.

Na Polônia. Quem diria, na Polônia... Um contorno de riso suave no rosto jovem, ao ler os elogios doces vindos de tão longe.

Mundo bom esse em que se pode exportar amor, agrados e sorrisos pra tão longe.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Muóónnnn

Ah, a mente quântica, nova modinha das livrarias por aí!

O caos libera nossa mente para o livre-arbítrio? Não. Para início de conversa, a inerente imprevisibilidade do mundo associada ao caos não é um indício de que a realidade não seja determinística. Apenas diz que não podemos prevê-la com antecedência, por conta de uma limitação intrínsica no acesso e manuseio de informações.

E as funções de onda? O gato de Schrödinger? A dupla-fenda?

Bom, até onde se sabe, o funcionamento do cérebro depende de um comportamento macro, ou seja, o que átomos e elétrons estão fazendo... Tá, um elétron já é pequeno o suficiente para cair nos encantos da descrição quântica, você vai dizer. Então a situação é aterradora: ao invés de livre-arbítrio, ficamos é com uma impossibilidade total de controle ou de autonomia. Se nossos switches internos saltam aleatoriamente de uma posição à outra, isso não é livre-arbítrio, é arbítrio aleatório, é descontrole total.

Eu gosto, amo, a atividade especulativa e as buscas de se ir além dos domínios atuais do conhecimento estabelecido. O que não quer dizer que eu curta adotar como verdadeiras considerações descuidadas feitas apenas para ter um apêlo encantador às fraquezas do nosso ego.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Darwin e Hawthorne

Taylor que me desculpe. Ford que me perdoe. Um engenheiro que quer entender uma máquina a vapor deve não apenas entender o esquema geral de um pistão sendo comprimido por um gás quente oriundo de uma caldeira e então imprimindo impulso a um eixo que o transformará em movimento circular. O engenheiro que realmente desejar o poder de pensar alterações na máquina, conceber desenhos melhores, deverá também entender a propriedade de cada material. Entender o aço de que são feitos os eixos, para saber o que eles suportam ou não suportam. Em que condições quebrariam, em que condições deslizam melhor, etc.

A assim dita administração científica era como o engenheiro ingênuo que se preocupa apenas com o esquema geral. Se a fábrica constitui-se de um grande número de pessoas desenvolvendo certas tarefas, vamos fazer as pessoas desempenharem suas tarefas o mais rapidamente possível, o mais "eficientemente" possível. Muniram-se de um cronômetro. Isso é como entender o esquema geral sem entender a natureza do material constituinte. Finalmente, anos depois, aconteceu o famigerado experimento de Howthorne, para mostrar que a natureza das pessoas envolvidas nas atividades é sim um elemento a ser considerado.

Mas ainda está para nascer uma consciência global desse fato. Por que não estamos conquistando o espaço? Indo para outros planetas? Por que não estamos explorando intensivamente os rincões mais escondidos deste planeta em busca de seus segredos científicos? Por que um problema tão bobo como a fome permanece como um dos grandes cânceres da nossa sociedade? Por que na era do computador, da comunicação instantânea, da investigação de partículas muito menores que o átomo, guerras ainda são uma ocorrência frequente sobre o globo?

Não quero ser ingênuo e dizer que é "porque ainda não evoluímos", ou porque "estamos ignorando nossa natureza". Se assim a natureza se manifesta, então ainda que este não seja o melhor dos mundos, é este o único mundo real e entender sua verdadeira natureza através dos detalhes de sua manifestação é o único jeito de enxergar as escolhas realmente possíveis num futuro próximo. Mas, para isso, essa natureza deve ser vista como realmente é, sem idealismos distorcedores da verdade.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Eta

