quarta-feira, 28 de março de 2012

Mais exorcismos

Quantos fantasmas te assombram? Eu sou constantemente assombrado por medos diversos. Medos de fracassos. Medo de que certas escolhas não passem de uma escolha errada. Medo de perder um pouco desta coisa se escolher tentar também aquela. Você está me entendendo? Identifica-se com este tipo de situação?

Eu quero fazer outros cursos. Mas e se isso de alguma forma atrapalhar minha carreira?

E quanto ao livro que quero escrever, de onde vou tirar tempo para tocar este projeto?

Talvez eu, às vezes, tenha tempo livre demais para ficar pensando.

Talvez eu pense nas horas erradas.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Fútil

Não é que eu tenha um interesse desmedido pelo fútil. Mas entender a dinâmica dos interesses das pessoas é algo que ainda vai me ajudar a entender melhor, inclusive, o interesse pelo não-fútil.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Que venha a velhice!

De que importam as datas e as idades e os tempos? Corremos atrás desse roteiro imaginário. Sofremos nessa auto-avaliação estúpida. Mas o que importa? Vinte anos, a faculdade, o namoro... Um carro? Trinta anos, o trabalho, o casamento. Quarenta anos, a casa, os filhos. Que coisa mais sem sentido. As pessoas mais felizes que conheci descobriram alguma maneira de ignorar tudo isso. Que sorte a deles, que sorte! Vivem no ritmo próprio e tem a idade certa de viver aquilo que gostam. Estudos, filhos, casa, viagens, tudo isso ditado mais pelos conflitos entre possibilidades e vontades do que por checkpoints imaginários na quarta-dimensão. Tenho essa amiga, Rê, cuja vó, digo sempre com convicção, é ao menos vinte anos mais nova que ela própria. Milagre? Maternidades duvidosas na árvore da vida? Não não, diferença de atitudes mentais, só isso. Minha amiga Rê está sempre se distanciando de suas vontades pois luta para cumprir obrigações que não escolheu, ela própria, para si. A avó, por outro lado, tem como mais alta manifestação de sua lucidez uma capacidade incrível para esquecer seus quase noventa anos quando decide se aceita ou não um convite para o cinema, para visitar pessoas queridas ou para convidá-las a sua casa. O único critério é a vontade e o ânimo que se experimenta no momento. Coisa que deveria ser o critério para tantas outras decisões na vida. Quanto a mim, não quero ser sempre jovem. Quero envelhecer logo, amanhã já, daqui a pouco. Mas quero envelhecer como a vó da Rê.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Violinos e alfaces...

Ela era vegetariana e absolutamente contra a criação de ciclovias em São Paulo. Não que a associação entre esses predicados fosse óbvia, exceto para ela, que sempre os anunciava assim, justapostos, com uma naturalidade que só a certeza do óbvio pode produzir. Era romântica dos ursos de pelúcia rosa espalhados pelo quarto e apreciadora de cartas perfumadas. Não ia para o cinema se não fosse para assistir filmes como Velozes e Furiosos ou a trilogia de X-Man. Diversão é diversão, dizia ela. Para coisas sérias há outras ocasiões. Tocava violino em um conservatório desde os sete anos. Tinha a discografia completa do Reginaldo Rossi e adorava cantar garçon, aqui, nessa mesa de bar... nos videokês da cidade.

terça-feira, 20 de março de 2012

Coisas de estética

O que é que você quer de um livro? Eu fiquei chocado outro dia. Levei a uma amiga um livro sobre um cara que tinha dúvidas sobre a vida dos homens das cavernas e então decidiu passar, ele mesmo, um tempo vivendo em condições selvagens, em cavernas perdidas no mundo. E sem uma arma, sem uma lanterna ou pilha elétrica para o radinho ou o que quer que seja. Lá na última visita a casa dela, anuncia assim o livro a uma outra amiga:

- Ah, é um livro que o Adoniran me emprestou.

- Sobre o que é? É bom?

- É um cientista que tinha dúvidas sobre o modo de vida dos homens das cavernas e aí ele vai lá viver nas cavernas um tempo. Mas é muito chato, porque tem partes que fica descrevendo as cavernas em detalhes demais. Só interessa para metidos a cientistas, como o Adoniran mesmo. É meio chato!

Desculpe, desculpe... Não a obrigo a gostar do livro, claro. Mas há algo que se perdeu aí... Confesso, confesso: quanto ao livro em si, eu também achei a leitura muitas vezes pesada e pulei algumas partes. Mas isso não diminui em nada minha empolgação com relação à história como um todo, e mais anda, minha empolgação com relação ao feito desse cientista.

