domingo, 10 de maio de 2015
Pela culatra
Eu juro que tive a melhor das intenções. Gastei caro no presente. Queria que você se envolvesse com algo, que ocupasse seu tempo com algo que ama, despertando assim uma energia interior adormecida. Mas você não se identificou com a escola. Algo deu errado. E agora você sente algum tipo de culpa que não quer dividir comigo. Sente que gastei dinheiro à toa, sente que não honrou o presente que eu lhe dei. Eu não queria ter causado esse peso todo, juro que não queria. E ainda assim, é assim que aconteceu.
Todos foram embora
E a sala está vazia. O barulho dos carros passando lá na avenida. O celular sobre a mesa. As notícias do UOL abertas na tela do computador. Abro a notícia do Gizmodo sobre civilizações extraterrestres. Leio os comentários. Penso no coeficiente de estupidez: a razão entre comentários briguentos ou idiotas para o número total de comentários, C1. E no coeficiente de esperança, necessariamente 1-C1. É raro encontrar algum lugar na internet em que C1 seja menor que 0,5. Ou seja... pelo menos metade dos comentários presentes em qualquer notícia com fórum de discussão aberto está ali apenas para falar mal, provocar, falar besteira... A predisposição humana a falar sem a menor necessidade é incrível.
Concluo: sou humano.
sábado, 9 de maio de 2015
Bom dia
Manhã fria. Eu tomando café na lanchonete e, teimosamente, escolho uma das mesinhas de fora. Gosto de sentir a temperatura do dia, mesmo que seja fria.
No estacionamento, ao lado, um gari varria as folhas caídas no chão. De repente vi que ele se deteve, olhando para baixo, e não entendi bem a razão.
Observei que ele começou a cutucar o chão com cuidado, com a ponta da vassoura, bem de leve, e uma borboleta saiu voando. Então, normalmente, ele retomou seu trabalho.
Teste do sofá
O couchsurfing.org é um site incrível. Em português a tradução livre seria algo como "surfando nos sofás". Permite que viajantes se encontrem com pessoas que gostam de viajantes. Você quer ir para Piacenza, na Itália, mas não quer saber de hotéis e instalações "artificiais"? Que tal uma opção monetariamente mais barata e culturalmente mais rica: ficar na casa de alguma família genuinamente italiana por lá?! É isso o que o site permite. Que viajantes encontrem pessoas dispostas a recebê-los.
Fazia três meses que eu estava com a Silvia. Eu estava encantado com ela. Apaixonada por livros. Por boa arte. Bonita, educada e inteligente. Conseguia conversar de tudo com ela. Política, cultura, religião. Até que cometi um erro. Comentei a ela sobre o couchsurfing.
E ela ficou indignada.
"Que absurdo! Receber algum estranho dentro da minha casa? Que idéia louca!"
Pior de tudo. Ela nem tinha entendido ainda que em boa parte das vezes não há nem mesmo cobrança financeira dos hóspedes. Em geral acerta-se alguma "ajuda de custo", referente a alimentação, ou algum presente de gratidão, mas não se cobra uma estadia.
"O quê? De graça? Ah não, você perdeu o juízo, isso é ridículo."
Naquele instante eu tive certeza de que éramos fundamentalmente tão incompatíveis que não poderíamos, de modo algum, continuar juntos por muito tempo. E assim foi.
Esse caso foi o primeiro de muitos. A Silvia não foi a primeira namorada a, digamos, não passar no teste do sofá.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Fútil
As pessoas conversam sobre quem está confinado no BBB. As pessoas vão aos shoppings comprar bolsas e sapatos caros. Acho as pessoas fúteis, vazias. Não estão preocupadas com o avanço da humanidade. Não estão preocupadas com a história da ciência. Não estão preocupada com as grandes crizes políticas. Aí eu penso em mim mesmo neste contexto. Onde me encaixo em tudo isso. E onde todas as coisas se encaixam.
Penso que exite um sentido em se preocupar com as questões maiores. Queremos construir um mundo melhor. Queremos resolver os grandes problemas da humanidade.
Mas... pra que? Queremos resolver tudo isso para termos a chance de ter uma existência pacífica.
Aí, vivendo uma existência pacífica, poderíamos fazer qualquer coisa e sermos felizs à vontade.
Qualquer coisa.
Como, por exemplo, discutir sobre os confinados do BBB ou comprar sapatos e bolsas só porque são bonitos.
Sinto-me fútil em minha profunda dificuldade em aceitar certas diversidades.