O prazer é um dos combustíveis mais poderosos para a atividade humana. Será? As grandes criações da humanidade não são necessariamente frutos do prazer, do trabalho apaixonado. As pirâmides e a esfinge, as grandes metrópoles, ou mesmo o envio do homem à Lua. Emprego maciço do trabalho escravo, uso intensivo de assalariados vivendo nas camadas mais baixas da cadeia econômica, ou então uma rígida estrutura burocrática coordenando os esforços de um grande número de pessoas mais díspares. Quais dessas realizações surgiriam se, por hipótese, não tivéssemos que nos preocupar com nossas necessidades básicas e pudéssemos empregar todo o tempo da vida à satisfação de nossas paixões?
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Dez anos depois: Fica claro aqui o quão difícil é deixarmos os equívocos da humanidade para trás e pensarmos com a própria cabeça até ver o que olhamos por nós mesmos. "Grandes criações da humanidade"? Sim, quando ohamos o coliseu, as pirâmides e a esfinge, sabemos que esse monte de pedras não se amontoa sozinho daquele jeito. E se você e seus amigos quiserem construir outros pra vocês, não vai dar. A não ser que você tenha uns milhares de amigos (não de facebook; amigos mesmo!) Hoje está claro para mim que quando a sociedade classifica algo de "grande" está frequentemente deixando algo de lado, varrendo algo para baixo do tapete. Nem mesmo a ciência, desafio real de desvender os segredos da natureza, escapa dessa sede de hipocrisia. O que seria da ciência sem a matemática das balísticas, a quimica da pólvora? O radar que hoje salva aviões de colisões foi desenvolvido para poder derrubar outros aviões. As radiações que hoje encontram e tratam doenças foram compreendidas para destruir cidades inteiras.

Curioso que sociólogos, cientistas, políticos, turistas... todo mundo, continuam considerando coisas como a música e a literatura como eventos "lúdicos" - sempre com uma certa conotação de vagabundagem, mesmo quando esta não é explícita. Deveríamos nos questionar mais quanto às nossas motivações - e lidar com todas as vergonhas que virão à tona no processo.

Talvez esse seja um ponto central de uma devida definição de estágio civilizatório - se alguém ousar tentar tal definição. A mudança em nossas motivações. Quando deixarmos de considerar manifestações de poder e capacidade de opressão como nossos maiores feitos e passarmos a valorizar e admirar abertamente, mais que tudo, as verdadeiras grandezas, então teremos finalmente passado a um estágio significativamente diferente. Até o momento temos apenas a ilusão. A ilusão em forma de tecnologia, gravata e pib. Mas não passamos de selvagens estúpidos segurando uma tecnologia fantástica sem saber o que fazer com ela. Ainda estamos no primeiro estágio. Ainda apresentamos um rendimento extremamente baixo quando comparamos a felicidade real que obtemos com o esforço empreendido e com o conhecimento disponível.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Impulsos

As pessoas oscilam entre impulsos irresistíveis e maremotos de inseguranças das mais terríveis. A Priscila mandou um e-mail pro cara, chamou ele pra sair, ele respondeu, disse que sim, e ela nunca mais escreveu pra ele. E ela fica triste que ele não escreve um e-mail pra ela. E nada no mundo vai convencer a Pri a escrever. E eu fico pensando, aqui, se o tal cara também não está lá, só esperando uma resposta dela, e pensando "droga, acho que ela desencanou". Essa coisa de "talvez" é uma areia movediça que traga as pessoas pra suas masmorras internas, tranca o cadeado e joga a chave longe.

15 de outubro de 2019



Nasci.








segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Efeitos e meios

Ah, quantos protestos bobos pelo meu expresso ateísmo! Me deixem, me deixem, e pensem por um minuto...

O que lhes causa indignação nessa discussão sobre Deus é antes a vontade que repousa no coração de vocês de que Ele exista mesmo do que qualquer evidência irrefutável e incontestável de alguma manifestação.

E quanto ao bem estar ao rezar? E quanto à curas milagrosas de pessoas que têm fé?

Então vamos esclarecer uma coisa: uma coisa é caracterizar um determinado EFEITO no mundo natural. Outra coisa é ponderar sobre os mecanismos e a natureza subjacente da realidade que foram responsáveis pela ocorrência desse efeito.

Pessoas com fé recuperam-se melhor. Têm uma vida melhor. Claro, estamos considerando aqui as pessoas simpáticas que têm suas vidinhas tranqüilas e tal, não religiosos fundamentalistas que se explodem ou guerreiam com outras religiões. Enfim.

E daí? O cara acredita em Deus e se recupera mais rápido, logo Deus existe? Negativo! O que isso prova é o efeito benéfico DA CRENÇA em Deus, não a existência de Deus em si. Um ateu com uma postura positiva com relação à vida certamente experimentará efeitos benéficos também.

Além disso, pessoas religiosas tendem a viver em ambientes gregários dinâmicos. Reuniões na igreja, etc etc... Ora, a qual ser humano o convívio social faz mal?