Acho que a apreciação das coisas humanas deve sempre olhar ao humano que está por trás da obra. O livro é uma pequena ondulação na superfície de uma realidade maior. Uma pequena parte do elefante, se preferir. Apreciar a arte pelo que ela contém em si, e nada mais, para mim parece uma espécie de consumismo cego. Nunca se trata da arte, apenas da arte. É uma coisa humana... há o contexto da vida emoldurando tudo. É por isso que eu me entristeço também em ver quem não sabe apreciar a música dos que estão a aprender música. Há pessoas que têm ouvidos apenas para as mais destacadas produções humanas da história. É um elitismo e, como todo elitismo, pobremente cego. Não vou mais desenvolver a idéia aqui. Este não é um ensaio acabado sobre o tema - não é nem um ensaio. Não é o melhor post da internet. É um texto sem chance de receber atenção daqueles que o inspiraram.

domingo, 18 de março de 2012

Das distâncias

Eu a conheci de forma totalmente inesperada. E fiz o que nunca havia feito antes... Depois de conversar um pouco no metrô, a caminho de casa, e esperar o ônibus com ela, na hora de dizer tchau a beijei. Beijo roubado. Eu não poderia deixar de fazer isso. Eu me sentia feliz. Eu me sentia feliz como não lembrava mais ser possível. Minha solidão profunda daqueles dias quase surreais havia se diluído naqueles olhares cheios de sorrisos, naquela vontade de rir de todas minhas infinitas idiotices ditas à toa. Ela entrou no ônibus e eu entrei em crise. Uma ótima nova amizade que se apresenta, e botei tudo a perder. Depois dessa atitude idiota, não vai mais falar comigo.

Mas falou comigo. E viajamos juntos. E nos beijamos algumas vezes. E dormimos juntos. E ela se encaixava tão perfeitamente no meu abraço. I could stay awake just to hear you breathing. Efetivamente, meu sono vinha uma ou duas horas após o sono dela. Fiquei idiota? Eu admirava a paz infantil do sonho dela. E ficava sem acreditar na ergonomia perfeita daquele corpo doce sobre meu braço esquerdo - quem quer que já tenha dormido abraçado a um par sabe das dificuldades que tenho em mente aqui. Era confortável estar perto dela, não só pela minha alegria exagerada, mas havia um conforto físico também.

Por onde ela anda agora?

Sente saudades?

O que importa, realmente, responder essas coisas?

Há distâncias na vida que a gente não controla. Mas, sendo honesto, esses ventos que a levaram são os mesmos que a trouxeram, e só posso ser grato.

terça-feira, 13 de março de 2012

sobre ser o que se é

...e quanto a aquela parte de nossa essência que existe sem que controlemos? Também é parte do que somos em nosso imaginário?

Gostamos de ser nossa criatividade, nossa imaginação, e mesmo nossos sonhos.

Mas quanto a coisas que não controlamos...

Raça, por exemplo. Um negro é negro. Mas reduzí-lo a isso, ou sequer mencionar esse fato (e, enquanto fato, nunca deixará de sê-lo) é hoje por mil razões um problema enorme!

Uma pessoa alta é uma pessoa alta. Fato. Mas esse fato, até que ponto se incorpora ao seu imaginário, ao seu orgulho de si? Mais que isso: até que ponto pode ser incorporado a sua lista de méritos?

Há outras existências incontroláveis porém talvez intermitentes.

Nossas raivas. Nossas raivas são intermitentes. As absorvemos como parte de nossa existência também?

E quando as palavras são assim incontroláveis também? Não escrevo quando quero, nem bem o que quero. Às vezes só tenho que escrever, e qualquer coisa e não importa. E é um alívio. Um alívio de brincar de qualquer coisa que não sou exatamente eu, mesmo o sendo...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

insight in sight

mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade se tão contrário a si é o mesmo amor?
tem um tempo de já são lá alguns anos que vez ou outra nuns alguns momentos me penso nesses versos e não sei nada entre amaldiçoar o amor ou só sentir saudade de amizades que nele se perderam...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Literatura em tempos de twitter

Recebi no meio da bagulhada toda que vem no e-mail:

Para pessoas muito ocupadas sem tempo para leitura, mas sem prejuízo de conhecer o conteúdo das obras

William Shakespeare
Romeu e Julieta

Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro. As duas turmas saem na porrada, uma briga fodida, muita gente se machuca. Então, um padre filho da puta tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era sonífero.
Fim.