Valeranello
C'era li i gatti. Erano in realtà come fossero le veri proprietari della casa. E c'era il proprietario. Questo signore vecchio però non troppo. Aveva una energia per parlare, per domandare cosa. Da dove vieni? Cosa fai? Cosa studia? Aveva energia per dicermi le cose buone. Sei un ragazzo inteligente. Fai un bel lavoro. Bravo, giovane. Aveva energia per dire le cose cattiva rispeto ai napolitani. Questi non hanno voglia di studiare come te. Siano tutti perdutti. Per questo Napoli non va. Un vero romano, questo vecchio e simpatico signore.
Ogni giorno, a mattina, io mi svegliavo a quello letto povero, con le vechie lenzuole. Penso oggi que il vecchi faceva questo come un piano... Cosi le ospede compravano lenzuole nuova e dopo laciavano questo a casa. Io non ho mai fatto questo. Haveva soltanto il soldi della borsa di studio e non voleva fare impiego di un centesimi in piu. Quindi non ho comprato lenzuole nuovi. Nemmeno durante il inverno. E quello inverno, credimi, ha nevicato a Roma. Due volte!
Quando sono arrivato, tutto mi dispertava un incanto, anche una certa invidia. Una casa grande. Piscina. Una stanza ampia e buona cosa da mangiare.
A mattina me ne andavo al laboratorio. Non ero proprio a lavorare con il modelli piccoli di navi. Ero al computer. Software con codici incomprensibili a gli umani normali.
Oggi sono lontano piu di quattro mile chilometri da quella vitta. Mi manca parlare con il vecchio. Pero ho anche paura. Un po di paura da quella vita. Perche aveva la casa. Aveva il soldi tutti. Aveva li gatti e anche un impiegatto nella casa per fare tutto lavoro piu pesante. Ma no lo se si era felice. Non aveva tutta questa voglia di trovare li amici. Non parlava benne della sorella.
Io era gia da questo latto del'oceano cuando una cosa terribile è sucessa. Uno dei gatti morio. Non ho mai sentito di una persona cosi triste. Ad un unico tempo a me è stata una storia bella e triste. Bello perche ogni persona doveva svilupare questa ligazione prossina con i gatti e con i cani. Pero anche triste, perche no lo so si qualcuno umano, si morto, poteva fare questo vecchi cosi triste come il gatto aveva fatto.
Oggi lo so che si amo qualcuno, questa persona à anche la che puo farmi piu triste. Ed è per questo, proprio per questo, lo so, che ho tutta questa paura di avicinarmi della gente che amo. Ed è anche proprio per questo che ho paura di, al fine della vita, avere vicino a me soltanti li gatti.
Penso che la vita sia qualcosa come il modo che scrivo in italiano. Piena di sbagli e cose strane, pero qualche senso c'e lai.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Que ideia idiota
Ter duas vidas pareceu uma coisa ótima. Ter o tempo em dobro. Ter amores em dobro. Ter conhecimento em dobro. Ter dinheiro em dobro.
Na prática, as coisas não se passam bem assim. Duas vidas incompletas. Afinal, é um mesmo gordo corpo que as compartilha, e um corpo que não dominou os milagres da multiplicação do tempo.
Habitat
Todos os dias ele acorda antes das seis da manhã. Faz tudo sempre igual. Vai à oficina de motos. Aguenta broncas e desaforos. Suja as mãos. Os braços. O cabelo. O rosto.
Com os anos, um fenômeno curioso: sua fala se foi.
Ele não fala mais. Apenas resmunga. É assustador ver que a vida o fez desistir de falar.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Setlist
Vou ouvir um pouco de Gammaray. E depois Chico Buarque. E depois Katy Perry. E depois algum forró. E música clássica. Não sei se é falta de critério ou excesso de claustrofobia.
Um ponto na reta do tempo
Mergulhadores encontraram esqueletos em um rio nos Estados Unidos. Esqueletos sentados em cadeiras. Chamaram a polícia e tudo, para ver se eram esqueletos humanos. Eu não imagino um esqueleto humano, em vias de deterioração, mantendo-se em posição de apreciar a paisagem. Mundo bizarro.
Fui até a biblioteca do departamento de física da universidade. Quem é que entende aquilo tudo? Selecionei pelo menos uns sete livros que eu adoraria conseguir entender. Folheei todos eles enquanto gastava um tempo depois do almoço. Abandonei-os na mesa e fui embora.
Um caminhoneiro resgatou uma mulher cujo carro havia capotado e a pediu em casamento. Casaram-se.
E eu aqui agora, na sala. Todos foram embora. Quinze monitores desligados. O barulho do ar condicionado. E não sei se ainda existe um mundo lá fora.
terça-feira, 5 de maio de 2015
Medindo forças
A humanidade se perguntando se a pena é mais forte que a espada.
E ninguém imaginou a força dos pequenos mosquitos.