É preciso distinguir claramente, nos efeitos observados, os limites das extrapolações que se pode fazer ao tentar explicar suas naturezas.

domingo, 13 de outubro de 2019

Ponderações

É tentador dizer de uma vez que Deus não existe, afinal de contas, não obstante a impossibilidade de provar tal afirmação definitivamente, é assombrosamente mais plausível a hipótese de que os homens criaram a idéia de Deus do que a estranha possibilidade de algum Deus real ter criado os homens. Não há sinais de Deus no Universo que não dependam de nossa vontade de encontrá-lo. Não é como a manifestação das outras realidades. Rejeite a idéia da gravidade e ande precipício adentro: cairá, certamente. Use toda a fé e poder de mentalização de que seu espírito é capaz negando a eletricidade, e morda um fio de alta tensão. Certifique-se de que um de seus pés esteja sobre uma poça d'água, pra mostrar que realmente seu poder de mentalização é capaz de negar a natureza. E verá que, na prática, a natureza não hesita em negar nossa fé sempre que essa fé apela para absurdos. Ainda assim, direi não que Deus não existe, mas para manter-me coerente como bons princípios de investigação que tanto admiro, ficarei apenas com isso: Deus é altamente improvável. Apenas uma observação a mais: a vida é altamente improvável e aí está. O grand Canyon é altamente improvável e lá está. O Google é altamente improvável e lá está. Minha primeira namorada se chamar Gisele e morar no Tatuapé é altamente improvável mas foi o que aconteceu. Objeção registrada. Diferentemente de todas essas improbabilidades, contudo, Deus até agora não deu um sinal que preste.

sábado, 12 de outubro de 2019

Ilhas

Os engenheiros não sabem nada sobre as pessoas que usam seus carros. Os apaixonados por jazz não têm a menor idéia de como são as alegrias dos apaixonados por rock. Os roqueiros não entendem todas os sentimentos de uma boa noite de forró. Os sérios não entendem os alegres. Os saidinhos não concebem a paz da vida reclusa como algo venerável. O que sabem os diplomatas sobre os mundos que articulam? O que sabem uns sobre os outros?

Somos ilhas, ilhas fechadas, isoladas. Raramente sai um tímido barquinho de uma ilha a outra, e nunca sem perder muita coisa ao mar antes de chegar a um destino aleatório qualquer. Você e seus amigos são ilhas. Você e seu trabalho: ilhas. Os músicos todos que você não conhece: ilhas. Somos fundamentais para que o mundo aconteça como acontece, mas ninguém sabe o que está acontecendo. Colhemos garrafinhas mensageiras trazidas nas ondas e achamos que são o universo.

Ninguém tem o controle. Ninguém tem as rédeas. Ninguém vê a cena. Talvez porque o palco seja grande demais. Talvez porque não tenha ninguém olhando.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Festa

Tá certo que meus ânimos voavam longe por terrenos abstratos demais perto da rotina mundana e casual dos últimos dias.

E que o ambiente era de uma alegria pura, todos dançando, conversando, som alto e sorrisos.

Mas como ficar só ali? Eu via um senhor e uma senhora dançando, e pensava na vida inteira, da solidão às famílias gigantes, em todos os espectros. A humanidade tinha ali um contra-argumento veemente contra guerras e intolerâncias. Porque aquelas pessoas estavam ocupadíssimas sendo felizes e nada mais, e era bom. Valia a pena.

E ela dançando... Linda.

Há injustiça em tentar descrever? Talvez sim.

Deus deve tê-la concebido antes de todo o resto. A viu dançando e pensou que a obra valeria a pena. E que deveria haver toda uma humanidade em volta para poder apreciar também.

E se esse deleite todo de apreciar essas coisas não fosse a resposta final para todas as filosofias que já minuciaram sobre os objetivos da vida, o que mais seria?

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Pudores

- Esse excesso de pudores com piadas é horrível! Tipo, quando o Obama fez menção aos jogadores de pára-olimpíadas e todos cairam matando criticando-o... Foi uma colocação apenas, sabe? Informal... nada de mais!

- Não sei não! Imagina se começam a usar você em frases informais do tipo: "Eu ainda não danço bem não, danço quase tão mal quanto o Adoniran!".