Gustave Flaubert:
Madame Bovary.
778 páginas.

Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre.
Fim.

Leon Tolstoi
Guerra e Paz.

Paris, Ed.Chartreuse. 1200 páginas
Um rapaz não quer ir à guerra por estar apaixonado e por isso Napoleão invade Moscou. A mocinha casa-se com outro.

Fim.

Marcel Proust:
À La recherche du temps perdu. (Em Busca do Tempo Perdido)
Paris, Gallimard.
1922. 1600 páginas.
Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite.
No dia seguinte (pág. 486 vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág.1344, vol.VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos.
Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos - e pronto.
Fim.

Luís de Camões:
Os Lusíadas.
Editora Lusitânia
Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa super gente fina), ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas.
Fim.

William Shakespeare
Hamlet


Essa é foda.

Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que, entretanto, se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com uma caveira e morre assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado.
Fim.

Sófocles:
Édipo-Rei

Maluco tira uma onda, não ouve o que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, surge a psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos de cara em cada consulta. Parada muito doida.
Fim.

William Shakespeare
Othelo

Um rei otário, tremendo zé-roela, tem um amigo muito filho da puta que só pensa em fazê-lo de bobo. O malandro não ganha um cargo no governo e resolve se vingar do rei, convencendo o de que a rainha está dando pra outro. O zé mané acredita e mata a rainha. Depois descobre que não era corno, mas apenas muito burro por ter acreditado no traíra. Prende o cara e fica chorando sozinho.
Fim.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Sour times

Eu adoro ouvir Portishead... Especialmente de madrugada. Especialmente em madrugadas chuvosas, como essa... E deixo rolar, deixo tocando. Ainda bem que estou sozinho em casa, faz um bem danado a essa música. Ainda tem os copos de vinho espalhados pela sala, mas já foram todos embora. E estou no limiar de uma ressaca. Tudo, tudo para tornar a música perfeita.

Me jogo sobre o sofá mas entendo que não combina... Vai rolando Strangers, It could be sweet, e eu entendo que o sofá ofende a música... Vou para o chão, fico sentado num canto, olhando a penumbra da luz da rua invadindo a sala e um ou outro flash de relâmpago brilhando em tudo. Perfeito, perfeito!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Saudade cortando...

Eu queria tanto te ligar agora. Sabe o assunto? Qualquer coisa. Qualquer coisa. Você está aqui do lado e está longe. Um oceano era menos. Éramos mais perto. Agora não há oceano. Poucos quarteirões. Um logo ali. Mas entre duas vidas que divergem de repente há todo um mundo. Nos falamos tão pouco. Você sente saudade? Sente uma saudade desse tamanho todo? Lembro daquela vez que conversamos noite adentro em assuntos desembestados, sem rumo. Sabe o que pensei? Que eu poderia envelhecer ao seu lado e seria um prazer enorme. Tive uma certeza quase cruel de tão inegável sobre a natureza do que sinto. Maldita. Antes fosse mais fácil esquecer você. Parece um erro tão grande, agora, eu tentar esconder o que sinto. Não é mesmo? Mas o que vou fazer, afinal? O que vou fazer se não sou, e sei disso, a pessoa com todos os predicados que você procura? Não tenho o emprego, a formação, o status que você procura. Queria apenas ignorar essas dores todas de te ver partir para ser mais fácil me fazer presente vez ou outra. Continuar mentindo a você sobre nossa amizade. Você ficaria brava se descobrisse essa mentira? Uma mentira de assim tantos anos... Seria perdoável? Seria compreensível? Uma das coisas que você mais odeia é a mentira, não é? E essa? O que dizer dessa mentira?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Ah, os ciclos da vida...