Funcionário do mês
Certamente não seria Einstein, nessas universidades de hoje. O velhinho do cabelho branco não era de publicar muito, não é mesmo?
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Panelaço
As panelas não batem pelos professores.
As panelas não batem pelas empregadas.
As panelas são muito tendenciosas.
Consumista aconselha
Título: Ensaios da vida cotidiana
Autor: João Márcio
Conteúdo: pontos e mais pontos para pensar a vida, as pessoas queridas, aquela compreensão não verbalizável que você desconfiava mas nunca formalizou direito para si próprio e tantas outras coisas legais.
domingo, 3 de maio de 2015
No centro do mundo
Cento e setenta e seis quilômetros e nada a vista a além de soja e cerrado.
Vejo ainda de longe uma pequena casinha à beira da estrada. Uma espécie de bar, de restaurante. Algumas mesas sob um toldo improvisado. Não resisto e páro.
Puxo conversa. Descubro histórias. Veio de longe. Tem anos já. Não resisto e pergunto.
-E como foi que decidiu ficar aqui no meio do nada?
A resposta veio embrulhada no sotaque:
-Uai seu moço, mas é que meio do nada também é o centro de tudo, num é não?
Reflexo
O carro vai diminuindo a velocidade. Escondo o celular no console. Verifico se a carteira não está a vista. Vejo se tem alguém passando. Alguém passando dos limites.
sábado, 2 de maio de 2015
Grandezas
Talvez seja uma ordem natural da evolução intelectual ou talvez seja obra do acaso. Mas é fato que a matemática de redes demorou para surgir. Começou apenas há poucas décadas a tomar forma mais apropriadamente. Há um século e tanto atrás eram os físicos que eram copiados pelos economistas e por outros metidos a fazer ciência. Talvez se a matemática de redes, sua representação em grafos e afins, já existisse há tantos e tantos séculos, talvez então as ciências humanas seriam mais afetadas por ela do que pela tradicional estatística. Quais os parâmetros de rede mais comuns dentre aqueles que tendem ao alcoolismo? Dentre os que se suicidam? Hein, Durkheim?
O meu tio
-Eu ia lá visitá-los e ele tava sempre lá, nos fundos da casa. Tinha um barracão. Ele acordava cedo e ficava pintando esses vasinhos de cerâmica, sabe? Então era assim a vida dele. Ele nem precisava daquilo. Mas era o que gostava de fazer. Às vezes tava fazendo os vasinhos. Às vezes tava lá pintando. Recebia a gente sempre sorrindo. Depois ia lá, andando todo arqueado, e voltava para os vasinhos. Então eu não sei... Tem vezes que eu olho essa gente que trabalha e trabalha e trabalha, e fico me perguntando quando é alienação e quando é felicidade. Quando é aparência e quando é realização. E aí eu vejo que não adianta ter raiva do meu chefe porque ele manda e-mail de domingo. Não é que ele esteja certo... É que eu tenho mais é que fazer como o meu tio: cuidar da minha vida fazendo o que eu quiser, e pronto.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Nas cadeiras de metal enferrujadas
- Você é assim, né? Tem épocas que está muito feliz, e tem horas que está muito puto com a vida.
- Pois é. Sinto que perco o controle às vezes. Sinto um peso de tudo. Sinto-me longe de quem eu queria por perto. Sinto-me tomado demais pela presença de pessoas que eu não queria tão próximas assim. Não sei bem como lidar com isso tudo.
- Um bom Foda-se bem mandado sempre resolve esses problemas.
- E é esse mesmo o meu problema. Não consigo. Não sou assim. Quero resolver as coisas de outro modo. Não lido bem com a idéia de trazer um mal estar às outras pessoas, ainda que temporário.
- Mas aí tem que lidar com um mal estar permanente em você mesmo. E pior: um mal estar crescente. Você pode não ver, mas para mim isso é claro.
- É, é verdade...
- E aí, o que vai fazer?
- Sinceramente? Não sei ainda... Mas em breve, depois de ter feito, volto aqui e te conto. Mais uma cerveja?
Os livros que não escrevi
Qual o conjunto de viagens que você não fez, mas com as quais já sonhou?
Quais as coisas que você gostaria de já ter dito, mas nunca disse?
Que instrumentos musicais gostaria de tocar, mas nunca foi aprender?
Quais potenciais ficaram pelo acostamento, esquecidos, enchendo-se de musgo no limbo úmido do abandono?
Como foram os beijos que você gostaria de ter beijado, mas que nunca beijou?
Como são os livros que você gostaria de ter escrito, mas que nunca nem sequer começou?
Quais as mais belas fotos que você nunca tirou?