- É, tá, entendo...

Mas depois desentendi de novo. Eu danço mal, não danço, então se alguém fizer menção a esse fato e eu ficar chateado, o problema é antes da minha relação pessoal com a verdade do mundo do que da sinceridade indevida da pessoa, não é?

Nossos egos demandam algum tipo especial de monopólio pela mentira, vai ver é isso.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Conselho

Eu lembro daquele apartamento pequeno, num bairro afastado. Casado, minha família. Eu saía cedo todo dia para o trabalho. Entrava em casa no começo da noite e os pequenos pulavam no meu pescoço. Quem não é pai consegue imaginar a sensação que isso dá?

Agora os vejo poucas vezes por ano. Um casado, tem filhos. Outros trabalhando, estudando.

Outro dia o do meio me ligou. Queria conselhos sobre emprego. Tinha uma vaga que pagava bem mas na qual ele temia ser infeliz.

Ele queria um conselho meu. Eu mal sei quem ele é hoje e ele queria um conselho meu.

Fui trabalhar na pastelaria onde evito usar o tempo livre para pensar na minha vida. Mas fiquei pensando nele.

O que eu poderia dizer? Dinheiro é importante, claro.

Que conselho teriam me dado?

Quis ligar pro meu pai e reclamar da falta de conselhos nas últimas décadas...

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Festa

Quatro dias para que eu me torne outra pessoa, praticamente. Falta pouco, quatro dias. Quatro dias e um mundo de coisas que só eu sei será sabido de muitos. Muda-se assim? Eu já era outro? Ânimos e segredos, sonhos e vergonhas. Tão simples. Tão impossível.

Ingratos

Os religiosos, além da ignorância cega sobre o mundo que os circunda e da triste sub-utilização que fazem de suas massas cinzentas, são também muito ingratos com todos os céticos da história, que lhes deram o mundo moderno repleto de recursos para saúde e utilidades diárias tecnológicas de todas as formas.

Que possível progresso trouxe a religião à humanidade?

Ana

Minha doce impossível
Tem um doce quando dói esse amar
Tem um suave nas ranhuras dessa tragédia
E as palavras que você me inspira
A tantas outras comove
Pra acreditar no amor
Só mesmo não sendo amada, não é?
E esta, talvez, seja a prova maior
Que amar não é coisa do mundo das coisas
Que amar é sonhar

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Ingratos

Os religiosos, além da ignorância cega sobre o mundo que os circunda e da triste sub-utilização que fazem de suas massas cinzentas, são também muito ingratos com todos os céticos da história, que lhes deram o mundo moderno repleto de recursos para saúde e utilidades diárias tecnológicas de todas as formas.

Que possível progresso trouxe a religião à humanidade?

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Faxina

Apesar do sol lá fora, fiquei em casa. Fiquei para arrumar as coisas. Literaturas velhas e uns rascunhos jogados, misturados. Fussei aqui e ali, joguei tudo no chão. Parece que o caos completo é um convite muito mais enfático à ordem do que a quase-ordem. Ontem no bar estava vendo as pessoas... Umas muito donas de si, outras sem nem saber onde estão.

Hoje estou aqui, comigo, me vendo. Não sei se sou por demais dono de mim. Ou se não sei onde estou.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Carisma

Ele é um cara legal, todos gostam dele.
No meio das pessoas, as conversas fluem, nascem como se não houvesse outra opção para a Existência.
- Ele não é só doido, ele é meio que um personagem!
Compartilho da opinião do Thiago. Ele é um personagem. Ninguém ri daquele jeito, nem ele. Só o personagem dele. Alegre de uma alegria que contagia.
As pessoas se aglomeram em volta para ouvir qualquer trivialidade que seja. O que importa é que seja contada por ele.