"Chorar é semear
Rir é colher"

Obrigado, Maharal!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Das notícias

E aí eu senti as coisas mais em ordem no meu mundo. Me senti bem. É quase um egoísmo, essa felicidade pelos outros que me importam tanto assim.

domingo, 18 de setembro de 2011

Contas

Mergulho nas bibliografias de tantas outras vidas. A pobreza, o trânsito, o meio-ambiente, a felicidade econômica, a felicidade subjetiva. Uma vida dedicada a entender o mundo? Meu tempo se vai indo e não consigo me comover por posses além das minhas humildezas. Sem carro nem casa nem isso nem aquilo, sou de repente um baita de um infeliz que teima em ser feliz e não consegue outra coisa além de continuar curiosando assuntos por aí. Há muito mais que fazer na vida além de ficar tentando ganhar dinheiro, não é mesmo? E um dia cairei morto num canto. Que terá ficado? Muito cedo para pensar nisso? Muito tarde para desapegar das ambições rasteiras que insistem em apurrinhar essa e aquela comparação? Os amigos se vão todos sendo levados para uma outra classe social, desejo-lhes boa viagem.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Mi menor


Sinto a música como não a sentia antes. Sinto a música entrando nos menores capilares, trepidando os nervos de dentro pra fora. Não, não foi a Jacqueline DuPre que mudou. É uma gravação. A mesma gravação de dez anos atrás. Dez anos! E, hoje, é como se eu nunca houvesse ouvido essas músicas antes. Uma completa novidade. Os violinos de fundo. As singelas percursões em um ou outro ponto, nada mais. Uma batida de tímpano, bem ali, ouviu? A orquestra toda. Escuto, escuto a música em meu quarto escuro, pequeno, seco e empoeirado. Mas estou longe daqui como nunca estive. Escuto apenas e nada mais. Mas, pela música, vejo cada instrumento e instrumentista bem diante de mim, três dimensões, realidade virtual, realidade completa. Estou encantado.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sociedade hipócrita

Existem hoje em dia diplomas para aqueles que desejam explorar sem escrúpulos nem piedade justamente os que mais precisam de ajuda. Os diplomas vêm, é claro, com títulos acima de qualquer suspeita: médico, psicólogo...

Bairro aqui já na periferia... Telefonei... R$150,00 A CONSULTA com um psicólogo.

A CONSULTA!

Se esse cretino fizer três consultas por dia... ou seja, sentar a bunda escrota dele naquela poltrona idiota para ouvir o sofrimento alheio por míseras três horas... Vai embolsar 450 reais! Arredondando para 23 dias de trabalho no mês, isso dá um salário de 10300! Ah, os custos da clínica, claro, claro... Tiremos 2000 de aluguel+luz+etc e mais uns 800 pra mocinha da recepção... Sobrou só 7550 pra esse crápula.

Vamos lá... Vamos a uma versão mais atual e pertinente do juramento de Hipócrates... Juramento que todos os médicos atualmente recitam ao se formarem, ainda que apenas em seu íntimo:

Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higeia e Panaceia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, mediante pagamento que me apeteça os instintos, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens, desde que antes ele partilhe comigo os seus; ter seus filhos por meus próprios irmãos, de quem posso demandar heranças em momento oportuno; ensinar-lhes esta arte porém não permitir que a usem contra mim, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, e com remuneração e sempre com compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.

Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder, entendimento e benefício, nunca me responsabilizando por causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei de graça, por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva às vistas da lei.

Conservarei imaculada minha vida e minha arte.

Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam, a fim de evitar responsabilidades desnecessárias.
Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o voluntário que ouse ajudá-los sem demandar justo honorário, e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.

Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar para justificar meu lucro, eu conservarei inteiramente secreto.

Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Amém

"Deus escreve certo por madrugadas tortas."

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Quebrando as pernas

- Eu sei que o nosso namoro não é para sepre, mas o que eu sinto é...

sábado, 9 de julho de 2011

Indo embora

Conversar comigo mesmo, é isso que quero. Mas não, não me dou ouvidos no momento. Está tudo se bagunçando, uma entropia irresistivelmente almentando, inflando meus sonhos gigantes expansivamente pra longe, longe e longe, e onde é que eu fico no meio de tudo isso? Vem aqui aquela lembrança da voz doce, do olhar delicado emoldurado pelo sorriso mais leve e penetrante que já vi. E a lembrança se eteriza eternamente entrando num pra sempre até jamais.

domingo, 3 de julho de 2011

Os sonhos nas garrafas

Clarissa estava atordoada com a vida. Decidiu, para acalmar-se, engarrafar seus sonhos e anseios. Assim o fez. Sentou-se então em sua poltrona e ficou a mirar a estante. Garrafinhas várias brilhando ali suas imaginações e sonhos dos mais desconexos. Percebeu que seria impossível organizar a estante de uma maneira coerente, incoerentes entre si que são as coisas que queremos. Enciumada e narcisística, afugentava a todos que ameaçavam se aproximar. Passou a evitar visitas. E se alguém derruba uma garrafa e a quebra? Impensável.

