sábado, 24 de agosto de 2019

Excessos

E foi tão forte, tão repentino, tão intenso dentro de mim, que não houve tempo para que meu rosto acompanhasse. Que não houve tempo para que meu olhar mudasse. Que não houve tempo para que eu escolhesse palavras mais apropriadas a um sentimento que transcendia a cordialidade e a admiração respeitosa. Paixão. Desejo. Admiração. Uma explosão instantânea de identificação com ela. Tão intensa que ficou para sempre contida dentro de mim. E então foi que ela nunca soube que havia em mim esse sentimento. Desde o segundo milésimo de interação comigo, eu já estava inteiramente tomado por esse sentimento. E eis que, para ela, sempre fui como fui. É meu normal, e pronto. Amá-la é uma obviedade. E como acontece com todas as obviedades ao longo da história, esta também dificilmente será descoberta. E o mundo não é retilíneo e bem definido como em histórias. O que eu faço para esconder todo esse amor? Para onde mando tanto desejo represado? O que fazer com os impulsos mais tenros de bons tratos e agrados? Ao fazer desse amor um amor secreto, tornei-o infinito. Eu gosto dela mais do que de mim. Sem nunca ter declarado todo esse amor, sou dela o "único triunfo", a amizade masculina que deu certo. Teria dado certo, sem tanto amor assim? Sem um amor tão grande que se dispõe a se esconder, assim, voluntariamente?

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