Aconchego

Tinha uma poesia passando frio na rua, à noite. Eu a vi e a cena comoveu meu coração. Linda, linda. A trouxe para casa. Fiz chocolate quente, dei-lhe um banho. Nos deitamos juntos, e a noite se transformou em versos com rima e tudo.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Breve

Eu ainda não via seu rosto
Quando eu fechava os olhos, eu ainda não via seu rosto
Lembrava vagamente do seu sorriso
E da sua voz
Seu jeito de me olhar nos olhos enquanto dançava
Deitava à noite em meu travesseiro
E de você degustava essa lembrança vaga
Que tem quem viu uma única vez
Mas agora que te vi de novo e de novo
Tenho seu rosto comigo
E entendi seu jeito de se aconchegar no meu abraço
Até encontrar todos os pedacinhos de afato
Entendi detalhes do seu cheiro que não sabia
E ouvi suas histórias, segredos, sonhos, medos
E vi suas alegrias. O canto, a dança, a vida
Você gosta de celebrar a vida
Eu ainda não via seu rosto
Quando eu fechava os olhos
E agora vou dormir
Fecho os olhos
E vejo seu rosto
E vejo dentro de você
E a saudade é tão maior

Oferta

Ontem eu descobri que sou descartável
E doeu, e entristeceu, e vergou meus ânimos até que tocassem o chão
E olhando a esse rebuliço de humores
Pensativo, pergunto à minha sombra: por que?
Descartáveis somos todos, não somos?
Descartáveis somos todos
Venerável seja essa rara espontaneidade
De deixar pra lá sem delongas
De esquecer sem maiores justificativas
Você é raro, é único
E todo mundo é.
Nessa abundância de raridades insubsituíveis
Há sempre um novo raro
Todos descartáveis

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Foi assim

- Finalmente eu fui conhecê-la!

- É mesmo? Não acredito! E aí?

- Ela é linda, linda! E tão, tão... tão interessante!

- E o que aconteceu, me conta!

- Então, conversamos pouco, eu estava tímido, sabe, sei lá, leve, por um lado, e tímido por outro; duas coisas que deixam a gente quieto.

- Ué, então não conversaram muito?

- Na verdade não, porque ela tinha que trabalhar. Mas rascunhamos algumas perguntas sobre as nossas vidas, nos olhamos...

- E depois?

- Depois os anos se passaram, cada um vivendo sua vida no seu canto. Depois um morreu. Depois morreu o outro.

domingo, 29 de setembro de 2019

Impulsos

As pessoas oscilam entre impulsos irresistíveis e maremotos de inseguranças das mais terríveis. A Priscila mandou um e-mail pro cara, chamou ele pra sair, ele respondeu, disse que sim, e ela nunca mais escreveu pra ele. E ela fica triste que ele não escreve um e-mail pra ela. E nada no mundo vai convencer a Pri a escrever. E eu fico pensando, aqui, se o tal cara também não está lá, só esperando uma resposta dela, e pensando "droga, acho que ela desencanou". Essa coisa de "talvez" é uma areia movediça que traga as pessoas pra suas masmorras internas, tranca o cadeado e joga a chave longe.

sábado, 28 de setembro de 2019

Amanhã

Amanhã eu vou ligar pra você
E vamos conversar coisas leves
Vamos rir saudades de histórias simples
Que em nossas distrações brotam um mundo
Um mundo verde e sereno e morno
Um mundo que a gente gosta de viver
E vamos ser de verdade
Essas coisas que a gente fica sonhando
E vamos ser agora
Essas coisas que se deixam por descaso no futuro
Sempre no futuro
Pensando bem,
É agonia
É agonia, que eu não aguento
Que eu não aguento você ter passado a vida no meu futuro
Sempre no futuro
Sai do meu futuro e me vem de presente
E me xingue por perder tempo com trocadilhos tão estúpidos
De uma estupidez que é do tamanho da minha agonia
Do meu nó no estômago
Do meu nó nas tripas, nos dedos, nos braços, do meu nó nos sonhos, nas pernas, no nariz...
Amanhã vou ligar pra você,
E não vou falar nada disso
Vou falar de coisas simples
Das pequenezas do cotidiano
Porque em nenhuma outra conversa
Farei tanto de tão pouco

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Crônica de uma leitura

Leio as letras dela
Palavras bem escolhidas
Sintaxe lapidada
Vírgulas lixadas e bem aparadas
Tudo medido, adequado, próprio
Tão natural
Leio as palavras dela
E como meus olhos que sabem das palavras
Sem que se dêem conta de só ver letras
Sinto que posso tocar seu rosto
Ainda que realmente não o toque
E que tenho pra mim seus olhos
Ainda que realmente não o tenha
Minha alma, embora minha não seja.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Adoniran