Anos se passaram e Clarissa morreu em sua poltrona. Seus sonhos permanecem intactos como da primeira vez em que foram sonhados. Pelos vidrinhos transparentes, iluminam o corpo de Clarissa que, feliz, apodrece ali, velando a existência que nunca aconteceu.

sábado, 25 de junho de 2011

O plano

Não, o plano não era o de criar um segredo assim tão intrincado e delicado. O plano consistia em mudar a própria realidade, fazer com que uma mentira se tornasse uma verdade. Quis viver em um outro mundo. Falhou. Só tem esse. Minha mentira é, ainda hoje oito anos depois, uma mentira. A verdade ainda é algo com a qual não sei viver em paz.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Heterônimo no divã

Às vezes é extremamente difícil estabelecer contato com alguém.

Especialmente quando você, pripriamente dito, não existe.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Saudades diferentes


Estava lendo aí um blog próximo e tive como surpresa a visão do grau de saudade desmedida que a pessoa sentia de si mesma. Vai um pequeno trecho, com o perdão de qualquer indiscrição:

"Estou mais calada e pensativa do que de costume. Só consigo ficar ouvindo música, lendo... o silêncio e o não fazer nada me incomodam. Tenho sono quando eles acontecem..."

Mais calada do que de costume. Calada para si? Calada para os outros? Ambos?

Certas respostas nos faltam e por vezes vira uma falta de ar danada essa procura por respostas. O sentido de nossas ações, acerto de nossas escolhsa, importância para o mundo...

Há, penso, alguma sabedoria por trás dessas doutrinas que insistem numa espécie de desligar. Quando a pergunta é perturbadora demais e mostra-se um beco sem saída pode ser prudente pertuntar-se também se o primeiro questionamento é válido. Podemos mudar nossos humores, e efetivamente o fazemos o tempo todo sem nos darmos conta.

Alguns criticam uma visão excessivamente materialista do mundo por ser fria e calculista demais... Um universo sem criador, sem objetivo, uma existência sem razão. Para mim não há nada mais libertador e romântico. Sabendo que o sentido e a liberdade está em nós mesmos a felicidade mostra-se por fim mas próxima, não mais distante e impossível.

Dia desses eu me desesperei. Precisava loucamente viajar. Ásia europa ou eua, tanto faz. Fozzo pronde fosse, eu precisava viajar. Sair daqui pra longe deixando para trás minha vida toda, minhas angústias todas, meus anseios todos.

A caminhada foi muitíssimo mais modesta, no fim das contas. Caminhei lá pelo parque Tuiuti, Tatuapé. Não teve aeromoça, não paguei Albergue. Mas no desenrolar da tarde observei esse curioso fenômeno. Onde quer que eu fosse, lá dentro do parque, buscar meu sossego, eu ia junto. Entende? Eu e meus desassossegos: indissociáveis. Percebi que se eu fosse para o Himalaia invariavelmente levaria também esse mundo de questões pesadas comigo e só havia uma saída: livrar-me delas aqui mesmo. Feito isso, não precisava mais viajar. A paz estava de repente em todo lugar!

sábado, 18 de junho de 2011

Dia-a-dia

Emputeci assim que li a mensagem. Birra, criancice. "Ainda bem que perguntei. Ninguém vai ter tempo pra aparecer, nem meu namorado". Birra. Ligue e diga que quer que eu apareça. Tente entender porque eu disse que não iria. Fiquei furioso. Não com a tristeza ou com a carência dela, mas com a atitude. Minha fúria seria uma face trepidante de minha falta de amor? Não importava. As coisas não se misturavam. Estava emputecido e pronto. Liguei. Caixa-postal. Liguei de novo. Outra vez. Várias. Desligado. Maldita. Fui até lá. Ao abrir a porta e ver uma fúria em meus olhos que não sei medir aqui, chorou, tremeu. Arrependimento. E eu, quem disse que eu sabia lidar com isso? Não sei se estou cultivando uma fraqueza ou se estou ajudando a superá-la. Quando é que vou saber? Como é que vou saber?

terça-feira, 14 de junho de 2011

Amorologia comparada

Curiosas certas reportagens que estão hoje no G1. Enquanto algumas pessoas apelam para que Santo Antônio lhes arrume um novo amor, há também a notícia de uma jovem que estava procurando algum matador de aluguel a quem pudesse pagar para se livrar do amante. Isso tudo deve dizer algo sobre o amor. Algo a que imploramos com sede divina quando nos falta e que apelamos aos despudores dos infernos quando sobra... Isso deve querer algo. Sobre o amor e sobre nós. Somos hipócritas, para dizer o mínimo. E deus é um descuiodado, por atender vez ou outra a pedidos tão perigosos.