As palavras têm rosto
Claro que têm
Um rosto diferente do meu
E que eu não sei se é mais bonito
E que não sei se é mais feio
E ainda assim, de certa forma
É um rosto que também é meu
E quando me olham nos olhos
Esses outros olhos
Por vezes gostam
Por vezes não
E se me gostam nos meus olhos
Meus olhos mesmo
Se me gostam ou não
É coisa que, com aquela,
Não guarda relação

Angra

Ficamos os dois ali, à beira da vida, deixando tudo passar. Abraçados, quentes. Te sorri três futuros e você me olhou: um presente.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

sCRAP

As pessoas deletam scraps no Orkut. Mas essas mesmas pessoas são incapazes de compreender scraps encontrados nos perfis de outras pessoas, e aí causam confusões que motivam essas outras pessoas a deletarem seus scraps.

Ao julgar os outros, mentimos a nós mesmos sobre quem somos.

[SIM, isso foi escrito há milênios... pensei em adaptar para a termilogogia atual, facebookiana, mas que se evidencie aqui a coerência dos meus cabelos já esbranquiçarem].

Papéis

Às vezes escrevo pra ser mais eu mesmo. Pra deixar nas palavrinhas, fixadas nas suas formas, minhas deformações interiores. Pra eu ver na minha frente, num texto visível, existente, as coisas que sou.

Às vezes escrevo porque não quero ser eu. Não quero ser quem sou. Escrevo para ser outra coisa. Para ser coisas que imagino. Para ver o que consigo imaginar. Para ver se invento um outro passado e penso em outras coisas. Pra ouvir outras vozes. Pra me ver em outros lugares.

Fuga?

Sonhos?

Anseios?

Ou só o prazer inexplicável da imaginação?

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Hoje

E se ela não gostou de mim, teve qualquer impressão ruim? E se ela não ligar mais? E se, aos olhos dela, eu for uma pessoa descartável demais? E se eu descobrir que meu mundo imaginário é assim tão maior que eu, que só de longe agrado? E se eu fiz perguntas demais, fui invasivo demais? E se fui tímido demais, fiquei longe demais, ri pouco, não cheguei perto o suficiente para mostrar uma desinibição mais invejável? E se essa agonia não acabar nunca mais?

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Primeira lei da termodinâmica

É uma troca justa: quando a vida acontece, a arte espera. E vice-versa.

domingo, 22 de setembro de 2019

Urgente

Depois de tantos anos fazendo tantas coisas, descobri: ainda não nasci. Qualquer dia desses, precisarei dar conta dessa pendência. Não muito não. Um sonho, um jeito, e um desespero inconsequente de ser eu mesmo.

sábado, 21 de setembro de 2019

Estúdio

Ele chegou cedo. Ficou sentado num canto, do lado da mesa de som, de frente para o palco. Pessoas foram chegando. Em casais, em grupos. Ele olhando. Batucando na perna, na bota, e olhando. E a banda seguia tocando músicas e mais músicas. As pessoas ouviam, dançavam, olhavam, se beijavam, se conversavam, se misturavam. E ele ali, olhando. Ansioso, o tempo não passava nunca. Desesperado, o tempo passava rápido demais.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Frio

Se um dia eu comprar uma puta, vai ser no inverno. No frio as putas, mais vestidas, são muito mais mulheres.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Da diretoria

A competência atribuída é sempre função da posição institucional. Não significa que você está condenado a ser para sempre subjugado, caso tenha grandes competências ainda carentes de oportunidade de manifestação. Significa que você deve, também, cultivar a capacidade de ascensão institucional. A grande injustiça é que essa última capacidade, sozinha, dá conta de elevar uma pessoa até os mais altos postos, não importando o quanto lhe falte das outras habilidades.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Ouvi ontem no ônibus

- Maaalandro... liga só, que ontem tive uma idéia hiper. Tava pensando sobre nossa aula de literatura, daí li umas matérias de física bizarra na Superinteressante. Aí pensei: o amor é o sexto estado da matéria, e tem massa zero!

- Massa zero, o amor?

- É!

- Você nunca viu minha namorada, não é?

- !

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Paradoxo

Por que é que dizer a um louco que ele é louco só aumenta sua loucura, se a informação é a mais pura tradução da verdade?

Deve ser isso: se tem uma coisa que perturba a pacífica instalação da sanidade, é a verdade!

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Lá em SW-56732LLBTY

Os Tzworgs manobravam rapidamente pelo céu. Canhões a laser combatiam, inutilmente. Disparavam no vazio. Tão inútil que era mais um protesto que um contra-ataque. Tão inútil que era patético.

Mas os Mutiks poderiam deixar que eles tomassem a superfície. Era o subsolo o reino secreto. No subsolo vivia mais de noventa por cento dos mutikianos. Lá estavam as industrias de reprodução genética, as escolas, os centros de treinamento de guerra, as indústrias de construções, de máquinas, de naves. Foi graças ao subsolo que os mutikianos dominaram metade da galáxia.

E disso os Tzorgs, desgravadores rústicos que eram, não tinham idéia. Com eles era destruir, ocupar, se apoderar e só. Vitória na certa, sem muita conversa. Sem lenga-lenga. Assim acreditavam estar tomando mais um planeta, e prestes a possuir a maior pérola deste cantinho do universo.

Os Mutiks deixaram que toda a superfície fosse destruída. Esperaram que o último Tzorg pousasse sobre a maré de corpos e destroços, comemorando. E os engoliram para sempre.

domingo, 15 de setembro de 2019

Mãe

Ela cuida da cozinha, mas deixa que a cozinha a agrida. Ela suspira, ela bufa. Movimentos rápidos, gestos descoordenados de uma felicidade forçada que não engana ninguém. Panelas, pedaços de frango, o gás, fósforos. E ela bufa, olhar pesado, reclama duas frases soltas ao ar, entremeadas de um "não quero reclamar, não estou reclamando", que jamais conseguirão mentir o que querem. Ela se pôs embaixo da própria vida e deixou-se esmagar. E de repente ela canta, uma música alegre, mimetiza alguma espécie de passo dançante enquanto transita a bandeja da pia à mesa. Tiras de carne queimadas pela mesma desatenção e descapricho que ela tem consigo mesma. E ela cantarola algum "tchu-ru-ru" em ritmo de juventudo beatle-maníaca. É assim no hospício: a ausência completa de coerência ou continuidade entre humores e atos. Ela está louca. Não consegue ser quem quer. Não quer ser quem é.

sábado, 14 de setembro de 2019

Escovando os dentes de manhã

Eu queria ser o Alberto Caeiro. Mas que coisa é essa de querer ser alguém? Eu sou quem sou, e apenas isso. E serei mais quanto menos pensar em ser. Querer ser qualquer coisa é uma espécie de doença do pensamento, que se distrai de perceber que, o mundo completo que é, já nos tem sendo o que se é.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Pergunta

O Clube Militar no Rio de Janeiro comemorou o golpe militar.

E daí?

Há os que comemoram a ascensão de Hitler.

Há os que comemoram o ataque ao World Trade Center.

Há os que comemoram uma grande final de futebol.

Há os que comemoram a saúde.

Há os que comemoram a indenização.

Há os que comemoram o pôr-do-sol.

Há os que comemoram sem pensar.

Há os que comemoram os sofrimentos.

Há os que comemoram os sorrisos.

Cada um no seu canto.

Não acredito em juízo final. E nem vou acreditar, ao menos enquanto não me disserem quando raios foi o dia do juízo inicial...

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Escada

Eu ia escrever de amor agora. Eu ia escrever de solidão. Ou de alegria, quem sabe? é tão bom escrever sobre alegria, e escrever com alegria. Altivo, animado, inteligente e ainda por cima-bem humorado: o certificado indubitável que grita com o silêncio nobre das letras: "sou uma boa pessoa".

Dane-se. Acho que só gosto de ficar batendo nas teclas. Do barulho que faz. Que mal há? Precisa ter um tema?

Temas há tantos, tantos tantos tantos!

Mas quando a gente escolhe um tema e escreve e escreve sobre ele, escrevendo bem ou escrevendo mal virão muitos a ponderar, avaliar, comparar.

Que é o jeito errado de viver boa parte das coisas da vida.

Comparem os cálculos estruturais da viga da ponte gigante, que desses aí, os errados são assassinos, que a natureza não perdoará.

Mas quanto aos lirismos da alma vomitados em letras quaisquer, não, não há comparação possível, pois sua realidade se define em si.

Na escada suja da Estação da Luz, empoeirada, mal acabada, uns mendigos no chão, cantando felizes uns funks quaisquer, jogados na calçada, cobertores rasgados que afugentariam o frio mais por dissuasão psicológica do que por qualquer isolamento físico. Riam, riam e se riam.