domingo, 12 de junho de 2011

Mares afins

Eu não fui sincero e pagarei por isso o resto da vida. Você poderia ter sabido e aí tomaria sua decisão, esclareceríamos tudo e pronto, caso encerrado. Tive medo de te perder e, ao me esconder, te perdi de mim. Malditas simetrias da vida. Foi culpa do Oceano todo, se enfiando onde não devia? Não... lá longe você estava mais perto; a saudade era mais forte. Aqui, vizinhos de novo, sou mais repulsivo até. sou menos. Sou o mesmo e só. Segue tua vida. Com sorte, ainda te esqueço.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Janaína, querida

Be miserable. Or motivate yourself. Whatever has to be done, it's always
your choice.

Wayne Dyer

Por que é que eu me importo com você? Você cai no choro, eu mergulho na preocupação. Não deveria ser assim, não é? Preciso de uma certa medida de egoísmo que no momento me falta. Me falta mas ainda vou atrás dela. Eu preciso aprender a te mandar pro inferno. De repente você nem vai pra lá, mas subentende-se que ficará autorizada a ir onde quiser, estamos conversados? Eu não posso ser o combustível de seu sorriso. Há algo mais mágico que se pode fazer num relacionamento, que é quando os dois sorriem se abastecendo ao invés de se consumirem. Preciso deixar que em suas lágrimas você consuma a sua paz, não a minha. Só assim talvez você se incomode o suficiente a ponto de pensar em mudar. Pode não acontecer, mas a escolha é sua e eu não posso fazer mais nada a respeito.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Continuum

Não sofro hoje: ecoam sofrimentos do passado.

O futuro não esconde riscos: decido agora onde me enfiar ou não.

Essas ligações todas no tempo, respeitemos, respeitemos!

Que dificuldade patética é essa de ver que os dias se ligam com cabos de aço e se arrastam velozes com a inércia do universo inteiro?

Não confunda com fatalismos, é o contrário disso. Quero que entenda não a irreversibilidade de certas coisas; apenas veja o descompasso dos sofrimentos e espectativas.

Colocamos no presente sofrimentos que melhor viveriam somo receios bem pensados lá no distante passado. Antecipamos no aqui e agora do encher e esvaziar de nossos pulmões alegrias desmedidas que melhor poderiam ficar para depois, sobre alicerces mais firmes. Deveríamos evitar essas distrações e nos concentrarmos no próprio alicerce.

No fundo, somos todos hipócritas esplendorosos. Reclamamos e sofremos infantilmente por um suposto caos incontrolável da vida: doído mesmo é que a vida é determinista demais, não é mesmo? Nossos erros não somem no vento, nossas distrações não tropeçam em sucessos, nossos amores não evaporam em esquecimentos.

Quando eu me acovardar e aceitar algum religiosismo, ao menos saberei que já fomos todos julgados e, acorrentados em nosso livre arbítrio, estamos todos condenados a sermos nós mesmos eternidade afora.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Vou me mudar

Eu quero sair desta casa. Quero sair desta vida. Quero sair do meu emprego. Quero sair do meu namoro. Porque nessas coisas todas há sempre algo que não sou eu. Leio um livro manso sobre o cobertor no meu quarto. Familiares debatem contra a paz dominical os problemas de São Paulo, das ruas. Ótimo, estão debatendo, é saudável! Quero ser errado aqui, serei: saudável uma pinóia. As opiniões são rasas, preconceituosas e desinformadas. E não bastasse toda essa falta de subsídio mental note-se que a prática também é sofrida. São debates mal dialogados. Pergunta-se uma coisa de um lado, questiona-se outra do outro. Toma-se a consideração por ofensa e tudo foi destruído. Existir é tão difícil.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Eu bem que queria

Aconteceu hoje de um acaso trazer desses convites que a gente não quer recusar de jeito nenhum. Uma vaga para morar com ela. Não, não minha namorada, nem minha amante. Uma pessoa que admiro muito e por quem tenho estima. Mas são tantos os impedimentos momentâneos... o custo é maior que meu custo atual de morar aqui sem companhias notáveis. E eu tenho uma namorada, que não veria com bons olhos essa movimentação estranha. A vida tem uns entraves, não é mesmo?