No divã de estofamento aveludado a loira pastificada, siliconada e botoxada (leia "botochada" mesmo, pra ficar mais debochado), ia lá falando das mazelas da vida.

A bolsa do doutorado não saía. Ônibus lotados todos os dias. Ninguém respeitando a privacidade espacial seu corpo feminino: homens se apertando contra sua pequena estatura com a desculpa inegável da coletividade sobrecarregada daquela indecência administrativa. Baixinha, miúda, ia indo. O filho em casa, pequeno. Os pais dela ajudando ainda. E o pai do menino sumiu. Não deu certo, paciência. E ria, e ria com a criança, e contava histórias. E passava o dia no laboratório, escrevendo, lendo, tubos de ensaio, microscópio, egocentrismo da orientadora, exigências idiotas da FAPESP, burocracias fossilizadas da universidade. E conversava rindo, que o Hubble não daria conta de medir a beleza dos seus sorrisos.

Tem todos os temas ao mesmo tempo, mesmo quando a gente não escreve nada demais, nada específico. Tem todos os temas dentro da gente. O leitor que só vê palavras, desculpem ser politicamente incorreto: é um fraco, um idiota, um limitado. É alguém a quem nada mais resta fazer a não ser comparar com outros, a não ser esconder-se atrás de uma pretensa cultura para negar a fraqueza de sua introspecção.

O bom leitor encontra-se com o autor através do tempo. Transcende, entende. Entende que tantas e tantas diferentes expressões nascem das mesmas perturbações da alma.

E você não se engana, não: já mais de dois temas se vão discutindo aqui, sem conexão aparente.

Que a confusão da alma também é um tema em si, não é?

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Janela

Talvez eu seja promovido.
Talvez eu arrume um emprego melhor.
Talvez eu me torne um aluno melhor.
Talvez eu mude de casa.
Talvez eu seja despejado.
Talvez eu seja cantor.
Talvez eu conheça o amor da minha vida.
Talvez eu ganhe na loteria.
Talvez eu vire presidente do mundo.
Talvez eu tenha super-poderes.
Talvez a Lua exploda
Talvez a gente é de mentira
Talvez Deus exista
Talvez eu seja famoso
Talvez eu seja pobre
Talvez eu morra
Talvez eu seja poeta
Talvez eu já tenha morrido
Talvez eu mergulhe
Talvez eu seja um imperador
Talvez eu seja um rei
Talvez seja doente
Talvez eu seja imortal
E nesta tal vez,
Que seja qual for,
Que falta você me faz!

terça-feira, 10 de setembro de 2019

M

Você, com seus costumeiros sorrisos esbanjados e olhares admirados e admiráveis, contando feliz...

Contando que ele é um cara tão inteligente, viajado, conhece o mundo inteiro...

E eu, introspectivo, pensando: "é, eu só te amo..."

Você contando que ele é engraçado, um humor refinadíssimo, foi super divertido jantar com ele outro dia...

E eu, olhando pro alto meio de canto, pensando "é, eu só te amo".

Você contando que ele pagou a conta, que só sua parte passou fácil dos oitenta reais, mas nem sabe precisar quanto, ele não deixou que você visse...

E eu meditando sobre a leveza etérea da minha algibeira: "é, eu só te amo".

Você contando como era repulsiva às primeiras investidas dele. Ele namorava, que coisa horrível! Mas declarava todo amor a você, terminou o namoro. Insistiu, te contrariou, brigou. E você começou a considerar ceder, toda encantada.

Eu, mergulhado na estranheza desumana de tanto respeito que lhe tenho, considero: "é, eu só te amo".

Eu te amo, é só. Vá, viva e seja feliz. Vá!

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Leitor

- Viu lá o que ela fez?

- Vi!

- E aí?

- Cara, sério... Sou incapaz de acompanhar. Incapaz.

- Caramba, é tudo isso?

- É sim!

- Qualidade mesmo?

- Qualidade? Você tem que ver como ela escreve sobre as coisas, não dá pra acompanhar, não tem como!

- Tá, mas o que quer dizer com isso? Que ela te fez desistir de escrever? Que vai tentar superá-la?

- Que estou tão feliz que ela exista!